Pássaro da Tempestade
Capítulo 21
Em seus aposentos na Torre Branca, Derry acordou agarrando a mão que o tocara no ombro. Antes de despertar por completo, estava com a lâmina contra o rosto chocado do criado, formando uma linha na bochecha, abaixo do olho. Com a mesma velocidade com que se movera, entendeu que não o atacavam e afastou a lâmina com um pedido murmurado de desculpas. As mãos do criado tremiam ao acender a vela e colocá-la debaixo de um funil de vidro para difundir a luz.
— Sinto muito, Hallerton. Eu... não estou no meu juízo perfeito neste momento. Vejo assassinos por toda parte.
— Entendo, senhor — respondeu Hallerton, ainda pálido de medo. — Eu não o despertaria, mas o senhor disse para entrar se houvesse notícias de lorde Suffolk.
O homem mais velho se afastou de repente quando Derry virou as pernas sobre a beira da cama e se levantou. Estava totalmente vestido, tendo desmoronado sobre os cobertores havia apenas algumas horas.
— Então? Fale logo, homem. Que notícia?
— Ele foi preso, senhor. Preso pelos homens do cardeal Beaufort quando tentava apresentar seu relatório ao Parlamento.
Derry piscou, a mente ainda nublada de sono.
— Ah, pelo amor de Deus. Eu lhe mandei um aviso, Hallerton! O que diabos ele estava pensando para vir a Londres agora? — Esfregou o rosto, fitando o nada enquanto pensava. — Sabemos aonde o levaram?
O criado balançou a cabeça em negativa, e Derry franziu a testa, pensando.
— Pode me trazer uma vasilha d’água e o urinol, por favor?
— Sim, senhor. Precisa que eu o barbeie esta manhã?
— Do jeito que suas mãos estão tremendo? Não, hoje não. Eu mesmo me barbeio, para ficar apresentável para o orador Tresham. Mande um mensageiro me anunciar em seu gabinete em Westminster. Não duvido que a velha aranha já esteja bem acordada agora de manhã. Ainda é de manhã?
— É, sim, senhor — respondeu Hallerton, procurando debaixo da cama o urinol de porcelana que aguardava ali, já com um quarto de urina escura. Derry gemeu. Fora se deitar com as primeiras luzes do sol no céu. Mal parecia que tinha caído no sono, mas precisava ficar alerta, senão Tresham e Beaufort teriam seu bode expiatório. O que William estava pensando para se jogar nas mãos deles? O problema era que Derry conhecia muito bem o orgulho do homem. Suffolk não fugiria, nem mesmo da acusação de alta traição. A seu modo, William era um cordeiro tão inocente quanto o próprio rei, mas agora estava cercado de lobos. Derry não tinha ilusões quanto à gravidade das acusações. Seu amigo seria feito em pedaços caso não conseguisse salvá-lo.
— Pare de remexer nesse maldito urinol, Hallerton! E esqueça Tresham. Onde está o rei hoje de manhã?
— Em seus aposentos aqui, senhor — respondeu o criado, preocupado com o ríspido aturdimento de seu mestre. — Ele permanece no leito, e seus criados dizem que ainda sofre de febre. Acredito que a esposa esteja com ele, ou por perto.
— Ótimo. Anuncie-me lá, então. Precisarei da fonte se quiser encontrar uma saída para William. Ande, homem! Não preciso que você me veja mijar.
Derry pôs o urinol sobre os cobertores e suspirou de alívio ao verter o líquido amarelado dentro dele. Hallerton saiu depressa, chamando outros criados para ajudarem o espião-mor. Desceu correndo as escadas da Torre Branca e disparou pelo gramado além dela, desacelerando só um pouco ao passar por filas de soldados fortemente armados em marcha. A Torre de Londres era um labirinto de caminhos e construções, e Hallerton suava ao chegar aos aposentos pessoais do rei e anunciar aos criados a vinda iminente de seu mestre. Ainda discutia com o mordomo do quarto real quando Derry apareceu ofegante atrás dele.
— Mestre Brewer! — exclamou o mordomo do rei. — Estava explicando a seu criado que Sua Alteza Real, o rei Henrique, está mal de saúde e não pode ser perturbado.
