Pássaro da Tempestade

Conn Iggulden · Capítulo 20 de 43

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Pássaro da Tempestade

Capítulo 14

 

Jack Cade tropeçou ao tentar dançar uma giga no belo gramado. Não havia lua, e a única luz em quilômetros era a da casa que incendiara. Ao agitar os braços, deixou cair a jarra que levava e quase chorou quando ela se quebrou em dois pedaços perfeitos e o precioso conteúdo se espalhou. Metade da cerâmica quebrada continha um pouco do líquido ardente, e ele a virou e bebeu o resto, sem notar que cortava os lábios nas bordas afiadas.

Inclinado para trás, o rosto corado, ele rugiu para as janelas que já refletiam as labaredas que se esgueiravam para o telhado.

— Eu sou um bêbado de Kent, seu galês covarde! Eu sou tudo o que você disse que eu era da última em que me açoitou as costas! Eu sou um homem violento e filho de uma puta! E agora pus fogo em sua casa! Venha cá ver o que tenho para você! Está aí dentro, magistrado? Pode me ver aqui, a sua espera? Está ficando quente, seu corvo perturbador de ovelhas?

Jack jogou nas chamas seu caco de cerâmica e cambaleou com o esforço. As lágrimas corriam por seu rosto e, quando dois homens vieram correndo atrás dele, virou-se com um rugido, os punhos cerrados e a cabeça baixa com o instinto de lutador.

O primeiro homem a alcançá-lo era mais ou menos do mesmo tamanho robusto, com a pele clara e sardenta e uma massa desgrenhada de cabelos e barba ruivos.

— Calma aí, Jack! — exclamou, tentando segurar um braço que passou por sua cabeça num golpe malsucedido. — É o Patrick... Paddy. Sou seu amigo, lembra? Em nome de Cristo, vamos embora agora. Você será enforcado se não vier.

Com um rugido, Jack se soltou dele, virando-se de novo para a casa.

— Quero estar aqui quando o corvo for obrigado a sair. — Sua voz subiu para um mugido quase incoerente. — Está me ouvindo, seu pintinho galês? Estou aqui fora a sua espera.

O terceiro homem era magro, de cotovelos e falanges proeminentes com bochechas cavadas e braços nus e compridos. Robert Ecclestone estava tão pálido e esfarrapado quanto os outros dois; a pele das mãos era marcada por manchas escuras que pareciam sombras a se mover à luz das chamas.

— Você já mostrou tudo a ele, Jack — interveio Ecclestone. — Por Deus, já mostrou tudo muito bem. Isso vai queimar a noite inteira. Mas Paddy tem razão. Você tem de ir embora antes que os meirinhos cheguem.

Jack se virou para Ecclestone antes que ele terminasse de falar, agarrou o colarinho da jaqueta do amigo e o levantou. Em resposta, a mão de Ecclestone virou um borrão e uma longa navalha surgiu na garganta de Jack. Embora bêbado, o toque frio bastou para o fazer parar.

— Você puxa a faca pra mim, Rob Ecclestone? Para seu próprio companheiro?

— Você pôs as mãos em mim primeiro, Jack. Ponha-me no chão devagar e ela vai sumir. Somos amigos, Jack. Amigos não brigam.

Jack abriu o punho que o segurava e, fiel a sua palavra, Ecclestone dobrou a lâmina e a enfiou sob o cinto, nas costas. Quando Jack recomeçava a falar, todos ouviram o mesmo som e se viraram simultaneamente para a casa. Acima do estalar e do uivo das labaredas, ouviram a voz de crianças chorando.

— Que merda, Jack. Os filhos dele estão lá — disse Paddy, esfregando o queixo. Ele olhou a casa com mais atenção, vendo que todo o andar térreo estava em chamas. As janelas de cima ainda estavam inteiras, mas quem entrasse não conseguiria sobreviver.

— Ontem eu tinha um filho — grunhiu Jack, os olhos cintilando. — Até que ele foi enforcado pelo maldito Alwyn Judgment. Até que esse magistrado galês, que nem é de Kent, o enforcasse praticamente por nada. Se estivesse aqui, eu o teria livrado disso.

