Pássaro da Tempestade

Conn Iggulden · Capítulo 14 de 43

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Pássaro da Tempestade

Capítulo 9

 

 

A estrada levava a uma pequena elevação, seguindo até o topo por um bosque de carvalhos retorcidos. De seu esconderijo de caçador, a meio caminho de um morro próximo, entre as grandes samambaias, Thomas Woodchurch podia ver onde as árvores lançavam sombra nas pedras cinzentas entre elas. Era o lugar perfeito para uma emboscada, resultado da ordem dada a soldados ingleses mal-humorados de escavar a grama e ali depositar pedras alinhadas, de uma cidade à outra. As estradas locais eram formadas naturalmente, no decorrer de séculos. Serpenteavam em torno dos obstáculos, desviavam-se em volta de velhos morros e carvalhos antigos. Mas não as inglesas. Como os romanos anteriores a eles, aquelas equipes esquecidas de trabalhadores tinham traçado suas rotas em linha reta e cavado ou queimado tudo o que ficava no caminho.

Thomas se agachou mais, sabendo que ficava quase invisível na encosta com as roupas de lã marrom-escura e os calções de couro, e tinha uma boa visão do vale por quilômetros e quilômetros. O ponto mais alto da estrada bem que poderia estar vazio, mas ele avistara pegadas recentes de cascos junto a um portão naquela manhã e as seguira durante meio dia. As marcas de ferradura indicavam que os cavaleiros não eram moradores locais, poucos dos quais possuíam só um pequeno pônei.

Thomas nutria suspeitas sobre o grupo que atravessava suas terras. Também estava com o arco longo ao lado, envolto em couro oleado. Não fazia ideia se os homens do barão sabiam que ele fora soldado antes de virar negociante de lã. Fosse como fosse, caso aparecessem, alguém morreria. Ao pensar nisso, ele baixou a mão até a extensão do arco e o acariciou. Desde pequeno, tinham lhe dito que só havia três tipos de pessoa no mundo. Os que lutavam: os próprios condes e seus exércitos e cavaleiros. Os que rezavam: um grupo que Thomas não conhecia bem, mas que pareciam ser os irmãos mais novos das casas poderosas como um todo. E, por fim, os que trabalhavam. Ele sorriu com a ideia. Já havia sido parte de dois dos três tipos de homem. Lutara e trabalhara. Caso surpreendesse meia dúzia de cavaleiros atacando seus rebanhos, talvez se visse tentando fazer uma ou duas orações desesperadas também, para completar a tríade.

Ali, totalmente imóvel em meio às samambaias, Thomas estava atento a qualquer movimento. Quando o viu, não virou a cabeça de imediato. A pressa poderia causar a morte de um homem. Quando algo se mexeu a sua direita, deixou o olhar ir até lá. O coração se apertou e os olhos voltaram rapidamente para o alto do morro e a passagem escura entre os carvalhos, que tinham assumido um ar sinistro.

Seu filho Rowan estava a pé, caminhando tranquilo, com a cabeça virando de um lado para o outro à procura do pai. Thomas gemeu ao ver que o filho seguia às cegas a estrada rumo ao bosque.

Thomas se levantou de repente, erguendo o arco coberto acima da cabeça para se mostrar. Lá embaixo, Rowan o avistou e, mesmo à distância, o pai conseguiu vê-lo sorrir e mudar de direção para subir o morro.

Thomas viu sombras se mexerem no bosque. O estômago se apertou de medo quando um cavaleiro saiu a toda da penumbra. Dois outros o seguiram, e ele passou um momento tenso tentando avaliar as distâncias.

— Corra! — berrou para o filho, apontando o cume do morro.

Para seu horror, o rapaz parou e fitou os cavaleiros que desciam das árvores a toda. Thomas viu que tinham desembainhado as espadas e as seguravam abaixadas e retas acima das orelhas dos cavalos, apontadas para seu filho. Para seu alívio, Rowan saiu correndo, parecendo quase voar sobre o terreno acidentado. Thomas se viu respirando ofegante. Pelo menos o rapaz sabia correr. Rowan crescera meio selvagem na propriedade e passava mais tempo nos morros até mesmo que o pai.

