Rotinas de Diagnóstico e Tratamento do Diabetes Mellitus

6. Etiopatogenia do diabetes mellitus tipo 2

Etiopatogenia do diabetes mellitus tipo 2

 

Adriano Lacerda

Samara Pimentel de Souza

Monique Alves da Silva

Ana Paula Borges Santos de Lucena

Melanie Rodacki

Adolpho Milech

 

INTRODUÇÃO

 

O diabetes mellitus tipo 2 (DM2) é uma doença caracterizada por

hiperglicemia decorrente principalmente de resistência à ação da insulina e

déficit de secreção da insulina. Vários tecidos estão direta ou indiretamente

envolvidos nesse processo, havendo importante interação entre eles.

O DM2 tem etiologia multifatorial, sendo importantes tanto fatores

genéticos quanto ambientais, especialmente a obesidade. A incidência do

DM2 vem apresentando aumento significativo nas últimas décadas. Esse

fato é relacionado com grandes mudanças sociocomportamentais ocorridas

na sociedade contemporânea. Esses fatores ambientais, associados a uma

predisposição genética complexa, levam ao DM2 e a outros distúrbios,

como hipertensão arterial sistêmica (HAS) e dislipidemia (aumento de

lipoprotéina de baixa densidade [LDL] e triglicerídeos e diminuição de

lipoproteína de alta densidade [HDL]). Ao agrupamento dessas entidades

associa-se aumento do risco cardiovascular, principalmente devido ao favorecimento da aterosclerose. A resistência à ação da insulina está

intimamente relacionada com o desenvolvimento dessas anormalidades.

 

GENÉTICA

 

O DM2 representa uma complexa interação entre os fatores ambientais

e a predisposição genética. Os genes associados ao diabetes mellitus tipo 2 e

obesidade estão indicados nas tabelas 6.1 e 6.2 respectivamente. Diversos

fatores apontam para a importância dos fatores genéticos no

desenvolvimento da doença. Em primeiro lugar, a associação familiar é

bastante conhecida. Cerca de 40% dos pacientes apresentam pelo menos um

parente de 1o grau com diabetes. Entre gêmeos homozigóticos, se um irmão

apresenta DM2, o outro tem cerca de 90% de chance de desenvolver a

doença ao longo da vida. O risco de um indivíduo com história familiar

apresentar a doença, quando comparado com indivíduo sem esse histórico,

é 5 a 10 vezes maior. O risco de desenvolver DM2 chega a 40% se um dos

pais for afetado (sendo maior quando a mãe é afetada) e quase 70% se

ambos têm a doença. Parentes de 1o grau de indivíduos com DM2 têm

anormalidades sutis no metabolismo glicídico com diminuição de síntese de

glicogênio muscular e aumento do conteúdo lipídico muscular e/ou

distúrbios leves na secreção de insulina.

Além disso, diferentes grupos étnicos que convivem em um mesmo

ambiente apresentam diferenças significativas na incidência de DM2. Nota-

se maior proporção de negros, índios Pima e hispânicos com a doença do

que caucasianos nos Estados Unidos. Porém, devemos atentar para o fato de

que a presença de fatores não genéticos (comportamentais, sociais e

alimentares) também exerce grande influência.

As alterações genéticas associadas ao DM2 vêm sendo estudadas em

diferentes populações. Utiliza-se como referência a análise de genes que

codificam proteínas relacionadas com desenvolvimento pancreático, síntese

e excreção de insulina e mecanismo de ação desta. Inúmeras modificações

já foram observadas, mas boa parte não apresenta forte associação ao

desenvolvimento direto da doença. Na maioria dos casos, observamos

interação entre vários genes, em que cada um contribui com um pequeno

aumento do risco e não com a ação exclusiva de um único gene. Dessa

forma, o DM2 é um distúrbio poligênico, na maioria dos casos.

Algumas alterações têm ganhado maior papel na análise do risco de

DM2. Uma mutação autossômica no cromossomo 12, constatada em

famílias finlandesas e relacionada com falência da secreção de insulina,

apresentou forte correlação com a doença. Alterações em somente 1 dos 2

loci do gene TCF7L2, envolvido no desenvolvimento das células β e no

mecanismo de sinalização do GLP-1, aumentam também fortemente o risco

de desenvolvimento da doença, sendo observadas em mais de um grupo

populacional. O Diabetes Prevention Program (DPP) demonstrou que

polimorfismos do gene TCF7L2 influenciaram o desenvolvimento de

diabetes em pacientes com intolerância à glicose ao longo de 3 anos. A

síndrome do QT longo adquirido, na qual existe modificação no gene

KCNQ1, cursa com lentificação no fechamento dos canais de potássio, o

que pode provocar um defeito no funcionamento das células β, assim como

a alteração eletrocardiográfica. Polimorfismos do gene PPARG também são

associados ao risco de DM2 e variações do índice de massa corporal. Este

gene codifica o receptor nuclear PPAR-γ, um fator de transcrição que tem

um papel fundamental na diferenciação dos adipócitos. PPAR-γ é o

receptor-alvo na ação das tiazolidinedionas.

