Pássaro da Tempestade
Capítulo 3
A Sala do Corvo estava em silêncio quando Margarida a atravessou descalça. Ela havia passado parte do verão anterior esboçando o piso com carvão na parte de trás de um velho mapa, marcando com cruzes cada junção ou tábua barulhenta. A luz da lareira no salão superior vazava pelo balcão, e ela a atravessou como uma bailarina, dando passos exagerados num padrão que combinava com o que via na memória. As tábuas permaneceram sem ranger, como corvos calados, e Margarida chegou ao balcão em triunfo, virando-se para chamar Iolanda com um gesto.
Iluminada por sombras e ouro cintilante, a irmã demonstrou frustração, mas ela havia captado a mesma empolgação ilícita e se esgueirou pelas tábuas polidas, fazendo caretas com Margarida quando gemiam sob os pés. As duas meninas ficavam imóveis a cada som, mas o pai e o rei não prestavam atenção. O fogo bufava e estalava, e casas velhas sempre faziam barulho à noite. Renato de Anjou não ergueu os olhos quando Iolanda se instalou ao lado da irmã e espiou a cena pela balaustrada ereta de madeira.
O salão superior sobrevivera quase intacto ao desnudamento de Saumur. Talvez por ser o coração e o centro das reuniões da família, suas tapeçarias e a mobília de carvalho foram mantidas a salvo dos homens de Paris. A lareira era grande o suficiente para um homem adulto entrar nela sem baixar a cabeça. Um tronco do tamanho de um pequeno sofá ardia ininterruptamente ali dentro, aquecendo os atiçadores de ferro negro dispostos sobre ele até as pontas brilharem douradas. O rei Carlos estava sentado numa imensa cadeira estofada disposta junto às chamas, enquanto o pai, em pé, remexia em taças e garrafas. Margarida observou fascinada Renato mergulhar um dos atiçadores num cálice de vinho para o rei, soltando um chiado de vapor e adoçando o ar. Ela sentiu o cheiro de cravo e canela, e a boca se contraiu ao imaginar o sabor. Infelizmente, o calor não chegava até seu esconderijo. As pedras do castelo sugavam o calor, principalmente à noite. Margarida tremia ali sentada, as pernas inclinadas para o lado, pronta para se afastar da luz caso o pai erguesse o olhar.
Ambos os homens tinham trocado de roupa, ela percebeu. O pai usava um robe acolchoado sobre calças largas e sapatos de feltro. À luz tremulante, Margarida achou que isso o deixava parecido com um feiticeiro, gesticulando com fogo e vapor atrás das taças. O rei usava uma vestimenta pesada de algum tecido lustroso, atada na cintura. A ideia imaginosa de que assistia a algum rito antigo entre praticantes de magia lhe agradou. O tom de voz adulador do pai estilhaçou a ilusão.
— Vossa Majestade os levou a essa situação, não os outros. Se não tivesse tomado Orléans e fortalecido o exército até se transformar nessa potência, eles não implorariam um armistício agora. Esse é um sinal de nossa força e da fraqueza deles. Vieram a nós, Majestade, como suplicantes. É tudo para a glória de Vossa Majestade e para a glória da França.
— Talvez, Renato, talvez você tenha razão. Mas eles são espertos e astuciosos, quase como os judeus. Se estivesse morrendo de sede e um inglês me oferecesse um copo d’água, eu hesitaria e procuraria ver que vantagem ele teria nisso. Meu pai confiava mais neles, e pagaram sua boa vontade com mentiras.
— Vossa Majestade, concordo. Espero nunca confiar neles a ponto de apertar a mão de um lorde inglês sem conferir os bolsos depois! Mas temos o relatório do embaixador, que disse que o rei deles dificilmente lhe dirige a palavra e que foi levado à presença real e de lá tirado como se a sala estivesse em chamas. Esse Henrique não é o homem que o pai fora, senão teria renovado há anos sua injustificável destruição. Acredito que seja uma oferta feita por fraqueza; e nessa fraqueza podemos recuperar terras que perdemos. Por Anjou, Majestade, mas também pela França. Podemos nos dar ao luxo de ignorar tamanha oportunidade?
