Pássaro da Tempestade
Capítulo 18
A cidade de Rouen fica uns 160 quilômetros ao sul e a oeste de Calais. Em épocas normais, William a consideraria uma fortaleza. Como capital da Normandia inglesa, assistira a diversas vitórias da Inglaterra, inclusive à execução de Joana d’Arc depois de sua rebelião. William seguira com o exército para o sul, até a cidade, passando por terras que, pela familiaridade, poderiam ser fazendas inglesas em Kent ou Sussex. Atravessara o Sena e chegara a Rouen, três dias antes, numa manhã fria, com a geada do amanhecer chiando sob os cascos da montaria.
A cidade fora testemunha silenciosa de sua chegada, os grandes portões solidamente fechados. William fitara as dezenas de corpos na brisa, pendurados na muralha pelo pescoço. Quase cem deles balançavam e rangiam, muitos ainda mostrando as marcas de violência com manchas marrom-escuras de sangue seco. William fizera o sinal da cruz ao ver aquilo e rezara uma breve oração pela alma daqueles bons homens sem culpa de nenhum crime além de nascerem naquele lugar.
O povo de Rouen soubera que o rei francês estava em marcha e tomara coragem a partir dessa informação. Consumido pela fúria, William mal suportava pensar nos estupros e massacres que deviam ter acontecido no interior daquelas muralhas. Havia centenas de famílias inglesas em Rouen. Ele já tinha visto cidades ruírem, e essas lembranças estavam entre as coisas mais feias a que já assistira. Achou que os enforcados eram os mais afortunados.
Sem os recursos da cidade, fora forçado a criar linhas de suprimento vindas diretamente de Calais, guardando as estradas e perdendo homens de importância vital apenas para manter as carroças rodando. Pelo menos havia água. Rouen era cercada pelo Sena, quase fechada por uma grande curva do rio que cortava o solo fértil da província. Seu exército atravessou o rio pelas pontes de pedra e se instalou em campo aberto ao sul da cidade. Deram as costas a Rouen e começaram o trabalho de fixar no solo estacas de madeira afiadas para defender a posição contra ataques de cavalaria. Uma quantidade ainda maior de seus homens usava a proteção de pesados manteletes de madeira para abordar a cidade silenciosa e trancar os portões com vigas imensas e pregos de ferro do comprimento do antebraço de um homem. Não haveria um ataque súbito pela retaguarda. William só esperava ter a oportunidade de impor represálias aos homens lá de dentro pelo que fizeram.
Os batedores traziam notícias todos os dias, sempre piores que as anteriores. William tinha certeza de que o rei francês não poderia ter escondido a existência de tantos homens treinados. Metade do exército que enfrentaria tinha de ser formado por camponeses convocados para a tarefa, e, no passado, esses homens não obtiveram um bom resultado contra exércitos ingleses. Era um leve fio de esperança, mas não havia muito mais para animar seu espírito com Rouen às costas.
A paisagem aberta apequenava até grandes exércitos, e passou-se quase um mês depois de sua chegada antes que William vislumbrasse os primeiros soldados em movimento a distância. Ele se aproximou com uma dúzia de seus barões mais graduados para observar o inimigo. O que viram não agradou a nenhum deles.
Parecia que os batedores não tinham exagerado. Milhares e milhares marchavam para o norte, rumo à cidade e ao rio. William podia ver blocos de cavalaria e cavaleiros de armadura, além das esperadas fileiras de lanceiros de que o rei francês tanto gostava. Do alto de uma pequena elevação, William observou a chegada dos inimigos enquanto os contava e avaliava, vendo como se moviam. Não demorou para que avistasse um segundo grupo de escudos coloridos e flâmulas adejando na brisa. O grupo de nobres do rei viera à vanguarda. A uma distância de mais de 2 quilômetros, William observou um jovem tolo fazer o cavalo empinar, os cascos chutando o ar. Reavaliou a própria posição, com a consciência desagradável de que tinha de manter abertas as pontes sobre o Sena senão seus homens ficariam presos contra a cidade que os deixara para resistir sozinhos.
William se virou na sela e viu o barão Alton olhando com raiva a distância que se reduzia.
— O que acha, David? — perguntou William.
O comandante deu de ombros com eloquência.
— Acho que são muitos — respondeu. — Podemos ficar sem flechas antes que todos morram.
