Pássaro da Tempestade
Capítulo 12
Margarida soltou o ar que não sabia estar prendendo. Dois menininhos haviam se instalado diante dela quando entrou na igreja, filhos de alguma família nobre. Um deles não parava de olhar para trás enquanto andavam no ritmo da música do órgão, em meio à multidão, até a tela de carvalho esculpido e o altar oculto. Os meninos estavam vestidos de vermelho e usavam ramos de manjericão seco torcidos e amarrados nos braços. Margarida conseguia sentir o aroma da erva ao segui-los. Toda a multidão de pé parecia usar flores secas ou ramos dourados de trigo guardados da colheita. Farfalhavam quando ela passava por eles, que se viravam para observar, sorrir e cochichar.
Os meninos e as damas de companhia pararam na treliça, de modo que só Iolanda avançou junto dela, apertando seu braço ao parar e ocupar seu lugar. Margarida viu Henrique pela primeira vez. O alívio a deixou tonta. Mesmo através da névoa do véu, pôde ver que não era deformado nem tinha cicatrizes. No mínimo, Henrique possuía uma boa aparência, com a cabeça oval, os olhos escuros e os cabelos pretos que caíam em cachos sobre as orelhas. Usava uma coroa simples de ouro e a roupa de casamento quase não possuía adornos, uma túnica vermelha presa com um cinto que lhe chegava às panturrilhas, onde meias de lã creme cobriam a pele. Sobre o conjunto havia uma capa bordada, com desenhos em fio de ouro e presa ao ombro com um broche pesado. Ela viu que ele exibia uma espada no lado direito do quadril, um fio de prata polido engastado em ouro. O efeito era de simplicidade discreta — e então Margarida o viu sorrir. Corou ao perceber que o encarava. Henrique se voltou para o altar e ela continuou caminhando, forçando-se a manter o passo lento.
As notas do órgão aumentaram e a multidão reunida conversava, soltando a respiração quando as grandes portas que davam para o campo se fecharam atrás deles. Poucos conseguiam ver o altar, mas tinham assistido a sua chegada e estavam contentes.
Atrás da treliça, o espaço diante do altar-mor era muito menor. Ao contrário da nave principal, ali havia cadeiras, e Margarida passou por filas de lordes e ladies ricamente vestidos. Uma ou duas se abanavam, embora o ar estivesse frio.
Margarida se sentiu tremer ao chegar ao lado de Henrique. Ele era mais alto que ela, notou com satisfação. Todos os temores que não fora capaz sequer de admitir a si a deixaram quando o velho abade começou a falar em sonoro latim.
Ela quase pulou quando Henrique estendeu a mão e ergueu o véu, dobrando-o para trás sobre seus cabelos. Margarida ergueu os olhos enquanto ele a fitava, percebendo de repente que ele nunca vira seu rosto até aquele dia. Seu coração batia forte. O tremor aumentou, mas de certa forma parecia que ela emanava calor suficiente para acabar com a friagem da igreja inteira. O rei sorriu de novo, e alguma parte oculta de seu peito e de seu estômago se soltou. Os olhos cintilavam de lágrimas, e ela mal conseguia enxergar.
O abade era um homem severo, ou pelo menos assim pareceu a Margarida. Sua voz encheu a igreja quando ele perguntou se havia impedimentos, como consanguinidade ou casamentos anteriores. Margarida observou William lhe entregar uma autorização papal, amarrada com uma fita dourada. O abade a pegou com uma reverência, embora a tivesse lido havia muito tempo, e deu apenas um vislumbre formal antes de entregá-la a um dos monges. Apesar de serem primos, ele sabia que não havia sangue comum entre os dois.
Margarida se ajoelhou quando Henrique se ajoelhou, levantou-se quando ele se levantou. A missa em latim era uma ladainha pacífica e ritmada que parecia rolar por cima e através dela. Quando ergueu os olhos, viu luz colorida entrar por uma janela de vitral, desenhando o chão do altar em tons vivos de verde, vermelho e azul. Seus olhos se arregalaram quando ouviu o próprio nome. Henrique se virara para ela e, enquanto Margarida o olhava maravilhada, pegou sua mão, a voz calorosa e calma.
