Pássaro da Tempestade

Conn Iggulden · Capítulo 37 de 43

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Pássaro da Tempestade

Capítulo 30

 

O sol da tarde caía sobre as hostes reunidas em Southwark, ao sul da cidade. Para os que saíram ilesos da noite, aquilo era uma bênção um calor que aliviava os músculos doloridos e os fazia suar os venenos da bebida e da violência. Para os feridos, o sol era um tormento. O exército de Cade não possuía barracas para proteger dele o rosto, e o suor escorria deles enquanto o pequeno número de médicos cuidava dos piores casos. A maioria tinha pouco a oferecer além de um gole d’água e ataduras em grandes fardos de tiras levados ao ombro, emprestando-lhe uma corcunda quando apareciam contra o brilho ofuscante. Uma ou duas senhoras levavam potes de unguento, óleo de cravo ou uma bolsa de folhas de murta, que moíam numa pasta verde usada para aliviar a dor. O estoque logo se esgotou, e os homens só podiam se virar de lado ao ar livre e esperar o frescor da noite.

Jack sabia que era um dos sortudos. Examinara-se no quarto de cima da estalagem, tirando a camisa e espiando aqui e ali para ver a extensão dos hematomas. A pele era uma colcha de retalhos de marcas e listras amassadas, mas os poucos cortes eram superficiais e já estavam coagulados. Embora o levasse a fazer caretas, ainda conseguia mexer o braço direito.

Para não deixar outro homem vê-lo despido, vestiu de novo a camisa fedorenta ao ouvir passos na escada, alisando o cabelo com a água de um balde e virando-se para encarar fosse quem fosse. O ar estava calmo e abafado no pequeno quarto, e ele sentiu suor novo escorrer por cima do antigo. Pensou com desejo no cocho dos cavalos no pátio da estalagem, mas a água de lá estava sendo usada para encher jarras para os feridos, e provavelmente já acabara. Havia mandado homens ao Tâmisa encher odres d’água, embora nunca fossem suficientes para tantos, não naquele calor de julho.

Quando a porta se escancarou, Jack lançou um olhar culpado para a jarra de cerveja sobre a cômoda, já meio vazia. Havia vantagens em ser o líder, e ele não estava disposto a dividir a boa sorte.

Woodchurch estava ali de pé, pálido e com olheiras pela falta de sono. A maioria dos homens que conseguira voltar de Londres havia chegado ao acampamento e simplesmente se jogara no chão ao encontrar um bom lugar. Woodchurch e o filho continuaram em pé, organizando os herboristas e os médicos da vila, mandando pessoas buscarem água e distribuindo moedas para que trouxessem comida. Os homens estavam famintos depois da noite que tinham passado, mas nisso seriam satisfeitos. Com o ouro do rei, Woodchurch comprou uma dúzia de novilhos de um fazendeiro local. Havia vários açougueiros entre os homens de Kent e Essex, que se puseram a trabalhar com vontade e apetite, retalhando as carcaças e preparando enormes fogueiras para os assados. Jack sentia o cheiro da fumaça de lenha no arqueiro ali de pé, o que o fez sorrir. Ouro no bolso e a expectativa de uma carne suculenta. Deus sabia que ele havia tido dias piores.

— O que foi, Tom? Estou mijando sangue e só vou ter forças para mais conversas depois de comer.

— Isso você vai querer ver, Jack — declarou Thomas. Ainda estava rouco de tanto berrar, a voz mal passando de um grunhido áspero. Ergueu um rolo na mão e o olhar de Jack se grudou nele. Pergaminho limpo e um selo vermelho-sangue. Com os olhos semicerrados, imaginou se Woodchurch teria conhecimento de que ele não sabia ler.

— Então, o que é? — perguntou, pouco à vontade.

A palavra escrita sempre havia sido sua inimiga. Sempre que fora açoitado, multado ou preso, houvera algum escriba de rosto pálido envolvido, rabiscando com pena de ganso e tinta. Jack via que Thomas estava demasiadamente satisfeito com alguma coisa. O homem ofegava, e Jack já sabia que o arqueiro não era um sujeito de se empolgar à toa.