William deu uma risada, como esperado, embora a piada não o sensibilizasse em nada. Não via tantos soldados franceses desde a batalha de Patay, vinte anos antes. Perceber quanto tempo se passara o fazia se sentir velho, mas ainda recordava aquele desastre — e o massacre de arqueiros ingleses que se seguira. Disse a si mesmo que não cometeria os mesmos erros, e não conseguiu deixar de olhar para trás, por sobre o ombro, o lugar onde seus arqueiros tinham preparado o campo da morte. Nada vivo conseguiria alcançá-los enquanto seus espadachins guardassem o centro. William balançou a cabeça, desejando mais confiança na própria habilidade. Ofereceria uma defesa forte, porque isso ele sabia fazer. Podia ao menos agradecer ao rei francês por não parar e forçá-lo a atacar. O rei Carlos devia estar confiante, mas, com tamanho efetivo, tinha todo o direito de estar.
— Já vi o suficiente aqui — declarou William com firmeza. — Acho que devemos reagrupar os homens. Milordes, cavalheiros. Comigo. — Fez o cavalo dar meia-volta, e eles trotaram às linhas inglesas novamente. William se forçou a cavalgar sem olhar para trás, embora sentisse o inimigo chegando.
Enquanto atravessavam as filas de estacas afiadas, William mandou, com um gesto, que dois condes e meia dúzia de barões assumissem posição. Cada um deles comandava centenas de homens de armas, rijos combatentes protegidos por pesada cota de malha sob a túnica. Tinham deixado os cavalos além do rio, embora William ainda ficasse preocupado com o que parecia uma rota de fuga. Sabia que essas coisas não soavam bem para os arqueiros, pois eles não tinham montaria. William se lembrou de novo do modo como os cavaleiros montados haviam fugido em Patay, deixando os arqueiros indefesos para serem massacrados. Jurou que isso não aconteceria outra vez, mas ainda assim lá estavam os cavalos, uma grande manada de milhares pronta a fugir correndo se a batalha não corresse bem.
Conforme o exército francês se aproximava, William foi mais uma vez de um lado ao outro da linha, trocando algumas palavras com comandantes e comentando sua posição. Para defender a várzea, não havia nada a fazer senão esperar, e William tomou um gole d’água do cantil enquanto os franceses se aproximavam cada vez mais. Depois de algum tempo, ele assumiu seu lugar no centro da formação, um dos poucos homens montados ali entre os que portavam espada e escudo. A cavalaria defendia o flanco direito, mas só atacaria se o próprio rei francês se expusesse ou se os franceses fossem encurralados. William, engolindo em seco com o tamanho do exército que chegava para matá-lo, duvidou que fosse ver veria uma coisa daquelas, não naquele dia.
Quando a distância encurtou, William pôde divisar o volume dos manteletes usados pelos besteiros do rei francês. Os pesados escudos de madeira exigiam três homens cada para serem empurrados sobre rodas, mas dariam proteção até contra a tempestade de flechas que o comandante inglês podia provocar. William franziu a testa ao ver as colunas avançando devagar, com os manteletes na frente, como um elmo blindado. Via os nobres franceses cavalgando ao longo das colunas, rugindo ordens. Moviam-se com determinação, pensou, embora ainda apostasse nos arcos longos contra eles. Seus arqueiros também possuíam barreiras pesadas de madeira que podiam levantar ou baixar para se proteger de barragens de dardos ou pedras lançadas por fundas. William agradeceu a Deus por não haver máquinas de cerco nem canhões no exército francês. Tudo o que ouvira dizer tornava isso improvável, mas ainda assim ficou aliviado. Os franceses avançavam rapidamente, correndo para ocupar a Normandia antes que o verão terminasse. As pesadas máquinas de guerra chegariam depois deles, prontas para os futuros cercos. Até então, as armas mais poderosas em campo eram os arcos longos ingleses.
No centro francês, a cavalaria trotava junta, numa massa. William quase sorriu ao vê-la, como alguém que cavalgara para o combate mais vezes do que conseguiria contar. Era fácil imaginar as bravatas e o riso nervoso e excessivo enquanto se aproximavam da posição inglesa. Ele fez uma curta oração a seu santo padroeiro e à Virgem Maria, depois baixou a viseira do elmo, reduzindo o que conseguia ver a uma fímbria de luz.