Derry passou pelos dois, simplesmente pressionando a mão no peito do mordomo para segurá-lo contra a parede. Dois soldados de expressão séria observaram sua aproximação e se puseram deliberadamente no caminho. De súbito, Derry se lembrou da tentativa de lorde York de chegar ao rei em Windsor e quase riu.
— Afastem-se, rapazes. Tenho ordens permanentes de falar com o rei, dia e noite. Vocês me conhecem e sabem que é verdade.
Os soldados se agitaram, pouco à vontade. Olharam além de Derry para o mordomo do rei, que cruzara os braços em clara recusa. Era um impasse, e Derry se virou com alívio ao ouvir uma voz de mulher no andar de cima.
— O que está acontecendo? É o mestre Brewer? — perguntou Margarida em voz alta, enquanto descia até o meio de uma escada de carvalho e espiava o grupo de homens ali reunido. Estava descalça, vestida com uma camisola branca e comprida, os cabelos desarrumados. Após um momento de choque, todos os homens baixaram o olhar para as botas evitando fitar a rainha naquele estado de descompostura.
— Vossa Alteza, eu não... — começou o mordomo do rei, ainda olhando para baixo.
Derry elevou a voz acima da dele, sentindo de repente que o tempo se esgotava para todos.
— Suffolk foi preso, milady. Preciso falar com o rei.
A boca de Margarida se abriu com surpresa, e o mordomo do rei parou de falar. A rainha viu a preocupação de Derry e tomou uma decisão rápida.
— Obrigada, cavalheiros — disse Margarida, dispensando-os. — Venha, mestre Brewer. Acordarei meu marido.
Derry estava preocupado demais para gozar da pequena vitória sobre o mordomo e subiu correndo os degraus atrás da rainha. Caminharam por um longo corredor e passaram por cômodos que fediam a substâncias amargas. Derry tremeu, o ar parecia se tornar mais denso. Os aposentos do rei cheiravam a doença, e ele passou a respirar mais leve para não inspirar em excesso o ar pesado.
— Espere aqui, mestre Brewer — indicou Margarida. — Verei se ele está acordado.
Ela entrou nos aposentos privativos do rei e Derry foi deixado a sós no corredor. Ele notou outros dois soldados que o observavam com desconfiança na outra ponta, mas a permissão de Margarida o deixava além do alcance deles, de qualquer forma. Ignorou-os enquanto aguardava.
Quando a porta se abriu de novo, Derry já havia preparado os argumentos — que morreram na garganta ao ver a figura pálida do rei sentado na cama, o peito branco e estreito envolto numa capa. Derry ainda conseguia se lembrar do tronco de touro do pai do rapaz, e a tristeza subiu num jorro ao fechar a porta e encarar o rei Henrique.
Derry se ajoelhou, a cabeça baixa. Margarida ficou ali observando-o, torcendo as mãos enquanto esperava que Henrique cumprimentasse seu espião-mor. Quando o silêncio se estendeu demais, foi ela quem finalmente falou.
— Por favor, levante-se, mestre Brewer. O senhor disse que lorde William foi preso. Sob que acusação?
Derry se ergueu devagar e ousou se aproximar. Sem tirar os olhos do rei, respondeu, buscando alguma fagulha de vida que mostrasse que Henrique estava consciente e compreendia.
— Alta traição, milady. Os homens do cardeal Beaufort o prenderam quando ele voltou de Kent ontem à noite. Tenho certeza de que Tresham está por trás disso. Ele me disse que o faria alguns dias atrás. Eu lhe falei então que essa acusação só poderia levar ao desastre. — Derry se aproximou ainda mais, a um braço do rei. — Vossa Graça? Não podemos deixar William de la Pole ir a julgamento. Sinto a mão de York nisso. Tresham e Beaufort interrogarão lorde Suffolk. Com uma acusação dessas, não há proteção. Insistirão em provar a verdade com ferro em brasa.
O espião-mor esperou um pouco, mas os olhos de Henrique permaneceram vazios e inocentes. Por um instante, Derry acreditou ter visto algo como compaixão, embora pudesse ter imaginado.
— Vossa Graça? — repetiu. — Temo que seja uma conspiração visando à própria linhagem real. Se forçarem lorde Suffolk a revelar os detalhes do armistício com a França, ele dirá a verdade, que foi por ordem real. Depois das perdas que sofremos por lá, uma admissão dessas ajudará a causa deles, Vossa Graça. — Derry inspirou devagar, forçando-se a fazer uma pergunta que o envergonhava. — Compreende, Vossa Graça?
