Pássaro da Tempestade
Capítulo 17
William de la Pole andava de um lado para o outro, as mãos trêmulas seguras nas costas. As gaivotas gorjeavam em torno da fortaleza, um barulho que começara a soar como zombaria. Passara a manhã rugindo ordens para sua desafortunada equipe, mas, enquanto a tarde findava, sua voz se aquietou e uma calma perigosa se instalou nele.
O último mensageiro a encontrá-lo estava ajoelhado no assoalho de madeira, a cabeça baixa em autopreservação.
— Milorde, não recebi nenhuma mensagem verbal para acompanhar o pacote.
— Então use sua inteligência — grunhiu William. — Diga-me por que não há reforços prontos para atravessar o mar até Calais quando minhas tropas estão em desvantagem numérica e um exército francês invade a Normandia inglesa.
— Deseja que eu especule, milorde? — indagou o criado, confuso. William só o olhou com raiva, e o rapaz engoliu em seco e continuou gaguejando. — Acredito que estejam sendo reunidos, milorde, preparando-se para vir para o sul. Vi uma frota no porto quando parti de Dover. Soube que mandaram alguns soldados da Coroa sufocar agitações, milorde. Tem havido assassinatos e revoltas em Maidstone. Pode ser que...
— Chega, chega — ordenou William, esfregando as têmporas com a mão aberta. — Você não disse nada além do que posso ouvir em qualquer cervejaria. Tenho cartas a serem levadas para casa imediatamente. Pegue-as e vá, em nome de Deus.
O jovem mensageiro sentiu-se grato por ser mandado embora e, correndo, afastou-se da presença do duque o mais depressa que pôde. William sentou-se à mesa de York, fervilhando. Entendera um pouco melhor as palavras do antecessor depois de algumas poucas semanas no comando. A França desmoronava, e não admirava que Ricardo de York se mostrasse tão alegre e enigmático ao ser demitido do cargo.
William gostaria que Derry estivesse ali. Apesar de todo o sarcasmo e acidez, o homem ainda teria sugestões a dar ou, pelo menos, informações melhores que as dos criados. Sem seus conselhos, William sentia-se completamente à deriva, perdido sob o peso das expectativas nele depositadas. Como comandante das forças inglesas na França, teria de evitar toda e qualquer interferência da corte francesa. Seu olhar se dirigiu aos mapas sobre a mesa, cheios de pedacinhos de chumbo. Sabia que era um quadro incompleto. Soldados e cavalaria se moviam mais depressa do que os relatórios lhe chegavam, e, assim, os gorduchos símbolos de metal estavam sempre no lugar errado. Porém, se apenas metade dos relatórios fosse verdadeira, o rei francês invadira a Normandia, o armistício frágil e conquistado com tanta dificuldade rasgado como se nunca tivesse existido.
William cerrou os punhos enquanto continuava a andar de um lado para outro. Tinha apenas 3 mil homens de armas na Normandia, com talvez mais mil arqueiros. Era uma tropa numerosa e cara em tempos de paz, mas na guerra? Com um rei combatente para comandá-los, talvez ainda fossem suficientes. Com um Eduardo de Crécy ou um Henrique de Azincourt, William tinha quase certeza de que os franceses seriam forçados a correr, humilhados e derrotados. Observou, faminto, os mapas, como se contivessem o próprio segredo da vida. Tinha de ir ao campo de batalha; não haveria como escapar. Tinha de lutar. Sua única chance era deter o avanço francês antes que batessem à porta de Rouen ou, que Deus não o permitisse, da própria Calais.
Hesitou, mordendo o lábio. Poderia evacuar Rouen e salvar centenas de vidas inglesas antes do ataque francês. Se aceitasse a impossibilidade de ir a campo contra tantos, poderia se dedicar à defesa de Calais. Poderia pelo menos ganhar tempo e espaço suficientes para permitir que os súditos de seu rei escapassem da rede que se fechava. Nervoso, engoliu em seco ante a ideia. Todas as opções eram pavorosas. Cada uma delas parecia levar ao desastre.
— Que vá tudo para o inferno — murmurou a si mesmo. — Preciso de 6 mil homens.
