Pássaro da Tempestade

Conn Iggulden · Capítulo 26 de 43

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Pássaro da Tempestade

Capítulo 20

 

Derry olhou pela janela da Torre das Joias em vez de encarar a expressão ameaçadora do orador William Tresham. Podia ver o vasto Palácio de Westminster do outro lado da rua, com a torre do relógio e Edward, o famoso sino. Quatro guardas parlamentares o tinham feito esperar na torre durante uma manhã inteira, incapaz de sair antes que o grande homem lhe concedesse a honra de sua presença.

Derry suspirou, contemplando através do vidro grosso de tom esverdeado que fazia o mundo do outro lado balançar indistinto. Ele sabia que Westminster Hall estaria concorridíssimo, com todas as lojas em seu interior realizando um próspero comércio de perucas, penas, papel: tudo e todos que pudessem ser requisitados pela Câmara dos Comuns ou pelos tribunais para administrar as terras do rei. Derry preferia estar lá em vez de onde estava. A Torre das Joias era cercada por fosso e muralhas, originalmente para proteger os valiosos pertences do rei Eduardo. Com apenas alguns guardas, funcionava igualmente bem para manter um homem prisioneiro.

Depois de se sentar confortavelmente a uma enorme escrivaninha de carvalho, Tresham pigarreou com ênfase deliberada. Relutante, Derry se virou para encará-lo, e os dois se fitaram com desconfiança mútua. O orador da Câmara dos Comuns ainda não tinha 50 anos, embora já tivesse servido a 12 parlamentos desde sua primeira eleição, aos 19 anos. Com 46, dizia-se que Tresham estava no ponto mais alto do poder, com uma fama de inteligência que provocava em Derry mais do que um pouco de cautela. Tresham o observava em silêncio, o olhar frio registrando cada detalhe, das botas respingadas de lama de Derry ao forro puído da capa. Era difícil ficar parado com aqueles olhos reparando em tudo.

— Mestre Brewer — começou Tresham depois de algum tempo. — Sinto que devo me desculpar por fazê-lo esperar tanto tempo. O Parlamento é uma amante exigente, como se diz. Ainda assim, não o prenderei por muito tempo, agora que nos decidimos. Lembro-lhe de que sua presença é uma cortesia a mim, pela qual tem minha gratidão. Só posso esperar lhe transmitir a seriedade de meus propósitos, de modo que o senhor não sinta que desperdicei o tempo de um homem do rei.

Tresham sorria ao falar, sabendo muito bem que Derry fora levado até ele pelos mesmos soldados armados que agora guardavam a porta da torre, dois andares abaixo. O espião-mor do rei não tivera opção nem aviso, talvez porque Tresham soubesse muito bem que ele teria desaparecido em silêncio ao primeiro sussurro de convocação.

Derry continuava a lançar um olhar furioso ao homem sentado diante dele. Antes da carreira na política, sabia que Sir William Tresham estudara para ser advogado. Na privacidade dos próprios pensamentos, Derry disse a si mesmo para ser cauteloso com o velho diabo com rosto de cavalo, com seus pequenos dentes quadrados.

— Não tem resposta para mim, mestre Brewer? — continuou Tresham. — Sei através de boas fontes que o senhor não é mudo, mas ainda não ouvi uma única palavra sua desde que cheguei. Não há nada que queira me dizer?

Derry sorriu, mas se refugiou no silêncio em vez de dar ao outro qualquer coisa que pudesse usar. Diziam que Tresham conseguia tecer uma teia grossa o suficiente para enforcar um homem partindo de uma faca e uma luva caída. Derry só observou Tresham pigarrear e folhear uma pilha de documentos que arrumara sobre a escrivaninha.

— Seu nome não está em nenhum destes documentos, mestre Brewer. Isto não é uma inquisição, pelo menos no que lhe diz respeito. Eu esperava que o senhor se dispusesse a auxiliar o orador da Câmara em seus inquéritos. As acusações que serão feitas estão no âmbito da alta traição, afinal de contas. Acredito ser possível afirmar que é seu dever, senhor, me ajudar do modo que eu achar adequado.