Por algum tempo, pensou que o rei não responderia, mas então Henrique suspirou e falou, a voz arrastada.
— William não me trairá, mestre Brewer. Se a acusação for falsa, ele deveria ser libertado. Essa é a verdade?
— É, Vossa Graça! Eles querem incriminar e matar lorde Suffolk para aplacar a turba de Londres. Por favor. O senhor sabe que William não pode ser levado a julgamento.
— Sem julgamento? Muito bem, mestre Brewer. Eu sei...
A voz do rei se apagou e ele fitou com olhos vazios. Derry pigarreou, mas o rosto permaneceu totalmente imóvel e frouxo, como se seu espírito tivesse sido levado.
— Vossa Graça? — chamou Derry, confuso, olhando Margarida de relance.
Ela balançou a cabeça, com lágrimas enchendo seus olhos, fazendo-os brilhar.
O momento passou e Henrique pareceu retornar, piscando e sorrindo como se nada tivesse acontecido.
— Estou cansado agora, mestre Brewer. Gostaria de dormir. O médico diz que devo dormir se quiser melhorar.
Derry olhou Margarida e viu sua angústia enquanto ela fitava o marido. Foi um momento chocante de intimidade, e surpreendeu-se ao ver ali também algo como amor. Por um instante, os olhos dos dois se cruzaram.
— O que o senhor precisa de seu rei, mestre Brewer? — quis saber Margarida em voz baixa. — Ele pode ordenar a libertação de William?
— Poderia, se eles honrassem a ordem — respondeu Derry, esfregando os olhos. — Não duvido de que a ordem será retardada ou que William será levado a algum lugar escuro onde não poderei alcançá-lo. Em Westminster, Tresham e Beaufort possuem muito poder, no mínimo porque o Parlamento paga os guardas. Por favor, milady, deixe-me pensar um instante. Não basta mandar uma ordem escrita para libertá-lo.
Derry detestava falar de Henrique enquanto o homem em pessoa estava ali sentado e o observava como uma criança que nele confiasse, mas não havia como evitar.
— Sua Alteza Real está em condições de viajar? Se o rei tomar uma balsa até Westminster, poderia entrar nas celas e ninguém ousaria detê-lo. Poderíamos libertar William hoje, antes que lhe fizessem muito mal.
Para sua tristeza, Margarida fez um gesto de negação, estendendo a mão para tocar o ombro de Derry e, depois, chamando-o de lado. A cabeça de Henrique se virou para observá-los, sorrindo com inocência.
— Ele está... sofrendo dessa... ausência há dias. Neste momento está ótimo, o melhor que já vi — sussurrou Margarida. — Tem de haver algum outro modo de tirar William das garras deles. Que tal lorde Somerset? Ele não está em Londres? Ele e William são amigos. Somerset não permitiria que William fosse torturado, não importa as acusações que fizerem.
— Gostaria que fosse simples assim. Estão com ele, Vossa Graça! Mal consigo acreditar que ele foi tolo a ponto de se entregar, mas a senhora conhece William. Conhece sua noção de honra e seu orgulho. Eu lhe dei a oportunidade de fugir, mas, em vez disso, ele veio docilmente, confiando que seus captores eram homens de honra. Não são, milady. Derrubarão um lorde poderoso que apoia o rei ou... o próprio rei. Ainda não sei exatamente o que pretendem, porém William...
Parou de falar quando lhe veio uma nova ideia.
— Acho que há um modo de evitar o julgamento! Espere... claro. Não podem interrogá-lo se ele admitir imediatamente a culpa por todas as acusações.
Margarida franziu a testa.
— Mas isso não os beneficia, mestre Brewer? Com certeza é isso que Tresham e o cardeal Beaufort querem!
Para sua confusão, ela viu Derry sorrir, os olhos cintilando. Não era uma expressão agradável.
— Servirá por enquanto. Vai me dar um pouco mais de tempo, e é isso que mais me falta. Tenho de descobrir onde o puseram. Tenho de encontrá-lo. Vossa Alteza, obrigado. Vou buscar lorde Somerset em casa. Sei que ele me ajudará, e ele tem seus próprios homens de armas. Apenas reze para que William ainda não tenha sido torturado, por sua honra e seu maldito orgulho.
