Pássaro da Tempestade

Conn Iggulden · Capítulo 30 de 43

Páginas do PDF

Pássaro da Tempestade

Capítulo 24

 

William, lorde Suffolk, estava de pé nas falésias brancas acima do porto de Dover. Os homens de Somerset aguardavam respeitosamente a certa distância, entendendo que o inglês talvez quisesse um momento de reflexão silenciosa antes de deixar a pátria para os cinco anos de banimento.

O ar estava puro comparado aos vapores e fedores de Londres. Havia nele um toque de calor primaveril, mesmo naquela altura. William gostou de ter parado. Podia ver o navio mercante à espera no porto, mas só ficou ali, olhou para o mar e respirou. A fortificação maciça do Castelo de Dover podia ser vista a sua direita. Sabia que Guilherme, o Conquistador, a incendiara e depois pagara sua restauração, numa mistura de terror e generosidade típica dele. Os franceses queimaram a cidade inteira havia apenas um século. As lembranças eram antigas naquele trecho da costa. William sorriu com a ideia, consolando-se. Os moradores locais tinham reconstruído tudo depois de desastres muito piores do que o que o atingira. Levantaram-se das cinzas e construíram lares mais uma vez. Talvez ele fizesse o mesmo.

Ficou surpreso ao sentir seu estado de espírito se alegrar enquanto inspirava o ar suave. Tantos anos de responsabilidade não pareceram um fardo. Mas perdê-la o fazia sentir-se livre pela primeira vez, desde que conseguia se lembrar. Não podia mais mudar nada. O rei Henrique possuía outros homens para apoiá-lo e orientá-lo. Enquanto Derry Brewer vivesse e planejasse, sempre haveria esperança.

William sabia que tentava ver o lado bom de um destino ruim, característica que compartilhava com o povo fleumático da cidade lá embaixo. A vida não era um passeio no Jardim do Éden. Se fosse, William sabia ser do tipo que olharia em volta e construiria para si uma maldita casa. Nunca ficara ocioso, e pensar em como preencher seus anos na Borgonha era uma preocupação incômoda. O duque Filipe era um bom homem por ter feito a oferta, e pelo menos não era amigo do rei francês. A ironia de ser acusado de traição é que William possuía muito mais amigos na França que na Inglaterra, ao menos naquele momento. Com documentos que asseguravam a proteção pessoal do duque Filipe, passaria pelo coração da França, pararia algum tempo em Paris e seguiria para seu novo lar.

William enfiou a ponta da bota na terra verde até chegar ao cal embaixo. Mas suas raízes estavam ali, sua alma no cal. Ele esfregou os olhos com veemência, na esperança de que os homens não vissem a força da emoção que o inundara.

William soltou a respiração e limpou os pulmões.

— Vamos, rapazes — chamou, voltando ao cavalo. — A maré não espera por nós nem por homem nenhum.

Ele encontrara um modo de montar sem forçar demais o braço; esforçou-se para subir na sela e pegou as rédeas com a mão boa. Desceram por caminhos e por uma boa estrada até a frente das docas. Mais uma vez, William sentiu olhares hostis sobre ele, ouvindo sussurrarem seu nome, embora achasse que devia estar um dia à frente das notícias. Manteve a cabeça erguida ao ser apresentado ao capitão-mercante e supervisionar o carregamento dos suprimentos providenciados por Derry. Eram apenas o suficiente para manter um homem de sua estatura durante algumas semanas. William sabia que teria de recorrer à esposa para obter roupas e recursos. A Borgonha fazia parte do continente francês, a um mundo de distância, mas, mesmo assim, dolorosamente perto de casa. Ele se despediu dos homens de Somerset, distribuiu algumas moedas de prata e lhes agradeceu a proteção e a cortesia. Ao menos o trataram com o respeito devido a um lorde, fato que não escapou aos olhos do comandante do navio.

