Pássaro da Tempestade

Conn Iggulden · Capítulo 6 de 43

Páginas do PDF

Pássaro da Tempestade

Parte I

 

 

Anno Domini 1443

Sessenta e seis anos após a morte de Eduardo III

 

Ai de ti, ó terra, cujo rei é criança.

Eclesiastes 10, 16

1

 

A Inglaterra estava fria naquele mês. O gelo fazia os caminhos brilharem esbranquiçados na escuridão e se agarrava às árvores em cristais pendentes. Os guardas se curvavam e tremiam enquanto montavam guarda nas ameias. Nos cômodos mais altos, o vento suspirava e assoviava ao roçar nas pedras. O fogo na câmara parecia mais uma pintura pelo pouco calor que emanava.

— Eu me lembro do príncipe Hal, William! Eu me lembro do leão! Apenas mais dez anos e ele teria o restante da França a seus pés. Henrique de Monmouth era o meu rei, ninguém mais. Deus sabe que eu seguiria seu filho, mas esse menino não é como o pai. Você sabe disso. Em vez de um leão da Inglaterra, temos um cordeirinho para nos liderar em oração. Jesus Cristo, isso me dá vontade de chorar.

— Derry, por favor! Sua voz vai longe. E não darei ouvidos a blasfêmias. Não as permito entre os meus homens e espero algo melhor de você.

O homem mais jovem parou de andar e olhou para cima, uma luz intensa nos olhos. Deu dois passos rápidos e parou bem perto, os braços levemente dobrados, pendendo ao lado do dorso. Era meia cabeça mais baixo que lorde Suffolk, mas possuía uma compleição robusta e estava em boa forma. Raiva e força fervilhavam nele, sempre à flor da pele.

— Juro que nunca estive mais perto de nocauteá-lo, William — comentou. — São os meus homens que estão ouvindo. Acha que estou armando para você? É isso? Pois que ouçam. Sabem o que farei caso repitam uma única palavra.

Com o punho pesado, ele deu um soco de leve no ombro de Suffolk, desdenhando com uma risada o olhar severo do companheiro.

— Blasfêmia? — prosseguiu Derry. — Você foi soldado a vida inteira, William, mas fala como um padre pacífico. Eu ainda conseguiria derrubá-lo no chão. Essa é a diferença entre nós. Você lutará muito bem quando lhe ordenarem, mas eu luto porque gosto. É por isso que cabe a mim, William. É por isso que serei eu a achar o lugar certo para a faca e nele enfiá-la. Não precisamos de cavalheiros piedosos, William, não para isso. Precisamos de um homem como eu, um homem que consiga ver a fraqueza e não tema arrancar os olhos dela.

Lorde Suffolk franziu o cenho e respirou fundo. Quando estava com a corda toda, o espião-mor do rei conseguia misturar insultos e elogios numa grande enchente de fel. Quando se sente ofendido, disse Suffolk a si mesmo, nenhum homem consegue realizar nada. Ele desconfiava de que Derihew Brewer conhecia muito bem seus limites.

— Podemos não precisar de um “cavalheiro”, Derry, mas precisamos de um lorde para cuidar dos franceses. Você me escreveu, lembra? Atravessei o mar e deixei minhas responsabilidades em Orléans para lhe dar ouvidos. Portanto, eu apreciaria que me contasse seus planos, senão voltarei à costa.

— É assim, não é? Eu trago as respostas e tenho de dá-las ao meu bom amigo nobre para que ele leve toda a glória? Para que possam dizer “aquele William Pole, aquele conde de Suffolk, ele é inteligente mesmo”, enquanto Derry Brewer é esquecido.

— William de la Pole, Derry, como sabe muito bem.

Derry respondeu entre os dentes, a voz quase um rosnado.

— Ah, é? Você acha que essa é a hora de ter um lindo nome francês, é? Achei que era mais esperto, achei mesmo. O caso, William, é que eu o farei de qualquer modo, porque me preocupo com o que acontece com aquele cordeirinho que reina sobre nós. E não quero ver meu reino dilacerado por tolos e canalhas presunçosos. Tenho uma ideia, embora você não vá gostar dela. Só preciso saber se entende o que está em jogo.

