Pássaro da Tempestade
Capítulo 6
Com o sol se pondo, Derry deixou a cabeça pender enquanto a carroça o carregava pela estrada, praguejando ocasionalmente quando as rodas passavam por buracos e o faziam sacolejar de um lado para o outro. Estava na estrada havia 18 dias, pegando carona quando podia, com os nervos à flor da pele toda vez que ouvia cascos. Não relaxara um instante desde o confronto com o duque de York e, com certeza, não subestimava a ameaça. Sua rede de informantes e espiões nos arredores da fortaleza de Calais lhe trouxera notícias desagradáveis. Os homens do duque não escondiam a vontade de querer dar uma palavrinha com Derry Brewer. Do ponto de vista profissional, era interessante estar na outra ponta do esforço de encontrá-lo, em vez de estar no lugar de quem dava as ordens. Isso pouco servia de consolo ao passo que Derry coçava uma dezena de picadas de pulga na traseira da carroça que rangia.
O condutor que agora fitava a média distância não era um de seus homens. Como centenas de outros viajantes que iam da Normandia para o sul vislumbrar e se maravilhar com os reis, Derry pagara algumas moedas por um lugar na carroça e desistira da ideia de uma viagem rápida e sem paradas até Anjou. Escapara facilmente dos homens de York no porto, mas Calais estava sempre repleta de multidões ocupadas. As trilhas e os caminhos que seguiam para Anjou, ao sul, eram um lugar melhor para encurralar um viajante solitário sem confusão nem testemunhas. Pelo menos o casamento teria acabado antes que ele visse outro pôr do sol. Derry não ousara se hospedar em estalagens na estrada. Era fácil demais imaginar um ataque furtivo para pegá-lo enquanto roncava inconsciente. Em vez disso, dormira em valas e estábulos por duas semanas — e cheirava de acordo. Não quisera chegar tão em cima da hora, mas seus meios de transporte eram todos lentos, quase tão lentos quanto caminhar. Ele havia contado as manhãs e sabia que o casamento ocorreria no dia seguinte. Era uma agonia saber que estava quase lá. Podia sentir as redes de York se fechando em torno dele a cada quilômetro.
Derry passou a mão imunda no rosto, recordando-se de que estava mais parecido com um camponês do que a maioria dos camponeses de verdade. Um chapéu de palha surrado caía sobre seus olhos e as roupas não eram lavadas desde o dia em que tinham saído do tear. Era um disfarce que já havia usado anteriormente e contava que o fedor e a imundície o manteriam a salvo.
Enquanto seguia para o sul, vira cavaleiros passarem com a libré do duque meia dúzia de vezes. Derry tomara cuidado ao esticar o pescoço para observá-los, como qualquer agricultor faria. Os homens de olhos frios tinham fitado todos por que passavam, em busca de um vislumbre do espião-mor do rei.
Ele decidira usar a navalha caso fosse avistado. Era uma linha do mais fino aço, da largura de um dedo, com cabo de casco de tartaruga. Se o encontrassem, ele havia prometido a si mesmo fazer com que o matassem na estrada, em vez de sofrer nas mãos dos torturadores do duque ou, pior ainda, com o prazer presunçoso do homem de pescar um peixe daqueles. Mas os soldados de York sequer pararam ao ver mais um camponês sebento na traseira de um carro de bois.
Podia ser humilhante ser forçado a viajar para o sul daquela maneira, mas, na verdade, Derry gostava do jogo. Achava que essa parte sua é que chamara a atenção do velho Bertle, quando era apenas mais um ex-soldado informante, com os joelhos aparecendo pelas calças rasgadas. Derry administrava um pequeno ringue de lutas nos cortiços de Londres e tinha no bolso todos os homens envolvidos. Com isso obtivera um bom dinheiro, visto que organizava as lutas dependendo das apostas e dava ordens estritas ao lutador que deveria ganhar ou perder.