— É exatamente por isso que suspeito de uma armadilha — retrucou o rei Carlos com azedume, bebericando seu vinho quente e inalando o vapor. — Ah, posso muito bem acreditar que queiram uma princesa francesa para aprimorar sua linhagem poluída, para abençoá-la com um sangue melhor. Tive duas irmãs entregues a mãos inglesas, Renato. Meu pai foi... inconstante em seus últimos anos. Tenho certeza de que não entendeu direito o perigo de dar Isabel ao rei Ricardo ou minha amada Catarina ao açougueiro inglês. É tão surpreendente assim que agora reivindiquem meu trono, minha herança? Tamanha impudência, Renato! Esse menino Henrique é um homem com duas metades: uma de anjo, a outra de demônio. E pensar que tenho um rei inglês como sobrinho! Os santos devem rir, ou chorar... Não sei.
O rei esvaziou a taça, o nariz comprido se enfiando nela. Fez uma careta quando chegou à borra e marcou sua manga com uma linha roxa ao limpar o lábio. Fez um gesto preguiçoso, perdido em pensamentos, enquanto o pai de Margarida voltava a encher a taça e tirava outro atiçador do suporte na lareira.
— Não quero fortalecer as pretensões dele com mais nenhuma gota de sangue francês, duque de Anjou. Quer que eu deserde meus próprios filhos por um rei estrangeiro? E em troca de quê? A pequena Anjou? Maine? Um armistício? Prefiro reunir meu exército e enxotá-los a pontapés até caírem no mar. Essa é a resposta que quero dar, não um armistício. Onde está a honra disso? Onde está a dignidade quando eles vendem trigo e ervilhas salgadas em Calais e lustram as botas em mesas francesas? Não dá para suportar isso, Renato.
Lá no alto, Margarida observava a expressão do pai mudar sem que o sombrio rei visse. Renato pensava e escolhia as palavras com imenso cuidado. Ela sabia que a mãe o andava alimentando com azeite e vagens de sene para tratar a prisão de ventre, legado do cárcere que parecia ter levado consigo para casa. O rosto pálido e pesado estava corado com o vinho ou com o calor do fogo, e ele parecia constipado, ela pensou, um homem empanturrado de algo desagradável. Sua antipatia só se aprofundou e, contra o bom senso, Margarida torceu para que ele se desapontasse, não importando suas intenções.
— Majestade, estou sob suas ordens em tudo. Se disser que haverá guerra, farei o exército marchar contra os ingleses na primavera. Talvez tenhamos a sorte de Orléans mais uma vez.
— Ou talvez a sorte de Azincourt — respondeu o rei Carlos, a voz azeda. Por um momento, o braço fez um movimento brusco, como se pensasse em jogar a taça ao fogo. Controlou-se com esforço visível. — Se eu pudesse ter certeza da vitória, juro que levantaria os estandartes amanhã. — Ele pensou algum tempo, fitando as chamas que se mexiam e tremeluziam. — Mas já os vi lutar, os ingleses. Lembro-me daqueles animais aos berros, de rosto vermelho, rugindo de triunfo. Eles não têm cultura, mas seus homens são selvagens. Você sabe, Renato. Você os viu, aqueles malditos porcos com espadas e arcos, aqueles tolos grandes e gordos que só sabem matar. — O rei Carlos fez um gesto de irritação com as lembranças sombrias, mas o pai de Margarida ousou interromper antes que o rei arruinasse todos os seus planos e esperanças.
— Que triunfo seria recuperar um quarto de suas terras na França sem uma batalha sequer, Vossa Majestade! Em troca de uma mera promessa de armistício e um casamento, conquistaremos mais do que já se conseguiu numa década ou mais contra os ingleses. Eles não têm mais o leão da Inglaterra, e lhes negaremos o coração da França.
O rei Carlos fez um muxoxo.
— Você é óbvio demais, Renato. Vejo muito bem que quer de volta as terras de sua família. O benefício é bastante claro para sua linhagem. Mas bem menos para a minha!
— Vossa Majestade, não posso discordar. O senhor vê com mais clareza e mais adiante do que jamais verei. Mas posso servi-lo melhor com a riqueza de Anjou e Maine nas mãos. Posso pagar minhas dívidas com a Coroa com essa renda, Vossa Majestade. Nosso ganho é a perda deles, e até um acre de terra da França vale um pequeno risco, tenho certeza. — O duque Renato se empolgou com o assunto ao ver a aprovação relutante do rei. — Um acre devolvido à França vale muito, Vossa Majestade, ainda mais se for devolvido pelo antigo inimigo. Isso é uma vitória, quer provocada por nossa negociação, quer por nosso sangue. Seus nobres verão apenas que o senhor reconquistou terras dos ingleses.
O rei suspirou e pousou a taça no chão de pedra para esfregar os olhos.
— Sua filha será uma rainha inglesa, se eu concordar, é claro. Suponho que tenha o caráter nobre.