 

Tabela 6.1 Genes associados ao diabetes mellitus tipo 2

 

Gene Nome

 

ADAMTS9 ADAM metallopeptidase with thrombospondin type 1 motif, 9

 

ARAP1 ArfGAP with RhoGAP domain, ankyrin repeat and PH domain 1

 

BCL11A B-cell CLL/lymphoma 11A (zinc nger protein)

 

CAPN10 Calpain 10

 

CDC123-CAMK1D Cell division cycle 123 homolog–

calcium/calmodulindependent protein kinase ID

 

CDKAL1 CDK5 regulatory subunit associated protein

 

DUSP9 Dual speci city phosphatase 9

HHEX Hematopoietically expressed homeobox

 

HMGA2 High mobility group AT-hook 2

 

HNF1A HNF1 homeobox A

 

HNF1B HNF1 homeobox B

 

HCCA2 YY1 associated protein

 

IGF2BP2 Insulin-like growth factor 2 mRNA binding protein 2

 

IRS1 Insulin receptor substrate

 

JAZF1 JAZF zinc nger 1

 

KCNJ11 Potassium inwardly-rectifying channel, subfamily J, member

11

 

KCNQ1 Potassium voltage-gated channel, KQT-like subfamily, member

1

 

KLF14 Kruppel-like factor

 

NOTCH2/ADAM30 Notch 2–ADAM metallopeptidase domain 30

 

PPARG Peroxisome proliferator-activated receptor gamma

 

PRC1 Protein regulator of cytokinesis 1

 

PTPRD Protein tyrosine phosphatase, receptor type, D

 

RBMS1 RNA binding motif, single stranded interacting protein 1

 

SLC30A8 Solute carrier family 30 (zinc transporter), member 8

 

SRR Serine racemase

 

TCF7L2 Transcription factor 7-like 2 (T-cell speci c, HMG-box)

THADA Thyroid adenoma associated

 

TP53INP1 Tumor protein p53 inducible nuclear protein 1

 

TSPAN8-LGR5 Tetraspanin 8–leucine-rich repeat-containing G

proteincoupled receptor 5

 

WFS1 Wolfram syndrome 1 (wolframin) 1

 

ZBED3 Zinc nger, BED-type containing 3

 

ZFAND6 Zinc nger, AN1-type domain 6

 

ADCY5 Adenylate cyclase 5

 

DGKB/TMEM195 Diacylglycerol kinase, beta 90kDa–transmembrane protein

195

 

GCK Glucokinase (hexokinase 4)

 

GCKR Glucokinase (hexokinase 4) regulator 1

 

MTNR1B Melatonin receptor 1B

 

PROX1 Prospero homeobox 1

 

Fonte: adaptada de Ahlqvist E et al., 2011.

 

Tabela 6.2 Genes associados à obesidade

 

Gene Nome

 

BCDIN3D/FAIM2 BCDIN3 domain containing–Fas apoptotic inhibitory molecule

2

 

AIF1/NCR3 Allograft in ammatory factor 1/natural cytotoxicity triggering

receptor 3

 

FTO Fat mass and obesity associated

GNPDA2 Glucosamine-6-phosphate deaminase 2

 

MC4R Melanocortin 4 receptor

 

NEGR1 Neuronal growth regulator 1

 

SFRS10/ETV5/DGKG Transformer 2 beta homolog–ets variant 5–diacylglycerol

kinase, gamma 90kDa

 

SH2B1 SH2B adaptor protein 1

 

TMEM18 Transmembrane protein 18

 

Fonte: adaptada de Ahlqvist E et al., 2011.

 

AMBIENTE

 

Como já mencionado anteriormente, os fatores ambientais apresentam

importante relação com o desenvolvimento do DM2. Mudanças recentes

nesses fatores sociais e comportamentais vêm favorecendo o crescimento da

incidência de diabetes nos últimos tempos.

O aumento da expectativa de vida tem papel importante na falência

progressiva das células β pancreáticas. Há maior desenvolvimento de

diabetes nos pacientes idosos, e temos observado essa elevação da

expectativa de vida por grandes mudanças no saneamento básico e avanços

na terapia médica.

A diminuição da atividade física (sedentarismo) e a alimentação

inadequada (dietas ricas em carboidratos e gorduras) também apresentam

importância neste processo, uma vez que acarretam sobrepeso/obesidade,

além de maior acúmulo de gordura corporal visceral. Essas alterações

favorecem o desenvolvimento de resistência periférica à ação da insulina,

disfunção de células β, aumento da resposta inflamatória sistêmica e

aterosclerose. Além disso, vários estudos demonstram que o consumo de

carne vermelha e carne processada está associado a risco aumentado de

diabetes, enquanto uma dieta rica em frutas, legumes, nozes, grãos integrais

e azeite de oliva está associado à redução do risco. Mudanças no estilo de

vida, com introdução de atividade física e dietoterapia visando à perda de peso, são capazes de prevenir o aparecimento de DM2 em indivíduos com

risco aumentado para o desenvolvimento da doença, com intolerância à

glicose e/ou glicemia de jejum alterada.

O tabagismo também está relacionado com o DM2. Uma metanálise de

25 estudos prospectivos mostra que os fumantes têm risco aumentado de

desenvolver DM2 em comparação com não fumantes. O mecanismo ainda

não está claro, mas uma das explicações é o efeito antiestrogênico do

cigarro, que pode levar a um desequilíbrio hormonal, induzindo à obesidade

central.

A restrição do crescimento intrauterino, levando à prematuridade e ao

baixo peso ao nascer, pode estar associada a risco aumentado de resistência

à ação da insulina, intolerância à glicose e DM2 na fase adulta. Acredita-se

que a desnutrição durante a vida fetal possa induzir resistência à insulina,

melhorando a sobrevivência durante os estados de privação calórica. Os

mecanismos fisiopatológicos ainda não estão totalmente esclarecidos.

O alto peso ao nascer (macrossomia) aumenta também o risco de DM2

e sobrepeso/obesidade. O ambiente intrauterino hiperglicêmico parece

favorecer essas modificações, independentemente da predisposição

genética, e pode estar relacionado com alterações epigenéticas, isto é,

alterações genéticas que não afetam a sequência do DNA.

O uso de medicações que induzam alterações na resistência periférica

ou no funcionamento ou sobrevida das células β também favorece o

desenvolvimento de diabetes, principalmente naqueles que já apresentam

alguma predisposição familiar. Várias medicações podem estar

relacionadas, principalmente glicocorticoides, anticoncepcionais orais,

imunossupressores (tracrolimo, sirolimo, ciclosporina), niacina, inibidores

da protease, hidroclorotiazida (doses superiores a 25 mg/dia), antipsicóticos

atípicos, álcool e outras (Tabela 6.3).