Deu uma risada curta e encheu as bochechas de ar. Se queria exércitos que não tinha, pedir 6 ou 60 mil dava na mesma. Enviara apelos a Derry Brewer e ao rei Henrique, mas parecia que os refugiados de Anjou e Maine que voltavam para casa tinham levado consigo seu medo contagioso. As forças do rei haviam sido usadas para manter a paz em casa. Na França, William fora deixado com muito pouco. Era enfurecedor. Quando a corte inglesa chegasse a entender a magnitude daquela ameaça, ele achava que a Normandia já estaria perdida.
William limpou o suor da testa. Calais era uma soberba fortaleza no litoral, com fosso duplo e muralhas imensas com mais de 5,5 metros de espessura na base. Instalada na costa e suprida pelo mar, nunca seria obrigada a se render pela fome. Mas o rei Eduardo já a vencera uma vez, um século antes. Poderia ser tomada de novo com homens suficientes e enormes máquinas de cerco levadas para golpeá-la.
— Como conseguirei detê-los? — perguntou-se William em voz alta.
Ao ouvir sua voz, dois criados vieram correndo para ver se o comandante tinha novas ordens. Ele começou a mandá-los embora, mas mudou de ideia.
— Mandem uma ordem ao barão Alton. Ele deve preparar a guarnição para marchar.
Os criados sumiram na corrida e William se virou para olhar o mar.
— Que Cristo salve a todos nós — sussurrou. — Já foi feito antes. Pode ser feito de novo.
Ele sabia que o efetivo não era tudo. Reis ingleses tinham comandado tropas menores contra os franceses em quase todas as suas batalhas. Balançou a cabeça, os cabelos espessos oscilando de um lado para o outro no pescoço. Essa era a dificuldade que enfrentava. O povo da Inglaterra esperava que seus exércitos vencessem os franceses, sem importar o efetivo ou o lugar onde se travassem as batalhas. Se não conseguisse proteger a Normandia depois do caos de Maine e Anjou... William tremeu. Só havia mais um território inglês na França: a Gasconha, no sudoeste. Seria engolida numa só estação, caso os franceses triunfassem em sua campanha. Ele cerrou o punho e golpeou a mesa, de modo que as peças de chumbo caíram e se espalharam. Perdera o pai e o irmão para os franceses. Todas as casas nobres sofreram perdas, mas ainda assim mantiveram e aumentaram os territórios franceses. Todos desprezariam um homem que não conseguisse manter o que o sangue dele conquistara.
William entendeu a “taça envenenada” que York descrevera em seu rápido encontro. Mas achava que nem York poderia prever o avanço súbito das tropas francesas na Normandia. Deu um suspiro sofrido e esfregou o rosto com ambas as mãos. Não tinha opção senão enfrentar em combate o rei francês e confiar o resultado a Deus. Ele não podia escolher o desastre, só ser forçado a sofrê-lo.
Convocou seus criados pessoais, três homens jovens dedicados a seu serviço.
— Tragam-me a armadura, rapazes — pediu William, sem erguer os olhos dos mapas. — Parece que vou à guerra.
Eles deram vivas de prazer com isso, saíram correndo do salão e foram direto ao arsenal buscar seu equipamento pessoal. Estaria bem-cuidado e lubrificado, pronto para envolvê-lo em ferro. Fitando as costas dos criados, William percebeu que sorria enquanto eles gritavam a notícia aos outros e vivas descoordenados começaram a se espalhar pela fortaleza de Calais. Apesar do humor sombrio, ficou contente com o entusiasmo e a confiança que depositavam nele. Não compartilhava de nenhum dos dois mas também não podia recusar a taça que lhe fora entregue.
Thomas gemeu e depois começou a engasgar quando sentiu a pressão de uma grande mão sobre sua boca e seu nariz. Lutou contra o peso, dobrando os dedos para trás até que o que quer que fosse gritasse de dor. Pouco antes de os ossos dos dedos estalarem, a pressão sumiu e Thomas ficou ofegante, tentando respirar à luz da aurora. Sua mente clareou e ele sentiu uma onda de vergonha ao perceber o filho sentado na penumbra a seu lado. Os olhos de Rowan estavam furiosos, esfregando a mão machucada.