— Vossa Majestade, ela é o mais perfeito exemplo de nobreza recatada. Só fortalecerá sua posição ter na corte inglesa um integrante leal de minha família.
— É... verdade — concordou Carlos. — Mas isso é quase incestuoso, Renato, não é? O rei Henrique já é meu sobrinho. Suas filhas são minhas sobrinhas. Eu teria de pedir uma autorização especial ao papa, e isso tem seus custos, ao menos se quisermos que seja concedida dentro desta década.
Renato sorriu com os sinais de progresso. Sabia que os ingleses pediriam autorização a Roma se ele assim exigisse. Também sabia que o rei negociava um dízimo em troca da concordância. O fato de as salas do tesouro de Saumur estarem lotadas de teias de aranha e sacos vazios não o incomodava em nada. Ele podia pedir mais empréstimos aos judeus.
— Meu senhor, seria uma honra cobrir esses custos, é claro. Sinto que estamos muito perto de uma solução.
Lentamente, Carlos baixou a cabeça, a boca se mexendo como se tivesse encontrado um pouco de comida nos dentes de trás.
— Muito bem, nisso serei guiado por você, Renato. Você voltará a ser o senhor de Anjou e Maine. Confio que ficará devidamente grato.
Renato se ajoelhou, tomou a mão do rei e a beijou.
— Estou às suas ordens, Vossa Majestade. Pode contar comigo para qualquer serviço, até com o sangue que me dá a vida.
Bem acima da cabeça deles, os olhos de Margarida estavam arregalados quando ela se virou. Iolanda a fitava boquiaberta. Margarida estendeu a mão e fechou suavemente a boca da irmã com o dedo.
— Já fui prometida — sussurrou Iolanda. — Papai não romperia meu noivado.
Em concordância velada, elas se esgueiraram para longe da luz, com Margarida fazendo uma careta quando as tábuas rangeram. Longe do balcão, as duas irmãs pararam na penumbra. Iolanda tremia de empolgação e segurou as mãos da irmã, quase dando pulinhos, como se quisesse dançar.
— Você vai se casar com um rei, Margarida. Só pode ser você.
— Um rei inglês — respondeu, em dúvida.
Sempre soubera que lhe escolheriam um marido, mas supusera que a mãe é que escolheria, ou pelo menos que se envolveria. Irritada, olhou para a irmã, que saltitava nas sombras como um pintarroxo.
— Fui negociada como uma novilha premiada, Iolanda. Você os escutou. Isso é... opressivo.
Iolanda a afastou mais, até outra sala ainda mais escura, sem o brilho que vazava do balcão. À luz pálida da lua, abraçou a irmã.
— Você será rainha, Margarida. Isso é o que importa. Pelo menos o Henrique deles é jovem. Poderiam entregar você a algum nobre velho e gordo. Não está empolgada? Quando crescermos, terei de me curvar diante de você ao nos encontrarmos. Nossos irmãos terão de se curvar diante de você!
Um sorriso prolongado se espalhou pelo rosto de Margarida com o vislumbre do irmão João obrigado a respeitar a condição superior da irmã mais nova. Era uma imagem agradável.
— Posso mandar um guarda inglês enfiá-lo num caldeirão, talvez — comentou ela com uma risadinha.
— Pode, e ninguém vai impedi-la porque você será rainha.
Um pouco do prazer evidente de Iolanda a contagiou e as duas meninas deram as mãos no escuro.
A cidade de Angers era bela à noite. Embora fosse capital de Anjou e, portanto, estivesse sob autoridade inglesa, os habitantes raramente encontravam os opressores estrangeiros fora dos tribunais e das coletas de impostos. Reuben Moselle convidara muitos mercadores ingleses a sua casa à beira do rio, como fazia todo ano. Apenas com os negócios, a festa sempre se pagava, e ele a considerava um investimento justo.
Em comparação com os franceses e os ingleses, ele se vestia de forma bastante simplória, com cores escuras. Era um antigo hábito seu não exibir opulência nas vestimentas. Não importava que poderia ter comprado e vendido muitos dos homens no salão, nem que um terço deles lhe devesse uma fortuna em ouro, terras ou participação nos negócios. Dentro ou fora de seu banco, Reuben era a personificação da humildade.
Ele observou que a esposa conversava com lorde York e lhe dava as boas-vindas ao seu lar. Sara era um tesouro e achava muito mais fácil do que Reuben falar com os rudes governantes ingleses. Em geral, ele preferia os franceses, cuja mente sutil era mais adequada às nuances dos negócios. Mas York comandava os soldados ingleses na Normandia e fora convidado porque assim tinha de ser. Controlava contratos de alto valor só para alimentar seus homens de armas. Reuben suspirou enquanto ensaiava seu inglês e se aproximava deles através da multidão.