— Que Jesus o proteja — murmurou Thomas.

Retirou do envoltório de couro o pedaço de cerne e alburno de teixo e ajustou as pontas de chifre de cada extremidade do arco. Para ele, esses movimentos eram completamente naturais, e, enquanto trabalhava, observava Rowan escalar o morro íngreme e os cavaleiros acelerarem o galope.

Seis cavaleiros tinham saído do meio das árvores. Thomas conhecia todos os soldados do barão e provavelmente saberia o nome de cada um deles. Em concentração silenciosa, ajustou a corda de linho e testou a tensão; depois desenrolou o tubo de couro macio, revelando uma aljava cheia de flechas. Ele emplumara pessoalmente cada uma delas, em casa à noite, cortando as penas antes de colá-las e amarrá-las. As pontas tinham vindo de sua ferraria na aldeia, afiadas como facas e contendo a barbela de ferro que as tornava impossíveis de serem arrancadas da carne sem rasgar um homem.

Abaixo dele, os cavaleiros desaceleraram para atravessar o matagal. Tinham visto o homem solitário em pé na encosta, mas confiavam em seu número e em sua armadura e só se concentravam no rapaz que subia. Thomas trincou os dentes, embora a expressão não fosse agradável de se ver. Desde os 7 anos, todo domingo depois da missa, ele atirava flechas durante duas horas ou mais. Seu time de futebol local fora banido para que os meninos da aldeia não negligenciassem o treino com arco. Os ombros de Thomas eram uma massa de músculos em relevo e, se os homens do barão o consideravam um mercador de lã, tudo bem. Primeiro ele fora um arqueiro inglês. Largou a alça comprida sobre um dos ombros, de modo que a aljava ficou bem baixa, quase na altura do joelho. As flechas se inclinavam de lado e ele podia pegá-las apenas com um pequeno movimento. As duas cores de linha lhe mostravam que tipo de projétil encontraria. Havia as de ponta larga para veados, mas metade do estoque tinha uma ponta em estilete, quadrada e do comprimento do polegar. Thomas sabia muito bem o que poderiam fazer com a potência de um arco de teixo por trás. Ele escolheu uma delas e a pôs na corda.

— Terreno em declive — sussurrou consigo mesmo. — Vento forte a leste.

A puxada era tão natural que ele não precisava olhar a haste da flecha. Em vez disso, observava os alvos, os cavaleiros que subiam o morro e tentavam pegar seu filho.

A primeira flecha passou por cima da cabeça de Rowan, estalando no ar. Atingiu o cavaleiro da frente bem no meio do peito, e Thomas já estava com outra em riste. Quando era muito mais jovem, estivera nas fileiras de arqueiros e despejara milhares de flechas até o avanço francês desmoronar. Naquele dia estava sozinho, mas o corpo ainda se lembrava. Lançou flecha após flecha com exatidão impiedosa, disparando-as no ar.

Os cavaleiros da retaguarda podiam ter pensado que o primeiro homem simplesmente caíra quando a montaria havia tropeçado, Thomas não sabia. Continuaram avançando. Rowan finalmente teve o bom senso de sair da frente da mira, e seu pai deixou os cavaleiros se aproximarem dele. A flecha seguinte caiu no pescoço de um cavalo, fazendo-o empinar e gemer de dor.

Ele conseguiu ouvir Rowan ofegar quando alcançou o pai e pôs as mãos nos joelhos, observando a aproximação dos cavaleiros. Os olhos do rapaz estavam arregalados. Já vira Thomas abater veados, mas tinham sido disparos calculados, na imobilidade da caçada. Nunca vira o pai lançar flecha atrás de flecha, como se a força imensa de puxar a corda nada fosse para ele.

