Pássaro da Tempestade

Conn Iggulden · Capítulo 35 de 43

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Pássaro da Tempestade

Capítulo 28

 

 

Jack Cade saiu do Guildhall enrolando nas mãos um pedaço de corda de cânhamo áspera. Dera vivas com Ecclestone e os outros quando o próprio tesoureiro real havia sido pendurado para dançar, o rosto do lorde ficando roxo enquanto eles olhavam e riam. Lorde Say fora um dos responsáveis pelos impostos do rei, e Jack não sentia nenhum remorso. Na verdade, cortara um pedaço da corda como lembrança, e só sentia pena de não achar mais nenhum dos homens que comandavam os xerifes e os meirinhos da Inglaterra.

Quando emergiu de seus pensamentos, os olhos se arregalaram. Ainda havia homens chegando à praça aberta em torno do Guildhall. Os que já estavam lá havia algum tempo encontraram barris de cerveja ou aguardente, isso era evidente. Já embriagados de violência e sucesso, usaram o tempo em que ele havia ficado lá dentro para saquear todas as casas em volta. Alguns cantavam, outros estavam caídos completamente desacordados ou cochilavam abraçados a garrafas de cerâmica com tampas de rolha. Outros ainda descarregavam a raiva nos sobreviventes do último grupo que os atacara. Os poucos soldados do rei ainda vivos foram desarmados e agora eram jogados de um lado para o outro num círculo de homens, levando socos e chutes para onde quer que se virassem.

Jack olhou Ecclestone com descrença ao ver homens cambaleantes passarem com os braços cheios de objetos roubados. Dois deles brigavam com uma trança de pano cintilante, trocando socos enquanto ele os observava. Jack franziu a testa ao ouvir uma mulher começar a gritar ali perto, o som se transformando num grasnido quando alguém a sufocou para que se calasse.

Thomas Woodchurch apareceu atrás de Cade, sua expressão endurecendo ao ver o caos e as pedras respingadas de sangue.

— Sodoma e Gomorra, Jack — murmurou. — Se isso continuar, estarão todos adormecidos ao amanhecer e terão as gargantas cortadas. Consegue colocá-los de volta no arreio? Estamos vulneráveis aqui... e idiotas bêbados não conseguem lutar.

Cade estava um pouco cansado de Woodchurch achar que sabia tudo o tempo inteiro. Ficou calado, pensando. Sua garganta doía de vontade de beber, mas isso poderia esperar, pensou. A tempestade passara, no entanto, Londres ainda vacilava. Ele sentiu que sua única chance corria o risco de se esvair. A vida inteira, curvara a cabeça para os homens do rei, forçado a baixar os olhos diante dos juízes quando vestiam a túnica verde ou vermelha e ditavam sentenças. Ao menos uma vez podia chutar os dentes deles, mas sabia que aquilo não duraria.

— Quando amanhecer, chamarão novos homens para nos perseguir — resmungou. — Mas e daí? Hoje fiz com que temessem a Deus. Eles se lembrarão disso.

Woodchurch fitou o capitão de Kent, a irritação visível. Tinha esperado mais do que apenas uma noite de pilhagem e sangue derramado. Com um bom número de homens, esperara mudar a cidade, talvez até arrancar algum tipo de liberdade das mãos dos homens do rei. Todos já sabiam que o rei Henrique partira há um bom tempo, mas aquilo não precisava acabar numa loucura inebriada, não se Cade continuasse em frente. Alguns nobres mortos, alguns pedaços de pano e algumas bolsas de ouro. Não era nem de longe suficiente para pagar o que havia sido tirado.

— A aurora não deve demorar — comentou Woodchurch. — Vou para a Torre. Se o rei foi embora como dizem, ao menos saio rico de Londres. Vem comigo, Jack?

Cade sorriu, erguendo os olhos para a passagem da lua no céu.

— Mandei Paddy para lá na primeira leva. Agora ele ou está morto ou está no interior da Torre. Vou com você, Tom Woodchurch, se vier comigo.

Então eles riram como meninos, enquanto Ecclestone olhava com azedume essa demonstração de camaradagem. Um instante depois, Jack começou a chamar seus homens de volta às ruas. Sua voz era um rugido grave que ecoava nas casas dos vereadores em volta.

