Rotinas de Diagnóstico e Tratamento do Diabetes Mellitus
17.2. Diabetes mellitus no idoso
Diabetes mellitus no idoso
Ricardo Andrade Oliveira
Lenita Zajdenverg
INTRODUÇÃO
O diabetes mellitus (DM) se caracteriza por um espectro de síndromes
de distúrbio do metabolismo de carboidratos caracterizado por
hiperglicemia. As 2 formas de principal importância clínica são o DM tipo
1 (DM1) e o tipo 2 (DM2), sendo este último, de longe, a forma mais
comum na população adulta, inclusive a de idosos.
PREVALÊNCIA
O DM é uma enfermidade extremamente prevalente na idade adulta,
sobretudo em adultos mais velhos. Estima-se que 1 em 5 pessoas > 65 anos
tenham DM2 e a prevalência dessa doença aumentou cerca de 44% nos
últimos 20 anos. Espera-se que o número de pacientes com diabetes dobre
até o ano de 2030. Dados brasileiros atuais indicam que, na cidade de São
Carlos, por exemplo, a prevalência de DM2 na população entre 60 e 69
anos e entre 70 e 79 anos de idade foi de 26% e 29%, respectivamente,
havendo predomínio do sexo feminino. Números americanos do National
Health and Nutrition Examination Survey (NHANES) indicam que a
prevalência de DM2 vem aumentando e atinge um pico entre 60 e 74 anos
de idade naquele país. No Brasil, os dados do estudo multicêntrico realizado pelo Ministério da Saúde indicam que, em nosso país, a prevalência da
enfermidade também vem aumentando e chega a atingir 17% dos
indivíduos entre 60 e 69 anos de idade, tendo sido essas taxas
significativamente maiores entre os obesos e aqueles com história familiar
de DM. Indivíduos idosos com diagnóstico recente de DM2 experimentam,
nos 10 anos subsequentes ao diagnóstico, altas taxas de complicações,
superiores àquelas observadas em indivíduos da mesma faixa etária sem o
diagnóstico de DM2.
PRINCIPAIS FORMAS CLÍNICAS/PATOGÊNESE
O DM1 é caracterizado pela destruição imunomediada das células beta
das ilhotas pancreáticas e culmina com deficiência insulínica. É a forma
habitualmente diagnosticada na infância e na adolescência, embora haja
relatos de DM1 em idosos.
O DM2 é a forma mais comumente encontrada em idosos, caracterizada
por graus variáveis de deficiência e resistência à ação da insulina. Na
resistência à insulina, há redução da ação da insulina em seus tecidos-alvo,
em especial fígado, músculo e tecido adiposo. Na maioria das vezes, tal
resistência é decorrente de adiposidade abdominal, obesidade e
sedentarismo. A deficiência de insulina, por sua vez, tende a surgir e se
acentuar com a evolução da doença. Tais pacientes geralmente se
apresentam com hiperglicemia e sem tendência à cetoacidose, a qual, no
entanto, pode ocorrer em situações especiais, tais como infecções, uso de
glicocorticoides ou outras condições em que haja excesso dos hormônios
contrarregulatórios. Eventualmente, pode existir dificuldade na
diferenciação entre DM1 no idoso e formas atípicas de DM2, sendo
necessária, nestas circunstâncias, a pesquisa de autoanticorpos. Um
exemplo dessa situação é o caso de paciente que abre o quadro de DM na
terceira idade, não responde ao tratamento com antidiabéticos orais e
necessita precocemente de terapia com insulina para o controle glicêmico.
Já foi demonstrado que a glicemia plasmática aumenta cerca de 1 a 2
mg/dL por década, enquanto a glicemia pós-prandial se eleva em 8 a 20
mg/dL por década após os 30 anos. Não há indícios de que a fisiopatologia
do DM2 seja diferente em idosos, no entanto, alterações fisiológicas que
acompanham o envelhecimento produzem mudanças no metabolismo de carboidratos. O processo de envelhecimento associa-se ao desenvolvimento
de resistência à insulina, condição esta que predispõe o idoso a
hiperglicemia, hipertensão arterial sistêmica (HAS), dislipidemia e a
chamada síndrome metabólica, as quais, por sua vez, aceleram o
aparecimento de doença cardiovascular. Como resultado fisiológico de tal
processo, ocorrem modificações da composição corporal, notadamente com
diminuição da massa magra (sarcopenia), decorrente da redução dos níveis
de hormônio do crescimento (GH) e do fator de crescimento insulina-símile
(IGF-1). Dessa forma, além de maior dificuldade de locomoção com
consequente redução de atividade física, há também menor captação
muscular de glicose, o que leva, em última instância, a maior resistência à
insulina e obesidade. Além disso, já foi descrito também que os idosos
apresentam alteração na composição de suas fibras musculares, e têm um
predomínio de fibras do tipo I (de contração lenta), as quais exibem um
menor potencial glicolítico. Tais alterações justificam, pelo menos em parte,
a maior taxa de intolerância à glicose nesta população. Parece, ainda, que
marcadores inflamatórios podem desempenhar um importante papel na
identificação de pacientes de alto risco para o desenvolvimento de DM. O
Women’s Health Initiative mostrou que níveis elevados de marcadores
inflamatórios, tais como interleucina-6 (IL-6) e proteína C reativa, se
mostraram fortes e independentes fatores preditores de DM2.