— Estão nos oferecendo o perdão, Jack! Um maldito perdão! Todos os crimes e delitos esquecidos, na condição de nos dispersarmos. — Ele viu Cade começar a franzir o cenho e continuou rapidamente antes que o homem obstinado começasse a discutir. — É a vitória, Jack! Nós os surramos até tirar sangue, e não querem mais! Meu Deus, Jack! Conseguimos!

— Aí diz que eles vão demitir os juízes, então? — perguntou Jack. — Diz que vão derrubar as leis contra a caça ou baixar os tributos de quem trabalha? Sabe ler as palavras nesse seu rolinho, Tom?

Thomas balançou a cabeça negativamente.

— O mensageiro leu para mim lá embaixo... e não comece, Jack, não agora. É o perdão... de todos os crimes até agora. Os homens podem ir para casa com ouro e liberdade, e ninguém virá atrás de nós depois. Você será o herói que ocupou Londres e venceu. Não é o que queria? Vamos lá, Jack. Isto é bom. A tinta ainda está fresca, Jack, e tem a assinatura da rainha. Eles arranjaram isto numa manhã.

Cade levou a mão ao pescoço e o estalou para a esquerda e para a direita, aliviando a rigidez. Uma parte dele queria gritar e pular, reagir com o mesmo prazer selvagem que via em Woodchurch. Com um grunhido, obrigou essa parte a se calar enquanto pensava melhor.

— Demos um susto neles ontem à noite — disse, depois de algum tempo. — É essa a raiz disso.

— Demos, sim, Jack — concordou Thomas imediatamente. — Mostramos a eles o que acontece quando pressionam demais homens como nós. Pusemos neles o temor a Deus e a Jack Cade, e este é o resultado.

Cade atravessou a porta e gritou para Ecclestone e Paddy subirem. Ambos estavam dormindo um sono pesado no térreo da estalagem. Demorou um pouco para despertarem, mas por fim subiram a escada, piscando, os olhos cansados. Paddy achara uma jarra de aguardente tampada e a ninava como a um filho dileto.

— Diga a eles, Tom — pediu Jack, voltando para se sentar na cama baixa. — Diga aos rapazes o que me contou.

Ele esperou que Thomas repetisse, observando o rosto dos amigos com atenção à medida que começavam a entender. Não que Ecclestone revelasse algo. A expressão do homem não mudou um fiapo, nem quando sentiu o escrutínio e relanceou para Jack. Paddy sacudia a cabeça de espanto.

— Em minha vida inteira, nunca pensei que viveria para ver uma coisa dessas — comentou Paddy. — Os meirinhos, os xerifes e os canalhas donos das terras, todos tremendo de medo de nós. Estão em cima de mim desde que sou menino. Nunca os vi ir embora, Jack, nenhuma vez.

— Mas eles ainda são os mesmos — disse Jack. — Matamos seus soldados e enforcamos algumas autoridades do rei. Tiramos até a cabeça do xerife de Kent. Mas eles encontrarão novos homens. Se aceitarmos esse perdão, eles continuarão exatamente como são, e não teremos mudado nada.

Thomas entendeu a mistura de medo, desejo e prazer do grandalhão, que descansava as mãos nas coxas ali sentado. Thomas sentia a mesma cautela, mas também vira a multidão de Londres ladear as ruas quando partiram. Ninguém na estalagem admitiria, porém não havia nos Homens Livres de Kent entusiasmo para outro ataque, se é que conseguiriam atravessar a ponte outra vez diante de forte resistência. As multidões de Londres foram levadas à fúria, e eram mais que suficientes. No entanto, enquanto Paddy e Ecclestone se entreolhavam, Thomas soube que ambos seguiriam Jack de novo, mesmo que ele os levasse de volta à cidade.

— Fizemos nossa parte, Jack — continuou Thomas antes que pudessem falar. — Ninguém poderia pedir mais. E não serão os mesmos, não depois disso. Darão cada passo com cautela, pelo menos por alguns anos. Saberão que só fazem as leis quando o povo diz que podem. Ainda governam, tudo bem, mas com nossa maldita permissão. É isso que sabem agora. É isso que sabem hoje e que não sabiam ontem. E, se nos governarem com dureza demais, sabem que nos reuniremos outra vez. Sabem que estaremos lá, nas sombras da noite, prontos para obrigá-los a se lembrar.

