Pássaro da Tempestade

Conn Iggulden · Capítulo 36 de 43

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Pássaro da Tempestade

Capítulo 29

 

Ricardo Neville sentia sangue espirrar na bota da armadura a cada passo. Achava que o corte debaixo da proteção da coxa não era tão grave assim, mas ser forçado a continuar andando fazia com que o sangue ainda escorresse, encharcando as calças e manchando de vermelho e preto o metal oleoso. Ele sofrera o ferimento quando seus homens atacaram a praça diante do Guildhall, massacrando os atacantes bêbados. Warwick vira a falta de resistência e praguejara contra si próprio por baixar a guarda tempo suficiente para que um dos corpos deitados de bruços enfiasse uma faca entre as placas da armadura quando estava em pé acima dele. Cade já havia partido, é claro. Warwick vira o resultado do “julgamento” nos traços roxos de lorde Say, pendurado debaixo da viga onde o tinham enforcado.

Sentia como se tivesse lutado eternamente na chuva e no escuro e, quando o sol surgiu, ficou tentado a encontrar um lugar para dormir. Seus homens cambaleavam de exaustão, e ele não se lembrava de ter se sentido tão cansado em toda a sua jovem vida. Simplesmente não conseguia manter o passo num bom ritmo, nem mesmo para seguir as hostes de homens de Cade que usavam a luz cinzenta anterior ao verdadeiro amanhecer para avançar mais uma vez pela cidade.

Warwick praguejou novamente ao chegar à entrada de outra rua silenciosa. Após a chuva, a umidade vinda do rio enchera algumas ruas de espessa neblina. Ele só podia contar com a audição para lhe dizer que a rua estava vazia, mas, se houvesse homens aguardando em outra emboscada silenciosa, sabia que cairia diretamente nela.

Seus soldados ainda estavam entre as maiores forças de homens do rei na cidade. A armadura e a cota de malha salvaram muitos deles. Ainda assim, Warwick tremeu com as lembranças sombrias dos loucos de Kent atacando-os de três ou quatro lados ao mesmo tempo. Perdera 180 homens mortos em combate e mais de uma dezena feridos demais para prosseguir com ele. Permitira que os homens mais gravemente feridos entrassem em casas, gritando seu título e o nome do rei e depois simplesmente chutando a porta se ninguém ousasse responder.

Londres estava aterrorizada; ele podia sentir o terror como a névoa que se esgueirava pela armadura e se misturava ao sangue e ao suor de uma noite em claro. Vira tantos corpos que era quase estranho passar por uma rua sem seu complemento de cadáveres. Muitos deles eram soldados com libré, usando as cores de algum lorde no escudo ou nas túnicas emplastradas sobre a cota de malha ensanguentada. O orvalho da noite se congelara sobre alguns, que cintilavam e faiscavam como se estivessem num esquife de gelo.

Warwick estava furioso com frieza: consigo e com o rei Henrique por não ficar e organizar a defesa. Meu Deus, parecia que, afinal de contas, York estava certo. O pai guerreiro do rei teria aparecido cedo e atacado com violência. Henrique de Azincourt enforcaria Cade ao amanhecer, isso se os rebeldes tivessem conseguido entrar na cidade. O velho rei transformaria Londres em fortaleza.

Esse pensamento fez Warwick parar no meio de uma rua de açougueiros. A imundície sob os pés era quase toda rubra, espessada por cerdas de porco e retalhos de ossos e carne podre. Seu nariz se acostumara a pisar nessas coisas, mas essa rua específica tinha um fedor acre que quase ajudava a desanuviar a cabeça.

Os homens de Cade espalhavam a leste e ao sul. Era verdade que a ponte ficava naquela direção, mas também a Torre e a jovem rainha abrigada no interior de suas muralhas. Warwick fechou os olhos por um breve instante, louco para encontrar um lugar onde sentar. Podia imaginar com muita facilidade o alívio que inundaria os pulsos e os joelhos caso se permitisse parar. Só de pensar nisso, suas pernas cederam, e teve de travar os joelhos com esforço.