William estava acostumado a embarcações, e, a seus olhos, a coca mercante parecia malcuidada. Os cabos não estavam enrolados em pilhas direitas, e o convés precisava ser esfregado com pedras ásperas. Ele suspirou ao se inclinar na balaustrada e olhar os moradores da cidade que se moviam, ocupados. Derry havia molhado as mãos necessárias para sua viagem e conseguira maravilhas em tão pouco tempo. Assim como a esposa e o filho, William sabia que deixava bons amigos para trás. Ficou no convés conforme o navio desatracava, o primeiro e o segundo imediatos gritando um ao outro da proa à popa. A tripulação içou a verga da vela principal mastro acima, num canto ritmado a cada puxada. William ergueu os olhos enquanto a vela se enfunava e o navio ganhava velocidade.

Ele viu a terra se afastar e tragou a paisagem, querendo guardar cada detalhe na memória. Sabia que estaria com quase 60 anos quando voltasse a ver aquelas falésias brancas. O pai falecera com apenas 48, morto em combate. Era uma lembrança perturbadora, e William se perguntou se via sua terra pela última vez, tremendo à medida que o vento aumentava além do porto, fazendo a grande vela ranger.

Fora do abrigo do litoral, o mar alto sibilava sob a proa e a coca se agitava. William recordou a viagem pelo canal com Margarida, quando ela era pouco mais que uma menina. O prazer dela fora contagioso, e a lembrança o fez sorrir.

Estava perdido num devaneio de tempos melhores e, a princípio, não entendeu o súbito alvoroço de marinheiros descalços que corriam de uma ponta à outra do convés. O primeiro imediato rugia novas ordens, e o navio girou para outra rota, cabos e vergas movidos por homens que conheciam o ofício. Confuso, William olhou primeiro a tripulação e depois se virou para ver o que todos fitavam.

Ele segurou com força a balaustrada ao avistar outro navio que saía de uma baía mais adiante na costa. Era uma embarcação de guerra, de proa e popa altas, com um convés central de embarque mais baixo — não era um navio mercante. Uma onda de náusea varreu William quando todos os seus planos, toda a paz que juntara como areia, foram subitamente por água abaixo. Cocas muito carregadas como a Bernice eram um bom prêmio para piratas. O canal entre a França e a Inglaterra vivia repleto de mercadores o ano inteiro, e os piratas atacavam navios e aldeias costeiras, vindos da França ou mesmo da Cornualha para atacar seu próprio povo. Quando pegos, as penas eram violentas, e era raro ver as gaiolas vazias nos grandes portos marítimos.

A terrível sensação de consternação de William se intensificou quando o outro navio se aproximou, com a grande vela tesa e enfunada. Apesar dos castelos de popa e de proa feios, era mais estreito que a Bernice e claramente mais veloz. Lançava-se contra eles como um falcão arremetendo contra a presa, tentando pegá-los.

A França estava perto o suficiente para fugir para o litoral dela. William conseguia vê-la, embora o vento ainda estivesse aumentando e o continente se nublasse à distância. De todos os que estavam a bordo, ele era o que mais sabia que restavam poucos portos seguros na França. Agarrou pelo braço um marinheiro que corria, quase fazendo o homem tropeçar.

— Siga para Calais — ordenou William. — Diga ao comandante. É o único porto com navios ingleses.

O homem o olhou boquiaberto, depois bateu continência antes de se soltar, correndo de volta a seus deveres.

O céu começou a escurecer, o tempo piorando. Em meio à neblina e à umidade, William ainda tinha vislumbres da França à frente e da Inglaterra atrás, as falésias brancas de Dover apenas uma linha indistinta. A Bernice corria à frente sob o peso da vela e do vento, mas ele podia ver que não seria suficiente. As cocas eram construídas largas para levar carga, grandes embarcações lentas que eram o sangue do comércio. O navio em perseguição era praticamente um galgo comparado à Bernice e se aproximava cada vez mais; as ondas ficavam violentas e a espuma golpeava o convés dos dois navios. William sentiu nos lábios o gosto do sal enquanto a Bernice avançava à toda e o comandante rugia ordens para seguir para Calais.