APRESENTAÇÃO CLÍNICA
Alterações relacionadas com o envelhecimento e o aumento nas
comorbidades tornam os pacientes idosos com DM especialmente
vulneráveis aos sintomas de hiperglicemia, mesmo que esses sintomas não
sejam “clássicos”. Na realidade, nessa população, o DM raramente se
apresenta com tais sintomas. Dessa forma, é importante o reconhecimento
de sintomas atípicos relacionados com a hiperglicemia, que não raramente
acometem os idosos. Enquanto os sintomas mais evidentes de insulinopenia
(p. ex., polidipsia, poliúria e perda ponderal acentuada) não costumam estar
presentes, aumento na incontinência, infecção do trato urinário, infecção
fúngica ou bacteriana de pele, perda de peso inexplicada, aumento da
fadiga, cicatrização lenta de ferimentos ou aumento na letargia/confusão
mental podem ser os primeiros sintomas a se apresentar nos idosos. Aumento nas parestesias, hipotensão ortostática com quedas frequentes ou
diminuição da acuidade visual também podem significar DM não tratado ou
não diagnosticado.
Como já foi citado, a perda ponderal não costuma ser comum, porém,
quando presente, decorre da perda de calorias na urina, induzida pela
glicosúria. Esta pode, ainda, por meio de diurese osmótica, levar à perda de
micronutrientes e minerais, como, por exemplo, a fosfatúria, a qual pode,
por sua vez, levar a maior perda de cálcio pelo osso no esqueleto já frágil.
A resposta comprometida no centro da sede nos idosos pode levar a
maior depleção de volume em virtude da diurese osmótica induzida pela
hiperglicemia. É válido, ainda, ressaltar que os mecanismos de regulação da
sede costumam estar acometidos nos idosos, de modo que, ainda que em
vigência de desidratação, a polidipsia não costuma ser um sintoma
encontrado nessa faixa etária.
Com o processo normal de envelhecimento, há aumento do limiar de
excreção renal, o que previne, até certo ponto, a glicosúria. Dessa forma,
esta última e a poliúria decorrente da diurese osmótica que ela acarreta só
estarão presentes diante de níveis glicêmicos muito elevados.
Aumento da concentração de glicose ou de seus metabólitos na lente ou
no humor aquoso do bulbo do olho pode levar à diminuição da acuidade
visual. A hiperglicemia pode predispor os pacientes a infecções fúngicas ou
bacterianas, assim como a aumento da percepção de dor. Diminuição da
adesividade plaquetária também pode ocorrer, o que precipita em alguns
casos os sintomas de claudicação intermitente. Anormalidades lipídicas, em
especial a hipertrigliceridemia, também podem ocorrer, sendo esta última
um fator de risco para pancreatite.
A complicação mais grave do DM em indivíduos idosos é o estado
hiperosmolar não cetótico, condição grave que pode levar o indivíduo ao
coma e à morte. Tal complicação é vista quase exclusivamente em idosos e
costuma ser precipitada por um evento catastrófico, tal como infarto agudo
do miocárdio ou acidente vascular encefálico.
O diabetes que se inicia em idosos por vezes é a manifestação inicial de
câncer de pâncreas. Esse diagnóstico deve ser lembrado particularmente em
pacientes com emagrecimento significativo e/ou dor abdominal.