 

Tabela 6.3 Drogas relacionadas com intolerância à glicose e diabetes mellitus

 

Glicocorticoides

 

Contraceptivos orais

Tacrolimo, sirolimo, e ciclosporina

 

Ácido nicotínico (niacina)

 

Inibidores de protease

 

Diuréticos tiazídicos

 

Antipsicóticos atípicos (clozapina e alguns antipsicóticos convencionais)

 

Agonistas do hormônio liberador de gonadotropina

 

Outras (betabloqueadores, clonidina, pentamidina, álcool etc.)

 

RESISTÊNCIA À AÇÃO DA INSULINA

 

A resistência à ação da insulina é caracterizada por dificuldade da ação

da insulina nos tecidos-alvo, especialmente no fígado e tecido muscular

esquelético. Essa alteração está presente anos antes do desenvolvimento do

diabetes, agravando-se de forma progressiva ao longo do tempo. Antes de

descrever os mecanismos moleculares que contribuem para a patogênese do

DM2 é necessário entender a forma como o sinal celular é transmitido pela

insulina.

 

Transmissão do sinal da insulina

 

A insulina age por intermédio de um receptor transmembrana composto

de 2 subunidades α e β ligadas por uma ponte dissulfeto. A subunidade α,

extracelular, ao se ligar à insulina ativa o domínio intracelular da

subunidade β. A subunidade β ativada catalisa a fosforilação em tirosina de

proteínas com domínio SH2, entre esses os substratos do receptor de

insulina (IRS).

Até o momento foram identificados 10 IRS, sendo os mais conhecidos a

vias IRS1 e IRS2 (dependendo do tipo de célula envolvida), que são

responsáveis pela ativação de enzimas envolvidas no metabolismo

glicídico, proteico e lipídico, além de promover a incorporação do receptor

de glicose GLUT-4 na membrana plasmática.

A fosforilação de IRS gera ligação e ativação da fosfatidilinositol-3-

quinase (PI3-q) que catalisa a formação do fosfatidilinositol-3,4,5-

trifosfato. Este, por sua vez, regula a proteína quinase dependente de

fosfoinositídeos (PDK1) responsável pela fosforilação e ativação da AKT

(serina/treonina quinase) que é associada aos efeitos metabólicos da

insulina. A regulação dessa via encontra-se reduzida no DM2, contribuindo

com a redução dos efeitos metabólicos da insulina.

A via MAP quinase, por meio de ativação conjunta pelo IRS (1 ou 2) e

proteínas de domínio SH2 (principalmente proteína Grb2 e Shc), estimula a

geração de fatores de transcrição, que irão promover crescimento,

proliferação e diferenciação celulares (Figura 6.1). A regulação desta via

não está reduzida no DM2 e pode contribuir com o desenvolvimento da

aterosclerose.

Conforme explicado anteriormente, o receptor de insulina

habitualmente é fosforilado em tirosina, porém pode haver também a

fosforilação em serina. Quando essa ocorre, há inibição da fosforilação em

tirosina, o que gera atenuação do sinal, causando retroalimentação negativa

na sinalização de insulina e gerando, portanto, resistência à ação da

insulina.

Proteínas fosfatases de tirosina, catalisadoras rápidas da desfosforilação

do receptor de insulina e dos IRS também estão envolvidas na redução da

ação da insulina. Entre essas destaca-se a protein phosphotyrosine

phosphatase (PTP1-B). Estudos experimentais em camundongos knockout

de PTP1B têm sensibilidade aumentada à insulina com melhora do

metabolismo da glicose e proteção contra a obesidade induzida pela

alimentação rica em gordura, devido à sinalização pelo receptor de leptina,

cujos substratos pós-receptor também são alvo da ação da desfosforilação

induzida pela PTP1B. Assim, a inibição da PTP1B é um possível alvo

terapêutico no tratamento do diabetes e da obesidade.

Figura 6.1 Sinalização da insulina.

 

Obesidade e resistência à ação da insulina

 

Há uma íntima associação entre obesidade e resistência à ação da

insulina, sendo implicados nesse processo os ácidos graxos livres (AGL), as

adipocinas (mediadores inflamatórios produzidos pelo tecido adiposo) e a

ativação de vias inflamatórias. Durante muito tempo, acreditou-se que o

tecido adiposo era um tecido inerte, apenas com função de armazenamento,

mas hoje sabe-se que, na verdade, este secreta diversas substâncias capazes

de influenciar a sensibilidade à ação da insulina e estimular processos

inflamatórios, como o fator de necrose tumoral alfa (TNF-α) e a

interleucina 6 (IL-6), o que será detalhado mais adiante.

As concentrações plasmáticas de AGL são elevadas em pacientes

obesos e podem inibir a secreção e absorção de insulina estimulada pela

glicose, o que pode estar relacionado com o acúmulo de triglicérides e

metabólitos tóxicos de ácidos graxos nos músculos, fígado e nas células β.

Muitos estudos têm sido focados sobre o papel da inflamação como o

mediador comum entre a obesidade, a aterosclerose e a patogênese do

diabetes. Parte da resistência à ação da insulina é relacionada com

mecanismos inflamatórios, que, por sua vez, têm relação com a ativação do sistema imune inato e a produção de citocinas pelo tecido adiposo. A

origem da associação entre inflamação, resistência à insulina e

desenvolvimento de DM2 não é completamente compreendida, mas suas

possíveis relações serão discutidas ao longo do capítulo.

O primeiro elo dessa cadeia foi apontado na década de 1990, com a

demonstração de expressão aberrante do TNF-α no tecido adiposo de

modelos animais de obesidade. Níveis elevados de marcadores

inflamatórios (proteína C reativa [PCR], IL-6, interleucina β [IL-β], inibidor

do ativador do plasminogênio [PAI-1] e TNF-α) são encontrados em

indivíduos com DM2 e podem ser reduzidos com a modificação de estilo de

vida. Essas citocinas são capazes de ativar serinas quinases que induzem à

fosforilação inibitória em serina do IRS1 e IRS2, induzindo resistência à

ação da insulina.