Jack sorriu ao ouvir aquelas palavras, apreciando o fervor e a certeza de Woodchurch. Ele também vira a multidão se reunir ao atravessar a ponte naquela manhã. A ideia de voltar não era agradável, embora Jack preferisse morrer a admitir isso na frente dos outros. Queria ser convencido, e isso Thomas havia feito. Ele ergueu os olhos devagar.

— Tudo bem, Paddy? Rob?

Ambos assentiram, e Ecclestone até sorriu, o rosto pálido se franzindo em rugas pouco usuais.

Jack se levantou e colocou ambos os braços em torno do grupo de três homens, espremendo-os.

— O mensageiro ainda está aqui, Tom?

— Esperando lá fora — respondeu Thomas, com uma sensação crescente de alívio.

— Diga a ele que aceitamos, então. Mande-o de volta e avise os homens. Teremos um pouco de carne e cerveja hoje à noite e amanhã vou para casa. Acho que comprarei a casa daquele magistrado e farei um brinde ao maldito Alwyn Judgment na própria cozinha dele.

— Você pôs fogo nela, Jack — murmurou Ecclestone.

Cade piscou para ele, recordando.

— Pus, não foi? Pois posso construir uma nova. Terei meus amigos em volta e vamos nos sentar ao sol e beber de um barril... e brindar ao querido rei da Inglaterra, que pagou por tudo.

No fim do dia, Margarida estava no alto da larga muralha que cercava a Torre de Londres, olhando uma cidade que havia sofrido. O sol poente deixava o horizonte cor de sangue e de hematomas e prometia um dia seguinte claro e quente. Na verdade, dali de cima viam-se poucos sinais da destruição da noite anterior. O longo dia de verão assistira aos primeiros movimentos para organizar a capital, com homens como lorde Warwick organizando grupos de carroças para recolher os mortos. Ela suspirou, novamente desapontada por um rapaz tão admirável ser aliado de York. O sangue Neville corria em demasiadas casas nobres de seu marido, pensou. A família continuaria a ser um perigo para ela, pelo menos até que seu primeiro filho nascesse.

Margarida deu um tapinha no ventre, sentindo a dor do fluxo e todo o pesar e frustração que trazia. Não seria neste mês. Ela corou ao recordar o pequeno número de encontros íntimos com o marido. Talvez viesse uma época em que fossem tantos que não poderia recordá-los todos com muitos detalhes, mas naquele momento ainda eram acontecimentos raros em sua vida, cada um deles tão importante quanto o dia de seu casamento ou o ataque à Torre.

Ela rezou num sussurro, as palavras suaves perdidas na brisa e na cidade.

— Maria, mãe de Deus, por favor, permita-me gerar um filho. Não sou mais menina, dada a sonhos e devaneios tolos. Permita-me ser fértil, permita-me engravidar. — Margarida fechou os olhos um momento, sentindo o peso imenso da cidade a sua volta. — Permita-me um filho e lhe darei graças em todos os meus dias. Permita-me um menino e erguerei capelas em sua glória.

Quando voltou a abrir os olhos, ela viu uma fileira lenta de carroças se arrastando numa rua à distância, cheia de corpos envoltos em branco. Sabia que grandes valas tinham sido abertas, com cada morto, homem ou mulher, disposto com cuidado, com um padre para abençoá-los antes que os trabalhadores começassem a cobri-los de terra e barro frio. Familiares aos prantos seguiam as carroças, mas era fundamental trabalhar depressa com o calor do verão. Pestes e doenças seguiriam logo atrás. Margarida tremeu ao pensar.

Do outro lado do rio, as hostes de Cade haviam começado um grande banquete, com fogueiras visíveis como pontos de luz barulhentos. Tinham enviado a resposta, mas ela ainda não sabia se a honrariam, se iriam embora. Sabia que Derry transformara a ponte numa fortaleza caso não fossem, organizando equipes de londrinos para construir grandes barricadas em toda a sua extensão.

