Pássaro da Tempestade
Capítulo 15
Thomas Woodchurch saiu pela encosta verde, o arco pronto. Tinha uma dúzia de flechas na aljava e uma no arco enquanto andava em silêncio em direção aos cavaleiros travados em sua própria formação de batalha. Cada passo parecia potencializar o ruído, até que os choques e os guinchos de metal em metal golpearam seus ouvidos. Para ele era uma música antiga, uma canção que conhecia desde as primeiras lembranças, como a canção de ninar parcialmente recordada de uma ama de leite. Sorriu ao pensar naquilo, divertido com a própria imaginação ao descer o morro. A mente era uma coisa estranha.
Os cavaleiros franceses se concentravam em Highbury e em sua pequena força sitiada. Era a violência que eles mais conheciam, contra homens que compreendiam a honra. Cada um que saía das árvores rugia em desafio ao ver a confusão do combate, forçando os cavalos cansados a um último galope para levá-los contra as bordas e os cavaleiros ingleses de armadura. Rachavam as lanças nos homens de armas de Highbury quando conseguiam alcançá-los, depois erguiam machados ou puxavam espadas longas para o primeiro golpe esmagador.
A menos de 200 metros, do outro lado do campo, estava Thomas em pé, sozinho, observando a luta cruel enquanto punha as flechas espaçadas na terra macia. Ficou parado mais um momento, jogando os ombros para trás e sentindo o cansaço dos músculos.
— Pois bem — murmurou. — Vejam o que tenho para vocês.
Ele tomou o cuidado de mirar ao longo da primeira haste longa ao puxar a corda; os homens de Highbury estavam no meio dos cavaleiros franceses e, com a armadura respingada de sangue e lama, era difícil ter certeza de quem era quem.
Thomas inspirou fundo e devagar, apreciando a força do braço e do ombro quando o nó do dedo tocou o mesmo ponto de sempre na bochecha. Alguns homens gostavam de posicionar a flecha entre dois dedos. Thomas sempre achara que segurar a corda mais abaixo era mais natural, de modo que a haste emplumada ficava acima do indicador. Então, tudo que precisava fazer era abrir a mão, fácil como respirar. A duzentos passos, podia escolher bastante bem os alvos.
O arco estalou e ele soltou a corda, fazendo uma flecha zumbir até as costas de um soldado que atacava Highbury. As placas das costas da armadura de um cavaleiro nunca eram tão grossas quanto as do peito. Thomas sabia que era quase uma questão de honra, de modo que, se um cavaleiro se virasse para correr, ficaria mais e não menos vulnerável. A ponta endurecida da flecha penetrou certeira, perdendo as plumas, que explodiram com uma fumaça branca.
O cavaleiro gritou e caiu de lado, deixando um espaço, e Highbury viu, no meio da confusão, onde Thomas estava. O lorde barbudo riu. Thomas conseguiu ouvir o som com clareza ao puxar o arco de novo e começar o ritmo assassino que conhecera a vida inteira.
Tinha apenas 12 flechas pesadas, contando as que Rowan lhe entregara. Thomas teve de se obrigar a desacelerar, para ter certeza de cada disparo. Com as quatro primeiras, matou os homens em torno de Highbury, dando ao nobre espaço para respirar. Thomas conseguia ouvir gritos enraivecidos vindo dos cavaleiros franceses mais distantes, que giravam na sela, espiando pelas fendas do elmo para ver de onde vinham as flechas. Sentiu a boca secar e sugou os dentes ao mandar mais duas, vendo-as atingir cavaleiros que não viram a ameaça nem o homem que os matou.
Pelo canto do olho, Thomas avistou uma armadura prateada crescer em sua direção. Sabia que viriam depressa, as lanças abaixadas para derrubá-lo. Firmou as pernas, mantendo-se em equilíbrio, ajustando as flechas, lançando-as. Mais homens caíam, e Highbury reagia, usando o presente que recebera para berrar ordens aos homens que lhe restavam. Um dos cavaleiros franceses galopou rumo a Highbury com a maça cheia de pontas erguida para esmagar a cabeça descoberta do nobre. Thomas o atingiu com um disparo rápido, quase sem mirar. A flecha afundou debaixo do braço erguido do cavaleiro e a maça caiu dos dedos repentinamente inertes. Highbury girou a espada e esmagou o pescoço do homem com alegria voraz.