A via das JNK (c-Jun N-terminal kinase) também pode influenciar a

sensibilidade à ação da insulina, induzindo fosforilação de IRS em resíduos

serina, e está associada à resposta inflamatória. Em modelos animais de

obesidade, essa via está mais ativada do que o normal, tanto no fígado

quanto no tecido muscular. Camundongos obesos com deficiência de JNK

apresentam proteção contra o desenvolvimento da resistência à ação de

insulina. Animais com deficiência de JNK têm menor adiposidade,

sugerindo um papel desta quinase também na regulação da obesidade. Essa

via pode ser ativada por citocinas inflamatórias que estão elevadas nos

estados de resistência à insulina, podendo ser então um elo entre inflamação

e regulação metabólica e um possível alvo terapêutico no DM2.

Outra via pró-inflamatória que pode levar à fosforilação em serina de

IRS é a via IκK/IκB/NF-κB. O NF-κB representa uma família de fatores de

transcrição que normalmente permanecem inativos no citoplasma pela

interação de moléculas inibitórias da família IκB. Em resposta a múltiplos

estímulos como citocinas inflamatórias, produtos virais ou bacterianos e

diversos tipos de estresse, as moléculas IκB se tornam fosforiladas em 2

resíduos críticos de serina, o que causa sua destruição. Como consequência,

NF-κB livre entra no núcleo e ativa a transcrição de diversos genes que

participam da resposta inflamatória e imune, adesão celular, crescimento

celular e proteção contra apoptose. A via do NF-κB pode ser ativada por TNF-α ou IL-1β. Por outro lado, NF-κB também estimula a produção de

citocinas, como TNF-α e IL-6.

Os macrófagos desempenham papel importante no desenvolvimento de

resistência à ação da ação da insulina e à inflamação, que ocorrem na

obesidade. Ao captarem e armazenarem lipídios, transformam-se em células

espumosas que são envolvidas no processo da aterosclerose. Os macrófagos

apresentam 2 espectros possíveis: pró-inflamatório, denominado

classicamente ativado (M1) e anti-inflamatório, chamado alternativamente

ativado (M2). Em pacientes sem excesso de peso os macrófagos presentes

no tecido adiposo são predominantemente M2. Na obesidade esse padrão é

tipicamente M1, gerando citocinas TNF-α e IL-1β que atuam de maneira

parácrina e endócrina, inibindo a ação da insulina nos tecidosalvo

(hepatócitos, adipócitos e miócitos) mediante ativação de serinas quinases

como JNK e PKC.

A ativação do sistema imune inato também pode estar implicada na

etiopatogenia do DM2 e da resistência à ação da insulina.

Lipopolissacarídeos (LPS) derivados da microbiota intestinal podem

estimular toll like receptors (TLR) e há evidências de que este processo

possa ser um gatilho desencadeador da inflamação em indivíduos com

resistência à insulina. Estudos têm demonstrado que dieta hiperlipídica é

capaz de induzir mudanças na microbiota intestinal, o que pode aumentar a

concentração de LPS e induzir maior ativação do sistema imune inato.

Estudos com modelos animais demonstraram que animais com mutação ou

inativação do TLR4 não desenvolvem resistência à insulina no fígado e

músculo e são protegidos contra obesidade induzida por dieta. Em pacientes

com DM2 e obesidade, os níveis de LPS são mais elevados e apresentam

correspondência com o nível de resistência à insulina e a inflamação

subclínica.

A óxido nítrico sintase induzível (iNOS) é alvo das vias da JNK e IκK e

sua expressão é estimulada pelo TNF-α, encontrando-se elevada na

obesidade. A indução de iNOS, em modelos animais de resistência à

insulina, diminui a sinalização de insulina pela via IR/IRS1/Akt e aumenta

os níveis de nitrosilação dessas proteínas no músculo esquelético. Portanto,

a S-nitrosilação de proteínas envolvidas na transmissão do sinal da insulina

também pode ser um mecanismo molecular de resistência à insulina associado à indução da iNOS. Suppressors of cytokine signaling (SOCS),

cujos genes são alvos das vias da JNK e IκK, também são implicados na

resistência à insulina promovida pelo TNF-α.

A obesidade sobrecarrega o retículo endoplasmático e essa sobrecarga

leva ao aumento de moléculas inflamatórias e gera piora da resistência à

ação da insulina. Além disso, o aumento das espécies reativas de oxigênio

produzidas nas mitocôndrias pelo acréscimo do metabolismo da glicose

gera aumento da resposta inflamatória, agravando ainda mais a resistência à

ação da insulina.

Em suma, na obesidade inúmeras moléculas bioquímicas produzidas

nos adipócitos ou macrófagos podem provocar a ativação de serinas

quinases e/ou outras moléculas, especialmente a IκK, JNK e iNOS, capazes

de fosforilar moléculas em resíduos de serina ou causar nitrosilação em

proteínas como o IRS1 e IRS2, gerando resistência à insulina. Intervenções

no estilo de vida podem contribuir para a redução dos marcadores de

inflamação. Medicamentos com potenciais propriedades anti-inflamatórias,

incluindo as tiazolidinedionas e estatinas, podem ter ações além da redução

da glicose e dos níveis de colesterol, respectivamente.

 

FALÊNCIA DAS CÉLULAS β

 

Defeitos na secreção de insulina são importantes no desenvolvimento do

DM2. Vários indivíduos apresentam resistência à ação da insulina, mas o

DM2 só aparece quando a célula β é incapaz de superar esse problema.

