Pássaro da Tempestade

Conn Iggulden · Capítulo 22 de 43

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Pássaro da Tempestade

Capítulo 16

 

William de la Pole subiu as escadas de madeira que espiralavam até o cômodo acima. Era um lugar espartano para um homem com autoridade sobre a prestigiada guarnição de Calais. Uma mesinha dava para um mar plúmbeo visível pelas seteiras estreitas nas paredes de pedra. William podia ver as ondas de crista branca à distância e ouvir os chamados onipresentes das gaivotas que giravam e sobrevoavam a costa. O cômodo estava muito frio, apesar do fogo que ardia na lareira.

O duque de York se levantou da cadeira quando William entrou, e os dois homens apertaram-se as mãos rapidamente antes que York lhe indicasse um assento e se instalasse. A expressão era sardônica quando cruzou as mãos sobre o cinto e se recostou.

— Como devo tratá-lo agora, William? Você tem tantos títulos novos pelas mãos do rei. Almirante da esquadra, é isso? Mordomo do rei? Conde de Pembroke? Ou talvez duque de Suffolk agora, assim como eu? Como você cresceu! Que nem pão quente. Mal consigo compreender que serviço à Coroa seria valioso a ponto de merecer tais recompensas.

William o fitou com calma, ignorando o tom zombeteiro.

— Desconfio de que sabe que me mandaram aqui para substituí-lo, Ricardo. Gostaria de ver a ordem real?

York fez um gesto de desdém.

— Mais uma coisa que Derry Brewer arrumou, não é? Tenho certeza de que está tudo certo. Pode deixá-la com meu criado quando sair, William, se é o que tem a dizer.

Com atenção ponderada, William retirou o rolo de um saco de couro surrado e o empurrou por cima da mesa. Um pouco contra a vontade, Ricardo de York olhou o selo imenso com expressão azeda.

— O rei Henrique o selou com as próprias mãos, em minha presença, milorde. Entra em vigor com minha chegada a Calais. Quer queira ler agora ou não, a partir deste momento o senhor está removido de seu cargo aqui.

William franziu o cenho com o próprio tom de voz. O duque de York perdia sua posse mais valiosa. Sem dúvida era um momento para ser generoso. Ele olhou pela janela as gaivotas e o mar, as ondas cor de ardósia e brancas, com a Inglaterra a apenas 32 quilômetros dali. Num dia claro, William sabia que a costa era visível de Calais, um lembrete constante do lar para o homem que se sentasse na torre e governasse em nome do rei.

— Lamento... ser o portador dessa notícia, Ricardo.

Para sua surpresa, York deu uma gargalhada, batendo na mesa com a mão aberta, sacudindo-se e ofegando.

— Ah, William, sinto muito, é só seu olhar sério, seus modos fúnebres! Acha que isso é meu fim?

— Não sei o que pensar, Ricardo! — retorquiu William. — O exército está parado em Calais e não dá um passo enquanto os súditos do rei são jogados nas estradas de Anjou e Maine. O que esperava, senão a demissão do cargo? Só Deus sabe que eu preferiria não vê-lo ser envergonhado dessa maneira, mas o rei ordena e, portanto, aqui estou. Não entendo sua alegria. E ainda ri! Perdeu o juízo?

York se controlou com dificuldade.

— Ah, William. Você sempre será um joguete nas mãos dos outros homens, sabia? Se há uma taça envenenada, aqui está. O que fará com meus soldados em Calais? Vai mandá-los para lá? Fará com que sirvam de babá de todos os andarilhos ingleses que voltam para casa? Não vão lhe agradecer por isso. Já ouviu falar das revoltas na Inglaterra? Ou será que seus ouvidos foram tapados por todos os novos títulos? Afirmo que este pergaminho não é nenhum favor a você, não importa o que diga. Boa sorte em Calais, William. Vai precisar dela e de muito mais.

Com um gesto brusco, York rompeu o selo, desenrolou a folha e a examinou por alto. Deu de ombros ao ler.

— Tenente da Irlanda, o homem do rei? Ótimo lugar para ver isso aqui desmoronar, não acha, William? Talvez eu preferisse algum lugar quente, mas tenho uma pequena propriedade lá no norte. É, acho que servirá.