Do alto da sela, Highbury podia ver a figura solitária em pé no capim verde, com as poucas flechas restantes. Embora Thomas parecesse pequeno à distância, por um instante Highbury teve a sensação de enfrentar ele mesmo aquele arqueiro terrível. Engoliu em seco. Um único homem eliminara vários, mas Highbury podia ver uma linha de cavaleiros trovejando rumo ao arqueiro. Eles odiavam arqueiros ingleses, odiavam-nos como o demônio. Desprezavam o fato de homens comuns brandirem armas de tanto poder e ousarem usá-las sem honra no campo de batalha. Mais que todos os outros grupos, os franceses tinham antigas recordações daqueles arcos sonoros que os massacraram em diversos campos de batalha. Alguns até se afastaram dos cavaleiros de Highbury em sua fúria e desejo de ser o primeiro a assassinar o arqueiro.
Highbury virou o cavalo com um puxão das rédeas, sentindo de repente os ferimentos e os hematomas antes despercebidos. A linha das árvores ficava morro acima, e ele usou as esporas, fazendo sangue fresco correr pelos flancos do animal.
— Voltem, rapazes! Voltem para as árvores agora! — gritou.
Ele subiu o morro em disparada, tentando olhar para trás para testemunhar o desfecho daquilo tudo. Seus homens foram com ele, enlouquecidos e ofegantes, refestelando-se nas armaduras. Alguns estavam cansados demais, lentos demais. Foram cercados pelos franceses e não conseguiram se defender contra tantos. As maças martelaram grandes depressões nas armaduras, quebrando os ossos por baixo. Machados deixaram fendas afundadas correndo rubras no metal, as vidas escorrendo sobre os cavalos fumegantes.
Do outro lado do prado, Thomas estendeu a mão para pegar uma flecha e os dedos só encontraram o ar. Levantou os olhos e viu dois cavaleiros franceses galoparem em sua direção, as lanças voltadas para seu peito. Não sabia se fizera o suficiente. Ergueu a cabeça com raiva cega, tentando engolir o medo enquanto o som do trovão dos inimigos se despejava sobre ele e enchia o mundo.
O sol pareceu ficar mais forte, de modo que conseguiu ver cada detalhe dos cavalos e homens que vinham matá-lo com tanta velocidade. Pensou em lançar o arco no primeiro para atingi-lo, talvez fazendo o cavalo empinar e se virar. A mão se recusou a largar a arma, e ali permaneceu, em campo aberto, sabendo que daria na mesma correr ou ficar.
Rowan estava sozinho à sombra dos carvalhos, vendo a cena se desenrolar. Os outros tinham partido, mas ele ainda estava ali, observando por entre as folhas verdes os homens que lutavam a distância. Rowan vira a sinistra aceitação nos olhos do pai e não conseguia partir nem desviar o olhar. Observou com orgulho feroz o pai derrubar meia dúzia de cavaleiros, atingindo-os. O medo cresceu dentro dele ao perceber que tinham avistado o arqueiro solitário e começado a se desviar para massacrá-lo. Rowan respirou com força ao ver o pai lançar as últimas flechas, usando-as para salvar Highbury e não a si mesmo.
— Corra agora, pai! — disse para si mesmo.
O pai ficou lá, enquanto os inimigos aceleravam em sua direção e as pontas das lanças começavam a baixar.
Rowan ergueu o punho direito, mensurando a amplitude na horizontal, virando-o três vezes. Balançou a cabeça, tentando se lembrar de como ajustar para atirar para baixo. Em desespero, tensionou o arco. Os outros arqueiros tinham lhe passado somente uma flecha cada, até que ele ficasse com uma dúzia. Desejaram-lhe sorte, correram morro acima e o deixaram sozinho com o som da respiração, apenas um pouco mais alto do que os choques e os berros mais abaixo.