Tresham parou, erguendo as enormes sobrancelhas na esperança de um comentário. Derry trincou os dentes, mas se manteve calado, preferindo deixar o homem mais velho revelar o que sabia. Quando Tresham meramente o fitou de volta, Derry sentiu a paciência se esfarrapar da maneira mais irritante.

— Se isso é tudo, Sir William, preciso cuidar dos assuntos do rei. Como o senhor mesmo disse, sou um de seus homens. Eu não deveria ser detido aqui, não com atribuições mais importantes.

— Mestre Brewer! Mas é claro que o senhor está livre para sair a qualquer momento...

Derry se virou instantaneamente na direção da porta, e Tresham ergueu um único dedo ossudo como aviso.

— Mas... ah, claro, mestre Brewer, há sempre um “mas”, não é? Convoquei-o aqui para auxiliar meus inquéritos legais. Se escolher partir, serei forçado a supor que o senhor seja um dos homens do mesmo tipo que procuro! Nenhum homem inocente fugiria de mim, mestre Brewer. Não quando busco a justiça em nome do rei.

Contra sua vontade, o mau humor de Derry aumentou e ele voltou a falar, talvez se consolando com o corredor tão perto. Não passava de uma ilusão de fuga, com guardas no andar de baixo para detê-lo. Ainda assim, libertou a língua contra o bom senso.

— O senhor busca um bode expiatório, Sir William. Deus sabe que não pode envolver o rei Henrique nessas falsas acusações de traição, portanto, deseja encontrar algum inferior para enforcar e estripar para o prazer da população de Londres. O senhor não me engana, Sir William. Eu sei o que pretende!

O homem mais velho se recostou, confiante que Derry não iria embora, ou melhor, não poderia ir. Descansou as mãos cruzadas sobre os botões do casaco velho e, cansado, ergueu os olhos para o teto.

— Vejo que posso ser franco com o senhor. Não me surpreende, dado que fui levado a compreender sobre sua influência na corte. É verdade que seu nome não aparece em nenhum documento, embora, sem dúvida, seja dito por muitos. Não menti quando disse que o senhor não corria perigo, mestre Brewer. O senhor é apenas um servo do rei, apesar de seu serviço ser amplo e bastante variado, creio eu. Entretanto, permita-me ser claro, de homem para homem. Os desastres na França devem ser atribuídos a quem for responsável. Maine, Anjou e agora a Normandia foram perdidos, não, arrancados dos legítimos donos com morte, fogo e sangue! O senhor fica assim tão surpreso por haver um preço a ser pago por tamanho caos e má administração?

Com uma mórbida sensação de inevitabilidade, Derry viu para onde o homem o empurrava. Falou depressa para desviá-lo.

— O matrimônio na França foi a pedido do próprio rei, os termos aceitos por Sua Alteza Real até a última gota de tinta. O selo real está bem firme sobre tudo isso, Sir William. Será o senhor o homem que levará suas acusações ao rei? Desejo-lhe sorte. A aprovação real é imunidade suficiente, penso eu, para os desastres que menciona. Não nego os territórios perdidos e lamento a perda de cada fazenda e propriedade lá, mas essa busca frenética por culpados, por bodes expiatórios, está abaixo da dignidade do Parlamento e de seu orador. Sir William, há ocasiões em que a Inglaterra triunfa e outras em que... fracassa. Suportamos e prosseguimos. Não nos é adequado olhar para trás e apontar o dedo, dizendo: “Ah, isso não deveria ter acontecido. Aquilo não deveria ter sido permitido.” Esse ponto de vista só é concedido aos homens que olham para trás, Sir William. Para aqueles dentre nós com vontade de avançar, é como se entrássemos vendados numa sala escura. Nem todos os tropeços e passos em falso podem ser julgados depois de passado o momento nem deveriam ser.

Sir William Tresham parecia se divertir enquanto Derry falava. O velho advogado baixou o olhar e Derry se sentiu perfurado por olhos que viam e entendiam demais.

— Pelo seu raciocínio, mestre Brewer, nunca haveria punição para nenhum delito! O senhor nos faria dar de ombros e atribuir todos os fracassos ao azar ou ao destino. É uma visão curiosa e, devo dizer, uma percepção interessante do interior de sua mente. Quase desejo que o mundo pudesse funcionar assim, mestre Brewer. Infelizmente, não pode. Os que provocaram a ruína e a morte de milhares devem, por sua vez, ser levados à justiça! Tem de haver justiça, e é preciso cuidar para que haja!