— Recebo-lhe, Margarida de Anjou, para ter e proteger, a partir deste dia, para o melhor e para o pior, na riqueza e na pobreza, na saúde e na doença, até que a morte nos separe, se assim ordena a Santa Igreja. E assim, juro-lhe minha fidelidade.
Quase em pânico, Margarida sentiu os olhos dos nobres ingleses recaírem sobre ela, que se esforçava para se lembrar das palavras que tinha de dizer. Henrique se abaixou para lhe beijar a mão.
— Agora é sua vez, Margarida — sussurrou.
A tensão se desfez dentro dela e as palavras saíram.
— Recebo-lhe, Henrique da Inglaterra, para ter e proteger, a partir deste dia, para o melhor e para o pior, na riqueza e na pobreza, na saúde e na doença, e serei dócil e obediente, na cama e na mesa, até que a morte nos separe, se assim ordena a Santa Igreja. E-assim-juro-lhe-minha-fidelidade. — As últimas palavras saíram numa torrente e ela sentiu uma grande alegria por ter conseguido sem errar. Ouviu William dar uma risadinha, e até o azedo abade sorriu um pouco.
Margarida permaneceu bem ereta enquanto o novo marido pegava sua mão esquerda e punha um anel de rubi no dedo. Ela se sentiu tonta outra vez, ainda lutando para respirar fundo em meio à armação do vestido. Quando o abade lhes disse para se ajoelharem e se prostrarem, ela poderia ter caído não fosse o braço de Henrique a segurando. Um tecido branco puro foi colocado sobre a cabeça dos dois, caindo por suas costas, e assim, por um momento, ela quase teve a sensação de estar sozinha com o marido. Quando a missa começou, sentiu Henrique se virar para ela e o olhou, inclinando a cabeça numa pergunta velada.
— Você é muito bonita — sussurrou ele. — William me mandou dizer isso, mas é verdade.
Margarida começou a responder, mas, quando ele estendeu a mão e pegou a dela outra vez, viu-se chorando em resposta. Henrique a olhou de esguelha, repleto de espanto, ao passo que o abade realizava a parte final da missa sobre suas cabeças abaixadas.
— Se fizermos isso, não pararemos — declarou Thomas, aproximando-se do barão Strange. — Assim que o rei francês souber que há luta em Maine, virá a toda e com tudo, com o sangue fervendo. Não vai mais se demorar em propriedades e vinhedos, provando os vinhos e as moças das aldeias. Com a primavera a caminho, haverá matança e destruição, e só acabará quando estivermos todos mortos ou vencermos seus homens. Entende, meu nobre barão? Não bastará matar alguns e sumir nos bosques como Robin Hood ou algum fora da lei. Se atacarmos esta noite, não haverá volta para casa para nenhum de nós, até que acabe.
— Thomas, não posso dizer isso aos homens — respondeu Strange, cansado, esfregando o rosto. — Eles não terão nenhuma esperança. Estão comigo para dar o troco aos franceses, talvez cortar algumas gargantas. Quer que enfrentem um exército? A maioria ainda espera que o rei Henrique ceda, ou lorde York. Ainda acreditam que soldados ingleses virão nos salvar. Se isso não acontecer, vão desistir e fugirão.
Thomas Woodchurch balançou a cabeça, sorrindo com ironia.
— Não fugirão, a menos que o vejam ir embora ou me vejam morto, talvez. Conheço esses homens, barão. Não são mais fortes que os franceses. Não podem lutar mais tempo sem perder o fôlego. Mas são matadores, barão, cada um deles. Adoram matar outros homens com uma boa espada, em companhia dos amigos. Desdenham de covardes como o diabo... e não fogem.
Um assovio baixo interrompeu a conversa. Thomas se contentou com uma última olhada significativa e depois se levantou nas sombras. A lua já saíra, e ele tinha uma boa visão da estrada à frente.