Paddy balançou a cabeça para Robert Ecclestone.

— Hora de ir, Rob. Pegue o braço dele. Temos de correr agora. Amanhã eles virão procurar, se já não estiverem a caminho.

Ecclestone esfregou o queixo.

— Se fossem meus filhos lá dentro, eu já teria quebrado as janelas e os tirado de lá. Por que ele não fez isso?

— Talvez porque nós três estejamos aqui em pé com facas, Rob — respondeu Paddy. — Talvez o magistrado prefira que morram no fogo em vez de ver seus meninos esfaqueados; não sei. Pegue o braço dele agora, senão ele não vem.

Mais uma vez, Paddy agarrou Jack Cade pelo braço e quase caiu quando o homem desolado se contorceu e se soltou. Agora, lágrimas corriam pela fuligem e pela sujeira que cobriam sua pele.

Uma janela explodiu acima de sua cabeça, fazendo todos se abaixarem e se protegerem contra os cacos lançados. Os três viram o magistrado, usando um camisolão encardido, com os cabelos desgrenhados. A janela era pequena demais para escapar, mas ele pôs a cabeça para fora.

— Tenho três meninos aqui — gritou-lhes Alwyn Judgment. — Eles são inocentes. Vocês os pegarão se eu mandar que pulem?

Nenhum deles respondeu. Paddy olhou para o fim da estrada, desejando já estar fugindo por ela. Ecclestone observou Jack, que respirava com dificuldade, um homem que mais parecia um grande touro com a mente enevoada pela bebida. Ele se irritou ao ver o inimigo lá em cima.

— Por que não desce, seu canalha galês? — indagou Jack, balançando ali de pé.

— Porque a escada está pegando fogo, homem! Agora, você pegará meus meninos, por misericórdia?

— Eles vão chamar os meirinhos, Jack — murmurou Paddy, meio entre os dentes. — Se aqueles meninos viverem, vão enforcar a todos nós.

Jack quase bufava, os punhos cerrados de raiva.

— Pode jogar! — berrou. — Vou lhes mostrar mais misericórdia do que você teve por meu filho, maldito Alwyn Judgment.

— Dá sua palavra?

— Você terá de confiar num homem de Kent, não é, seu saco de mijo galês?

As dúvidas que o magistrado poderia alimentar foram superadas pela torrente de fumaça negra que já escapava pela janela em torno de sua cabeça. Ele voltou para o quarto, e puderam ouvi-lo tossir.

— Tem certeza, Jack? — questionou Ecclestone em voz baixa. — Eles têm idade suficiente para mandar nos prender. Talvez eu e Paddy devêssemos desaparecer.

— Eu não sabia que esses meninos malditos estavam lá. O homem mora sozinho, me disseram, se gabando naquela casa grande, enquanto homens melhores têm de procurar um pouco de caça ilegal só para se alimentar. Homens como meu filho, meu filho Stephen. Deus, meu menino!

Jack se curvou enquanto uma onda de pesar o inundava. Gemeu de cabeça baixa, e um longo tentáculo de saliva se entrelaçou ao capim, partindo de seus lábios. Ele só olhou para cima quando a primeira criança assustada foi empurrada com rudeza, chorando e subindo na janela quebrada.

— Pule, fedelho! — berrou. — Jack Cade pega você.

— Jesus Cristo, Jack! — praguejou Paddy. — Nomes, homem. Pare de dizer seu maldito nome!

O menino pulou o mais longe que pôde, flutuando pelo ar como uma sombra em movimento com toda a luz atrás dele. Embora bêbado, Jack Cade o pegou com facilidade e o pousou no capim.

— Espere aí — mandou Jack rispidamente. — Não se mova nem uma polegada, senão arranco suas malditas orelhas.

Paddy pegou o segundo menino, menor que o primeiro. Colocou-o ainda choramingando ao lado do irmão e, juntos, todos olharam para cima.

