Pássaro da Tempestade

Conn Iggulden · Capítulo 19 de 43

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Pássaro da Tempestade

Capítulo 13

 

A surpresa era uma coisa estranha, pensou Thomas. Podia senti-la como moedas na mão: pesadas e valiosas, mas que só poderia gastar uma vez. Já vira exércitos franceses, mas nada como as fileiras organizadas que marchavam pela estrada principal do sul de Maine. Os que conhecera na juventude eram mendigos miseráveis, quase famintos e vestidos com as roupas esfarrapadas que conseguiam furtar. No ar sem brisa, ouviu vozes francesas cantando e balançou a cabeça com irritação. O som ofendia algo profundo dentro dele.

Os ingleses buscavam seus soldados nas partes mais pobres de cidades como Newcastle, York, Liverpool e Londres, nas minas e nos campos, entre aprendizes que, após perder o favor dos mestres, não tinham aonde ir. Ele mesmo fora voluntário, mas havia muitos que estavam bêbados demais para resistir a um tapa na nuca quando os recrutadores passavam por suas aldeias. Não importava como acontecia. Depois de entrar, ficava-se lá para sempre, quaisquer que fossem os planos de vida. É claro que era demais para alguns, com punições terríveis impostas aos que tentavam fugir. Mesmo que o desertor sumisse em alguma noite sem lua, seria denunciado em casa pela própria família em troca da recompensa por devolver um homem do rei.

Os pensamentos de Thomas eram sombrios ao recordar os primeiros meses de treinamento. Apresentara-se como voluntário depois de dar uma surra no pai há muito devida. Era se alistar ou correr o risco de enfrentar os magistrados quando o velho patife acordasse sem os dentes da frente. Tantos anos depois, Thomas ainda se arrependia de não tê-lo matado. Desde então, o pai já morrera e não lhe deixara nada além do mesmo temperamento violento.

Ele havia conhecido Derry Brewer no primeiro dia, quando quatrocentos rapazes tiveram de aprender a marchar no mesmo ritmo. Não viram armas naquele mês, eram só treinos infindáveis para melhorar o fôlego e a forma física. Derry era capaz de correr à frente de todos e ainda derrubar um homem com os punhos no fim. Thomas balançou a cabeça, angustiado com lembranças que, para ele, haviam azedado. Eles tinham sido amigos na época, mas fora Derry quem entregara a terra de Woodchurch, fora Derry o responsável pelo acordo diabólico em troca de Anjou e Maine. Não importava o que acontecesse; a partir daquela ocasião, não eram mais amigos.

Thomas olhou seus homens aguardando na linha das árvores. Rira da lã tingida de verde que usavam, dizendo que não ajudara o velho Robin Hood. Combinar o azul do pastel-dos-tintureiros com um pigmento amarelo para produzir aquele tom rico reduzira o tempo do treino de arquearia. Ainda assim, Thomas tinha de admitir que, finalmente, nisso Strange acertara. Mesmo quando se sabia onde estavam, era bastante difícil avistar os arqueiros agachados à espera. Thomas tentou encontrar Rowan entre eles. Não vira no filho sinais da fúria da família, talvez o resultado do leite materno comparado ao vinagre e ao fel de sua linhagem. Ou talvez a visse surgir na matança, como acontecera consigo. Era outra coisa que ele e Derry tinham em comum. Ambos possuíam uma fúria que só crescia com a violência. Não importava a força com que golpeassem, ela ainda estava lá, atrás dos olhos, num quarto vermelho, raspando as paredes com as garras para sair. Só precisava ser despertada.

Lentamente, Thomas voltou às linhas de combatentes que andavam ou cavalgavam pela estrada como se seguissem para um banquete ou para a comemoração de um dia santo. Os franceses não possuíam batedores na vanguarda, e ele viu que usavam roupas quentes e confortáveis e levavam lanças e boas espadas. Havia até um bando de besteiros, caminhando com as armas afrouxadas e pousadas no ombro. Thomas trincou os dentes, enojado com todos eles.

