Pássaro da Tempestade

Conn Iggulden · Capítulo 12 de 43

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Pássaro da Tempestade

Capítulo 7

 

 

A carruagem de Margarida parou diante da catedral, fazendo um amplo círculo. A multidão gritava, e ela corou enquanto ajudavam as duas irmãs a descerem. O véu finíssimo cobria seu rosto, mas ela conseguia ver todos com clareza através dele. Tinham ido até aquele lugar por sua causa. O nervosismo aumentou quando viu o rei Carlos sorrindo, ao lado, com sua tia Maria.

Seu próprio sorriso se tensionou sob o véu ao avistar o pai de pé junto ao rei, usando um casaco vermelho-sangue sobre calções cor de creme e lustrosas botas negras. O tecido era coberto de padrões feitos com fios de ouro, e ele abaulava acima e abaixo das partes mais justas. Mas Renato de Anjou parecia orgulhosamente feliz com a presença de tantos belos nobres no casamento da filha. Ao fazer uma reverência diante de ambos, Margarida se perguntou se o pai estaria preocupado com a cerimônia ou se só pensava nas terras que reconquistara para a família.

Quando Margarida se levantou, outro homem atravessou a multidão e fez uma profunda reverência. Era alto, de ombros largos, os cabelos tinham um tom férreo. As roupas eram menos vistosas que as do pai e do rei, e Margarida, sem entender direito como, soube que era inglês antes mesmo que ele lhe beijasse a mão e falasse.

— Princesa Margarida, é uma grande honra — declarou ele. — Sou Suffolk, mas seria uma honra para mim se me chamasse de William. — Para sua surpresa, ele se curvou de novo, e ela percebeu que o lorde inglês grandalhão estava quase tão nervoso quanto ela.

Quando ele estava prestes a falar de novo, a irmã Iolanda estendeu a mão, a palma para baixo, e deu uma risadinha quando Suffolk tentou beijá-la ao se curvar uma terceira vez.

— A senhorita deve ser a princesa Iolanda. Estou a seu serviço, é claro — disse ele. Os olhos voltaram para Margarida e Suffolk mordeu o lábio inferior. — Gostaria de saber se faria a bondade de me conceder uma palavrinha em particular, milady? Tenho uma notícia que a senhorita deve ouvir antes da cerimônia.

Margarida ergueu os olhos e viu o pai e o rei Carlos trocarem um olhar confuso.

— O que houve, lorde Suffolk? — perguntou Renato, avançando. — Não é conveniente atrasar a cerimônia. Onde está o noivo? Ele está chegando?

O coração de Margarida se apertou quando o pai falou. O rei inglês não estava ali? Ela teve visões de voltar solteira para o Castelo de Saumur, alvo de zombarias e cochichos dissimulados pelo resto da vida. De repente, teve vontade de chorar, e sentiu a mão de Iolanda pegar a dela e apertá-la em apoio velado.

— Vossa Majestade, meu senhor Anjou, tenho notícias angustiantes. O senhor, por favor, escoltaria sua filha para dentro da igreja, longe do sol? Não são notícias para todos os ouvidos.

Suffolk corara ao falar, parecendo prestes a explodir com toda a atenção do público voltada para ele. Foi o primeiro a erguer os olhos quando houve um clamor e um estrondo vindos da porta principal da catedral. Margarida viu uma expressão de profundo alívio surgir no rosto do homem quando Derry Brewer saiu da penumbra e parou de repente. Havia criados passando pela multidão com jarras e preciosas taças de vinho branco. Derry agarrou uma ao passar e andou em direção às carruagens que formavam um semicírculo.

— Mestre Brewer! — exclamou Suffolk, enxugando o suor da testa com um pano.

Margarida teve um vislumbre de outro lorde alto que se virou de repente ao ouvir o nome e andou pela multidão até eles.

— Que lindo dia para um casamento — comentou Derry em inglês, esvaziando a taça com um longo gole. Curvou-se para os nobres franceses que o observavam com desconfiança. — Vossas Majestades, lorde Suffolk. E essas flores da França devem ser as princesas Margarida e Iolanda.