O mais velho deles gritou de agonia ao ser forçado a passar pelo vidro quebrado. A janela era quase pequena demais para ele, e o pai o empurrava por dentro, deixando pele e sangue para trás quando bloqueou o buraco. Com um impulso, o menino saiu, rolando com um gemido. Jack o segurou no ar como se seu peso não fosse nada.

Mais uma vez, os três homens viram a cabeça do magistrado aparecer, olhando para baixo com uma expressão de fúria e esperança misturadas.

— Agradeço-lhe, Jack Cade, embora você vá queimar no inferno pelo que fez esta noite, seu asno bêbado.

— O que é isso? O que é isso que está me dizendo, seu galês pustulento...

Com um urro como o de um boi moribundo, Jack correu na direção da casa. Tanto Paddy quanto Robert Ecclestone tentaram segurá-lo, mas ele escapuliu das mãos dos amigos e jogou seu peso contra a porta, caindo por cima dela. Labaredas saíram porta afora, fazendo os amigos recuarem. Os dois se entreolharam e depois fitaram as crianças, sentadas no capim com os olhos sofridos e arregalados.

— Não vou entrar aí — avisou Paddy. — Nem por uma entrada no paraíso e uma maldita fortuna.

Ele e Rob se afastaram do calor, olhando o inferno.

— Daí não vai sair nada de bom — comentou Paddy. — Por Deus, ele sempre disse que queria um fim grandioso. Encontrou, não foi? Salvou os garotos e voltou para matar o magistrado.

Eles conseguiam ouvir Jack quebrando tudo no interior da casa, invisível entre as chamas. Depois de algum tempo, tudo ficou em silêncio, e Ecclestone balançou a cabeça.

— Soube que estão procurando trabalhadores em Lincoln para construir uma ponte. Aqui vai ficar quente demais para nós agora. — Ele parou, sabendo que as palavras saíam em péssima hora enquanto o amigo morria na casa em chamas.

— Talvez eu vá para o norte com você, então — respondeu Paddy. Ele se virou para os três meninos que encaravam o incêndio que consumia a casa. — Vocês três vão falar de nós aos meirinhos, não vão? Não importa nem um pouco que tenhamos salvado suas vidas, não é, rapazes?

Dois deles menearam a cabeça em negativa com uma confusão apavorada, mas o menino mais velho o olhou com raiva e se pôs de pé.

— Eu vou contar — declarou. Os olhos brilharam com lágrimas e um tipo de loucura quando ouviu o pai gritar de terror dentro da casa. — Vou mandar enforcar vocês pelo que fizeram.

— Ah, Jesus, é assim que as coisas são? — perguntou Paddy, balançando a cabeça. — Se eu fosse um homem mais severo, rapaz, cortaria sua garganta por uma ameaça idiota como essa. Já fiz coisa pior, pode acreditar. Ah, sente-se, meu filho. Não vou matar você hoje, não. Não com meu amigo morrendo com aquela dor dentro dele. Sabe por que ele veio aqui, garoto? Porque seu pai enforcou o filho dele hoje de manhã. Sabia disso? Por furtar dois cordeiros de um rebanho de mais de seiscentos. Como isso se encaixa em sua linda fúria moralista, hein? O filho dele está morto, mas mesmo assim ele pegou você quando caiu.

O garoto mais velho desviou os olhos, incapaz de continuar sustentando o olhar feroz do irlandês. Um estrondo enorme soou acima deles, e todos ergueram os olhos quando uma seção inteira da parede em chamas ruiu. Paddy se jogou para proteger os meninos, derrubando o mais velho no chão com o impacto. Ecclestone só deu um passo para trás, deixando os pedaços de tijolo, cal e palha velha caírem longe dele. Voltou os olhos para onde o corpo do irlandês grandalhão protegia os filhos do magistrado.

— Você é mole, Paddy, esse é seu problema. Jesus, você não podia...

Paddy se calou e sua boca se abriu quando Jack Cade se lançou pelo buraco acima deles com um corpo nos braços.

Ambos caíram com força, e Jack soltou um grande grito de dor. Ele rolou assim que caiu e, à luz do fogo, todos puderam ver fumaça subindo de seus cabelos e de suas roupas. O magistrado parecia uma boneca quebrada, completamente sem sentido, enquanto Jack se virava de costas e berrava para as estrelas.