Mais além, mal conseguia distinguir o grupo real francês, que trotava em belos cavalos cinzentos com vistosos penachos vermelhos ou azuis. Era primavera, e Anjou ficara para trás. Todos os homens ali haviam passado meses se embebedando e diminuindo o ritmo com vinho roubado. Thomas mostrou os dentes, sabendo que não podiam vê-lo. Suas duas dúzias de flechas estavam prontas, e ele havia gastado parte do ouro que ganhara, fruto do comércio de lã e carne de carneiro, mandando emplumar o máximo possível durante o longo inverno. Uma coisa era certa: seus homens não conseguiriam recuperar as flechas depois.

Por um instante, pensou em deixar que o rei francês viesse diante dele antes do ataque. Seria útil a sua causa se enfiassem uma flecha numa garganta real, e isso soaria pela França como um dobre de sinos, anunciando aos homens de toda parte que Maine lutaria. Mas a guarda pessoal do rei possuía peitorais de ferro mais grosso. Muitos usavam camadas a mais de couro e pano estofado debaixo da armadura. O peso era esmagador, mas todos eram homens grandes e poderosos, fortes o suficiente para lutar sob o fardo a mais sem nenhum esforço.

Thomas hesitou, sentindo a responsabilidade e a vantagem da surpresa mais uma vez. Depois que aquilo passasse, que acabasse, ele e seus homens enfrentariam um exército enraivecido do qual o conforto e a tranquilidade foram arrancados. Um exército com centenas de cavaleiros para persegui-los como raposas entre as árvores e pelos prados. Já vira isso acontecer e conhecia a amarga realidade dos arqueiros pegos em campo aberto, incapazes de se defender antes de serem eliminados. Não podia deixar que isso acontecesse a Rowan, Strange ou Highbury nem a nenhum dos outros que dependiam dele. Thomas não tinha muita certeza de quando se tornara o comandante daquele grupo heterogêneo, mas até Highbury aceitava ser esse o seu direito, principalmente após quase ter ido às vias de fato com Strange numa discussão sobre ancestrais comuns.

Thomas sorriu para si mesmo. Fora uma boa noite, com os homens rindo e cantando em torno de uma imensa fogueira na floresta. Talvez Robin Hood tivesse passado noites como aquela com seus homens vestidos de verde.

Ele tomou sua decisão. O rei teria de ser um alvo. Bastava uma flecha da sorte para aquilo acabar como começara, e não podia abrir mão da oportunidade. O exército francês continuou avançando, a apenas 200 metros pelos arbustos e pelo mato antes que as árvores se espalhassem numa vasta floresta. Em Azincourt, a Inglaterra pusera em campo 6 mil homens capazes de atingir, àquela distância, um alvo do tamanho de uma cabeça humana e depois disparar de novo, dez ou até 12 vezes por minuto. Ele havia feito os arqueiros de Highbury e seus veteranos treinarem todo dia até passar por sua avaliação individual — quando o braço direito estava forte e grande o suficiente para quebrar duas nozes na parte interna do cotovelo.

Thomas se levantou devagar na sombra pintalgada, respirando lenta e longamente. Em menos de meio quilômetro, os homens se levantaram com ele, tocando com dedos nervosos arcos e flechas para dar sorte. Ele ergueu aos lábios uma trombeta de caça e soprou uma nota áspera, depois deixou o instrumento cair pendurado na correia em torno do pescoço e mirou seu primeiro homem.

Os soldados franceses mais próximos olharam em volta com surpresa ao ouvirem o som da trombeta. Ao longo da haste da flecha, Thomas fitou um cavaleiro de armadura que vinha cavalgando ao lado da série de lanças inclinadas para ver o que acontecia. Alguns apontaram na direção das árvores, e o homem fez o cavalo dar meia-volta, erguendo a viseira do elmo para fitar o verde.