Derry se curvou ainda mais diante delas e beijou a mão de ambas com um sorriso que nunca saía de seu rosto. Margarida percebeu que ele suava profusamente e tentava controlar a respiração. Estaria tão empolgado assim por vê-las? Quase parecia que estivera correndo. Os nobres que os rodeavam já sussurravam perguntas entre si.

Suffolk estendeu a mão e pegou Derry pelo braço, ficando ainda mais corado com a tensão e o calor.

— Agora mesmo eu explicava, mestre Brewer, que devíamos ir para um lugar privado um momento antes da cerimônia.

— Excelente — respondeu Derry. Quando um criado passou, trocou a taça vazia por outra e a esvaziou igualmente, em três goles dessa vez. — Está quente demais aqui. Ah, lorde York! Que prazer encontrá-lo tão bem de saúde num dia como hoje.

Aos olhos de Margarida, lorde York era muito mais parecido com o que ela esperava de um lorde inglês. Era alto e ágil, com o rosto rígido e quadrado e cabelos pretos bem curtos. Os olhos escuros faiscaram quando se aproximou, e todos em volta se calaram, sentindo a ameaça que emanava como calor do nobre inglês. Mais uma vez, o pai trocou olhares com o rei Carlos, mais preocupado a cada instante.

— Vossa Majestade, lorde Renato, lorde Suffolk — saudou York, curvando-se. — Estou muito contente em vê-lo aqui, Brewer. Adoraria ter uma oportunidade de continuar nossa última conversa mais tarde.

— Ah, como desejar, milorde. Mas hoje não é dia para nossas questões menos importantes, não é mesmo? É um dia de celebração, com duas grandes culturas unidas na promessa da juventude.

Com o rosto ainda lustroso de suor, Derry abriu um grande sorriso a todos, claramente contente com algo. Margarida acompanhara com dificuldade as palavras inglesas, e olhava de um para o outro. Suffolk havia falado com bastante delicadeza e ela percebeu que gostava dele. Lorde York sequer demonstrara perceber a sua presença ali.

— Por aqui, meus senhores, senhoras. Vamos nos refugiar do sol dentro da catedral.

Derry levou o pequeno grupo pelas portas abertas, erguendo a taça ao passar por soldados ingleses ofegantes. Eles o olharam fixamente, seguindo cada passo seu com frieza.

O interior da igreja era como uma brisa fresca depois do sol quente. Margarida respirou fundo, temendo desmaiar. Apoiou-se em Iolanda quando o estranho grupo se virou e esperou esclarecimentos.

Derry deu leves toques na testa com um lencinho antes de falar, com total consciência da atenção nele concentrada. Sabia que todos os meses de planejamento não dariam em nada se estragasse este único discurso. Ergueu a cabeça e guardou o lenço.

— Temo que haja uma pequena dificuldade, meus senhores. O rei Henrique foi acometido por uma doença ontem à noite. Não é nada fatal, mas mesmo com purgantes não passará a tempo. Contra sua vontade, foi forçado a retornar a Calais, para, de lá, voltar à Inglaterra. Ele não tem condições de comparecer, e só pôde enviar suas mais humildes desculpas à princesa Margarida e a seu pai.

— Uma pequena dificuldade? — perguntou o rei Carlos, estupefato. Derry notou que seu inglês era excelente, embora o sotaque fosse bastante carregado. — Tem alguma ideia de todo o trabalho investido neste dia? Agora vem me dizer que seu rei está doente? Isto é uma catástrofe!

— Vossa Majestade, nem tudo está perdido — respondeu Derry. — Tenho instruções específicas do rei Henrique. Esse é um problema que está ao alcance dos homens resolver.

— Vocês não trouxeram o noivo! — objetou o duque Renato. — Como vão resolver isso?

— O senhor foi diretamente ao âmago da questão, lorde Anjou — declarou Derry. Seu sorriso não titubeara. — Os reis não são como os outros homens, graças a Deus. Lorde Suffolk, aqui, tem a permissão do rei Henrique para trocar os votos em seu nome. O casamento acontecerá dessa forma, com outra cerimônia na Inglaterra em data posterior. O armistício e a troca de terras estarão garantidos.

— Troca de terras? — quis saber York de repente.

Derry se virou para ele, erguendo as sobrancelhas, surpreso.