Derry estava exausto. Sabia que era uns dez anos mais novo que lorde Scales e só podia se maravilhar com a fonte de energia inesgotável do homem quando chegaram a mais um beco e o percorreram em completa escuridão. Pelo menos a chuva havia parado. Tinham quatro homens na frente e atrás, dando avisos de alerta ou de oportunidades, quando as encontravam. Lutavam nas ruas havia horas, e Derry perdera a conta dos homens que tinha matado na noite negra, breves momentos de horror e medo ao cortar estranhos, ou quando sentia a dor com suas facas e clavas o alcançando.

Havia costurado a perna onde algum anônimo puxador de arado de Kent lhe enfiara uma lança. Uma lança! Derry mal conseguia acreditar que fora ferido por uma coisa com fitas decorativas na haste. Levava na mão esquerda um bom pedaço dela, depois de ter privado da vida seu último dono. Um facão pesado pendia do cinto, e o espião não era o único a ter recolhido armas dos mortos. Após tanto tempo lutando com estranhos ao vento e no escuro, estava simplesmente desesperado para ver o sol outra vez.

Dos oitenta homens iniciais, o grupo de Scales tinha se reduzido a apenas três dúzias. Perderam poucos em cada confronto até esbarrar com algumas centenas de saqueadores. Aqueles homens estavam completamente bêbados, o que foi uma bênção, porque isso os retardou. Ainda assim, o curto combate deixara quase metade dos homens de Scales moribundos, caídos de costas na imundície e no próprio sangue.

Tudo estava desmoronando, Derry conseguia sentir. Os homens de Cade chegaram ao coração da cidade e a fúria que os levara até lá explodira num desejo de pilhar, estuprar e assassinar enquanto podiam. Era algo que Derry conhecia bem das batalhas que tinha visto, algo sobre matar e sobreviver que fazia o sangue ferver e tornava os homens selvagens. Eles podiam ter sido um exército de Homens Livres de Kent ao chegar, mas se transformaram numa turba selvagem e aterrorizante. Na cidade inteira, os londrinos se agachavam atrás das portas, sussurrando preces para que ninguém tentasse entrar.

— Leste de novo — ordenou Scales mais à frente. — Meus batedores dizem que há uns cinquenta mais adiante, perto da estalagem Cockspur. Podemos pegá-los enquanto ainda estão levando os barris para fora.

Derry balançou a cabeça para desanuviá-la, também desejando um copo. Londres possuía mais de trezentas tabernas e cervejarias. Ele já passara por umas dez que conhecia desde jovem, edificações fechadas e escuras, com os donos em barricadas no interior. Ao passar a língua pelos lábios secos, Derry daria uma moeda de ouro por uma caneca naquele instante, principalmente porque jogara fora o cantil depois de vê-lo perfurado. O objeto provavelmente havia salvado sua vida, mas a perda o deixara seco como um cão de língua de fora.

— Leste de novo — concordou.

Cade parecia estar voltando pela cidade e, na condição em que estavam, tudo o que Scales e Derry podiam fazer era segui-lo a distância e pegar alguns grupos menores que se agitavam em sua volta — de preferência os bêbados, caso pudessem escolher. Derry levantou a cabeça. Conhecia essa parte da cidade. Recompôs-se, esfregando o rosto com ambas as mãos para despertar. Estavam na Three Needle Street, lugar que frequentava desde antes de começar a fazer a barba. A sede da Merchant Taylors, a guilda dos alfaiates, ficava ali perto.

— Espere um instante, lorde Scales, por gentileza — gritou Derry. — Deixe-me ver se alguém me aguarda.

Scales fez um gesto irritado e Derry correu pela rua, os pés afundando até os tornozelos. Sentira-se perdido sem seus informantes, mas, com a cidade fervendo de grupos em combate, não havia conseguido encontrá-los. Chegou à sede da guilda e nada viu. Com um xingamento breve, virava-se para retornar ao grupo quando alguém saiu de um portal às sombras. Derry ergueu a ponta da lança, assustado pelo som, convencido de que estava prestes a ser atacado.