Ele se levantou, enfiando o pergaminho na túnica e estendendo a mão direita.

— Soube que há luta em Maine, William. Você descobrirá que tenho um bom homem aqui, Jenkins. Ele distribui as moedas e estou sempre bem-informado. Vou lhe dizer que você é seu novo senhor na França. Pois, então. Lembranças à senhora sua esposa. Desejo-lhe sorte.

William se levantou devagar, aceitando a mão a ele oferecida e apertando-a. O aperto de mão de York era firme, a palma seca. William balançou a cabeça, desconcertado com o humor inconstante do outro.

— Minhas lembranças à duquesa Cecily, Ricardo. Se não me engano, ela está grávida.

Ricardo sorriu.

— Vai ter o bebê a qualquer momento. Ela começou a chupar pedaços de carvão, não é espantoso? Talvez a criança nasça no canal, agora que estamos partindo. Ou no mar da Irlanda, quem sabe? Sal e fuligem nas veias, com sangue dos Plantagenetas. Será um bom augúrio, William. Se Deus quiser que ambos sobrevivam.

William baixou a cabeça com a rápida oração, apenas surpreendendo-se quando York lhe deu um tapa no ombro.

— Agora você deve estar querendo trabalhar, William. Era meu costume manter um navio com a tripulação preparada o tempo inteiro para o comandante da guarnição de Calais. Creio que ele não fará objeção a que eu o use para voltar para casa. — York esperou enquanto William de la Pole balançava a cabeça em negativa. — Bom homem. Não vou mais incomodá-lo.

O duque foi a passos largos até a escada e William ficou sozinho na torre alta, com as gaivotas gritando no céu.

O barão Highbury ofegava ao puxar as rédeas, os pulmões parecendo virados do avesso e em carne viva de frio. Cada respiração doía como se ele sangrasse por dentro. Acima da barba, a pele pálida estava respingada de lama lançada pelos cascos da montaria. Ele parara num campo de plantações verdes em crescimento, com o vento frio soprando entre seus homens. Podia ver que estavam tão desgrenhados e exaustos quanto ele, com as montarias em situação ainda pior. Highbury passou a língua seca pela boca, sentindo a saliva colar os maxilares. Os cantis estavam todos vazios e, embora tivessem passado por dois riachos naquela manhã, não ousaram parar. Os franceses eram incansáveis na perseguição, e um gole era um preço alto a pagar por ser pego e massacrado.

O estado de espírito de Highbury era sombrio ao ver como eram poucos os que passaram por tudo com ele. No inverno anterior, levara quarenta cavaleiros consigo para Maine ao sul, os melhores dentre os mantidos pela família. Sabiam os riscos que corriam e mesmo assim foram voluntários. Só restavam 16, e o restante fora deixado para apodrecer em campos franceses. Naquela manhã, tinham sido vinte, mas quatro montarias mancavam e, quando as trombetas francesas soaram, foram alcançadas.

Ao pensar nisso, Highbury apeou com um gemido e ficou em pé um instante, a cabeça apoiada na sela, enquanto as pernas se desemperravam. Andou rapidamente em torno do cavalo castanho, passando as mãos para cima e para baixo nas pernas, verificando o calor. O problema estava ali, em cada articulação inchada. O cavalo estendeu a cabeça para trás ao seu toque para cumprimentá-lo com o focinho, e ele sentiu vontade de ter uma maçã, qualquer coisa. Ao subir mais uma vez na sela, Highbury cofiou a barba, puxando um piolho gordo das profundezas negras e esmagando-o entre os dentes.

— Certo, rapazes — disse. — Acho que para nós acabou. Sangramos o nariz deles e perdemos bons homens em troca.

Seus homens de armas escutavam com atenção, sabendo que a vida deles dependia de o barão considerar ou não satisfeita a honra da família. Todos viram o efetivo imenso que inundara a área nos últimos dias. Parecia que o rei francês havia convocado todos os camponeses, cavaleiros e nobres da França para irem a Maine, um exército que apequenava a força original.

— Alguém viu Woodchurch? Ou aquele palhaço vaidoso do Strange? Ninguém?

