Pássaro da Tempestade

Conn Iggulden · Capítulo 28 de 43

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Pássaro da Tempestade

Capítulo 22

 

Mais de trinta dos cinquenta e cinco lordes da Inglaterra tinham propriedades perto do centro de Londres, Derry sabia. Em uma ou duas horas, ele poderia visitar cada casa, assim como os homens e as mulheres que trabalhavam para ele. Mas Somerset era amigo pessoal de William. O mais importante é que Derry sabia que ele estava em Londres naquele dia e não em suas propriedades no sudoeste. Mandara outro barqueiro do Tâmisa quase estourar os pulmões para chegar à casa de Somerset na cidade, à beira do rio, e subiu no largo desembarcadouro. O espião-mor quase fora morto pelos guardas de Somerset que ali estavam até se identificar e correr com eles pelos jardins. Somerset estava escrevendo cartas e se levantou com a pena entre os dedos para escutar o que Derry tinha a dizer. Embora cada momento passado fosse uma agonia, Derry havia se forçado a explicar com clareza do que precisava. A meio caminho, o diminuto conde lhe deu um tapinha nas costas e gritou chamando seus auxiliares.

— Conte o restante no caminho, Brewer — dissera Somerset rapidamente, descendo para o desembarcadouro.

O conde tinha 44 anos, sem excessos de carne sobre os ossos e com a energia de um homem vinte anos mais jovem. Derry teve de correr para acompanhá-lo e, apesar da baixa estatura e da aparência amistosa do conde, notou que os guardas de Somerset pulavam quando ele dava ordens. A balsa pessoal do conde era levada pelo rio menos de uma hora após a chegada de Derry.

Eles atracaram no cais de Westminster e Derry se viu respirando com dificuldade ao contar os homens que Somerset convocara. Parecia toda a sua guarda pessoal. Havia seis homens na balsa com eles, enquanto outra dúzia recebera ordens de seguir com a máxima velocidade para Westminster por terra. Tinham corrido três bons quilômetros para contornar a curva do rio que passava por Londres, mergulhando por ruas imundas para chegar, respingados de lama e ofegantes, pouco depois de a balsa de seu senhor ser puxada.

Contra sua vontade, Derry ficou impressionado. Somerset fervia de indignação com a ideia da ameaça ao amigo, mas ainda assim se virou para o espião-mor com um olhar questionador enquanto caminhavam rumo ao portão do palácio que dava para o rio.

— Fique por perto, milorde, se possível — disse Derry. — Precisarei de sua autoridade para isso.

Ter 18 homens armados às costas era encorajador e preocupante ao mesmo tempo. Não deixava de ser uma possibilidade que o Parlamento reagisse mal à invasão armada de seu santuário. Derry sentiu o coração bater forte quando se aproximou dos primeiros guardas, que já chamavam os superiores e procuravam lanças e espadas. Somerset estalou o pescoço com um gesto brusco, a expressão do rosto confiante e ansiosa. Os dois vinham de mundos muito diferentes, mas, com William de la Pole em perigo, ambos se dispunham a lutar juntos.

Margarida ouviu chamarem seu nome quando estava no meio de outra conversa furiosa com o médico do rei. Calou-se de imediato, correndo de volta aos aposentos do marido. Ficou boquiaberta ao ver Henrique com as pernas no chão e um par de botas à espera de serem calçadas. Ele puxara uma camisa branca e comprida sobre o peito ossudo e achara calças justas de lã.

— Margarida? Pode me ajudar com elas? Não consigo calçá-las sozinho.

Ela se ajoelhou depressa, empurrando a lã grossa perna acima antes de pegar um pé de bota e enfiar o pé de Henrique dentro.

— Está se sentindo melhor? — perguntou, erguendo os olhos para o marido. Havia círculos escuros sob os olhos dele, porém parecia mais alerta do que Margarida vira nos últimos dias.