Robert Ecclestone foi até ele, observando-o, espantado. Viu que as mãos do amigo estavam em carne viva e marcadas de fuligem. Cada parte exposta de seu corpo parecia ter se queimado ou ter sido arrancada. Cade tossiu, chiou e cuspiu sem forças, ali caído.

— Cristo, como dói! — exclamou ele. — Minha garganta...

Jack tentou se sentar e ofegou com a dor da pele queimada. Os olhos se viraram ao recordar o laguinho do outro lado do jardim; ele se levantou com esforço e se afastou cambaleando.

Ali parado, Paddy observava as três crianças, que só tinham olhos para o pai.

— Ele está...? — sussurrou o menino mais velho.

— Dá para ver que está respirando, embora talvez não acorde depois de toda essa fumaça. Já vi alguns partirem assim.

À distância, todos ouviram o barulho de quando Jack Cade caiu ou se jogou na água fria do laguinho. Os meninos se reuniram em torno do pai, beliscando suas bochechas e dando tapinhas em suas mãos. Os dois mais novos começaram a chorar de novo, enquanto ele gemia e abria os olhos.

— O quê? — perguntou.

O magistrado começou a tossir antes de conseguir falar de novo, um paroxismo violento que continuou e não parou até ele estar prestes a desmaiar outra vez, com o rosto roxo. Só conseguiu sussurrar para os filhos, esfregando a garganta com a mão queimada que escorria sangue por sobre a fuligem.

— Como...?

Ele percebeu que ainda havia dois homens em pé junto a seus filhos. Com um esforço imenso, Alwyn Judgment conseguiu se levantar. Não aguentou ficar totalmente de pé, e descansou com as mãos nos joelhos.

— Onde está Jack Cade? — perguntou-lhes com a voz chiada.

— Em seu laguinho — respondeu Ecclestone. — Ele o salvou, Meritíssimo. E pegou seus filhos, manteve a palavra. E isso não vai importar nem um pouco, não é? O senhor chamará seus meirinhos e todos seremos presos e teremos nossas cabeças espetadas em estacas.

A casa em chamas ainda bufava e cuspia, mas todos ouviram o som de cascos na estrada, subindo até eles no ar noturno. Alwyn Judgment ouviu ao mesmo tempo que Jack Cade saía do laguinho com um gemido que chegava quase tão longe.

— Leve os garotos embora, Paddy — indicou Rob Ecclestone de repente. — Leve-os para a estrada e deixe-os lá, para que os homens do magistrado os encontrem.

— Temos de correr agora, Rob. A única chance é correr como o diabo.

Ecclestone se virou para o velho amigo e deu de ombros.

— Só os leve embora.

O irlandês grandalhão preferiu não discutir com aquele olhar. Juntou os três e segurou o mais velho pelo colarinho quando este começou a se debater e gritar. Paddy o apertou com força para mantê-lo calado e os levou, quase os arrastando pelo jardim.

O magistrado o observou, inquieto.

— Eu poderia prometer deixá-los ir embora.

Ecclestone balançou a cabeça, os olhos cintilando à luz das chamas.

— Eu não acreditaria numa palavra, Meritíssimo. Conheci muitos iguais ao senhor, sabe? Eu e meus amigos seremos enforcados de qualquer jeito, então acho que devo fazer primeiro uma boa ação.

Alwyn Judgment abriu a boca para responder quando Ecclestone deu um passo à frente com a navalha à mão. Com um golpe, abriu uma linha escancarada na garganta do homem e esperou um tempo para ter certeza antes de se afastar.

Jack Cade cambaleava pelo jardim quando viu o amigo matar o magistrado. Tentou gritar, mas a garganta estava tão inchada e ardida que só saiu um sibilo de ar. Ecclestone foi até ele, e Jack conseguiu apoiar no colega um pouco de seu peso, um pouco maior com as roupas encharcadas, enquanto se afastavam da casa em chamas.

— Paddy? — grunhiu Jack para ele, tremendo.

