Pássaro da Tempestade

Conn Iggulden · Capítulo 32 de 43

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Pássaro da Tempestade

Capítulo 25

 

— Os portões de Londres ficam fechados à noite, Jack — avisou Thomas, apontando o chão. Os dois homens estavam sozinhos no andar de cima de uma estalagem na cidade de Southwark, diante da capital, do outro lado do rio. Com um tapete puxado para revelar as antigas tábuas do assoalho, Thomas rabiscara um mapa improvisado, marcando o Tâmisa e a linha das muralhas romanas que cercavam o coração da antiga cidade.

— O que, todos eles? — perguntou Jack. Nunca fora à capital e ainda estava convencido de que Woodchurch só podia estar exagerando. Aquela história de 60 ou 80 mil pessoas parecia impossível, e agora devia acreditar que havia portões imensos em toda a volta?

— É para isso que servem os portões das cidades, Jack; portanto, sim. Seja como for, se queremos chegar à Torre, ela fica dentro da muralha. Cripplegate e Moorgate estão fora; teríamos de marchar para contornar a cidade, e os aldeões de lá sairiam correndo para buscar os soldados do rei enquanto isso. Aldgate a leste, está vendo aqui? Esse tem guarnição própria. Eu costumava percorrer aquelas ruas quando estava cortejando Joan. Poderíamos atravessar o rio Fleet a oeste, talvez, e entrar pela catedral; mas não importa, por onde formos entrar, teremos de atravessar o Tâmisa... e só há uma única ponte.

Jack franziu a testa para os arranhões no chão, tentando entender.

— Não gosto muito da ideia de atacar por uma estrada que eles sabem que teremos de usar, Tom. Você havia falado em barcas. Que tal usar algumas, talvez mais abaixo, onde é mais tranquilo?

— Para dez homens, seria a solução. Mas quantos você tem desde Blackheath?

Cade deu de ombros.

— Eles não param de chegar, Tom! Mas são homens de Essex, até alguns de Londres. Oito ou nove mil, talvez? Ninguém está contando.

— Gente demais para transportar de barca, de qualquer modo. Não há barcos suficientes e demoraria tempo demais. Precisamos entrar e sair antes de o sol nascer. Quero dizer, se você quiser viver até ficar velho. É claro que ainda há a possibilidade de o rei e seus lordes responderem nossa petição, não acha?

Os dois se entreolharam e riram com ceticismo, levantando as taças que seguravam num brinde silencioso aos inimigos. Ao desejo de Thomas, Jack permitira que uma lista de reivindicações fosse levada ao Guildhall de Londres em nome do “capitão da grande congregação de Kent”. Alguns homens tinham sugerido virgens e coroas para uso pessoal, é claro, mas a discussão acabou se concentrando em reclamações genuínas. Todos estavam cansados dos altos impostos e das leis cruéis que só se aplicavam aos que não podiam pagar para se livrar delas. A petição que mandaram ao prefeito de Londres e a seus conselheiros mudaria o reino se o rei concordasse. Nem Jack nem Thomas esperavam que o rei Henrique sequer a visse.

— Eles não vão nos responder — declarou Thomas. — Não sem atrapalhar o interesse de todos os que aceitam propinas e mantêm as famílias comuns sob suas botas. Não têm interesse em nos tratar com justiça, portanto, temos de enfiar o bom senso na cabeça deles. Olhe aqui: a Torre fica perto da Ponte de Londres, no máximo 800 metros. Se usarmos outra rota para entrar, teremos de encontrar o caminho num labirinto de ruas que nem os moradores conhecem direito. Você pediu meu conselho e aí está. Saímos de Southwark e atravessamos a ponte próximo ao pôr do sol; depois vamos para leste, rumo à Torre, antes que os homens do rei sequer saibam que estamos entre eles. Teremos de cortar algumas cabeças pelo caminho, mas, se não pararmos, não haverá soldados suficientes em Londres para nos deter. Desde que não fiquemos amontoados num espaço pequeno, Jack.

— Porém é mais gente do que nunca vi — murmurou Jack com desconforto. Ainda não conseguia imaginar um número tão imenso de homens, mulheres e crianças, todos amontoados nas ruas imundas. — Parece que seriam capazes de nos deter apenas se dando as mãos e ficando parados.

Thomas Woodchurch riu ao imaginar a cena.