Derry se viu respirando com força, os punhos se fechando e se abrindo de frustração ao lado do corpo.

— E a proteção do rei? — indagou.

— Ora, ela tem limites, mestre Brewer! Quando revoltas e assassinatos vis se espalham pelo país, desconfio que até a proteção do rei tenha seus limites. O senhor permitiria que os responsáveis por tamanha destruição ficassem impunes? A perda das terras da Coroa na França? O massacre de homens de alta posição? Se assim for, eu e o senhor discordamos.

Derry semicerrou os olhos, pensando outra vez no momento peculiar da convocação que o surpreendera e o levara a atravessar Londres até Westminster.

— Se meu nome não consta em lugar nenhum, por que estou aqui? — quis saber.

Para sua irritação, Tresham deu uma risada com um prazer que parecia genuíno.

— Fico surpreso por não ter feito essa pergunta desde o princípio, mestre Brewer. Um homem desconfiado talvez encontrasse falhas no tempo que demorou para chegar a esse ponto.

Tresham se levantou e olhou pela janela.

Perto do rio, o grande sino tocava naquele momento, atingido duas vezes para que todos soubessem que passavam duas horas do meio-dia. Tresham cruzou as mãos nas costas, como se desse uma aula a estudantes de direito, e o coração de Derry se apertou ante a confiança desanimadora do outro.

— O senhor é um sujeito fascinante, mestre Brewer. Lutou como homem do rei na França, há uns 16 anos, com alguma distinção, pelo que se diz. Depois disso, entrou para o serviço do velho Saul Bertleman como mensageiro e informante. Ambas ocupações arriscadas, mestre Brewer! Cheguei a ouvir dizer que o senhor lutou nos cortiços, como se a violência e o risco fossem coisas pelas quais anseia. Conheci Saul Bertleman há muitos anos, sabia? Não diria que éramos exatamente amigos, só que aprendi a admirar a qualidade das informações que conseguia fornecer. Mas o aspecto dele que permanece em minha mente talvez fosse sua maior virtude: cautela. Seu antecessor era um homem cauteloso, mestre Brewer. Por que um homem daqueles escolheria o senhor para sucedê-lo é algo que não consigo entender.

Tresham parou para observar o efeito de suas palavras. Seu prazer com uma plateia cativa era extremamente irritante, mas não havia nada que Derry pudesse fazer além de aguentar.

— Espero que ele tenha visto coisas que o senhor não vê — respondeu Derry. — Ou talvez o senhor não o conhecesse tão bem quanto pensa.

— É, suponho que seja possível — concordou Tresham, sua dúvida evidente. — Desde o primeiro momento em que comecei a examinar essa barafunda, essa confusão indescritível de vaidade, armistícios e arrogância, sussurram-me seu nome. Homens honestos o cochicham por trás das mãos, mestre Brewer, como se temessem que o senhor descobrisse que falaram comigo ou com meus homens. Seja qual for a verdade de seu envolvimento, parece-me mero bom senso mantê-lo sob meus olhos enquanto mando homens prenderem um amigo seu.

Derry sentiu uma mão fria apertar suas entranhas. A boca se mexeu, mas nenhuma palavra saiu. Tresham mal conseguia conter a satisfação ao sorrir na direção da torre do relógio.

— Lorde Suffolk deveria chegar hoje a Portsmouth, mestre Brewer, enquanto os sobreviventes esfarrapados de seu exército lambem as feridas em Calais. As notícias não são boas, embora eu ouse dizer que não preciso contar isso ao senhor.

Tresham indicou os documentos sobre a escrivaninha, os cantos da boca se franzindo com algo parecido com arrependimento.

— Seu nome pode não ser mencionado ali, mestre Brewer, mas o de William de la Pole, lorde Suffolk, está em quase todos eles. Pergunta por que está aqui? Foi a mensagem daquelas vozes sussurrantes, mestre Brewer. Avisaram-me que, se queria lançar redes, devia primeiro ter certeza de que o senhor não estivesse lá para cortá-las. Acredito que agora essa tarefa foi cumprida. O senhor pode partir, a menos, é claro, que tenha mais alguma pergunta. Não? Então diga a palavra “Pescador” aos guardas lá embaixo. — Tresham deu uma risada. — Uma ideia boba, sei disso, mas, se lhes disser a palavra, eles o deixarão passar.