Viu um cavaleiro de cabeça desprotegida sair cambaleando da estalagem com o elmo enfiado debaixo do braço e a mão livre mexendo na virilha. Dois outros o seguiram, e Thomas entendeu que procuravam um lugar para esvaziar a bexiga. O homem levou algum tempo para remover a braguilha da armadura. Thomas recordou o cheiro na batalha quando os cavaleiros simplesmente esvaziavam bexigas e intestinos pelas pernas abaixo, contando com os escudeiros para limpar tudo depois que o combate terminasse.
Thomas se demorou colocando uma flecha na corda do arco. Queria que todos saíssem, e sua mente fervilhava com a melhor maneira de fazer isso. Se deixasse o grupo francês se isolar lá dentro, poderiam passar dias ali, com comida, bebida e conforto. Ele se virou para o barão, suspirando.
— Vou fazê-los sair — avisou. — Só comande o ataque quando chegar a hora. Ninguém se mexe e ninguém vai me buscar, aconteça o que acontecer. Entendido? Passe adiante. Ah, e diga aos homens para não me atingirem pelas costas.
Quando o barão Strange sumiu na escuridão, Thomas guardou a flecha de volta na aljava e encostou o arco num muro. Tateou o quadril para se assegurar de que ainda estava com o facão de caça. Com o coração batendo forte e depressa, saiu ao luar e se aproximou dos três cavaleiros franceses.
Um deles já gemia de alívio ao deixar correr um rastro de urina na estrada. Os outros riam dele enquanto Thomas se aproximava por trás, e só o ouviram chegar quando estava a poucos passos. O cavaleiro mais próximo se assustou e praguejou, depois riu do próprio susto e viu que só havia um homem ali sozinho.
— Outro camponês! Juro que eles se reproduzem como coelhos por aqui. Siga em frente, monsieur, e pare de incomodar seus superiores.
Thomas viu que o cavaleiro se mantinha em pé, sem firmeza. Deu um berro e o empurrou na estrada com um estrondo de metal.
— Seus canalhas franceses! — gritou. — Voltem para casa!
Um dos homens piscou espantado quando Thomas correu até ele e lhe deu um forte chute na perna, e este também caiu, debatendo-se loucamente enquanto tentava se endireitar.
— Você cometeu um erro esta noite, meu filho — disse o terceiro cavaleiro. Parecia um pouco mais firme nas pernas que os outros, e Thomas recuou quando o homem puxou a espada da bainha. — O quê? Você acha que pode atacar um homem de honra sem sofrer as consequências?
O cavaleiro avançou.
— Socorro! — berrou Thomas e, num momento de inspiração, trocou para uma expressão francesa que conhecia muito bem. — Aidez-moi!
O cavaleiro investiu contra ele, mas Thomas ficou fora do alcance, movendo-se depressa. Pôde ouvir o homem ofegar, depois de uma noite com muita bebida na estalagem. Se tudo desse errado, Thomas achou que ainda conseguiria fugir correndo.
O primeiro cavaleiro que empurrara se levantava ruidosamente quando a porta da estalagem se escancarou e uma dúzia de homens de armadura saiu com espadas desembainhadas. Viram um camponês dançando em torno de um cavaleiro cada vez mais frustrado, e alguns riram e lhe gritaram:
— Não consegue pegar o diabo, Pierre? Tente uma estocada, homem! Fure o fígado dele!
O cavaleiro em questão não respondeu, concentrado como estava em matar o camponês que o enfurecera.
Thomas começava a suar. Viu que outro soldado dos três primeiros puxara uma respeitável adaga curta e tentava dar a volta até seu flanco, a fim de atacá-lo ou segurá-lo para que Pierre o trespassasse com a lâmina maior. Thomas conseguiu ouvir o homem dar uma risada sinistra, quase bêbado demais para ficar em pé, porém se aproximando gradativamente.
Thomas ouviu Strange berrar uma ordem e se jogou no chão.