— Mestre Brewer? Desculpe, senhor. Não sabia se era o senhor.

Derry se recompôs e pigarreou para encobrir o embaraço.

— Quem é? — perguntou, a mão livre descansando no punho do facão no cinto, só para prevenir. A lealdade andava escassa naquela noite.

— John Burroughs, senhor — respondeu a sombra. Debaixo do beiral das casas acima, quase não havia luz.

— Então? Pois você me achou — disse Derry, irritado. — Se me pedir a senha, posso lhe entregar suas entranhas. Basta me dizer o que sabe.

— Tudo bem, senhor, desculpe. Vim da Torre, senhor. Quando saí, tinham passado pela portão externo.

Os olhos de Derry se arregalaram, impossíveis de serem vistos na escuridão.

— Mais alguma coisa? Soube de Jim ou dos Kellys?

— Não desde que o povo de Cade entrou, senhor, desculpe.

— Então volte lá. Diga-lhes que estou indo com mil homens.

Derry sentiu o informante olhar com ceticismo o grupo esfarrapado de lorde Scales na rua.

— Terei mais quando chegar lá, não duvide. A rainha está na Torre, Burroughs. Leve quem mais encontrar.

Ele observou o homem correr na velocidade máxima que conseguia sobre a lama fedorenta da rua.

— Cristo, Cade, seu velho esperto.

Derry respirou ruidosamente e começou a correr na direção oposta, onde lorde Scales aguardava notícias com impaciência.

— Estão atacando a Torre, milorde. Meu homem disse que já estavam dentro das muralhas externas.

Scales olhou o céu noturno. As primeiras luzes da aurora finalmente apareciam. Seu estado de espírito se animou, agora que finalmente conseguia ver as ruas em volta.

— A aurora está quase chegando, graças ao Senhor. Obrigado a você também, mestre Brewer. Deixaremos o grupo da Cockspur para os outros. Consegue traçar o caminho daqui até a Torre?

— Num piscar de olhos, milorde. Conheço essas ruas.

— Então nos guie, Brewer. Não pare por nada. A segurança da rainha vem em primeiro lugar.

Paddy ergueu os olhos para a Torre Branca, estranhamente tentado a erguer a mão num saudação aos que estavam no interior, não que fossem capazes de vê-lo. Seus homens tinham lutado com os soldados do rei até uma sangrenta última defesa, pulando por cima do alto das muralhas externas e pegando-os um a um ou em pequenos grupos, sem lhes dar guarida. Apesar de todas as boas espadas e da cota de malha, ele conseguira levar para dentro da fortaleza a maior parte dos 2 mil atacantes, derrubando portas e removendo tudo o que valesse a pena levar. Sabia que, sem dúvida, as melhores peças estariam dentro das imensas muralhas da Torre Branca, mas simplesmente não havia como chegar até elas.

A edificação se elevava sem marcas, pintada de cor clara e brilhando ao luar. A única entrada ficava no primeiro andar, com a escada reduzida a lenha quando arrombaram a grade. Era algo tão simples para frustrar seu ataque. Se tivesse mais um dia, Paddy achava que conseguiria dar um jeito, mas os soldados que aguardavam dentro da pequena porta de entrada poderiam se defender com facilidade e não havia tempo suficiente.

Ele olhou em volta, mordendo o lábio. Conseguia ver do outro lado o pátio interno das imensas muralhas. A aurora se aproximava, e Paddy tinha a forte sensação de que não seria bom estar preso no interior do complexo de torres e muros quando ela chegasse. Aguardando o sol surgir, viu dois homens seus cambaleando com o peso de um cofre reforçado de ferro.

— O que vocês têm aí, rapazes? — gritou.

— Moedas! — respondeu um deles. — Mais ouro e prata do que dá para acreditar!

Paddy balançou a cabeça.

— É pesado demais, seu idiota. Encha os bolsos, homem. Jesus, até onde vocês irão com um cofre?