Ele se ajoelhou de novo junto ao leito do soberano, baixando a cabeça para falar com Henrique mais uma vez.
— Vossa Graça? Seu palácio em Westminster fica a apenas uma curta viagem de barco daqui. Ajudaria William se o senhor estivesse lá. Ajudaria a mim.
Henrique piscou para ele.
— Nada de cerveja, Brewer! Não é? O doutor Allworthy diz que preciso dormir.
Derry fechou os olhos, desapontado.
— Como quiser, Vossa Graça. Se me permite, sairei agora.
O rei Henrique fez um gesto e Margarida viu que o rosto de Derry estava pálido e cansado quando fez uma lenta reverência para ela e saiu correndo do quarto.
Na Torre das Joias, do outro lado da rua, diante do Palácio de Westminster, William andava de um lado para o outro, fazendo as tábuas grossas de carvalho rangerem a cada passo. A sala era fria e vazia, com apenas uma mesa e uma cadeira posicionadas de modo que a luz caísse sobre elas. Alguma parte perversa dentro dele achava certíssimo que estivesse confinado dessa maneira. Fora incapaz de deter o exército francês. Embora seus homens matassem ou aleijassem milhares deles, ainda assim foram forçados a voltar para Calais, a cada maldito passo. Antes de partir, ele vira seus homens içando os portões de Calais, fechando as antigas grades e cobrindo as muralhas com arqueiros. William sorriu, consigo cansado. Ao menos havia salvado os arqueiros. O resto caíra sobre sua cabeça. Não resistira quando os homens de Tresham foram prendê-lo. Seus guardas tinham tocado a espada, mas ele os impedira com um gesto e fora em silêncio. Os duques gozavam da proteção do próprio rei, e William sabia que teria a oportunidade de negar as acusações que lhe faziam.
Pela janela, ele conseguia ver tanto o palácio do rei quanto a antiga abadia, com sua Sala do Capítulo octogonal. A Câmara dos Comuns se reunia ali ou na Câmara Pintada do palácio. William ouvira falar da concessão de algum lugar permanente para seus debates, mas sempre havia questões mais prementes do que poltronas quentes para os homens dos condados. Ele esfregou as têmporas, sentindo a tensão e o medo. Apenas um cego deixaria de perceber a raiva e a ameaça de violência que vira desde que havia tocado a terra onde nascera. Tinha cavalgado depressa por Kent, às vezes pelas mesmas trilhas de grandes corpos de soldados. Quando parou para passar a noite numa estalagem onde estradas se cruzavam, só ouviu histórias sobre Jack Cade e seu exército. Os donos ficaram a noite inteira lançando olhares hostis a William, mas, reconhecido ou não, ninguém ousara interromper seu avanço de volta à capital.
William deu as costas para a vista e voltou a andar de um lado para o outro, cruzando as mãos firmemente nas costas. As acusações eram uma farsa para qualquer um que soubesse o que acontecera de verdade naquele ano e no anterior. Tinha certeza de que não se sustentariam, não após o rei ser informado. William se perguntou se Derry Brewer soubera de seu confinamento. Depois do aviso que havia mandado, William se divertiu pensando no desgosto de Derry com sua decisão de voltar para casa de qualquer maneira, mas de fato não havia opção. William endireitou as costas. Era o comandante dos soldados ingleses na França e duque da Coroa. Apesar de todos os desastres a que assistira, nada mudaria isso. Ele se viu pensando na esposa Alice. Ela nada saberia além dos piores boatos. Imaginou se seus captores lhe permitiriam escrever a ela e ao filho John. Não queria que se preocupassem.
William parou de andar quando ouviu vozes masculinas nos andares abaixo. A boca se firmou numa linha rígida e os nós embranqueceram nas mãos cruzadas. Ficou esperando no alto da escada, quase como se guardasse a sala. Sem pensar conscientemente, a mão direita se moveu para segurar o espaço vazio onde normalmente estaria a espada.
Ricardo de York guiava dois outros homens escada acima com energia de menino. Parou com a mão no corrimão ao avistar Suffolk em pé encarando-os como se pudesse atacar a qualquer momento.