Nisso, Thomas estava atento o suficiente para não falar. Observou os olhos do filho deslizarem para o lado ao inclinar a cabeça, indicando alguém ali perto. Em pânico, Thomas sentiu algo subir por sua garganta, algo decorrente da febre que o tomara cruelmente e deixara seu corpo tão fraco quanto um pano podre. A última coisa de que se lembrava era de ser arrastado por um campo pelo filho sob o luar.
A febre havia cedido, isso Thomas entendia. O calor terrível que secara sua boca e fizera todas as juntas doerem se fora. Sentiu o gosto do vômito subindo e teve de usar as mãos para fechar a mandíbula, apertando o máximo que podia enquanto o mundo ondulava e ele quase desmaiava. As mãos pareciam cortes de carne fria contra o rosto.
Rowan se tensionou com os gemidos e ruídos de sufocação que vinham do pai. Por entre as tábuas do estábulo, o rapaz espiou o que andava lá fora, mas pouco conseguia ver. Em tempos mais pacíficos, não seria nada mais funesto que os rapazes do fazendeiro acordando para um dia de trabalho, mas fazia dias que os dois arqueiros não viam uma fazenda que não estivesse abandonada. As estradas que seguiam para o norte estavam lotadas com uma nova onda de refugiados, mas dessa vez não havia nenhuma desculpa, nenhuma bela palavra sobre armistício e pactos feitos em segredo. Rowan sabia que ele e o pai estavam além da fronteira da Normandia, embora já fizesse algum tempo que não ousavam cruzar uma estrada e limpar o musgo das pedras que indicavam as distâncias. Rouen ficava em algum ponto ao norte, era tudo o que Rowan sabia. Além daquela cidade, Calais ainda estaria lá, o porto mais movimentado da França.
Na terra e no farelo de esterco de galinha, Thomas não conseguiu impedir os espasmos enquanto a barriga vazia roncava. Tentou sufocar o barulho com as mãos negras de sujeira, mas não conseguia ficar em silêncio total. Rowan se imobilizou quando uma tábua rangeu ali perto. Não ouvira ninguém entrar no estábulo, e a cautela fazia pouco sentido. Os soldados franceses que marchavam para o norte eram barulhentos, confiantes na força de seu exército. Mas havia a possibilidade de que Thomas e Rowan ainda fossem caçados pelos perseguidores iniciais. Tinham aprendido o suficiente para temer aqueles homens teimosos e persistentes, homens que seguiram os dois arqueiros por quase 100 quilômetros de jornadas noturnas e colapso diurno.
Em sua imaginação, Rowan descarnara as sombras obscuras que se moviam e que vira à distância mais de uma vez. A mente os transformara em demônios vingativos, criaturas implacáveis que não parariam, por mais longe que tivessem de perseguir. Olhou, impotente, o corpo ferido do pai, bem mais magro agora do que quando lutaram e perderam. Dias antes, tinham jogado fora os arcos, um gesto de sobrevivência mais parecido com arrancar dentes saudáveis. Além de perder o peso das armas, aquilo não os salvaria se fossem pegos. Sabia-se que os franceses ficavam atentos à compleição típica dos arqueiros e reservavam ódio especial e punições terríveis aos que capturavam. Não havia como esconder os calos da mão de um arqueiro.
A mão de Rowan ainda sentia saudades da arma que perdera e fazia o gesto de pegá-la sempre que ficava com medo. Deus, isso era insuportável! Ele ainda tinha o facão na bainha do cinto. Quase desejou que pudesse apenas se jogar das sombras da baia sobre quem se esgueirava em torno do estábulo. A tensão fazia seu coração bater tão depressa que luzes piscavam em seu campo de visão.
Ele sacudiu a cabeça com rapidez, quase praguejando em voz alta. Sempre havia algo se mexendo num estábulo, em meio aos fardos de palha. Ratos, é claro, e, sem dúvida, gatos os caçando; insetos e pássaros fazendo ninhos na primavera. Rowan disse a si mesmo que, provavelmente, estava cercado de coisas vivas que se esgueiravam. Mas duvidava de que alguma delas tivesse peso suficiente para fazer as tábuas do assoalho rangerem.