Na luz crescente, os homens mais próximos o fitavam, os olhos inchados, os ferimentos atados com panos imundos. Vários tinham envolvido as mãos onde pequenos ossos do pulso ou dos dedos haviam se quebrado. Estavam desgrenhados e miseráveis, mas ainda eram seus, leais a sua casa e a seu nome. Warwick se endireitou, reunindo força de vontade com um imenso esforço.

— A rainha está na Torre, cavalheiros. Quero ver se está a salvo antes de descansarmos. O dia chegou. Haverá reforços esta manhã, trazendo o fogo e a espada para todos que participaram. Então haverá justiça.

A cabeça de seus soldados baixou quando entenderam que o jovem lorde não lhes permitiria parar. Nenhum deles ousou erguer a voz para reclamar, e continuaram avançando na neblina, contemplando-a com olhos injetados enquanto ela se agitava em volta.

Margarida tremeu de frio, olhando porta de entrada da Torre Branca. Seu campo de visão era bloqueado pelas muralhas externas, e não era possível ver muito além do resultado dos combates noturnos em volta de sua fortaleza de pedra. A neblina começara a se esgueirar pelos corpos que jaziam no chão lá embaixo, movendo-se aos espasmos da brisa. O dia a faria se evaporar, mas, por algum tempo, a névoa rastejou sobre os mortos, misturando-se a eles e transformando-os em meros calombos e elevações na brancura.

Havia sido uma noite de terrores à espera de que os homens rudes de Cade entrassem à força. Ela fizera o possível para demonstrar coragem e manter a dignidade, porém os soldados na torre ficaram igualmente nervosos espiando a escuridão, esforçando-se para identificar cada som.

Margarida baixou a cabeça e fez uma oração pelo capitão Brown, que agora jazia cego e imóvel onde caíra em sua defesa. Sua visão do combate acontecera em borrões e lampejos de luar, uma testemunha paralisada de sombras que corriam e berravam e um choque constante de metal como uma voz sussurrante.

A voz se calara com o passar das horas, substituída por ruidosas conversas e gargalhadas dos homens de Cade. Quando o sol subiu, ela viu os seguidores dele enlouquecerem, arrombarem a Casa da Moeda e saírem cambaleantes sob o peso de tudo o que conseguiam carregar. Ouvira a turba uivar de prazer e vira moedas de ouro e prata se derramarem tão descuidadamente quanto a vida de homens, rolando e girando sem atenção nas pedras.

Houve um momento em que um deles parou e ergueu os olhos para a torre, como se pudesse vê-la em pé, oculta nas sombras da porta. Fosse quem fosse, o homem tinha a cabeça e os ombros acima dos que o cercavam. Então Margarida imaginou se seria o próprio Cade, mas o nome que rugiu em seus pensamentos foi gritado nas muralhas e o grandalhão correu para receber seu chefe. O sol estava no céu e a torre resistira. Ela deu graças por isso.

Então outros passaram pelas muralhas externas para fitar a Torre Branca. Margarida conseguia sentir o olhar deles se esgueirando sobre a torre até ela, dando-lhe vontade de se coçar. Se tivesse bestas, seria a hora de ordenar seu uso, mas esse tipo de arma jazia nas mãos mortas no chão lá embaixo. Era estranho olhar de cima os inimigos que haviam atacado a cidade e ser incapaz de fazer qualquer coisa, embora eles estivessem ao alcance e andassem como se fossem donos das terras a sua volta.

Enquanto o sol superava a altura das muralhas externas, inundando a Torre Branca com uma luz dourada, eles partiam em marcha, levando o butim e deixando para trás os mortos para os corvos da Torre os bicarem e despedaçarem. A neblina se dissipava, e Margarida encostou o corpo no portal gelado, fazendo um dos guardas estender a mão nervosa para evitar que ela caísse. Ele se conteve antes de tocar a rainha, e ela nem notou o movimento, a atenção atraída pelo tilintar de homens de armadura que entravam pelo portão arrombado.

Foi com uma estranha sensação de alívio que reconheceu Derry Brewer à frente de um pequeno grupo. Quando ele avistou os corpos e passou a correr com dificuldade, ela viu como estava imundo, respingado até as coxas com todo tipo de lama sórdida. O espião-mor seguiu direto para a base da torre, ficou em pé na madeira destruída das escadas e ergueu os olhos para o portal.