A distância era de mais de quatrocentos passos, um pouco menos do que quinhentos. Seria um tiro mais longo do que todos que Rowan já tentara, isso era certo. Havia uma leve brisa, suficiente para que fizesse um pequeno reajuste quando a flecha emplumada com penas de ganso fez cócegas em sua bochecha e o poder do arco se contraiu em seu peito e ombro. Ele se inclinou para trás a partir da cintura, acrescentando ao ângulo a largura de duas mãos.
Quase perdeu a flecha alta no ar ao ouvir passos se aproximarem correndo. Reduzindo a tensão na corda, Rowan se virou, o estômago e a bexiga se contraindo com a ideia de enfrentar lanceiros armados. Relaxou ao ver que era o grupo de arqueiros, dando risadas ao ver o terror que lhe causaram. O primeiro a alcançá-lo lhe deu um tapinha no ombro e espiou o vale.
— Temos umas duas dúzias de flechas no total, e depois acabou. Bert aqui só tem uma.
Não havia tempo para lhes agradecer por arriscar a vida mais uma vez quando podiam estar fugindo para se salvar. Rowan tensionou o arco de novo, as mãos firmes.
— Quatrocentos e dez metros, mais ou menos. Três palmos de descida do terreno.
Enquanto falava, fez a primeira flecha voar, sabendo, assim que ela partiu, que erraria o alvo. Todos observaram o voo com olhos de homens experientes.
Nos meses anteriores, Thomas tentara explicar trigonometria e táticas de disparos descendentes aos arqueiros de Highbury. O pai de Rowan havia aprendido a arte com um instrutor do exército que gostava de matemática. À noite, nos acampamentos, Thomas desenhara formas na terra para transmitir seu conhecimento: curvas, linhas, ângulos com letras gregas. Os arqueiros de Highbury tinham sido educados, mas só alguns prestaram atenção. Eram todos homens na flor da idade, escolhidos cuidadosamente para acompanhar o barão. Treinavam tiro com arco todo dia, inclusive aos domingos, havia duas ou até três décadas. Sua habilidade e sua força foram constituídas sem competência nem cálculo, mais ou menos como a capacidade de uma criança de apontar um passarinho em voo veloz. Rowan soltou a segunda flecha e eles puxaram os arcos para acompanhá-lo, de modo que dez ou 12 flechas voaram uma fração de segundo depois.
Rowan teve de se ajustar rapidamente para entrar no clima. A segunda flecha pareceu errada, mas ele atirou outras quatro que seguiram de perto a trajetória que ele via na cabeça. Os arqueiros de Highbury lançaram a segunda dúzia, e Rowan atirou cada flecha o mais depressa que podia, sentindo a mira melhorar. Em terreno plano, não conseguiria atingir os homens que atacavam seu pai. Com o declive, podia mirar mais alto, atingi-los e derrubá-los. Quando a última flecha se foi, ele a observou voar, repentinamente indefeso.
— Agora, corra, pai! Apenas corra — sussurrou, os olhos fixos.
Thomas ouviu as flechas antes de vê-las. Elas zumbiram no ar, as hastes vibrando ao se aproximarem. Por instinto, olhou para cima a tempo de ver um grupo delas chegar como um risco escuro.
Com um ruído abafado, as duas primeiras afundaram até as penas no chão diante dos cavaleiros que o atacavam. O grupo seguinte foi mais bem direcionado para a distância, raspando o ombro de uma armadura e atingindo um cavalo, saindo rígida do flanco do animal. Em poucos instantes, vieram mais três. Uma atingiu o alto de uma sela e ricocheteou, enquanto as duas últimas atingiram em cheio a carne do cavalo, entrando nela quase até o fim. As pesadas cabeças de aço mergulharam profundamente, fazendo os animais guincharem e cambalearem. Thomas viu um borrifo de fina névoa rubra quando um cavalo empinou, os pulmões dilacerados.
Dois cavaleiros que o atacavam puxaram as rédeas com força, fitando as árvores acima. A sensação fria de paz foi destroçada quando Thomas caiu em si. Deu uma rápida olhada em volta e o coração bateu forte.
— Merda! — berrou.
Saiu em disparada, esquivando-se e correndo morro acima. Esperava sentir a agonia de uma lança entre os ombros a qualquer momento, mas, quando olhou para trás, os cavaleiros franceses haviam recuado e o olhavam com ódio. Acharam que era outra emboscada, percebeu com satisfação, com ele como isca. Não tinha mais fôlego para rir enquanto continuava a correr.
