Pássaro da Tempestade

Conn Iggulden · Capítulo 17 de 43

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Pássaro da Tempestade

Capítulo 11

 

Com peles quentes nas mãos e perfeitamente aconchegadas ao pescoço, Margarida entrou nos jardins cobertos de gelo. Wetherby House era seu primeiro lar na Inglaterra, onde passara quase três meses. As árvores ainda estavam nuas e austeras, mas havia fura-neves crescendo em torno das raízes e a primavera estava a caminho. Quase podia ser a França, e andar pelas vias reduzia um pouco as saudades de casa.

Todas as fazendas locais matavam porcos e salgavam a carne. Margarida sentia o cheiro da fumaça e sabia que os animais mortos estavam sendo cobertos de palha, incendiada para queimar as cerdas. O odor amargo trouxe de repente uma lembrança tão viva que ela parou e fitou. A boca recordou o sabor da vez em que a mãe deixara os cavalariços misturarem sangue fresco com açúcar até virar uma pasta, quase uma espuma. A irmã Iolanda e os irmãos tinham dividido um prato da deliciosa iguaria, brigando pela colher até que ela caiu no chão empoeirado, e depois enfiando os dedos até a pele e os dentes ficarem manchados de vermelho.

Margarida sentiu os olhos arderem de lágrimas. Saumur ficaria mais silencioso sem ela naquele verão. Era difícil não sentir saudade das sardinhas recheadas ou do frango com funcho que a mãe fazia quando lhe apresentavam um belo joelho de porco, consistente como uma pedra, num mar de ervilhas e creme de leite espesso. Parecia que os ingleses só gostavam de comida fervida. Era mais uma coisa com que se acostumar.

Lorde William era um consolo, quase o único rosto conhecido desde que partira de casa. Ajudara-a a melhorar o inglês, embora pudesse conversar em bom francês quando queria ou quando tinha de explicar alguma palavra. Mas ficava ausente a maior parte do tempo e só ia a casa em longos intervalos com mais notícias do casamento.

Foi um estranho hiato na vida de Margarida, enquanto grandes homens e mulheres organizavam seu segundo casamento. Quando desembarcara no litoral sul, perto do Castelo de Portchester, torcera para que Henrique fosse encontrá-la. Tivera uma visão com um rei jovem e belo cavalgando de Londres até as grandiosas ruínas, chegando talvez naquela primeira noite para tomá-la nos braços. Em vez disso, fora levada para Wetherby e, aparentemente, esquecida. Os dias e as semanas se esvaíam sem sinal do rei, apenas Suffolk ou o amigo dele, o conde Somerset, um homem baixo e peludo que fizera uma reverência tão demorada que ela temeu que nunca mais conseguisse se levantar. Sorriu ao se lembrar. Antes que Somerset chegasse, Derry Brewer o descrevera como “um galinho nobre e correto”. Ela ouvira isso com prazer, e o divertimento se aprofundou quando conheceu o conde e o viu vestido com tons vivos de amarelo e azul. Gostava dos três homens por razões diferentes. Derry era encantador e polido e lhe passara um saco de doces minúsculos quando William não estava olhando. Ela se sentira a meio caminho entre se ofender por ser tratada como criança e se deliciar com as gotinhas azedas de limão que faziam a boca se franzir ao serem chupadas.

O Natal viera e se fora, com presentes estranhos e extravagantes chegando com seu nome, enviados por uma centena de nobres desconhecidos, todos aproveitando a oportunidade para se apresentar. Com William como seu consorte e acompanhante, Margarida havia ido a um baile que ainda recordava num redemoinho de dança e sidra de maçã picante. Ela esperara encontrar o marido por lá, a mente repleta de histórias românticas em que o rei apareceria e todos os convivas se calariam. Mas Henrique não fora. A jovem começava a se perguntar se algum dia ele apareceria.

