Rotinas de Diagnóstico e Tratamento do Diabetes Mellitus
14.4. Neuropatia diabética
Neuropatia diabética
Osvaldo J. M. Nascimento
INTRODUÇÃO
O diabetes mellitus (DM) é a causa mais frequente de neuropatia, sendo
uma sobrecarga crescente para aqueles países onde a obesidade e a
dislipidemia continuam aumentando.1,2 Ocorre em 8% a 70% dos pacientes
com diabetes, dependendo dos critérios usados para diagnosticar
neuropatia, e os pacientes com retinopatia ou albuminúria franca têm
probabilidade 2 vezes maior de ter neuropatia. Em 2007, havia, nos Estados
Unidos, cerca de 23,6 milhões de pacientes com diabetes, sendo
aproximadamente 50% destes com neuropatia diabética, estimando-se que
até 26% dos pacientes com neuropatia teriam dor neuropática.3,4 As taxas
crescentes de obesidade e o consequente aumento do DM tipo 2 projetam,
para 2030, uma duplicação desses índices.1 As complicações
microvasculares do DM, incluindo retinopatia, nefropatia e neuropatia, são
especialmente preocupantes, devido à elevada morbimortalidade. Embora
os mecanismos envolvidos no desenvolvimento da neuropatia sejam
amplamente desconhecidos, a hiperglicemia certamente tem papel
fundamental.3 Polineuropatias simétricas distais são a modalidade de
neuropatia diabética mais encontrada, porém, neuropatia autonômica distal
também é comum. Por exemplo, a impotência se desenvolve em 20% a
60% dos homens diabéticos, mas disfunção autonômica disseminada se
desenvolve em menos de 5% dos pacientes diabéticos.
A patogênese da polineuropatia e da neuropatia autonômica simétrica
distal envolve anormalidades microvasculares e metabólicas, com uma
ligação causal entre níveis aumentados de glicemia e o desenvolvimento e a
progressão da neuropatia diabética. Os mecanismos pelos quais a
hiperglicemia causa disfunção nervosa podem incluir ativação da via dos
polióis, glicosilação extensa, atividade alterada de diacilglicerol/proteína
quinase e estresse oxidativo. Evidência de modelos animais sugere um
papel de fatores neurotróficos, em particular, o fator de crescimento do
nervo, o qual se associa seletivamente os axônios de fibras finas sensitivos e
simpáticos.
As neuropatias diabéticas de natureza focal decorrem da oclusão das
arteríolas endoneurais, com resultante dano isquêmico ao nervo. Alterações
sugestivas de vasculite são observadas nos vasos sanguíneos epineurais e
perineurais em cerca de 50% dos casos, e infiltrados linfocíticos
perivasculares são comuns.
APRESENTAÇÕES CLÍNICAS DA NEUROPATIA DIABÉTICA
O DM está associado a diferentes tipos de neuropatias periféricas, com
um variado espectro de manifestações clínicas, provavelmente com distinta
fisiopatologia e, consequentemente, com diferentes perspectivas
terapêuticas. Essas neuropatias diferem nos seus sintomas, padrão de
envolvimento neurológico, curso, fatores de risco, alterações patológicas e
mecanismos de base.5 O espectro clínico compreende desde as neuropatias
sensitivas distais assintomáticas até as radiculoplexopatias motoras e,
embora todo o espectro esteja associado ao DM, muito provavelmente os
mecanismos de doença são distintos.6 Dentro desse contexto, não há ainda
uma classificação universalmente aceita. A classificação proposta por P. K.
Thomas em 1973 e em 1977,7 baseada na forma de apresentação clínica, por
ser passível de adaptações, é a mais frequentemente utilizada. Nessa
classificação, são identificados 2 grandes grupos de neuropatias diabéticas,
as generalizadas ou simétricas e as focais/multifocais, por definição
assimétricas. Sucessivas modificações foram somadas a essa classificação.
Em 2004, relacionamos as várias modalidades de apresentação clínica,8 que
podem ser vistas na Tabela 14.4.1.
As neuropatias diabéticas são, essencialmente, na maioria das vezes,
sensitivas. Muitas vezes predominam os sintomas positivos, notadamente
envolvendo fibras nervosas finas. Esses sintomas incluem dor e disestesias,
referidos, na maioria das vezes, como sensações de queimação, ardência ou
choques, e sintomas negativos, como diminuição ou abolição da percepção
da dor e temperatura, portanto, hipo ou anestesia termoalgésica. A
distribuição desses sintomas ficará na dependência do segmento do sistema
nervoso periférico envolvido. Assim, encontramos radiculopatias,
plexopatias, mononeuropatias, mononeuropatias múltiplas e polineuropatias
associadas ao DM. Na maioria dos casos, há distribuição distal nos
membros, predominando nos inferiores, com o padrão típico de lesão
axonal comprimento-dependente, conhecido como “em botas” e “em
luvas”. Essa mais frequente distribuição fenotípica de polineuropatia
sensitiva acontece não só no DM como também no pré-diabetes.9 É
prevalente também em várias outras doenças, incluindo as metabólicas, as
intoxicações em geral (agentes tóxicos e medicamentos), infecções virais
(HIV, HCV e HTLV), entre outras. Inicialmente, esses sintomas dolorosos
podem ser leves a moderados e, dependendo da progressão da doença,
podem tornar-se intensos e debilitantes, se não adequadamente tratados.
Geralmente são piores durante o decúbito e, principalmente, à noite,
interferindo frequentemente na qualidade do sono. Outro sintoma muitas
vezes negligenciado e que está associado a neuropatia de fibras finas, como
a diabética e a pré-diabética, é o das pernas inquietas.