— Talvez conseguissem, mas não vão. Você ouviu seus batedores. Se metade daquilo é verdade, os londrinos estão tão irritados com o rei e os seus lordes quanto nós. Mal conseguem se mexer nem cagar sem que um gordo imbecil cobre uma multa que vai para seu bolso ou para o bolso do lorde que o emprega. Se puder impedir que seus homens saqueiem, Jack, eles nos darão boas-vindas e vivas por todo o caminho.

Ele viu o grandalhão de Kent encarar o mapa, os olhos orlados de vermelho. Cade bebia muito toda noite, e Thomas desconfiava que ele teria ficado em Blackheath ou nos limites de Kent até o Dia do Juízo Final. Cade era muito bom em lutas corpo a corpo contra meirinhos ou homens do xerife, mas se vira perdido ante a tarefa de tomar Londres. Havia recorrido a Woodchurch como um afogado, pronto a escutar. Depois de todo o azar que tivera, Thomas sentia que lhe deviam um pouco de sorte. Para variar, sentia que estava no lugar certo, na hora certa.

— Você acha que conseguimos? — murmurou Jack, a voz arrastada. — Há muitos homens esperando que eu os mantenha vivos, Tom. Não quero ver todos eles mortos. Não estou nisso para fracassar.

— Não fracassaremos — declarou Woodchurch baixinho. — O reino pegou em armas por uma razão. Esse nosso rei é um idiota covarde. Já perdi o bastante para ele, você também... e todos os homens que estão conosco. Aguentarão quando for preciso; você já demonstrou isso. Aguentarão e andarão até a Torre de Londres.

Jack balançou a cabeça.

— É uma fortaleza, Tom — retrucou Cade, sem erguer os olhos. — Não podemos estar do lado de fora quando os soldados do rei nos alcançarem.

— Há portões lá, e temos homens com machados e martelos. Não diria que vai ser fácil, mas você tem 8 ou 9 mil ingleses e, com tudo isso, pouca coisa resistiria muito tempo contra nós.

— A maioria deles é de Kent, Tom Woodchurch — disse Jack, os olhos cintilantes.

— Melhor ainda, Jack. Melhor ainda. — Ele deu uma leve risada quando Cade lhe deu um tapa nas costas, fazendo-o cambalear.

O sol nascia quando os dois homens saíram da estalagem e pararam à porta ofuscados pela claridade. O bando de Homens Livres tinha atacado todas as fazendas e aldeias num raio de 8 quilômetros, e muitos estavam caídos no chão, num estupor desacordado, por causa dos barris de vinho ou aguardente roubados. Jack cutucou um homem com o pé e o observou amolecer, gemendo sem acordar. O homem segurava um grande presunto, abraçado com ele como uma amante. Tinham marchado muito nos dias anteriores, e Jack não relutara em lhes dar a oportunidade de descansar.

— Tudo bem, Tom — concedeu ele. — Hoje os homens podem recuperar as energias. Eu mesmo acho que vou dormir um pouco. Hoje entraremos pela ponte.

Thomas Woodchurch olhou para o norte, imaginando os fogos matutinos de Londres sendo acesos, criando sua fumaça engordurada e os cheiros da juventude de que se lembrava tão vivamente. A esposa voltara ao lar da família com as filhas, e ele se perguntou se elas sequer saberiam que ele e Rowan estavam vivos. A lembrança de suas mulheres o fez franzir o cenho quando um pensamento súbito lhe veio à mente.

— Você terá de dizer aos homens que não haverá estupro nem saques, Jack. Sem bebida também, até acabar e estarmos aqui a salvo de volta. Se virarmos o povo contra nós, nunca sairemos da cidade.

— Direi a eles — aceitou Jack com azedume, olhando-o com raiva.

Thomas percebeu que praticamente dera uma ordem ao grandalhão, e continuou a falar para aliviar o momento de tensão.

— Eles vão lhe dar ouvidos, Jack. Foi você que trouxe todos até aqui, cada um deles. Eles o seguirão.

— Vá dormir, Woodchurch — respondeu Jack. — Será uma noite movimentada para nós dois.

Derry Brewer estava de péssimo humor. Com as botas estalando no assoalho de madeira, andava de um lado para o outro na sala acima da comporta da Torre, olhando para o Tâmisa que corria em cinza escuro. Margarida o observava de um banco, as mãos cruzadas com força no colo.