Highbury coçou a barba com força, quase zangado. Cavalgara quilômetros naquela manhã, perseguido insistentemente por tropas francesas em seus calcanhares. Não sabia sequer se Woodchurch fora derrubado ou ainda vivia. Mas Highbury não gostava da ideia de partir sem nada dizer. A honra exigia que voltasse, mesmo que fosse apenas para falar que partia. Woodchurch não era nenhum idiota, pensou. Se estivesse vivo, sem dúvida estaria procurando o caminho para o norte, agora que as cidades e os campos de Maine estavam cheios de soldados franceses.

Highbury sorriu, cansado para si. Vingara o assassinato do sobrinho, muitas e muitas vezes. Desobedecera às ordens de lorde York para ir a Maine, e desconfiava que haveria um acerto de contas por isso. Mesmo assim, forçara o rei francês a fugir de arqueiros e cavaleiros ingleses. Vira os soldados reais serem derrubados às centenas, e Highbury cobrara um preço pessoal de seis cavaleiros para acrescentar a sua ficha. Não bastava, mas era alguma coisa — e muito melhor do que ficar sentado a salvo em Calais enquanto o mundo desmoronava.

— Estamos 48 quilômetros ao sul da fronteira da Normandia, talvez um pouco menos. Nossos cavalos estão arrasados e, se algum de vocês se sente como eu, estarão prontos a se deitar e morrer bem aqui. — Alguns homens deram uma risadinha, e ele continuou: — Há uma boa estrada a menos de 7 quilômetros a leste. Se conseguirmos chegar lá, teremos um curso direto até o norte.

Alguns homens do pequeno grupo se viraram de repente ao ouvir o toque de uma trombeta. Highbury praguejou entre os dentes. Da altura da sela, não conseguia ver além da sebe mais próxima; assim, tirou os pés dos estribos e se ajoelhou na sela, sentindo quadris e joelhos rangerem. Ouviu a trombeta tocar de novo, soando perto. E novamente praguejou baixo, desta vez, ao ver oitenta ou noventa cavaleiros se movimentando por um caminho pelo morro mais próximo. Eles começaram a cortar caminho pela terra arada em sua direção, os cavalos com muita dificuldade para andar na lama viscosa.

— Cristo, eles nos viram — declarou, amargamente. — Corram, rapazes, e que o demônio pegue quem ficar para trás... senão os franceses pegarão.

Thomas Woodchurch se deitou. A mão estava no braço de Rowan, para mantê-lo imóvel mas também para dar algum consolo ao pai.

— Agora — avisou.

Os dois homens saíram cambaleando da vala e atravessaram a estrada. Thomas olhou para ambos os lados enquanto corriam e se agachavam do outro lado. Esperaram sem fôlego que um grito se elevasse ou que soasse uma trombeta que traria cavaleiros franceses a galope em busca deles. Segundos se passaram antes que Thomas soltasse a respiração.

— Ajude-me a levantar, rapaz — pediu, aceitando o braço e mancando por entre as árvores.

Thomas mantinha o sol à direita o máximo que podia, seguindo para o norte para ficar à frente dos homens que os caçavam. Conseguia sentir o ferimento que recebera se esticar e repuxar a cada passo. O sangue escorrido encharcara as calças do lado direito e a dor era incessante. Sabia que tinha agulha e linha enfiadas em alguma costura, se conseguisse encontrar um lugar para descansar pelo resto do dia. Caso estivesse sozinho, teria se escondido no mato alto e feito armadilhas para estrangular coelhos com alguns pedaços de barbante. A barriga roncou com o pensamento, mas ele tinha de manter Rowan a salvo, e continuou aos tropeços.

Chegou ao limite de um campo arado e, entre as árvores e os arbustos ao longo da beira, olhou o prado aberto, com todas as possibilidades de serem avistados e derrubados. Thomas se orientou mais uma vez. Conseguia ver cavaleiros à distância, felizmente seguindo para longe deles.

— Fique abaixado, Rowan. Há cobertura suficiente, e esperaremos um pouco aqui.