Ele disse as últimas palavras para o ar vazio, ao mesmo tempo que Derry descia correndo os degraus. Perdera a maior parte do dia preso à disposição de Tresham. Seus pensamentos enlouqueciam enquanto corria pelo caminho e contornava a orla externa do palácio, seguindo para as balsas e o rio. A Torre de Londres ficava a quase 5 quilômetros dali, bem depois da curva do Tâmisa. Tinha homens lá que poderiam ser enviados à costa em cavalos velozes. Em disparada, ria de nervoso, os olhos brilhantes. O maldito Sir William Tresham era um inimigo perigoso, disso não havia dúvida. Mas, apesar de toda a sua inteligência, ele errara numa única coisa. William de la Pole não vinha para Portsmouth, a dois dias a cavalo e a sudoeste da cidade de Londres. Ele vinha para Folkestone, em Kent, e Derry era o único que sabia disso.

Estava sem fôlego quando chegou à plataforma de embarque, onde as balsas para membros do Parlamento aguardavam o tempo inteiro, dia e noite. Derry empurrou e passou por um cavalheiro idoso a quem ajudavam a descer, pulando a bordo do barco estreito e fazendo o dono praguejar quando a embarcação adernou e quase virou.

— Leve-me à Torre — pediu, acima dos protestos do barqueiro. — Um dobrão de ouro se remar como se sua casa estivesse em chamas.

Com isso, a boca do homem se fechou. Ele abandonou o velho que ajudava e tocou a testa rapidamente antes de pular e mergulhar os remos nas águas escuras.

— Eu detesto lutar na maldita neblina e na chuva — declarou Jack Cade enquanto andava. — As mãos escorregam, os pés escorregam, a corda do arco apodrece e a gente não consegue ver o maldito inimigo antes que ele nos alcance.

Paddy grunhiu encurvado a seu lado, tremendo enquanto andavam em fila. Apesar da irritação de Jack com o aguaceiro, ele supunha ser um tipo de bênção. Duvidava que o xerife de Kent tivesse muitos arqueiros à disposição. Manejar um arco e flecha era um talento valioso e os que o possuíam estavam todos na França para ganhar mais e sendo massacrados. Se os oficiais do rei em Kent tivessem pelo menos uma dezena de besteiros, estariam com sorte, mas na chuva forte as cordas afrouxavam e o alcance era reduzido. Se não estivesse se sentindo tão mal, encharcado e gelado, Jack agradeceria a Deus pela chuva. Mas não era o caso.

O ponto de vista de Paddy era, no máximo, um pouco pior. Sempre desconfiara de qualquer tipo de sorte. Não parecia ser a ordem natural das coisas, e, em geral, ficava mais feliz quando tinha azar. Porém marcharam por Kent quase sem incidentes a partir de Maidstone. O xerife do rei não estava na sede do condado quando foram procurá-lo. O exército de Cade capturara alguns de seus meirinhos perto da cadeia e os homens se divertiram enforcando-os antes de libertar os presos e queimar o local. Desde então, haviam andado como crianças no Jardim do Éden, sem ver nem ouvir os soldados do rei. A cada dia de paz, o humor de Paddy afundava mais ainda. Não se importava de passar as horas do dia treinando com ferramentas agrícolas em vez de armas, mas haveria punição e ajuste de contas, ele tinha certeza. O rei e seus bons lordes não permitiriam que perambulassem pelo campo à vontade, tomando e queimando tudo o que quisessem. Só a ideia de que não estavam sozinhos animava o espírito de Paddy. Ouvira notícias de revoltas em Londres e nos condados, todas deflagradas pelas queixas justificadas das famílias que voltavam da França. Paddy rezava toda noite para os soldados do rei estarem ocupados em algum outro lugar, mas, no fundo, sabia que eles chegariam. Tivera algumas semanas grandiosas com os Homens Livres de Kent, mas esperava lágrimas, e o tempo combinava com seu humor soturno.