Margarida avançou para a luz do sol e poderia ter abençoado Derry pelo ar de alívio no rosto dele quando a avistou.

— Graças a Deus — disse ele em voz baixa. — Os homens de Cade estão indo embora da cidade, milady. Fico contente em vê-la bem. — Derry olhou em volta. — É difícil imaginar um lugar mais seguro em Londres neste momento, mas imagino que a senhora esteja cansada desta torre, pelo menos por hoje. Se me permitir, mandarei os homens buscarem escadas ou construí-las.

— Desçam-lhe uma corda — ordenou Margarida aos soldados que se aglomeravam atrás dela. — Enquanto dão um jeito de me descer, Derry, você pode subir.

Ele não questionou a ordem e só gemeu baixinho, sem saber se teria forças. No fim, foi preciso que três homens puxassem a corda no alto para que chegasse à beirada e conseguissem içá-lo. Derry ficou deitado no chão de pedra, ofegante, incapaz de se levantar até que os guardas o ajudaram. Tentou fazer uma reverência e quase caiu.

— Você está exausto — comentou Margarida, estendendo a mão para pegar seu braço. — Vamos, entre. Há vinho e comida suficientes.

— Ah, isso seria muito bem-vindo, milady. Não estou em minha melhor forma, admito.

Meia hora depois, ele estava sentado numa sala no interior da torre, enrolado num cobertor junto ao fogo e mastigando fatias gordas de presunto curado enquanto resistia ao impulso de dormir. Lá fora, o barulho de martelos revelou que lorde Scales se ocupava construindo degraus improvisados. Alguns homens de dentro já haviam descido para ajudar no serviço. Derry ficou sozinho com a jovem rainha, que o observava com grandes olhos castanhos que não deixavam passar nada.

Margarida mordeu o lábio com impaciência, forçando-se a esperar até que ele saciasse a fome e arrotasse no punho fechado, o prato de presunto bem limpo. Precisava saber ao que Derry assistira à noite. Talvez antes precisasse lhe deixar saber o que havia sido feito por ela.

— O capitão Brown era um homem bom e corajoso — declarou Margarida.

Derry ergueu os olhos atentamente, vendo a palidez insólita do rosto da rainha, o medo e a exaustão ainda visíveis.

— Eu o conhecia bem, milady. Sinto muito em saber que não sobreviveu. Foi uma noite difícil para todos.

— Foi. Bons homens morreram em minha defesa, Derry. E ainda estou viva. Ambos sobrevivemos... e o sol nasceu.

A voz dela se firmou e pôs de lado o pesar e o cansaço para outra ocasião.

— Quão boas são suas informações de hoje, mestre Brewer? — perguntou ela.

Derry se endireitou na cadeira, espantado com a formalidade e entendendo que era um chamado ao dever. Teve de se forçar a não gemer quando cada osso e cada músculo emitiu alertas com o movimento.

— Não tão boas quanto eu gostaria, milady. Sei que Cade marchou de volta à ponte e a atravessou. Tenho homens de olho nele, prontos a correr de volta a mim se algo mudar. Por hoje, imagino que ficará em Southwark para descansar e contar a pilhagem. — A voz dele ficou amargurada ao falar. — Mas voltará hoje à noite, não duvido. Esse é o cerne da questão, milady. Esse é o espinho. Não tenho a contagem de homens que perdemos, mas, pelo que vi e escutei, restam poucos soldados em Londres. Não temos mais que algumas centenas, talvez mil homens no máximo, daqui até a muralha a oeste. Com sua permissão, mandarei mensageiros convocarem todos os cavaleiros e homens de armas ao alcance para hoje à noite.

— Será suficiente? — quis saber ela, olhando as labaredas na lareira.

Ele pensou em mentir para animá-la, mas não havia por quê. Balançou a cabeça.

— Os lordes do norte têm exércitos para esmagar Cade e meia dúzia iguais a ele, mas não os alcançaremos a tempo. Os que podemos... bem, não são suficientes, não se ele voltar hoje à noite.