— Um pouco, acho. Derry esteve aqui, Margarida. Ele queria que eu fosse a Westminster.

O rosto dela se fechou, então escondeu a expressão baixando a cabeça e se concentrando na segunda bota.

— Eu sei, Henrique. Estava aqui com você quando ele veio. Está bem a ponto de se levantar?

— Acho que sim. Posso pegar um barco e não vai ser muito difícil, embora o rio esteja frio. Você pediria a meus criados que me trouxessem cobertores? Precisarei ficar bem protegido do vento.

Margarida terminou de calçar a segunda bota e esfregou os olhos. O marido levantou um braço e ela o ajudou a ficar de pé, puxando as calças mais para cima e fechando o cinto. Ele parecia magro e pálido, mas os olhos estavam vívidos, e ela teve vontade de chorar só de vê-lo em pé. Percebeu um manto pendurado num gancho do outro lado do quarto e foi buscá-lo para colocá-lo nos ombros dele. Henrique lhe deu um tapinha de leve na mão quando ela o tocou.

— Obrigado, Margarida. Você é muito gentil comigo.

— A honra é toda minha. Sei que você não está bem. Vê-lo se levantar por seu amigo...

Ela parou de falar antes que a tristeza e a alegria se misturassem. Tomou o braço do marido e saiu pelo corredor, surpreendendo os guardas, que se puseram em posição de sentido.

Mestre Allworthy ouviu o barulho e saiu do quarto ao lado, segurando um pedaço torto de sua invenção que Margarida havia chutado mais cedo. A expressão ameaçadora se transformou em espanto ao ver o rei. O médico se abaixou e se ajoelhou no piso de pedra.

— Vossa Graça! Estou tão satisfeito em vê-lo melhor! Sentiu algum movimento no intestino, Vossa Graça, se posso ser ousado a ponto de perguntar? Às vezes, um fato desses limpa a mente confusa. Foi o destilado verde, tenho certeza, além do filtro de losna. O senhor vai dar uma volta nos jardins? Eu não gostaria que o senhor se esforçasse demais. A saúde de Vossa Graça está por um fio. Se me permite sugerir...

Henrique parecia disposto a escutar o médico tagarelar para sempre, mas a paciência de Margarida se esgotou. Ela falou por ele.

— O rei Henrique vai ao portão do rio, mestre Allworthy. Se o senhor sair do caminho em vez de bloquear todo o corredor, poderemos passar.

O médico reagiu tentando fazer uma reverência e se apertar contra a parede ao mesmo tempo. Não pôde deixar de fitar o rei enquanto Margarida ajudava o marido a descer o corredor, e ela tremeu sob aquela inspeção profissional. Talvez seu olhar furioso tenha sido o que manteve o homem calado; ela não sabia nem se importava. Desceu a escada com Henrique, e o mordomo do rei veio correndo saudá-los.

— Mande preparar a balsa — ordenou Margarida com firmeza, antes que ele fizesse objeções. — E traga cobertores, tantos quantos encontrar.

Dessa vez o mordomo não respondeu; só se curvou e sumiu a toda. Logo se espalhou a notícia de que o rei estava em pé, e a ala da Torre pareceu se encher de criados ocupados, carregando braços cheios de tecidos grossos. Henrique tinha os olhos vidrados quando a esposa o levou em direção à brisa. Ela o sentiu tremer, pegou um cobertor com uma moça que seguia para a balsa real e o enrolou nos ombros de Henrique. Ele o segurou junto ao peito, parecendo frágil e doente.

Margarida segurou sua mão quando ele pisou na balsa que balançava e se sentou no banco ornamentado no convés aberto, sem perceber ou sem se importar com a multidão que começava a se aglomerar nas margens. Margarida via homens acenarem com o chapéu, e o som dos vivas começou a aumentar quando os moradores locais perceberam que a família real saíra e podia ser vista. Criados amontoaram mais cobertores em torno do rei para mantê-lo aquecido; Margarida descobriu que também tremia e se sentiu grata pelas grossas cobertas de lã. Os balseiros zarparam e as varas mergulharam na corrente, levando-os pelas águas velozes do Tâmisa.