— Ele caiu! — Ouviu alguém gritar alegre em francês. — Ele caiu sozinho? Pierre?
A voz foi sufocada quando o ar se encheu de flechas, um som sibilante e seco enquanto os cavaleiros eram atingidos e jogados para trás conforme os projéteis lançados com a máxima força se enterravam neles. Rugiram e berraram, mas as flechas continuaram a chegar, perfurando armaduras e cotas de malha e fazendo o sangue esguichar.
Thomas ergueu os olhos e viu o cavaleiro que o atacava fitar em choque as hastes emplumadas que saíam de sua clavícula e de uma das coxas. Soltou um som de horror e tentou se virar para encarar os atacantes invisíveis. Thomas se levantou por trás dele quando o cavaleiro tentou andar, arrastando a perna ferida. Sombriamente, desembainhou o facão e se aproximou, segurando com firmeza o elmo do cavaleiro. Puxou a cabeça para trás; o homem dava espasmos de pânico, revelando os elos do gorjal metálico que protegia a garganta dele. Thomas usou a lâmina pesada como martelo e, com toda a força do braço do arco, baixou-a, quebrando o ferro mais macio e cortando profundamente antes de torcer o facão de um lado para o outro. O cavaleiro se enrijeceu, sufocado e chorando. Thomas se afastou e o deixou cair.
A maioria dos inimigos estava no chão, embora alguns feridos tivessem se reunido em volta daquele que devia ter sido seu líder. De Roche observou com horror dezenas de homens de roupa escura, portando arcos longos, saírem das ruas laterais e descerem dos telhados como aranhas. Em grupo, aproximaram-se, calados.
O estalajadeiro chegara à porta, fazendo o sinal da cruz em presença da morte. Thomas lhe fez um gesto zangado para que entrasse e o homem sumiu de volta no calor e na alegria da estalagem.
— Monsieur! — gritou-lhe De Roche. — Podem pedir meu resgate. Querem ouro?
— Tenho ouro — respondeu Thomas.
De Roche olhou em volta quando ele e quatro cavaleiros feridos foram cercados.
— Você faz ideia de que o rei da França está a apenas alguns quilômetros de distância, monsieur? Ele e eu somos como irmãos. Deixe-me vivo e não haverá represálias, não nesta cidade.
— Você dá sua palavra? Por sua honra? — indagou Thomas.
— Sim, por minha honra! Juro.
— E o restante de Maine? Deixará o território em paz? Seu rei retirará seus homens?
De Roche hesitou. Queria concordar, mas seria uma mentira tão óbvia que não conseguia dizê-la. A voz perdeu o tom de desespero.
— Monsieur, se pudesse conseguir tal coisa, eu o faria, mas não é possível.
— Muito bem. Que Deus esteja contigo, meu senhor.
Thomas murmurou uma ordem para os arqueiros a sua volta enquanto o barão francês gritava e erguia as mãos. Uma das flechas atravessou a palma de sua mão.
— Verifiquem os corpos agora — ordenou Thomas, sentindo-se velho e cansado. — Cortem as gargantas para ter certeza. Não pode haver testemunhas.
Os homens cumpriram a tarefa como fariam ao matar porcos ou gansos. Um ou dois cavaleiros se debateram ao serem segurados, mas não demorou muito.
Rowan foi até o pai com o arco longo na mão. Parecia muito pálido ao luar. Thomas lhe deu um tapinha no ombro.
— Serviço sujo — declarou.
Rowan olhou a estrada cheia de mortos.
— É. Ficarão irritados quando souberem — comentou Rowan.
— Ótimo. Quero que fiquem irritados. Quero que fiquem tão furiosos que mal consigam pensar, e quero que nos ataquem do jeito que fizeram em Azincourt. Eu era apenas um menino naquela época, Rowan. Quase jovem demais para levar os barris d’água para o velho Sir Hew. Mas eu me lembro. Foi naquele dia que comecei a treinar com meu arco, desde então até hoje.