A chuva se reduzira a uma garoa constante, mas havia uma neblina espessa em torno deles quando ouviram uma voz aguda gritar. Jack insistira em usar batedores, embora só tivessem roubado cavalos de arado para montar. Um dos voluntários era um escocês baixo e peludo chamado James Tanter. A imagem do homenzinho encarapitado no cavalo enorme quase reduzira Paddy às lágrimas de tanto rir quando a viu pela primeira vez. Todos reconheceram o sotaque forte de Tanter berrar um aviso em meio à chuva.

No mesmo instante Jack rugiu ordens para preparar armas. Tanter podia ser azedo, um chupadorzinho de haggis, como dizia Jack, mas também não era homem de gastar fôlego à toa.

Eles continuaram marchando, segurando ganchos e foices afiados, pás e até espadas velhas caso as tivessem encontrado ou tomado de meirinhos sem sorte. Cada homem ali fitava o cinza, procurando formas que pudessem ser de inimigos. Todos os ruídos estavam abafados, mas eles ouviram Tanter praguejar e seu cavalo ganir em algum ponto à frente. Paddy se virava de um lado para o outro, esforçando-se para escutar. Fazia barulho e engolia em seco de nervoso.

— Cristo nos salve, lá estão eles! — exclamou Jack, erguendo a voz num mugido. — Estão vendo? Agora, matem. Paguem um pouco do que lhes devem. Atacar!

As linhas de homens se desfizeram numa corrida desabalada pela lama grossa, os de trás observando os companheiros sumirem no turbilhão de neblina. Não conseguiam ver além de trinta passos adiante, mas, para Jack Cade e Paddy, esse pequeno espaço se enchia de soldados com boas espadas e cota de malha. Eles também foram avisados pelos gritos desesperados de Tanter, mas ainda havia confusão nas fileiras do xerife. Alguns pararam assustados ao ver os homens de Cade saírem como fantasmas da terra a sua frente.

Com um rugido, Cade atacou, erguendo o machado de lenhador acima da cabeça enquanto avançava. Foi um dos primeiros a alcançar os soldados do xerife e enterrou a lâmina larga no pescoço do primeiro homem que enfrentou. O golpe cortou fundo os elos da cota de malha e se prendeu, então teve de torcê-lo de um lado para o outro para livrar a lâmina, respingando-se de sangue. Em torno de Jack, seus homens avançavam. Rob Ecclestone não usava armadura e brandia apenas a navalha, mas fazia com ela um trabalho sangrento, passando pelos homens de armadura com um movimento rápido que os deixava sem ar, segurando a garganta. Paddy tinha uma foice de podar com a lâmina em forma de lua crescente, que segurava na horizontal. Enganchava com ela a cabeça dos homens, puxando-as quando a lâmina encontrava seu alvo. Os outros eram, em sua maioria, homens de Kent, e estavam zangados desde que os franceses os tinham expulsado. E tinham ainda mais raiva dos lordes ingleses que concordaram com aquilo. Naquele campo pantanoso perto de Sevenoaks, tinham a oportunidade de finalmente agir, e todos os discursos de Jack não eram nada perto daquilo. Eram homens furiosos com ferro afiado, e se despejaram sobre os soldados.

Jack cambaleou, praguejando com a dor silenciosa na perna. Não ousou olhar para baixo e correr o risco de ter a cabeça aberta no momento errado. Não tinha sequer certeza de ter sido cortado e não se lembrava de nenhum ferimento, porém a maldita coisa cedeu debaixo dele, o que o fez mancar e saltitar junto dos outros, balançando o machado ao avança. Ficou para trás apesar de todo o esforço, cambaleando sem parar enquanto os ruídos da batalha se afastavam.

Ele passou por cima de homens mortos e se desviou com cuidado dos feridos que gritavam. Sentia como se mancasse há um século, perdido na chuva sibilante que fazia o sangue do machado escorrer pelo braço e pelo peito. Na neblina, levou algum tempo para entender que não viria mais ninguém contra ele. O xerife mandara quatrocentos homens de armas, um verdadeiro exército naquelas circunstâncias. Eram homens mais que suficientes para sufocar uma rebelião de agricultores — a menos que fossem 5 mil, armados e enraivecidos. Os soldados promoveram um massacre sangrento a alguns Homens Livres de Cade, mas, na garoa e na neblina, nenhum dos lados vira o efetivo que enfrentava até não restarem mais homens para matar.