As hastes mergulhavam em homens com um som similar a pancadas num tapete grosso. Dois tinham caído. Os cavaleiros sufocavam e berravam, e Thomas começou a respirar com dificuldade ao sentir a velha ardência nas costas. Fazia uns bons anos que atirara com fúria pela última vez, mas o ritmo permanecia lá para ser convocado. Ele ajustava as flechas e puxava a corda rápido, implacável e sem misericórdia. Quatro homens derrubados, dois cavalos aos tropeços com a rédea solta, depois de perder o cavaleiro. Os dois últimos sujeitos perceberam a loucura de avançar e gritavam em pânico para os moribundos no chão.

De repente, Thomas correu à frente. Vinte passos ligeiros o deixaram a uma distância de onde não poderia errar. Os dedos ávidos encontraram três flechas ainda na aljava. Uma olhada nas linhas lhe revelou que restavam dois estiletes e uma ponta larga. Lançou as duas iguais e deixou a terceira flecha perfurante pronta na corda.

Os seis homens do barão tinham sido retirados de seus cavalos. Quatro jaziam imóveis, sem piscar, com penas rígidas saindo do peito. Os dois últimos gemiam em agonia e tentavam se levantar. No total, Thomas atirara 11 flechas com penas de ganso. Sentiu um toque de orgulho ao olhar a massa amontoada de homens e armaduras que criara, enquanto começava a pensar nas consequências.

— Olhe para o outro lado, Rowan — gritou sobre o ombro. — Isso é trabalho sujo.

Ele se virou para se assegurar de que o filho fitava o vale.

— Fique de olho nos morros, rapaz, tudo bem?

Rowan concordou, mas dirigiu o olhar para o pai assim que ele foi para junto dos homens. Com 16 anos, Rowan estava fascinado pelo poder que tinha visto. Pela primeira vez, entendeu por que o pai o fazia treinar até os dedos incharem e se arroxearem e os músculos dos ombros e das costas ficarem como tiras quentes de corda. Rowan tremeu quando o pai puxou um pesado facão e andou com cautela rumo ao par ainda vivo. Ambos tinham sido atingidos por flechas de ponta larga. Um deles tirara o elmo, o que revelou uma barba cor de cobre molhada pelo sangue da boca aberta.

— Você será enforcado por isso — rosnou o homem.

Thomas o olhou enraivecido.

— Você está nas minhas terras, Edwin Bennett. E era meu filho que vocês caçavam como um veado.

O homem tentou responder, porém Thomas estendeu a mão e segurou seu cabelo comprido e engordurado. Ignorou a mão enluvada de cota de malha que o segurava e cortou a garganta do homem, empurrando o corpo para longe antes de se voltar para o último.

De todos, o cavaleiro restante era o menos ferido. Estava com uma das flechas enfiada com capricho na armadura, mas no alto, passando por um ponto que machucara somente seu ombro direito.

— Trégua, Woodchurch! Misericórdia, homem. Trégua!

— Você não terá trégua — disse Thomas sombriamente ao se aproximar.

O homem conseguiu se pôr de pé e ergueu a faca na mão esquerda, fatiando o ar, dando voltas enquanto tentava se afastar.

Thomas foi atrás dele, seguindo-o de perto; o cavaleiro caía e se levantava outra vez, tentando aumentar a distância entre os dois. Sangue corria pela armadura na altura da cintura e o rosto estava pálido e desesperado. O medo lhe dava velocidade, e Thomas estava cansado. Com uma maldição murmurada, ele estendeu a mão para a última flecha. O homem viu a ação e se virou para correr.

A haste pegou abaixo do braço bom, uma ponta de agulha, a distância tão curta, perfurando os elos da cota de malha como se fossem lã macia. O homem desmoronou e Thomas esperou até que ficasse imóvel.

Ouviu o mato se mover atrás de si quando o filho foi até ele.

— O que você vai fazer agora? — perguntou Rowan.