A viagem foi estranhamente pacífica, com apenas o som das varas e os gritos das margens, onde crianças, rapazes e mulheres corriam, tentando ao máximo acompanhá-los. Quando fizeram a grande curva do rio e avistaram o Palácio de Westminster e as docas, Margarida sentiu Henrique apertar mais sua pequena mão. Ele se virou para ela, enrolado nas camadas de lã.

— Sinto muito ter estado... mal, Margarida. Há vezes em que sinto como se tivesse caído, que ainda estou caindo. Não consigo descrever. Gostaria de conseguir. Tentarei ser forte por você, mas se acontecer de novo... não consigo impedir.

Margarida se viu chorando outra vez e esfregou os olhos, zangada com sua reação. Sabia que o marido era um bom homem. Ergueu a mão envolta em ataduras e a beijou suavemente, entrelaçando os dedos nos dele. Isso pareceu confortá-lo.

Derry se moveu o mais depressa que pôde, usando a lâmpada para espiar lugares escuros. Achava que Tresham convocaria homens para deter sua busca assim que soubesse. Nem a presença do conde de Somerset seria suficiente para impedir a prisão de Derry caso se recusasse a obedecer ao orador, ou talvez ao cardeal Beaufort. Não ajudava ter deixado Somerset uns 12 cômodos para trás.

Derry ainda achava difícil acreditar no tamanho do labirinto sob o Palácio de Westminster. Vasculhara as principais celas com bastante facilidade, mas William não estava lá. A linha de cômodos com grades de ferro era apenas uma pequena parte dos andares e porões debaixo do palácio, alguns tão abaixo do nível do rio que fediam a mofo e das paredes escorriam esporos negros e pingava um líquido verde. Derry esperava a qualquer momento ouvir gritos mandando-o parar, e começava a achar que se entregara a uma tarefa impossível. Com cem homens e uma semana, poderia vasculhar cada setor dos depósitos e aberturas de esgoto que sopravam vapores fétidos quando puxava as portas. William poderia estar em qualquer lugar, e Derry começava a se perguntar se Tresham não adivinhara que ele tentaria encontrá-lo e levara o duque para outro local.

Derry balançou a cabeça enquanto corria, discutindo em silêncio consigo. A casa dos Comuns tinha pouco poder fora do Palácio de Westminster e menos ainda fora de Londres. Longe da Câmara Pintada ou da Sala do Capítulo, não tinha autoridade real além de missões em nome do rei. Num conflito com o próprio rei, dificilmente ousariam utilizar uma propriedade real. Derry parou de repente e levantou a lâmpada de ferro para iluminar uma longa abóbada baixa que se estendia a distância, muito além do alcance de sua pequena luz.

Tresham era esperto, disso Derry sabia. Se mantivesse William em cativeiro tempo suficiente para assegurar sua confissão, na verdade não importava onde o pusessem. Derry não tinha ilusões sobre a capacidade de resistência de William. O duque era um homem forte em todos os sentidos, forte demais, talvez. Derry já vira tortura. Seu temor era que o amigo ficasse permanentemente aleijado ou louco quando a vontade enfim fraquejasse.

Estava a meio caminho do cômodo abobadado, baixando a cabeça para não bater num antigo arco, quando parou de novo e se virou para dois guardas de Somerset.

— Venham comigo, rapazes. Quero tentar em outro lugar.

Ele começou a correr de volta pelo caminho por onde viera, sopesando as probabilidades. Não permitiriam que voltasse a entrar no Parlamento depois que saísse do palácio principal. Tresham com certeza cuidaria disso. A velha aranha provavelmente estava organizando os homens para prendê-lo assim que saísse, com Derry correndo diretamente para seus braços.