— Arqueiros, preparar! — gritou pelo campo.
William observou os besteiros franceses empurrarem os manteletes numa linha escalonada para dar a melhor proteção possível. Mas, para alcançar as linhas inglesas, os cavaleiros inimigos teriam de sair de sua sombra. Ele trincou os dentes, ouvindo a própria respiração soar barulhenta no interior do elmo. Deteria o rei francês diante de Rouen. Era preciso.
Ele conseguiu ouvir ordens berradas à distância, sons tênues trazidos pelo vento. A massa de lanceiros inimigos parou e a cavalaria no centro puxou as rédeas. Os dois exércitos se encararam, a força francesa quase cinco vezes maior que a dele, um verdadeiro mar de ferro e escudos. William fez o sinal da cruz quando as fileiras de besteiros avançaram. Era uma bênção que não tivessem o alcance de seus arqueiros. Para se aproximar o suficiente para matar, tinham de chegar ao alcance dos arcos de teixo. Seus arqueiros, de túnicas frouxas e calças justas, estavam de bom humor, esperando que eles fizessem exatamente isso.
Os últimos 180 metros eram chamados de “a mão do diabo” pelos soldados franceses. William ouvira a expressão anos antes, e a recordou enquanto os besteiros andavam com as armas ao ombro, ainda longe demais para atingir as linhas inglesas. Não podiam correr com os pesados manteletes empurrados junto deles. Os que corriam à frente tinham pagado um preço alto por isso nas batalhas do passado. Agora tinham de caminhar o último oitavo de quilômetro, sabendo o tempo inteiro que estavam ao alcance das flechas.
William ergueu a mão e a baixou de repente, deflagrando com o gesto o voo de milhares de flechas ao mesmo tempo, depois outra e outra vez. Ele nunca deixava de se maravilhar com a pontaria dos homens que treinavam sua arte havia vinte anos. Sabia que eram desprezados pelos cavaleiros de armadura, vistos como homens que matavam como covardes. Mas aqueles arqueiros dedicavam quase a vida inteira a obter habilidade e força, como qualquer soldado treinado. Galeses e ingleses em sua maioria, com alguns escoceses e irlandeses aqui e ali, conseguiam mirar e derrubar um homem a 360 metros de distância. Não havia no mundo nada igual a eles, e William sentiu uma onda de alegria quando os besteiros começaram a cair.
Os manteletes protegiam muitos inimigos que se aproximavam cada vez mais em suas colunas. Os arcos longos lançavam além dos escudos de madeira, e as flechas caíam sobre os homens amontoados atrás deles, cem delas de cada vez, perfurando as fileiras amontoadas. William ouviu gritos e sentiu uma onda atravessar a cavalaria francesa. Havia homens orgulhosos ali, cavaleiros e nobres senhores que não se dispunham a ver os odiados arqueiros ingleses provocar o caos.
— Que ataquem — sussurrou William a si mesmo.
Já vira aquilo, cavaleiros em frenesi tentando enfrentar o ataque das flechas. Eles conheciam o medo das hastes velozes e lamuriosas. Eram homens que reagiam ao medo com fúria.
— Por favor — sussurrou William novamente. — Jesus, são Sebastião, façam com que ataquem.
A mão do diabo já fora ultrapassada, e os besteiros tinham forçado os manteletes até uma proximidade suficiente para retomar a formação e reagir. Pela primeira vez, o ar se encheu de dardos negros, não maiores do que o dedo de um homem, mas fatais. Em toda a linha inglesa, os escudos se ergueram e se uniram. O som dos dardos batendo lembrava granizo, um matraquear ensurdecedor que atingia os homens nos espaços entre a proteção, e eles gritavam.
William ergueu o próprio escudo, embora soubesse que os dardos de ferro não perfurariam sua armadura, a não ser por muito azar. Vira batalhas em que a troca de dardos e flechas podia prosseguir durante dias antes que os exércitos se chocassem, mas ele contava com a confiança francesa na vantagem numérica. Tinha certeza de que já havia vozes clamando por um ataque súbito, insistindo com o rei francês para que lhes permitisse pegar seus arqueiros de surpresa. Ele planejara isso.