Londres era simplesmente avassaladora, coisa demais para absorver. Margarida cavalgara com o novo marido da Abadia de Titchfield até Blackheath, onde vira o Tâmisa pela primeira vez e, naquele momento, o primeiro corpo inchado a passar flutuando na superfície.
O séquito do rei fora abençoado com um dia claro, o céu de um azul desbotado e o ar deveras frio. O prefeito e seus conselheiros a encontraram lá, usando túnicas azuis com capuzes escarlates. Havia um ar alegre e festivo na procissão, à medida que Margarida era levada pela mão até uma grande liteira com rodas, puxada por cavalos cobertos de cetim branco. A partir daí, ela foi aonde a levaram, embora olhasse o marido que cavalgava a seu lado a todo momento. A procissão entupiu a estrada e parou quando chegaram à única ponte enorme que cruzava o rio, unindo a capital aos condados do sul e ao litoral. Margarida tentou não ficar boquiaberta como uma mocinha do campo, mas a Ponte de Londres por si só era incrível, quase uma cidade que se estendia sobre a água em arcos de tijolo caiado. A liteira passou por dezenas de estabelecimentos comerciais e casas construídas sobre a ponte propriamente dita. Havia até banheiros públicos, e ela corou ao avistar tábuas pendentes acima do rio com assentos circulares instalados. A liteira prosseguiu, revelando estranheza após estranheza, até parar no centro da ponte. Construções de três andares se apertavam dos dois lados, mas uma pequena área fora armada como um palco e a imundície do chão havia sido coberta com ramos limpos. Duas mulheres aguardavam ali, maquiadas e vestidas como deusas gregas. Margarida as fitou enquanto se aproximavam e punham guirlandas de flores em seus ombros.
Uma delas começou a declamar versos acima do ruído da multidão, e Margarida entendera que aquilo era em louvor à paz apenas quando os chicotes estalaram e a cena ficou para trás. Ela esticou o pescoço e viu Iolanda cavalgando de lado na garupa junto ao marido Frederick. Quando seus olhos se encontraram, ambas tiveram de se segurar para não rir de prazer e espanto.
Os homens do prefeito continuaram marchando com eles pelas ruas, acompanhados por mais gente do que Margarida pensava existir. A cidade inteira parecia ter parado para vê-la. Com certeza não poderia haver mais homens e mulheres além dos que via. A multidão se acotovelava, subia em construções e sentava-se nos ombros de amigos para ter um vislumbre de Margarida da Inglaterra. O barulho dos gritos podia ser sentido na pele, e os ouvidos doíam.
Margarida não comia havia horas, o pequeno detalhe esquecido na vasta organização de sua viagem pela capital do marido. O cheiro das ruas ajudou um pouco a aplacar o apetite, mas quando chegaram à Abadia de Westminster ela estava fraca de fome. Os cavalos da liteira tiveram permissão de descansar, e o próprio Henrique tomou sua mão para guiá-la até o interior.
Era estranho sentir o calor de sua mão na dela. Margarida não tivera certeza do que esperar depois do casamento em Titchfield, mas nos dias que se seguiram nunca foi deixada a sós com o jovem rei. William e lorde Somerset, especificamente, pareciam decididos a afastar o rei dela em todas as oportunidades. À noite, ela dormia sozinha, e quando perguntara e depois exigira saber onde estava o marido, criados encabulados lhe disseram que tinha corrido à capela mais próxima para passar a noite em oração. Margarida começava a imaginar se o que o pai dizia dos ingleses era verdade. Poucas francesas continuavam virgens uma semana inteira depois do casamento. Ela segurou com força a mão de Henrique para que a olhasse. Viu apenas felicidade em seus olhos enquanto ele a guiava pelas pedras brancas até uma das abadias mais antigas da Inglaterra.
Margarida sufocou o espanto num interior muito mais grandioso do que a Catedral de Tours, com o teto abobadado estendendo-se muito acima em vigas de pedra. Pardais sobrevoavam lá em cima no ar frio, e ela achou que realmente conseguia sentir a presença de Deus no espaço aberto.