Tabela 14.4.1 Classificação clínica das neuropatias diabéticas
I. Polineuropatias simétricas:
• Condições relativamente estáveis
Polineuropatia sensitiva distal simétrica (PNSD)
Variantes: aguda, grave PNSD no início do diabetes
Neuropatia pseudossiringomiélica
Neuropatia pseudotabética
Neuropatias autonômicas
• Sintomas episódicos (transitórios)
Neuropatia da caquexia diabética
Neuropatia hiperglicêmica
Neuropatia diabética tratamento-induzida
Neuropatia hipoglicêmica
Neuropatia da intolerância à glicose
Polirradicoloneuropatia desmielinizante in amatória crônica (CIDP)
DADS-I
II. Neuropatias assimétricas/focais e multifocais:
Radiculoplexopatia lombossacra diabética (RPLSD, síndrome de Bruns-Garland, amiotro a diabética e neuropatia proximal diabética)
Radiculoplexoneuropatia cervicobraquial
Neuropatias truncais (radiculopatia torácica/abdominal)
Neuropatias cranianas
Mononeuropatias (mediana, ulnar e bular)
Adaptada de Nascimento, 2004,8 modificada de Thomas et al.
O exame neurológico requer especial atenção, pois geralmente revela
leve hipoestesia termoalgésica distal. Em algumas situações, encontramos
hiperalgesia (aumento da percepção dolorosa ao estímulo álgico) e/ou
alodinia (percepção dolorosa a um estímulo habitualmente não doloroso).
Para o exame das fibras finas à beira do leito, basta ter-se à mão um estilete
de ponta não perfurante (um palito de dentes, p. ex., que utilizamos já há muitos anos) e um instrumento resfriado (usamos, p. ex., o diapasão de 128
ciclos/s, que será utilizado, a seguir, para exame de fibras grossas –
sensibilidade vibratória). O monofilamento serve para avaliação de fibras
grossas e não de fibras finas, indicando, portanto, de modo gradual, o
acometimento de fibras grossas, tendo como marcadores seus pesos e cores.
Lembramos que a neuropatia diabética (ND) é, inicialmente, na maioria das
vezes, de fibras finas, somente sendo acometidas as fibras grossas mais
tardiamente. Não utilizamos monofilamentos na avaliação da sensibilidade
de nossos pacientes com ND. Para colegas estudiosos de pé diabético, a
observação de alteração da sensibilidade ao exame com o monofilamento
indica pé em risco.10
Os reflexos profundos estão habitualmente normais quando as fibras
finas são envolvidas, passando a reduzidos ou abolidos quando as fibras
grossas são lesadas, particularmente os reflexos aquileus. A força encontra-
se normal, bem como a sensibilidade proprioceptiva, incluindo a palestésica
(vibratória), a barestésica (pressão) e a batiestésica (noção de posição
segmentar), ao início dos sintomas. Quando diante de um paciente com DM
verificamos comprometimento motor importante, considerar a possibilidade
de neuropatia inflamatória associada (polirradiculoneuropatia
desmielinizante inflamatória crônica associada ao diabetes – CIDP).
Polineuropatias diabéticas simétricas
Polineuropatia diabética sensitiva distal
A polineuropatia diabética sensitiva distal (PDSD) ou polineuropatia
diabética sensitivo-motora (PDSM) é a modalidade de neuropatia diabética
mais frequente, correspondendo a 80% dos casos. Em centros de referência
em neuropatias periféricas nos Estados Unidos e em nosso meio, no Rio de
Janeiro, é a principal causa de polineuropatia.2 Normalmente se apresenta
com perda sensitiva simétrica, insidiosa, inicialmente comprometendo
fibras finas (dor e temperatura) e, mais tarde, fibras grossas
(propriocepção). Parestesias ou disestesias dolorosas (formigamento nos
pés, ou pés queimando, ardendo) são comuns. Instabilidade na marcha pode
ser o sintoma inicial nos casos de polineuropatia atáxica (pseudotabes
diabética). Fraqueza é habitualmente mínima, mesmo nos músculos distais
dos pés, limitando-se à paresia de extensão dos háluces.6 Os reflexos
aquileus, ao longo da evolução, são geralmente abolidos, embora os
reflexos patelares possam estar presentes. Pés e panturrilhas muitas vezes se
tornam frios, e as plantas eritematosas, violáceas, denotando abertura da
periferia vascular devido a disautonomia. Malperfurante plantar, no
contexto do pé diabético, pode ser observado nos casos com longa evolução
e sem controle adequado do DM. Os sintomas e sinais sensitivos progridem
das extremidades distais para as proximais, configurando a distribuição
comprimento-dependente, em que as alterações da sensibilidade serão mais
intensas nos segmentos distais dos membros em relação aos proximais.
O diagnóstico da PDSD fundamenta-se nas manifestações clínicas, na
presença crônica de hiperglicemia, além das complicações importantes do
DM, como a retinopatia e/ou a nefropatia, associadas, e na exclusão de
outras causas de neuropatia periférica.5,6
A fisiopatologia dessa neuropatia é ainda motivo de discussão. Várias
anormalidades decorrentes do DM, incluindo o estresse oxidativo, têm sido
consideradas. As teorias mais aceitas são: a continuada hiperglicemia,
promovendo distúrbio metabólico tóxico ao nervo, e o comprometimento
crônico da microcirculação, promovendo isquemia.11 Participação
autoimune também tem sido considerada, promovendo a presença de
infiltrados inflamatórios mononucleados, observados em biopsias
fasciculares de nervos de diabéticos, principalmente nas apresentações
multifocais, como temos eventualmente observado. Teríamos assim, diante
da hiperglicemia mantida ao longo dos anos, várias alterações metabólicas,
como aumento de polióis, estresse oxidativo, alterações lipídicas e
microvasculares. A superposição desses fatores parece ser a regra.12
Polineuropatia diabética dolorosa
A polineuropatia diabética dolorosa (PNDD) é definida como aquela
que origina dor neuropática, consequente a anormalidades no sistema
somatossensitivo em indivíduos com DM.8,13 Sua prevalência entre pessoas
com diabetes é estimada em 3% a 26%, e sua história natural ainda é muito
desconhecida.12,14 Seu reconhecimento e diagnóstico são clínicos. Trata-se
de uma polineuropatia distal, simétrica, caracterizada pela presença de dor profunda e aguda como um choque elétrico, queimação, hiperalgesia e
alodinia, que, em geral, pioram à noite ou apenas com o decúbito.8,12,14
A PNDD parece, portanto, corresponder apenas à expressão inicial do
comprometimento de fibras A-delta e C, sendo a principal causa entre as
neuropatias de fibras finas.