Durante a vida inteira, conhecera o pai como um homem amistoso, um mercador paciente e honesto que comprava e vendia fardos de lã na cidade e ganhava uma fortuna com isso. Usando aquela roupa marrom, com o pulso esquerdo envolto em couro e um arco longo nas mãos, o pai era uma figura assustadora. Enquanto Rowan observava, a brisa aumentou e Thomas fechou os olhos um instante, inspirando-a profundamente. Quando os abriu, a raiva quase passara.

— Remover minhas flechas, para começar, se conseguir. E enterrar os corpos. Você, corra de volta até em casa por mim e traga Jamison e Wilbur... e Christian também. Mande que tragam pás.

Pensativo, Thomas olhou os cavalos. Atingira um deles, e fez uma careta ao ver o animal em pé, mordiscando o capim com uma flecha no alto do pescoço. Conseguia ver o branco de seus olhos. O cavalo sabia que estava ferido, e os grandes flancos tremiam de dor, ondulando a carne castanha. Thomas balançou a cabeça em negativa. Poderia esconder o corpo dos homens, mas cavalos eram outra coisa. Por um instante, ficou tentado a chamar um açougueiro até lá, mas seria preciso uns dez meninos e duas ou três carroças para levar a carne embora. Era inevitável que o barão ficasse sabendo. Cavalos eram valiosos, e Thomas duvidava de que houvesse na França um mercado que recebesse seis montarias treinadas sem que a notícia chegasse a ouvidos indesejáveis.

— Meu Deus, eu não sei o que fazer, Rowan. Posso escondê-los em estábulos, mas, se o barão vier procurar, serão como uma confissão de culpa. Ele me levará ao magistrado, e aquele homem é amigo dele demais para dar ouvidos a qualquer coisa que eu diga.

Thomas parou e pensou por um tempo que pareceu uma era, enquanto a brisa ficava mais forte e nuvens cinzentas se avolumavam sobre sua cabeça. A chuva começou a cair em grandes gotas, e o cavalo ferido tremeu e trotou até um pouco mais abaixo do morro.

— Você poderia pegar aquele ali para mim, rapaz? Não quero que volte ao estábulo atrás de comida. Vá com calma e não o assustará. Vamos guardá-lo no velho celeiro hoje. Conheço um homem que pode dar um jeito de sairmos dessa, se conseguir falar com ele. Derry Brewer pode tirar meu pescoço da forca.

Ele observou o alívio surgir no rosto de Rowan antes que o menino descesse correndo a encosta, murmurando para o cavalo que perambulava. O animal levantou a cabeça, olhou-o com as orelhas em pé e depois voltou novamente a mordiscar o capim sem se preocupar. O rapaz tinha um jeito com cavalos que deixava Thomas orgulhoso.

— Como eu me meti nisso? — murmurou Thomas.

Ele desconfiava que o barão Strange não era sequer um nobre de verdade, pelo menos era esse o boato. Falava-se de um título caído em desuso e de um ramo feminino na árvore da família, mas Thomas nunca conseguira descobrir os detalhes da história. Fosse como fosse, Strange não ignoraria o assassinato proposital de seis soldados seus, por mais que estivessem na terra dos outros, por mais dano que causassem. A disputa entre as propriedades adjacentes fervilhava havia meses, desde que os homens do barão cercaram um pasto que por direito pertencia a Thomas. Pelo menos era assim que ele via a situação. Os homens do barão contavam outra história.

Primeiro fora coisa pouca, com seus criados e os do barão se confrontando sempre que se encontravam na cidade. Um mês antes, as coisas pioraram quando um homem de Thomas perdeu um dos olhos. Alguns amigos saíram para se vingar naquela noite e queimaram um dos celeiros do barão, além de matar algumas ovelhas galesas nos campos. Thomas mandara açoitá-los por isso, mas, a partir daquela noite, a rixa virara uma guerra não declarada. Havia ordenado que seus homens nunca andassem sozinhos; então avistara rastros passando por suas terras e tinha feito exatamente o que lhes dissera para não fazer. Praguejou contra sua tolice.