Margarida sentiu seus temores aflorarem com o desespero que viu nele. Derry nunca desanimava por muito tempo, ela sabia disso. Sempre se recobrava ao levar um golpe nas costas. Ver seu desamparo era quase mais assustador do que os sombrios assassinatos da noite anterior.

— Como é possível? — perguntou ela num sussurro. Talvez fosse uma pergunta que não quisera fazer em voz alta, mas Derry deu de ombros.

— Éramos poucos numa área grande demais, ou a agitação foi ampla demais para ser contida. Milady, não importa o que aconteceu antes. Estamos aqui hoje e defenderemos Londres esta noite. Acho que a senhora deveria sair da cidade e ir para Kenilworth ou para o Palácio de Greenwich. Posso mandar que tragam barcos antes do meio-dia para levá-la. Saberei que a senhora está a salvo, aconteça o que acontecer.

Margarida hesitou uma fração de segundo antes de fazer um gesto negativo com a cabeça.

— Não. Ainda não chegamos a isso. Se eu fugir da cidade, antes de amanhã esse tal Cade estará se declarando rei... ou talvez lorde York o faça no dia seguinte, caso ele esteja por trás disso.

Derry olhou atentamente a jovem rainha, perguntando-se até que ponto ela entendia a fila de ameaças contra sua família.

— Caso a mão de York esteja em alguma parte desse ataque, ele foi mais sutil que nunca, milady. Não me surpreenderia se houvesse agentes trabalhando em seu nome, mas sei com certeza que o homem ainda está na Irlanda.

A voz dela estava baixa e insistente quando respondeu, aproximando-se para o caso de serem entreouvidos.

— Sei da ameaça, Derry. Afinal de contas, York é o “herdeiro” real. — Inconscientemente, sua mão mergulhou para acariciar o ventre. — Ele é um homem sutil, Derry. Não me surpreenderia que tomasse o cuidado de se manter afastado, sem se sujar, enquanto seus leais seguidores derrubam meu marido.

Derry piscou devagar, lutando contra o cansaço e o calor que chamava o sono, bem na hora em que precisava estar atento. Ele a viu pensar, próximo o suficiente para observar as pupilas da rainha se contraírem e depois se dilatarem.

— Vi quando levaram o ouro recém-cunhado — comentou ela, fitando o nada —, ontem à noite e hoje de manhã. Os homens de Cade encontraram muito mais do que jamais imaginaram pilhar. Hoje ficarão contando e comemorando, sabendo que jamais voltarão a ver tanta riqueza.

— Milady? — questionou Derry, confuso. Ele se sentou mais ereto e esfregou o rosto, sentindo os calos nas mãos.

— Eles não sabem como estamos fracos, como a defesa se tornou frágil. Eles não podem saber. — Ela inspirou fundo, tomando a decisão. — Vou lhes mandar o perdão por todos os seus crimes, na condição de que se dispersem.

— O quê? — perguntou Derry, chocado.

Ele começou a se levantar da cadeira, mas a rainha pressionou a mão em seu ombro. Derry a olhou com descrença. Combatera os homens de Cade numa noite que havia durado uma eternidade, e agora ela perdoaria todos eles, deixaria que voltassem para casa com ouro real no bolso? Era loucura, e ele procurou a maneira menos ofensiva de lhe dizer isso.

— O perdão, Derry — repetiu Margarida, a voz firme. — Total, por escrito, entregue a Jack Cade em seu acampamento em Southwark. A oportunidade de pegarem o que conquistaram e partir. Diga-me outra opção que obtenha o mesmo resultado. Eles podem ser rechaçados?

Derry a olhou.

— Poderíamos destruir a ponte! — exclamou ele. — Há pólvora no arsenal aqui, a menos de 15 metros de onde estamos. Com barris suficientes, posso demoli-la. E então, como eles atravessariam?

A jovem rainha francesa empalideceu um instante, pensando na sorte que tivera quando os desordeiros não encontraram o paiol de pólvora e não a usaram. Deu graças em silêncio e então, após algum tempo, balançou a cabeça.