Uma forma especial de PNDD é a que se associa a caquexia e perda de
peso, considerada uma entidade à parte.8 Esse quadro se inicia com perda de
peso intensa (mais de 20 kg a 40 kg) e aguda, seguida de incessante
queimação e alodinia distal nos membros inferiores, superiores e tronco,
com significativa acentuação noturna.6,8 Impotência pode estar presente,
mas não outras disautonomias. Trata-se de uma apresentação geralmente
monofásica, desaparecendo em meses e não se correlacionando à duração
do diabetes. Possivelmente deva-se à descompensação metabólica
decorrente da grave hiperglicemia, resultando em modificação da condução
das fibras nervosas finas, disparando mecanismo de dor neuropática. Os
pacientes com PNDD, quando adequadamente tratados, recuperam-se
inteiramente, não deixando alterações clínicas ou neurofisiológicas de dano
do nervo periférico, diferindo da PDSD/PDSM, que, por se instalar lenta e
gradualmente, vai acarretando sequelas que nem mesmo o adequado
controle metabólico faz recuperar.
Outras apresentações incomuns de início agudo são a PNDD aguda
associada ao um controle glicêmico ruim, que acomete indivíduos com DM
tipo 1, e a PNDD aguda associada a um rápido controle glicêmico, que se
instala imediatamente após a introdução do tratamento.8,12
Neuropatia diabética autonômica
A neuropatia diabética autonômica (NDA) costuma acompanhar a
PDSD/PDSM.6 Em alguns pacientes, pode assumir o predomínio do quadro
clínico. A prevalência da NDA cardiovascular varia de 2,5% a 50%,
dependendo da população avaliada, dos métodos de estudo e dos critérios
diagnósticos. Entre os fatores predisponentes, destacam-se controle
glicêmico, presença de nefropatia e retinopatia, níveis pressóricos,
obesidade, tabagismo e níveis de colesterol e triglicérides.13 Essa neuropatia
parece estar associada a aumento geral da mortalidade e comorbidades, como isquemia miocárdica silente, doença coronariana, arritmias, acidente
vascular encefálico e piora da nefropatia.13
Sintomas e sinais autonômicos merecem especial atenção por serem
frequentemente negligenciados e, em alguns casos, provocarem graves
incapacidades. Refletem a disfunção ou lesão de fibras amielínicas e/ou de
neurônios dessas fibras nos gânglios autonômicos.15
A hipotensão postural é a mais frequente das disfunções autonômicas e
quase sempre não referida pelo paciente. Na anamnese, devemos buscar
essa informação e, no exame clínico, verificar a pressão arterial nas
posições deitada, sentada e de pé, aguardando cerca de 1 min a 2 min para
cada posição. Quedas da pressão arterial iguais ou superiores a 20 mmHg
deverão ser consideradas. Além da hipotensão postural, devemos arguir
quanto a outros sintomas, como:
■ Impotência coeundi (impossibilidade parcial ou total de ereção peniana), encontrada em 90% dos
casos.
■ Ejaculação retrógrada.
■ Disfunção vesical (bexiga atônica, com grandes volumes urinários). ■ Hipoglicemias sem aviso e não percebidas. ■ Mudanças do ritmo intestinal (constipação, com formação de fecalomas, ou diarreias, isoladas ou
alternadas com períodos de constipação).
■ Sensação de plenitude gástrica (gastroparesia diabeticorum). ■ Anormalidades sudomotoras (sudorese ausente ou excessiva, por exemplo, no colo, pescoço e
cabeça), incluindo sudorese gustatória.
■ Alteração na coloração da pele (pés de coloração violácea, devido à hipotonia, com consequente
vasodilatação periférica).
■ Malperfurante (plantar e, raramente, palmar). ■ Perda de pelos.
■ Unhas quebradiças.
■ Formações bolhosas nos pés e/ou mãos.
■ 15 Outros sinais e sintomas menos frequentes.
A fotorreação pupilar deverá ser considerada e poderá estar
comprometida, podendo-se observar a pupila de Argyll-Robertson, que não
responde com miose à incidência de luz, reagindo, porém, normalmente à
convergência ocular.6,13
A NDA piora com o tempo do diabetes e com a idade do paciente,
características que sugerem ser essa neuropatia apenas parte do espectro da
PDSD/PDSM que compromete especialmente as fibras finas.6 No entanto,
alguns pacientes apresentam um quadro agudo acompanhado de anticorpos
contra neurônios simpáticos, o que sugere um mecanismo de doença
distinto.6
Polineuropatia associada à cetoacidose
As principais manifestações clínicas da cetoacidose são decorrentes do
comprometimento do sistema nervoso central; no entanto, polineuropatia
aguda predominantemente motora pode ser eventualmente observada. Essa
neuropatia tem rápida recuperação após o controle da cetoacidose.6 O seu
reconhecimento precoce e o rápido controle da cetoacidose diabética
tornam o tratamento mais eficaz, com rápida recuperação.
Neuropatia associada à intolerância à glicose
Vários indícios recentemente coletados sugerem que a glicemia de
jejum inadequada, definida como glicemia de jejum entre 100 e 126 mg/dL
e a intolerância à glicose, definida como glicemia de 140 a 199 mg/dL, 2 h
após uma carga de 75 g de glicose, estão associadas à disfunção do sistema
nervoso periférico.6,9,16 Parece que a intolerância à glicose está associada à
polineuropatia de fibras finas, com componente doloroso muito importante.
Novas técnicas de investigação de neuropatias de fibras finas, que veremos
adiante, têm propiciado melhor conhecimento dessa modalidade de
neuropatia.