Havia bancos de madeira cheios de gente que se estendiam por todo o comprimento da antiga igreja. Ao ver tantas pessoas, os passos lhe faltaram, e Henrique teve de colocar o braço em sua cintura.
— Não falta muito — avisou ele, sorrindo.
Um grupo de bispos com cajados de ouro de ponta retorcida surgiu diante dela, e Margarida se deixou guiar até tronos gêmeos onde ela e Henrique se prostraram diante do altar e foram abençoados antes de se sentar e encarar milhares de rostos desconhecidos. A varredura do olhar de Margarida foi detida pela imagem do pai na primeira fila, parecendo orgulhoso e satisfeito consigo mesmo. Com isso o dia perdeu um pouco da glória, mas Margarida se forçou a cumprimentar recatadamente a lesma. Supôs que qualquer pai gostaria de ver a filha se tornar rainha, mas ele não estivera no casamento e não se dera ao trabalho de avisá-la que interromperia suas viagens para atravessar o canal e ir à Inglaterra.
Parte da congregação comia e bebia, aproveitando o clima de festa. A barriga de Margarida roncou ao ver um frango assado frio ser passado por uma fila de bancos. Uma grande capa branca e dourada foi posta em seus ombros e o arcebispo começou a cerimônia em latim.
Uma eternidade se passou com ela sentada ali, tentando não se mexer. Ao menos não tinha nenhum voto para se lembrar como esposa e rainha. Proteger a segurança do reino não era responsabilidade sua. O arcebispo lia as palavras sem parar, preenchendo o espaço.
Margarida sentiu o peso de uma coroa se apertar em sua cabeça. Instintivamente, estendeu a mão e tocou o metal gelado assim que a congregação iniciou uma onda esmagadora de vivas e aplausos. Mordeu o lábio quando os sentidos oscilaram, recusando-se a desmaiar. Era rainha da Inglaterra, e Henrique tomou seu braço para levá-la de volta pelo corredor.
— Estou muito satisfeito — comentou ele, acima do ruído das palmas e das vozes que gritavam. — Precisávamos de uma trégua, Margarida. Não posso passar toda noite em oração. Às vezes preciso dormir, e, sem um acordo, eu temia o pior. Agora você é rainha e posso interromper minha vigília.
Margarida deu uma olhada confusa no marido, mas ele sorria, e ela simplesmente baixou a cabeça e continuou a andar rumo ao sol de Londres para ser vista pela multidão.
Havia brotos primaveris verdes nas árvores, balançando de lá para cá por lufadas tão frias quanto no meio do inverno. Thomas ansiava por dias mais quentes, embora soubesse que eles trariam os franceses para Maine. Passara-se um mês desde que ele e seus homens mataram os cavaleiros franceses com seu barão. Até Strange fora forçado a admitir que o primeiro gosto de vingança funcionara bem para o recrutamento. Aquele único ato trouxera para o grupo homens que haviam se disposto a deixar toda a França para trás. Eles se aglutinaram em torno de sua pequena força, cujo efetivo dobrara.
Thomas olhou de soslaio o filho, deitado de bruços no tojal. Orgulhava-se do homem que Rowan se tornara, antes que a ideia azedasse dentro de si. Não queria ver o menino morto, mas não podia mandá-lo embora, não naquele momento. Gente demais buscava em Thomas um pequeno fiapo de fé no que começaram. Se mantivesse Rowan a salvo, mandando-o se unir à mãe e às irmãs na Inglaterra, sabia o que os outros pensariam. Metade deles iria embora, preferindo se salvar.
Thomas percebeu movimento à distância e sentou-se ereto, sabendo que sua cabeça erguida não ficaria nada invisível para quem quer que fosse. Viu cavaleiros com as montarias a passo tranquilo a fim de não deixar para trás os homens que caminhavam ao lado.
— Está vendo, Rowan? Deus sorri para nós hoje, rapaz. Estou lhe dizendo, Deus dá um maldito sorriso.