— Não estou dizendo que chegarão mais perto de onde estão agora, milady, mas há um exército nos arredores de Londres, e a cidade inteira está apavorada ou querendo se unir a ele. Tenho lorde Scales e lorde Grey atrás de mim todos os dias querendo mandar soldados reais para dispersar os homens de Cade, como se fossem todos camponeses que correriam ao avistar alguns cavalos.

— Não são camponeses, Derihew? — perguntou ela, usando meio sem jeito seu nome de batismo. Desde que foram forçados a se unir como aliados, ela pedira a Derry que a chamasse de Margarida, mas ele ainda resistia. Ela ergueu os olhos quando ele parou e se virou, sem saber se o espião-mor via força ou fraqueza.

— Milady, tenho homens passeando neste momento pelo acampamento deles. Aquele tolo do Cade não sabe nada sobre guardas e senhas. Naquela multidão alcoolizada, qualquer um pode entrar e sair quando quiser, e, sim, a maioria deles é de trabalhadores, aprendizes, homens rijos. Mas há cavalheiros lá também, com amigos em Londres. Há vozes gritando apoio por toda parte, e farejo moedas de York por trás delas. — Ele soltou o ar e esfregou a ponte do nariz. — E conheci Jack Cade quando ele era apenas mais um grande... hum... demônio, nas fileiras contra os franceses. Soube que certa vez chegou a lutar pelos franceses, quando pagaram melhor que nós. Há raiva suficiente nele para deixar Londres queimar até as cinzas, milady, se tiver oportunidade.

Ele parou de falar, pensando se deveria pedir a um de seus espiões que enfiasse uma adaga no olho de Cade. Significaria a morte do homem, é claro, mas Derry tinha as moedas do rei a sua disposição. Poderia pagar a uma viúva com filhos uma fortuna, ao menos o suficiente para a oferta ser tentadora.

— Não importa quem sejam ou por que se reuniram, há uma boa horda deles, milady, todos berrando e fazendo discursos e incentivando uns aos outros. Com uma fagulha, Londres poderia ser saqueada. Eu ficaria mais feliz se não tivesse de planejar a segurança do rei, além de tudo mais. Se ele estivesse fora da cidade, eu poderia agir com mais liberdade.

Margarida baixou os olhos para não ser pega fitando o espião-mor do marido. Não confiava completamente em Derry Brewer nem o entendia. Sabia que ficara a seu lado no caso do destino de William de la Pole, mas tinham se passado semanas desde que um corpo sem cabeça dera na praia com mais uma dúzia, em Dover. Ela fechou os olhos rapidamente, com uma pontada de dor pelo amigo. Uma das mãos se fechou sobre a outra.

Confiasse ou não em Derry Brewer, sabia que tinha poucos aliados na corte. As revoltas pareciam se disseminar, e aqueles lordes que apoiavam o duque de York não se esforçavam muito para reprimi-las. Era bom para sua facção ter o reino em armas, rugindo seu descontentamento. Ela aprendera a odiar Ricardo de York, porém o ódio não o desviaria da rota. Acima de tudo, Londres e seu marido precisavam ficar a salvo.

Quando Derry voltou a se virar para a janela, ela passou a mão de leve sobre o ventre, rezando para ter vida lá dentro. Parecia que Henrique não se lembrava da primeira intimidade furtada, de tão drogado e doente que estava na ocasião. Ela havia sido ousada o suficiente para procurá-lo meia dúzia de vezes desde então, e era verdade que seu fluxo estava atrasado naquele mês. Tentou não alimentar muitas esperanças.

— Milady? Não está se sentindo bem?

Os olhos de Margarida se abriram e ela corou, sem saber que isso a deixava bela. Desviou-os do olhar penetrante de Derry.

— Estou um pouco cansada, só isso, Derry. Sei que meu marido não quer sair de Londres. Diz que tem de ficar para envergonhá-los pela traição.

— Seja o que for que ele queira, milady, não vai ajudá-lo se milhares de homens dilacerarem Londres. Não posso dizer com certeza que Sua Alteza esteja em segurança aqui; a senhora me entende? York tem seus lançadores de boato cochichando em tantos ouvidos quanto eu... e uma bolsa cheia para subornar homens fracos. Se o exército de Cade entrar, será fácil demais encenar um ataque ao rei e muito difícil protegê-lo com a cidade sitiada.

Derry se aproximou, e sua mão se levantou um instante como se fosse pegar as dela. A rainha recuou, pensando melhor.