Ela sorriu ao pensar na expressão travessa dele naquele dia enquanto vasculhava a Torre atrás de armas e barris de pólvora. Nunca tinham lhe permitido tanta liberdade, mas ninguém poderia detê-lo agora, não depois da noite anterior. Margarida sabia que não deveria depender da partida de Cade, mas era difícil ver a malícia evidente de Derry e não sentir confiança no que planejara caso atravessassem a ponte mais uma vez. Os homens de Londres trabalharam o dia inteiro para se preparar, afiando ferro e fechando ruas em torno da ponte. A notícia do perdão Cade ainda não se espalhara entre eles, e ela não sabia como reagiriam. Não se arrependia da oferta, não agora que fora aceita. O rei Henrique não estava a seu lado e, por algum tempo, a cidade era sua responsabilidade, sua joia, o coração pulsante do reino que a adotara. Seu pai Renato dificilmente imaginaria tantas dificuldades para a filha caçula.

Margarida ficou na muralha até o sol se pôr, e pôde ver com mais clareza as fogueiras distantes no grande acampamento do outro lado do Tâmisa. Cade tinha lá milhares de seus homens de Kent, e ela ainda não sabia se ele viria. O ar noturno estava frio e silencioso, e Londres prendia a respiração e aguardava. O céu estava limpo e a lua baixa apareceu, esgueirando-se até o alto conforme subiam as estrelas de Órion.

A rainha rezou o terço em sua vigília, repetindo ave-marias e pais-nossos, perdida num transe tão profundo que não sentia sequer desconforto. Devaneava, consciente apenas das mãos brancas na pedra áspera da parede ancorando-a à cidade. Perguntou-se se era essa a paz que Henrique encontrava quando rezava do amanhecer ao crepúsculo e até mais além, durante a noite, até não conseguir se levantar sem homens para erguê-lo. Isso a ajudou a entender o marido, e ela rezou por ele também.

As estrelas viraram para o norte, e Cade não veio. Conforme a lua atravessava a cidade, ela sentiu que quase conseguia ver as constelações se moverem. Seu coração bateu mais devagar, e, no silêncio que a envolvia, Margarida se encheu de uma sensação de paz e presença. Baixou a cabeça, dando graças a Deus por livrar sua cidade.

Com cuidado, desceu os degraus da muralha quando o sol começou a subir, sentindo uma dor silenciosa em todas as articulações. Transpôs pedras ainda marcadas com respingos esmaecidos de sangue do ataque, embora os corpos e as moedas tivessem sido retirados. Ergueu a cabeça quando os guardas passaram a andar a suas costas, seguindo-a das sombras da muralha até a Torre Branca. Haviam aguardado a rainha durante as horas escuras, ficando de vigília, em seu modo próprio de garantir a segurança dela.

Na Torre Branca, ela desceu um corredor até onde um grupo menor passara a noite. Sua chegada foi anunciada pelo pisotear e pelo alarido de homens de armadura pondo-se em posição de sentido. Se dormiram, aqueles homens não o revelavam, primeiro em pé e depois ajoelhados diante da jovem rainha. Margarida passou por eles e foi se sentar num trono na outra ponta da sala, escondendo o alívio que isso trazia a seus joelhos e quadris.

— Aproxime-se, Alexander Iden — chamou ela.

O maior dos homens se levantou e andou até poucos passos dela antes de se ajoelhar de novo. Como os outros guardas, passara a noite esperando pela rainha, mas parecia bastante descansado, aquecido pelo fogo que ardia na lareira. Margarida o olhou e viu um homem durão, de traços fortes e barba aparada.

— O senhor me foi recomendado, mestre Iden — começou ela. — Disseram-me que é um homem de honra e bom caráter.

— Com a graça de Deus, Vossa Alteza — respondeu ele, a voz encorpada e sonora, embora mantivesse a cabeça baixa.

— Derihew Brewer fala bem de seu talento, mestre Iden. E tendo a confiar na opinião dele.

— Fico agradecido, Vossa Alteza — disse ele, visivelmente satisfeito.

Margarida pensou mais um momento e se decidiu.

— Neste momento o nomeio xerife de Kent. Meus escriturários prepararão os documentos para que os sele.

Para sua surpresa, o homenzarrão ajoelhado a seus pés corou de prazer, aparentemente ainda incapaz de erguer os olhos.