O homem respondeu com um xingamento e Paddy pensou em ir atrás para enfiar algum bom senso na cabeça dele à força, antes de controlar a irritação. Pelo menos Jack e Woodchurch acertaram quanto à Casa da Moeda Real. Mesmo sem invadir a Torre Branca no centro, haviam achado ouro suficiente para viver como reis, se pelo menos conseguissem tirá-lo da cidade. Brilhantes moedas de ouro cobriam as pedras, e Paddy pegou uma delas e a fitou enquanto a luz aumentava. Nunca tivera ouro nas mãos antes daquela noite, e agora os bolsos estavam cheios. Ele descobriu que era um metal pesado, com grande quantidade delas descansando ao ombro, num saco feito com uma capa.

Paddy se perguntou se encontrariam carroças para levar a nova riqueza pela Ponte de Londres. No entanto, a luz aumentava o tempo inteiro, e ele temia o dia. Os homens do rei foram feitos em pedaços a noite toda, mas, sem dúvida, voltariam com força total quando vissem os danos causados à cidade.

Um dos homens que ele pusera no alto das muralhas externas levantou o braço e gritou. Paddy correu para ouvir mais de perto, tilintando a cada passo e temendo a notícia de que um exército vinha salvar a Torre.

— É Cade! — berrava o homem com as mãos em concha. — Cade!

Paddy relaxou de alívio. Pelo menos era melhor do que fileiras furiosas de soldados do rei. Dentro das muralhas da Torre, ainda não podia ver o sol, que subia assim mesmo, revelando espirais de névoa e cadáveres por todo lado. Paddy começou a trotar rumo ao portão destruído para receber o amigo. Atrás dele, os soldados da Torre Branca gritaram insultos e ameaças pelas janelas. Ignorou-os. Podiam ser intocáveis por trás de paredes de quase 5 metros de espessura, mas aquele truque da porta levadiça significava que também não podiam sair para incomodá-lo. Acenou-lhes alegremente antes de sair pelo portão até a rua do outro lado.

Jack Cade estava quase morto de cansaço após a noite passada lutando e andando. As pernas e as mãos estavam geladas, respingadas de sangue e imundície. Atravessara a cidade duas vezes na escuridão, e o sol nascente revelava como seus homens estavam surrados e esfarrapados, como se tivessem passado por uma guerra e não por uma única noite em Londres. Piorava a situação o fato de metade ainda estar bêbada, fitando com olhos turvos os que os cercavam e tentando se manter em pé sem vomitar. Ele dera ordens furiosas para que deixassem as tabernas em paz, porém o maior dano já fora feito.

Quando chegaram às muralhas externas da Torre, Jack sentia uma pontada de preocupação nas entranhas, além da exaustão. Deu vivas ao ver no chão os cofres quebrados de moedas novas de ouro e prata, mas, quando seus homens correram com gritos roucos para pegar sua parte, pôde ver que alguns haviam perdido ou largado as armas. A maioria dos que ainda estavam com ele tinha os olhos vermelhos, cansados demais para rechaçar até mesmo uma criança; um homem do rei, então, nem pensar. Algumas centenas de soldados descansados massacrariam todos. Ele ergueu os olhos e viu Woodchurch com a mesma expressão preocupada.

— Acho que devemos atravessar o rio de volta, Jack — sugeriu Thomas. Ele balançava ali em pé, embora o filho Rowan estivesse tão ocupado quanto os outros, recolhendo punhados de ouro e enfiando-os pelo corpo.

Jack levantou os olhos para a Torre Branca, com centenas de anos e ainda de pé e forte depois da noite pela qual todos tinham passado. Suspirou, esfregando os pelos eriçados do queixo com uma das mãos. Londres acordava em torno deles, e metade dos homens que levara para lá estava morta ou jazia no estupor da bebedeira.

— Nós os pusemos para dançar um pouco, não foi? Esta foi a melhor noite de minha vida, Tom Woodchurch. Estou com vontade de voltar amanhã e ter outra igualzinha.

Woodchurch riu, um som seco da garganta dolorida de tanto gritar. Teria respondido, mas Paddy veio correndo nesse momento para abraçar Jack e quase o levantou do chão. Woodchurch ouviu o tilintar das moedas e riu, vendo como o irlandês inchara pelo corpo todo. Era grande o suficiente para aguentar o peso.