Jack estava com as botas tão cheias de lama que teve a sensação de que ficara dois palmos mais alto. Ofegava e suava, aumentando seu fedor. Mas ninguém vinha. Lentamente, um sorriso se espalhou pelo rosto de Jack.

— É só isso? — gritou. — Alguém consegue ver mais algum deles? Jesus, não podem já estar todos mortos! Rob?

— Ninguém vivo aqui — berrou o amigo à direita.

Jack se virou para a voz e, em meio à neblina, viu Ecclestone em pé sozinho, com os Homens Livres de Kent se afastando dele. Estava coberto de sangue alheio, uma figura rubra no redemoinho de vapor. Jack tremeu, sentindo mãos frias passarem por suas costas com a visão.

— O xerife não tinha um cavalo branco no escudo? — gritou Paddy de algum ponto à esquerda de Jack.

— Não tinha direito a ele, mas ouvi dizer que sim.

— Então ele está aqui.

— Vivo? — perguntou Jack, esperançoso.

— Estaria gritando se vivesse, com um ferimento desses. Ele se foi, Jack.

— Corte a cabeça dele. Vamos colocá-la numa estaca.

— Não vou cortar a cabeça dele, Jack! — respondeu Paddy. — Prenda o escudo em sua maldita estaca. É o cavalo de Kent, não é? Vai servir do mesmo modo.

Jack suspirou, lembrando-se novamente de que o irlandês tinha alguns escrúpulos esquisitos para um homem com sua história.

— Uma cabeça transmite melhor a mensagem, Paddy. Pode deixar que eu faço. Você arranje uma boa estaca e afie a ponta. Levaremos o escudo também, não se esqueça.

A falta de inimigos era lentamente percebida pelo exército esfarrapado, e vivas subiram aqui e ali, ecoando estranhamente pelos campos e parecendo tênues e exaustos, apesar de seu número. Jack passou por cima de dezenas de corpos para alcançar Paddy. Baixou os olhos para o rosto branco de um homem que nunca vira e ergueu o machado com satisfação, descendo-o com força.

— Para onde agora, Jack? — perguntou Paddy com espanto, olhando os cadáveres a toda volta. As botas chapinhavam em sangue, misturado à lama e à água da chuva.

— Estou pensando que temos um exército de verdade aqui — comentou Jack, absorto. — Que teve seu batismo de sangue e se saiu bem. Há espadas para tomarmos, além de escudos e cotas de malha.

Paddy ergueu os olhos da figura sem cabeça que fora o xerife de Kent. Na véspera, o xerife fora um homem temido em todo o condado. O irlandês olhou Jack com um fiapo de temor, os olhos se arregalando.

— Você não está pensando em Londres, está? Achei que era só conversa. É bem diferente de derrubar algumas centenas de homens do xerife, Jack!

— Bem, conseguimos, não foi? Por que não Londres, Paddy? Estamos a 50 ou 60 quilômetros de lá, com um exército. Mandaremos alguns rapazes para fazer o reconhecimento da região, ver quantos homens corajosos eles têm para guarnecer as barricadas. Estou lhe dizendo, nunca teremos uma oportunidade como esta. Podemos obrigá-los a limpar os tribunais, talvez, ou nos entregarem os juízes para enforcar, como enforcaram meu filho. Meu menino, Paddy! Você acha que já acabei? Com um machado na garganta deles, podemos obrigá-los a mudar as leis que o tiraram de mim. Eu o libertarei, Paddy Moran. Não, mais do que isso. Farei de você um maldito conde.

William de la Pole pisou cautelosamente nas docas, sentindo os anos e os hematomas. Tudo doía, ainda que ele não tivesse se ferido. Lembrava-se de uma época em que conseguia lutar o dia inteiro e depois dormir profundamente, só para se levantar e lutar de novo. Não havia dores nas articulações naquele tempo, nem um braço direito que parecia ter algo agudo se aprofundando no ombro, de modo que qualquer movimento o fazia tremer por dentro. Ele também se lembrava de que a vitória lavava tudo. De certa maneira, ver inimigos mortos ou em fuga fazia o corpo se curar mais depressa, tornava a dor menos cruel. Ele balançou a cabeça em pé, no cais, e olhou para a cidade de pescadores de Folkestone, cinzenta e fria no vento vindo do mar. Era mais difícil quando se perdia. Tudo era.