Thomas não conseguiria ler, mesmo que soubesse. De perto, os livros ficavam embaçados aos seus olhos, mas à distância ele ainda tinha uma boa visão de arqueiro. Viu o cavaleiro se sacudir ao avistar ou sentir alguma coisa.

— Surpresa — sussurrou Thomas. Soltou a corda, e o cavaleiro recebeu a flecha no meio do rosto enquanto tentava gritar, caindo para trás sobre as ancas da montaria e despencando sobre os lanceiros a sua volta.

Ao longo da linha inteira, as flechas despejaram das árvores, e depois outra vez, num ritmo que Thomas conhecia tão bem quanto a respiração. Era por isso que treinara ininterruptamente todos eles até as pontas dos dedos incharem como uvas gordas. Seus arqueiros recolhiam as flechas enfiadas na terra negra e as puxavam, ajustando-as às cordas e atirando sem parar. O estalo dos arcos era um alarido que Thomas adorava ouvir. Menos de meio quilômetro e duzentos homens atirando de novo e de novo sobre as fileiras amontoadas.

Aos berros e indefesos, os soldados franceses se reuniram em pânico enquanto as flechas os rasgavam. Centenas se jogaram ao chão, e Thomas, em silêncio, os desafiou abertamente sem proferir qualquer palavra ao ver os próprios guardas do rei vacilarem ao serem atingidos.

Os cavaleiros em torno do monarca foram surrados e golpeados ao erguerem os escudos acima do rei Carlos e berrarem ordens. Trombetas soaram pelo fundo do vale, e Thomas pôde ver mil homens ou mais iniciarem uma investida. Cavaleiros e soldados franceses montados esporearam e incitaram os cavalos, brandindo a espada e galopando rumo à faixa que fora arrancada de seu exército, uma cutilada sangrenta que parecia feita por um gigante que os esmagava com o pé.

Thomas mandou três de suas preciosas flechas de ponta bodkin na direção do rei antes de se concentrar novamente nos homens a sua frente. A destruição foi até maior do que esperava, mas isso significava menos alvos, e ele viu dezenas de flechas passarem por homens em fuga e errarem completamente seus destinos.

— Mirem cavalos e cavaleiros! — rugiu pela linha.

Ele viu uma centena de arqueiros se virarem quase em sincronia, buscando os mesmos alvos. Mais de um cavaleiro que galopava para ajudar foi atingido por várias flechas e caiu morto antes de atingir o solo. Thomas praguejou ao ver o rei oscilando na sela, ainda vivo, embora os homens que o protegiam exibissem sangue na armadura. Eles começaram a levar o rei para trás por entre o amontoado de soldados que avançava, e os arqueiros continuavam a atirar e atirar, até levarem a mão à aljava e nada encontrarem.

Thomas conferiu a sua, como sempre fazia, embora soubesse que estava vazia. Vinte e quatro flechas se acabaram no que parecia um piscar de olhos, e nisso o exército francês mais parecia um idiota caído em cima de um formigueiro. Voltaram a montar formação sobre os montes de mortos quando a tempestade de flechas começou a fraquejar.

Era hora de correr. Thomas fitara o caos com prazer, fixando a cena na mente. Mas era hora de desviar a atenção do inimigo. Uma última olhada confirmou que o rei francês ainda estava vivo, sendo levado às pressas para longe por seus homens. Thomas percebeu que ofegava, e se esforçou para respirar profundamente e fazer soar a trombeta.

Ao sinal, a linha de arqueiros se desfez instantaneamente, dando as costas para os franceses e correndo entre as árvores. Mais trombetas soaram atrás deles, e novamente Thomas sentiu o terror doentio de ser caçado.

Sua respiração estava barulhenta e difícil quando ele se lançou pelos arbustos e em torno das árvores, ferindo o ombro num galho ao tentar passar por baixo dele e cair, mas então levantou de novo a toda velocidade. Conseguia ouvir os cavalos bufarem e golpearem a terra enquanto cavaleiros de armadura chegavam à linha das árvores e forçavam o caminho.