— Milorde York, vejo que o rei não lhe contou todos os detalhes de seus planos, como é de seu direito. Talvez o senhor devesse sair em vez de ouvir detalhes que não lhe dizem respeito.

York trincou os dentes, as linhas dos músculos do maxilar se destacando.

— Ficarei para ouvir o resto, Brewer. Como comandante das tropas inglesas na Normandia, acredito que me diz respeito, sim.

Derry deixou o momento de silêncio se estender como se considerasse se devia mandar expulsá-lo. York corou ainda mais sob o exame conjunto do rei francês e do duque de Anjou.

— Muito bem, lorde York. Fique, se assim deseja, mas, por favor, permita-me discutir os planos do rei Henrique sem mais interrupções.

Margarida achou que o magro lorde inglês explodiria de fúria, mas York se controlou com esforço visível. Ela se sentiu devanear, a visão borrada pelas lágrimas. Henrique não viria! Seu inglês não era bom o suficiente para acompanhar toda a conversa rápida. À medida que tentava entender a calamidade, parecia que eles sugeriam outra coisa.

— Com licença, milordes, Vossa Majestade — murmurou Margarida enquanto Derry falava. Ninguém pareceu ouvi-la. — Pardon, pai — continuou ela, desistindo do inglês, o coração se rasgando ao meio no peito. — Não haverá casamento hoje?

Foi Suffolk quem se virou para Margarida, o rosto registrando tristeza e preocupação. Falou em francês fluente ao responder.

— Minha cara, sinto muitíssimo. É verdade, o rei Henrique não poderá estar aqui. Tenho sua permissão para trocar os votos em seu nome. Essas coisas podem ser feitas e satisfarão certas partes do contrato de casamento. A senhorita se casará hoje, pelo menos, e terá um casamento formal na Inglaterra. Eu preferiria não ser o responsável por lhe dar essa notícia, minha cara, mas fomos longe demais para pôr tudo a perder agora. Se me permitir, ficarei no lugar do rei Henrique neste dia.

Margarida o fitou, a boca levemente aberta. De repente, achou o véu sufocante e o afastou do rosto.

— Milorde, diga-me, por sua honra, tudo isso é real? Vou me casar hoje ou não?

Suffolk hesitou, e Derry falou por ele.

— Será uma troca formal de votos, Vossa Alteza. Sem noivo, não se pode dizer propriamente que será um casamento, mas bastará.

— Mas vejo uma aliança no dedo de lorde Suffolk! — comentou Margarida, balançando a cabeça. — Como ele pode entrar numa igreja e fazer votos solenes se já é casado?

— Os reis fazem suas próprias leis, Vossa Alteza. Se Henrique assim deseja e se o rei Carlos concorda que servirá, então, que assim seja.

Todos os olhos se voltaram para o rei francês, que escutava em fascinada perplexidade.

— Vossa Majestade — disse baixinho lorde Renato. — Chegamos longe demais. Este é apenas um passo.

O rei coçou o nariz, pensativo.

— Tenho certos acordos selados com seu rei Henrique — começou. — Acordos que entram em vigor assim que a princesa Margarida estiver casada. O senhor diz que honrará esse... noivado como um casamento de verdade nesses termos?

— Honraremos — disseram Suffolk e Derry quase ao mesmo tempo.

O rei francês deu de ombros.

— Então, estou satisfeito. — Ele passou a falar em francês rápido ao se dirigir novamente a Margarida. — Os ingleses são gauches e desajeitados, minha cara, mas, se o rei deles está doente, este é o plano de Deus, que meros homens só podem contornar. Aceitará esses termos? Faria honra a seu pai.

Margarida fez uma reverência.

— Se é vosso desejo, Vossa Majestade.

A tensão pareceu se esvair do pequeno grupo quando ela falou. Lorde Suffolk lhe deu um tapinha desajeitado na mão.

— Creio, então, que devo ocupar meu lugar no altar, minha cara. Vejo que o bispo aguarda que o noivo vá até o altar. Sem dúvida acreditará que tive uma vida terrível para parecer tão velho.

Suffolk sorriu para ela e os olhos de Margarida se encheram de lágrimas diante da tentativa dele de ser gentil. Viu o inglês tirar com dificuldade a aliança de ouro do dedo e colocá-la com cuidado no bolso. Dava para ver uma linha branca onde ela ficara muitos anos.