— Eu entendo — declarou Suffolk, os olhos cinza desdenhosos e frios.

Derry sorriu para ele sem vestígio de humor, revelando os dentes mais brancos que Suffolk se lembrava de ter visto num homem adulto.

— Não, não entende — retrucou ele com desprezo. — O reino inteiro espera que o jovem Henrique seja metade do homem que o pai fora para terminar a obra gloriosa que ocupou metade da França e fez o precioso príncipe delfim deles correr como uma jovem menina. O povo está esperando, William. O rei tem 22 anos e seu pai era um autêntico guerreiro com essa idade. Lembra? O velho Henrique arrancaria os pulmões deles e os usaria como luvas só para manter as mãos aquecidas. Mas não o cordeiro. Não seu rapaz. O cordeiro não sabe comandar, o cordeiro não sabe lutar. Ele não tem nem barba, William! Quando perceberem que ele nunca virá, estaremos todos arruinados, compreende? Quando os franceses pararem de tremer de terror por causa do rei Henrique, o leão da maldita Inglaterra, será o fim. Talvez daqui a um ou dois anos haja um exército francês reunindo-se como um enxame de vespas para passar um dia de lazer em Londres. Um pouco de estupro e matança e tiraremos o chapéu para fazer reverência sempre que ouvirmos uma voz francesa. Você quer isso para suas filhas, William? Para os seus filhos? É isso o que está em jogo, William Inglês Pole.

— Então me diga como podemos levá-los a um armistício — pediu Suffolk devagar, mas com firmeza na voz.

Com 46 anos, ele era um homem grande, com uma massa de cabelo cinza-férreo que brotava da cabeça larga e caía quase até os ombros. Aumentara sua massa corporal nos últimos anos e, perto de Derry, se sentia velho. O ombro direito doía quase todos os dias e o músculo de uma das pernas, gravemente ferida anos antes, nunca havia se curado direito. William coxeava no inverno e conseguia sentir os espasmos de dor subindo perna acima ali, em pé na sala fria. Sua paciência estava se esgotando.

— Eis o que o menino me falou — respondeu Derry. — “Traga-me um armistício, Derry”, ele disse. “Traga-me paz.” Paz quando poderíamos tomar tudo com uma boa temporada em combate. Isso embrulhou meu estômago... e seu pobre pai deve estar se revirando no túmulo. Passei mais tempo nos arquivos do que seria justo pedir a qualquer homem de sangue rubro. Mas achei, William Pole. Achei algo que os franceses não recusarão. Você o levará a eles, que se afligirão e se preocuparão, porém não serão capazes de resistir. Ele terá o armistício.

— E você dividirá comigo essa revelação? — perguntou Suffolk, controlando o mau humor com alguma dificuldade. Derry era irritante, mas não se deixaria apressar, e ainda havia a suspeita de que o espião-mor gostava de fazer condes esperarem por sua palavra. Suffolk resolveu não dar a Derry a satisfação de se mostrar impaciente. Atravessou a sala para se servir de um copo d’água da jarra e o esvaziou em goles rápidos.

— Nosso Henrique quer uma esposa — explicou Derry. — Eles preferirão ver o inferno congelar a lhe dar uma princesa da realeza, como fizeram com seu pai. Não, o rei francês guardará as filhas para os franceses; portanto, nem darei a ele o prazer de recusar. Mas há outra casa da realeza, William: Anjou. O duque de lá tem pretensões formais a Nápoles, Sicília e Jerusalém. O velho Renato se diz rei e já faz dez anos que arruinou a família tentando reivindicar seus direitos. Ele pagou resgates maiores do que eu e você jamais veremos, William. E tem duas filhas, uma delas ainda não prometida e com 13 anos.

Suffolk balançou a cabeça enquanto enchia novamente o copo. Havia jurado se abster de vinho e cerveja, mas nesta ocasião realmente sentiu falta deles.