A sua esquerda, viu um de seus homens cair e, do nada, surgir um cavaleiro francês, mirando a lança para as costas do homem que tentava se levantar cambaleando. Thomas aumentou a velocidade, consternado com a rapidez com que os franceses se recompuseram. Torceu desesperadamente para ser apenas um cavaleiro à frente dos outros. Se fossem tão rápidos assim no contra-ataque, ele perderia metade dos homens antes de chegarem ao prado mais adiante.

Ouviu cascos se aproximarem por trás, com um tilintar de arreios. Thomas desviou por instinto e ouviu uma voz francesa praguejar quando o cavaleiro errou o golpe. A ponta da lança do homem apontou para baixo, enfiando-se na terra, mas o cavaleiro foi esperto o suficiente e soltou-a. Thomas não ousou olhar para trás, ainda que ouvisse uma espada ser sacada acima do ruído de seus próprios pés correndo. Encolheu-se à espera do golpe quando a floresta clareou à frente e percebeu que havia percorrido 800 metros tão depressa como nunca correra na vida.

Thomas saiu ao sol da primavera e se viu diante de uma linha de arqueiros com os arcos erguidos em sua direção. Jogou-se na terra e eles lançaram disparos rápidos sobre sua cabeça. Ouviu o berro de um cavalo, e, enquanto ofegava deitado, olhou para trás pela primeira vez e viu seu perseguidor cair no chão quando o cavalo desmoronou com o pulmão perfurado. Thomas se forçou a se levantar e prosseguir, ofegante e com o rosto corado, cambaleando até seus homens e a segunda fila de flechas que tinham preparado. Agradeceu a Deus pelos mais jovens terem sido mais velozes do que ele no terreno acidentado. O cavaleiro caído começava a se levantar quando Thomas recolheu uma nova flecha do chão e a disparou, perfurando o pescoço do homem.

O prado era mais largo que profundo, uma faixa aberta de samambaias e espinheiros densos, com alguns carvalhos teimosos em torno de uma lagoa. Fora o lugar óbvio para o recuo de seus homens, fruto do conhecimento local de meninos que costumavam brincar e pescar tritões ali quando pequenos.

Thomas procurou Rowan na linha e suspirou de alívio ao vê-lo em pé com os outros. Tinham perdido alguns homens na corrida desenfreada pela floresta, mas, antes que pudesse chamar o filho, cavaleiros montados irromperam das árvores, espalhando folhas e pequenos ramos ao cavalgarem a toda para o sol.

Morreram com a mesma rapidez, golpeados e surrados ao entrar no espaço aberto. Os últimos arqueiros de Thomas tropeçavam entre os franceses, alguns feridos e moribundos. Um ou dois deles foram mortos pelos próprios companheiros, que atiraram em tudo o que viram se mover.

Thomas aguardou, tentando controlar o coração disparado. Conseguia ouvir estrondos e trombetas soando na floresta, mas o que conseguiam escutar dali minguou aos poucos até cessar, e lá ficou ele, esperando. Surpresa. Ele a havia usado toda. Os franceses sabiam que estavam em luta por Maine. Praguejou em voz alta ao pensar no rei francês ainda entre os vivos. Apenas uma flecha no lugar certo e teriam conquistado tudo num dia, talvez até salvado sua fazenda e sua família.

Aguardou algum tempo, mas não veio mais nenhum cavaleiro. Thomas estendeu a mão para a trombeta e descobriu que sumira, deixando uma faixa doída no pescoço para mostrar onde estivera. Não conseguia se lembrar de que ela se soltara, e, confuso, esfregou o vergão vermelho antes de levar os dedos aos lábios e soltar um assovio agudo.

— Retirada! — gritou, gesticulando com o braço direito dolorido.

Eles se viraram imediatamente, correndo o mais depressa possível para as árvores distantes. Thomas viu dois homens sustentando um amigo enquanto outros ficavam para trás, sangrando e gritando em vão. Fechou os ouvidos para as vozes que o chamavam.