Rowan voltou trazendo dois cavalos e lhes dando tapinhas no pescoço.

— São rapazes grandes e fortes — comentou Rowan. — Podemos ficar com um deles, talvez?

— Impossível. Não podem me pegar com eles. Uma ou duas noites já é arriscado demais. Esperarei você voltar com o pessoal. Podemos terminar antes de escurecer, se a chuva não piorar muito.

Uma ideia lhe veio e ele ergueu os olhos.

— Por que veio até aqui, aliás? Você sabia que eu estaria fora até o crepúsculo.

— Ah! Há uma reunião na cidade hoje à noite. Algo sobre os franceses. Mamãe me mandou avisá-lo disso para que o senhor não faltasse. Ela disse que era importante.

— Jesus! — exclamou Thomas amargamente. — Como vou comparecer e limpar essa carnificina ao mesmo tempo? Meu Deus, alguns dias, eu juro...

— O senhor poderia pear os cavalos ou amarrar as rédeas deles. Vou buscar Jamison, Wilbur e Christian. Posso enterrar os corpos com eles também, enquanto o senhor vai à reunião.

Thomas olhou o filho, vendo até que ponto se tornara um homem no decorrer do último ano. Apesar da irritação, sorriu, sentindo orgulho suficiente para dissipar as nuvens negras lá em cima.

— Tudo bem, faça isso. Se vir qualquer pessoa montada, corra como se o diabo estivesse atrás de você, certo? Se os homens do barão vierem procurar os parceiros desaparecidos, não quero que o peguem. Está entendido?

— Claro que está. — Rowan ainda parecia um pouco pálido depois da cena à qual assistira, mas estava decidido a não hesitar diante do pai. Observou Thomas pegar a cobertura de couro do arco e descer a estrada rumo à cidade.

A chuva caía com mais força, atingindo Rowan ali em pé no morro exposto. As gotas pareciam rugir pela terra, e, descontente, ele olhou em volta ao perceber que estava sozinho com meia dúzia de mortos. Começou a reunir os cavalos, tentando não olhar as faces pálidas que o fitavam e afundavam aos poucos no mato que se curvava sob seu peso.

O salão fedia a lã úmida, o ar pesado com o cheiro. Em épocas mais normais, ali era o mercado de dezenas de proprietários. Para lá, levavam sacos de velo oleoso para serem avaliados e separados por especialistas de Londres e Paris antes que os preços fossem determinados para cada temporada de tosquia. As ovelhas que baliam eram uma dádiva de Deus para os fazendeiros, a lã que produziam era tão valiosa quanto a carne, e havia até queijo de leite de ovelha, embora só fosse popular em certas regiões do sul da França. A última enxurrada de pedidos fora entregue um mês antes, no começo do verão. Talvez por terem ouro no bolso, os homens que compareceram estavam com uma atitude agressiva, a raiva e a consternação evidentes. À luz do crepúsculo, tinham arrumado os bancos de madeira que geralmente serviam para marcar cercados para as vendas. A discussão já estava acirrada quando Thomas entrou em silêncio pelos fundos, a camisa limpa parecendo rija e lhe provocando coceiras por causa do suor do dia.

Conhecia todos os homens ali, alguns melhor que outros. O que se intitulava barão Strange se dirigia ao restante quando Thomas murmurou um cumprimento a um vizinho e aceitou um lugar na frente. Sentiu o olhar do barão cair sobre ele quando se instalou, mas simplesmente se sentou e ficou quieto por algum tempo, avaliando o clima do salão. Conseguia sentir um suor novo surgindo na pele com o calor crescente dentro da construção de madeira. Havia tantos corpos ali amontoados quanto num dia de feira, e ele se remexeu, sentindo-se desconfortável. Desde sempre detestava ajuntamentos de homens. Uma das alegrias da vida era andar livre e sozinho nos morros de suas terras.