Só encontrara Bertle uma vez antes da noite em que o velho fora a uma de suas lutas. Vestido de preto, todo empoeirado, Bertle havia pagado um lugar de 1 centavo e observara tudo: dos sinais com os dedos que Derry fazia para os lutadores até o quadro negro de apostas e como elas mudavam. Quando a multidão foi embora para casa, o velho se aproximou com um brilho nos olhos, enquanto Derry pagava a quatro ou cinco homens cansados e machucados seu quinhão nos proventos. Ao reconhecê-lo, Derry mandara embora os rapazes que supostamente poderiam tê-lo levado para uma noitada e deixou Bertle ali sentado, observando. Já passava de meia-noite quando limparam todos os vestígios de que tinham usado o armazém. Quem quer que fosse, o dono não saberia que hospedara lutas naquela noite. Só saberia se encontrasse sangue debaixo da serragem fresca, mas, de qualquer modo, eles nunca usavam o mesmo lugar duas vezes.
Mesmo naquela época, Derry percebera o prazer e a diversão de Bertle ao se misturar com a multidão rude das lutas. Deixara todos os outros se retirarem até o velho ser o único que restava.
— Então o que há, velhote? — perguntara Derry. Lembrava-se do lento sorriso de Bertle na época, um homenzinho rijo que vira quase todos os tipos de maldade e dera de ombros a eles.
— Que belo reizinho de ladrões você é, hein, meu filho? — comentara Bertle.
— Faço tudo certo. Não misturo os bandos, pelo menos não com frequência. Ganho a vida.
— Você faz isso por dinheiro, então, é? Para ganhar o pão honestamente?
— Um homem tem de comer — retorquira Derry.
Bertle apenas havia esperado, erguendo as sobrancelhas. Derry ainda se lembrava de como o rosto do velho se enrugara de prazer quando dera uma resposta franca. Ainda não sabia por que respondera assim.
— Faço porque é divertido, seu velho diabo, tudo bem? Porque não importa quem vença, eu sempre ganho. Satisfeito?
— Talvez. Venha me ver amanhã, Derry Brewer. Talvez eu tenha um servicinho ou dois para você, algo que vale a pena.
O velho tinha saído arrastando os pés na noite, deixando Derry fitando o vazio. Ele tivera certeza de que não iria, claro. Mas fora mesmo assim, só para ver.
Derry sacudiu a confusão de lembranças em sua cabeça, sabendo que não podia simplesmente cochilar enquanto o boi avançava. Havia pensado em muitas coisas a dizer quando se dirigisse ao duque de York no casamento. Desde que encontrasse onde se banhar e trocar de roupa, é claro. O saco imundo no qual se sentava estava cheio de vestimentas cuidadosamente dobradas, boas o bastante para transformá-lo caso conseguisse chegar lá sem ter a garganta cortada. Ele gostaria de saber o que o fazendeiro havia pensado do estranho passageiro que parecia não ter dinheiro para comer, mas podia pagar com boa prata a viagem noite adentro. Derry sorriu para si mesmo ante o pensamento, dando uma olhada nas costas largas do homem. A estrada se silenciara com o pôr do sol, mas eles prosseguiram, pois Derry precisava alcançar seu destino. O fazendeiro chegou a cochilar, embalado pela carroça, acordando uma única vez quando o boi soltou um pum ruidoso, como o estrondo do fim do mundo. A tolice absoluta de sua posição fizera Derry dar uma risada dentro de seu saco.
O céu a leste se iluminou em tons de cinza muito antes de ele enxergar a linha ardente do sol. Derry estivera em Anjou algumas vezes durante suas viagens, trocando mensagens com homens a seu serviço. Sabia que um mês antes, mais ou menos, acontecera o julgamento e a execução de um prestamista judeu, e tinha uma ideia geral das dívidas acumuladas por Renato de Anjou. O homem assegurara sua posição com um pouco de crueldade, avaliava Derry, mas ponderou com indolência se deveria investigar um pouco mais as posses do duque. Antes que a renda de Anjou e Maine lhe chegasse, ele estaria vulnerável. Algumas oficinas queimadas, talvez uma safra semeada de sal para apodrecer no campo — as possibilidades eram infinitas. Com um empurrãozinho apenas, Renato de Anjou poderia ser levado a implorar um empréstimo ao novo marido da filha — e então teriam um homem de influência na corte francesa. Isso, supondo que Derry sobrevivesse ao dia do casamento, é claro. Os lordes Suffolk e Somerset tinham suas instruções para o caso de Derry não aparecer, mas saber disso dificilmente o consolaria.