Flechas brancas com plumas de ganso se erguiam como um tapete de estranhas ervas em volta dos manteletes franceses. Os besteiros tinham sofrido com a falta de potência e pontaria. Centenas deles haviam caído ou mancavam de volta pelas linhas com ferimentos terríveis. William viu a onda passar mais uma vez pelos cavaleiros franceses ao avançarem um pouco, os cavalos bufando e batendo os cascos.
Ele vociferou a ordem que discutira com o barão Alton. Foi passada aos arqueiros, que pareceram previsivelmente desdenhosos. Alguns cuspiram no chão em sua direção, mas William não se importava com o que pensassem da tática, desde que obedecessem.
Quando a próxima saraivada de dardos de ferro chegou, centenas de arqueiros se jogaram no chão, como se tivessem sido atingidos. Um grande viva subiu dos besteiros, respondido pelo centro. O coração de William disparou ao ver os cavaleiros esporearem e saírem a meio galope pelo centro, ignorando todas as ordens de parar em seu prazer de ver os arqueiros em confusão. Tinham uma vantagem numérica imensa e avassaladora, e lutavam com seu rei em campo, decididos a impressioná-lo e ganhar fama.
William esperou enquanto eles se aproximavam, o coração batendo forte, até estarem totalmente vendidas e ao alcance dos arcos. Apesar das dúvidas, os arqueiros gostaram do subterfúgio e lançaram algumas flechas despropositadas como se a grande tempestade tivesse se reduzido a nada.
— Esperem! Parem! — rugiu William.
Os homens deitados no chão sorriam como idiotas, ele podia vê-los. O barão Alton tinha uma expressão selvagem, os olhos arregalados observando William, à espera da ordem.
— De pé! Arqueiros de pé! — berrou William.
Ele observou os “mortos” se erguerem num pulo e porem novas flechas nos arcos. Nisso, a investida francesa não podia recuar. Não podia parar. Os cavaleiros haviam passado pelos manteletes, espalhando-se ao redor deles no desejo de encontrar e matar o inimigo. Tomaram as posições de seus próprios besteiros, assim como tinham feito em Crécy. William cerrou o punho dentro da manopla, fazendo couro e metal rangerem.
Os cavaleiros em investida fitavam os espadachins amontoados diante deles. Aqueles homens de armas ergueram as espadas, gritando e gesticulando para que viessem. Com um estalo reverberante, centenas de flechas soltaram-se das cordas, ceifando os franceses com um zumbido de terror.
As primeiras fileiras se esfarelaram, desmoronando enquanto os homens e os cavalos mais próximos eram atingidos várias vezes. Foi como se um barbante enegrecido tivesse sido esticado numa estrada deserta, sendo os cavaleiros franceses a recebê-lo na garganta. Morreram aos montes até que a massa crescente de feridos e cadáveres forçou a interrupção furiosa da investida.
William gritou uma ordem e o centro inteiro de seu exército avançou. Ele foi com os homens armados de espadas e machados, as armas erguidas para matar enquanto corriam o mais depressa possível. Chegaram à linha dos mortos em pouco tempo, escalando cavalos que ainda se debatiam e caindo sobre o ajuntamento de cavaleiros montados atrás deles. O tempo todo as flechas sobrevoavam sua cabeça e matavam homens que sequer viam o que os atingira.
William observou um grupo de ingleses robustos e armados de machado abrir caminho em meio a uma dezena de cavaleiros, derrubando-os das selas. A grande vantagem do cavalo era a velocidade e a agilidade, mas as linhas estavam comprimidas e os cavaleiros franceses mal conseguiam se mexer para lutar.
William viu lanças sendo descartadas com repulsa e espadas desembainhadas para atacar, enquanto os vibrantes açougueiros ingleses matavam descontroladamente nas linhas francesas. Exultou com os danos causados, mas, de cima da sela, conseguia ver além dos homens que estavam no chão. Quando ergueu os olhos, seu coração se apertou. A ação violenta não tocara o grosso do exército francês. Eles se moviam e se deslocavam sob novas ordens para contorná-lo e atacar pelos flancos. Eram tantos! Aquilo tornou seu triunfante estratagema e o ataque súbito tão perigosos quanto uma pequena escaramuça.
Ele se virou para os mensageiros que corriam a seu lado.