Derry subiu uma escada frágil e escorregou quando um degrau rachou e caiu no andar inferior. Céus, o lugar todo estava úmido e podre! Um dos homens que o acompanhavam praguejou e gemeu ao pôr o pé no buraco. Derry não parou para ajudá-lo a sair; em vez disso, correu pelo andar de cima e subiu outro meio lance até os corredores mais bem-iluminados junto às celas. Ouviu vozes raivosas antes de ver quem fazia barulho, embora seu coração se apertasse.

Tresham avistou Derry primeiro, porque olhava naquela direção. O rosto do advogado estava cor de tijolo de tanta fúria, e ele levantou a mão para apontar.

— Lá está ele! Prendam aquele homem! — berrou Tresham.

Os soldados começaram a se mover e Derry olhou desesperado para Somerset. Poderia ter abençoado o conde quando ele falou com apenas um instante de hesitação, embora sua vida e sua reputação estivessem em jogo.

— Fiquem longe dele! — rugiu Somerset para os guardas parlamentares. — Mestre Brewer está sob minha custódia. Estou numa missão real e vocês não vão impedi-lo nem atrapalhá-lo.

Os guardas de Tresham hesitaram, sem saber quem possuía mais autoridade. Derry não parara; passara pelos guardas e fora até Tresham no momento de imobilidade.

— William, lorde Suffolk — disse Derry, observando o outro com atenção. — Ele está na Sala do Capítulo? Devo revistar a própria abadia ou seria sacrilégio torturar um homem em solo consagrado? — Ele observava Tresham com atenção enquanto o homem relaxava, as rugas se alisando em torno dos olhos. — Ou a Torre das Joias? Teriam coragem de colocá-lo onde me prenderam?

— Você não tem autoridade aqui, Brewer! Como ousa me interrogar? — cuspiu Tresham, indignado.

Derry sorriu, satisfeito.

— Acho que é onde ele está, lorde Somerset. Vou atravessar a estrada e ver.

— Guardas! — rugiu Tresham. — Prendam-no agora, ou, por Deus, mandarei enforcar a todos.

Foi uma ameaça suficiente para decidir o impasse. Eles estenderam a mão para Derry, porém os homens de Somerset bloquearam a passagem com as espadas desembainhadas. Derry correu e deixou todos para trás.

Ao sair pelos salões principais, à luz da tarde, ouviu trombetas soarem rio abaixo. Os arautos só tocavam em ocasiões importantes ou para anunciar uma visita real. Derry parou, incapaz de acreditar que poderia ser Henrique. Margarida teria vindo sozinha? Ela quase não possuía autoridade formal, mas poucos homens se arriscariam a ofender a rainha da Inglaterra e, por meio dela, o rei. Derry balançou a cabeça, presa da indecisão. Parou e praticamente oscilou, puxado em duas direções. Não. Ele tinha de continuar.

Disparou rumo à luz do sol, correndo pela extensão do palácio e entrando no vasto espaço sob as vigas de Westminster Hall. Derry não parou na multidão que ali se ocupava; costurou pelo meio dela e depois pela estrada, com a sombra da abadia caindo sobre ele. Passou por mascates e ricos que aproveitavam o sol, carruagens e pedestres, deixando o cheiro do rio distante.

Enquanto avançava, o medo aumentou. Estava sozinho. Mesmo que estivesse certo, sabia que, com certeza, haveria guardas com William. A mente de Derry corria tão depressa quanto os pés, ofegando pesado ao chegar ao fosso da Torre das Joias. Pelo menos a ponte levadiça estava abaixada. Ao vê-la, quase duvidou da certeza inicial de que William estava lá dentro. Mas Tresham era esperto demais para revelar a localização do prisioneiro transformando o lugar numa fortaleza. Derry passou rápido pelo único guarda e então parou.