Uma dezena de tripulantes puxou os grossos cabos para girar as vergas e outros puseram o peso contra o leme, virando-o a bombordo para forçar o navio a tomar o novo rumo. A vela adejou com força quando as cordas se afrouxaram, e o navio em perseguição pareceu se aproximar mais. Se pudessem ter continuado, seria uma caçada muito mais demorada, porém que terminaria com a Bernice encalhada na costa francesa. Tinham de tentar chegar a Calais, embora a mudança de rumo quase tivesse matado sua velocidade.

William sentiu o coração bater forte conforme a Bernice estalava e desacelerava. Nisso, conseguia ver cada detalhe do navio que os perseguia, a apenas 800 metros de ondas cinzentas, e ainda se aproximando. Franziu os olhos e leu um nome marcado em enormes letras douradas. O Tower era um navio excepcionalmente bem-equipado para estar sob o comando de um pirata.

A vela se retesou novamente com o vento, e os marinheiros mercantes comemoraram rispidamente ao amarrarem os cabos e descansarem, ofegantes. Todos os mais velhos tinham participação no navio e na carga. Seu sustento e sua vida dependiam de que a Bernice escapasse. As ondas fervilharam novamente sob a proa enquanto cortavam as águas escuras. A França estava a poucos quilômetros, e William ousou ter esperanças. O outro navio ainda estava atrás deles, e com certeza haveria embarcações inglesas mais perto da França, prontas para zarpar quando vissem uma valiosa coca sendo perseguida.

Uma hora se passou, depois outra, com o vento ficando cada vez mais forte e as nuvens afundando em direção ao mar revolto lá embaixo. Cristas de espuma branca surgiram nas ondas, e a água fria e salgada era lançada ao ar como névoa. William sabia que o canal podia ser volúvel, criando tempestades repentinas. Mas a Bernice era sólida, e ele achou que a grande vela aguentaria mais tempo que a do Tower. Começou a murmurar uma oração pedindo a tempestade, observando o comandante com atenção enquanto o homem, em pé sob o mastro principal, olhava para cima, aguardando o primeiro sinal de um rasgo. O vento se tornou uma ventania e nuvens mais escuras correram pelo céu, tal qual os navios que lutavam no mar abaixo. A luz do sol sumiu rapidamente, e William sentiu as primeiras gotas de chuva batucarem no convés. Tremeu, vendo o navio perseguidor mergulhar e subir com água branca e verde do mar escorrendo da proa.

Nisso, os perseguidores estavam a poucas centenas de metros da popa. William podia ver homens vestidos com cota de malha e tabardos em pé no convés. Havia talvez vinte deles, não mais, embora portassem espadas e machados suficientes para abordar uma tripulação mercante. Engoliu em seco ao ver arqueiros subirem no alto castelo de madeira construído atrás da proa. Com ambos os navios subindo e descendo e o vento soprando em lufadas violentas, ele lhes desejou sorte, e depois viu, consternado, três arcos longos se curvarem e dispararem flechas para atingir o convés da Bernice com barulho de martelo.

A mão boa de William agarrou a balaustrada como um grampo de carpinteiro, o cenho franzido. Os piratas conseguiam tripulantes nas cidades costeiras, mas nunca houvera um arqueiro francês capaz daquele tipo de pontaria. Ele sabia que observava arqueiros ingleses, traidores e patifes que preferiam a vida de roubos e assassinato ao trabalho mais honesto. O comandante passou correndo por ele, seguindo para a popa a fim de ver o que acontecia. William tentou ir com ele, mas, com apenas uma das mãos boa, cambaleou e quase caiu assim que largou a balaustrada. Por instinto, o capitão o agarrou antes que ele caísse ao mar. Por azar, segurou a mão ferida, fazendo William gritar com a dor súbita.