Lá fora, ele ouviu um estrondo de pratos estilhaçando e girando no chão com um barulho que não podia ser de outra coisa. Rowan se levantou de sua posição para espiar de novo por entre as tábuas. Ao fazê-lo, ouviu um passo na penumbra. Deu uma olhada rápida no pátio e avistou um soldado francês que ria ao tentar catar pratos inteiros da pilha que derrubara. Não eram os perseguidores sinistros que temera, apenas lanceiros franceses em pilhagem.
Mas ainda havia aquele passo no interior do estábulo. Rowan baixou os olhos para o pai, as roupas molhadas de suor e sujas com os próprios excrementos. Quando ergueu o olhar de novo, deparou-se com o rosto de um rapaz espantado, que vestia um pano azul grosseiro. Os dois ficaram um instante boquiabertos, os corações batendo forte, e então Rowan pulou à frente, enfiou o facão no peito do outro e gritou ao fazê-lo.
Seu peso derrubou o estranho de costas e o facão se enfiou ainda mais, apertando-se contra ele até que Rowan sentiu costelas se quebrarem debaixo de sua mão. O jovem francês expirou uma grande quantidade de ar. O que tentava dizer se perdeu na agonia da faca no peito. Rowan fitou com terror a figura que se debatia e que ele prendera no chão. Só pôde se inclinar sobre ele com todo o seu peso, sufocando os pontapés com as pernas.
No terreno, uma voz gritou um nome ou uma pergunta. O rosto de Rowan se contraiu de um jeito parecido com choro quando apertou a testa contra a bochecha do rapaz que mantinha preso, parado e esperando que as contorções, a luta e os gemidos ofegantes terminassem. Rowan tremia quando finalmente levantou a cabeça, observando olhos manchados com o pó de sua túnica, mas nem assim fechados.
A voz gritou de novo, mais perto. Rowan se acocorou, desnudando os dentes como um cão que defende a presa. Tirou a grande faca das costelas do rapaz e a ergueu, pronto para ser novamente atacado. Podia haver dez soldados por ali, ou cem, ou apenas um ou dois. Não tinha como saber, e terror e nojo o invadiram. Não queria nada além de correr, só correr do terror que sentira se abater sobre ele quando a vida de outro homem era tirada. Havia sentido nojo, e queria sair daquele lugar.
Rowan ouviu um ruído suave e olhou para baixo, percebendo que o intestino do rapaz se esvaziara, assim como a bexiga. O pênis do soldado estava claramente ereto, visível nas calças que se escureciam. Rowan sentiu o estômago embrulhar e os olhos se encherem de lágrimas indesejadas. Ouvira falar dessas coisas, mas a realidade era muito, muito pior. Não era nada parecido com atingir um homem a distância com uma flecha de quase 1 metro e um bom arco de teixo.
Um grito vindo de fora o fez sair do transe e voltar correndo para a baia de madeira. A voz ficava mais alta e mais irritada conforme o homem lá fora perdia a paciência com o companheiro desaparecido. Rowan espiou por pequenas rachaduras e buracos, procurando os outros. Não podia vê-los, mas tinha a sensação de que estavam todos em torno do estábulo em ruínas no amanhecer. Tremeu, os músculos se contraindo nas costas e nas laterais do corpo. Precisava sair para o campo, mas o pai era pesado demais para ser carregado.
Por impulso, Rowan se agachou junto de Thomas e bateu de leve em seu rosto. Os olhos se abriram, a íris escura tingida de amarelo, enquanto o pai afastava as mãos do filho.
— Você consegue andar? — sussurrou Rowan.
— Acho que sim — respondeu Thomas, embora não soubesse. Uma história de infância sobre Sansão perdendo o cabelo veio a sua mente, e ele sorriu com fraqueza para si, usando o cabo de um velho arado para se erguer. Então descansou, gotas de suor grossas vertendo do rosto e atingido a terra, escurecendo-a.
Rowan atravessou os raios dourados de sol que se derramavam no celeiro. Ficou junto à porta, olhando a manhã lá fora e acenou para que o pai se aproximasse. Thomas se restabeleceu, sentindo-se como se tivesse levado uma surra na noite anterior. Precisava dormir, ou talvez apenas morrer. A promessa de repouso o chamava com força suficiente para fazer formas negras esvoaçarem em seu campo de visão. Ele arrastou os pés pelo chão empoeirado, tentando não ofegar enquanto a mente flutuava e afundava em ondas de enjoo.