Dois homens o encaravam na porta principal. Dois soldados rijos que o haviam observado atravessar correndo a estrada do palácio e estavam com as espadas prontas e desembainhadas. Ao ver a expressão deles, Derry soube que era o fim da linha, ao menos por um instante. Teria de correr de volta e buscar Somerset. Sem dúvida, até lá, Tresham já teria chamado mais soldados, uma quantidade suficiente para expulsar todos eles do palácio ou levá-los direto para as celas. Velocidade e surpresa o levaram bem longe — mas não o bastante. Derry praguejou e um dos guardas levantou a cabeça num movimento de desdém, concordando com sua avaliação.

Derry encheu os pulmões e pôs as mãos em concha em torno da boca.

— William Pole! — berrou a plenos pulmões. — Confesse! Entregue-se à misericórdia do rei! Dê-me tempo, seu estúpido!

Os guardas ficaram boquiabertos enquanto Derry ofegava e se repetia várias vezes. A Torre das Joias possuía apenas três andares, e ele tinha certeza de que poderia ser ouvido se William estivesse preso ali dentro.

Derry cedeu quando um grupo de guardas veio correndo do outro lado da via. Não eram homens de Somerset, e ele não protestou quando o prenderam e quase o carregaram de volta ao palácio no outro lado da estrada.

William mordera o lábio inferior com toda a força. Sangrava abundantemente e deixava rastros de sangue na mesa de madeira que um dos dois homens limpava uma vez ou outra, o rosto vazio de tudo exceto uma leve irritação. Tresham, Beaufort e York haviam aguardado até William estar bem amarrado numa cadeira, depois o deixaram sozinho com dois homens. York saíra por último, erguendo a mão ao dar adeus com um quê de arrependimento no rosto.

William se horrorizara ao ver os dois soldados se porem a trabalhar com um ar tranquilo e relaxado em que ele ainda achava difícil de acreditar. Não ficaram calados e não fizeram ameaças. Em vez disso, conversavam calmamente enquanto deixavam à vista vários objetos, cada um deles projetado para arrancar de um homem a dignidade e a força de vontade. Descobriu que o mais velho era Ted e o mais novo, James. James era como um aprendiz de Ted, ao que parecia, ainda sendo instruído no ofício. O mais velho costumava parar para explicar o que fazia e por que era daquele jeito. William só queria gritar. Estranhamente, era quase um observador, algo a ser trabalhado, e não outro homem.

No começo, perguntaram-lhe apenas se era destro ou canhoto. William lhes disse a verdade, e Ted ajustou uma série de tornos de péssima aparência que podiam ser apertados até os dedos se quebrarem. Cortaram a aliança de casamento com um alicate e a enfiaram em seu bolso. Tinham escolhido aquele dedo para ajustar o primeiro parafuso e apertá-lo, ignorando sua respiração sibilada.

William começara a rezar em latim quando o dedo explodiu em todo o comprimento, como se uma costura se abrisse. Ele achou que a agonia era suficiente até que o osso estalou com mais duas voltas, unindo as placas com a carne esmagada no meio. Os dois homens se demoraram para ajustar os outros, apertando cada um deles um pouco mais, a intervalos, enquanto discutiam sobre alguma meretriz do cais e o que ela faria por um centavo. James afirmou ter lhe mostrado coisas que ela nunca vira, e Ted lhe disse para não desperdiçar o fôlego mentindo nem o dinheiro contraindo uma purgação. Isso provocou uma discussão furiosa, com William como testemunha involuntária, amarrado e indefeso entre os dois.

A mão esquerda pulsava em uníssono com o coração; dava para sentir. Eles o haviam sentado na mesa com as mãos livres sobre a madeira, passando as cordas pelo peito. A princípio ele tentara puxar as mãos, mas o seguraram com firmeza. Olhava agora a carne inchada e arroxeada, vendo uma ponta de osso sair do dedo mínimo. Em sua vida já mastigara o tutano de ossos de galinha, e a imagem da mão com os mecanismos pavorosos presos nela era algo irreal, nem mesmo parecia sua mão.