— Encontrem o barão Alton e lhe transmitam meus cumprimentos. Digam-lhe que eu gostaria que nossos cavaleiros montados fossem usados para evitar que a cavalaria inimiga nos flanqueasse.
Um deles correu e, para William, o tempo pareceu congelar enquanto seus homens golpeavam e matavam por ele. Aguardava a resposta de Alton. A cavalaria francesa finalmente recuava do amontoado inviável no centro. William pôde ver novos regimentos de lanceiros marcharem friamente para onde acontecia a matança. Era uma manobra impressionante sob pressão, e ele supôs que a ordem viera do próprio rei, o único homem naquele campo com autoridade para ordenar a seus cavaleiros que recuassem.
A linha de espadachins ingleses avançou, matando todos a seu alcance. Nisso, tinham ido longe demais para receber o apoio dos arqueiros, o que fez William hesitar. Seus homens de armas tinham avançado numa longa coluna enquanto perseguiam o inimigo. Além dos flancos expostos, corriam o perigo iminente de ficarem isolados. Ele olhou novamente a distância e balançou a cabeça com o efetivo ainda intocado pela batalha. Contra todas as esperanças, torcera por uma confusão que dobrasse as linhas francesas sobre si mesmas no terror súbito do ataque. Não acontecera, e William sabia que tinha de recuar. Mas a cavalaria pesada de Alton se movia pelos flancos e, quando olhou para trás, viu centenas de arqueiros avançando, tentando acompanhar o movimento da frente de batalha para continuar causando danos.
William se percebeu suando. Ainda estava em imensa desvantagem numérica, mas avançando com um bom ritmo contra regimentos de lanceiros inimigos. Era quase impossível investir com a cavalaria contra aquelas armas cruéis, mas seus homens, com espadas e machados, passariam literalmente através deles, desviando-se das pontas e depois criando o caos entre os homens destreinados que seguravam as armas longas. Sabia que deveria recuar com certa ordem, mas não ainda, não agora.
As fileiras de lanceiros baixaram as pesadas pontas de ferro e partiram em ataque, uma linha de metal afiado e pés em marcha aterrorizante de enfrentar. Os homens de armas ingleses prepararam os escudos, sabendo que tinham de desviar a ponta de lança mais próxima com a espada e depois enfiá-la com um impulso direto para matar seu portador. Era um golpe difícil de realizar com o coração disparado e as mãos escorregadias de sangue e suor. Muitos erraram e foram empalados, as pesadas lanças empurradas tanto pelos homens que corriam atrás quanto pelos que as seguravam. Outras centenas desviaram as lanças e usaram as espadas, mas a correria e a pressão eram tão grandes que também foram engolidos, derrubados pelo peso da investida. William praguejou, gritando para que seus homens recuassem e refizessem a formação. Virou a montaria e trotou uns cem passos para a retaguarda antes de encarar o inimigo outra vez. Eles ainda avançavam, rugindo de empolgação apesar das baixas.
— Arqueiros! — gritou William, pedindo a Deus que o ouvissem acima do ruído da batalha.
Ele escutou atrás de si o estalo dos arcos se soltando e surgiram buracos na linha de lanças. Aqueles homens precisavam de ambas as mãos para equilibrar as hastes pesadas. Os camponeses não possuíam escudo, e as vestes de couro fervido não ofereciam nenhuma proteção contra as flechas que as perfuravam. A investida da infantaria oscilou quando os arcos de teixo lançaram saraivada após saraivada.
Apesar da carnificina do ataque, era a visão dos odiados arqueiros que mantinha o avanço dos lanceiros franceses. De pé, em filas bem espaçadas, usando roupas marrons simples como agricultores, os arqueiros eram os monstros de mil histórias e desastres. As fileiras de lanceiros continuavam, loucas para alcançar os homens que, calmamente, matavam seus amigos. Era tudo o que sabiam: a única fraqueza do arqueiro. Se fosse alcançado, poderia ser morto.
William foi forçado a recuar uma vez mais. As fileiras de espadachins o acompanharam, enquanto as linhas de lanceiros se reorganizavam e deixavam os mortos para trás. Passo a passo, as forças inglesas perdiam o terreno que tinham conquistado no primeiro avanço, até chegarem de volta à posição inicial. Ali, firmaram-se e ficaram com espadas e escudos erguidos, ofegantes, à espera.