Rowan quase se jogou para trás quando uma voz falou uma torrente em francês bem junto de sua cabeça.
— Está se escondendo de mim, Jacques? Se eu pegar você dormindo, juro que...
A porta se abriu e Rowan semicerrou os olhos, vendo o espanto do homem se transformar em terror ao ver a faca e seu volume na penumbra.
O homem correu em disparada, escorregando e caindo ao se virar em pânico. A voz já subia num berro quando tentou se levantar, mas Rowan estava em cima dele num único grande salto, esfaqueando loucamente através do casaco. Com uma força selvagem, passou o braço esquerdo em torno do pescoço do francês e o esmagou, puxando-o para perto. Os ruídos desesperados se tornaram ruídos ásperos, e Rowan percebeu que soluçava enquanto golpeava sem parar, vendo o sangue rubro respingar a sua volta. Deixou o corpo cair de bruços, levantou-se e ofegou, com os sentidos repentinamente amortecidos no sol da manhã.
O terreno da fazenda estava vazio, com o capim verde e grosso crescendo entre as pedras rachadas. Ele viu uma cabana em ruínas que estivera invisível na noite anterior, a porta aberta pendurada por uma dobradiça de couro destruída. Rowan olhou em volta, depois percebeu as gotas vermelhas na terra e manchando sua faca. Somente dois homens à procura de algo que valesse a pena furtar enquanto os oficiais dormiam. Rowan sabia que deveria arrastar o segundo corpo para dentro do estábulo, mas ficou ali parado no terreno, de olhos fechados, o rosto virado para o sol.
Ouviu o pai sair e ficar a seu lado. Rowan não o olhou, preferindo deixar o calor penetrar na pele. Recordou-se de que já matara animais com o pai na fazenda. Tinham matado veados na caça, depois limpado os corpos moles nas encostas até ficarem rindo, cobertos de sangue.
Thomas respirou fundo, sem saber se o filho queria que falasse ou não. A fome fazia sua barriga doer um pouco, e ele percebeu que gostaria de saber se os dois soldados não teriam com eles algo de comer. Era outro sinal de que o corpo lutara durante a doença que o derrubara.
— Você gostou?
Rowan abriu os olhos e o observou.
— Do quê?
— De matar. Conheci homens que gostam. Eu mesmo nunca gostei. Sempre me pareceu uma coisa esquisita de se querer. Sempre achei parecido demais com trabalho. Numa emergência, tudo bem, mas eu não procuraria outro homem para matar, não por prazer. Mas conheci homens que gostavam, só isso.
Rowan balançou a cabeça com espanto amortecido.
— Não... eu não... Meu Deus... eu não gostei.
Para sua surpresa, o pai lhe deu um tapinha nas costas.
— Ótimo. É isso mesmo. Agora acho que meu apetite voltou. Mas ainda estou fraco a ponto de me assustar com um menininho com uma vara. Você poderia procurar comida na casa? Precisamos encontrar um lugar para descansar e nos esconder durante o dia e não consigo fazer isso morrendo de fome, não depois da doença.
— Que tal ficarmos no estábulo? — perguntou Rowan, olhando temeroso para a porta escura atrás deles.
— Não com o corpo de soldados e sangue no chão, filho. Acorde! Precisamos nos deslocar alguns quilômetros sem que ninguém nos veja e meu estômago está doendo demais. Preciso de um pouco de comida e não vou comer um francês, não hoje, pelo menos.
Rowan deu uma risada fraca, mas o olhar ainda estava perturbado. Thomas desistiu do sorriso, que lhe exigia demais para ser mantido.
— O que foi? — Viu a pele do filho tremer como a de um cavalo importunado por moscas e depois enrijecer quando os pelos se eriçaram.
— Aquele no estábulo... sua.. virilidade estava rija... Meu Deus, pai, foi horrível.
— Ah — respondeu Thomas. Ficou ali parado, deixando o sol aquecer os dois. — Será que ele gostou de você?
— Pai! Jesus! — Rowan tremeu ante a lembrança, esfregando os braços. O pai riu.