— Lorde York — saudou, sorrindo. — Vejo que já conhece minha esposa. É uma grande honra recebê-lo em meu lar.
O nobre se virou para ver quem falava com ele, e Reuben se forçou a sorrir sob um olhar repleto de desdém. O momento pareceu durar uma eternidade, até York inclinar a cabeça em agradecimento, o encantamento quebrado.
— Ah, o anfitrião — disse, sem demonstrar amabilidade. — Monsieur Moselle, posso lhe apresentar minha esposa, a duquesa Cecily?
— Mon plaisir, madame — respondeu Reuben, curvando-se.
Ela não lhe estendeu a mão, e ele foi pego no ato de estender a sua, encobrindo a confusão remexendo o copo de vinho. Brilhantes faiscavam na garganta da duquesa, que parecia bem adequada ao marido inglês, com olhos frios e lábios finos que se recusavam a sorrir. Tudo nela parecia severo e sem humor, pensou Reuben. As sobrancelhas tinham sido arrancadas até quase sumir e, cruzando a testa branca, ela usava uma faixa de renda bordada com pedras preciosas.
— Tem uma bela casa, monsieur — comentou a duquesa. — Meu marido me diz que o senhor vive do comércio. — Ela disse a palavra como se mal suportasse sujar os lábios com ela.
— Obrigado, madame. Tenho um pequeno banco e um armazém, negócios locais em geral. Os valentes soldados de seu marido precisam ser alimentados e aquecidos no inverno. Cabe a mim lhes fornecer algum conforto.
— Por uma fortuna em ouro — acrescentou York. — Tenho pensado em outros fornecedores, monsieur Moselle, mas aqui não é lugar para discutir essas coisas.
Reuben piscou ao ouvir aquele tom de voz, embora já o tivesse escutado de homens de todas as posições.
— Espero conseguir dissuadi-lo, milorde. Tem sido uma associação lucrativa para nós dois.
A boca da esposa se franziu com a menção ao lucro, mas Reuben continuou a sorrir, tentando ao máximo ser um bom anfitrião.
— O jantar logo será servido, madame. Espero que aprecie os pequenos prazeres que podemos oferecer. Se tiver um momento livre, o laranjal fica lindo à noite.
Reuben estava a ponto de pedir licença quando ouviu vozes irritadas se elevarem no jardim. Franziu os lábios com força, ocultando a exasperação por trás do copo de vinho enquanto bebericava. Fazia algum tempo que um dos agricultores locais tentava levá-lo ao magistrado. Era uma questão trivial e Reuben conhecia as autoridades da cidade bem o suficiente para se preocupar com um camponês pobre e suas reclamações. No entanto, não era impossível que o idiota viesse à festa anual provocar distúrbios. Reuben inclinou a cabeça, trocando um olhar com a esposa, que assentiu.
— Devo atender aos meus outros convidados. Lady York, milorde, sinto muitíssimo.
O barulho aumentava e ele via dezenas de cabeças se virando. Reuben se moveu suavemente pela multidão, sorrindo e pedindo desculpas pelo caminho. Sara entreteria o lorde inglês e sua fria esposa, deixando-os à vontade, pensou. Ela era a dádiva de Deus a um homem devoto.
A casa já pertencera a um barão francês, uma família que caíra em dificuldades e fora forçada a vender as propriedades após sofrer desastres em combate. Reuben a comprara imediatamente, para desgosto das famílias nobres locais que faziam objeção a um judeu possuir um lar cristão. Mas os ingleses se incomodavam menos com essas coisas, ou pelo menos eram fáceis de subornar.
Reuben chegou às grandes janelas de vidro transparente que davam para o gramado. Estavam abertas naquela noite a fim de deixar o ar quente entrar. Ele franziu a testa ao ver soldados de pé com as botas na grama recém-aparada. Todos os convidados escutavam, é claro, e ele manteve a voz baixa e calma.
— Cavalheiros, como podem ver, estou no meio de um jantar particular com amigos. Isso não pode esperar até amanhã de manhã?
— O senhor é Reuben Moselle? — perguntou um dos soldados. A voz continha certo desprezo, mas Reuben lidava com isso todo dia e sua expressão agradável não titubeou.
— Sou. O senhor está em minha casa.
— E pelo visto o senhor vai muito bem — respondeu o soldado, olhando o salão.
Reuben soltou um pigarro, sentindo a primeira pontada de nervosismo. O homem estava confiante, embora em geral seria de esperar certa cautela diante da riqueza e do poder.