— Por favor, Vossa Alteza. Pedi para vê-la por essa razão. O rei Henrique tem um castelo em Kenilworth, a menos de 130 quilômetros de Londres, com boas estradas. Se estiver em condições de viajar, chegaria lá em poucos dias de carruagem. Eu saberia que meu rei está a salvo e seria menos um fardo na hora de derrotar a ralé de Cade. — Ele hesitou e voltou a falar, a voz mais baixa. — Margarida, a senhora deveria ir com ele. Temos soldados leais, mas, com Cade tão perto, o próprio povo está pilhando e destruindo. Estão fechando ruas e multidões se acumulam pela cidade inteira. A entrada de Cade será o momento crítico, a fagulha. Poderia acabar mal para nós, e não duvido que os partidários de York marcaram a senhora também. Afinal de contas, seus bons e leais membros do Parlamento tornaram York herdeiro real “em caso de infortúnio”. — Derry quase cuspiu as palavras do decreto. — Seria loucura provocar exatamente o que eles querem. Ficar é pôr a faca no próprio peito.

Margarida observou com firmeza os olhos do outro enquanto ele falava, perguntando-se mais uma vez até onde confiaria naquele homem. Que vantagem teria ele com o rei e a rainha longe de Londres, além de suas declarações e da redução do medo? Nisso ela já sabia que Derry Brewer não era um homem simples. Raramente havia uma só razão para que fizesse qualquer coisa. Mas ela vira seu pesar e fúria quando soubera do assassinato de William. Derry sumira por dois dias, bebendo até cair nas tabernas de Londres, uma atrás da outra. Isso havia sido bastante real. Ela tomou sua decisão.

— Muito bem, Derry. Pedirei a meu marido que vá para Kenilworth. Eu ficarei em Londres.

— A senhora ficará mais segura lá — avisou ele imediatamente.

Margarida não se abalou.

— Não há nenhum lugar seguro para mim, Derry, não na presente situação. Não sou mais criança para que me escondam a verdade. Não estou em segurança enquanto outros homens cobiçam o trono de meu marido. Não estou em segurança com meu ventre vazio! Ora, que se dane tudo! Ficarei aqui e observarei os lordes e os soldados de meu marido defenderem a capital. Quem sabe você pode precisar de mim antes do fim.

Cade jogou os ombros para trás, olhando a hoste de homens que se estendia bem além da luz das tochas crepitantes. Sentia-se forte, embora a garganta estivesse seca, e viu que gostaria de mais um gole para aquecer a barriga. O crepúsculo do verão desbotara devagar, mas por fim a escuridão chegava sobre eles, e um exército aguardava sua palavra. Deus sabia que ele lutara com forças menores contra os franceses! Olhou em volta com espanto, mais sentindo do que vendo o número extraordinário de homens que havia reunido. Sabia que pelo menos metade viera atrás dele depois de sofrer alguma injustiça. Ouvira cem histórias repletas de ira, talvez mais. Homens que tinham perdido tudo na França ou tiveram a vida e a família destruídas por alguma decisão dos tribunais. Depois que tudo lhes foi tirado, foram todos seguir Jack Cade.

Os poucos milhares de homens vindos de Kent quase foram engolidos pela massa de retardatários de Essex e da própria Londres. Cade balançou a cabeça admirado. Havia dezenas ali que haviam morado no interior das muralhas de Londres, porém se dispunham a marchar com espada e podões contra a própria cidade. Não os entendia, mas, ora bolas, não eram homens de Kent, então nem tentou entendê-los.

Seus lugares-tenentes tinham passado o dia inteiro ocupados, anotando nomes e preparando o exército para marchar. Nas semanas anteriores, os recém-chegados vieram em tamanho número que o máximo que conseguira fazer fora designá-los para oficiais específicos e deixar que arranjassem armas. Paddy parecia gostar do trabalho, e Jack achou que ele teria sido um bom oficial do exército real. Com Ecclestone e Woodchurch, trabalhara para pôr alguma ordem na massa de homens, principalmente aqueles que não possuíam treinamento nenhum. A vasta maioria levava nas mãos algum tipo de ferro, e só havia um modo de usá-lo. Jack não fazia ideia de como se comportariam contra soldados reais com cota de malha e armadura, mas pelo menos as ruas estreitas de Londres impediriam a ameaça de ataques de cavalaria. Seus homens andavam, soldados de infantaria, mas esse era o tipo de exército que dominava, e não se preocupava muito com a falta de montarias.