— Se alguém tiver mais informações, que se apresente — dizia o barão.

Thomas levantou a cabeça, sentindo o olhar do homem deixá-lo. Ele observou que o barão Strange untara novamente o cabelo, formando uma mancha negra e escorregadia de cachos brilhantes que emoldurava o rosto desgastado pelo sol e pelo vento. Ao menos o barão tinha a aparência adequada à figura, fosse ou não real sua pretensão à nobreza. Thomas pôde ver a massa de músculos de seu pescoço e o ombro direito se deslocar enquanto gesticulava, legado de décadas brandindo uma espada pesada. O barão Strange não era fraco de corpo, e sua arrogância, bastante visível. Ainda assim, Thomas sempre o percebera como um sino rachado cuja nota soava desafinada. Se sobrevivessem à crise, Thomas prometeu pagar uma busca nos arquivos de Londres. Ouvira dizer que andavam falando em fundar por lá uma instituição heráldica, com todos os registros familiares do reino inteiro reunidos num só lugar. Sairia caro, mas queria saber se Strange andava enganando seus melhores homens ou se tinha mesmo direito ao título. Ele dava a Strange influência na reunião de expatriados e explicava por que o barão se levantara para se dirigir ao grupo e por que lhe davam ouvidos.

— Em épocas normais — continuou Strange —, emprego alguns homens para me transmitir informações em troca de certa quantia. Todos se calaram em Anjou. A última notícia que tive foi de que o rei francês em pessoa cavalgava pelo vale do Loire. Todos vimos as famílias expulsas passarem por Maine! Agora, esses escriturários ingleses de casaco preto estão em todas as cidades das redondezas, mandando-nos recolher tudo e partir. Estou lhes dizendo, fomos comprados e vendidos por nossos próprios senhores.

Uma onda de alvoroço percorreu o salão, e o barão levantou as mãos para inibi-la.

— Não estou dizendo que o rei Henrique sabe disso. Há homens em alta posição na corte que poderiam intermediar um acordo, que poderiam organizar a traição sem o conhecimento do rei. — O ruído elevou-se a um clamor e o barão ergueu a voz acima deles. — Bom, que outra palavra usar senão traição quando proprietários ingleses têm suas terras roubadas debaixo dos próprios pés? Comprei os direitos a minha propriedade de boa-fé, cavalheiros. Pago meu dízimo aos homens do rei todo ano. Metade dos senhores foram soldados com o bom senso de usar o que arrecadaram para comprar ovelhas e terras. Nossas terras, cavalheiros! Os senhores entregarão docilmente suas escrituras a algum soldado francês todo marcado de varíola? Terras e propriedades pelas quais suaram e sangraram mais de cem vezes?

Um rugido de fúria foi a resposta, e Thomas olhou em volta, pensativo. Strange sabia manipular, mas a verdade era um pouco mais complexa. O rei Henrique era o verdadeiro dono das terras, da menor aldeola da Inglaterra e do País de Gales até metade da França. Seus condes e barões administravam grandes extensões e coletavam dízimos e tributos em troca de fornecer soldados ao rei. A verdade poderia estar atravessada na garganta de todos os homens ali, mas, deixando a arrogância de lado, todos eram locatários do rei.

Thomas esfregou a ponte do nariz, sentindo-se cansado. Não participava da política de Maine; preferia passar o tempo em suas terras e só ia à cidade para a feira e para comprar mantimentos. Soubera dos escriturários que infestavam todas as cidades com seus avisos e ameaças de expulsão. Como os outros, Thomas sentia uma raiva cega dos nobres que, aparentemente, o tinham traído enquanto ele trabalhava por sua família. Ouvira os boatos de Anjou semanas antes, mas, aparentemente, parecia que todos foram confirmados.