Durante muitos anos, acreditou-se que a falência das células β fosse um

evento tardio ao longo da história natural do DM2, já que nos anos que

antecedem o desenvolvimento da doença, e em sua fase inicial, há aumento

da secreção de insulina na tentativa de compensar a resistência periférica à

ação da insulina. Entretanto, no DM2, mesmo a hiperinsulinemia é incapaz

de contrabalançar a resistência periférica à ação hormonal, configurando

um déficit relativo de insulina. Além disso, estudos mais detalhados da

função de células β pancreáticas demonstraram que, mesmo que a secreção

de insulina seja aumentada na fase inicial do DM2, isto não significa que as

células β funcionem normalmente nesses indivíduos. A medida isolada da

insulinemia em resposta à sobrecarga de glicose não é um índice ideal da função de células β. A razão da variação da insulinemia e da variação de

glicemia (ΔI/ΔG) e especialmente o índice de secreção de

insulina/resistência à ação da insulina (ΔI/ΔG/RI) são indicadores mais

fidedignos da função da célula β pancreática. Dessa forma, a deficiência na

secreção de insulina ocorre desde o início do desenvolvimento do DM2 e

mesmo nos anos que antecedem o diagnóstico da doença. DeFronzo et al.

(2013). demonstraram que pacientes com intolerância à glicose e glicemia 2

horas após sobrecarga de glicose entre 180 e 199 mg/dL podem ter

comprometimento de até 80% da secreção pancreática de insulina quando

índices adequados para avaliação da secreção de insulina são utilizados.

Tanto a redução da massa de células β quanto a queda de sua função

parecem contribuir para a deficiência da secreção de insulina no DM2. A

redução da massa de células β pode chegar de 20% a 63%, dependendo do

estudo. Estudos em tecidos pancreáticos de autópsias de pacientes com

DM2 indicam um déficit no volume celular de 63% para obesos e 40% para

magros. Além disso, indicam que há perda de massa celular mesmo em

indivíduos sem DM e com glicemia de jejum inadequada e que a apoptose

de células β é aumentada no DM2 (em 10 vezes para magros e 3 vezes para

obesos).

As razões para o déficit da massa de células β no DM2 não estão bem

estabelecidas. A massa de células β é resultado de replicação, tamanho,

neogênese e apoptose. Pacientes obesos que não desenvolvem diabetes

apresentam taxa de replicação, tamanho e neogênese superior à apoptose,

em razão da carga metabólica elevada. A taxa de apoptose das células β é

aumentada nos pacientes com DM2, quando comparada com indivíduos

normais. A frequência de DM2 é superior nos idosos pelo fato de a taxa de

apoptose das células β frequentemente superar as taxas de replicação,

associado à tendência à redução de atividade física, ao aumento da

obesidade abdominal, à redução da capacidade oxidativa mitocondrial e à

elevação de fatores inflamatórios.

A morte de células β está associada a vários fatores, como altas

concentrações de glicose e ácidos graxos livres, geração de espécies

reativas de oxigênio pela alta demanda secretora na hiperglicemia e

obesidade, e produção local de IL-1 β. É difícil estimar qual destes

mecanismos é mais importante para a indução da apoptose. A presença de depósito amiloide nas ilhotas pancreáticas tem sido demonstrada em

estudos de autópsia em pacientes com DM2 e também parece estar

relacionada com disfunção das células β. O polipeptídeo amiloide (amilina)

é armazenado nas células β pancreáticas, sendo cossecretado com a

insulina, portanto, seus níveis séricos são proporcionais aos de insulina.

A amilina atua no controle glicêmico por diversos mecanismos,

incluindo retardamento do esvaziamento gástrico, regulação do glucagon

pós-prandial e redução da ingestão de alimento. Esse polipeptídeo apresenta

nível sérico reduzido e quantidades aumentadas no pâncreas de pacientes

com DM2. Essa alta concentração de amilina pancreática está associada à

fibrose de ilhotas com consequente inibição da secreção de insulina

endógena e redução da absorção de glicose, sugerindo-se que a amilina

possa estar envolvida na patogênese do DM2. No entanto, a administração

de doses fisiológicas de amilina não tem qualquer efeito agudo sobre a

secreção de insulina. Assim, não está definido se a amilina desempenha

papel causal no DM2 ou se apenas está presente em quantidades

aumentadas no pâncreas, como consequência da redução da secreção de

insulina. Além destes fatores, citocinas inflamatórias (IL-1β, TNF)

presentes nas ilhotas pancreáticas têm sido associadas à apoptose da célula

β no DM2.

Uma hipótese alternativa ou complementar do aumento da apoptose é a

do desenvolvimento insuficiente das ilhotas durante o período de

crescimento pré e pós-natal. Em apoio a este raciocínio existe a observação

de notável variação na fração de células β entre indivíduos de mesmos

grupos etários ao longo período de crescimento pré e pós-natal. Há

evidências, inclusive de estudos com gêmeos, de que a massa de células β é

determinada em grande parte por fatores genéticos. Durante os últimos

anos, a variabilidade genética em mais de 60 loci foi fortemente ligada ao

risco de desenvolvimento de DM2. Acredita-se que muitos desses loci

relacionam-se com função e redução da massa funcional das células β.

No DM2 há não só déficit quantitativo na secreção de insulina, mas

também qualitativo, com alteração da secreção oscilatória do hormônio,

perda da primeira fase de secreção, a qual é importante para utilização da

glicose proveniente da dieta, e inibição da produção hepática de glicose

logo após a refeição, causando, portanto, alteração da glicemia pós-prandial. Essa alteração da secreção apresenta relação com a sobrecarga

com estresse crônico das células β após apoptose de parte do pool de

ilhotas.

A indução de repouso dessas células por meio de terapia com insulina

ou mesmo infusão noturna de somatostatina tem a capacidade de restaurar,

em parte, esse déficit de secreção de insulina glicose-induzida nos pacientes

hiperglicêmicos com DM2.