— Ele encontrará o caminho, Jack; não se preocupe com o grandalhão. É quase tão difícil de matar quanto você. Meu Deus, Jack! Pensei que você estava acabado.

— Eu... também... — gemeu Jack Cade para o companheiro. — Ainda bem... que você o matou. Bom rapaz.

— Não sou um bom rapaz, Jack, como você bem sabe. Mas sou um sujeito irritado. Ele não devia ter matado seu filho e pagou por isso. Para onde agora?

Jack Cade inspirou forte e espasmodicamente para responder.

— A casa... do carrasco. Tenho de pôr... fogo nela.

Os dois homens, cambaleando e tropeçando na escuridão, seguiram seu caminho, deixando para trás a casa em chamas e o magistrado morto.

A manhã estava fria e cinzenta, com uma garoa leve que mal conseguia lavar a fuligem oleosa das mãos deles. Quando os três homens voltaram à cidade, Jack teria cruzado diretamente a multidão reunida na praça. Foi preciso que a manzorra de Paddy o empurrasse contra uma parede para detê-lo.

— Haverá meirinhos naquela multidão, Jack, atrás de você. Tenho algumas moedas. Vamos procurar uma estalagem ou um estábulo e esperar a reunião acabar, seja ela qual for. Você pode voltar quando estiver escuro de novo para baixar seu menino.

O homem que o olhava curara um pouco a bebedeira durante a longa noite. A pele de Jack estava rosada e inchada e os olhos azuis bastante injetados. Os cabelos pretos se eriçaram e ficaram castanhos em alguns lugares; as roupas estavam em tal estado de imundície que até um mendigo pensaria duas vezes antes de experimentá-las.

Ele ainda chiava um pouco ao inspirar e rolar os ombros para trás. Tirou do peito a mão do amigo quase com delicadeza.

— Agora escute com atenção, Paddy. Não me resta mais nada, entende? Eles levaram meu menino. Pretendo tirá-lo da forca e deixá-lo a salvo no chão, lá na igreja. Se levantarem a mão pra mim, vão se arrepender. Não tenho mais nada, mas quero fazer essa última coisa agora de manhã, antes de morrer. Se não gosta, sabe o que pode fazer, não sabe?

Eles se olharam com raiva, e Ecclestone pigarreou para interrompê-los.

— Entendo que salvei sua vida tirando você de lá ontem à noite — disse, esfregando os olhos e bocejando. — Não sei como ainda se aguenta em pé, Jack, meu velho. Seja como for, isso significa que você tem uma dívida comigo, portanto, venha tomar um trago e dormir. Há estábulos aqui perto e conheço o chefe. Por um tostão furado ele vai fingir que não viu; já fez isso antes. Não temos de entrar numa multidão que provavelmente se juntou para falar das casas que pegaram fogo ontem à noite. Não quero afirmar o maldito óbvio, Jack, mas você fede a fumaça. Todos fedemos. Se você se enforcasse por conta própria agora, ia lhes poupar o serviço.

— Não pedi a vocês que viessem comigo, pedi? — grunhiu Jack.

Seu olhar vasculhou além deles, fora do beco, na luz da praça. A multidão era barulhenta e havia muita gente na frente do corpo que rangia preso à corda. Mesmo assim, Jack conseguia vê-lo. Conseguia ver cada detalhe do rosto que criara, o menino que fugira com ele dos meirinhos centenas de vezes, com faisões escondidos no casaco.

— Não. Não, não vai dar, Rob. Você fica aqui se quiser, mas estou com minha faca e vou tirá-lo de lá.

Ele firmou o maxilar, os olhos vermelhos brilhando como o diabo despertado. Lentamente, Jack Cade ergueu o punho robusto, um grande amontoado peludo com todos os dedos para dentro, que parecia um martelo ao ser brandido na cara de Ecclestone.

— Não tente me deter, estou lhe avisando.

— Cristo — murmurou Ecclestone. — Você virá conosco, Paddy?

— Você enlouqueceu também? Já viu uma multidão enfurecida, Rob Ecclestone? Vão nos deixar em frangalhos de medo. Por Deus, parecemos os vagabundos perigosos que dizem que somos!