Antes que Suffolk ocupasse seu lugar junto ao altar, Margarida viu lorde York se inclinar para ele. Embora o duque magro sorrisse ao falar, o que ele disse fez Suffolk empalidecer na penumbra.

Iolanda estendeu a mão para enxugar as lágrimas de Margarida antes que manchassem o kohl dos cílios e repôs o véu quase com reverência. Margarida lutou para respirar fundo. Tinha 14 anos, e disse a si mesma, com firmeza, que não murcharia nem desmaiaria no dia de seu casamento ou o que quer que fosse aquilo. Em seus pensamentos, prometeu ter uma conversa com o rei inglês quando finalmente o encontrasse. Deixá-la sozinha no próprio casamento devia valer pelo menos um castelo.

A ideia a fez dar um riso abafado e Iolanda ergueu os olhos com surpresa. O restante dos homens se dispersara pelos bancos, e a multidão lá fora finalmente entrava, olhando-a com nervosismo e cochichando perguntas que não podiam ser respondidas. No fim da nave, William de la Pole cruzara a porta do púlpito alto de carvalho-negro que escondia da congregação os mistérios do coro e do altar-mor. Por aquela abertura, ela via as costas largas do inglês em pé, à espera da princesa da França. Margarida balançou a cabeça com descrença.

— Que dia mais estranho — murmurou para a irmã. — É como se eu não passasse de uma quinquilharia, enquanto eles fazem seus jogos de poder por toda parte.

Ela firmou o maxilar, recusando-se a olhar o pai que foi até seu lado e lhe tomou o braço. Iolanda e as primas entraram a passo marcado atrás dela, e a igreja se encheu de música quando três harpistas começaram a tocar. De braço dado com o pai, Margarida andou devagar pela nave, a cabeça erguida. Passaram juntos pela entrada do púlpito alto e a porta se fechou atrás deles. Quando olhou para trás, lorde Suffolk sorriu ao ver tamanha bravura numa mocinha tão jovem. Por sorte ou bênção de Deus, ou talvez por puro ardil de Derry Brewer, Suffolk achou que o rei Henrique encontrara uma joia rara para ser sua noiva.

Os sinos da Catedral de Saint-Gatien tocaram acima de Tours, um som alegre que reverberou um bom tempo em melodias complicadas que nunca se repetiam no decorrer de um dobre completo.

Derry observou placidamente a princesa francesa sair e ser escoltada de volta à carruagem que a aguardava, com os sinos e os gritos da multidão ecoando em volta. Ela sorria e chorava ao mesmo tempo, o que fez Derry dar uma risadinha. Se sua filha estivesse viva, teria mais ou menos a mesma idade. A lembrança provocou a pontada de uma dor antiga em seu peito.

O rei francês e seus nobres mais poderosos saíram para ver a noiva partir para o Castelo de Saumur, o monarca já afundado em conversas e cercado de mensageiros que iam e vinham do exército estacionado fora da cidade.

Os pensamentos de Derry foram interrompidos pela mão de alguém que caiu com força sobre seu ombro direito. Nas estalagens do leste de Londres, ele a teria agarrado e quebrado o dedo mínimo, mas se esforçou para resistir ao impulso.

— Em nome do rei, o que você fez, Derry Brewer? — sibilou-lhe York. — Diga-me que não é verdade. Diga-me que não abrimos mão de terras reconquistadas para os bons ingleses por Henrique de Monmouth.

— O filho dele, nosso rei, queria um armistício, lorde York, portanto, sim, foi exatamente isso que fizemos — respondeu Derry. Removeu a mão do nobre de seu ombro, espremendo deliberadamente os ossos ao fazê-lo. York grunhiu de dor, embora resistisse à vontade de esfregar a mão quando a recuperou.

— Isso é traição. Você será enforcado por isso, ao lado daquele idiota do Suffolk.

— Com o rei ao nosso lado, suponho? Lorde York, será possível que não consiga compreender o acordo? Maine e Anjou são o preço de vinte anos de trégua. Vai contradizer seu próprio rei nisso? É o que ele quis. Somos seus humildes servos e só podemos ceder à vontade real.

