Pássaro da Tempestade

Conn Iggulden · Capítulo 25 de 43

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Pássaro da Tempestade

Capítulo 19

 

— Não entendo o que está dizendo! — retorquiu Margarida, levada à fúria. — Por que essa conversa sobre graus e arcos e sombras? É doença ou não? Preste atenção. Há vezes em que Henrique fala com clareza, como se não houvesse nada errado. Há outras vezes em que fala sem nenhum sentido, como uma criança. Logo algo muda e seus olhos ficam vazios. Entendeu? Dura minutos, horas e até dias, então ele revive e meu marido volta a me olhar! Esses são os sintomas, mestre Allworthy! Que erva tem em sua sacola para isso? Essas histórias de fluxos e... planetas não lhe dão nenhum crédito. Devo fazer meu marido se mudar de Londres, se o ar daqui traz tamanha mácula? Pode responder ao menos isso, se não pode tratar o que o ataca?

O médico do rei se fechara, o rosto cada vez mais rubro a cada palavra que Margarida dizia.

— Vossa Alteza Real — começou mestre Allworthy, muito rígido. — Dosei e purguei o rei. Ministrei-lhe enxofre e uma tintura de ópio em álcool que verifiquei ser muito eficaz. Sangrei Sua Graça repetidas vezes e apliquei minhas melhores sanguessugas em sua língua. Mas seus humores continuam desequilibrados! Eu tentava explicar que passei dias temendo a conjunção de Marte e Júpiter, sabendo o que provocaria. É uma época ruim, milady. Sua Graça sofre como representante de seu povo, a senhora entende? — O médico cofiou a barba curta que deixava crescer, enrolando os dedos nos nós de pelo enquanto pensava. — Pode ser até sua nobreza, sua santidade, que lhe faça mal. O sangue real não é como o dos outros homens, milady. É um farol na escuridão, uma fogueira no alto de um morro que atrai as forças das trevas. Numa época dessas, de agitação e caos nos céus, bom... se Deus estiver pronto para aceitar Sua Alteza Real em Seu abraço, nenhum homem comum pode ficar no caminho dessa vontade divina.

— Ah, então saia do caminho, mestre Allworthy — mandou Margarida —, se isso é tudo o que tem a dizer. Não vou dar mais ouvidos a essa conversa fiada sobre planetas enquanto meu marido sofre tanto. Fique aqui e pense em seus preciosos Marte e Júpiter. Espero que se alegre com eles.

O médico abriu a boca, ainda mais vermelho. O que ia responder se perdeu quando Margarida o empurrou, passando por ele e adentrando os aposentos do rei.

Henrique estava sentado na cama quando ela entrou. O quarto estava na penumbra e, andando até ele, o pé de Margarida se prendeu em alguma peça do equipamento médico, que caiu com um estrondo e a fez tropeçar e depois dar um pontapé mal-humorado. Uma invenção complexa de latão, ferro e vidro saiu girando pelo chão. Em sua fúria com o médico, ficou tentada a segui-la como a um rato que fugisse e fazê-la em pedaços.

O marido virou a cabeça devagar com o barulho, piscando. Ergueu as mãos enfaixadas e Margarida engoliu em seco ao ver sangue recente no curativo. Ela limpara e tratara delas muitas vezes, mas sabia que ele mordia as feridas sempre que ficava sozinho, preocupado com elas como uma criança.

Com cuidado, ela se sentou na cama, encarando profundamente os olhos do marido e só vendo refletidos dor e pesar. Nos braços nus de Henrique, havia crostas onde as facas estreitas de Allworthy tinham aberto suas veias. Ele parecia magro, com círculos escuros sob os olhos e linhas azuis aparecendo na pele pálida.

— Você está bem, Henrique? — perguntou ela. — Consegue se levantar? Acho que este lugar traz doenças no próprio ar. Gostaria de ser levado pelo rio, para Windsor, talvez? Lá o ar é mais doce, longe dos fedores de Londres. Lá você pode cavalgar, caçar, comer boa carne vermelha e se fortalecer.

Para seu desalento, o marido começou a chorar contra sua vontade, o rosto se contraindo. Quando Margarida se moveu para abraçá-lo, ele ergueu as mãos entre os dois, como se a afastasse. Os dedos tremiam como se Henrique tivesse febre e arrepios, embora o quarto estivesse quente e o suor brilhasse em seu rosto.