Além dessas alterações qualitativas, pacientes com DM2 apresentam

aumento da secreção de pró-insulina. A produção de insulina envolve a

clivagem de insulina a partir de pró-insulina, sendo que 10% a 15% da

insulina secretada nos indivíduos normais são pró-insulina e seus

metabólitos intermediários. No entanto, a pró-insulina nos pacientes com

DM2 é consideravelmente aumentada no estado basal (> 40%). Esse

aumento na secreção de pró-insulina é independente da presença de

obesidade, o que demonstra que essa alteração não reflete meramente a

resposta ao aumento da demanda imposta pela resistência à insulina

relacionada com a obesidade. É possível que a conversão de pró-insulina

para insulina esteja prejudicada em pacientes com DM2 ou que não haja

tempo suficiente para que os grânulos amadureçam corretamente.

A disfunção de célula β que ocorre no DM2 é progressiva e pacientes

com doença de longa duração podem apresentar insulinopenia pronunciada.

A hiperglicemia pode influenciar este processo, podendo comprometer a

função de células β de forma transitória ou permanente. Indução de autólise,

menor expressão do gene da insulina e aumento da geração de espécies

reativas de oxigênio parecem ser os principais mecanismos envolvidos.

Inicialmente, há depleção reversível da reserva de insulina que é

denominada exaustão de célula β. O controle dos níveis glicêmicos (sem

alteração da resistência à insulina ou sua secreção) pode ser capaz de

recuperar, em parte, estes efeitos. Quando a hiperglicemia é persistente,

pode levar à toxicidade pela glicose, que é uma lesão gradual, irreversível,

de componentes envolvidos na produção de insulina e indução de apoptose.

O estresse oxidativo é associado ao desenvolvimento de toxicidade de

células β induzido por hiperglicemia.

Uma dieta rica em gordura também pode interferir na síntese de

insulina, prejudicando a ação do transportador de glicose intracelular GLUT-2 das células β, que atuam como um “sensor” de glicose nessas

células.

 

Incretinas

 

A glicose oral desempenha efeito estimulador sobre a secreção de

insulina 50% a 70% maior do que a glicose venosa e esse estímulo foi

denominado efeito incretina. Esse efeito é mediado por diversos peptídeos

gastrintestinais, particularmente GLP-1 (glucagon-like peptide 1) e GIP

(glucose-dependent insulinotropic polypeptide, ou peptídeo inibitório

gástrico).

O GLP-1 é produzido principalmente na parte distal do intestino

delgado (células L), secretado em resposta a nutrientes (carboidratos,

lipídios, glicose, aminoácidos, adoçantes e fibras dietéticas) e apresenta

níveis baixos nos pacientes com DM2. A secreção dessa incretina é feita em

2 fases: fase precoce, 5 a 15 minutos após a refeição e fase tardia, 30 a 60

minutos após. A forma ativa é degradada pela enzima dipeptil peptidase IV

(DPP-IV) e tem meia-vida ativa de 2 minutos.

O GLP-1 exerce o seu efeito principal estimulando a liberação de

insulina dependente da glicose a partir das ilhotas pancreáticas. Esse

hormônio restaura tanto a 1a fase quanto a 2a fase de resposta da insulina à

glicose, aumenta a capacidade de síntese da insulina e exerce efeitos

antiapoptóticos. O GLP-1 também aumenta a expressão de GLUT-2 e

glicoquinase, melhorando a sensibilidade à insulina, retarda o esvaziamento

gástrico, inibe a liberação inadequada de glucagon pós-prandial, inibe o

apetite e induz a saciedade alimentar. Esses 2 últimos efeitos fazem com

que a administração repetida do GLP-1 ou de seus agonistas colabore para a

redução de peso. A administração de GLP-1 desempenha ação também em

células endoteliais, no miocárdio e no tecido muscular, com aparente efeito

cardioprotetor, com melhora da disfunção endotelial. A secreção de GLP-1

é comprometida em pacientes com DM2.

O GIP é produzido principalmente no duodeno e jejuno pelas células K

e o principal estímulo para sua secreção são os lipídios. O GIP exerce ação

insulinotrópica que está muito reduzida nos pacientes portadores de DM2 e

nos intolerantes à glicose. Apesar de a secreção de GIP não ser diminuída no DM2, há resistência à sua ação. Já foi provado que o controle rigoroso

da glicemia recupera parte da sensibilidade ao GIP.

Dessa forma, no DM2 há diminuição do efeito incretina, tanto por

diminuição da produção de GLP-1 quanto por resistência à ação do GIP e

também de GLP-1. Com base na diminuição do efeito incretina nos

pacientes portadores de DM2 e nas ações citadas do GLP-1 foram

desenvolvidas drogas análogas de GLP-1 e inibidores de DPP-IV capazes

de melhorar o controle glicêmico e de peso sem risco significativo de

hipoglicemia.

 

Outros problemas associados ao desenvolvimento de DM2

 

A diminuição da secreção de insulina pode levar ao aumento de

secreção de glucagon. Em condições normais, a secreção de glucagon é

inibida pela insulina presente nas ilhotas. No DM2, o comprometimento da

secreção de insulina leva à supressão insuficiente da produção de glucagon,

o que contribui para a hiperglicemia. Há também maior afinidade dos

receptores de glucagon nos hepatócitos, o que contribui com elevação da

gliconeogênese.

Além disso, há resistência de adipócitos ao efeito antilipolítico da

insulina, por aumento da concentração de AGL e metabólitos tóxicos

lipídicos no músculo e no fígado, resistência à insulina e falência de células

β. Outros fatores envolvidos no desenvolvimento de DM2 são o aumento da

reabsorção renal de glicose e a resistência do sistema nervoso central (SNC)

à ação da insulina.

 

ÓRGÃOS ENVOLVIDOS NO DESENVOLVIMENTO DE DM2

 

Diversos órgãos estão envolvidos no desenvolvimento do DM2. Além

das células β das ilhotas de Langerhans, o fígado, os músculos esqueléticos

e o tecido adiposo têm papel fundamental na fisiopatologia da doença,

conforme indicado na figura 6.2.