Ela ergueu os olhos ao ouvir o som de uma carruagem que esmagava os seixos do caminho do outro lado da casa. William estava fora naquele dia, e Margarida se encheu de temor de que fosse outra nobre inglesa indo inspecioná-la ou barganhar favores que, claramente, achava que ela poderia conceder. Já participara de encontros tensos com esposas de condes e barões, beliscando bolo de sementes mergulhado em vinho temperado e torcendo para achar algo a dizer em resposta a suas perguntas. A duquesa Cecily de York fora a pior de todas, uma mulher tão alta e segura de si que fez Margarida se sentir uma criança grudenta. O inglês de Margarida ainda não era fluente, e a duquesa declarou não saber francês; assim, fora uma das tardes mais difíceis de sua vida, com muito mais silêncio que conversa.

— Vou adoecer de novo — murmurou Margarida consigo mesma ao pensar em outro encontro como aquele. — Ficarei... indisposta.

Na verdade, ela ficara doente de verdade por algum tempo depois de chegar. A comida estranha e pesada, talvez, ou apenas a mudança de ares lhe tinha causado vômitos incontroláveis, e médicos a proibiram de sair da cama durante quase 15 dias. Margarida achara, então, que o tédio intenso a mataria, mas aqueles dias de tranquilidade tinham se transformado numa lembrança estranhamente feliz, já quase esquecida.

Ela possuía uma vaga ideia de que rainhas deveriam apoiar os maridos, lisonjeando e bajulando seus partidários, mas, se Cecily de York fosse o padrão, não seria uma tarefa fácil de aprender. Margarida recordou o cheiro seco e azedo da mulher e tremeu.

Ela ergueu os olhos quando uma voz aguda chamou seu nome a distância. Meu Deus, procuravam por ela de novo! Podia ver os criados se deslocando na casa e correu além dos caminhos do jardim para se ocultar das janelas. William disse que o casamento seria dali a poucos dias. Quando havia ido lhe contar, ele estava com o rosto vermelho e alegre, a grande juba de cabelos escuros e grisalhos escovada e brilhante. Quando voltasse, ela iria para a Abadia de Titchfield, a menos de 16 quilômetros. Henrique finalmente estaria lá, esperando por ela. Margarida gostaria de visualizar o rosto do jovem rei quando imaginava a cena. Em sua cabeça, casara-se com ele mil vezes, com cada detalhe bem vivo, a não ser aquele.

— Margarida! — chamou alguém.

Ela ergueu os olhos, subitamente mais alerta. Quando a voz chamou de novo, Margarida sentiu no peito um grande palpitar de empolgação. Juntou as saias e correu de volta na direção da casa.

A irmã Iolanda estava em pé à porta do jardim, olhando para fora. Quando avistou Margarida, o rosto se iluminou, e ela também correu. As duas se abraçaram no jardim gelado, a grama branca em volta. Iolanda despejou uma torrente rápida de francês, dando pulinhos enquanto segurava a irmã mais nova.

— Que alegria vê-la de novo! Você está mais alta, juro, e há rosas em seu rosto. Acho que estar na Inglaterra combina com você!

Como não havia sinal de a conversa chegar ao fim, Margarida pôs a mão na boca da irmã, fazendo ambas rirem.

— Por que está aqui, Iolanda? Estou muito feliz de vê-la. Mal consigo respirar por causa disso, mas como você veio? Você tem de me contar tudo.

— Para seu casamento, Margarida, é claro! Por algum tempo, achei que o perderíamos, mas mesmo assim estou aqui. Seu lorde William me mandou o mais lindo convite em Saumur. Papai fez objeção, é claro, mas se distraiu com alguma nova viagem que está planejando. Nossa querida mãe disse que a família tinha de ser representada e ela prevaleceu, abençoado seja seu santo coração. Seu amigo inglês mandou um navio me buscar, como eu ou você mandaríamos uma carruagem. Ah! E não estou sozinha! Frederick veio comigo. Ele está deixando crescer um par de costeletas ridículas. Você tem de lhe dizer que são horríveis, porque elas me pinicam e não quero que ele as use.

Margarida olhou para longe, percebendo de repente a estranheza da situação. Ela se casara meses antes da irmã, mas ainda nem vira o marido. Com um jeito meio envergonhado, olhou Iolanda com mais atenção.