— Eles podem chegar aqui no Natal, cavalheiros — continuou o barão Strange quando o barulho começou a diminuir. — Se for verdade que o preço desse armistício foram Anjou e Maine, até o fim do ano estaremos nos juntando na estrada às famílias expulsas. — Ele estalou os nós dos dedos com maldade, como se desejasse uma garganta para segurar e esganar. — Ou abandonamos tudo o que construímos aqui ou nos defendemos. E estou lhes dizendo: neste lugar, defenderei minhas terras. Tenho...

Ele teve de parar quando um urro de concordância se elevou dos fazendeiros e proprietários nos bancos.

— Tenho 68 chefes de família trabalhando em meus campos, velhos soldados que ficarão ao meu lado. Posso acrescentar mais duas dúzias de cavaleiros, e tenho dinheiro para mandar buscar mais na Normandia inglesa. Se os senhores juntarem seu ouro ao meu, talvez consigamos contratar homens de armas para virem ao sul nos defender.

Essa ideia levou silêncio à multidão, enquanto todos pensavam se abririam mão do ouro ganho com esforço por uma causa que talvez já estivesse perdida.

Thomas se pôs de pé, e o barão Strange franziu a testa para ele.

— Vai falar, Woodchurch? Pensei que você se mantinha à parte de todos nós.

— Tenho uma propriedade, barão, igual ao senhor. É meu direito falar.

Ele se perguntou como o barão reagiria ao descobrir que tinha seis homens de armas a menos do que pensava. Não pela primeira vez, Thomas se arrependeu do que fizera naquele dia.

De má vontade, Strange fez um gesto rijo e Thomas avançou e se virou para encarar a todos. Apesar de todo o seu amor à solidão, ele passara a conhecer os ingleses, os galeses e os escoceses daquele salão, e vários o saudaram ou lhe deram boas-vindas.

— Obrigado — disse Thomas. — Agora, ouvi mais boatos na última semana que no ano passado inteiro, e preciso conhecer a verdade concreta. Se os franceses avançam para o norte este ano, onde está nosso exército para lhes dar um tapa na cabeça e mandá-los para casa? Essa conversa de armistício não passa de história. Por que York não está aqui, nem Somerset, nem Suffolk? Temos três nobres de alta posição na França que podem mandar homens à linha de combate, e não vejo nem pelo nem couro de nenhum deles. Mandamos mensagens à Normandia? Alguém?

— Eu mandei — respondeu Strange por eles. A boca se contorceu, irritado com a lembrança. — Não recebi resposta do duque de York, nenhuma palavra. Eles nos abandonaram para que nos defendêssemos por conta própria.

Strange teria continuado, mas Thomas o interrompeu, a voz grave e lenta urrando sobre o grupo. Já tomara sua decisão. Irritava-lhe apoiar o barão, mas não havia escolha, não para ele. Tudo o que tinha estava em suas terras. Se abandonasse a propriedade, ele e a família teriam de pedir esmola nas ruas de Portsmouth ou Londres.

— Mandarei minhas meninas de volta à Inglaterra enquanto avaliamos as dificuldades que virão. Sugiro a todos que façam o mesmo, se ainda tiverem família aqui. Mesmo que não tenham, vocês têm recursos suficientes para deixá-las em estalagens na Normandia ou na Inglaterra. Não podemos manter o foco com mulheres para proteger.

— Então você se unirá a mim? — perguntou o barão Strange. — Deixará de lado nossas divergências e ficará ao meu lado?

— Jesus, barão, eu ia lhe pedir que ficasse ao meu lado — respondeu Thomas, um sorriso de cantos de boca. Os homens na sala riram e o barão corou. — Seja como for, não abrirei mão de minha fazenda, isso posso lhes dizer. Juntarei meu ouro ao seu para contratar soldados, mas precisamos de um ou dois oficiais veteranos também. Melhor ainda seria conseguir um lorde com experiência em combate para emprestar seu nome a nossa pequena rebelião.

A palavra furtou um pouco do humor da sala. Thomas olhou todos em volta, vendo fazendeiros robustos, com mãos ásperas e vermelhas de tanto trabalhar.