William balançou a cabeça, sussurrando o pai-nosso, a ave-maria, o credo, murmurando versos que aprendera quando menino, com o tutor usando a vara caso ele tropeçasse numa única sílaba.

— Credo in unum Deum! — disse, ofegante. — Patrem omni... potentem! Factorem cæli... et terræ.

Ele sofrera ferimentos em combate que não doeram tanto. Tentou listá-los na cabeça, assim como a maneira como tinham ocorrido. Certa vez haviam lhe fechado um grande corte com ferro quente e, embora não conseguisse entender como, seu nariz se encheu do mesmo cheiro de carne queimada que pensara ter esquecido, fazendo-o vomitar fracamente nas cordas.

Os dois homens pararam, com Ted erguendo a mão para interromper o companheiro ao fazer uma pergunta. Os sentidos de William flutuavam na dor, mas ele achou ter ouvido uma voz conhecida. Vira moribundos sofrerem visões aterrorizantes no passado, e, a princípio, tentou bloquear os ouvidos ao som, acreditando, em seu terror, que escutava os primeiros sussurros de um anjo que viesse buscá-lo.

— Confesse! — Escutou com clareza, a voz abafada pelas pedras em volta.

William levantou a cabeça, loucamente tentado a perguntar aos torturadores se também tinham ouvido. As palavras eram gritadas por alguém a plenos pulmões, e a cada repetição partes diferentes se perdiam. William reuniu tudo, gritando de surpresa e dor quando Ted perdeu o ar vago de incompreensão e se lembrou de apertar os parafusos mais uma vez. Outro osso estalou, lançando um borrifo de sangue na superfície de madeira. William sentiu lágrimas chegarem a seus olhos, embora só aumentasse sua raiva pensar que aqueles homens achavam que o viam chorar.

Ele inspirou de forma profunda e trêmula. Conhecia a voz de Derry. Ninguém mais o chamava de William Pole. Cortava-lhe o coração pensar em ceder aos dois homens, mas a ideia abriu a porta e sua determinação sumiu como cera numa fornalha.

— Muito bem... cavalheiros — falou, ofegante. — Confesso tudo. Tragam-me seu pergaminho e assinarei meu nome.

O mais novo pareceu espantado, mas Ted deu de ombros e começou a desapertar os parafusos, limpando cada um deles com muito cuidado e aplicando óleo nos mecanismos para que não enferrujassem no saco. William baixou os olhos para o rolo aberto de pano grosso e tremeu com o que viu ali. Haviam apenas começado seu tormento.

Ted pigarreou enquanto limpava o sangue da mesa e punha a mão esmagada de William num pano ao lado. Com cuidado, o homem colocou uma folha de papel velino feito com couro de bezerro onde William pudesse alcançar. Do saco de equipamentos, tirou um tinteiro e uma pena. Molhou a ponta para ele quando viu que a mão direita de William tremia violentamente e poderia derramar a tinta.

William leu as acusações de alta traição com uma sensação de náusea. Seu filho John saberia. A esposa passaria o resto da vida à sombra daquela confissão tão vergonhosa. Era pedir muito confiar a Derry Brewer sua honra, mas ele confiou e assinou.

— Eu lhe disse que ele assinaria! — exclamou James, triunfante. — Você disse que um duque aguentaria um dia ou dois, talvez mais.

Ted pareceu enojado, mas entregou uma moeda de prata ao jovem companheiro.

— Eu tinha apostado em você, meu velho — comentou com William, balançando a cabeça.

— Retire as cordas — respondeu William.

Ted deu uma leve risada.

— Ainda não, milorde. Certa vez, um sujeito jogou a própria confissão no mesmo fogo que acendemos para ele. Tivemos de começar tudo de novo! Não, camarada. O senhor vai esperar enquanto James leva a confissão ao homem que a pediu. Depois disso, o senhor não é mais de minha conta.