 

Fígado

 

O fígado é um órgão de fundamental importância no metabolismo

glicídico, sendo responsável pela produção de glicose nos estados de jejum (cerca de 90%) a partir de outros substratos energéticos, pela formação de

glicogênio e por parte da captação de glicose após as refeições (no efeito de

1a passagem após absorção intestinal). Em pacientes com DM2, a

resistência hepática à ação da insulina provoca incapacidade de supressão

da gliconeogênese, o que desencadeia aumento da produção hepática

noturna de glicose de cerca de 2 mg/kg/min para 2,5 mg/kg/min, em média

(com incremento de cerca de 25 a 30 g de glicose na circulação sistêmica),

apesar de aumento de insulinemia em 2 a 3 vezes. A lipotoxicidade,

consequente ao acúmulo de AG nos hepatócitos, ativa a via de PKC e

serina, que contribuem para inibir alguns efeitos intracelulares da insulina,

como a translocação do GLUT-4 para a membrana plasmática. O aumento

dos níveis circulantes de glucagon também contribui para aumento da

produção hepática de glicose. O aumento da produção hepática de glicose

provoca hiperglicemia, especialmente em jejum.

 

Musculatura esquelética

 

O tecido muscular esquelético é o tecido responsável pela maior parte

da captação de glicose mediada por insulina. Cerca de 1/3 do que é captado

é oxidado e o restante convertido em glicogênio. Nos pacientes com DM2,

ambos os processos estão seriamente comprometidos.

Múltiplos defeitos intracelulares são responsáveis por essa dificuldade

de ação local da insulina, como disfunção no transporte de glicose e

fosforilação, diminuição da síntese de glicogênio, diminuição da oxidação

de glicose, defeitos na captação de glicose e na translocação de GLUT-4. A

lipotoxicidade tem um importante papel no desenvolvimento de resistência

à ação da insulina no tecido muscular esquelético. O excesso de AG

circulantes cursa com acúmulo de seus metabólitos, como diacilglicerol,

nos miócitos. Indivíduos que têm deficiência da enzima diacilglicerol

aciltransferase (DGAT), que converte diacilglicerol em triacilglicerol, têm

risco aumentado de desenvolver resistência insulínica. A prática de

atividade física aumenta a expressão da enzima DGAT.

A inatividade física associada à hiperglicemia propicia, além do

acúmulo de AG nos miócitos, a inibição da enzima mitocondrial carnitina

palmitoiltransferase (CPT-1), reduzindo a oxidação dos AG. Há evidências

de que a disfunção mitocondrial seja uma das causas do acúmulo intracelular de AG e indivíduos obesos e DM2 têm menor quantidade de

mitocôndrias e disfunção mitocondrial.

 

Tecido adiposo

 

A importância do tecido adiposo nos mecanismos fisiopatológicos do

DM2 vem sendo reconhecida nas últimas décadas. A resistência à ação da

insulina em adipócitos dificulta a inibição da lipólise pela insulina, o que

consequentemente aumenta os níveis séricos de ácidos graxos livres

cronicamente. Essa elevação leva ao acúmulo de triglicerídeos no fígado,

nos músculos e no pâncreas. Isto acarreta maior acúmulo de acetil-CoA,

ceramidas e diacilglicerol (derivados do metabolismo do triglicerídeo)

nesses tecidos, levando a estímulo da gliconeogênese hepática, resistência

insulínica muscular e hepática e falência das células β. Esse efeito é

conhecido como lipotoxicidade.

Após a ingesta elevada de carboidratos e/ou lipídios, momento em que o

nível plasmático de insulina está aumentado, a glicose é convertida em AG

e acetil-CoA no fígado. Níveis elevados de acetil-CoA ativam a PKC e a

IκB, participantes na via de fosforilação inibitória do IR, levando ao

aumento da resistência à ação da insulina, diminuindo a translocação de

GLUT-4 para membrana plasmática e, consequentemente, o uso de glicose

insulinomediada.

Hoje em dia sabe-se que o tecido adiposo, além de estocar gordura, tem

importante função endócrina e imunológica, produzindo hormônios e

mediadores inflamatórios, conhecidos como adipocinas. As principais

adipocinas são:

 

■ Leptina: tem ação anorexígena/sacietógena no SNC, além de estímulo ao gasto energético e

aumento da atividade de proteína quinase ativada por monofosfato de adenosina (AMPK). Inibe a

expressão do neuropeptídeo Y, envolvido em hiperexia e redução do gasto energético. À medida

que o peso corporal aumenta, os níveis de leptina também aumentam, sugerindo que a obesidade

curse com resistência à leptina. O estado de deficiência ou resistência à leptina pode causar

hiperfagia, obesidade, lipotoxicidade, resistência à ação da insulina e DM2.

■ Adiponectina ou Acrp30: também conhecida como AdipoQ ou GBP28, tem 2 receptores

identificados (AdipoR1 e AdipoR2). O AdipoR1 é expresso no músculo e estimula captação de

glicose, a fosforilação de tirosina do receptor de insulina e a oxidação de AG via AMPK.

AdipoR2 é expresso no fígado e aumenta a sensibilidade à insulina e reduz o influxo de AG, além

de aumentar sua oxidação. Níveis plasmáticos de adiponectina têm correlação inversa aos níveis

de triglicerídeos e insulina, estando reduzidos em obesos e pacientes com DM2. A adiponectina

tem ainda ação anti-inflamatória e antiaterogênica, reduzindo acúmulo de AG nos macrófagos,

inibindo adesão endotelial de monócitos e aumentando a produção de NO.