— Eu conheço o duque Renato de Anjou — avisou. — Ele detesta os ingleses. A mãe era muito amiga daquela garota, Joana d’Arc, e você se lembra muito bem, Derry, que a queimamos na fogueira.

— Mais do que correto — retrucou Derry. — Você estava lá, você a viu. Aquela cadelinha tinha um acordo com alguém, mesmo que não fosse com o diabo em pessoa. Não, você não está entendendo, William. Renato possui influência sobre o rei dele. Aquele pavão francês deve a Renato de Anjou a coroa, tudo. A mãe de Renato não lhe deu proteção quando ele arregaçou as saias e fugiu? Não mandou a pequena Joana d’Arc a Orléans para envergonhá-los ao atacar? Aquela família manteve a França, ou pelo menos o traseiro dela, em mãos francesas. Anjou é a chave dessa fechadura toda, William. O rei francês se casou com a irmã de Renato, pelo amor de Deus! Essa família é capaz de pressionar o reizinho deles... e tem uma filha solteira. Eles são o caminho de entrada, estou lhe dizendo. Examinei todos, William, todos os “lordes” franceses com três porcos e dois criados. Margarida de Anjou é uma princesa; o pai se rebaixou à mendicância ao tentar provar isso.

Suffolk suspirou. Era tarde e ele estava cansado.

— Derry, não adianta, mesmo que você tenha razão. Já me encontrei com o duque mais de uma vez. Lembro-me de ter reclamado comigo que os soldados ingleses riram de sua ordem de cavalaria. Ele ficou ofendidíssimo, me lembro bem.

— Então ele não deveria tê-la chamado de Ordem do Croissant, não é?

— Não é mais estranho do que a Ordem da Jarreteira, é? Seja como for, Derry, Renato não nos dará a filha, e certamente não em troca de um armistício. Poderia cobrar uma fortuna por ela, se a situação é tão ruim quanto você diz, mas uma trégua? Os franceses não são todos idiotas, Derry. Não fazemos uma campanha há uma década e a cada ano fica um pouco mais difícil manter as terras que temos. Eles possuem um embaixador aqui. Tenho certeza de que lhes conta tudo o que vê.

— Ele lhes conta o que eu o deixo ver; não se preocupe com isso. Tenho aquele garotinho perfumado sob controle. Mas não lhe contei o que vamos oferecer para fazer Renato suar e puxar a barra da veste do rei, implorando ao monarca que aceite nossos termos. Sem a renda das terras de seus ancestrais, ele é pobre como um arqueiro cego. E por quê? Porque nós as possuímos. Ele tem alguns velhos castelos esquecidos com vista para as melhores terras agrícolas da França, com bons soldados e ingleses se aproveitando delas. Maine e Anjou inteiros, William. Isso nos trará benefícios bem depressa. Isso nos conseguirá o armistício. Dez anos? Exigiremos vinte e uma maldita princesa. E Renato de Anjou tem influência sobre o rei. Os comedores de lesmas farão o possível e o impossível para dizer sim.

Suffolk esfregou os olhos, desapontado. Conseguia sentir o sabor do vinho na boca, embora não tocasse numa gota havia mais de um ano.

— Isso é loucura. Quer que eu ceda um quarto de nossas terras na França?

— Acha que gosto disso, William? — perguntou Derry, irritado. — Acha que não passei meses suando e procurando um caminho melhor? O rei disse: “Traga-me um armistício, Derry”; pois bem, aí está. Essa é a única coisa que dará certo e, acredite em mim, se houvesse outra maneira eu já teria encontrado. Se ele soubesse usar a espada do pai... Céus, se pelo menos ele conseguisse levantá-la, eu não teria essa conversa com você. Eu e você estaríamos lá outra vez, ao som das trombetas e com os franceses em fuga. Como ele não consegue fazer isso, e ele não consegue, William, você o conhece, esse é o único caminho da paz. Vamos lhe arranjar uma esposa também, para esconder o resto.