Quando chegou a aurora, o condutor insistiu que tinha de descansar, alimentar e dar água ao grande boi preto que andava para o sul havia dois dias. Derry podia ver a torre dupla da Catedral de Tours elevando-se acima dos campos a distância. Não podia estar a mais de alguns quilômetros. Com um suspiro, pulou da carroça e esticou as pernas e as costas. A estrada estava misericordiosamente vazia em ambas as direções. Ele supôs que todos que tinham viajado para ver o casamento já estavam lá. Derry era o único ainda na estrada, com a possível exceção dos cavaleiros do duque que ainda vasculhavam o campo atrás dele.
Enquanto pensava nisso, avistou uma nuvem de poeira distante, correu para a beira da estrada e pulou numa moita de capim selvagem quase tão alta quanto sua cabeça.
— Três deniers de prata se você não disser nada — gritou em francês, escondendo-se o máximo que pôde. Lorde Suffolk se surpreenderia ao ouvir a fluência perfeita de Derry nesse idioma.
— Onze — respondeu o condutor ao prender um bornal na boca cheia de baba do seu boi.
Derry se ergueu, indignado.
— Onze? Você poderia comprar outro boi com onze, seu infeliz!
— Onze é o preço — reforçou o homem, sem olhar em volta. — Estão se aproximando, meu bom lorde inglês.
— Não sou lorde nenhum — rugiu Derry no capim alto. — Onze, então. Dou a minha palavra.
O sol se elevara, e ele se irritava a cada momento perdido. Não podia dar mais um passo na direção da catedral com cavaleiros à vista. Imaginou se conseguiria se esgueirar de quatro, mas, se do alto da sela vissem o capim se mexer, estaria tudo acabado para Derry Brewer. Ele ficou onde estava, tentando ignorar as moscas e os gafanhotos de um verde vívido que zumbiam e o sobrevoavam.
Baixou a cabeça imediatamente ao ouvir o barulho dos cavaleiros que se aproximavam da carroça. Estavam tão perto que poderia estender a mão e tocá-los. Ouviu uma voz inglesa zurrada, falando um francês execrável, disparar perguntas ao condutor. Derry suspirou de alívio quando o homem disse que não vira ninguém. Os cavaleiros não perderam muito tempo com outro camponês imundo e seu boi. Continuaram trotando rapidamente, de modo que o silêncio voltou à estrada e Derry conseguiu ouvir novamente o canto dos pássaros e as abelhas. Levantou-se, olhando a tropa que desaparecia em direção aonde queria ir.
— Onze deniers — avisou o condutor, estendendo a mão grande como uma pá.
Derry enfiou a mão no saco e contou as moedas. Entregou-as.
— Alguns chamariam isso de roubo.
O homem só deu de ombros, sorrindo levemente com a recompensa que ganhara. Quando se virou para a carroça, não viu Derry puxar um porrete do saco. Um golpe na nuca do sujeito o fez cambalear. Derry o atingiu de novo no alto do crânio e, com satisfação, observou-o cair.
— Estariam errados — prosseguiu Derry à figura inconsciente. — Aquilo foi apenas um caso de force majeure. Isto é roubo.
Ele pegou as moedas de volta e deu uma olhada em Tours e no sol nascente. O boi ruminava tranquilo, olhando-o pelos longos cílios, mais adequados a uma linda mulher. A carroça era lenta demais, pensou Derry. Ele teria de percorrer os últimos quilômetros correndo.
Derry deixou o condutor lá, para acordar quando tivesse de acordar, e partiu, correndo pela estrada de Tours. Dali a pouco, praguejou em voz alta e retornou. O condutor gemia, já começando a despertar.
— Você deve ter muito osso nesse cabeção — comentou Derry. Contou três moedas de prata e as colocou na mão do homem, fechando-a.
— Isso é só porque você me lembra meu velho pai e não porque eu esteja amolecendo — murmurou. — Tudo bem?
O condutor abriu um olho enevoado e o fitou.