RASTREAMENTO/DIAGNÓSTICO
As evidências apontam que o diagnóstico de DM deve ser feito
precocemente. Hiperglicemia de jejum e, principalmente, hiperglicemia
pós-prandial estão relacionadas com aumento do risco cardiovascular. A
Academia Americana de Diabetes (ADA) recomenda a pesquisa de DM2
em indivíduos adultos de qualquer idade com sobrepeso ou obesidade e que
apresentem 1 ou mais fatores de risco adicionais para DM: sedentarismo,
história familiar de DM em parente de primeiro grau, pertencer a grupos
étnicos de alto risco (p. ex., afro-americanos), mulheres com história de
macrossomia fetal ou diabetes gestacional, mulheres com história de
síndrome dos ovários policísticos, lipoproteína de alta densidade (HDL) <
35 g/dL e/ou triglicerídeos > 250 mg/dL, hemoglobina glicada (HbA1c) >
5,7% ou glicemia de jejum alterada/intolerância oral à glicose, outras
condições clínicas associadas à resistência à insulina (p. ex., obesidade
grave, acantose nigricans) e história de doença cardiovascular. Na ausência
destes critérios anteriormente citados, o rastreamento de DM deve começar
aos 45 anos. Dessa forma, indivíduos com idade superior a 45 anos,
inclusive a população de idosos, em caso de resultados normais, devem
repetir os testes (glicemia de jejum, teste de tolerância oral à glicose
[TOTG] e HbA1c) a cada 3 anos e, em casos selecionados, em intervalos
menores.
Os critérios diagnósticos de DM em idosos são os mesmos utilizados
para indivíduos não idosos. A ADA, em sua última publicação, acrescentou
aos já consagrados critérios (glicemia em jejum ≥ 26 mg/dL, TTOG ≥ 200
mg/dL e glicemia randômica ≥ 200 mg/dL na presença de sintomas
relacionados com hiperglicemia) a inclusão de HbA1c ≥ 6,5% como mais
um critério diagnóstico independente.
TRATAMENTO
Objetivos
Em 2005, a Academia Americana de Geriatria formou uma comissão de
especialistas multidisciplinares para desenvolver diretrizes baseadas em
evidências para melhorar o tratamento do DM em idosos. A recomendação principal foi que o “tratamento seja individualizado, de acordo com o
estado de saúde e as preferências do paciente idoso”.
É importante considerar as semelhanças e diferenças entre idosos e
jovens portadores de DM. Assim como nos mais jovens, as complicações
macrovasculares são as principais causas de morbidade e mortalidade
relacionadas com o DM.
Os objetivos do tratamento do DM no idoso incluem o controle
glicêmico adequado, a prevenção e o tratamento das complicações micro e
macrovasculares, assim como o controle dos sintomas relacionados.
É válido ressaltar que o idoso apresenta peculiaridades que o tornam um
paciente de uma complexidade ainda maior. Polifarmácia, disfunção
cognitiva, incontinência urinária, depressão, risco de queda e fragilidade
são alguns exemplos de condições clínicas que tornam o manejo do DM
nessa população ainda mais complexo.
A avaliação da expectativa de vida do paciente idoso é também de
fundamental importância, principalmente no que diz respeito ao alvo
glicêmico de tais pacientes. Quando tal expectativa for > 5 anos, o alvo de
HbA1c se situa entre 7% e 8%. Em caso de expectativa de vida mais curta,
níveis glicêmicos mais elevados são tolerados.
Hipoglicemias devem ser evitadas, pois pioram a função cognitiva que,
muitas vezes, é comprometida em idosos. Hipoglicemias, em idosos,
também podem aumentar o risco de eventos adversos cardiovasculares e
disfunção cardíaca autonômica. Tonturas e fraquezas causadas por
hipoglicemias podem aumentar o risco de quedas e fraturas.
Metas de tratamento para pacientes idosos com DM
■ Alívio da hiperglicemia sintomática.
■ Monitoração e tratamento das complicações relacionadas com o DM. ■ Prevenção do desenvolvimento ou da piora das complicações do DM. ■ Educação do autogerenciamento do DM e aconselhamento. ■ Identificação e tratamento dos fatores de risco para doença aterosclerótica. ■ Melhoria na saúde geral, inclusive na capacidade funcional e no estado nutricional. ■ Identificação e tratamento das comorbidades.
Dieta
Em geral, não há uma dieta uniformemente recomendada, de modo que
a dietoterapia deve ser individualizada.
É importante lembrar que a dietoterapia não visa especificamente à
perda de peso, lembrando que até 1/3 dos pacientes idosos com diabetes não
são obesos. Ela deve, portanto, também contemplar o êxito no controle dos
níveis tensionais, glicêmicos e lipídicos.
Farmacoterapia
Os dados relacionados com a farmacoterapia em indivíduos idosos são
escassos e, em geral, o manejo clínico é guiado por informações oriundas
de estudos que envolvem adultos não idosos. Além disso, idosos portadores
de DM podem apresentar comorbidades, tais como demência, incapacidade
funcional, dificuldade para se alimentar e outras condições que os coloquem
em alto risco para o desenvolvimento de hipoglicemia. As opções
terapêuticas nos idosos são semelhantes àquelas disponíveis para indivíduos
mais jovens. No entanto, devido às mudanças nas funções renal e hepática,
expectativa de vida, limitação à atividade física e status cognitivo, a escolha
de uma medicação específica pode ser um desafio e deve ser tomada com
cautela.