O capitão berrava desculpas acima do vento quando uma flecha o atingiu, afundando-se em suas costas e atravessando o corpo. William pôde ver com clareza a ponta bodkin, com lascas brancas de costela em torno do ferro escuro. Os dois homens se entreolharam boquiabertos, e o capitão quis falar antes que os olhos ficassem mortiços e se revirassem. William tentou segurá-lo, mas era peso demais, e o capitão sumiu na espuma do mar por sobre a balaustrada e afundou num instante.

Mais flechas caíram com estrondo em torno deles, e William ouviu um marinheiro gritar de dor e surpresa quando outra acertou o alvo. A grande vela acima da cabeça de William começou a tremular. Ele podia ver que os homens do leme estavam deitados no chão: tinham abandonado seu dever diante da chuva de flechas. Sem suas mãos para guiá-la, a Bernice se movia frouxamente, saindo da rota. Mantendo-se o mais abaixado possível, William berrou para que segurassem o leme outra vez, porém o dano já fora causado. O navio perseguidor abalroou repentinamente o costado, um rugido áspero de madeira rachando, enquanto a chuva golpeava todos eles.

William foi derrubado e ainda tentava se levantar quando homens armados saltaram ao invadir a coca, berrando o próprio medo ao atravessarem a faixa de ondas altas e plúmbeas. Ele viu um homem errar e escorregar para ser esmagado ou se afogar, mas no mesmo instante surgiu outro, passando por cima dele com a espada firme em riste.

— Pax! — gritou William, ofegando ao tentar se levantar. — Sou o lorde Suffolk! Posso pagar o resgate.

O homem que assomava sobre ele pisou com força na mão destruída de William, fazendo o mundo ficar completamente branco por um segundo. Ele gemeu e abandonou toda a ideia de se levantar enquanto jazia ali no convés, encharcado e gelado, com a chuva tamborilando a madeira a sua volta.

Os atacantes recorreram ao choque e à violência para dominar a Bernice. Os pobres tripulantes, a maioria desarmada, foram jogados ao mar ou mortos no primeiro tumulto selvagem. William olhou furioso seu captor, meio surpreso de já não ter sido morto. Sabia que recolheriam a carga e provavelmente afundariam a Bernice, levando todas as testemunhas para o fundo do mar. Vira corpos irem parar na praia vezes suficientes para saber como trabalhavam, e mesmo a possibilidade de resgate podia não compensar o aumento do risco. Aguardou o golpe, enjoado com as ondas de agonia que vinham da mão esmagada.

O vento continuou a uivar em torno das cordas e da estranha fera formada por dois navios que se agitavam juntos no mar encapelado.

Jack Cade olhou furioso os homens que foram até ele ousando questionar seus planos. O fato de serem aqueles os homens que havia preparado para comandar outros não ajudava. Eram os presentes na reunião na taberna, onde os encarregara de treinar grupos de doze homens. Sob seu comando, tinham lutado e vencido o xerife de Kent. A cabeça boquiaberta do homem ainda pendia num ângulo estranho no alto de uma estaca ao lado da fogueira de Jack, com o escudo do cavalo branco descansando a seus pés. Em vida, o xerife fora baixo, mas, como ressaltou Paddy, no fim ficara mais alto que todos.

Embora Jack não soubesse dizer exatamente o porquê, o que mais o incomodava era terem pedido a Ecclestone que o confrontasse em seu próprio território. O amigo estava à frente de um pequeno grupo de homens e falava devagar, com calma, como se estivesse se dirigindo a um louco.

— Ninguém está dizendo que está com medo, Jack. Não é isso. É só que Londres... bem, é grande, Jack. Só Deus sabe quanta gente existe lá, toda espremida entre o rio e as velhas muralhas. Nem o rei sabe, provavelmente, mas é muita gente... muito mais do que temos.

— Então você acha que esse é o nosso fim — retrucou Jack, os olhos faiscando perigosamente cabeça baixa. Ele se sentou e observou a fogueira que tinham acendido, sentindo-se quente e confortável por dentro e por fora, com uma garrafa de bebida transparente e destilada que lhe deram naquela manhã. — Então é isso, Rob Ecclestone? Estou surpreso de ouvir isso de você. Acha que fala pelos homens?