— Então tudo bem — continuou Derry. Tomou fôlego e começou a correr.
Margarida mal ousava se mexer com o vestido. O tecido novo coçava e era estranho, tão rígido que era como se ela estivesse vestida com tábuas. Mas não podia negar que refletia magnífico no longo espelho. Pequenas pérolas tinham sido costuradas em todas as partes expostas e chocalhavam quando ela se mexia. O véu era fino como uma teia de aranha e Margarida se maravilhou por ser capaz de ver através dele. Não podia mais se curvar para olhar os perfeitos sapatos de cetim que usava por baixo. Os pés pareciam muito distantes, como se pertencessem a outra pessoa, e ela fora reduzida a uma cabeça empoleirada em metros de pano branco. A criada que a abanava era a única coisa que impedia que o suor brotasse com o aumento do calor.
Margarida já estava corada quando finalmente lhe permitiram que saísse ao sol. O Castelo de Saumur ficava a pouco mais de 60 quilômetros da Catedral de Tours, e uma carruagem grandiosa a aguardava no pátio. Cintilava de verniz e tinta preta, puxada por um par de lustrosos cavalos castanhos. Um toldo fora montado sobre os assentos ao ar livre para protegê-la da poeira da viagem.
A mãe saiu da construção principal, aproximando-se com orgulho e tensão estampados no rosto. Margarida ficou de pé, sem jeito, enquanto o vestido era torcido e puxado na posição perfeita para que ela se sentasse.
— Mantenha a cabeça erguida e não curve o corpo — indicou a mãe. — A dignidade da família viaja hoje com você, Margarida. Não nos envergonhe. Iolanda! Ajude sua irmã.
Iolanda deu uma corridinha à frente, erguendo os braços carregados de panos para impedir que se arrastassem nas pedras enquanto Margarida dava passos cuidadosos. Um pajem que não conhecia a ajudou a subir no degrau e, ofegante, ela se enfiou pela abertura e quase caiu no banco lá dentro. Embarcara, com Iolanda remexendo em volta para arrumar a cauda de modo que não amarrotasse muito. Outra carruagem já esperava para entrar no pátio, e parecia que a criadagem toda saíra para se despedir. Margarida se concentrou em controlar a respiração, sentindo-se tonta com o aperto. Não poderia curvar as costas nem se quisesse: a armação do vestido a mantinha ereta. Ela levantou a mão para as filas de criadas e pajens e foi devidamente aclamada por eles. Seu olhar parou numa criada que conhecia, de quando esbarrou nela durante a visita do rei. Aquela moça sorria e agitava o lenço com lágrimas nos olhos. Margarida se sentiu como uma boneca pintada à mão, comparada à garotinha que era na época.
Iolanda, ofegando e com brilho nos olhos, subiu para sentar-se ao seu lado.
— Isso é incrível — comentou, olhando em volta. — É tudo para você! Não está empolgada?
Margarida analisou o que sentia e só achou nervosismo. E sua resposta foi uma expressão facial de pesar. Talvez se empolgasse na estrada, mas estava prestes a se casar com um rapaz que nunca vira. O tal inglês, Henrique, estaria igualmente nervoso? Ela duvidava. Seu futuro marido era rei, acostumado a ocasiões grandiosas.
Dois outros pajens de preto, botas engraxadas e libré impecável assumiram sua posição nos dois lados da carruagem. Em teoria, afastariam quaisquer ladrões e saqueadores na estrada, mas não havia perigo de verdade. O cocheiro era um homem grande e extravagante que fez uma reverência demorada diante das duas meninas antes de assumir seu lugar e arrumar um longo chicote com uma corda pendente na ponta.
De qualquer jeito, as carruagens começaram a se mover antes que Margarida estivesse pronta. Ela viu as muralhas de Saumur passarem e se inclinou o máximo que pôde para se despedir da mãe com um aceno. O pai e os irmãos tinham partido na véspera. Esta manhã era a vez das mulheres da família, mas tudo chegara e passara tão depressa que ela não havia conseguido acompanhar. Todas as horas desde que acordara pareciam comprimidas em poucos instantes, e Margarida quis pedir que o cocheiro parasse, a mente sobrevoando as mil coisas que teria de recordar.