Para sua surpresa, York recuou e lhe sorriu friamente.

— Acho que você descobrirá que esses jogos têm consequências, Derry Brewer. Não importa o que acha que conseguiu; a notícia já se espalhou. Quando seus acordos secretos forem conhecidos, o país saberá que o rei Henrique abriu mão de territórios conquistados por seu pai e por sangue inglês derramado nos campos de batalha. Dirão... Ah, deixo a você imaginar o que dirão. Desejo-lhe sorte, mas quero que se lembre bem de que o avisei. — Por um momento, York deu um riso abafado e balançou a cabeça. — Você acha que irão embora mansamente, aqueles ingleses, só porque um gordo nobre francês os manda de volta para a Normandia? Você se superou com sua esperteza, Brewer. Homens morrerão por causa dela.

— Você está vendendo lavanda além de profecias? Pergunto porque adoraria um ramo de lavanda e não há ciganas por aqui.

Ele achou que York perderia o controle, mas o homem meramente sorriu de novo.

— Estou de olho em você, Derry Brewer. Meus homens estão de olho em você. Desejo sorte na volta a Calais, mas temo que não esteja com ela hoje. Toda essa sua brilhante falação não lhe servirá de nada quando o pegarmos na estrada.

— Que coisa indelicada para me dizer, lorde York! Voltarei a vê-lo em Londres ou Calais, tenho certeza. Mas, no momento, o rei francês me convidou para acompanhá-lo numa caçada. Gosto dele, Ricardo. Ele fala inglês muito bem.

Derry ergueu a mão para atrair a atenção do grupo de nobres franceses. Um dos barões viu e acenou em resposta, chamando-o. Com um último erguer de sobrancelhas despreocupado voltado para York, Derry se dirigiu até eles.

Fora da cidade, o exército francês começou a desfazer o acampamento, pronto para assumir o comando de mais terras novas conquistadas numa manhã do que nos dez anos anteriores. O duque Renato sorria quando Derry chegou ao grupo. Havia mais de uma dúzia de seus nobres em torno dele, dando-lhe tapinhas nos ombros e o parabenizando em voz alta. Para surpresa de Derry, o francês tinha lágrimas correndo pelas bochechas pálidas. Ele viu o rosto de Derry e riu.

— Ora, seu inglês, vocês são frios demais. Não entende que hoje recuperei as terras de minha família? Essas são lágrimas de alegria, monsieur.

— Ah, o melhor tipo — comentou Derry. — Alguém falou em caçada quando Sua Majestade me convidou para acompanhá-lo?

Os olhos do duque Renato mudaram sutilmente sob a luz.

— Acredito que Sua Majestade, o rei Carlos, se divertia a sua custa, monsieur. Não haverá nenhuma caçada de javalis ou lobos, não hoje. Mas Sua Majestade acompanhará o exército quando se deslocar para o norte por minhas terras. Quem sabe se não encontraremos algum trêmulo veado inglês nos campos e vinhedos de minha família?

— Entendo — disse Derry, o bom humor sumindo. — Acredito que, no fim das contas, não me juntarei ao senhor, lorde Anjou. Se não se importa, ficarei aqui mais um pouco, enquanto tomo providências para voltar para casa.

Ele observou Ricardo de York sair para dar ordens aos mil homens que trouxera para o sul. Eles também se retirariam para a Normandia. O duque não tinha opção. Por um instante, Derry teve a sensação nauseante de que York não era o tolo que pensara que fosse. Havia muitos colonos ingleses em Maine e Anjou, isso era verdade. Sem dúvida, não seriam tontos a ponto de resistir. Os acordos assinados pelo rei Henrique determinavam a partida pacífica das famílias inglesas que estivessem nas províncias francesas. Mas o estado de espírito dos nobres a sua volta era mesmo de caçada. Trincavam os dentes, e ele sentiu no ar uma empolgação febril que o preocupou. O espião-mor sentiu na garganta o gosto ácido do nervosismo. Se os ingleses em Maine e Anjou se recusassem a partir, ainda assim poderia haver guerra. Todo o esforço que investira, todos os meses de planejamento, teriam sido em vão. O armistício conquistado com tamanha dificuldade duraria tanto quanto gelo no verão.