— Você parece estar... desabrochando, irmã. Está grávida?

Iolanda corou.

— Assim espero! Temos tentado, e, ah, Margarida, é maravilhoso! A primeira vez foi um pouco desagradável, mas não pior que uma picada de abelha, talvez. Depois disso, bem...

— Iolanda! — repreendeu Margarida, corando quase tanto quanto a irmã. — Não quero ouvir. — Ela parou para pensar melhor, percebendo que queria, sim, ouvir, queria muito. — Tudo bem, tenho certeza de que Frederick logo virá procurar você. Conte tudo para que eu saiba o que esperar. O que quer dizer com “um pouco desagradável”?

Iolanda deu uma risadinha rouca ao dar o braço à irmã mais nova e levá-la pelo caminho que se afastava da casa.

Tudo era diferente, mas, ainda assim, tudo era igual. A sensação de déjà-vu foi intensa quando Margarida ocupou seu lugar na carruagem com o vestido de noiva que usara em Tours. Pelo menos fazia frio, uma bênção num vestido que a esmagava.

Iolanda sentou-se à frente da irmã. Aos olhos de Margarida, ela parecia mais adulta, como se o casamento operasse alguma estranha alquimia, ou talvez porque agora Iolanda fosse uma condessa por direito. O marido Frederick sentou-se no banco, parecendo severo na túnica escura e com a espada sobre os joelhos. Margarida notou que ainda usava as costeletas, que iam das orelhas até a linha do queixo. Ele dissera que as do pai eram muito admiradas em sua paróquia, e Margarida se perguntou se a irmã um dia conseguiria fazer com que as raspasse. Mas sua austeridade desbotava quando olhava para Iolanda. A afeição entre os dois ficou tocante e óbvia quando entrelaçaram as mãos e balançaram junto do coche nas estradas cheias de buracos.

A manhã passara num alvoroço de empolgação, com William indo e voltando da abadia em seu cavalo para cuidar dos últimos detalhes e depois se banhando e vestindo roupas limpas num dos quartos de cima. Margarida já fora apresentada a uma dezena de homens e mulheres que não conhecia, enquanto os convidados do casamento enchiam Wetherby House, rindo e conversando o tempo todo. Sua condição era uma questão delicada na hora de conhecer nobres e esposas. Ainda sem ser rainha, Margarida fizera uma reverência para a duquesa de York, como faria a qualquer uma da geração de sua mãe. Talvez fosse apenas imaginação sua o desdém de Cecily de York ao elogiar o vestido da noiva. Lorde York foi meticulosamente bem-educado e se curvara diante dela, dizendo ter muito prazer de encontrá-la em seu segundo casamento, tanto quanto no primeiro. A esposa murmurara algumas palavras que Margarida não entendeu direito, mas viu que fizeram York sorrir quando ele se curvou sobre a mão dela para beijá-la. Algo na diversão particular deles a irritara.

Com esforço, ela pôs de lado esses pensamentos. Conheceria o marido naquele dia. Veria seu rosto. Enquanto a carruagem balançava de um lado para o outro, rezava em silêncio para ele não ser feio nem deformado. William lhe jurara que Henrique tinha boa aparência, mas Margarida sabia que ele não poderia dizer outra coisa. Medo e esperança se misturavam em quantidades iguais, e ela só podia observar as sebes passarem e os corvos negros voarem. A testa coçava onde as criadas tinham lhe puxado os cabelos para trás, mas ela não ousava pôr a mão para não deixar marcas no pó branco, e mordeu o lábio para conter a irritação. Tinham entrelaçado flores em seus cabelos, e o rosto parecia rígido com toda a maquiagem e os perfumes aplicados desde que se banhara ao amanhecer. Tentava não respirar com força demais contra os painéis apertados do vestido, caso desmaiasse.

Margarida soube que se aproximavam da Abadia de Santa Maria e de São João Evangelista porque as famílias locais saíram para vê-la passar, reunindo-se na estrada que levava para a vasta fazenda pertencente aos monges. Aprendizes ganharam um dia de folga em sua homenagem, e os moradores da cidade e suas mulheres vestiram as roupas de domingo só para ficar ali à espera da mulher que seria rainha da Inglaterra. Margarida pôde avistar a multidão que acenava e dava vivas antes que a carruagem entrasse por um caminho que percorria quilômetros de florestas e campos escuros.