— Você já contou isso ao rei? — indagou Suffolk, mesmo sabendo a resposta.

— Se contasse, ele concordaria, não acha? — respondeu Derry com amargura. — “Você é quem sabe, Derry”, “Se é assim que você pensa, Derry”. Você sabe como ele fala. Eu conseguiria que concordasse com qualquer coisa. O problema é que qualquer um consegue. Ele é fraco assim, William. O máximo que podemos fazer é lhe arranjar uma esposa, dar tempo ao tempo e esperar um filho forte. — Derry viu a expressão de dúvida de Suffolk e fez um muxoxo. — Funcionou com Eduardo, não foi? O Martelo dos malditos Escoceses teve um filho fraco, mas e o neto? Gostaria de ter conhecido um rei como aquele. Não, eu conheci um rei como aquele. Conheci Henrique V. Conheci o leão da maldita Azincourt, e talvez seja o máximo que um homem possa esperar na vida. Mas, enquanto aguardamos um monarca adequado, precisamos de um armistício. O menino imberbe não está à altura de mais nada.

— Já viu algum retrato dessa princesa? — perguntou Suffolk, fitando a distância.

Derry riu com desdém.

— Margarida? Você gosta delas jovenzinhas, não é? E você é um homem casado, William Pole! Que importa a aparência dela? Margarida tem quase 14 anos e é virgem, isso é tudo o que importa. Poderia estar coberta de sinais e verrugas e o nosso pequeno Henrique diria “Se acha que devo, Derry”, e essa é a pura verdade.

Derry ficou ao lado de Suffolk, reparando que o homem mais velho parecia mais encurvado agora do que quando entrara.

— Eles conhecem você na França, William. Conhecem seu pai e seu irmão e sabem que sua família paga o que deve. Eles darão ouvidos se você lhes levar essa ideia. Ainda teremos o norte e todo o litoral. Ainda teremos Calais e a Normandia, a Picardia, a Bretanha... tudo até Paris. Se pudéssemos manter tudo isso além de Maine e Anjou, eu desfraldaria os estandartes e marcharia com você. Mas não podemos.

— Preciso ouvir isso do rei antes de voltar — comentou Suffolk, a expressão soturna.

Derry desviou o olhar, pouco à vontade.

— Tudo bem, William. Entendo. Mas você sabe... Não, tudo bem. Você o encontrará na capela. Talvez consiga interromper suas orações, não sei. Ele concordará comigo, William. Ele sempre concorda, e como!

Por uma faixa de grama congelada que estalava sob os pés, os dois homens andaram no escuro até a capela do Castelo de Windsor, dedicada à Virgem Abençoada, a Eduardo, o Confessor, e a são Jorge. À luz das estrelas, com a respiração formando uma névoa a sua frente, Derry fez um sinal com a cabeça aos guardas da porta externa ao atravessarem para o interior iluminado por velas, quase tão frio quanto a noite lá fora.

A princípio, a capela parecia vazia, embora Suffolk sentisse a presença e depois vislumbrasse homens em pé entre as estátuas. De túnica escura, eram quase invisíveis até se moverem. Os passos na pedra ecoaram no silêncio quando os vigias caminharam até os dois homens, o rosto enrijecido pela responsabilidade. Por duas vezes Derry teve de esperar até ser reconhecido antes de seguir caminho pela nave em direção à figura solitária em oração.

O assento do monarca estava quase completamente envolto por madeira esculpida e dourada, iluminado por lâmpadas fracas que pendiam acima. Henrique quedava-se ali ajoelhado, as mãos postas à frente, contraídas e rígidas. Os olhos estavam fechados. Derry suspirou suavemente para si. Por algum tempo, ele e Suffolk só ficaram ali à espera, fitando o rosto erguido de um menino, iluminado em ouro em meio à escuridão. O rei parecia angelical, mas partia o coração dos dois ver como era jovem, como parecia frágil. Diziam que seu nascimento havia sido muito complicado para a mãe francesa. Ela tivera sorte em sobreviver, e o menino nascera arroxeado e sem ar. Nove meses depois, o pai, Henrique V, morrera, arrancado da vida por uma doença ordinária após sobreviver a uma vida inteira de guerras. Alguns diziam que fora uma bênção o rei não ter vivido para ver o filho crescido.