Margarida adorou a Torre de Londres. Não só porque, em comparação, fazia o Castelo de Saumur parecer o barraco de um carvoeiro. A Torre era um complexo de construções, grande como uma verdadeira aldeia, cercado por imensas muralhas e portais. Era uma antiga fortaleza que protegia a cidade mais poderosa da Inglaterra, e Margarida começara a explorar cada parte dela, tornando-a sua como fizera com a Sala do Corvo e as passagens secretas de Saumur.

Londres na primavera recebia brisas frescas que não eram capazes de levar embora o fedor da cidade. Mesmo onde o sistema de esgoto romano tinha sobrevivido, a chuva pesada convocava à superfície a imundície antiga, que escorria como uma maré de lodo por todos os morros. Na maioria das ruas, recipientes cheios de urina e fezes eram esvaziados num lamaçal profundo de estrume animal e excremento humano, pisoteado com as entranhas apodrecidas de animais e o sangue coagulado dos porcos chacinados. O cheiro era indescritível, e Margarida vira os tamancos de madeira que os londrinos usavam sobre as botas para erguê-las bem alto e poder cumprir suas tarefas.

Tinham lhe dito que, quando os planetas se alinhavam de um jeito que ela não entendia, vapores venenosos subiam e pragas estivais ceifavam a população. William disse que havia muito mais gente quando o pai dele era criança, mas a guerra e a pestilência cobraram um preço terrível. Fora da cidade, aldeias inteiras foram reduzidas a mato e capim, com os habitantes em fuga ou trancados em casa para morrer esquecidos. Mas Londres sobreviveu. Diziam que o povo de lá havia sido fortalecido e conseguia respirar e comer quase qualquer coisa e continuar vivo.

Margarida tremeu de leve só de pensar naquilo. Naquele dia de primavera na Torre, podia ver o céu azul-claro e as nuvens brancas que pendiam como uma pintura acima da cabeça. Pássaros voavam, e o cheiro no ar estava suficientemente agradável por onde ela andava, no alto das muralhas, falando com soldados que coravam ao se ver sob o exame de uma rainha de 15 anos.

Ela fitou o sul, imaginando o Castelo de Saumur do outro lado do mar. A carta da mãe deixara clara a situação financeira da família, mas isso Margarida conseguira resolver. Com apenas uma palavra sua, Henrique concordara em mandar 1.200 libras em moedas de prata, suficientes para manter a propriedade durante dois anos ou mais. Margarida franziu o cenho ao pensar naquilo. O marido era muito receptivo. Concordava com tudo o que ela queria, mas havia algo errado; isso ela conseguia sentir. Iolanda voltara para a propriedade do marido, e ela não ousava confiar em ninguém mais. Margarida pensou em escrever uma carta, mas desconfiava que seria lida, pelo menos nos primeiros anos. Será que conseguiria fazer perguntas sobre homens de um jeito que Derry Brewer não entenderia? Ela balançou a cabeça, duvidando de sua capacidade de fazer algo passar por aquele homem irritante.

O alvo de seus pensamentos irrompeu neles no mesmo instante, subindo ao ponto mais alto das muralhas e sorrindo ao vê-la.

— Vossa Alteza Real! — gritou. — Disseram que estava aqui em cima. Vou lhe dizer, estou com o coração na mão ante a ideia de Vossa Alteza cair e morrer. Acho que significaria guerra em menos de um ano, tudo devido a uma pedra solta ou um único escorregão. Eu ficaria mais contente se Vossa Alteza me acompanhasse de volta ao térreo. Acho que os guardas também.

Derry se dirigiu a ela e tomou seu braço com gentileza, tentando conduzi-la de volta à escada mais próxima para descer. Margarida sentiu uma pontada de irritação e se recusou a se mexer.

— Milady? — perguntou Derry, parecendo ferido.

— Não vou cair, mestre Brewer. E não sou uma criança para ser conduzida a um lugar seguro.