À esquerda, conseguia ver Tanter, o escocezinho, no enorme cavalo de puxar arado que lhe tinham dado. Jack achou que o homem parecia uma mosca pousada num boi, com as pernas enfiadas para dentro. Tanter observava um par de tordos que subia e dardejava no céu vazio da noite. O ar já estava espesso, e um bando de nuvens escuras se amontoava a oeste. De repente, Cade se lembrou da mãe lhe dizendo que os tordos eram as últimas aves no céu antes de uma grande tempestade. O pessoal do campo as via voarem sozinhas no vento e sabia que uma tempestade estava a caminho. Jack sorriu com a lembrança. Ele estava levando a tempestade à cidade naquela noite, andando com ela a sua volta no rosto e no ferro frio de homens com raiva.

Uma dúzia dos maiores rapazes de Kent estava perto de Cade, sorrindo como lobos à luz das tochas sustentadas em suas mãos no alto. Formavam um anel de luz em torno dele, para que todos pudessem ver seu líder, além da bandeira de Kent que seguiam. Jack olhou o menino que segurava a estaca, apenas um da centena de rapazes que recolhera pelo caminho. Alguns eram filhos dos homens; outros, apenas órfãos que seguiam em seu caminho, brigando por restos de comida e fitando com olhos arregalados adultos que pareciam ferozes com suas lâminas e ferramentas.

Jack viu que o menino o observava e pestanejou.

— Como se chama, rapaz?

— Jonas, capitão — respondeu o menino, espantado porque Cade havia falado com ele.

— Pois levante isso aí, Jonas — pediu Jack. — Com as duas mãos e firme, rapaz. É um bom símbolo de Kent... e um aviso.

Jonas se endireitou, erguendo a estaca como um estandarte. Faltava ao menino a força para mantê-la firme, e ela balançava à luz dourada sob o peso do escudo com o cavalo branco e a cabeça do xerife.

— Mantenha isso no alto enquanto marchamos. Os homens precisam vê-la e saber onde estou, tudo bem?

— Sim, capitão — acatou Jonas com orgulho, mirando, concentrado, a ponta oscilante acima dele.

— Pronto, capitão! — berrou Paddy a sua direita.

— Pronto, Jack! — gritou Woodchurch, mais atrás.

Cade sorriu enquanto os gritos ecoavam a sua volta, até serem centenas e depois milhares se repetindo num grunhido sonoro. Estavam prontos.

Jack encheu o peito para dar a ordem de marchar, mas viu um sujeito empurrar as fileiras em sua direção e esperou para ver o que ele queria. Cabeças se viraram para acompanhar o homem que grunhia e se esgueirava até chegar ofegante ao lado de Jack. Era um homem miúdo de pele amarelada, os braços finos e as faces encovadas que só décadas de pobreza produziriam. Jack acenou para que se aproximasse.

— O que foi? Perdeu a coragem? — perguntou, suavizando o tom de voz ao ver a preocupação e o medo escritos em cada ruga do homem.

— Eu... Eu sinto muito, Jack — disse o homem quase gaguejando. Ele olhou os homens furiosos armados com machados e, rapidamente, a bandeira de Kent. Para surpresa de Jack, fez o sinal da cruz, como se visse uma relíquia sagrada.

— Eu o conheço, meu filho? — indagou Jack, confuso. — O que o trouxe a mim?

Cade se inclinava mais para perto, para ouvir a resposta, quando o homem se lançou em seu pescoço, uma adaga na mão. Praguejando, Jack o afastou com o braço erguido, sibilando de dor quando a lâmina lhe cortou as costas da mão. A faca voou da mão do homem, tilintando contra metal e sumindo. Jack trincou os dentes e estendeu ambas as mãos, agarrando a cabeça do sujeito e torcendo com força. O homem guinchou e se debateu até que um estalo soou e ele amoleceu. Jack deixou o corpo cair frouxo no chão.

— Vai se foder, rapaz, quem quer que seja — rosnou ele ao cadáver.

Descobriu que respirava com força ao erguer os olhos para o rosto em choque dos homens em volta.

— Então? Acham que não temos inimigos? Londres é astuta, não se esqueçam disso. Não importa o que lhe prometeram; ainda estou em pé e ele, não.

Num súbito alvoroço, Cade deu meia-volta, convencido de que estava prestes a ser atacado de novo. Viu Ecclestone abrir caminho pela multidão, com a navalha erguida, pronta para matar. Jack o encarou, erguendo os ombros agressivamente. A fúria o enchia de força.