— Não falo por nenhum deles, Jack. Sou só eu falando agora. Mas você sabe, eles têm milhares de soldados e cem vezes mais homens pululando na cidade. Metade deles são homens fortes, Jack. Haverá açougueiros e barbeiros para resistir a nós, homens que sabem qual é a ponta e qual é o cabo de uma faca de estripar. Só estou avisando. Pode ser um passo grande demais sair procurando o rei em pessoa. Pode ser o tipo de passo que nos fará balançar nas forcas de Tyburn. Ouvi dizer que agora são três, com espaço para oito em cada uma. Podem enforcar duas dúzias de uma vez, Jack, é só isso. É uma cidade forte.

Jack grunhiu de irritação, inclinando a cabeça para trás para esvaziar o resto da bebida ardente garganta abaixo. Ficou olhando mais um pouco e depois se pôs de pé, assomando sobre Ecclestone e os outros.

— Se pararmos agora — começou a argumentar suavemente —, ainda assim virão atrás de nós. Acharam que poderíamos simplesmente ir para casa? Rapazes, furtamos e roubamos. Matamos homens do rei. Não vão nos deixar ir embora, não agora, não depois que começamos. Podemos lançar a sorte por Londres ou... — Ele levantou os ombros grandes. — Bom, suponho que podemos tentar a França. Mas acho que não seremos muito bem-vindos por lá.

— Eles o enforcariam em Maine, Jack Cade. Sabem reconhecer os patifes de Kent quando veem um.

A voz viera dos fundos do grupo. Jack se enrijeceu, cego pela luz do fogo enquanto espiava a escuridão.

— Quem falou? Mostre o rosto quando falar comigo.

Ele tentou enxergar por entre as chamas negras e amarelas. Sombras se moveram entre os homens, que se viravam nervosos para ver quem havia falado. Jack percebeu o corpanzil do amigo irlandês empurrar dois outros homens em sua direção.

— Ele afirmou que o conhecia, Jack — explicou Paddy, ofegante. — Disse que você se lembraria de um arqueiro. Não achei que fosse louco de provocá-lo.

— Ele já recebeu coisa pior de mim no passado, seu touro castrado irlandês — respondeu Thomas Woodchurch, lutando contra a força de Paddy, que o segurava. — Cristo, o que dão para você comer?

Com ambas as mãos segurando as roupas dos indivíduos, Paddy só podia balançar os homens com exasperação. Fez isso até a cabeça dos dois balançar tontamente.

— Já basta?

— Woodchurch? — perguntou Jack espantado, avançando para além da luz da fogueira. — Tom?

— Sou eu. Agora, diga a este cachorro do pântano que me ponha no chão antes que eu chute as bolas dele até a garganta!

Com um rugido, Paddy largou Rowan e ergueu o punho para martelar Thomas e fazê-lo se ajoelhar. Rowan viu o que ele pretendia e agarrou o irlandês depressa, derrubando os três num monte de xingamentos e pontapés.

Jack Cade estendeu a mão e puxou o rapaz com os punhos ainda golpeando o ar.

— Quem é este aqui, então? — quis saber Jack.

Rowan só conseguiu olhá-lo furioso, segurado pelo colarinho com tanta força que sufocava e ficava vermelho.

— Meu filho — respondeu Thomas, sentando-se e defendendo-se dos pontapés de Paddy.

Thomas se levantou primeiro e estendeu a mão para ajudar o irlandês. Paddy ainda estava disposto a atacar, mas se contentou em praguejar furiosamente enquanto Jack levantava a mão aberta e tirava a terra de Rowan com um sorriso estranho brincando na boca.

— Lembro-me dele, Tom, quando não passava de um fedelho chorão, de rosto tão vermelho quanto agora. O que aconteceu com aquela moça dos cortiços? Sempre achei que era uma figurinha esperta.

Jack sentiu que o mau humor de Paddy estava prestes a tomar conta dele e pôs a mão no ombro do amigo.