Neuropatia hiperglicêmica
Dor nas porções distais dos membros inferiores, parestesias,
preservação da sensibilidade ou leve hipoestesia termoalgésica, com
alodinia, redução da velocidade de condução nervosa e maior tolerância ao
bloqueio de condução, provocado pela isquemia, ocorrem frequentemente
em pacientes com diabetes sem controle metabólico. O restabelecimento da
normalidade glicêmica reverte a sintomatologia rapidamente, sugerindo que
distúrbios metabólicos sejam a base dessas manifestações. Demonstrou-se
experimentalmente que, na vigência de hiperglicemia, surgem alterações nos canais de K+, que gerariam descargas ectópicas, uma possível
explicação para a sintomatologia sensitiva positiva.17
Polirradiculoneuropatia desmielinizante in amatória crônica
Parece que a polirradiculoneuropatia desmielinizante inflamatória
crônica (CIDP) é mais frequente em pacientes com DM do que na
população geral. No entanto, estudo recente não conseguiu demonstrar essa
associação.6 Diante de paciente com diabetes que apresenta quadro motor
predominante, ainda mais com fraqueza distal e proximal predominante nos
membros inferiores, com bloqueio motor no estudo da condução nervosa,
deve-se considerar tal associação.8,17
Neuropatias diabéticas assimétricas: focais/multifocais
Neuropatias assimétricas causam sintomas focais ou multifocais,
dependendo do nervo ou nervos periféricos afetados. São geralmente
acompanhadas por dor neuropática aguda e intensa na região afetada. A
maioria dos casos de ND aguda focal ou multifocal geralmente se resolve,
pelo menos em parte. A dor pode se resolver dentro de alguns meses,
enquanto a fraqueza pode-se levar 1 ano ou mais para na recuperação,
podendo esta persistir. As apresentações focais ou multifocais incluem:
Radiculoplexoneuropatia lombar diabética
A radiculoplexoneuropatia lombar diabética (RPLSD) é mais observada
em pacientes idosos do sexo masculino (1,45:1) com diabetes tipo 2.1 Tem
frequência estimada em 1% entre diabéticos. Recebe, entre outras, as
seguintes denominações: síndrome de Bruns-Garland, neuropatia proximal
diabética, amiotrofia diabética, neuropatia femoral diabética, neuropatia
diabética ciático-femoral, neuropatia motora diabética, mielopatia
diabética.1,6,8 Dor intensa, em queimação, geralmente na região lombar,
irradiada para a porção proximal anterior da coxa, assimétrica ou unilateral,
seguida por redução da amplitude do movimento, ou fraqueza com atrofia
dos músculos proximais de membros inferiores compõem a apresentação
mais comum. Alodinia no segmento sensitivo envolvido é frequente. O
membro inferior contralateral pode ser igualmente comprometido, dando falsa impressão de simetria dos sintomas. Habitualmente, predominam as
alterações sensitivas dolorosas, com limitação da amplitude do movimento
e atrofia, mais por desuso em função da dor intensa. Quando há
comprometimento dos músculos quadríceps e iliopsoas, verificam-se
importante limitação motora e atrofia.1,16 Cerca de 50% dos pacientes
chegam a necessitar de apoio para deambular ou até mesmo de cadeira de
rodas, e muitos precisam de opiáceos para controle da dor. Depois do nadir,
o paciente usualmente se estabilizará durante vários meses, seguindo-se
progressiva melhora clínica, apesar de alguns permanecerem com
disestesias na coxa. Lembramos que esse quadro é frequentemente
confundido com radiculopatia lombar, ainda mais quando na ressonância
magnética da coluna lombossacra são encontradas lesões degenerativas ou
até mesmo hérnia de disco, levando a procedimentos terapêuticos
equivocados que complicam o quadro clínico e, principalmente, podem
deixar sequelas graves.
A eletroneuromiografia pode auxiliar no diagnóstico, que deve ser
essencialmente calcado no quadro clínico e exame neurológico. Tem-se
observado, em biopsias de nervo sensitivo superficial na coxa, presença de
indicativos de neuropatia isquêmica, com microvasculite em alguns casos,
sugerindo participação imunopática, como tivemos a oportunidade de
verificar em algumas biopsias. Imunossupressores ou imunomoduladores
têm sido indicados, mas parecem atuar apenas como adjuvantes no controle
da intensa DN.8 Sustenta essa hipótese a rápida melhora (em poucos dias),
inclusive do desempenho motor, não observada quando das neuropatias
com substrato de dano axonal.17 Revisão recente da The Cochrane Library
chama a atenção para a inexistência de um estudo terapêutico que comprove
a eficácia da imunoterapia.18
Radiculoplexoneuropatia cervical diabética
É menos frequente ainda que a RPLSD. Caracteriza-se pela presença de
dor distribuída nos segmentos das raízes cervicais e plexo braquial,
podendo também comprometer segmentos contralaterais, de modo
assimétrico. Comprometimento do desempenho motor, com atrofia
muscular, mais por desuso decorrente também da intensa dor, pode se fazer
presente.8 Microvasculite também foi observada em biopsia de nervo radial
sensitivo superficial.13
Neuropatia truncal diabética
Tem início agudo, focal, com dor e perda sensitiva, e se manifesta em
determinada região do tronco, unilateral ou muito assimétrica. A dor tem
distribuição radicular, com alodinia, piorando à noite, com características de
neuropatia isquêmica. Pode ser tão intensa que simula abdome agudo ou até
mesmo infarto do miocárdio, na dependência das raízes envolvidas. Em
casos mais graves, fraqueza muscular no território envolvido pode
ocasionalmente ser vista na região abdominal1,8 Essa fraqueza, em raras
ocasiões, pode apresentar-se clinicamente com abaulamento da parede
abdominal, conhecida como neuropatia truncal diabética com pseudo-
hérnia.8
Como acontece na RPLSD, a melhora parcial provavelmente ocorrerá
depois de um período de meses, mas a ND, em ambas, costuma ser difícil
de se controlar.
Mononeuropatias
A causa dessas neuropatias é provavelmente multifatorial, sendo a
maior suscetibilidade à compressão do nervo de diabéticos uma delas.19 Na
prática clínica, quando nos deparamos com paciente apresentando
neuropatia focal, particularmente decorrente de compressão, como a
síndrome do túnel do carpo (STC), devemos investigar a possibilidade da
concomitância de DM. Sem dúvida, o DM é um fator de risco para
neuropatias focais. Não se tem pleno conhecimento se o tratamento da STC
é mais eficaz quando o indivíduo não tem diabetes.17 As mais frequentes
são a STC, a lesão do nervo ulnar no nível do cotovelo, do radial e a
meralgia parestésica.