Viu a mãe fazer um sinal para a carruagem seguinte, a mente já no bando de primos e na trabalheira que daria para preparar Saumur para um banquete de casamento naquela noite. Margarida se recostou, vendo mais duas carruagens aguardando pacientemente para levar convidados a Tours. Enquanto ela e a irmã seguiam pela estrada, escutou o cocheiro estalando a língua e o chicote para os cavalos passarem a trotar em uníssono. Ela arfou de prazer com o sopro de vento no rosto. Ainda faltavam horas até que visse a catedral. Pela primeira vez, sentiu um agradável frêmito de expectativa.
Quando a carruagem saiu das terras de Saumur pelo portão norte, a estrada se alargou. Ambas as meninas se espantaram com a multidão que ladeava o caminho. Ninguém se dera ao trabalho de dizer a Margarida a quantidade de pessoas que viajaram só para vê-la. Tanto ingleses quanto franceses agitavam os chapéus e comemoravam, gritando seu nome. Margarida corou de leve, e elas esticaram o pescoço e riram ao sol.
— Bloody hell — murmurou Iolanda, deliciada. — Isso é maravilhoso.
Suffolk fez o possível para ocultar a preocupação, em pé diante da catedral. Fitava a torre dupla como se a achasse interessante, fazendo o que podia para parecer relaxado e imperturbável. Os calções e a túnica novos pinicavam, embora ele imaginasse que com a roupa parecia mais magro que de costume. Fora forçado a enxugar o rosto, e o peso da capa parecia aumentar a cada hora que passava, o debrum de pele fazendo cócegas na garganta. O estilo inglês de usar camadas de roupas não tinha lugar no verão francês, mas ele notou que os franceses vestiam roupas igualmente quentes, de modo que estavam com o rosto quase tão corado quanto o dos nobres ingleses já bêbados de vinho aguardentado.
Suffolk invejou o porte esbelto de York ao avistá-lo passando pela multidão e parando para dar ordens a um de seus homens de armas. O duque trouxera consigo uma imensa guarda pessoal, mais do que todos os outros lordes ingleses somados. Mesmo assim, ela era apequenada pelo número de soldados franceses acampados em torno da cidade.
Observou o homem de York bater continência e sair às pressas em alguma missão. Suffolk, com os braços para trás, cruzou as mãos nas costas e tentou parecer fascinado pelas torres góticas e pela cantaria elaborada. Gostaria que a esposa tivesse ido, mas Alice ficara escandalizada só em pensar na ideia. Já fora difícil o suficiente lhe explicar que, naquele dia, se casaria com uma princesa francesa de 14 anos, se tudo desse certo. Estar lá também com a esposa seria zombar da Igreja, ou assim disse ela, de certa forma.
Zombaria maior seria o massacre que poderia muito bem irromper com a mínima provocação, pensou Suffolk. Por ora, os homens de York ignoravam cuidadosamente os soldados franceses em volta de Tours, enquanto seus senhores nobres passeavam e conversavam. Suffolk sabia que os franceses estavam ali para assumir o comando de Anjou e Maine assim que a cerimônia terminasse. Adoraria contar a York, principalmente depois de aguentar os olhares expressivos dele aos soldados distantes. O duque de York sentia que sua cautela era totalmente justificada pela presença de tamanha força francesa. Quando se cruzaram brevemente no adro da catedral, ele sibilara uma pergunta, exigindo saber por que Suffolk achava que alguns poucos guardas conseguiriam proteger o rei Henrique. Mas ele só conseguira murmurar que sem dúvida não haveria perigo no dia de um casamento. York o olhara fixamente, parecendo desconfiado ao se afastar.
Era uma situação tensa, e os nervos de Suffolk se retesavam mais e mais a cada hora que passava. York não sabia que o rei não viria, e agora havia dois exércitos, um diante do outro nos campos. Bastaria que algum idiota lançasse o insulto errado ou fizesse alguma brincadeira de mau gosto e nenhuma força no céu nem na terra impediria a batalha. Suffolk usou um lenço de tecido macio para enxugar o rosto mais uma vez.