— Tudo bem, Paddy. Tom e eu nos conhecemos há muito, muito tempo. Vou ouvir o que ele tem a dizer e, se não gostar, talvez você possa convidá-lo para trocar uns socos e alegrar os rapazes.

— Eu gostaria disso — grunhiu Paddy, ainda com raiva nos olhos.

Thomas olhou de soslaio para ele, avaliando o peso e o tamanho do irlandês antes de rir por entre os dentes.

— Eu não conseguiria enfrentá-lo se estivesse em forma... e me cortaram quando tentava sair da França. Foi um ano difícil para mim e para o garoto. Então me disseram que Jack Cade arranjara um exército e me deu vontade de ver se era o mesmo homem de quem eu me lembrava.

— Veio se juntar aos Homens Livres de Kent, é? Sempre há serviço para arqueiros, se ainda tiver braço para isso.

— Pensei no caso, Jack, mas seus homens andam dizendo que você está de olho em Londres e no próprio rei. Quantos você tem, três mil?

— Cinco — respondeu Jack no mesmo instante. — Quase seis.

— Com antecedência suficiente, eles conseguem pôr o dobro disso na estrada, Jack. Aquela é uma cidade velha e cruel. Eu sei.

Os olhos de Cade cintilaram ao avaliar o homem a sua frente.

— Então, como você faria, Tom? Eu lembro que você enxergava com bastante clareza antigamente.

Thomas suspirou, sentindo os anos e a fraqueza do corpo. Ele e Rowan tinham comido um quarto do cavalo que furtaram, trocando alguns dias de carne substanciosa por andar pela última parte do caminho. Mesmo assim, sabia que demoraria mais um pouco para conseguir esvaziar uma aljava com velocidade decente. Não respondeu por um momento, os olhos baços enquanto pensava nas fazendas queimadas que vira e nos corpos de famílias inteiras pelos quais passara na estrada. Em toda a sua vida, sempre fora rápido para se enraivecer, mas aquilo não era a mesma coisa. Ele havia acumulado a fúria lentamente, durante meses de perda e perseguição. Culpava o rei Henrique e seus lordes por tudo o que vira; isso era verdade. Culpava os franceses, embora os tivesse feito sangrar a cada metro de suas terras. Também culpava Derry Brewer, e sabia que era em Londres que o encontraria.

— Eu iria direto ao coração, Jack. O rei estará na Torre ou no Palácio de Westminster. Eu mandaria alguns homens que conheçam a cidade entrar e ficar tempo suficiente para descobrir onde ele está. Meu palpite seria a Torre, com a Casa da Moeda Real e todo o ouro lá guardado. Depois eu faria o ataque à noite, encheria os bolsos e arrancaria seu coração negro. Estou farto de reis e lordes, Jack. Eles me tiraram coisa demais. Chegou a hora de eu tomar algo de volta por tudo que sofri.

Jack Cade riu e lhe deu um tapa no ombro.

— É bom ver você, Tom. Bom ouvir você também. Sente-se aqui comigo e me conte que caminhos percorreu. Essas menininhas de coração mole estão me dizendo que não pode ser feito.

— Ah, pode ser feito, Jack. Não sei se conseguimos vencer Londres, mas podemos mostrar àqueles nobres o preço do que nos tiraram. Talvez possamos enriquecer ao mesmo tempo. Há ideias piores; eu tenho estado do lado errado da maioria delas.

O estômago de William se rebelava, forçando o ácido até a boca ao ele se ajoelhar no convés oscilante com as mãos amarradas às costas. O antigo ferimento provocava cãibras numa das pernas e o músculo gritava, mas, sempre que tentava se mexer, um dos piratas o chutava ou sacudia sua cabeça para a frente e para trás até ele cuspir sangue. Estava indefeso e furioso, incapaz de fazer qualquer coisa além de assistir aos últimos tripulantes serem mortos sem cerimônia e jogados pela amurada para sumir no mar.