Os que davam vivas não atravessaram aquela barreira invisível e, quando a estrada chegou num declive, Margarida pôde ver carruagens à frente e atrás, 14 delas viajando juntas para a igreja da abadia mais adiante. Seu coração bateu forte contra o vestido, e ela tocou o peito com a mão sentindo-o disparar. Henrique estaria lá, um rei de 23 anos. Margarida forçou os olhos por cima da irmã e de Frederick para ter um primeiro vislumbre dele. Era inútil, ela sabia. O rei Henrique já estaria no interior, alertado pela visão de carruagens no caminho. Poderia muito bem estar esperando no altar, com William ao lado.

Margarida se sentiu meio zonza e temeu desmaiar antes mesmo de chegar à igreja. Ao ver sua angústia, Iolanda puxou o leque e abanou-a, enquanto Margarida sentava-se mais ereta e respirava de olhos fechados.

A igreja da abadia fazia parte de um complexo de construções muito maior. Naquele dia, os monges não trabalhavam no campo, mas Margarida viu lagos com peixes, jardins murados e vinhedos, além de estábulos e uma dezena de outras estruturas. Viu-se descendo da carruagem com o auxílio de Frederick, que deu a volta correndo para segurar sua mão.

As carruagens à frente tinham se esvaziado e, embora muitos convidados já tivessem entrado, ainda havia uma multidão à porta da igreja, sorrindo e conversando entre si. Ela viu Derry Brewer ao lado do duque de York. Derry lhe acenou quando Margarida avançou com a irmã e um grupo de damas de companhia atrás. Viu-o dizer a York algo que fez a expressão do homem se enrijecer. Quando Margarida se aproximou da porta da igreja, todos entraram na penumbra lá dentro, como gansos tocados por uma pastora, de modo que ela ficou sozinha com a irmã e as damas de companhia.

— É uma bênção você estar aqui, Iolanda — declarou com sinceridade. — Eu não gostaria nada de estar sozinha.

— Ora! Deveria ter sido papai, mas ele está longe, em busca de seus títulos idiotas outra vez. Ele nunca está satisfeito. Meu Frederick diz... Não, hoje isso não importa. Só queria que mamãe estivesse aqui conosco, mas papai insistiu que ela ficasse e administrasse Saumur. Você está nas orações dela, Margarida. Pode ter certeza. Está pronta para conhecer seu rei? Está nervosa?

— Estou... estou, sim. Estou até tonta. Fique comigo enquanto recobro o fôlego, tudo bem? Este vestido é apertado demais.

— Você cresceu desde o verão passado, Margarida, é só isso. Não era apertado demais antes. Vejo seus seios se desenvolverem e juro que você está mais alta. Talvez seja verdade que a carne inglesa lhe faça bem.

Ela piscou ao dizer isso, e Margarida ofegou e balançou a cabeça.

— Mas que deselegância, minha irmã. Fazer esse tipo de piada quando espero para me casar!

— Acho que é a melhor hora — disse Iolanda alegremente. Ela passou a falar inglês com uma faísca nos olhos. — Será que agora você pode bloody hell ir se casar?

— Não é assim que se diz — comentou Margarida, sorrindo. Inspirou de novo, o mais profundamente que pôde, e inclinou a cabeça para os monges em pé à porta. Lá dentro, foles foram bombeados e o aparelho mais complicado do mundo acumulou pressão. Os primeiros acordes soaram pela congregação da igreja e todos se viraram quase em uníssono para ver a noiva entrar.