Neuropatias cranianas
Embora raras, a mais encontrada é a paralisia aguda do nervo
oculomotor (III nervo), que se manifesta de modo agudo, com dor retro-orbitária, seguida por diplopia e ptose palpebral, ipsilaterais. Na maioria das
vezes, são acometidos indivíduos com mais de 50 anos, tanto com DM tipo
1 como, mais frequentemente, tipo 2. As fibras nervosas parassimpáticas,
que inervam as pupilas, são poupadas; portanto, a “oftalmoplegia diabética”
constitui-se em paralisia oculomotora extrínseca. Distingue-se, desse modo,
do transtorno resultante de lesões (tumores, hematomas subdurais agudos
ou crônicos, edemas cerebrais decorrentes de traumatismos cranianos etc.)
que comprimem o nervo oculomotor e causam pupila dilatada, portanto
midríase, com paralisia extrínseca do III nervo craniano. A fisiopatologia
deve-se à lesão isquêmica da porção centrofascicular desse nervo, por onde
passam as fibras motoras, poupando as fibras parassimpáticas, de trajeto
superficial).1,6 Existe, no entanto, a possibilidade de que essa lesão ocorra
no mesencéfalo.
Outros nervos cranianos (não se deve dizer “par craniano”, pois pares
cranianos ou na cabeça, são os ossos temporais, os parietais, os olhos, as
orelhas) podem ser acometidos no DM, com os nervos troclear (IV nervo) e
abducente. Os III e VI nervos são os mais frequentemente afetados.1
Paralisia de Bell (nervo facial) é mais frequente em pacientes com diabetes
e tende a comprometer menos o paladar do que nos pacientes sem diabetes.
A sua prevalência é muito variável, indo de 6% a 66% em pacientes com
diabetes, sendo considerada como de pior prognóstico nesse grupo de
pacientes.6 A recuperação costuma ser total ou parcial, em período de 2 a 3
meses, independentemente do grau da hiperglicemia.
DIAGNÓSTICO
Polineuropatia diabética sensitiva distal
O diagnóstico da polineuropatia sensitiva distal é baseado na
identificação de uma neuropatia predominantemente sensitiva,
comprimento-dependente, na presença de diabetes tipo 1 ou tipo 2. A
neuropatia pode se desenvolver independentemente de bom controle da
glicemia. Alguns instrumentos foram elaborados para a identificação da
polineuropatia diabética, como o Neuropathy Symptom Score (NSS) ou
Escore de Sintomas Neuropáticos (ESN) e o Neuropathy Disability Score
(NDS) ou Escore de Comprometimento Neuropático (ECN),20 que pontuam, respectivamente, os sintomas e sinais de neuropatia. Embora úteis para
estudos clínicos, esses instrumentos não ganharam lugar na prática clínica.
Como a neuropatia diabética é na sua instalação essencialmente de fibras
finas, esses instrumentos confundem, em sua aplicação, o que traduz
acometimento de fibras finas e grossas, respectivamente.
Neuropatias clinicamente semelhantes ocorrem em pacientes com
anormalidades da glicose, que são detectáveis apenas pelo teste oral de
tolerância à glicose. Estudos da condução nervosa, em geral, mostram
amplitudes baixas ou indetectáveis do potencial de ação do nervo sensitivo;
quando detectáveis, a condução sensitiva pode estar ligeiramente lenta. As
amplitudes do potencial de ação muscular composto são frequentemente
reduzidas. Exames da velocidade de condução nervosa motora estão
levemente lentificados, mesmo se houver clinicamente apenas mínimo
comprometimento motor. Eletromiografia de agulha nos músculos distais
tipicamente demonstra alterações características de desnervação crônica.
Ocasionais fibrilações e ondas agudas positivas também podem estar
presentes.
Como a neuropatia diabética é essencialmente sensitiva, de fibras finas,
novos exames neurofisiológicos e morfológicos endereçados a essas fibras
devem fazer parte do arsenal do estudo da neuropatia diabética. Nesse
grupo, inclui-se o potencial evocado por laser (laser evoked potentials –
LEPS) e o potencial evocado composto ao calor (compound heat evoked
potentials – CHEPS). O primeiro tem como desvantagem o fato de produzir
queimaduras nos pontos de aplicação do laser. Já o CHEPS (Figura 14.4.1),
que recentemente introduzimos em nosso meio, inclusive para estudo da
neuropatia diabética, não acarreta qualquer tipo de lesão. Ambos os
aparelhos são capazes de nos indicar, sem que a subjetividade do paciente
contamine, o comprometimento de fibras finas no ponto em que o estímulo
é efetuado. Assim, o comprometimento sensitivo de fibras finas, incluindo a
dor neuropática, pode ser muito bem estudado por esse método.21,22
Figura 14.4.1 Potencial evocado pelo contato ao calor (CHEPS). CHEPS obtido de sujeito controle à esquerda e de paciente diabético à direita; obtido de estímulo realizado na porção distal da perna, captado em FCz. Controle: latência, 1.028 ms; amplitude, 8,4 μV;
paciente: potencial não evocado. Adaptada de Nascimento 21 et al ., 2011.
Os métodos morfológicos de diagnóstico de neuropatias de fibras finas
incluem o estudo de densidade de fibras nervosas intraepidérmicas, por
intermédio de biopsias de pele realizadas nos segmentos envolvidos.
Habitualmente são obtidos 2 fragmentos relativos aos segmentos distal e
proximal, para termos comparação da densidade. Nessa técnica histológica,
é frequentemente utilizado um marcador histoquímico, o PGP 9,5, e a
leitura da lâmina é feita por microscopia confocal. Trata-se de técnica
dispendiosa, que deixa pequenas cicatrizes, não sendo, portanto, indicada
em estudos no território do nervo trigêmeo, por exemplo. Ao contrário,
técnica de fácil realização e que também tivemos a oportunidade de
introduzir em nosso meio, com finalidade de estudos de neuropatias
periféricas de fibras finas e dor neuropática, é a microscopia confocal de
córnea (MCC). A MCC é de fácil realização (dura cerca de 4 min para cada
córnea) e reprodutibilidade, sendo um método não invasivo promissor.