— Tive de velar os mortos certa vez, depois de uma batalha — contou. — Eu tinha uns 12 anos, acho. Fiquei lá sentado a noite inteira, cercado de soldados mortos. Depois de algum tempo, comecei a ouvi-los arrotar e peidar como homens vivos. Duas vezes um deles se sentou, só se sacudiu bem ereto como um homem surpreendido por uma ideia. A morte súbita é algo estranho, meu raio de sol. O corpo nem sempre sabe que está morto, não no começo. Já vi... o que você viu num enforcado, quando menino. Havia uma velha junto à forca quando todo mundo foi embora, raspando o chão junto aos pés dele. Perguntei-lhe o que fazia e ela disse que a raiz da mandrágora cresce da semente dos enforcados. Então corri, Rowan, não me incomodo de lhe contar. Corri o caminho todo até em casa.
Ambos ficaram imóveis quando um farfalhar chegou a eles no ar parado. Viraram-se devagar e viram um ganso velho irromper das árvores junto à cabana, onde balançava uma corda que pendia de um galho. A ave ciscava o chão e espiou os dois homens em pé em seu terreno.
— Rowan? — murmurou Thomas. — Se conseguir achar uma pedra, mova-se devagar e a pegue. Tente quebrar uma asa.
O ganso os ignorou quando Rowan encontrou uma pedra do tamanho do punho e a pegou.
— Acho que ele não tem medo de nós — comentou, caminhando na direção da ave. O ganso começou a sibilar, abrindo as asas. A pedra voou, derrubando-o com um grasnido e revelando a barriga coberta de penas e terra. Rowan o pegou pelo pescoço num instante e arrastou até o pai o ganso que batia as asas e protestava antes de silenciá-lo com um puxão forte.
— Você pode ter salvado minha vida de novo agora — disse Thomas. — Não podemos nos arriscar a fazer uma fogueira, portanto vamos cortá-lo e beber enquanto está quente. Muito bem, rapaz. Acho que eu choraria feito criança se ele fugisse de nós.
O filho sorriu, começando a sentir que seu estranho humor soturno passava. Tomou o cuidado de limpar a faca no homem caído de bruços no terreno antes de usá-la na ave.
— Eu só gostaria que seu avô estivesse aqui — declarou York, bebericando vinho. — O velho ficava tão alegre com o nascimento de crianças... O que não é de se espantar, com as 22 que teve! Ainda assim, os presságios são excelentes, pelo que me disseram. Um menino, com certeza.
Ele estava num pátio interno com telhado de carvalho e telhas, cercado de pedras cor de creme por todos os lados. A rosa branca da casa de York estava em evidência, num escudo pintado nas vigas e gravado nas próprias pedras. Nos cômodos superiores, soou um grito aterrador que levou seu companheiro a fazer uma careta.
Ricardo Neville era tão alto quanto o tio, embora ainda não tivesse barba. Com dois casamentos, era verdade que o avô tivera tantos filhos que Ricardo se acostumara às tias ainda crianças e aos sobrinhos de sua idade. O Neville mais velho fora um homem potente, e o número de descendentes vivos era fonte de inveja de muitos.
Antes que Ricardo respondesse, York falou de novo.
— Mas estou me esquecendo! Devo parabenizá-lo pelo novo título, muito merecido. Seu pai com certeza ficará contente ao vê-lo transformado em conde de Warwick.
— O senhor é muito gentil, milorde. Ainda estou aprendendo o que isso significa. Meu pai está maravilhado de ver o título e as terras virem para a família, como creio que sabe. Acho que não conheci meu avô.
York deu uma risada, esvaziando a taça e erguendo-a para que um criado voltasse a enchê-la.
— Se você for metade do homem que Ralph Neville foi, ainda será duplamente abençoado. Ele me criou quando o azar fez de mim um órfão à mercê de todos os homens. O velho Neville manteve intactos meus títulos e minhas propriedades até eu crescer. Não pediu nada em troca, embora eu soubesse que ele queria que eu me casasse com Cecily. Mesmo assim, me deixou a escolha final. Ele foi... um homem honrado. Não tenho elogio melhor que esse. Só espero que compreenda. Devo-lhe mais do que jamais poderia dizer, Ricardo... ou melhor, conde Warwick!