O barão Jean de Roche era um homem feliz, embora nem mesmo brandy conseguisse afastar o vento frio. A primavera estava chegando, dava para sentir. Ninguém lutava no inverno. Além de ser praticamente impossível alimentar um exército em marcha nos meses frios, era uma época horrível para ir à guerra. As mãos ficavam dormentes, a chuva encharcava tudo e sempre havia a possibilidade de os homens simplesmente se levantarem e sumirem na noite. Ele olhou seu pequeno bando de cavaleiros rufiões e deu um grande sorriso, mostrando a gengiva superior rosada da qual mandara arrancar todos os dentes. Detestava aqueles dentes. Doíam tanto que ele os odiou mesmo quando se foram. O dia em que concordou em mandar o tira-dentes arrancá-los todos havia sido um dos mais felizes de sua vida adulta. A boca cheia de sangue e ter de mergulhar o pão no leite foram um pequeno preço a se pagar para se libertar da agonia. O barão De Roche tinha certeza de que sua vida começara a melhorar a partir daquele dia, como se seus dentes o retardassem com todos os seus venenos e inchaços. Enquanto trotava, sugou o lábio superior, dobrando-o para trás sobre a gengiva e mordendo os pelos do bigode. Mandara arrancar alguns dentes de baixo também, mas só os grandes de trás, que tinham apodrecido. Ainda possuía os inferiores da frente, e aperfeiçoara um sorriso que revelava apenas aquela perfeita fila amarela.

A vida era boa para os homens com dentes saudáveis, pensou, complacente. Estendeu a mão para trás e deu um tapinha nos alforjes atrás do quadril, apreciando como estavam gordos. A vida também era boa para os homens com iniciativa para cavalgar à frente do exército em Maine. De Roche se espantara com o resultado de saquear as casas de Anjou. Parecia que os ingleses só faziam armazenar montes de moedas, como os mercadorezinhos gananciosos que eram. Ele vira cavaleiros enriquecerem num só dia, e os nobres franceses aprenderam depressa que valia a pena revistar as carroças que seguiam para o norte, fugindo deles. As famílias tendiam a levar as posses mais valiosas e deixar o resto. Por que perder tempo desmontando uma casa quando os que sabiam já haviam levado a melhor parte? É claro que os nobres davam ao rei um quinhão do que encontravam, mas esse era exatamente o problema, pelo menos no que dizia respeito a De Roche. Eles podiam se dar a esse luxo. Já eram ricos e ficariam muito mais quando terminassem de recuperar fazendas e cidades inglesas.

Sua expressão azedou quando comparou sua propriedade à deles. Seus homens quase poderiam ser descritos como cavaleiros andantes, se não fosse pelas cores de sua casa. Há um ano apenas, pensara em demiti-los todos antes que passasse a ser chamado de barão errante. Sugou os lábios de novo ante a lembrança amarga. As fazendas da família foram todas liquidadas para pagar dívidas, fatiadas ano a ano até não lhe restar quase nada. Então ele descobriu as cartas, apresentado a elas por um amigo que, havia muito tempo, tivera a garganta cortada. De Roche pensou nos tabuleiros coloridos e se perguntou se haveria alguém em Maine que pudesse ser convencido a jogar com ele. Passara por uma fase de azar, na verdade, mas agora tinha ouro outra vez e sabia que entendia os jogos melhor que a maioria. Com uma pequena mudança na sorte, poderia dobrar o que seus homens tinham ganhado, ou até triplicar. Sorriu, mostrando apenas os dentes de baixo. Compraria de volta o castelo que fora do pai e jogaria o velhote na neve por todo o seu escárnio. Esse seria apenas o começo.

A estrada sob seu pequeno grupo mudara de trilha de terra para pedras encaixadas, sinal que assegurava que quem estava à frente era rico. De Roche deixou a montaria perambular, calculando se valeria a pena correr o risco de entrar numa cidade. Só tinha consigo uma dúzia de homens, suficientes para tirar o que quisessem de uma fazenda solitária ou de uma aldeola. As cidades às vezes conseguiam contratar milícias, e De Roche não tinha a mínima vontade de entrar num combate de verdade. Mas ele não era um criminoso procurado por alguma coisa. Era apenas a vanguarda do vitorioso exército francês. Uns 65 quilômetros à frente, antes que o restante de seus conterrâneos conseguisse obter todas as melhores peças. De Roche tomou uma decisão rápida. Poderia ao menos dar uma olhada nos mercadores ingleses locais, e depois decidiria se criariam problemas demais para seus homens.