— E daí? Vem ou não vem? — perguntou Ecclestone.

— Vou. Por acaso eu disse que não ia? Não confio que vocês dois consigam fazer isso sozinhos. Que Jesus proteja todos os tolos como nós em suas missões insanas.

Jack sorriu como um menino ao ouvi-los. Deu um tapinha no ombro dos dois e o sorriso cresceu.

— Vocês são bons amigos quando um homem está mal, rapazes. Então, venham. Isso precisa ser feito.

Ele endireitou os ombros e andou rumo à multidão, tentando não mancar.

Thomas observou com certo assombro o barão Highbury tocar uma trombeta e sua tropa de cavaleiros começar um ataque encosta abaixo. No frio da manhã, os cavalos soltavam vapor pelas narinas e desciam depressa, como prata derretida se derramando das árvores. Os cavaleiros franceses que perseguiam seu grupo de arqueiros foram atingidos diretamente, o flanco rompido pelas lanças de Highbury. Em apenas um instante, passaram de caçadores decididos que perseguiam uma presa em fuga a homens desesperados, imobilizados pela terra e esmagados pelo golpe do martelo de Highbury. Thomas berrou com um prazer selvagem ao vê-los cair, homens e cavalos espetados em pontas afiadas. Porém, os homens de Highbury estavam em menor número, mesmo durante a investida, e Thomas podia ver mais e mais cavaleiros franceses chegarem trovejando. O ritmo se desacelerou e aquilo se tornou uma confusão cruel de espadas e uma dança de machados.

— Ataque e recue — sussurrou Thomas. — Vamos, Highbury. Ataque e recue.

Essas três palavras os mantiveram em ação durante duas semanas de luta quase constante, cobrando um preço terrível de ambos os lados. Não havia mais canções nas linhas francesas. A coluna do rei avançava por Maine com batedores e propósito implacável, queimando tudo pelo caminho. Deixavam para trás aldeias e cidades envoltas em fumaça negra, mas pagavam o preço por cada uma delas. Thomas e seus homens cuidavam disso. As represálias ficavam mais violentas a cada dia, e havia uma verdadeira fúria dos dois lados.

Highbury lhe ganhara tempo para escapar, e Thomas agradeceu a Deus por um homem que agia como ele achava que um lorde deveria agir. O nobre barbudo era movido por alguma coisa, isso Thomas descobrira. Fosse qual fosse o crime ou a atrocidade que retribuía, Highbury lutava com coragem exemplar, punindo qualquer um que fosse tolo a ponto de chegar ao alcance de sua espada longa. Os homens o amavam por seu destemor, e o barão Strange o odiava com uma intensidade feroz que Thomas não conseguia entender.

Enquanto subia pelo caminho entre as árvores que seus homens haviam marcado, Thomas parou, tocou o pedaço de pano amarrado a um galho e olhou para trás. Conhecia a terra em volta. Não ficava a mais de 20 quilômetros de sua fazenda, e ele percorrera todos os caminhos e margens de rio com a esposa e os filhos em algum momento. Esse conhecimento local dificultava ainda mais que o exército francês os encontrasse; no entanto, ainda assim, eles avançavam alguns quilômetros todo dia, suportando as emboscadas e matando todos em que punham as mãos. Por um instante, Thomas sentiu desespero. Ele e seus homens vinham regando o chão com sangue francês pelos últimos 64 quilômetros, mas eles não tinham fim.

— Recue agora — indicou Thomas, sabendo que Highbury não conseguiria ouvi-lo.

Os homens do nobre defendiam sua posição, enquanto os franceses ficavam cada vez mais ousados, cavalgando a toda e tentando cercar a pequena força inglesa. O único caminho livre era morro acima, e Highbury não dava sinal de sequer ver a linha de retirada. Sua espada golpeava incansável, a armadura estava rubra com o sangue dos outros, ou com o seu.