— Acalme-se, William — pediu York suavemente ao entrar na sala. — Eu lhe disse na França que tinham lhe dado uma taça envenenada. Acha que eu sumiria calado na Irlanda enquanto grandes eventos se desenrolavam em minha ausência? Dificilmente. Andei ocupado nesses últimos meses. Acredito que você também, embora talvez com resultados não tão positivos.
York atravessou a sala para fitar o sol nascente e a neblina que se dissipava em torno de Westminster. Atrás dele, Sir William Tresham e o cardeal Beaufort pisaram no espaço da torre. York acenou dois dedos na direção deles sem olhar em volta.
— É claro que conhece Tresham e Beaufort. Sugiro que escute o que têm a dizer, William. É o melhor conselho que posso lhe dar.
York deu um leve sorriso, apreciando a vista. Lugares altos sempre o agradaram, como se Deus estivesse mais perto do que dos homens no chão lá embaixo.
William notara a espada de York, é claro, além da adaga que usava enfiada no cinto, com um polido par de bolas que lembrava testículos esculpido em madeira para mantê-la firme. Era uma lâmina perfurante, comprida e fina. William duvidava que York fosse tolo o bastante para deixá-lo chegar ao alcance de alguma das armas, mas mesmo assim mediu a distância. Nem Tresham nem o cardeal Beaufort estavam armados, até onde conseguia ver, mas William sabia que era tão prisioneiro quanto qualquer pobre coitado nas celas de Westminster ou da Torre. O pensamento o fez erguer os olhos de seus devaneios.
— Por que não me levaram à Torre de Londres? Com acusações de alta traição? Gostaria de saber, Ricardo, se é porque você sabe que essas acusações se sustentam em bases fracas. Não fiz nada sozinho. Nunca seria possível para um homem conseguir um armistício com a França, fosse qual fosse o resultado. — Sua mente voltou a Derry Brewer, e ele balançou a cabeça, cansado de todos os jogos e promessas.
Ninguém lhe respondeu. Os três homens ali se quedaram pacientemente até que dois soldados corpulentos subiram a escada com esforço. Usavam cota de malha e tabardos sujos, como se tivessem sido chamados enquanto cumpriam outras tarefas. William notou com desagrado que traziam entre eles um saco de lona manchada. O saco tilintou quando o pousaram no chão de madeira e ficaram em posição de sentido.
O cardeal Beaufort pigarreou e William se virou para o homem, escondendo o desagrado. O tio-avô do rei tinha o físico perfeito para o papel, com a tonsura raspada e os dedos longos e brancos unidos como se em oração. Mas o homem fora lorde chanceler de dois reis e descendia de Eduardo III, através de João de Gaunt. Fora Beaufort quem condenara Joana d’Arc à morte pelo fogo, e William sabia que não havia bondade dentro daquele velho. Desconfiava que, dos três, Beaufort era seu verdadeiro captor. A presença de York era uma declaração óbvia da lealdade do cardeal. William não pôde impedir que o desdém surgisse em seu rosto quando Beaufort falou com uma voz amaciada por décadas de orações e vinho com mel.
— O senhor é acusado dos mais graves crimes, lorde William. Acredito que um aspecto de humildade e arrependimento lhe seria mais adequado que essa jactância fingida. Se o senhor for levado a julgamento, sinto dizer que não duvido do resultado. Há testemunhas demais dispostas a falar contra o senhor.
William franziu o cenho enquanto os três homens trocavam olhares antes que Beaufort continuasse. Já haviam discutido seu destino, isso era óbvio. Ele endureceu o maxilar, decidido a resistir à conspiração.
— Seu nome está em todos os documentos do Estado, milorde — comentou Beaufort. — O armistício fracassado, os documentos originais do casamento em Tours, a ordem de defender a Normandia contra a incursão francesa. O povo da Inglaterra clama por justiça, lorde Suffolk... e sua vida tem de responder por suas traições.
O cardeal tinha aquela maciez branca da carne que William já vira, nascida de uma vida de claustros e missas. Mas os olhos negros eram severos quando o sopesaram. Ele fitou de volta, deixando seu desprezo aparecer. Beaufort balançou a cabeça com tristeza.