Consiste na utilização de lente que toca a córnea do paciente, permitindo
diretamente visualizar a inervação por intermédio de sistema
computadorizado (Figura 14.4.2).22 Podem-se observar o plexo sub-basal da
córnea, a densidade de fibras nervosas, seus diâmetros, tortuosidades etc.
Os achados da MCC e do CHEPS são relacionados com os obtidos pela
biopsia de pele. Recentemente, sugerimos a inclusão desses 2 métodos entre
as recomendações para diagnóstico de neuropatias fibras finas/dor
neuropática da European Federation of Neurological Societies (EFNS).21
A biopsia de nervos sensitivos superficiais (sural, radial, ramo dorsal do
nervo ulnar e fibular superficial), particularmente quando são retirados
apenas alguns fascículos (biopsia fascicular), é processada por técnicas
especiais, incluindo cortes semifinos, pode também ser útil no diagnóstico
de neuropatias de fibras finas. Vasculites, microvasculites, amiloidose,
processos inflamatórios, incluindo hanseníase, desmielinização ativa, entre
outras condições, podem ser diagnosticadas por esse método.
Figura 14.4.2 Microscopia confocal de córnea em paciente com polineuropatia diabética. MCC em controle e em paciente com PNDD: cortes com 44 μ e 36 μ, respectivamente. À esquerda, densidade e morfologia normal de fibras nervosas da córnea; à direita, perda de fibras finas da córnea.
A avaliação autonômica pode ser realizada por meio de vários testes,
incluindo-se o de inclinação passiva (tilt-test), entre outros. Temos utilizado
técnicas que permitem análise do sistema autonômico, tais como a
cintilografia do miocárdio com metilbenzilguanidina (MIBG) para estudo
da inervação simpática cardíaca e a dopplerometria de fluxo a laser, para
avaliação do tônus vascular em estudos voltados para pesquisa. A
cintilografia do miocárdio tem se mostrado de interesse para a análise
clínica em alguns casos, como na doença de Parkinson (demonstrando
comprometimento pós-ganglionar nessa enfermidade), amiloidose, pré-
diabetes e diabetes, entre outras. Utilizamos essa técnica para estudos
específicos; porém, parece-nos aplicável na prática clínica para
complementação diagnóstica de envolvimento do sistema nervoso
simpático.22
Apesar das técnicas relacionadas, o padrão-ouro para o diagnóstico de
neuropatia de fibras finas continua sendo a boa anamnese e cuidadoso
exame de beira de leito.
TRATAMENTO DAS NEUROPATIAS DIABÉTICAS
Neuropatias diabéticas generalizadas
Controle glicêmico rigoroso parece ser fundamental para a estabilização
e mesmo para a melhora deste tipo de neuropatia.6,13 Dessa forma, todo
empenho deve ser aplicado para manter o paciente em estado de
normoglicemia. Quando a neuropatia evolui durante anos, diante das lesões
axonais já estabelecidas, não se obtém melhora dessas lesões com controle
glicêmico; porém, parece que se obtém mais lenta evolução e,
principalmente, se reduzem ou minimizam outras complicações do DM.
Uma vez que a via do poliol está profundamente alterada e que a enzima
aldose-redutase é fundamental na ativação dessa via, inibidores dessa
enzima seriam importante opção terapêutica. Vários inibidores da aldose-
redutase foram testados com o intuito de interferir com a via do poliol e
reduzir o sorbitol neural, mas os resultados não foram satisfatórios. O
fidarestat (1 mg/dia) aparentemente resultou em melhora clínica e
eletrofisiológica, mas os resultados ainda não são consistentes.3 Cabe
lembrar que, no passado, os inibidores da aldose-redutase foram suprimidos
do mercado devido aos graves paraefeitos.
Muitas evidências indicam que o estresse oxidativo está envolvido com
a gênese da neuropatia diabética. Assim, drogas antioxidantes seriam uma
excelente alternativa terapêutica. O ácido alfalipoico endovenoso (600
mg/dia por 3 semanas) é, atualmente, o único tratamento baseado no
mecanismo da doença passível de utilização na prática clínica.17 A
utilização desse ácido por via oral (600 mg/dia, em jejum), ainda necessita
de mais estudos comprobatórios, embora indícios sugiram sua eficácia.13
Por vezes, causa queda discreta de glicemia, o que pode requerer ajustes nas
medicações hipoglicemiantes. Também pode ter como efeitos adversos
náuseas e vômitos.
O tratamento farmacológico da neuropatia dolorosa (dor neuropática)
baseia-se fundamentalmente na terapia sintomática. Entre as drogas
disponíveis, temos: antidepressivos tricíclicos, anticonvulsivantes
(gabapentina, pregabalina, lamotrigina), antidepressivos duais da recaptação
de serotonina e norepinefrina, como a duloxetina. Existe, também,
evidência para o uso de opioides, como tramadol e oxicodona.13 Diante de
seu baixo custo e rápida resposta no controle de dor neuropática, temos
dado preferência à metadona nos casos não controlados com drogas de primeira linha. A combinação desses medicamentos deve ser considerada
antes do uso dos opioides.13
Os antidepressivos tricíclicos têm eficácia comprovada, mas seus efeitos
colaterais são importante fator limitante, pois podem estar associados a
alterações da condução cardíaca (bloqueios atrioventriculares, arritmias),
boca seca, sudorese, tontura, sedação, retenção urinária em homens
prostáticos e glaucoma. Acima da dose de 100 mg/dia, sua utilização parece
estar associada a risco de morte súbita, motivo pelo qual deve ser utilizado
com precaução em pacientes com cardiopatia.23 Recomenda-se iniciar com
10 a 25 mg/dia e aumento gradual, seguindo-se cuidadosamente o paciente.
Doses de até 150 mg/dia são indicadas, porém conseguem-se bons
resultados com até 75 mg/dia, evitando-se paraefeitos. A escolha do
tratamento deve levar em consideração intensidade das manifestações
clínicas e os possíveis efeitos colaterais dos medicamentos.