— As sopas e os medicamentos fazem meus sentidos esvoaçarem, Margarida, mas nem assim consigo dormir! Já estou acordado há... há mais tempo do que consigo me lembrar. Não devo descansar sem a certeza de que o reino está a salvo.

— Ele está a salvo! — retrucou Margarida, desesperada para tranquilizá-lo.

Henrique balançou a cabeça em triste repreensão.

— Meu povo se agita, inquieto, sem saber o que faço por ele. Pegaram em armas contra homens ungidos e os assassinaram! Meu exército ainda existe? Pode me dizer isso ou me trará notícias que eu não suportaria ouvir? Todos eles me desertaram, Margarida?

— Ninguém o desertou! Ninguém, entende? Seus soldados ficariam a seu lado no Dia do Juízo Final se lhes pedisse. Londres está em segurança, Henrique, juro. A Inglaterra está em segurança. Fique em paz e por favor, por favor, tente dormir.

— Não consigo, Margarida. Mesmo que desejasse, continuo, continuo a arder como uma vela até que alguém venha apagá-la. — Ele olhou vagamente o quarto na penumbra. — Onde estão minhas roupas? Preciso me vestir e cumprir meu dever.

Ele começou a se levantar, e Margarida apertou a mão em seu peito, quase recuando com o calor da pele de Henrique quando sua palma nua o tocou. Sentiu então uma dor diferente pelo homem com quem se casara, mas com quem nunca se deitara. Ele não lutou contra seu toque, e Margarida acariciou seu rosto, acalmando-o ao mesmo tempo que acendia chamas dentro de si. Ele fechou os olhos e se recostou nos travesseiros e almofadas. Ela ficou mais ousada, sem se preocupar com o médico que ainda estava do lado de fora.

Margarida se inclinou à frente e beijou o marido no pescoço, onde a garganta era revelada pela camisola aberta. O peito dele era branco e glabro como o de um menino, os braços finos. Cheirava a pós fortes, a enxofre e limão azedo. A pele parecia quente aos seus lábios, quase como se ela tivesse se queimado.

Ela prendeu a respiração, levou a mão ao colo dele e chegou mais perto na cama para se inclinar sobre Henrique e conseguir beijá-lo com mais firmeza na boca. Sentiu os lábios dele tremerem e os olhos se abrirem, fitando os dela com assombro. Ele ofegou em sua boca enquanto Margarida o acariciava. Ela viu músculos se contraírem e os alisou com as mãos.

— Fique parado e deixe que cuido de você — sussurrou Margarida no ouvido do marido. — Deixe-me lhe dar a paz que puder.

Ela sentiu a voz enrouquecer quando a garganta se apertou e um rubor abriu caminho até o rosto e o pescoço. Seu toque parecia acalmá-lo, e Margarida não ousou se afastar para se despir. Em vez disso, manteve os lábios nos dele, as mãos trabalhando em laços e presilhas, tirando tecido dos ombros, desnudando-os. Era impossível. Temia que ele falasse para proibi-la ou se levantasse para afastá-la. Mas o vestido não se soltava! Ela apertou a cabeça contra o pescoço dele enquanto lutava com a roupa, e seu cabelo caiu sobre o rosto de Henrique.

— Eu... — começou o rei, a palavra instantaneamente sufocada quando recebeu outro beijo. Margarida conseguiu sentir o sangue das feridas da sanguessuga que orlava seus lábios, um gosto de ferro na boca.

Com uma das mãos, ela ergueu o vestido e rasgou o pano por baixo, para revelar as nádegas. Um pensamento lhe passou pela cabeça, o médico letrado abrindo a porta naquele momento, e ela sufocou uma risadinha ao passar uma perna nua por sobre o marido e tentar se encaixar debaixo da massa de vestimentas. Quando ousou observar Henrique, ele estava com os olhos fechados de novo, mas sentia a prova de que pelo menos o corpo dele estava disposto. Por Deus, ela vira uma quantidade suficiente de animais fazer isso com o passar dos anos! O ridículo da situação lhe deu vontade de rir; Margarida se mexia e pressionava seu corpo contra o dele, tentando encontrar uma posição que funcionasse.