A chegada de seu navio não passara despercebida nem deixara de chamar a atenção dos pescadores da cidade, reunidos às dezenas nas ruas lamacentas. Não demorou para que seu nome fosse gritado entre eles. William viu sua raiva e a entendeu. Eles o responsabilizavam pelos desastres do outro lado do estreito canal. Não os condenava; sentia-se da mesma maneira.

Havia neblina no mar à luz fria da manhã. Não podia ver a França, embora sentisse Calais assomando às suas costas como se a cidade-fortaleza estivesse a apenas um passo do outro lado do mar. Era tudo o que restava, o último domínio inglês na França, além de alguns matagais na Gasconha que não sobreviveriam um ano. Ele voltara para organizar os navios que buscariam os feridos, afora a tarefa infeliz de relatar a vitória francesa a seu rei. William esfregou o rosto com força ao pensar nisso, sentindo a barba e o frio. As gaivotas mergulhavam e giravam no ar em toda a volta, e o vento o mordia enquanto ali ficava. Podia ver os pescadores apontando em sua direção e se virou para o pequeno grupo de seis guardas que trouxera consigo, todos tão surrados e cansados quanto ele.

— Três de vocês, tirem os cavalos do porão. O restante, fique com a mão no punho da espada. Não estou com vontade de conversar com homens irritados, não hoje.

Mesmo dizendo isso, os pequenos grupos de moradores locais cresciam; outros saíam das estalagens e das fábricas de velas ao longo do litoral em resposta à notícia de que lorde Suffolk em pessoa estava na cidade. Havia vários ali que tinham voltado da França nos meses anteriores e ficado na costa, sem dinheiro que os levasse além. Sua aparência era a dos mendigos que haviam se tornado, esfarrapados e imundos. Os braços finos golpeavam o ar, e o clima piorava a cada minuto. Os guardas de William se remexiam inquietos, entreolhando-se. Um deles gritou para que os outros se dirigissem rápido ao porão, enquanto dois seguravam o punho da espada e pediam a Deus que não fossem atacados num porto inglês depois de sobreviver à guerra na França.

Levou tempo para abrir as baias de madeira nas profundezas do navio, depois vendar cada uma das montarias e levá-las a salvo pela estreita prancha de desembarque até o cais de pedra. A tensão dos homens de William se aliviava conforme cada animal era selado e preparado.

Além das gaivotas e dos pescadores, um homem saiu correndo de uma taberna, passando depressa pela multidão e seguindo para as docas. Dois guardas de William puxaram a espada para ele quando se aproximou, e o homem parou de repente nos seixos, erguendo as mãos vazias.

— Pax, rapazes, pax! Não estou armado. Lorde Suffolk?

— Sou eu — respondeu William com cautela.

O homem respirou com alívio.

— Esperava o senhor dois dias atrás, milorde.

— Fui atrasado — declarou William com irritação.

A retirada para Calais fora uma das piores experiências de sua vida, com lanceiros franceses latindo em seus calcanhares o caminho inteiro. Metade de seu exército havia sido massacrada, mas ele não abandonara os arqueiros, nem quando parecia que nunca chegariam à fortaleza. Alguns tinham tomado cavalos sem cavaleiros ou corrido ao lado, segurando estribos soltos. Era um pequeno ponto de orgulho em meio ao fracasso, mas William não os deixara para serem torturados e dilacerados pelos cavaleiros franceses triunfantes.

— Trago uma mensagem, milorde, de Derihew Brewer.

William fechou os olhos um instante e massageou a ponte do nariz com uma das mãos.

— Então fale. — Como o homem permaneceu em silêncio, William abriu os olhos injetados e lhe lançou um olhar penetrante. — E então?

— Milorde, acho que é uma mensagem particular.

— Basta... me contar — pediu ele, absurdamente cansado.