Quando a noite cinzenta se esgueirou sobre o vale, o rei Carlos foi fazer a contagem brutal do combate do dia. Os homens da infantaria haviam vasculhado a área e a declararam suficientemente segura para garantir sua presença real, embora os guardas ainda vigiassem e cavalgassem em torno dele. Tinham sido emboscados vezes demais nas semanas anteriores. Perto do rei, só restavam mortos e feridos ainda aos gritos, até serem silenciados. Os ingleses eram cortados ou estrangulados no local, e os cavaleiros feridos eram levados para serem tratados pelos médicos do exército. No ar que escurecia, podiam-se ouvir seus gemidos num coro de sofrimento.
O rei parecia pálido e irritado ao percorrer o campo, parando primeiro onde Highbury fizera seu ataque e depois se afastando para ver onde um arqueiro solitário conseguira atirar de uma distância segura. O rei coçou a cabeça ao imaginar a cena, convencido de que pegara piolho outra vez. Disseram-lhe que aquelas coisas malditas pulavam dos mortos. E havia muitos mortos.
— Diga-me, Le Farges — pediu. — Diga-me mais uma vez que eles têm poucos homens. Que para meus bravos cavaleiros não passará de uma caçada de javalis pelos vales e campos de Maine.
O nobre em questão não enfrentou seu olhar. Temendo uma punição, ajoelhou-se e falou de cabeça baixa.
— Eles possuem arqueiros de primeira linha, Vossa Majestade, muito melhores do que eu esperava encontrar aqui. Só posso imaginar que tenham vindo da Normandia, rompendo os termos do armistício.
— Isso explicaria — respondeu Carlos, esfregando o queixo. — É, isso explicaria por que perdi centenas de cavaleiros e vi minha querida tropa de besteiros ser quase toda chacinada. Mas não importa quem sejam esses homens, não importa de onde tenham vindo, tenho relatos de no máximo algumas centenas. Capturamos e matamos quantos, sessenta? Sabe quantos dos meus perderam a vida para um número tão pequeno?
— Posso mandar trazer as listas, Vossa Majestade. Eu... Eu estou...
— Meu pai combateu esses arqueiros em Azincourt, Le Farges. Com meus próprios olhos, vi matarem nobres e cavaleiros como gado até que os ainda vivos fossem esmagados pelo peso de seus companheiros mortos. Vi seus tamborileiros correrem entre homens de armadura para esfaqueá-los enquanto os arqueiros riam. Então me diga: por que não temos nossos próprios arqueiros?
— Vossa Majestade? — perguntou Le Farges, confuso.
— Sempre me dizem que eles não têm honra, que são espécimes humanos fracos e sem coragem, mas ainda assim eles matam, Le Farges. Quando mando besteiros para aniquilá-los, esses malditos arqueiros os atingem de uma distância grande demais para que possam revidar. Quando mando cavaleiros, um único arqueiro consegue assassinar quatro ou cinco antes de ser derrubado, isso quando não o deixam escapar para voltar a matar! Então, esclareça seu rei, Le Farges. Por todos os santos, por que não temos nossos próprios arqueiros?
— Vossa Majestade, nenhum cavaleiro usaria uma arma dessas. Seria... peu viril, seria desonroso.
— Camponeses, então! Que me importa quem resista, desde que eu tenha homens que o façam?
O rei se abaixou para pegar um arco longo caído. Com expressão de nojo, tentou puxar a corda e não conseguiu. Gemeu com a força, mas a grossa arma de teixo só se curvou algumas polegadas antes que ele desistisse.
— Não sou um boi para esse tipo de serviço, Le Farges. Mas já vi camponeses de grande força e grande tamanho. Por que não os treinamos para um massacre desses, como fazem os ingleses?
— Vossa Majestade, acredito que leve anos para obter a força necessária para manejar um desses arcos. Não é possível simplesmente pegar um deles e atirar. Mas, Vossa Majestade, o senhor se curvará a tal recurso? Não é adequado a um cavaleiro usar uma ferramenta dessas.
Com um xingamento, o rei jogou longe a arma com grande impulso, fazendo-a zumbir no ar.