— Acho que o rei não ficaria feliz ao saber que sua nova esposa está nessas muralhas, milady.

— É mesmo? Acho que ele ficaria, sim. Acho que ele diria: “Se Margarida assim deseja, Derry, fico contente”, não acha?

Por um instante, ambos se entreolharam com raiva, e então Derry soltou o braço dela, dando de ombros.

— Como quiser, então. Estamos todos nas mãos de Deus, milady. Vi seu marido hoje de manhã, para discutir questões de Estado que não podem ser ignoradas. Hesito em sugerir que ele entendeu mal algo que Vossa Alteza lhe disse, mas ele me pediu que a procurasse. Há algo que gostaria de me dizer?

Margarida olhou o homem, desejando que William estivesse ali e se perguntando até que ponto poderia confiar em Derry Brewer.

— Fico contente que ele tenha se lembrado, mestre Brewer. Isso me dá esperança.

— Tenho documentos que ele precisa selar, milady, hoje, se possível. Não posso responder pelas consequências se houver mais atrasos.

Margarida controlou a fúria com alguma dificuldade.

— Mestre Brewer, quero que o senhor escute bem. Entendeu? Quero que o senhor pare de falar e só me ouça.

Os olhos de Derry se arregalaram com surpresa.

— É claro, milady. Entendo. Eu só...

Ela ergueu a mão e ele se calou.

— Fiquei sentada com meu marido enquanto ele recebia nobres e homens de seu conselho, esse seu Parlamento. Observei-os apresentarem suas petições e discutirem suas finanças nos mínimos detalhes. Vi o senhor ir e vir, mestre Brewer, com os braços cheios de documentos. Assisti ao senhor guiar a mão de Henrique para pôr a cera e o selo real.

— Não entendo, milady. Eu estava lá quando conseguimos mandar uma fortuna para sua mãe. É essa a fonte de sua preocupação? O rei e eu... — Mais uma vez, Derry interrompeu a torrente de palavras quando ela levantou a mão.

— Sim, mestre Brewer. Eu também solicitei a arrecadação real. O senhor não precisa mencionar isso. Ele é meu marido, afinal de contas.

— E é meu rei — acrescentou Derry, a voz endurecendo sutilmente. — Venho tratando com ele e ajudando-o pelo tempo que a senhora tem de vida.

Margarida sentiu a coragem começar a fraquejar sob o olhar frio. A respiração parecia se prender na garganta e o coração batia com força. Mas aquilo era importante demais para desistir.

— Henrique é um bom homem — começou ela. — Não tem desconfianças, nenhum mal dentro dele. O senhor negaria isso? Ele não lê as petições nem as leis que tem de assinar, ou, quando as lê, dá apenas uma olhada rápida. Ele confia, mestre Brewer. Ele quer agradar quem o procura com histórias de sofrimento ou terrível urgência. Homens como o senhor.

As palavras tinham sido ditas e, pela primeira vez, Derry pareceu sem graça, fugindo do olhar dela e contemplando, além das muralhas e do fosso, o Tâmisa serpenteante. Além da comporta sob a Torre de São Tomás, havia barcos ao longe, sondando o fundo com longas varas com um gancho na ponta. Derry sabia que outra moça grávida se afogara tombando da Ponte de Londres na noite anterior. A multidão a vira segurando a barriga inchada quando subiu na amurada. Deram vivas para encorajá-la, é claro, até ela cair e ser engolida pelas águas escuras. Os barqueiros procuravam o cadáver para mandá-lo à Guilda de Cirurgiões. Aqueles homens pagavam muito bem pelas grávidas.

— Vossa Alteza, há alguma verdade no que disse. O rei é um homem que confia, e essa é uma razão ainda maior para ter homens bons a sua volta! Creia-me quando digo que sou um juiz cuidadoso daqueles que têm permissão para estar em sua presença.

— Um guardião, então? É assim que se vê, mestre Brewer? — Margarida descobriu que o nervosismo desaparecia e sua voz se fortaleceu. — Se é assim, quis custodiet ipsos custodes? Lembra-se de seu latim, mestre Brewer? Quem guarda os guardiões?