Na penumbra, Derry e Suffolk se entreolharam em silêncio, compartilhando a mesma sensação de perda. Derry se aproximou.

— Isso ainda pode durar horas — sussurrou no ouvido de Suffolk. — Você terá de interromper, senão ficaremos aqui até de manhã.

Em resposta, Suffolk soltou um pigarro, o som saindo mais alto do que pretendera no silêncio retumbante. Os olhos do jovem rei se abriram aos poucos, como se retornasse de muito longe. Devagar, Henrique virou a cabeça e percebeu os dois homens ali, parados. Piscou e depois sorriu para ambos, fazendo o sinal da cruz e murmurando uma última oração antes de se levantar sobre pernas rígidas, resultado de horas de imobilidade.

Suffolk observou o rei mexer na trava do assento e depois descer e se aproximar. Henrique deixou para trás a poça de luz, de modo que não podiam ver seu rosto quando estavam cara a cara com o jovem rei.

Os homens se ajoelharam, os joelhos de Suffolk protestando. Henrique deu uma risadinha sobre as cabeças abaixadas.

— Meu coração se alegra ao vê-lo, lorde Suffolk. Vamos, levante-se. O chão está frio demais para os velhos. Tenho certeza disso. Ouço minha camareira se queixar, embora ela não saiba que estou lá. É mais nova que o senhor, acho. Levantem-se os dois, antes que peguem um resfriado.

Quando se levantou, Derry abriu a portinhola da lâmpada que trazia, espalhando luz pela capela. O rei usava roupas simples, apenas lã preta comum e sapatos de couro grosseiro como qualquer súdito. Não usava ouro e, com a aparência de menino, poderia ser aprendiz de algum ofício que não exigisse muita força.

Suffolk vasculhou o rosto do rapaz atrás de algum vestígio do pai, mas os olhos eram inocentes e sua estrutura mais delgada, sem sinais da força imensa de sua linhagem. Por pouco não viu as ataduras nas mãos de Henrique. Seu olhar se fixou nelas, e o rei as ergueu para a luz, o rosto corado.

— Treino de esgrima, lorde Suffolk. O velho Marsden diz que ficarão mais resistentes, porém elas não param de sangrar. Pensei por algum tempo... — Ele parou no meio da frase, erguendo um dedo dobrado para tocar de leve na boca. — Não, o senhor não veio da França para ver minhas mãos. Veio?

— Não, Vossa Graça — respondeu Suffolk gentilmente. — Pode me conceder um momento? Estive conversando com mestre Brewer sobre o futuro.

— De Derry, nada de cerveja! — comentou Henrique. — Mestre Brewer,

o único mestre-cervejeiro sem cerveja!*

A piada com aquele sobrenome era antiga, mas os dois homens mais velhos deram a risadinha usual. Henrique abriu um largo sorriso para eles.

— Na verdade, não posso sair deste lugar. Tenho permissão de fazer uma pausa de hora em hora, para tomar ou eliminar água, mas depois devo voltar a minhas orações. O cardeal Beaufort me contou o segredo e o fardo não é tão pesado assim.

— O segredo, Vossa Graça?

— De que os franceses não virão enquanto o rei permanecer em oração, lorde Suffolk! Com minhas mãos, mesmo enfaixadas assim, eu os mantenho afastados. Não é maravilhoso?

Suffolk respirou lentamente, praguejando em silêncio contra a tolice do tio-avô do rapaz. Não havia propósito em fazer Henrique desperdiçar as noites daquela maneira, embora Suffolk imaginasse que aquilo pudesse tornar tudo mais fácil para os que o cercavam. Em algum lugar ali perto, o cardeal Beaufort estaria dormindo. Suffolk resolveu acordá-lo e obrigá-lo a se juntar ao rapaz em oração. Afinal de contas, as orações de um rei só poderiam ser ratificadas com as de um cardeal.