— Talvez. A resposta talvez sejam armaduras melhores. Meus guardas conseguem passar por um ataque desses arqueiros. O bom ferro francês é à prova deles.
Para reforçar a questão, ele bateu os nós dos dedos com orgulho no próprio peitoral, fazendo-o tinir. Le Farges se calou em vez de ressaltar que a armadura ornamentada do rei estava longe de ter espessura suficiente para deter uma flecha inglesa.
— Os besteiros usam manteletes e escudos de vime, Le Farges. Mas isso não serve para cavaleiros que têm de brandir espada e lança. Armaduras melhores e homens mais fortes. É disso que precisamos. Então meus cavaleiros conseguirão investir contra eles, cortando cabeças.
O rei Carlos parou, limpando uma gota de saliva da boca. Respirando fundo, ele olhou o pôr do sol.
— Seja como for, eles romperam o armistício. Mandei um aviso a meus nobres, Le Farges. Todos os cavaleiros e homens de armas da França já estão vindo para o norte.
O barão Le Farges pareceu contente ao se erguer da posição ajoelhada.
— Ficarei honrado em comandá-los, Vossa Majestade, com sua bênção. Com os regimentos nobres e a ordem de Vossa Majestade, destruirei estes últimos indolentes e tomarei Maine inteira num mês.
O rei Carlos o olhou friamente.
— Maine, não, seu tolo de cabeça oca. Eles romperam o armistício, não foi? Então terei tudo. Tomarei de volta a Normandia e empurrarei para o mar os últimos trapos ingleses. Tenho 11 mil homens em marcha para o norte. Eles usam manteletes e escudos, Le Farges! Não os verei derrubados. Com arqueiros ou sem eles, não pararei agora. Terei a França de volta antes que o ano termine. Juro pela Virgem Abençoada.
Havia lágrimas nos olhos do nobre quando ele se ajoelhou de novo, humilhado. O rei pôs a mão brevemente na cabeça emplastrada do barão. Por um instante, uma onda de desdém o fez pensar em cortar a garganta do idiota. Sua mão se apertou no cabelo, fazendo Le Farges gemer de surpresa, mas então o rei o soltou.
— Ainda preciso de você, Le Farges. Preciso de você a meu lado quando expulsarmos os ingleses da França de uma vez por todas. Já vi o suficiente aqui. O armistício foi rompido, e irei impor a eles tal destruição que perdurará por uma geração. Minha terra, Le Farges. Minha terra e minha vingança. Minha!
Jack Cade teve de empurrar a multidão com força para abrir caminho. Seus dois companheiros o seguiram no espaço que criava com os cotovelos e os ombros largos. Mais de um cotovelo golpeou de volta a tempo de pegar o avanço de Paddy ou Rob Ecclestone e fazê-los praguejar. A multidão já estava zangada, e os três homens receberam olhares furiosos e empurrões enquanto abriam caminho até a frente. Apenas os que reconheceram Ecclestone ou seu amigo irlandês recuaram. Os que os conheciam bem se afastaram para os arredores, prontos para fugir. A fama abria tanto espaço quanto os cotovelos e ajudou a depositar Jack Cade no espaço aberto.
Ele ficou encarando a multidão, ofegante, negro de fuligem e tão inclemente quanto uma ventania de inverno. O homem que estivera gritando para o público interrompeu-se como se visse um fantasma. O restante silenciou devagar ao ver os recém-chegados.
— É você, Cade? — perguntou quem falava. — Pelos ossos de Deus, o que aconteceu com você?
O homem era alto e ficava ainda maior com um chapéu marrom que se elevava a uns 15 centímetros da testa. Jack conhecia Ben Cornish muito bem e nunca gostara dele. Ficou calado, o olhar orlado de vermelho atraído para o corpo que balançava num dos lados da praça. Eles não tinham notado o corpo enquanto batiam os pés, riam e faziam sua reunião. Jack não sabia por que Cornish e os outros estavam ali, mas ver seus olhares vazios fez sua raiva aumentar de novo. Sentiu vontade de ter uma jarra cheia na mão para afogá-la.
— Vim baixar meu rapaz — declarou bruscamente. — Vocês não vão me deter, não hoje.