Murmurando alguma coisa insossa a outro convidado, Suffolk viu York mudar de direção para se aproximar dele pelo adro.
— Apareça logo, Derry — chamou Suffolk baixinho em inglês, fazendo o nobre francês mais próximo franzir a testa para ele com um ar confuso. — Preciso de você aqui. Venha logo.
Ele sorriu quando o duque parou.
— Ricardo! Que dia maravilhoso. Você tem notícias do rei?
York olhou com azedume o homem mais velho.
— Vim lhe perguntar exatamente isso, William. Não tenho notícias dos portos de que ele esteja a caminho. Você viu Derry Brewer?
— Ainda não. Talvez esteja com o rei. Acho que estão vindo juntos.
York fechou a carranca, fitando a multidão de famílias nobres francesas e inglesas, todas aproveitando o dia de sol.
— Não consigo entender. A menos que ele tenha criado asas, já deveria estar bem adiantado na estrada a esta altura. Dificilmente meus homens deixariam de ver uma comitiva real passando por Calais, mas não tive nenhuma notícia.
— Podem estar à frente dos mensageiros, Ricardo. Já pensou nisso? Tenho certeza de que chegarão aqui a tempo.
— Tem o dedo de Brewer nisso tudo — afirmou York, irritado. — Rotas secretas e subterfúgios, como se nem os próprios lordes do rei merecessem confiança. Esse seu amigo Brewer vai parecer um idiota se a comitiva do rei sofrer uma emboscada enquanto estamos aqui em nossas melhores roupas.
— Tenho certeza de que isso não acontecerá. Derry simplesmente tenta proteger o rei dos perigos, como todos nós.
— Eu não ficarei satisfeito enquanto o rei não estiver casado, são e salvo a caminho de casa. Viu quantos soldados mandaram acampar a nossa volta? Graças a Deus eu trouxe muitos comigo! Esta é uma situação perigosa, William. Tenho pouquíssimos homens para detê-los se fizerem um ataque surpresa.
— Tenho certeza de que só estão aqui para proteger o rei Carlos e seus nobres — mentiu Suffolk, nervoso. Ele temia o momento em que todos os detalhes do acordo de casamento fossem revelados. Teria de torcer para que o rei francês não criasse um espetáculo ao assumir o comando de seus novos territórios. Conhecendo bem os franceses, William de la Pole desconfiava de que essa esperança era extremamente vã.
— A cidade parece um campo armado e o rei francês ainda nem chegou — declarou York. — Tem algo aí que não consigo entender, William. Pela sua honra, você me diria que me preocupo à toa?
— Eu... Eu não posso dizer, Ricardo. — Ele viu os olhos do duque se estreitarem.
— Não pode? Então há alguma coisa, algo que não me contaram. Preciso saber, William, para proteger o rei da Inglaterra em solo francês. Você compreende? Não posso ser pego distraído se existem planos em andamento sobre os quais não sei absolutamente nada. Maldito Derry! Diga-me, lorde Suffolk. O que eu não estou sabendo?
Um grande fragor veio da estrada a oeste. Suffolk olhou naquela direção aliviado, tirando o lenço para enxugar a testa.
— Quem será? — perguntou. — Não pode ser a noiva ainda. Será o rei francês?
— Ou o rei Henrique — respondeu York, observando-o com atenção.
— Isso, isso, é claro — concordou Suffolk, suando profusamente. — Pode ser Henrique chegando. É melhor ir ver, se me dá licença.
York observou o homem mais velho se afastar rigidamente. Balançou a cabeça com repugnância e chamou um guarda para seu lado com um gesto brusco.
— Verifique os arredores mais uma vez. Quero que Derry Brewer seja pego sem alarde. Traga notícias assim que o pegar.
— Sim, milorde.
O guarda bateu continência e saiu depressa. A expressão de York azedou quando ouviu os gritos da multidão e entendeu que o rei francês chegara a Tours. O sol marcava meio-dia e ainda não havia sinal do noivo nem da noiva.