— Obrigado, Vossa Alteza. Vossa... Minha... Vossa Alteza me concede uma grande honra.

Margarida sentiu vontade de sorrir e reprimiu o desejo.

— Mestre Brewer reuniu sessenta homens que o acompanharão até seu novo lar em Maidstone. À luz dos recentes problemas, o senhor precisa se manter a salvo. A autoridade da Coroa não deve mais ser questionada em Kent. Entendeu?

— Sim, Vossa Alteza.

— Pela graça de Deus, a rebelião dos homens de Kent está no fim. Foram concedidos perdões e eles voltarão a suas fazendas e aldeias com a riqueza que arrancaram de Londres. Os crimes que cometeram foram todos perdoados e não devem ser levados aos tribunais. — Ela parou, os olhos cintilando acima da cabeça baixa do homem. — Mas o senhor foi nomeado por minha mão, minha apenas, mestre Iden. O que dei, posso tirar com a mesma facilidade. Quando lhe enviar ordens, o senhor as cumprirá celeremente, como lei do rei, como a espada do rei em Kent. Entendeu?

— Entendi, Vossa Alteza — respondeu Iden imediatamente. — Prometo-lhe minha honra e minha obediência. — Ele abençoou Derry Brewer por apresentar seu nome. Era a recompensa de uma vida inteira de guerra e serviço, e Iden ainda mal compreendia o que recebera.

— Vá com Deus então, xerife Iden. O senhor voltará a receber notícias minhas.

Iden corou de prazer ao ouvir o novo título. Levantou-se e fez outra reverência demorada.

— Sou seu leal criado, Vossa Alteza.

Margarida sorriu.

— É tudo o que peço.

Thomas Woodchurch andava em silêncio com o filho pelas ecoantes ruas de Londres, de olho atento em qualquer um que pudesse notá-los ou reconhecê-los. Haviam se livrado dos arcos verdes e guardado apenas uma faca decente cada um para proteger as bolsas de ouro que ambos levavam. Jack Cade fora mais do que generoso com a pilhagem, distribuindo quinhões triplos para os que comandaram os homens de Kent. Com a bolsa menor que Rowan escondera debaixo do cinto e da túnica, tinham o suficiente para arrendar uma fazenda de tamanho decente, caso a encontrassem.

Atravessaram o Tâmisa de barca para não pôr à prova com os que defendiam a Ponte de Londres a força do perdão real. Thomas e Rowan chegaram a um desembarcadouro mais abaixo no rio e depois o pai guiara o filho pelas ruas densas e sinuosas. Pouco a pouco, elas retornavam a sua memória, até que chegaram aos cortiços propriamente ditos, as casas de cômodos apinhadas que Thomas havia conhecido quando o pai desenraizara de Kent sua pequena família e se instalara na cidade para tentar ganhar a vida.

Para Rowan, era a primeira vez que via Londres à luz do dia. Ficou perto do pai, a multidão se ocupando em volta deles, para comerciar e conversar enquanto o sol subia. Os sinais da luta e da destruição já estavam sumindo, engolidos por uma cidade que continuava sempre em frente, fosse qual fosse o sofrimento dos indivíduos. Havia cortejos fúnebres bloqueando algumas ruas, porém os dois arqueiros seguiram seu caminho em torno e através do labirinto até Thomas chegar a uma pequena porta preta no fundo do bairro. Aquela parte de Londres era uma das mais pobres, mas não parecia que os dois homens tivessem algo a ser roubado, e Thomas tomou o cuidado de manter a mão perto da faca. Respirou fundo e bateu na madeira, recuando para a lama do chão enquanto esperava.

Ambos sorriram quando Joan Woodchurch abriu a porta e ali ficou, olhando desconfiada o volume corpulento do marido e do filho.

— Achei que vocês dois estavam mortos — declarou objetivamente.

Thomas sorriu para ela.

— Muito prazer em vê-la também, meu anjo mais querido.

Ela fungou ao ouvir isso, mas, quando Thomas abraçou a esposa, algo da dureza se derreteu dentro de Joan.

— Entrem, então — falou. — Vocês devem estar querendo o desjejum.

— Pai e filho entraram no casebre, logo seguidos pelos gritos empolgados das filhas que davam boas-vindas aos homens da família.