York sorriu para o sobrinho. Outro guincho veio da sala de parto, levando ambos a fazerem uma careta.
— Não está preocupado? — perguntou Ricardo de Warwick, brincando com o cálice e erguendo os olhos como se pudesse ver através das paredes os mistérios femininos dentro daquele quarto.
York deu de ombros.
— Cinco mortos, é verdade, mas seis vivos! Se eu fosse dado a isso, não apostaria contra outro saudável menino York. O 12º parto é o número dos apóstolos, como gosta de dizer meu letrado médico. Ele acredita que é um número poderoso.
York então se calou, considerando por um instante que o 12º apóstolo fora Judas. O olhar do mais jovem ficou sombrio, porque ele pensara a mesma coisa, mas preferiu se calar.
— O sétimo vivo, então — declarou Warwick para romper o silêncio. — Um número de grande sorte, tenho certeza.
York relaxou visivelmente enquanto ele falava. Viera bebendo muito durante o confinamento, apesar de parecer estar despreocupado. Pediu que as taças fossem enchidas mais uma vez, e Warwick teve de esvaziar a sua rapidamente, sentindo o vinho aquecer seu sangue. Ele descobriu que era necessário. O Castelo de Fotheringhay podia ser bem fortificado, mas, mesmo no abrigo do pátio coberto, era muito frio. O fogo ardia numa lareira próxima, pronto a consumir a bolsa e o cordão umbilical do recém-nascido. O calor parecia sumir antes de alcançar os homens que aguardavam.
— Não sei direito, milorde, se devo parabenizá-lo também — disse Warwick. York o olhou com um ar inquiridor enquanto o rapaz continuava. — Quanto à Irlanda, milorde. Meu pai me disse que o senhor foi nomeado tenente do rei lá.
York fez um gesto de desdém.
— Tenho inimigos que preferem me ver bem longe da Inglaterra nos próximos anos, Ricardo. Irei aonde me mandarem... eventualmente! Por ora, contento-me em permanecer aqui enquanto sobem uns sobre os outros como ratos que se afogam. Assumi minha cadeira na Câmara dos Lordes mais de uma vez só para observar e escutar. Recomendo que faça o mesmo, para ver que imbecis correm e se vangloriam em Londres. — Ele sopesou as palavras antes de continuar. — Para os que têm olhos para ver, este será um ano tempestuoso, Ricardo Os que sobreviverem a ele, bem, só podem ascender.
— Milorde York! — chamou uma voz.
Ambos se inclinaram para trás para olhar o pequeno corredor no alto, separados por uma geração, mas unidos na preocupação com Cecily Neville e a criança. Enquanto aguardavam, o vinho esquecido nas mãos, uma parteira saiu detrás de cortinas pesadas, usando um pano para limpar todos os vestígios de sangue que restavam no rosto do bebê. A criança estava bem-enrolada num cueiro azul-escuro. Não chorava quando ela a estendeu para o pai e o jovem tio verem.
— É um menino, milorde, um filho — anunciou ela.
York soltou o ar pelo nariz, bastante feliz.
— Já tem um nome para a criança? — perguntou Warwick, sorrindo. Podia ver o orgulho que Ricardo de York sentia. Ao menos uma vez, o homem parecia um menino de tanta emoção.
— Tenho um filho de 10 anos chamado Eduardo, outro chamado Edmundo e um doce rapazinho chamado George. Não vou me arriscar a ofender as pobres almas que pereceram, então nada de Henrique, João, William nem Tomás. Não. Acho... É, acho que este será Ricardo.
Ricardo, conde de Warwick, soltou uma gargalhada de surpresa e prazer sinceros.
— Três Ricardos então entre nós. Ricardo como o rei Coração de Leão. Não, três leões, milorde! Um belo presságio.
York ficou um pouco envergonhado quando seguiu o caminho tomado pela mente rápida de Warwick. Dois séculos antes, o rei Ricardo Coração de Leão adotara três leões como seu selo real. Mais recentemente, aquele emblema real fora levado para Azincourt pela casa de Lancaster e pelo pai do rei Henrique. Era uma associação que não enchia York de alegria.
— É um bom nome — comentou de má vontade, erguendo a taça num brinde. — Servirá.