Derry fez o máximo para andar despreocupado enquanto atravessava o campo de soldados franceses, todos descansando e almoçando ao sol. A última vez que vira tantos juntos no mesmo lugar fora num campo de batalha, e a lembrança era desagradável. Sabia muito bem por que estavam ali. Os grupos animados que fofocavam e mastigavam pão duro voltariam a se tornar uma força militar quando viesse a ordem de retomar os vastos territórios de Maine e Anjou.
O espião-mor esperava ser desafiado, mas pegara por instinto uma pesada terrina de sopa nas cercanias e seguira, cambaleando com ela. Esse simples adereço o levara diretamente ao coração do acampamento. Havia dezenas de outros criados buscando e levando coisas para os soldados, e sempre que sentia um olhar desconfiado, parava e deixava que os homens se servissem, sorrindo e curvando-se para eles como um mudo ingênuo.
Ao meio-dia, já havia atravessado o acampamento e finalmente conseguido entregar o caldeirão agora vazio a um grupo de mulheres idosas antes de continuar andando. As carruagens do rei francês foram avistadas na estrada, e ninguém prestava atenção na figura desgrenhada que perambulava para longe do acampamento.
Derry andou o mais depressa que pôde pela estrada até ver grupos de soldados ao lado da catedral propriamente dita. Era apenas uma corrida curta, mas o espião sabia que não conseguiria. Olhou em volta para ver se alguém estava de olho nele e se jogou de repente numa vala junto a um antigo portão de madeira, onde o capim era alto.
Satisfeito por ter passado pelo meio do exército francês a pé, Derry observou soldados pararem e revistarem duas carroças que passaram por eles. Parecia haver homens de York por toda parte. Derry fez uma careta ao sentir a água da vala se infiltrar em suas roupas, mas manteve o saco que carregava fora dela e ficou bem abaixado, usando o pilar da porteira como cobertura e aguardando o momento certo. Notou que os homens de armas ficavam longe da catedral. O prédio da igreja tinha um jardim próprio, com muro e portão. Se conseguisse passar por aquela fronteira externa, estaria a salvo. As catedrais da França e da Inglaterra eram todas construídas na mesma linha, disse a si mesmo. Ele conheceria suficientemente bem a planta caso fosse capaz de entrar.
Derry espiou entre as folhas de capim seco e avistou os belos passarinhos na festa de casamento, todos ao sol no adro. Estavam tão perto! Quase podia ver os rostos. Por um instante, ficou tentado a simplesmente se levantar e chamar um de seus aliados, como Suffolk. Sem dúvida, York não o capturaria em público. Derry olhou as calças encharcadas e os dedos pretos. Estava imundo, como só dias na estrada conseguiriam deixá-lo. Se um camponês com aparência tão bronca quanto a dele se aproximasse do grupo de convidados, os soldados o agarrariam e o colocariam para fora antes que metade dos nobres soubesse o que estava acontecendo. Fosse como fosse, não combinava com sua noção de estilo ser agarrado por guardas enquanto berrava por Suffolk. Derry ainda estava decidido a andar até Ricardo de York com suas melhores roupas e agir como se tudo tivesse sido fácil. O velho Bertle sempre apreciara sua noção de estilo. Em memória do espião-mor, ele o faria com floreios.
Derry ergueu a cabeça de leve, observando um par de guardas que tinham assumido firmemente o posto diante do portão da muralha da catedral. Dividiam uma torta e estavam bem próximos um do outro, cortando-a com os dedos e mastigando.
Além daquela muralha ficava a própria residência do bispo, com cozinhas e despensas e salas de visita adequadas a qualquer lorde. Derry arregalou os olhos, tentando vigiar as rondas de outros grupos de soldados. Bem devagar, enfiou a mão no saco para pegar o pesado porrete. Não podia ser a navalha, não contra soldados ingleses — e não no terreno de uma igreja. O tipo de mundo sombrio que costumava habitar só o levaria a ser enforcado à luz de um dia claro francês. Mas a ideia de passar por dois soldados armados com apenas um pedaço de pau era mais do que desencorajadora. Um, sim, ele sempre conseguiria surpreender um com uma pancada atrás da orelha, mas não podia permitir que dessem o alarme, senão estaria arruinado.