Rowan soltou uma risada, ainda escondido no mato verde-escuro. Juntos, observaram o grupo se deslocar lentamente pela estrada. Havia talvez quarenta cavaleiros, no entanto, Thomas olhou com mais atenção os homens a pé. Eram aqueles que fora esperar, e traziam arcos bem parecidos com o seu. Os arqueiros, cujo número era o dobro dos homens de armas que acompanhavam, valiam seu peso em ouro, o que preocupava Thomas.
Quando o grupo chegou a apenas algumas centenas de metros, Thomas se levantou e se preparou para aguardá-los. Fez questão de deixar o arco visível, mas com a corda frouxa, sabendo que teriam medo de emboscadas ali no fundo de Maine. Viu uma onda passar por eles ao notarem o par de desconhecidos junto à estrada, e não foi difícil para Thomas avistar quem dava as ordens ao restante. Ele deixara para trás o barão Strange, mas uma parte sua desejava que estivesse ali. Os nobres tinham estilo e modos próprios, e aquele ali já estaria bastante desconfiado de estranhos.
— Se for uma armadilha — murmurou Thomas —, você terá de correr, Rowan, como um coelho pelos tojos. Entendeu?
— Entendi — respondeu Rowan.
— Bom rapaz. Então fique aí, e corra se me pegarem.
Thomas se aproximou do grupo, que parara ao avistá-lo. Sentiu a pressão de mais de cem homens olhando em sua direção e ignorou a todos, concentrando-se no que comandava.
— Woodchurch? — chamou o homem quando ainda estava a vinte passos.
— Sou eu — respondeu Thomas.
O nobre pareceu aliviado.
— Barão Highbury. Estes são meus homens. Disseram que você organizaria uma pequena caçada caso eu o encontrasse aqui.
— O senhor foi corretamente informado, milorde.
Thomas alcançou o homem e apertou com firmeza a mão coberta pela manopla. Highbury usava uma imensa barba preta que terminava em linha reta, aparada larga como a lâmina de uma pá.
— O duque de York insistiu muito para que não houvesse excursões particulares em Maine, mestre Woodchurch. Eu e meus homens não estamos aqui, se é que me entende. No entanto, se formos caçar veados e encontrarmos alguns estupradores e assassinos franceses, não posso responder pela conduta de meus homens, não nessas circunstâncias.
Havia raiva por trás do sorriso do barão, e Thomas se perguntou se era um daqueles homens cujos amigos ou familiares passaram por longo sofrimento. Fez que sim, aceitando as regras.
— Vem de longe, milorde?
Highbury fungou.
— Da Normandia, nessas últimas semanas. Antes disso, minha família tinha um casebre de campo em Anjou. Espero talvez vê-lo de novo algum dia.
— Não tenho como garantir isso, milorde. Mas haverá uma boa caçada em Maine, isso posso lhe prometer.
— Terá de servir por enquanto, não é? Então vá na frente, Woodchurch. Suponho que tenha algum tipo de acampamento. Meus homens precisam descansar.
Thomas soltou um riso abafado, instintivamente gostando do homem.
— Tenho, milorde. Vou lhe mostrar.
Ele foi a passos rápidos pela estrada com os arqueiros ingleses, observando como corriam sem sinal de cansaço. Rowan chegou a seu lado e ele apresentou o filho aos homens que os cercavam. Eles tinham mais olhos para o arco de Rowan do que para o rapaz propriamente dito, o que fez Thomas rir.
— Vocês podem competir contra meu filho nos alvos de arquearia, rapazes. Aposto um dobrão de ouro nele.
Os severos arqueiros pareceram mais alegres com essa possibilidade enquanto continuavam correndo.
— Gosta de apostas, é? — gritou Highbury atrás deles. — Aposto dois dobrões em meus homens.
Thomas tocou a testa em aceitação. O dia começara bem e ainda iria melhorar. Tentou esquecer o exército francês que marchava por campos e vales rumo a Maine.