■ Resistina: estudos, especialmente em modelos animais, sugerem que esta citocina seja um

regulador negativo da insulina, reduzindo a captação de glicose no músculo e tecido adiposo e

aumentando a gliconeogênese hepática. É controverso se tem relação com resistência à ação da

insulina associada à obesidade em humanos. Sua expressão parece ser estimulada por insulina,

processos inflamatórios e glicocorticoides e inibida por TNF-α, estimulação β-adrenérgica e

PPAR-γ.

■ RBP-4 (proteína ligadora do retinol-4): molécula secretada pelo fígado e adipócitos, com forte

associação à resistência à ação da insulina, relacionada ou não com obesidade. Em camundongos,

foi observado que a RBP-4 induz expressão da fosfoenolpiruvato carboxiquinase (PEPCK) no

fígado, piorando a sinalização pós-receptor de insulina e aumentando a gliconeogênese. Estudos

sugerem que alterações no metabolismo do retinol (vitamina A) possam influenciar a

sensibilidade à insulina e o risco de DM2. Parece que a expressão de RBP-4 está reduzida no

tratamento com tiazolinedionas (TZD), mas isto ainda necessita de maiores evidências.

■ Visfatina: proteína altamente expressa no tecido adiposo, principalmente visceral. Parece ter

efeito insulinomimético, ativando o receptor de insulina em um sítio de ligação diferente e

reduzindo a glicemia. Ainda há necessidade de mais estudos para avaliar relação dos níveis de

visfatina, obesidade, resistência à insulina e DM.

■ TNF-α: secretado por adipócitos e principalmente por macrófagos do estroma vascular do tecido

adiposo, sobretudo o subcutâneo. Piora a sinalização da insulina mediante ativação da serina

quinase no receptor de insulina; reduz captação de glicose e AG nos adipócitos; altera a

expressão da adiponectina e IL-6.

Figura 6.2 Resistência sistêmica à insulina. Fonte: adaptada de Garlic et al., 2010.

 

■ IL-6: é uma citocina associada à obesidade e à resistência à ação da insulina. Seus níveis estão

aumentados em obesos e reduzidos em indivíduos com maior sensibilidade à insulina. No

entanto, tem efeitos diferentes na periferia e no SNC, tendo nesse último ação anorexígena e

promovedora de gasto energético ao estimular o eixo hipotálamo-hipófise-adrenal.

■ CXCL5: molécula com potente quimiotaxia de leucócitos, expressa em altos níveis pelos

macrófagos do tecido adiposo branco. Reduz captação de glicose pelo músculo, sugerindo que

seja mediador da resistência à ação da insulina. Sua concentração encontra-se aumentada em

obesos e indivíduos com resistência insulínica, sendo reduzida com a perda de peso.

■ Adipsina e ASP: é uma proteína estimuladora de acilação, cuja produção depende da adipsina.

Aumenta a síntese de triglicerídeos por incrementar atividade de diacilglicerol e aciltransferase;

reduz a lipólise e aumenta a translocação de GLUT nos adipócitos. Teria influência em

obesidade, resistência à ação da insulina e aumento do risco cardiovascular.

■ MCP-1: monócito quimiotático ligado à proteína 1, regulador da resposta inflamatória. Níveis

aumentados de MCP-1 estão relacionados com resistência à ação da insulina.

■ PAI-1: inibidor da ativação de plasminogênio, produzido por adipócitos, endotélio, hepatócitos e

células mononucleares. Altera o equilíbrio entre fibrinólise e fibrinogênese, favorecendo a

aterogênese.

■ IL-1β: inibe a secreção de insulina dependente de glicose, tendo sua síntese aumentada pelas

células β pancreáticas durante hiperglicemia. A exposição crônica à hiperglicemia cria um ciclo

vicioso, havendo altos níveis de IL-1β, que, por sua vez, pioram a função das células β.

■ Omentina: é mais expressa no tecido adiposo visceral, tendo correlação positiva a adiponectina e

HDL e negativa a resistência à ação da insulina, níveis de leptina e insulina.

 

Pâncreas

 

Como já mencionado anteriormente, há perda gradual da massa de

células β e comprometimento progressivo de sua função ao longo da

história natural do DM2. A resistência à ação da insulina, a lipotoxicidade e

a predisposição genética têm papel fundamental neste processo, que é

associado ao envelhecimento e à obesidade.

As células α também desempenham papel no desenvolvimento de DM2,

com hipersecreção de glucagon devido à resistência à ação da insulina. Isto

favorece ou perpetua a hiperglicemia sérica.

 

Outros órgãos

 

Outros órgãos também desempenham papel no desenvolvimento do

DM2, como o rim e SNC, o que foi abordado anteriormente.

O rim apresenta, tanto no DM2 quanto no DM1, aumento da reabsorção

tubular acima da capacidade máxima, podendo contribuir para maior aporte de glicemia no sangue periférico.

O papel do cérebro no desenvolvimento do DM2 vem sendo avaliado

pois a insulina é um potente inibidor do apetite. Entretanto, em pacientes

obesos (com DM2 ou não), observamos manutenção da ingestão de

alimentos, a despeito da hiperinsulinemia compensatória. Esse fato postula

uma possível resistência periférica da insulina nos tecidos cerebrais.

 

CONCLUSÃO

 

O DM2 é uma doença influenciada por fatores genéticos e ambientais.

A sua herança é poligênica e há obesidade associada na maioria dos casos.

Os principais distúrbios na etiopatogenia do DM2 são a resistência à ação

da insulina e o déficit de secreção de insulina. Outros mecanismos

envolvidos são defeitos na secreção ou ação das incretinas, resistência de

adipócitos ao efeito antilipolítico da insulina, aumento da secreção e da

sensibilidade hepática ao glucagon, aumento da reabsorção renal de glicose

e resistência do SNC ao efeito da insulina. O reconhecimento dessas

diversas modificações explica por que em muitos casos é necessária a

utilização da combinação de drogas para o tratamento, capazes de atuar

simultaneamente em diferentes distúrbios envolvidos na fisiopatologia do

DM2.

 

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