O sol avançou pela tarde enquanto Derry ficava lá, cada vez mais inquieto. Por três vezes, meia dúzia de soldados em tabardos ingleses vermelhos e dourados vieram marchando, contornando os limites da catedral. Levavam o tipo de arco que ficara famoso em Azincourt, e Derry sabia que conseguiriam partir um coelho em cem pedaços, quem diria um homem adulto. Estava quase invisível em sua roupa marrom esfarrapada, mas ainda assim prendeu a respiração quando passaram a pouco menos de 20 metros, sabendo que os caçadores entre eles avistariam até um tremular do capim longo.
O tempo se arrastava com dolorosa lentidão. Algo grande se moveu pelo rosto de Derry e ele o ignorou quando o picou no pescoço e lá ficou para sugar o sangue. Só havia uma coisa capaz de distrair os guardas em torno da catedral, e ele aguardava por ela antes de se mexer.
Aconteceu duas horas depois do meio-dia, segundo o que conseguia avaliar pelo sol. Homens e mulheres das aldeias locais começaram a se agitar pela estrada e ele conseguiu ouvir vivas distantes. Em poucos instantes, havia movimento por toda parte, com gente empolgada correndo para conseguir a melhor posição e ver chegarem as carruagens nupciais. Derry se levantou quando um grupo passou por ele, usando-o para que o espião-mor da Inglaterra não fosse visto saindo de rosto corado da fedentina de uma vala. Ele andou em direção aos guardas no portão e abençoou em silêncio a noiva quando viu que ambos olhavam para oeste. Nunca tinham visto uma princesa, e aquela seria rainha da Inglaterra.
Derry contornou uma criança que corria e levou seu porrete de madeira até a orelha de um dos guardas. O homem arriou como se suas pernas tivessem sido cortadas, e o outro mal se virava em surpresa iminente quando Derry levou o bastão para trás e o lançou na têmpora do homem. O guarda soltou um gemido ao cair, e o espião-mor teve certeza de ouvir uma voz inglesa exclamar em choque ali perto. Abriu o portão com um pontapé e correu para dentro, já tirando da cabeça o chapéu imundo e jogando-o num arbusto bem-aparado.
Os aposentos do bispo eram separados da catedral; ele ignorou o caminho que levava até eles e seguiu para a sacristia. Derry estava disposto a chutar qualquer porta, mas ela se abriu facilmente quando puxou o ferrolho e entrou. Ergueu os olhos devagar para ver o enorme volume rosado de um bispo francês em pé, vestido com o que pareciam ser roupas de baixo brancas. Outro clérigo estava ali, boquiaberto, uma túnica branca comprida nas mãos.
— Vossa Excelência Reverendíssima, peço desculpas por incomodá-lo. Estou atrasado para o casamento, mas lorde Suffolk lhe dará seu endosso.
Derry arrancou do saco as belas roupas, e foi somente a visão dos debruns de pele que impediu o bispo de gritar por socorro.
Derry sentiu uma batida na porta a suas costas e se virou rapidamente para baixar a tranca.
— Posso perturbá-lo mais um pouco e lhe pedir uma jarra d’água? A noiva já chegou e temo estar sujo demais pela viagem para que me vejam assim.
Espantados, os dois clérigos o olharam, e o bispo fez um gesto tímido para outro cômodo. Derry correu até onde uma grande bacia aguardava sobre uma cômoda de mármore. Deixou a água e um pano de limpeza pretos enquanto se esfregava e se despia o mais depressa possível.
Quando saiu, o bispo estava sozinho; aparentemente, o criado fora verificar a boa-fé do estranho que invadira a sacristia. O bispo parecia ainda maior nos trajes formais, como uma grande tenda que observava com interesse Derry alisar o cabelo com a mão molhada e jogar o saco amassado num canto.
— Deus lhe abençoe, Vossa Excelência Reverendíssima — disse Derry. — Achei que não conseguiria chegar a tempo.
Ele saiu andando para dentro da igreja.
— Lá está ele! — berrou uma voz em inglês.
Sem se virar para olhar a origem do grito, Derry disparou pela longa nave, rumo à porta iluminada pelo sol na outra extremidade.