Entre os anticonvulsivantes, a gabapentina e a pregabalina, ambas
inibidoras da subunidade alfa-2-delta do canal de cálcio, reduzindo o
influxo de Ca++, limitando a liberação dos neurotransmissores, são
atualmente os mais indicados. A gabapentina pode ser usada na dose de 900
a 3.600 mg/dia. Recomenda-se início do tratamento com 300 a 600 mg, 3
vezes ao dia, com aumento gradual da dose. A dose da pregabalina é de 150
a 600 mg/dia, iniciando com 50 mg duas vezes ao dia e aumentando a dose
lentamente. Seus principais eventos adversos são confusão mental, ataxia e
sonolência. Outro anticonvulsivante que pode ser utilizado, como droga de
segunda linha e menor eficácia do que gabapentina e pregabalina, é a
carbamazepina, na dose de 600 a 1200 mg/dia.
Entre os antidepressivos duais, a duloxetina, em comparação com a
venlafaxina, é a que melhor resultado apresenta no controle da dor
neuropática da PNDD.24 A duloxetina pode ser administrada na dose inicial
de 30 mg/dia, titulando-se em 1 semana para 60 mg/dia como manutenção.
Alguns pacientes necessitam de 120 mg/dia. Seus principais efeitos
adversos são boca seca, sono, constipação, náuseas, redução do apetite e
tonteira. Estudo de meta-análise, comparando os efeitos da duloxetina
versus os da gabapentina e da pregabalina no controle da dor neuropática da
PNDD, estimou que o número necessário para tratar (NNT) da duloxetina é
5; da pregabalina, 5; da gabapentina, cerca de 3,4 a 3,8; e dos tricíclicos 3.25 Os antidepressivos tricíclicos parecem ser mais eficazes; no entanto, os
efeitos colaterais surgem na razão inversa desta relação de eficácia.
Outra opção terapêutica pouco utilizada é a capsaicina, um componente
natural da pimenta, em uso tópico, a 0,075% em creme. Causa depleção de
substância P, levando à diminuição dos sintomas dolorosos. Pode levar à
perda da sensibilidade e só deve ser utilizada em pacientes refratários a
outros tratamentos. Mesmo em doses mais elevadas, em nossa experiência,
não oferece boa reposta, mesmo em neuropatias focais.
Neuropatias por encarceramento (entrapment)
Sempre que houver evidência clínica e/ou eletromiográfica de
aprisionamento significativo, as cirurgias descompressivas estão
teoricamente indicadas, mas, no paciente com diabetes, o risco de não haver
melhora, ou mesmo de haver piora, é significativo e deve ser explicado ao
paciente. Controle glicêmico e uso noturno de tala podem auxilar na
melhora da STC.
Tratamento do pé diabético
A mais importante função do clínico, do neurologista e,
particularmente, do endocrinologista e diabetólogo, no manuseio das
neuropatias diabéticas, é a orientação da prevenção e tratamento do pé
diabético, que resulta basicamente da insensibilidade e da disfunção
autonômica. Exames periódicos, orientação para a autoavaliação e o
repouso imediato, quando do início de qualquer lesão, são medidas simples,
mas muito importantes. Lembramos, no entanto, que o diagnóstico precoce,
quando em fase inicial da neuropatia, em que apenas as fibras finas são
acometidas, deve ser o nosso objetivo, ou seja, prevenção de sequelas.
Atividade aeróbica/ sioterapia
Embora esteja indicada em qualquer neuropatia diabética que
comprometa as funções motoras, a fisioterapia motora ativa e a passiva são
fundamentais na recuperação da neuropatia motora proximal diabética.
Pacientes com neuropatias associadas à intolerância à glicose ou ao DM têm, nas atividades aeróbicas supervisionadas, um bom tratamento
adjuvante, particularmente na melhora das disestesias e da dor neuropática.
Tratamento da neuropatia autonômica
Para a hipotensão postural, são recomendadas medidas não
farmacológicas, como evitar mudanças posturais bruscas, usar meias
compressivas, elevação da cabeceira do leito, levantar-se lentamente. Caso
isto não seja eficaz, pode ser utilizada a fludrocortisona 0,1 a 0,4 mg/dia por
via oral. Em casos mais resistentes, midodrina (agonista alfa-adrenérgico)
pode ser utilizada.
Para a gastroparesia diabética, podem ser usados pró-cinéticos como
metoclopramida, cisaprida e domperidona 30 minutos antes das refeições.
Também devem ser recomendadas refeições de pequena quantidade e
frequentes, de fácil digestão, pobres em gorduras. Eritromicina também
pode ser utilizada, pois interage com receptores de motilina, acelerando o
esvaziamento gástrico. Além disso, nos pacientes que utilizam insulina
(especialmente prandial de ação ultrarrápida) e desenvolvem gastroparesia
diabética, a absorção mais lenta de alimentos causada por esta condição
pode levar a hipoglicemia imediatamente após a refeição e hiperglicemia
tardia. Nestes casos, são necessários ajustes no esquema de insulina.
Para a diarreia diabética, que ocorre principalmente à noite e muitas
vezes alterna-se com períodos de constipação intestinal, podem ser
utilizados loperamida (2 mg duas vezes ao dia) e difenoxilato (2,5 mg duas
vezes ao dia). Também podem ser utilizados antibióticos (já que o
crescimento bacteriano excessivo por comprometimento da motilidade
gastrintestinal pode ser a causa da diarreia em alguns casos), como
rifaximina (sem absorção gastrintestinal), ciprofloxacino, amoxicilina +
clavulanato ou a combinação de metronidazol com cefalosporina ou
sulfametoxazol + trimetoprima. O uso empírico de antibióticos por 7 a 10
dias muitas vezes melhora os sintomas e tem efeito duradouro, por meses.
Clonidina (0,6 mg 3 vezes ao dia) também pode ter efeitos benéficos, tanto
no trânsito gastrintestinal acelerado quanto na hipersecreção intestinal.