Derry escutara atentamente, aguardando para falar.

— Mandarei os homens saírem, milorde Suffolk. Vossa Graça, com sua permissão. É uma questão particular, melhor não ser ouvida.

Henrique fez um gesto para que continuasse, enquanto Suffolk sorria pelo tom formal. Apesar de todo seu azedume e desdém, Derry era cauteloso na presença do rei. Não haveria blasfêmias naquela capela, não vindas dele.

O rei pareceu não notar a meia dúzia de homens que Derry fez sair da capela na noite gelada. Suffolk era suficientemente cético para desconfiar que um ou dois permaneciam nas alcovas mais escuras, porém Derry conhecia os próprios homens e a paciência de Henrique já se dissipava, seu olhar voltando para o lugar de oração.

Suffolk sentiu uma onda de afeição pelo jovem rei. Observara Henrique crescer com as esperanças de haver um reino inteiro nos ombros. Vira aquelas esperanças titubearem e depois se esfarelarem em desapontamento. Só podia imaginar como fora difícil para o próprio menino. Henrique não era burro, apesar de todas as suas esquisitices. Já teria ouvido todos os comentários maldosos direcionados a ele com o passar dos anos.

— Vossa Graça, mestre Brewer nos ofereceu um plano para negociar ao mesmo tempo uma esposa e um armistício em troca de duas grandes províncias da França. Ele acredita que os franceses concordarão com a trégua em troca de Maine e Anjou.

— Uma esposa? — questionou Henrique, piscando.

— Sim, Vossa Graça, visto que a família em questão tem uma filha adequada. Eu queria... — Suffolk hesitou. Não podia perguntar se o rei entendia o que estava dizendo. — Vossa Graça, há súditos ingleses morando tanto em Maine quanto em Anjou. Serão expulsos se cedermos esses territórios. Gostaria de lhe perguntar se não é um preço alto demais a pagar por um armistício.

— Precisamos de um armistício, lorde Suffolk. Precisamos. É o que meu tio, o cardeal, diz. Mestre Brewer concorda com ele, embora não tenha cerveja! Mas me fale dessa esposa. Há algum retrato?

Suffolk fechou os olhos um instante e depois os abriu.

— Mandarei pintar, Vossa Graça. Mas voltemos ao armistício. Maine e Anjou são a quarta parte meridional de nossas terras na França. Juntas, são do tamanho do País de Gales, Vossa Graça. Se cedermos toda essa terra...

— Como se chama essa menina? Não posso chamá-la de “menina” nem mesmo de “esposa”, posso, lorde Suffolk?

— Não, Vossa Graça. Ela se chama Margarida. Margarida de Anjou, na verdade.

— O senhor irá à França, lorde Suffolk, e a verá por mim. Quando retornar, quero saber de todos os detalhes.

Suffolk escondeu o desapontamento.

— Vossa Graça, entendi corretamente que o senhor se dispõe a perder terras na França em troca da paz?

Para sua surpresa, o rei se aproximou para responder, os olhos azul-claros cintilando.

— É como o senhor diz, lorde Suffolk. Precisamos de um armistício. Dependo do senhor para realizar meus desejos. Traga-me um retrato dela.

Derry retornara enquanto a conversa se desenrolava, o rosto cuidadosamente neutro.

— Tenho certeza de que Sua Alteza Real gostaria de voltar agora a suas orações, lorde Suffolk.

— Gostaria, sim — respondeu Henrique, erguendo a mão enfaixada para se despedir. Suffolk pôde ver uma mancha vermelho-escura no centro da palma.

Eles fizeram uma reverência diante do jovem rei da Inglaterra, que voltou a seu lugar e se ajoelhou, os olhos fechando-se devagar, os dedos entrelaçando-se como uma tranca.

Nota

* Brewer, do inglês, mestre-cervejeiro. (N. do T.)