— É bom ver você entre os vivos, Jack! — exclamou Paddy. — Há mais ouro aqui do que consigo acreditar. Peguei uma parte para você, mas acho que talvez a gente devesse cair fora agora, antes que os homens do rei voltem com sangue nos olhos.

Jack suspirou, satisfação e desapontamento misturados dentro dele em partes iguais. Fora uma noite grandiosa, com alguns momentos maravilhosos, mas ele sabia que não devia forçar a sorte.

— Tudo bem, rapazes. Passem a ordem. De volta à ponte.

O sol já subira quando os homens de Jack foram empurrados e forçados a se afastar da busca pelas últimas moedas da Torre. Paddy achara a carroça de um limpador de esgoto a algumas ruas dali, com um fedor tão forte que fazia os olhos lacrimejarem. Ainda assim, ele a forrou com um pano bordado e a encheu de sacos e baús e tudo o que podia ser erguido. Não havia boi para puxá-la, e uma dúzia de homens segurou os cabeçalhos com muito bom humor, levando-a pelas ruas na direção do rio.

Centenas mais surgiram de todas as ruas laterais pelas quais passavam, alguns exultando com a carga ou com os itens saqueados que ainda traziam, outros parecendo culpados ou envergonhados, ou apenas vazios de horror com o que viram e fizeram. Outros ainda traziam jarras de bebida e rugiam ou cantavam em pares e trios, ainda respingados de sangue.

O povo de Londres dormira pouco, se é que dormira. Enquanto removiam os móveis de trás das portas e tiravam pregos das janelas, descobriam mil cenas de destruição, de casas demolidas a pilhas de corpos por toda a cidade. Não havia comemoração pelo que o exército de Homens Livres de Jack Cade fizera. Sem nenhuma voz ou sinal, a população da cidade saiu com paus e lâminas, reunindo-se às dezenas e depois às centenas para bloquear as ruas que levavam de volta a Londres. Os homens de Cade que ainda não tinham chegado ao rio foram acordados por tamancos pesados de madeira ou por ocupantes das casas enraivecidos que os surravam ou cortavam sua garganta. Eles sofreram uma noite inteira de terror, e não houve misericórdia.

Alguns homens bêbados de Kent se levantaram e correram como coelhos à frente dos cães, derrubados por londrinos furiosos que, cada vez mais, viam quanto a invasão de Cade custara à cidade. Enquanto o sol subia, grupos de Homens Livres se reuniram, encurralando pessoas com espadas e machados conforme recuavam. Alguns desses grupos foram cercados pela multidão, pela frente e por trás, e rapidamente desarmados e estrangulados ou surrados até a morte no tipo de frenesi enlouquecido que viveram apenas horas antes.

A sensação da cidade enraivecida atingiu até os que chegaram à Ponte de Londres. Jack se viu olhando por sobre o ombro as filas de londrinos que berravam e lhe gritavam insultos. Alguns chegaram a lhe acenar para que voltasse, e ele só conseguiu ficar boquiaberto com o número imenso de pessoas que a cidade era capaz de lançar contra ele. Não olhou para Thomas, embora soubesse que o companheiro devia estar pensando no alerta sobre saques e estupros. Londres demorara para acordar, mas a ideia de simplesmente voltar na noite seguinte parecia cada vez menos provável.

Jack manteve a cabeça erguida ao voltar a pé pela ponte. Próximo à metade dela, viu a estaca com a cabeça e o escudo do cavalo branco ainda presos a ela. Estava respingada de lama, e a cena fez um arrepio correr pela espinha de Jack ao recordar a fuga enlouquecida debaixo da chuva torrencial e dos dardos das bestas na noite anterior. Ainda assim, parou e a pegou, entregando o machado a Ecclestone, que estava a seu lado. Ali perto jazia o corpo do menino Jonas, que a carregara por algum tempo. Jack balançou a cabeça de tristeza, sentindo a exaustão atingi-lo como um golpe de machado.

Com um impulso, ergueu a estaca da bandeira. Os homens a sua volta e atrás dele na ponte deram vivas ao vê-la, enquanto marchavam para longe da cidade e das lembranças sombrias que criaram.