Octreotida também se mostrou eficaz, mas deve ser reservado a casos
refratários, já que pode aumentar o risco de hipoglicemias, especialmente
assintomáticas, provavelmente por interferência na secreção de hormônios contrarreguladores. Além disso, pode inibir a secreção pancreática exócrina
e agravar a esteatorreia, se esta estiver presente. É importante lembrar que a
diarreia diabética é um diagnóstico de exclusão e outras causas de diarreia
crônica devem ser excluídas nestes pacientes. Caso alguma outra causa de
diarreia crônica seja detectada, como a doença celíaca ou insuficiência
pancreática exócrina, por exemplo, deve ser prontamente tratada.
Para tratamento da bexiga neurogênica, é recomendado treinamento
para esvaziamento vesical programado (com manobras de compressão
abdominal e autossondagem), antibioticoterapia nas infecções urinárias e
cloridrato de betanecol em caso de volume residual pós-miccional
significativo (mais de 100 mL).
Para tratamento da disfunção erétil, são usados como primeira escolha
inibidores da fosfodiesterase (sildenafila, vardenafila e tadalafila). Caso são
sejam eficazes, podem ser utilizadas ainda drogas para uso intracavernoso
ou intrauretral (papaverina, fentolamina e prostaglandinas), prótese peniana
e dispositivos a vácuo.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
1. Said G. Focal and multifocal diabetic neuropathies. Arq Neuropsiquiatr. 2007; 11: 1693-702.
2. Pasnoor M, Nascimento OJ, Trivedi J et al. North America and South America (NA-SA)
neuropathy project. Int J Neurosci. 2013; 123(8):563-7.
3. Schemmel KE, Padiyara RS, D’Souza JJ. Aldose reductase inhibitors in the treatment of
diabetic peripheral neuropathy: A review. J Diabetes Complications. 2010; 24:354-60.
4. Ziegler D. Treatment of diabetic neuropathy and neuropathic pain. Diabetes Care. 2008; 31
Suppl 2:255-61.
5. Tesfaye S, Chaturvedi N, Eaton SE et al. EURODIAB Prospective complications sudy group.
Vascular risk factors and diabetic neuropathy. N Engl J Med. 2005; 352(4):341-50.
6. Dyck PJB. Diabetic neuropathies: Classification, clinical features and pathophysiological basis.
American Academy of Neurology Syllabi. 2008.
7. Thomas PK. Classification, differential diagnosis, and staging of diabetic peripheral
neuropathy. Diabetes. 1997 Sep;46 Suppl 2:S54-7.
8. Nascimento OJM. Neuropatia diabética: diagnóstico e tratamento. In: Oliveira JEP, Milech A.
Diabetes mellitus: clínica, diagnóstico, tratamento multidisciplinar. São Paulo: Atheneu; 2004. p 183-97.
9. Quintanilha G, Nascimento OJM et al. Sensory neuropathy associated with glucose
intolerance: A 35 patients study. Am J Neuroscience. 2011; 2(1):1-4.
10. Pedrosa H. 2005. Disponível em: http://www.diabetesebook.org.br/modulo-2/12-neuropatia-
diabeticaperiferica.
11. Tesfaye S, Boulton AJ, Dyck PJ et al. Toronto Diabetic Neuropathy Expert Group. Diabetic
neuropathies: update on definitions, diagnostic criteria, estimation of severity, and treatments.
Diabetes Care. 2010; 33:2285-93. Review.
12. Tesfaye S. Advances in the management of diabetic peripheral neuropathy. Curr Opin Support
Palliat Care. 2009; 3:136-43.
13. Tesfaye S, Boulton AJ, Dyck PJ et al. Diabetic neuropathies: update on definitions, diagnostic
criteria, estimation of severity, and treatments. Diabetes Care. 2010; 33(10): 2285-93.
14. Boulton AJ, Kirsner RS, Vileikyte L. Clinical practice. Neuropathic diabetic foot ulcers. N
Engl J Med. 2004; 351(1):48-55.
15. Coutinho BM, Nascimento OJM. Disautonomias na prática neurológica. In: Melo-Souza SE,
Paglioli Neto E, Cendes F. Tratamento das doenças neurológicas. 3. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan; 2013. p. 1278-84.
16. Sumner CJ, Sheth S, Griffin JW et al. The spectrum of neuropathy in diabetes and impaired
glucose tolerance. Neurology. 2003; 60:1075-9.
17. Ziegler D, Nowak H, Kempler P, Vargha P, Low PA. Treatment of symptomatic diabetic
polyneuropathy with the antioxidant alpha-lipoic acid: a meta-analysis. Diabet Med. 2004; 21(2):114-21.
18. Chan YC, Lo YL, Chan ESY. Immunotherapy for diabetic amyotrophy. Cochrane Database
Syst Rev. 2009 Jul 8;(3):CD006521.
19. Nascimento OJM. Susceptibilidade a compressão e maior resistência ao bloqueio de condução
isquêmico dos nervos periféricos nos pacientes diabéticos. Rev bras Neurol. 1991; 27:175-95.
20. Dyck PJ, Sherman WR, Hallcher LM et al. Human diabetic endoneurial sorbital, fructose, and
myo-inositol related to sural nerve morphometry. Ann Neurol 1980; 8:590-6.
21. Nascimento OJM, Pupe C, Zenha V et al. New useful tools for small-fiber peripheral
neuropathy/neuropathic pain (SFPN/NP) clinical assessment. J Neurol. 2011; 18 Suppl 2:1694.
22. Nascimento OJM, Pupe C. Neuropatias de fibras finas. In: Melo-Souza SE, Paglioli Neto E,
Cendes F. Tratamento das doenças neurológicas. 3. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan; 2013. p. 606-9.
23. Ray WA, Meredith S, Thapa PB et al. Cyclic antidepressants and the risk of sudden cardiac
death. Clin Pharmacol Ther. 2004; 75:234-41.
24. Wu EQ, Birnbaum HG, Mareva MN et al. Cost-effectiveness of duloxetine versus routine
treatment for U.S. patients with diabetic peripheral neuropathic pain. J Pain. 2006; 7(6):399-407.
25. Quilici S, Chancellor J, Löthgren M et al. Meta-analysis of duloxetine vs. pregabalin and
gabapentin in the treatment of diabetic peripheral neuropathic pain. BMC Neurol. 2009; 9:6.
OceanofPDF.com