— Que ano péssimo foi este, William! Sei que é um bom homem, um homem piedoso. Gostaria que não tivesse chegado a esse ponto. Mas as formalidades têm de ser respeitadas. Pedirei que confesse seus crimes. Sem dúvida o senhor negará e, então, temo que meus colegas e eu nos retiremos. O senhor será preso àquela cadeira e esses dois homens o convencerão a assinar seu nome debaixo do pecado mortal de traição.
William, escutando a voz suave e monótona, engoliu em seco, dolorosamente, o coração batendo forte. Suas certezas se esfarelavam. York sorria com ironia, sem olhá-lo. Tresham, pelo menos, parecia pouco à vontade, mas não havia dúvida sobre a determinação dos três. William não pôde evitar um relance no saco de lona que ali estava, temendo avistar as ferramentas que continha.
— Exijo falar com o rei — pediu William, satisfeito porque a voz saiu calma e, aparentemente, não amedrontada.
Quando Tresham respondeu, a voz do velho advogado saiu seca, como se ele discutisse uma questão difícil dos estatutos.
— Temo que a acusação de alta traição não permita isso, milorde — retrucou ele. — O senhor há de compreender que o homem que conspirou contra a Coroa dificilmente teria permissão de se aproximar da Coroa. Primeiro, o senhor tem de ser interrogado. Depois que todos os detalhes e todos os seus cúmplices tiverem sido citados, o senhor assinará a confissão. Então será amarrado e levado a julgamento, embora, como sabe, isso não passe de mera formalidade. O rei não se envolverá em nenhum estágio, milorde, a menos, é claro, que deseje assistir a sua execução.
— A não ser... — acrescentou York. Ele parou, contemplando Westminster pela janela. — A não ser que a perda da França possa ser lançada aos pés do próprio rei, William. Você e eu sabemos que é verdade. Diga-me, quantos homens atenderam a seu chamado de reforçar as forças na Normandia? Quantos ficaram a seu lado contra o rei francês? Mas há 8 mil soldados nos condados próximos de Londres, William, para aliviar o pavor que o rei tem de rebeliões. Se tivessem permitido a esses homens atravessar o canal até a França quando precisou deles, onde acha que estaria agora? Teríamos perdido a Normandia se você tivesse 12 mil soldados em campo?
William olhou York com fúria, a raiva crescendo nele ao ver onde o homem mirava seu ataque.
— Henrique é meu rei ungido, milorde York — disse ele, devagar e com força. — O senhor não obterá de mim acusações mesquinhas, se é o que procura. Não cabe a mim julgar os atos do rei da Inglaterra, nem ao senhor, nem a esse cardeal, tio dele, nem a Tresham, apesar de todos os seus truques de advogado. Entende?
— Entendo, sim — respondeu York, virando-se para ele com um sorriso tanto. — Entendo que só há dois caminhos, William. Ou o rei perde você, seu partidário mais poderoso, ou... perde tudo. Seja como for, o reino e minha causa se fortalecerão de forma incomensurável. Encare a verdade, Suffolk! O rei é um menino fraco e adoentado demais para governar. Não sou o primeiro a dizer isso e, acredite em mim, isso está sendo murmurado agora em todos os povoados, aldeias e cidades da Inglaterra. As perdas na França só confirmaram o que alguns de nós sabemos desde que ele era criança. Nós esperamos, William! Por respeito e lealdade a seu pai e à Coroa, nós esperamos. E veja aonde isso nos levou! — York parou, encontrando a calma mais uma vez. — A esta sala, William, e a você. Aguente a culpa sozinho e morra ou cite seu rei como o homem que arquitetou esse fracasso. A opção é sua e, para mim, não importa.
Diante do triunfo venenoso de York, William se abateu, pousando uma das mãos na mesa para sustentar seu peso.
— Entendo — comentou William, a voz fraca. Pelas palavras de York, ele não tinha opção. Sentou-se à mesa. As mãos tremiam ao descansar na madeira polida. — Não confessarei traições que não cometi. Não acusarei meu rei nem nenhum outro homem. Torturem-me, se for preciso; não fará diferença. E que Deus os perdoe, porque eu não os perdoarei.
Exasperado, York fez um gesto para os dois soldados. Um deles se agachou ao lado do saco e começou a abri-lo, revelando as linhas limpas de pinças, sovelas e serras no interior.