Cansado, o filho concordou com a cabeça, os olhos arregalados e aparentemente ferido. Nenhum deles dormia desde o ataque do dia anterior. Uma força imensa de lanceiros havia atacado os arqueiros. Dezenas de franceses tinham morrido, mas parecia que seus nobres lhes causavam mais pavor que os arqueiros ingleses. Se houvesse como arranjar mais flechas, Thomas achava que teriam conseguido detê-los, mas os arcos não serviam para mais nada depois que as aljavas se esvaziavam.

Eles tinham se espalhado, correndo por campos e fazendas que Thomas conhecia bem. Em certo momento, chegara a atravessar o campo a oeste de sua própria terra, provocando-lhe outro tipo de dor. Os franceses tinham incendiado seu lar, talvez apenas pelo prazer de destruir. O cheiro de fumaça pareceu acompanhá-los por quilômetros.

Ele se deitou de costas e, ofegante, olhou as nuvens cinzentas. Rowan continuou de cócoras, os olhos correndo de um lado para o outro atrás do inimigo. Ambos tinham visto o barão Strange ser morto, embora nenhum dos dois mencionasse o ocorrido. Thomas teve de admitir que o homem morrera bem, lutando até o fim, quando foi cercado e derrubado do cavalo com machados. Thomas sentira os dedos coçarem nessa hora, mas as flechas haviam acabado, e ele se obrigara a correr de novo quando cortaram a cabeça do barão.

— Você sabe costurar uma ferida? — perguntou Thomas em voz baixa, sem olhar o filho. — Está no lado direito, perto das costas. Acho que não consigo alcançar. Há uma agulha em meu colarinho, se você puder procurar.

Os braços e as pernas estavam pesados como chumbo, e ele só desejava ficar ali deitado e dormir. Sentiu Rowan remexer em sua camisa e puxar o valioso aço e a linha.

— Ainda não, rapaz. Deixe-me descansar um pouco.

Thomas estava exausto, sabia disso. A simples ideia de examinar a ferida era demais. O filho o ignorou, e ele estava cansado demais para reunir força de vontade suficiente para se sentar.

Rowan sibilou para si ao desnudar o corte profundo no quadril do pai.

— Como está? — quis saber Thomas.

— Nada bom. Tem muito sangue. Acho que consigo fechar. Já treinei em cachorros.

— Esse é... um grande consolo. Obrigado por me dizer — respondeu Thomas, fechando os olhos um instante. Parecia que a lateral do corpo estava em chamas, e ele achava que havia quebrado algumas costelas. Nem vira o soldado francês até que o sujeito pulara e quase o estripara. Se a lâmina não resvalasse no osso da bacia, já estaria morto.

Ele sentiu uma onda de tontura e enjoo enquanto estava ali deitado, ofegante.

— Filho, talvez eu desmaie. Se isso acontecer...

A voz sumiu, e Rowan ficou sentado a seu lado, esperando para ver se o pai falaria de novo. Olhou por entre os arbustos e respirou fundo. Do outro lado do campo havia soldados marchando. Conseguia ver uma série de lanças acima das sebes. Com um olhar de feroz concentração, Rowan começou a costurar o ferimento do pai.

Highbury sabia que não estava a mais de alguns quilômetros da fronteira da Normandia inglesa. As estradas estavam cheias de famílias de refugiados, e era um contraste estranho correr para salvar a vida enquanto passava por coches e carroças cheios de pertences pessoais, os donos se arrastando a pé pelo mesmo caminho. Alguns pediram sua ajuda, mas ele estava prestes a desmaiar e os ignorou. Atrás de Highbury, vinham os cavaleiros franceses, aproximando-se a cada passo.

Seus 16 homens foram reduzidos a oito depois de um longo dia. Com tantos soldados seguindo seus passos, ele sabia que não podia se virar e lutar, mas estava igualmente sem vontade de correr até a completa exaustão e ser pego tão facilmente quanto uma criança. A barba estava molhada de suor, e o cavalo às vezes tropeçava e cambaleava, um aviso de que logo cairia.

Highbury puxou as rédeas, olhando a armadura brilhante dos homens que o perseguiam. Não saberiam quem ele era, tinha quase certeza, só que fugia deles rumo ao território inglês. Bastava isso para que fossem atrás.