— Você também? — grunhiu, preparando-se.

Ecclestone baixou os olhos para o corpo, depois os ergueu para os olhos de Jack.

— O quê? Por Cristo, não, Jack! Eu estava seguindo esse aí. Ele parecia nervoso e tentava se aproximar cada vez mais de você.

Jack observou o amigo dobrar a lâmina estreita e fazê-la sumir.

— Então você se atrasou um pouco, não é?

Ecclestone, meio sem graça, apontou o sangue que pingava das mãos de Jack.

— Ele cortou você?

— Não foi nada.

— Vou ficar por perto, Jack, se não se importa. A gente não conhece nem metade dos homens agora. Pode haver outros.

Jack fez um gesto de desdém, o bom humor já retornando.

— Eles já lançaram seu dardo, mas fique, se quiser. Prontos, rapazes?

Os homens em torno dele ainda estavam pálidos e chocados com o que tinham visto, mas murmuraram que sim.

— Cuidem de minha retaguarda enquanto marchamos, se quiserem — disse Jack. — Vou para Londres. Eles sabem que estamos chegando e estão com medo. É assim que deve ser. Erga esse estandarte bem alto, Jonas! Como já lhe disse! Que nos vejam chegar.

Eles deram vivas quando partiram, milhares de homens andando na escuridão rumo à capital. Gotas grossas de chuva quente de verão começaram a cair, fazendo as tochas chiarem e oscilarem. Os homens conversavam e riam ao avançar, como se passeassem rumo a um mercado ou a um dia de feira.

Cripplegate estava aberto, iluminado por braseiros sobre mastros de ferro. A carruagem do rei estava fechada contra o frio, com Henrique bem enrolado no interior. Em torno do rei, sessenta cavaleiros montados o escoltavam para o norte, retirando-o da capital. Henrique olhava o portão iluminado, tentando se virar no assento para vê-lo se fechar atrás de si. A antiga muralha romana se estendia em ambas as direções, cercando sua cidade e sua esposa. As mãos tremiam, e ele balançou a cabeça confuso, procurando a porta e abrindo-a pela metade. O movimento provocou a atenção instantânea de lorde Grey, que fez o cavalo se virar para a carruagem do rei.

Henrique organizou os pensamentos, sentindo o processo como se agarrasse fios soltos. Recordou ter falado com Margarida, pedindo-lhe que fosse com ele para Kenilworth, onde ficaria a salvo. Mas ela não estava ali. Dissera que mestre Brewer lhe havia pedido que ficasse.

— Onde está minha esposa, lorde Grey? — quis saber. — Ela vai demorar?

Para surpresa de Henrique, o homem não respondeu. Lorde Grey corou ao apear e ir até a lateral da carruagem. Henrique, confuso, piscou.

— Lorde Grey? O senhor me escutou? Onde está minha esposa Margarida...?

Ele se interrompeu, tendo a sensação repentina de já ter feito aquela pergunta muitas vezes. Sabia que sonhara por algum tempo. Os frascos do médico faziam coisas falsas parecerem reais e deixava os sonhos tão vívidos quanto a realidade. Ele não sabia mais distingui-los. Henrique sentiu uma leve pressão na porta da carruagem quando lorde Grey a empurrou, desviando o olhar ao mesmo tempo para não ver os olhos arregalados e a expressão de pesar de seu rei.

A porta se fechou com um clique suave, deixando Henrique espiando pelo pequeno quadrado de vidro. Quando a respiração o enevoou, o rei o esfregou a tempo de ver Grey balançar a cabeça para um dos cavaleiros.

— Temo que o rei esteja indisposto, Sir Rolfe, sem o domínio da mente.

O cavaleiro pareceu pouco à vontade ao dar uma olhada no rosto pálido que o observava. Ele baixou a cabeça.

— Compreendo, milorde.

— Assim espero. Não seria sábio de sua parte sugerir que fechei a porta para meu soberano, Sir Rolfe. Se é que nos entendemos...

— É claro, lorde Grey, é claro. Não vi nada digno de nota.

— Muito bem. Cocheiro! Em frente.

Um longo chicote estalou no ar e a carruagem voltou a se mover, balançando e se sacudindo na estrada esburacada. Enquanto ela avançava, o vento soprou mais forte e começou a chover, as gotas pesadas tamborilando no teto da carruagem e no chão empoeirado.