Alguns arqueiros foram lentos demais para recuar com eles, e sumiram numa maré de homens e fúria em movimento. Mas cerca de oitocentos conseguiram retornar a seus manteletes e estacas. Viraram-se mais uma vez para os lanceiros com sangue nos olhos.
Aquelas saraivadas de flechas não voaram alto. Enquanto os regimentos de lanceiros continuavam a atacar, as flechas foram lançadas em tiros curtos e picotados, calando gritos de guerra e fazendo os homens caírem de joelhos. Grandes buracos surgiram nas linhas, e lanças caíram ou balançaram para cima, para o céu. Toda a linha francesa tentou desacelerar em vez de correr para o fogo ardente. Os que estavam atrás se comprimiram, as lanças densas como os espinhos de um ouriço, uma floresta de madeira e ferro.
Os lanceiros pararam, cambaleantes, ensanguentados, e os arqueiros pegaram novas flechas nos cestos e as lançaram até as mãos ficarem cobertas de sangue e ombros e costas doerem e se rasgarem a cada disparo. Contra um inimigo parado, a matança era selvagem, e eles se deleitaram.
Os regimentos franceses finalmente recuaram, incapazes de forçar mais o avanço. Eles correram, virando-se de costas e depois sentindo a onda de terror que dava asas aos pés. Atrás deles, os arqueiros deram vivas e uivaram como lobos.
William sentiu um jorro de prazer que durou até observar suas forças. Perdera uma grande quantidade de homens só na primeira ação, talvez seiscentos ou um pouco mais. Fechou os olhos, sentindo-se enjoado de repente. A sua frente, os cavaleiros franceses estavam se reunindo de novo, e o rei chegara até a mandar pequenos grupos à vanguarda para deslocar os manteletes para posições melhores. Os arqueiros ingleses reagiram com uma dezena de meninos que saíram correndo e recolheram flechas nos braços, arrancando-as do chão em grandes maços. Um besteiro solitário mirou com cuidado e atingiu um dos rapazes que se virava para voltar. Ele caiu e as flechas se derramaram como uma pena branca, e os companheiros rugiram de raiva.
Os franceses iam atacar de novo, William tinha certeza. Podia ver mais de 8 mil inimigos que ainda não haviam entrado em combate naquele dia. Seus soldados provocaram uma destruição sangrenta, mas o preço fora alto e simplesmente havia inimigos demais prontos para atacar.
— A segunda investida vem aí, Alton! — gritou William do outro lado do campo.
Enquanto falava, o cavalo bufou, caiu de joelhos e quase o derrubou. Com a armadura pesada, William apeou devagar, sem muito jeito. Viu dois furos ensanguentados no peito do animal, atingido por dardos. Viu gotículas rubras no focinho e, angustiado, deu uns tapinhas de leve no pescoço vigoroso, já procurando outra montaria que o levasse.
— Um cavalo aqui! — pediu, esperando com paciência seus mensageiros encontrarem e levarem até ele uma das montarias de reserva. Foi a primeira vez naquela manhã que viu o campo de batalha da altura de seus homens de armas, e ficou boquiaberto com a largura das fileiras que ainda o enfrentavam. Os franceses tinham perdido uma quantidade incapacitante, talvez 2 mil contra as centenas dos seus. Em outras circunstâncias, a vitória seria sua. Mas o rei ainda vivia, e sua fúria e amargura só teriam crescido.
— Mais uma investida — murmurou William conforme o ajudavam a montar. Na privacidade dos próprios pensamentos, sabia que, com certeza, teria de recuar depois dela. Dissera aos arqueiros sobreviventes que corressem para as pontes enquanto os cavaleiros e homens de armas lutavam na retaguarda. Isso ele podia fazer, disse a si mesmo, redimir aquela honra. Até então, teria de sobreviver a outra carga maciça de um inimigo que sentia sua fraqueza.
— Arqueiros, preparar! — berrou.
Poucos besteiros tinham sobrevivido à confusão em torno dos manteletes. Se os franceses queriam uma vitória aquele dia, teriam de atacar os arcos de teixo que detestavam. Com esforço, William tirou o elmo, querendo respirar e ver com clareza. Eles estavam se aproximando, e os arqueiros já curvavam os arcos, à espera. Ele mantinha viva uma fagulha de esperança devido àqueles homens — e àqueles homens apenas.