Derry fechou os olhos um instante, deixando a brisa secar o suor que surgira em sua testa.

— Não ouvi muito latim em meu ambiente, milady, não quando menino. Vossa Alteza tem apenas 15 anos, enquanto mantenho o reino a salvo há mais de uma década. A senhora não acha que já provei minha honra até agora?

— Talvez — respondeu Margarida, recusando-se a ceder. — Mas raro seria o homem que não se aproveitasse de um rei que nele confia tão cegamente.

— Sou esse homem, milady, sou esse homem por minha honra. Não busquei títulos nem riqueza. Dei-lhe todas as minhas forças, por sua glória e pela glória de seu pai.

As palavras pareciam ter sido arrancadas de Derry, encostado na parede de pedra, as mãos abertas. De repente Margarida se sentiu envergonhada, embora ainda houvesse um sussurro de suspeita de que Derry Brewer não se negaria a manipulá-la tão facilmente quanto o rei. Ela reuniu forças.

— Se o que diz é verdade, o senhor não fará objeção a que eu leia os documentos que chegam a Henrique, não é, mestre Brewer? Se tem a honra que afirma, não haverá mal nenhum nisso. Pedi permissão a Henrique, e ele me concedeu.

— Sim. Sim, claro que concedeu — comentou Derry amargamente. — Vossa Alteza lerá tudo? Submeterá o destino de um reino ao juízo de uma menina de 15 anos sem treinamento em leis e sem experiência de governar mais que um único castelo, no máximo? Entende o que está pedindo e as consequências evidentes disso?

— Eu não disse que estava pedindo, mestre Brewer! — retorquiu Margarida. — Eu lhe transmiti o que disse o rei da Inglaterra. Agora, pode desobedecer ou não à ordem dele, dependendo de querer continuar com suas responsabilidades... ou não! Seja como for, sim, lerei tudo. Verei todos os documentos, todas as leis que vierem para receber o selo de cera de meu marido. Lerei todas elas.

Derry se voltou para a jovem rainha, que viu fúria nos olhos do homem. Ele não parava quieto desde que o rei Henrique havia recusado um pedido seu naquela manhã. Havia recusado! Ele pedira ao rei que olhasse um maço de documentos e o homem balançara a cabeça, com remorso que parecia genuíno, e o instruíra a falar com a esposa. Derry ainda mal conseguia acreditar. Parecia que não era nenhum engano, pensou irritado.

Margarida o fitou de volta, desafiando-o a dizer não. Depois de algum tempo, Derry baixou a cabeça.

— Muito bem, milady. Se vier comigo, vou lhe mostrar o que isso significa.

Eles desceram juntos os degraus até o pátio principal, tão movimentado com soldados e criados quanto um dia de feira em qualquer cidade grande. Derry mostrou o caminho pelo gramado cheio de gente e Margarida o seguiu, decidida a não abrir mão de nada que conquistara, não importava o que acontecesse.

A Torre Branca era a parte mais antiga da fortaleza, construída com a pálida pedra francesa de Caen por Guilherme, o Conquistador, quase quatro séculos antes. Elevava-se acima deles enquanto Derry mostrava a ela a escada de madeira que levava à única entrada. Em tempos de guerra, a escada podia ser removida, tornando a torre praticamente inexpugnável a ataques. Dentro das maciças muralhas externas, ela e Derry passaram por sentinelas, subiram mais escadas e atravessaram uma dezena de câmaras e corredores antes de ele parar diante de uma grossa porta de carvalho e girar a maçaneta.

A sala além da porta estava cheia de escribas. Elevados acima do restante da fortaleza, sob as vigas de um telhado marcado por séculos de fuligem, ali ficavam, escrevendo em pergaminho ou rolos costurados com fitas de cores diferentes, passando-os adiante até seus superiores. Os olhos de Margarida se arregalaram ao ver pilhas de pergaminho que iam até o teto em alguns lugares, ou à espera de serem levados em carrinhos altos de madeira.