— Devo avisá-lo de que há acusações de traição a sua espera em Londres, milorde. Sir William Tresham mandou homens a Portsmouth para prendê-lo. Devo lhe dizer: “É hora de fugir, William Pole.” Sinto muito, milorde, são essas as palavras exatas.

William se virou para seu cavalo e verificou a cilha com expressão azeda, dando um tapinha nas ancas do animal e depois apertando-a com cuidado. O pajem e todos os guardas esperavam que dissesse algo, mas ele pôs o pé no estribo e montou, dando uma olhada na multidão que ainda não ousara se aproximar e realmente ameaçá-lo. Ele pôs a bainha com cuidado ao longo da perna e segurou as rédeas antes de baixar os olhos para os guardas.

— O que foi?

Os guardas o olharam, perplexos. O mais próximo pigarreou.

— Queríamos saber o que pretende fazer, milorde Suffolk. A notícia é grave.

— Pretendo cumprir minha missão! — respondeu William secamente. — Pretendo voltar a Londres. Agora montem, antes que esses pescadores tomem coragem.

O mensageiro estava boquiaberto, mas William o ignorou. A notícia o deixara enjoado, mas na verdade não mudava nada, pensasse Derry o que pensasse. William tensionou o maxilar enquanto seus homens montavam. Ele não seria covarde. Manteve as costas rígidas ao fazer o cavalo andar, andar, por Deus, por entre pescadores. Algumas pedras foram atiradas, mas não o tocaram.

Thomas Woodchurch observou o duque de Suffolk passar. Já vira William de la Pole antes, de longe, e reconheceu os cabelos férreos e o porte ereto, embora o nobre tivesse emagrecido muito desde então. Thomas franziu a testa quando um imbecil jogou uma pedra. Sua expressão zangada foi notada por alguns pescadores próximos que assistiam aos procedimentos.

— Não se preocupe, rapaz — gritou um deles com forte sotaque. — O velho Jack Cade vai pegá-lo, Deus é testemunha.

Thomas se virou de repente para quem falava, um velho grisalho com mãos e braços peludos marcados pelas cicatrizes brancas da rede.

— Jack Cade? — indagou, incrédulo, dando um passo à frente.

— Ele tem um exército de homens livres. Vão pegar seu lindo cavaleiro, com aquele nariz empinado enquanto homens melhores passam fome.

— Quem é Jack Cade? — perguntou Rowan.

O pai o ignorou; estendeu a mão e segurou o barqueiro pelo ombro.

— Como assim, um exército? Jack Cade, de Kent? Já conheci um homem com esse nome.

O barqueiro levantou as sobrancelhas grossas e sorriu, revelando apenas um par de dentes numa extensão de gengiva castanha.

— Vimos alguns homens passarem para se juntar a ele no mês passado ou no anterior. Alguns têm de pescar, rapaz, mas, se gosta de cortar cabeças, Cade vai aceitá-lo.

— Onde ele está? — quis saber Thomas, apertando a mão no braço do homem que tentava se afastar e não conseguia.

— Ele é como um fantasma, rapaz. Ninguém consegue achar se ele não quiser. Vá para o norte e para o oeste, foi o que me disseram. Está em algum lugar lá pelos bosques, matando meirinhos e homens do xerife.

Thomas engoliu em seco. O ferimento no quadril ainda doía, a cura retardada pela fome e por dormir toda noite na praia, no vento e na chuva. Ele e Rowan vinham comendo peixe em fogueiras feitas com madeira que o mar jogava na costa e o que conseguissem encontrar. Não tinha dinheiro sequer para mandar uma carta à esposa e às filhas — e, se tivesse, teria comprado uma refeição. Seus olhos se acenderam como se a febre tivesse voltado.

— Aquele mensageiro, Rowan. Ele veio a cavalo, não veio?

Rowan abriu a boca para responder, mas o pai já andava na direção da taberna de onde vira o homem sair. Thomas teve de derrubar um cavalariço para pegar o cavalo, mas ele e o filho estavam magros e o animal, bem alimentado com cereais, era capaz de levar os dois. Passaram pelo mensageiro perplexo que retornou pouco depois. Os pescadores uivaram de tanto rir com a expressão consternada do homem ao ver seu cavalo ser levado embora, dando tapas no joelho e apoiando-se uns nos outros para continuar de pé.