— Por Deus, Jack, há questões mais importantes aqui — bufou Cornish. — O magistrado...
Os olhos de Jack arderam.
— Está morto, Cornish. Como você, se cruzar meu caminho. Estou por aqui com esses magistrados e meirinhos... e com homens do xerife como você. Malditos bajuladores, é o que vocês todos são. Está me entendendo, Cornish? Saia da frente agora antes que eu use o cinto. Não, fique. Estou mesmo com vontade de fazer isso.
Para surpresa de Jack e de seus dois amigos, esse discurso foi recebido com vivos rosnados pela multidão. Cornish ficou muito corado, a boca se mexendo sem que nenhum som saísse. Jack baixou a mão para a faixa larga de couro que segurava suas calças e Cornish correu, empurrando a multidão e sumindo a toda pela rua para longe da praça.
Sob o olhar atento do público, Jack corou quase tanto quanto Cornish.
— Inferno, que reunião é esta? — indagou. — Alguém aumentou o imposto sobre velas ou cerveja? O que fez vocês todos fecharem a rua?
— Você vai se lembrar de mim, Jack! — gritou uma voz. Uma figura robusta, de avental de couro, abriu caminho à frente. — Eu o conheço.
Jack espiou o homem.
— Dunbar, isso, conheço você. Achei que estava na França fazendo fortunas.
— E estava, até que roubaram minhas terras debaixo de meus pés.
Jack ergueu as sobrancelhas, contente por dentro ao saber do fracasso do homem.
— Pois bem, nunca tive terras, Dunbar, então não sei como é.
O ferreiro o olhou com raiva, mas ergueu o queixo.
— Estou começando a lembrar por que não gostava de você, Jack Cade. — Por um instante, ambos se fitaram com raiva crescente. Com esforço, o ferreiro se forçou a ser agradável. — Veja bem, Cade, se você matou o magistrado, vou chamá-lo de amigo e não verei nenhuma vergonha nisso. Ele teve o que merecia e nada mais.
— Eu não... — começou a responder Jack, mas a multidão rugiu sua aprovação e ele piscou.
— Precisamos de um homem que leve nossas queixas a Maidstone, Jack — disse Dunbar, segurando-o pelo ombro. — Alguém que agarre esses canalhas do condado pela garganta e os sacuda até que se lembrem do que é a justiça.
— Pois não sou nada disso — respondeu Jack, soltando-se. — Vim buscar meu menino e só. Agora saia de meu caminho, Dunbar, senão, por Deus, eu o tirarei daí.
Com a mão firme, ele empurrou o ferreiro para o lado e andou até ficar debaixo do corpo do filho que balançava, olhando para cima com uma expressão de terror.
— Iremos de qualquer maneira, Jack — retrucou Dunbar, elevando a voz. — Há sessenta homens aqui, mas milhares estão voltando da França. Vamos lhes mostrar que ninguém trata os homens de Kent com arrogância, não aqui.
A multidão urrou com essas palavras, mas todos observavam Jack, que pegou o velho facão e cortou a corda que prendia seu filho. Paddy e Ecclestone avançaram para aparar o corpo quando caísse e baixá-lo suavemente até as pedras. Jack olhou o rosto inchado e enxugou as lágrimas com os nós dos dedos antes de erguer os olhos.
— Nunca fui a Maidstone — declarou baixinho. — Haverá soldados por lá. Você vai se matar, Dunbar, você e o restante. Homens de Kent ou não, matarão vocês. Mandarão os cães e os rapazes violentos os atacarem, e tenho certeza de que vocês enfiarão o rabo entre as pernas e pedirão desculpas.
— Com mil de nós não farão isso, Jack, não farão não. Vão nos dar ouvidos. Nós os obrigaremos a ouvir.
— Não, parceiro, eles mandarão homens iguaizinhos a vocês, é o que vão fazer. Vão ficar sentados em suas lindas casas e homens durões de Londres virão rachar a cabeça de vocês. Aceite o aviso, Dunbar. Aceite o aviso de quem sabe.
O ferreiro esfregou a nuca, pensando.
— Talvez sim. Ou talvez encontremos justiça. Virá conosco?