O combate se tornou uma confusão de cavaleiros que enxameavam em torno de Highbury, as maças girando para esmagar crânios dentro dos elmos. Estavam a apenas pouco menos de 300 metros, e Thomas viu o rosto de Highbury ser desnudado quando o elmo foi destruído num único golpe reverberante. O nariz escorria em vermelho e os cabelos compridos caíam soltos, açoitando o ar em madeixas encharcadas de suor. Thomas achou que conseguia ouvir Highbury rir ao cuspir sangue e berrar com o homem que o atingira.

— Merda! Saia daí agora! — gritou Thomas.

Acreditou ter visto Highbury parar e se virar com seu rugido, que o arrancou do transe assassino em que estava. O barão começou a olhar em volta. Uma dezena de seus quarenta homens estava sem cavalo, alguns ainda se movendo e atacando qualquer cavaleiro francês que conseguissem atingir.

Thomas praguejou em voz baixa. Conseguia ver reflexos prateados movendo-se em todas as árvores pelo vale. O rei francês designara uma força imensa de cavaleiros para esta ação. Isso significava que os arqueiros que Thomas havia mandado emboscar os franceses na cidade mais próxima enfrentariam menos homens, porém a vantagem numérica poderia levar a confusão do combate até o vale. Thomas agarrou o arco, verificando-o sem olhar as flechas que restavam. Sabia que, se caísse de novo, seria massacrado.

Virou-se ao som de passos que corriam, temendo que algum inimigo tivesse subido por entre seus homens. Suspirou de alívio ao ver Rowan parar de repente com um sorriso estranho. Outra dúzia de homens estava parada, aguardando que Thomas os liderasse por sobre o morro e para além dele.

Rowan viu a expressão do pai quando ambos observaram Highbury extravasar sua dor e sua raiva, lançando-as em torno dele com poderosos golpes de espada. O homem sorria para algo, os olhos esbugalhados.

— O senhor não pode salvá-lo — comentou Rowan. — Se descer para ajudá-lo agora, será morto à toa.

Thomas se virou para olhar o filho, mas só balançou a cabeça.

— São muitos, pai — continuou Rowan. Ele viu o pai passar os dedos sobre as hastes que restavam na aljava, o movimento como um tique nervoso. Fazia um som áspero e seco. Seis pontas bodkin e uma ponta larga, e só.

Thomas xingou com raiva, cuspindo palavras que o filho nunca ouvira sair dele. Ele gostava de Highbury. O homem merecia coisa melhor.

— Leve os outros para longe, Rowan. Passe-me suas flechas e leve os rapazes pelo morro. Peça ordens a Strange, mas também use sua inteligência. — Sem olhar para trás, estendeu a mão para pegar as flechas.

— Não — retrucou Rowan, que estendeu a mão para segurar o braço direito do pai, sentindo os músculos que o deixavam parecido com um galho. — Venha comigo, pai. O senhor não pode salvá-lo.

Thomas se virou e partiu para cima do filho, agarrando a frente de seu gibão verde e empurrando-o um passo para trás. Embora fossem quase do mesmo tamanho, ele levantou o rapaz, de modo que seus pés balançaram nas folhas molhadas.

— Você me obedeça quando eu mandar — rugiu Thomas. — Dê-me suas flechas e vá!

Rowan corou de raiva. Suas mãos grandes se levantaram para segurar as do pai onde ele o agarrara. Os dois homens ali ficaram, imóveis por um momento, testando suas forças, enquanto os outros assistiam à cena de olhos arregalados. Ambos largaram ao mesmo tempo, e ficaram em pé, os punhos cerrados. Thomas não desviou o olhar, e Rowan removeu a correia de sua aljava e a jogou no chão.

— Então pegue e faça o que bem entender.

Thomas pegou um punhado de flechas emplumadas e as juntou às suas.

— Encontro você na fazenda, se puder. Não se preocupe. — Ele ficou imóvel algum tempo sob o olhar furioso do filho. — Dê-me sua palavra de que não vai me seguir lá embaixo.

— Não — retrucou Rowan.

— Maldito menino! Dê-me sua palavra! Não quero que o matem hoje.

Rowan baixou a cabeça, preso entre a raiva cega e o medo do pai. Thomas respirou fundo, aliviado.

— Espere por mim na fazenda.