— E é isso o que será, se o exército francês vier bater a nossa porta. Ah, já vi ingleses derrotarem forças francesas maiores. No passado, vi as costas de alguns soldados franceses fugindo de mim. — Ele parou para que a onda de risos morresse. — Mas não podemos manter as terras com o que temos. Só podemos obrigá-los a pagar por elas.

— O quê? — perguntou o barão Strange, incrédulo. — Fala em derrota antes mesmo de começar a luta?

— Falo do que vejo — retrucou Thomas, dando de ombros. — Para mim não faz diferença. Ainda assim resistirei e lançarei minhas flechas neles quando vierem. Lutarei, mesmo que seja sozinho. Não tenho escolha alguma a não ser essa, não da forma como vejo a situação. Mas, sabe, fui arqueiro antes de ser fazendeiro, e arqueiro inglês, ainda por cima. Não fugimos só porque estamos em desvantagem. — Ele parou para pensar. — Pode ser que, se os detivermos, se os fizermos recuar, os lordes ingleses tenham de nos apoiar. Conheço um homem que me dirá claramente se temos chance, se virá ajuda do norte. Ele possui influência sobre o rei e nos dirá o que precisamos saber.

— Quem? — perguntou Strange. Estava acostumado a ser quem tinha contatos ou pelo menos a pretensão de tê-los. Para ele, ouvir Thomas Woodchurch falar de amigos em altas posições era estranhamente desconfortável.

— O senhor não reconheceria o nome, barão, e ele não gostaria de que eu o usasse. Lutamos lado a lado há anos. Ele me dirá a verdade pela dívida que tem comigo.

— Então guarde seus segredos, Woodchurch. Você me contará se tiver notícias dele?

— Contarei. Peço um mês, no máximo. Se não conseguir encontrá-lo até lá, é porque ele não quer ser encontrado, e estaremos por nossa conta.

O barão Strange mordeu o lábio inferior. Não gostava de Thomas Woodchurch, nem um pouco. Havia algo no sorriso que ele sempre dava ao ouvir seu título que irritava o barão como água fria nas costas. Mas ele sabia que a palavra do homem era digna de confiança.

— Também mandarei cartas aos que conheço — respondeu o barão. — E qualquer um de vocês com amigos no exército deveria fazer o mesmo. Vamos nos reunir de novo daqui a um mês e então saberemos nossa posição.

Thomas sentiu a mão de alguém lhe dar um tapinha no ombro; virou-se e viu diante de si o velho Bernard, um dos poucos homens ali que ele chamaria de amigo.

— Você vem conosco tomar um gole, rapaz? Estou com uma sede horrível depois de tanta falação, e nem fui eu que falei.

Thomas sorriu com ironia. Gostava do velho arqueiro, embora houvesse uma boa probabilidade de que algumas canecas de cerveja significassem ouvir de novo a história de Azincourt. Thomas preferiria caminhar os 13 quilômetros até a casa, mas parou antes de recusar. A maioria dos homens só iria embora depois de molhar a garganta. Thomas sabia que talvez tivesse de lhes pedir que lutassem por ele antes do fim do ano ou da próxima primavera. Não faria mal ouvir o que tinham a dizer.

— Vou, sim, Bern — respondeu.

A expressão de felicidade do velho com a resposta ajudou a aliviar um pouco a escuridão que empestava o estado de espírito de Thomas.

— Acho bom, rapaz. Agora você precisa deixar que o vejam. Esses rapazes precisam de um líder, e aquele Strange não é homem para isso, não em meu modo de ver. O título não lhe dá esse direito, embora alguns achem que dê. Não, rapaz. Eles precisam de um arqueiro com alguma noção do terreno. Tome algumas canecas de cerveja comigo e vou lhe contar o que tenho em mente.

Thomas se deixou levar com o grupo que seguia para a estalagem. Fez uma oração silenciosa para que Derry Brewer pudesse ser encontrado depressa — e que atendesse a um velho amigo.