— Não acabei de dizer que não vou? Como pode me perguntar isso com meu filho jazendo aqui? Já não dei o suficiente aos meirinhos e juízes, não? Siga seu caminho, Dunbar. Seus problemas não são de minha conta. — Ele se ajoelhou junto do filho, a cabeça inclinada de pesar e exaustão.
— Você já pagou o suficiente, Jack. O bom Deus em pessoa pode ver. Talvez não queira andar com os rapazes de Kent para exigir dos homens de nosso rei um pouco da bela justiça que eles só concedem aos ricos.
O ferreiro observou Jack se endireitar, sabendo muito bem que o homem queimado e enegrecido diante dele ainda levava um baita facão com uma lâmina do tamanho do antebraço.
— Calma aí, Jack — pediu ele, erguendo a palma das mãos. — Precisamos de homens com experiência. Você foi soldado, não foi?
— Já tive meu quinhão.
Pensativo, Jack olhou a multidão, observando quantos deles eram fortes e estavam em boa forma física. Não eram homens da cidade, aqueles refugiados. Dava para ver que levaram vidas de trabalho árduo. Sentiu os olhos sobre si enquanto coçava a nuca. A garganta estava seca, e os pensamentos pareciam se mover como barcos lentos à deriva num rio largo.
— Mil homens? — perguntou, finalmente.
— Ou mais, Jack, ou mais! — respondeu Dunbar. — O suficiente para provocar alguns incêndios e cortar algumas cabeças, hein? Vem conosco, Jack? Pode ser sua única chance de dar umas boas cajadadas nos meirinhos do rei.
Jack deu uma olhada em Ecclestone, que se virara com firmeza para trás, sem nada revelar. Paddy sorria como o irlandês que era, contentíssimo com a possibilidade de caos que caíra sobre eles naquela linda manhã. Jack sentiu a própria boca se contorcer em resposta.
— Acho que talvez eu seja o homem para esse tipo de trabalho, Dunbar. Incendiei duas casas ontem à noite. Pode ser que eu esteja gostando disso agora.
— Isso é bom, Jack! — exclamou Dunbar com um largo sorriso. — Marcharemos pelas aldeias primeiro e reuniremos todos que voltaram da França... e todos que tiverem o mesmo sentimento.
O ferreiro parou de falar ao sentir a grande mão de Jack pressionar seu peito pela segunda vez naquela manhã.
— Espere aí, Dunbar. Não vou receber ordens de você. Quer um homem com experiência? Você nem é de Kent. Pode morar aqui agora, Dunbar, mas nasceu sei lá onde, numa daquelas aldeias onde as ovelhas fogem ao ver os homens. — Ele inspirou e os moradores locais riram. — Não, rapazes. Serei eu a levá-los a Maidstone e cortarei cabeças quando necessário. Tem minha palavra, Dunbar.
O ferreiro ficou ainda mais corado, embora baixasse a cabeça.
— Certo, Jack, é claro.
Cade deixou o olhar perambular pela multidão, escolhendo os rostos que conhecia.
— Estou vendo você aí, Ronald Pincher, seu velho patife. Sua estalagem está fechada hoje de manhã, com uma multidão grande e sedenta como esta? Estou com uma baita duma sede e você é o homem certo para matá-la, mesmo com aquela cerveja de mijo que serve lá. — Ele levantou as sobrancelhas quando lhe veio uma ideia. — Bebida de graça para os homens de Kent num dia como hoje, que tal?
O estalajadeiro em questão não pareceu ficar muito contente, mas revirou os olhos e bufou com as bochechas cheias, aceitando seu destino. Os homens rugiram e riram, já estalando os lábios com a possibilidade. Enquanto se afastavam, Dunbar olhou para trás e viu Jack e os dois amigos ainda em pé ao lado da forca.
— Você não vem? — gritou Dunbar.
— Vá na frente. Encontro você depois — respondeu Jack sem olhar. Sua voz estava rouca.
Quando a multidão se afastou, seus ombros despencaram de pesar. Dunbar observou por um instante o grandalhão pôr o corpo do filho nos ombros, dando-lhe tapinhas suaves ao erguer o peso. Ladeado por Paddy e Ecclestone, Jack começou a longa caminhada até o cemitério junto à igreja para enterrar seu menino.