Ele conseguia ouvir seus captores vasculhando sob o convés, saqueando e gritando de alegria com tudo o que encontravam ali. Seus sacos já haviam sido abertos, com homens remexendo na bolsa de moedas que Derry deixara para ele. William nada tinha dito enquanto zombavam dele e o provocavam, esperando que quem os comandava aparecesse.

Soube que o homem estava chegando quando a louca empolgação da tripulação pirata se apagou de repente. Eles fitaram o convés ou os próprios pés, como cães na presença do líder da matilha. William espichou o pescoço para ver e deu um berro de surpresa e dor ao ser subitamente arrastado para a frente pelo convés, as pernas abertas para trás. Dois piratas o seguraram pelas axilas e gemeram com seu peso enquanto ele tombava e tropeçava. William adivinhou que o levariam para o outro navio como uma ovelha atada, e torceu para que não o largassem pelo caminho, com as ondas de crista branca jogando espuma no ar, cada passo um desafio para permanecer ereto.

Não entendeu quando o arrastaram diretamente para a proa da Bernice, enquanto olhava para os estais e a água que fervia abaixo. O homem a quem os outros obedeciam entrou em seu campo de visão, e William ergueu os olhos, confuso.

O capitão dos piratas tinha a tez amarelada cheia de cicatrizes, um tipo rijo como os que William já vira matando porcos nos matadouros de Londres. O rosto do homem exibia antigas marcas de varíola em grandes poços nas bochechas e, quando sorria, os dentes eram quase todos marrom-escuros com contornos pretos, como se mastigasse carvão. O capitão espiou o prisioneiro, os olhos vivos de satisfação.

— William de la Pole? Lorde Suffolk? — disse com prazer.

O coração de William se apertou, e seus pensamentos clarearam e se acalmaram, a náusea nas entranhas transformada num incômodo distante. Não dissera seu sobrenome, e aquela gente não era do tipo que o conhecesse, a menos que procurassem seu navio desde o começo.

— Então sabe meu nome — disse. — Quem o revelou a você?

O capitão sorriu e estalou a língua com reprovação.

— Homens que esperavam justiça de um rei fraco, lorde Suffolk. Homens que a exigiram e a viram recusada.

William observou com satisfação doentia o homem desembainhar uma lâmina com aparência enferrujada e passar o polegar nela.

— Já me rendi em troca de resgate! — exclamou William, desesperado, a voz falhando de medo. Apesar da mão ferida, lutou contra as cordas, mas todo marinheiro sabe dar nós, e eles não cederam. O capitão sorriu de novo.

— Não aceito sua rendição. O senhor é um traidor condenado, William de la Pole. Alguns acham que não deviam lhe permitir que andasse em liberdade, não com a traição pendurada no pescoço.

William se sentiu empalidecer quando o sangue lhe fugiu do rosto. O coração batia forte enquanto ele compreendia. Fechou os olhos um instante, lutando para encontrar dignidade, o convés subindo e descendo sob seus pés.

Seus olhos se abriram quando sentiu uma mão rude nos cabelos, segurando-o e forçando sua cabeça à frente.

— Não! — gritou. — Eu recebi a liberdade!

O capitão ignorou seu protesto; pegou um grande tufo de cabelos grisalhos e o ergueu para revelar o pescoço por baixo, mais pálido que o restante. Com determinação cruel, o homem começou a serrar o músculo. O berro ultrajado de William se transformou num grunhido de agonia quando o sangue jorrou e sujou o convés em todas as direções, açoitado e levado pelos borrifos d’água. Ele se sacudiu e tremeu, mas foi segurado com firmeza até cair para a frente, batendo com força no convés.

O capitão arruinara a lâmina cortando ossos e músculos espessos. Jogou a arma longe de qualquer jeito enquanto estendia a mão e levantava a cabeça cortada. A tripulação deu vivas ao vê-la ser colocada num saco de lona, e o corpo de William foi deixado amontoado no convés.

A Bernice foi solta dos cabos que a prendiam, deixada para trás para sacolejar sozinha no mar enquanto o navio pirata seguia para a costa da Inglaterra.