— Tudo isso se resume a apenas alguns dias, milady — explicou Derry, baixo. — É o pergaminho que governa o reino, entrando e saindo daqui rumo a todos os nobres, mercadores, arrendamentos e fazendas... Centenas de antigas disputas e aluguéis, milady. Tudo, do pagamento de uma criada a petições de soldados e dívidas de um grande castelo; tudo passa por aqui. E esta é apenas uma sala. Há outras nos palácios de Westminster e Windsor que são igualmente movimentadas.

Ele se virou para observá-la, sabendo que todo movimento cessara quando os escribas perceberam que a rainha em pessoa fora a seu domínio espremido e abafado.

— Homem nenhum conseguiria ler isso tudo, milady — continuou Derry com complacência. — Mulher nenhuma também, se a senhora me perdoa. A pequena parte que chega ao rei já foi conferida e passada aos escribas mais experientes, depois passada outra vez ao camerlengo e aos mordomos do rei. Homens como lorde Suffolk lerão parte disso, como mordomo da casa real. Ele responderá a alguns pessoalmente ou decidirá a seu respeito mas também passará adiante uma parte. Quer que tudo isso pare, milady? Vossa Alteza obstruiria o tubo que flui por essa sala com apenas suas mãos e seus olhos? A senhora passaria anos sem voltar a ver a luz do dia. Não seria um destino que eu escolheria para mim, isso posso lhe dizer.

Margarida hesitou, assombrada com a sala e com o silêncio mortal que sua presença criara. Sentia os olhos dos escribas passando por ela como besouros sobre sua pele, e tremeu. Sentia o triunfo de Derry com a montanha de documentos que lhe mostrara, a impossibilidade de ler tudo. Bastavam os documentos daquela sala para ocupar toda uma vida, e ele dissera que tudo aquilo era fruto de alguns dias? Ela relutou em ceder a vantagem que conquistara só por estar ali em cima, e não respondeu de imediato. A solução, claramente, era ler apenas demandas e as petições mais importantes, aquelas que chegassem às mãos do próprio Henrique. Mas, se fizesse isso, Derry Brewer ainda controlaria a massa imensa de comunicação ao alcance do rei. Era o que lhe dizia, com o quadro vivo dos escribas para reforçar sua posição. Ela começava a avaliar o homem perigosamente poderoso que ele era na verdade.

Margarida sorriu, mais pelos escribas que pelo próprio Derry. Com a mão pousada no braço dele, falou calma e docemente.

— Verei e lerei os pergaminhos que meu marido tiver de assinar, mestre Brewer. Pedirei a William, lorde Suffolk, que me descreva o restante, se vir tantos em seu novo cargo. Tenho certeza de que poderá me dizer quais são importantes e quais podem ficar a cargo do camerlengo do rei e dos outros. Isso não lhe parece uma bela solução para essa montanha de trabalho? Fico grata por ter visitado esta sala e pelos que aqui labutam sem recompensa. Vou mencioná-los a meu marido, para sua distinção.

Ela sentiu os escribas sorrirem com as palavras de elogio, enquanto Derry pigarreava.

— Como quiser, então, milady. — Ele manteve o sorriso, embora fumegasse por dentro. Com qualquer outra pessoa, sabia que conseguiria convencer Henrique a mudar de ideia, mas a própria esposa do rei? A moça que ficava sozinha com ele toda noite nos aposentos reais? Gostaria de saber se ela ainda era virgem, o que talvez explicasse por que sentia necessidade de preencher o tempo dessa maneira. Infelizmente, era um assunto que não ousava mencionar.

Derry a levou de volta pela Torre Branca. No último lance de escadas que levava para fora, ergueu a mão para a parte inferior das costas da rainha a fim de guiá-la, depois pensou melhor, então ela juntou a longa cauda do vestido e desceu sem nenhuma ajuda.