Aconteceu repentina e inesperadamente, então ambos perderam o fôlego e os olhos de Henrique se abriram de súbito. Mesmo então ele parecia vago, como se acreditasse ser um sonho. Margarida se viu ofegar enquanto segurava a cabeça do marido e sentia a mão dele se estender para agarrar sua coxa nua. Ela sentiu a aspereza das ataduras tocar sua pele, fazendo-a tremer. Fechou os olhos e corou quando a imagem de William lhe surgiu na mente. William, que era tão velho! Tentou banir o pensamento, mas conseguia vê-lo no pátio de Saumur, forte, rindo, as mãos rudes e fortes.

Com os olhos bem fechados, ela se moveu sobre o marido como Iolanda descrevera no jardim de Wetherby House, partilhando respiração, calor, suor e esquecendo a impaciência do médico atrás da porta. Quando Henrique gritou, Margarida sentiu o corpo tremer em resposta, tremores leves de prazer em meio ao desconforto que, de certa forma, era muito mais incisivo. Sentiu o marido se erguer dos travesseiros, os braços e as costas se enrijecendo ao segurá-la, e ficar repentinamente mole e cair para trás como um homem morto. Henrique respirava suavemente ali deitado, e Margarida sentiu um calor invadir seus quadris.

Ela descansou a cabeça no peito do marido até a respiração se tranquilizar, e sentiu uma leve dor que não era pior do que esperara. As imagens frenéticas de William desbotaram com um vago bulício de culpa.

Margarida sorriu ao ouvir Henrique começar a ressonar de leve e, quando o médico abriu a porta e olhou para o interior, ela não abriu os olhos até que ele fosse embora, nem mesmo para ver sua expressão consternada.

Jack Cade olhou em volta os homens que aguardavam suas ordens. Paddy e Rob Ecclestone estavam lá, é claro, seus lugares-tenentes de confiança que mal conseguiam esconder o prazer com o rumo que as coisas tomavam. Ele logo percebera que uma mera assembleia de agricultores furiosos não teria a mínima chance quando o xerife de Kent mandasse soldados. A resposta fora treinar os refugiados da França até que conseguissem resistir e matar em formação, marchar e fazer o que mandassem aqueles que sabiam mais.

— Alguém pode me buscar uma caneca de cerveja escura ou terei de falar a seco? — perguntou Jack.

Ele descobrira que era uma boa ideia arranjar bebida cedo nas tabernas que usavam a cada noite. Seus homens tinham sede, e os barris estavam sempre secos na hora em que avançavam. Toda manhã, gemiam e se queixavam de que a cabeça ia explodir, mas Jack não se importava. Se havia aprendido alguma coisa lutando na França anos antes fora que os homens de Kent lutam melhor com um pouco de cerveja dentro deles — melhor ainda, com um odre inteiro.

A viúva atrás do balcão não estava nada contente com os homens bebendo de graça. Flora mantinha uma boa casa, Jack tinha de admitir. Havia palha limpa no chão e as tábuas e os barris estavam lisos após anos sendo esfregados. É certo que não era nenhuma beldade, mas possuía aquela teimosia no maxilar anguloso de que Jack sempre gostara. Em épocas mais felizes, pensaria em cortejá-la. Afinal de contas, ela não havia fugido nem mesmo quando 2 mil homens chegaram marchando pela estrada rumo a sua taberna. Isso era puro Kent. Jack esperou com paciência enquanto ela enchia uma caneca de estanho e a passava para ele soprar a espuma.

— Obrigado, amor — agradeceu Jack.

Ela lhe lançou um olhar azedo, cruzando os braços de um jeito que ele já vira em todas as estalagens e tabernas de onde fora expulso com o passar dos anos. Aquele pensamento o deixou de bom humor. Não podiam mais expulsar Jack Cade na noite, não agora. Com goles enormes, ele bebeu a cerveja até o fim e ofegou, limpando uma linha grossa de bebida dos pelos em torno da boca.

A estalagem estava lotada com cerca de oitenta dos homens que ele escolhera nas últimas semanas. Na maioria eram como ele: de ombros largos, com boas pernas fortes e mãos grandes. Todos tinham nascido em Kent, nem era preciso dizer. Com exceção de Paddy, Jack se sentia mais à vontade com esses. Sabia como funcionava a cabeça deles, como pensavam e como falavam. Em consequência, conseguia falar com eles, algo que não estava acostumado a fazer, pelo menos não em multidões.