— Isso só provocaria outro ataque. Se tivéssemos um dia livre, talvez conseguisse derrubá-la, mas Cade atravessará de novo no momento em que vir barris sendo rolados pelas ruas. Escute-me, Derry. Todos os homens que entraram em Londres merecem a forca, mas quantos morreram ontem à noite? Milhares? O restante imaginará outra noite como essa e pensará na riqueza que já ganharam. Alguns deles... queira Deus, a maioria deles quererá igualmente ir para casa. Vou lhes dar a oportunidade de partir. Se recusarem, não perdemos nada. Se aceitarem a oferta, salvaremos Londres.

Margarida parou, esperando a concordância dele e vendo apenas vazio.

— Ou prefere que voltem para outra noite de estupro e matança? — continuou. — Ouvi o que conversaram, Derry. Sei o que fizeram. Monsieur, desejo com todas as fibras do coração vê-los punidos, mas, se houver outra saída, não a conheço. Portanto, o senhor me obedecerá nisso, mestre Brewer.

Derry ainda fitava com espanto a fúria ponderada que via quando sua atenção foi afastada por gritos fora da torre. Margarida também ergueu os olhos com uma expressão de medo súbito. Seu coração se condoeu por ela, e ele se pôs de pé com esforço.

— Vou ver o que é, milady. Lorde Scales é um bom homem, não se preocupe.

Derry deixou de lado o cobertor para não aparecer à porta da torre como uma velha assustada enrolada num xale. Saiu ao sol e, quando olhou para baixo, viu Scales discutindo com Warwick, ambos apontando a torre. Derry sentiu os pensamentos se agitarem entre as orelhas. Encostou-se na porta, olhando os dois com o máximo de despreocupação que conseguiu reunir.

— Bom dia, milorde Warwick. Vejo que sobreviveu, graças a Deus. Antes tarde do que nunca, hein?

Warwick olhou para cima, a expressão se tornando sombria ao avistar Derry sorrindo para ele lá no alto.

— Quero ver a rainha, mestre Brewer. Quero ver com meus próprios olhos que ela está ilesa.

— Como desejar, milorde. Devo lhe jogar uma corda ou o senhor prefere esperar a escada?

— Era exatamente o que eu estava dizendo... — começou lorde Scales com indignação.

Warwick olhou os dois enraivecido, mas era jovem e não ligava para o que seria uma indignidade para um homem mais velho.

— Corda, Brewer. Imediatamente, se me faz o favor.

Derry desenrolou a que ele mesmo usara. Viu Warwick subir com velocidade surpreendente, sentindo-se contente porque o jovem conde não estava presente quando os soldados o içaram como um saco de carvão. No momento em que Warwick se pôs de pé na soleira da porta, Derry sumiu de volta para os cômodos mais quentes lá dentro. Chegou à rainha poucos metros à frente do homem que vinha atrás.

— Vossa Alteza Real, é meu prazer anunciar Ricardo Neville, conde de Warwick — anunciou Derry, fazendo Warwick parar de repente ao ser forçado a fazer uma reverência. — Quanto à questão que estávamos discutindo, é claro que sou seu criado obediente. — Ele fitou-a média distância enquanto falava. — Cuidarei disso imediatamente, milady.

Margarida o dispensou com um gesto. A importância do nome Neville não lhe passara despercebida, mas havia guardas ali perto e ela não sentiu medo de enfrentar um rapaz tão surrado e exausto. Derry se retirou, seguido no corredor pelo olhar desconfiado de Warwick.

— Como vê, estou a salvo, lorde Warwick. O senhor consegue ficar de pé ou gostaria de uma cadeira ou algo para comer ou beber? Parece que serei enfermeira esta manhã, do senhor e talvez de Londres.

Warwick aceitou, agradecido, satisfeito ao ver a jovem rainha ainda no domínio do bom senso e da dignidade após uma noite daquelas. Em geral, não se sentia à vontade na presença de mulheres, preferindo a conversa franca dos homens de sua condição. Mas estava cansado demais, até mesmo para ficar sem graça. Com um gemido sufocado, sentou-se, começando o relato dos eventos da noite conforme os criados preparavam novas fatias de presunto e cerveja fria para mitigar a sede do lorde. Margarida escutou com atenção, interrogando-o somente quando Warwick titubeava ou não era claro. Ele mal notou como seus modos conquistaram a simpatia da rainha, enquanto o sol continuava a subir sobre a Torre.