Com uma cerimônia que zombava dele, entregou a folha assinada a James, que a enrolou, pôs num tubo e amarrou as pontas com uma fita preta limpa.

— Não se demore agora, rapaz! — gritou Ted atrás dele quando saiu. — O dia ainda está claro e eu estou com sede... e é você quem paga!

Levado à força em ritmo mais lendo que gostaria, Derry se espantou mais uma vez com o tamanho imenso do Palácio de Westminster. Os guardas que o faziam marchar de volta à construção estavam decididos a levá-lo diretamente, mas ainda assim era uma rota diferente da que ele usara antes. Derry passou por tribunais e câmaras com o teto abobadado, como o das catedrais. Quando passaram pela câmara cheia de ecos onde os lordes se reuniam, estava profundamente aborrecido. A busca por Suffolk nunca tivera chance de dar certo com o tempo de que dispusera. Só sabia o que lera no rosto furioso de Tresham e não tinha certeza, não podia ter certeza. Um exército poderia vasculhar o vasto palácio e nunca achar um único homem.

À frente de seu pequeno grupo de guardas, Derry viu outro amontoado de pessoas com certa agitação. Ele havia sido levado direto para o outro lado do palácio e, quando foi empurrado para mais perto, viu com espanto que o portão do rio estava aberto, uma barra brilhante de sol cintilando como o paraíso. Derry tropeçou no piso irregular, a atenção atraída pelas duas figuras que entravam no palácio. Um de seus guardas xingou quando o pôs de pé, e depois um murmúrio de assombro passou por todos.

Eles levaram Derry até a retaguarda de um grupo que olhava o portão externo. Todos ali estavam de joelhos ou bastante curvados enquanto o rei e a rainha da Inglaterra entravam em seu domínio. Derry começou a sorrir, olhando em volta para ver Tresham e o cardeal Beaufort entre eles. O movimento dos olhos se acentuou ao avistar lorde York ao lado. Não era surpresa descobrir que o duque ainda não fora para a Irlanda, mas isso confirmava algumas suspeitas de Derry sobre a conspiração contra William Pole.

O rei Henrique parecia magro e pálido. Derry o viu passar um grosso cobertor dos ombros para um criado, revelando roupas simples sem ornamentos. A rainha parecia segurar seu braço para sustentá-lo, e o coração de Derry se enterneceu por ela, abençoando Margarida por levar o marido. A mente começou a disparar de novo, sopesando as possibilidades.

Derry se virou para o guarda que o segurava. O homem tentava se curvar na presença do rei sem afrouxar a mão que segurava o criminoso que tinha sido encarregado de capturar.

— Não há cardeais no xadrez, mas o rei toma seu bispo, se é que me entende. Agora, veja bem. Estou aqui em missão real, portanto tire sua mão de meu braço.

O guarda recuou, desencorajado pela presença do rei e querendo simplesmente não ser notado por tantos homens de poder. Derry estalou o pescoço e endireitou as costas, o único que estava em pé, ereto. Os outros homens começavam a se erguer, Tresham e o cardeal Beaufort entre eles.

— Vossa Alteza Real, é uma grande honra vê-lo com saúde — declarou Tresham.

Henrique piscou em sua direção e Derry teve certeza de ver Margarida segurá-lo com mais força.

— Onde está William de la Pole, lorde Suffolk? — perguntou Henrique com clareza.

Derry poderia tê-lo beijado quando uma onda percorreu o grupo. Alguns claramente não entenderam, mas a expressão de Beaufort, York e Tresham disse a Derry tudo o que precisava saber.

— Vossa Graça! — gritou Derry.

Dezenas de homens se viraram para ver quem falava, e Derry aproveitou a oportunidade para atravessar a multidão. Seus guardas ficaram ofegantes atrás dele, furiosos porque o espião-mor atraíra toda aquela atenção.

— Vossa Graça, lorde Suffolk foi acusado de traição contra a Coroa — avisou Derry.