Jack olhou em volta com aprovação, todos aguardando sua palavra.

— Agora, sei que alguns de vocês não me conhecem direito e talvez queiram saber por que Jack Cade lhes deu um tapinha no ombro. Vocês também sabem que não gosto de falar como outros falam, então vão saber que não é só bobagem.

Eles o fitavam, e Paddy deu uma risada no silêncio. O irlandês grandalhão usava roupas e botas novas, recém-tiradas de uma das cidades por onde tinham passado e melhores do que tudo o que possuíra até então. Jack deixou os olhos vaguearem até encontrar Rob Ecclestone nos fundos. Aquele combinava mais com as sombras, onde pudesse ficar de olho no restante. Ecclestone parecia deixar os homens pouco à vontade quando era visto afiando a navalha toda manhã — e isso era bom, na opinião de Jack.

— Traga-me outra, por favor, Flora? — pediu Jack, passando a caneca. — Tudo bem?

Ele se virou de novo para a multidão, divertindo-se.

— Fiz vocês correrem e marcharem para melhorar a respiração. Fiz vocês suarem afiando ganchos e machados e tudo o que pudemos achar para vocês. Fiz tudo isso porque, quando vier contra nós, o xerife de Kent terá soldados com ele, tantos quanto conseguir achar. E não vim até aqui para perder agora.

Um murmúrio se elevou da multidão quando os que se conheciam baixaram a cabeça e cochicharam alguns comentários. Jack corou de leve.

— Já ouvi suas histórias, rapazes. Já ouvi o que aqueles canalhas fizeram na França, como entregaram a terra de vocês e recuaram enquanto soldados franceses punham as mãos em suas mulheres e matavam seus velhos. Ouvi falar dos impostos e de como um homem pode trabalhar duro a vida inteira, mas nem assim ter alguma coisa quando acabam de tirar a parte deles de seu dinheiro. Pois bem, rapazes, agora vocês podem fazê-los escutar se quiserem. Vocês estarão num lamaçal com os homens aqui em volta e os outros lá fora. Verão os soldados do xerife virem marchando com espadas e arcos e vão querer esquecer como estão morrendo de raiva deles. Vão querer fugir e deixar que vençam, com o mijo escorrendo pelas pernas ao correr.

A taberna lotada pareceu quase se sacudir quando os homens lá dentro grunhiram e berraram que não fariam nada disso. Os lábios de Jack se franziram, em divertimento, enquanto ele tomava a segunda cerveja e a engolia tão depressa quanto a primeira.

— Conheço esse medo, rapazes, e não venham me dizer que são corajosos quando estão sãos e salvos num lugar quente. Suas tripas vão se apertar, seu coração vai querer pular do peito e vocês vão querer estar em qualquer outro lugar. — Sua voz se endureceu e os olhos cintilaram, a velha raiva crescendo nele com a bebida. — Mas, se fugirem, vocês não serão homens de Kent. Não serão nem homens. Terão uma chance de enfiar os dentes deles dentro da cabeça, uma única luta em que vão esperar que vocês se mijem e fujam. Se vocês se aguentarem, eles não vão saber o que os atingiu e passaremos por cima deles como trigo, juro por Deus. Vamos pôr a cabeça daquele xerife numa estaca e levá-la como uma maldita bandeira! Vamos marchar sobre Londres, garotos, se puderem se aguentar. Ao menos uma vez, e eles saberão que vocês têm estômago pra isso.

Jack olhou a sala em volta, satisfeito com o que viu na expressão dos homens.

— Quando saírem — continuou —, quero que cada um de vocês escolha uma dúzia de homens. Serão seus, portanto, aprendam o nome de cada um e façam com que aprendam o nome uns dos outros. Quero que saibam que, se fugirem, serão os parceiros deles que ficarão para trás, entendido? Nada de estranhos, parceiros. Mandem beberem juntos e treinarem juntos todo dia até se tornarem quase irmãos, o máximo possível. Assim, teremos uma chance.

Ele baixou a cabeça um instante, quase como se rezasse. Quando voltou a falar, a voz estava rouca.