Ele viu um marcador de pedra que indicava a distância até Rouen. Eram apenas 10 quilômetros mais ou menos, porém longe demais. Estava acabado, as mãos congeladas e dormentes, o corpo reduzido a uma tosse seca e uma dor que parecia chegar à barba, até as raízes dos pelos doíam.

— Acho que eles me pegam, rapazes — avisou, sem ar. — Vocês devem continuar, se tiverem fôlego. É apenas uma hora de cavalgada, não mais, talvez até menos. Vou retardá-los o máximo que puder. Vocês me dão orgulho, e eu não mudaria nada se pudesse.

Três de seus homens não tinham parado com ele. Fracos pelos ferimentos, cavalgavam com o pescoço sem firmeza, os grandes cavalos de combate a trote. Os cinco restantes estavam apenas um pouco mais alerta; entreolharam-se e depois fitaram a estrada. O mais próximo removeu a manopla de metal e limpou o rosto.

— Meu cavalo não aguenta mais, milorde. Ficarei, se não se importar.

— Posso me render, Rummage — disse Highbury. — Você, eles só vão matar. Prossiga, agora! Vou segurá-los enquanto puder. Dê-me a satisfação de saber que salvei alguns de meus homens.

Rummage baixou a cabeça. Cumprira seu dever com a oferta, mas o território inglês estava a uma proximidade tentadora. Ele usou as esporas mais uma vez, e o cavalo cansado galopou, ultrapassando uma carroça e uma família miserável que se arrastava.

— Vá com Deus, milorde — gritou um dos outros ao se afastar, deixando Highbury sozinho na encruzilhada.

Ele ergueu a mão para eles em despedida, depois se virou e aguardou os perseguidores.

Não demorou muito para que alcançassem o solitário lorde inglês. Os cavaleiros franceses encheram o pequeno caminho e se espalharam em torno dele, praguejando contra outra família que se apertou nas sebes para deixá-los passar, o terror visível no rosto.

— Pax! Sou lorde Highbury. A quem estou me rendendo?

Os cavaleiros franceses ergueram a viseira para dar uma olhada no nobre barbudo grandalhão. O mais próximo estava com a espada em riste ao levar o cavalo até bem perto e pôr a mão no ombro de Highbury, apreendendo-o.

— Sieur André de Maintagnes. O senhor é meu prisioneiro, milorde. Pode pagar o resgate?

Highbury suspirou.

— Posso.

O cavaleiro francês sorriu com tamanha sorte. Continuou em inglês trôpego.

— E seus homens?

— Não. São apenas soldados.

O cavaleiro deu de ombros.

— Então cabe a mim aceitar sua rendição, milorde. Se me entregar sua espada e me der sua palavra, pode cavalgar a meu lado até eu encontrar um lugar para mantê-lo. Sabe escrever um pedido para que mandem o dinheiro?

— É claro que sei escrever — respondeu Highbury. Praguejando baixinho, soltou a espada longa e a entregou. Quando a mão do cavaleiro se fechou em torno dela, Highbury a segurou.

— Deixará meus homens partirem em troca de minha rendição?

Sieur André de Maintagnes riu.

— Milorde, eles não têm para onde ir, não mais. Não lhe disseram? O rei está vindo, e não parará até expulsar vocês, ingleses, para o mar.

Com um puxão, tirou a bainha das mãos de Highbury.

— Fique perto de mim, milorde — ordenou ele, virando o cavalo.

Os companheiros estavam bastante alegres com a ideia de um belo resgate a ser dividido.

Highbury pensou rapidamente em pedir comida e água. Como seu captor, o cavaleiro francês tinha a responsabilidade de fornecer essas coisas, mas, por enquanto, o orgulho de Highbury o manteve calado.

Eles voltaram pelo caminho que Highbury seguira durante a tarde inteira e, enquanto avançavam, via mais e mais cavaleiros e homens em marcha até olhar em volta em confusão consternada. Cavalgara tanto e tão depressa que deixara de compreender que todo o exército francês seguia para o norte atrás dele. Os campos estavam cheios deles, todos seguindo para a nova fronteira do território inglês na França.