Tresham sussurrava instruções a outro homem, e Derry continuou depressa, antes que o orador recuperasse a iniciativa. Na cabeça, conseguia ver como aquilo tinha de andar, se encontrasse as palavras certas.

— Lorde Suffolk se entregou a sua misericórdia, Vossa Graça. Ele se submete à vontade do rei, nisso e em todas as coisas. — Derry só viu vazio no rosto de Henrique e teve a sensação desagradável de que o homem não o escutara. Olhou desesperado para Margarida, implorando em silêncio sua ajuda enquanto continuava falando. — Se convocar seus pares, Vossa Graça, o senhor mesmo poderia decidir seu destino.

O cardeal Beaufort então se levantou, a voz tilintando.

— Lorde Suffolk será levado a julgamento, Vossa Graça. É uma questão para os tribunais do Parlamento.

Enquanto ele falava, Derry viu um rapaz sujo vir correndo dos fundos da multidão. Trazia um tubo amarrado com uma fita preta e cochichou com Tresham antes de fazer uma reverência e recuar. Tresham lançou um olhar triunfante na direção de Derry, levantando o que recebera.

— Lorde Suffolk confessou, Vossa Graça. Ele tem...

— Ele se entregou à vossa misericórdia! Ele se submete à vontade real! — interrompeu Derry falando com clareza, com firmeza, a voz soando acima de todos.

As expressões que usou eram tão antigas quanto o prédio em volta, um chamado para que o próprio rei decidisse o destino de um de seus lordes. Derry estava desesperado, mas não podia deixar Tresham e Beaufort afirmarem sua autoridade. O rei estava a bordo. A rainha também estava, ele percebeu quando Margarida começou a falar.

Margarida tremia com o esforço de segurar as lágrimas. Nunca estivera tão apavorada na vida, ali, diante daquela formação de homens poderosos. Vira a luz sumir dos olhos do marido. A viagem pelo rio o deixara exausto, corpo e mente fracos como os de uma criança. Ele lutara contra aquilo, com os músculos magros se contraindo nos braços e nas costas quando saíra da balsa e entrara no palácio. Havia chamado por William com o último sopro de vontade, e Margarida conseguia senti-lo cambalear contra ela enquanto os homens gritavam e tentavam fazer valer suas reinvindicações. Escutou com atenção as palavras de Derry, sabendo que ao menos ele estaria protegendo William.

Durante um bom tempo, Margarida esperou que Henrique voltasse a falar. Ele não disse nada, só piscava devagar. A garganta dela estava seca, o coração golpeava o vestido, mas a rainha sentia a frieza do rei através do pano e se sentia sozinha.

— Meu marido... — começou Margarida.

A voz saiu como o rangido de uma porta; ela parou e pigarreou para tentar de novo. Em mais de uma ocasião, metade daqueles homens tentara manipular Henrique. Que Deus a perdoasse, mas teria de fazer o mesmo.

— O rei Henrique se retirará para seus aposentos agora — anunciou ela com clareza. — Ele ordena que William, lorde Suffolk, lhe seja trazido. Lorde Suffolk se entregou à vontade do rei. Somente o rei agora é responsável.

Ela esperou enquanto os homens a fitavam, sem saber como aceitar tal declaração da jovem francesa. Ninguém parecia capaz de responder, e sua paciência se esgotou.

— Mordomo! Sua Alteza Real ainda se recupera de sua doença. Ajude-o.

Os criados do rei estavam mais acostumados com sua autoridade, e no mesmo instante obedeceram, levando Henrique da câmara para os aposentos pessoais do rei no palácio. Uma grande tensão abandonou o grupo de homens, e Derry soltou a respiração presa com um longo suspiro. Piscou para Tresham. O advogado com rosto de cavalo só pôde fitá-lo com raiva enquanto o espião-mor seguia o grupo real. Ninguém ousou detê-lo. A presença do rei mudara o jogo inteiro, e eles ainda vacilavam.