— Então, quando me ouvirem gritar, ou Paddy, ou Rob, vocês seguem. Façam o que mandarmos e verão os soldados do xerife caírem. Vou indicar a vocês a direção certa. Eu sei como é. Aproveitem sua única chance e cortem cabeças. Vocês andarão diretamente sobre os homens que se levantaram contra nós.

Paddy e Rob urraram e o restante acompanhou. Jack fez um gesto para Flora e ela cuspiu no chão de asco, mas começou a passar mais canecas de cerveja. Acima do barulho, Jack levantou a voz mais uma vez, embora a vista estivesse meio turva. A cerveja escura valeria o preço que custava, se ele estivesse pagando.

— Há mais e mais homens de Kent vindo se juntar a nós todo dia, rapazes. Agora o condado inteiro já sabe o que pretendemos fazer e há mais gente vindo da França todo dia. Dizem que a Normandia está caindo e que nosso bondoso rei traiu a todos nós de novo. Pois bem, tenho a resposta para isso!

Ele levantou uma machadinha pousada junto a suas botas e bateu com a lâmina no balcão de madeira. Num instante de silêncio, Flora xingou. A palavra que ela usou fez todos rirem enquanto bebiam e davam vivas. Jack ergueu a caneca a eles.

Thomas mancava de leve, um efeito colateral do ferimento que sofrera. Os pontos tinham se repuxado numa linha inchada que lhe atravessava o quadril e se esticava dolorosamente a cada passo. Depois de uma semana atravessando campos e se escondendo em valas, era estranho pegar a estrada de novo. Ele e Rowan se misturaram bem à multidão miserável e dispersa de refugiados que seguiam para Calais. Não havia espaço na maioria das carroças, que já rangiam sob o peso dos que possuíam moedas para gastar. Thomas e Rowan não tinham nada, e assim caminhavam de cabeça baixa, apenas deixando para trás o máximo de quilômetros que pudessem por dia. Thomas tentava ficar atento, mas a fome e a sede o deixavam inquieto e às vezes ele chegava à noite com poucas lembranças do caminho que percorrera. Os nervos se tensionavam com a viagem às claras, mas fazia dias que ele e o filho não viam um soldado francês. Estavam em algum outro lugar, talvez com coisa melhor a fazer do que importunar e roubar a torrente de famílias inglesas que partiam da França.

O crepúsculo se transformava em escuridão quando Thomas caiu. Com um grunhido, simplesmente desmoronou e ficou deitado na estrada, com os refugiados passando por cima dele. Rowan o ergueu e depois deu seu facão com cabo de chifre a um carroceiro disposto a enfiar mais dois na traseira. Naquela noite, o homem chegou a dividir com eles uma sopa rala, que Rowan pôs às colheradas na boca do pai. Não estavam numa situação pior do que muitos que os cercavam, mas ser carregado ajudava.

Outro dia se passou com o mundo reduzido a um quadrado de céu visível pela traseira da carroça. Rowan parou de olhar para fora quando viu três homens surrando e roubando alguma alma indefesa. Ninguém foi ajudar o homem e a carroça prosseguiu, deixando a cena para trás.

Ainda não haviam dormido quando a carroça parou, estavam num estado de estupor estonteado que transformava os dias num borrão. Rowan sentou-se ereto de repente quando o carroceiro deu tapas fortes na lateral da carroça. Havia outras três pessoas amontoadas com os arqueiros, dois velhos e uma mulher que, pelo que Rowan entendera, era casada com um deles, embora não soubesse direito com qual. Os velhos se espreguiçaram devagar e o carroceiro continuava a bater e a despertar todos.

— Por que paramos? — murmurou Thomas sem se levantar de seu lugar junto à lateral de madeira.

Rowan desceu e ficou olhando a distância. Depois de tanto tempo, era estranho ver as muralhas da fortaleza de Calais a não mais do que 2 quilômetros. As estradas estavam tão lotadas que a carroça só podia se mover junto do fluxo das pessoas, na velocidade dos mais lentos. Rowan se inclinou para dentro e sacudiu o pai pelos ombros.

— Hora de descer, acho — avisou. — Finalmente sinto o cheiro do mar.