— Vamos para a cidade — gritou aos outros. — Daremos uma olhada e, se tudo estiver tranquilo, veremos o que achamos. Se houver uma casa da guarda ou uma milícia, procuraremos uma boa estalagem para passar a noite, como qualquer outro viajante empoeirado.

Os homens estavam cansados depois de mais um dia na estrada, porém conversavam e riam enquanto seus cavalos trotavam. Parte do ouro e da prata iria para eles, e tinham encontrado uma casa de fazenda com três irmãs na noite anterior. De Roche coçou a virilha com a lembrança e torceu para não ter pego chato de novo. Detestava ter a virilha raspada e chamuscada. Fora o primeiro com as irmãs, é claro, como era seu direito. Seus homens passariam meses contando histórias sobre aquele encontro, e ele ria ao ficarem cada vez mais ferozes ao contá-las. De Roche havia insistido em pôr fogo no lugar quando partiram naquela manhã. Testemunhas vivas poderiam lhe causar algumas dificuldades, mas outra casa enegrecida seria ignorada pelo exército que viria a seguir. Deus sabia que eles já tinham incendiado várias.

Ele viu Albert aproximar sua montaria. O velho estava com a família De Roche desde que se lembrava, em geral como capataz e domador de cavalos, embora ele se recordasse de Albert cumprindo algumas missões especiais para seu pai. Não usava armadura, mas trazia um longo facão que era quase uma espada, e, como seu pai, De Roche o achara útil em terreno acidentado.

— O que foi, Albert?

— Uma tia minha morava aqui perto, quando eu era menino. Há um castelo algumas milhas a oeste, com soldados.

— E daí? — indagou De Roche, irritado. Não gostava de ter sua coragem questionada por um criado diante dos homens.

— Peço-lhe perdão, meu senhor. Só achei que o senhor deveria saber que pode ser um pouco mais complicado do que fazendas e mulheres.

De Roche piscou para o velho. Teria sido um insulto? Ele não podia acreditar, mas Albert claramente o olhava com o cenho franzido.

— Terei de lembrar-lhe de que esta pequena viagem não é nada além do que os ingleses receberão do rei e de seu exército? Poderiam ter partido, Albert. Muitos já partiram, na verdade. Os que ficaram são foras da lei, cada homem, mulher e criança. Não! Considerando que se rebelaram contra o desejo de seu próprio rei, são traidores, Albert. Estamos fazendo a obra de Deus.

Enquanto falava, sua tropa passou por um fazendeiro de cabeça baixa. A carroça do homem estava cheia de rutabagas, e alguns homens baixaram a mão e pegaram algumas. O camponês pareceu se zangar, mas sabia que não devia dizer nada. De certa forma, essa visão aplacou o ultraje de De Roche. Ele recordou que Albert não participara com as mulheres na noite anterior e decidiu que o homem realmente o estava criticando.

— Cavalgue na retaguarda, Albert. Não sou mais criança para você ficar apontando dedos.

Albert deu de ombros e puxou o cavalo para o lado para deixar os outros passarem. De Roche se ajeitou, ainda furioso com a insolência do homem. Ali estava um que não se beneficiaria das riquezas de Maine, pensou. Quando voltassem ao exército, o barão jurou que deixaria Albert para trás implorando o que comer, e que se aquecesse com todos os anos que servira à família.

Chegaram aos arredores da cidade com o sol já baixo no oeste, um dia curto de inverno com uma longa noite pela frente antes que o vissem novamente. De Roche estava cansado e suado, embora seu estado de espírito melhorasse ao ver a placa pintada de uma estalagem balançando na brisa. Ele e seus homens entregaram os cavalos aos cavalariços e tiraram a sorte para ver quais ficariam com as montarias enquanto os outros teriam uma boa noite de sono. O barão os levou para dentro, pedindo vinho e comida em altos brados. Não notou o filho do estalajadeiro sair alguns minutos depois, correndo pela rua rumo à cidade como se o diabo em pessoa estivesse em seus calcanhares.