— Posso ter a honra de também saber seu nome? — pediu Reuben, a voz caindo na frieza. O soldado não merecia a cortesia, mas ainda havia cabeças interessadas demais voltadas em sua direção.
— Capitão Recine de Saumur, monsieur Moselle. Tenho ordens de prendê-lo.
— Pardon? Sob que acusação? É um engano, capitão, asseguro-lhe. Aliás, o magistrado está aqui dentro. Permita-me que o leve até ele e poderá explicar...
— Tenho minhas ordens, monsieur. Houve uma acusação no nível do département. O senhor virá comigo agora. Pode se explicar ao juiz.
Reuben fitou o soldado. O homem tinha as mãos sujas e a farda fedia, mas ainda trazia aquela confiança perturbadora. Três outros homens atrás dele trincavam os dentes amarelos, apreciando o desconforto que causavam. A ideia de ser forçado a ir com aqueles sujeitos fez Reuben começar a suar.
— Será que posso ajudar, monsieur Moselle? — perguntou uma voz junto ao seu ombro.
Ele se virou e viu a silhueta de lorde York ali de pé, com uma taça de vinho na mão. Reuben respirou aliviado. O nobre inglês parecia um soldado, com o queixo saliente e os ombros largos. Imediatamente, os soldados franceses ficaram mais respeitosos.
— Esse... capitão está dizendo que vai me levar preso, lorde York — falou Reuben depressa, usando o título propositalmente. — Ele ainda não mencionou a acusação, mas tenho certeza de que houve algum engano.
— Entendo. Qual é a acusação? — quis saber York.
Reuben pôde ver que o soldado pensou numa resposta insolente, mas depois deu de ombros. Não era sensato irritar um homem com a reputação e a influência de York, pelo menos não para um mero capitão.
— Blasfêmia e feitiçaria, milorde. Ele terá de responder ao tribunal de Nantes.
Reuben sentiu o queixo cair de surpresa.
— Blasfêmia e... Isso é loucura, monsieur! Quem é meu acusador?
— Não cabe a mim dizer — respondeu o soldado. Ele observava lorde York, sabendo muito bem que o nobre poderia interferir. Reuben também se virou para o inglês.
— Milorde, se conseguir que voltem amanhã de manhã, tenho certeza de que sou capaz de encontrar testemunhas e garantias que revelarão que essa é uma falsidade.
York baixou para ele os olhos que cintilaram à luz das lâmpadas.
— Essa questão não parece pertencer à lei inglesa, monsieur Moselle. Não é problema meu.
O capitão alargou o sorriso ao ouvir isso. Deu um passo à frente e pegou o braço de Reuben com firmeza.
— Imploro sua indulgência, monsieur. Venha comigo agora. Não quero ter de arrastá-lo. — A mão apertou com mais força, revelando a mentira daquelas palavras. Reuben tropeçou, incapaz de acreditar no que estava acontecendo.
— O magistrado está em minha casa, capitão! Deixe-me pelo menos buscá-lo para falar com o senhor! Ele explicará tudo.
— Não é um problema local, monsieur. Por que não diz mais alguma coisa e me dá o prazer de lhe enfiar os dentes no fundo da garganta?
Reuben balançou a cabeça, mudo de medo. Tinha 50 anos e já respirava com dificuldade. Aquela ameaça violenta o espantou.
Ricardo, duque de York, observou seu anfitrião ser levado com um quê de divertimento. Viu sua esposa, Cecily, atravessar a multidão para ficar ao seu lado, a expressão deliciada enquanto o velho atravessava os jardins aos tropeços com seus captores.
— Eu achava que esta noite seria um grande tédio — comentou ela. — Essa é a única maneira de lidar com judeus. Eles ficam ousados demais quando não lhes recordamos sua posição. Espero que o surrem por sua insolência.
— Tenho certeza disso, querida — reforçou ele, entretido com a cena.
No salão principal, ambos ouviram um guincho quando a notícia chegou à mulher de Reuben. Cecily sorriu.
— Acho que eu gostaria de ver o laranjal — avisou ela, estendendo o braço para o marido levá-la para dentro.
— As acusações são bastante graves, querida — declarou York, pensativo. — Eu poderia comprar a casa para você, se quiser. Angers é esplêndida no verão e não tenho nenhuma propriedade aqui.
Os lábios finos dela se franziram enquanto a cabeça balançava.
— Depois do último dono, é melhor pôr fogo e reconstruir — respondeu, fazendo-o rir ao entrarem.