Gaivotas gritavam à distância, e Rowan sentiu seu ânimo aumentar, ainda que tivesse tantas moedas quanto um mendigo e não possuísse mais uma faca para se defender. Ajudou o pai a descer para a estrada e agradeceu ao carroceiro, que se despediu deles com a atenção voltada para os pais e o tio na traseira.

— Que Deus esteja com vocês, rapazes — desejou ele.

Rowan pôs o braço em torno do pai, sentindo o relevo dos ossos que espetavam onde a carne se consumira.

As muralhas de Calais pareciam crescer à medida que eles empurravam e abriam caminho pela massa de gente. Ao menos os arqueiros não tinham fardos que os atrapalhassem, nenhuma posse para guardar. Mais de uma vez ouviram um grito de revolta quando alguém furtava algo e tentava sumir. Rowan balançou a cabeça ao ver dois homens chutarem outro no chão. Estavam concentrados na tarefa e, quando Rowan passou, um deles ergueu os olhos como num desafio. Rowan desviou os seus, e o homem voltou a pisar na figura caída.

Thomas gemeu, a cabeça pendendo enquanto Rowan se esforçava carregando-o. Havia tanta gente! Para um homem que crescera numa fazenda de criação de ovelhas isolada, Rowan suava por estar em tamanha aglomeração, todos seguindo para as docas. Eram quase carregados, incapazes de parar ou se desviar do movimento do povo.

O ajuntamento pareceu crescer ainda mais quando Rowan cambaleou com o pai pelos imensos portões da cidade e pela rua principal, na direção do mar. Dava para ver os mastros altos dos navios, e ele levantou a cabeça com esperança.

Levaram a manhã inteira e quase toda a tarde para chegar às docas propriamente ditas. Rowan havia sido forçado a descansar mais de uma vez quando via um degrau vazio ou mesmo uma parede onde se encostar. Estava tonto e cansado, porém a visão dos navios o atraía. O pai ia e voltava do estado de alerta, às vezes com plena consciência e falando, depois recaindo na sonolência.

O sol se punha sobre mais um dia sem uma refeição decente. Alguns monges tinham aparecido distribuindo porções de pão duro e vasilhas d’água pela multidão. Rowan os abençoara pela gentileza, mas isso fora horas atrás. Sentia a língua engrossar na boca, e o pai não dizia palavra desde então. Com o sol descendo para o horizonte, eles entraram numa fila que se remexia e serpenteava pela multidão em movimento, sempre seguindo em direção a um grupo de homens robustos que guardavam a entrada de um navio. A luz se tornava vermelha e dourada, e Rowan ajudou o pai a subir os últimos degraus, sabendo que deviam parecer mendigos ou condenados, mesmo naquele grupo.

Um dos homens ergueu os olhos e crispou o rosto de maneira visível ao ver os dois espantalhos esquálidos em pé, oscilando diante dele.

— Nome?

— Rowan e Thomas Woodchurch — respondeu Rowan. — Tem vaga para nós?

— Vocês têm dinheiro? — perguntou o homem. A voz era monótona de tanto fazer as mesmas perguntas.

— Minha mãe tem, na Inglaterra — disse Rowan, o coração afundando no peito.

O pai se mexeu em seus braços, erguendo a cabeça. O marinheiro deu de ombros, já olhando além deles para o próximo da fila.

— Hoje não posso ajudá-lo, filho. Haverá outros navios amanhã ou depois de amanhã. Um deles os levará.

Thomas Woodchurch se inclinou à frente, quase derrubando o filho.

— Derry Brewer — murmurou, embora o enervasse usar aquele nome. — Derry Brewer ou John Gilpin. Eles responderão por mim. Eles responderão por um arqueiro.

O marinheiro parou no ato de acenar para chamar o próximo grupo. Pareceu pouco à vontade enquanto verificava a prancheta de madeira.

— Está bem, senhor. Pode embarcar. Ainda há espaço no convés. O senhor ficará bem, contanto que o vento se mantenha tranquilo. Logo partiremos.

Enquanto Rowan observava com espanto, o homem usou a faca para marcar mais duas almas no bloco de madeira.

— Obrigado — disse, ajudando o pai a subir a prancha de embarque. O marinheiro tocou a testa numa rápida continência. Rowan empurrou e abriu caminho até um lugar vazio no convés, próximo à proa. Com alívio, ele e o pai se deitaram e esperaram para serem levados à Inglaterra.