Metformina
A metformina (MTF) é uma biguanida e, quando usada isoladamente, o
risco de hipoglicemia é praticamente nulo. Devido ao possível, porém
extremamente incomum, risco de acidose láctica, ela deve ser usada com
cautela em idosos com diabetes portadores de disfunções renal (clearance
de creatinina < 60 mL/min), cardíaca e hepática, assim como naqueles em
situações de desidratação. Condições em que haja baixa perfusão tecidual
(infarto agudo do miocárdio, acidente vascular encefálico, sepse) também
indicam a sua suspensão. Ela deve ser também evitada na situação de idosos
frágeis e portadores de baixo peso. Existe, no Brasil, uma formulação de
liberação estendida, a qual, além de poder ser usada apenas uma vez ao dia,
implica menor incidência de efeitos colaterais gastrintestinais (náuseas,
vômitos e diarreia).
Sulfonilureias
As sulfonilureias (SU) geralmente bem toleradas nos idosos, no entanto,
como estimulam a secreção endógena de insulina, implicam risco de
hipoglicemia. Além disso, os idosos parecem ser mais suscetíveis à
ocorrência de hipoglicemia que os adultos jovens. Disfunção renal, uso de
outras drogas hipoglicemiantes ou sensibilizadores de insulina, alta
hospitalar recente, abuso de álcool, restrição calórica e polifarmácia são
alguns dos fatores que aumentam esse risco. Drogas menos modernas,
como, por exemplo, clorpropamida e glibenclamida, estão associadas a
maior chance de hipoglicemia, quando comparadas a glimepirida, gliclazida
e glipizida. Estas últimas, portanto, devem ser as sulfonilureias de primeira
escolha nos idosos.
Meglitinidas (glinidas)
A repaglinida e a nateglinida atuam estimulando a liberação de insulina
nas células β pancreáticas, de modo similar às sulfonilureias, porém atuam
em um sítio de ligação diferente. Apresentam rápido início de ação e curta
duração do efeito hipoglicemiante (4 a 6 h). Com isso, implicam menor
risco de hipoglicemia, quando comparadas às sulfonilureias. As glinidas são
administradas antes das refeições para controle glicêmico pós-prandial, o
que permite maior flexibilidade, uma vez que a sua administração pode ser
cancelada, em caso de omissão de alguma refeição. A repaglinida é
primariamente metabolizada pelo fígado com apenas mínima eliminação
pelos rins, de modo que a sua dose não precisa ser ajustada em casos de
disfunção renal leve a moderada. Dessa forma, a repaglinida pode ser
considerada como terapia inicial no idoso com diabetes e disfunção renal,
situação na qual tanto a MTF quanto as SU podem não ser bem toleradas.
Tiazolidinedionas
Atualmente, a sua única representante no mercado brasileiro das
tiazolinedionas (TZD) é a pioglitazona (PIO), uma vez que a outra
representante desta classe de medicamentos, a rosiglitazona, teve a sua
comercialização suspensa em razão de aumento do risco de eventos
cardiovasculares. Atuam como agonistas dos receptores PPAR-γ, melhorando a resistência à insulina, assim como a sensiblidade dos tecidos
periféricos à ação da insulina. A PIO não implica risco de hipoglicemia; no
entanto, ganho de peso, edema periférico, retenção hídrica e
descompensação de quadro de insuficiência cardíaca podem ocorrer. Ela
deve ser, portanto, evitada em pacientes com insuficiência cardíaca e estão
contraindicadas naqueles portadores de insuficiência cardíaca classes III e
IV. Fraturas em locais incomuns (p. ex., terço distal do rádio) são também
complicações possíveis, sobretudo em mulheres pósmenopausadas, como é
o caso das idosas. Recentemente, 2 metanálises apontaram para um possível
aumento do risco de câncer de bexiga nos usuários desta droga. Embora tal
associação não seja ainda definitiva, parece prudente evitar o uso de PIO
naqueles com fator de risco para essa doença, como é o caso dos tabagistas.
Inibidores da alfaglucosidase
Seu único representante no mercado brasileiro é a acarbose, a qual,
apesar de sua segurança e eficácia, é pouco estudada na população idosa,
possivelmente em razão de seu perfil de efeitos colaterais gastrintestinais
(diarreia, flatulência). Atuam primordialmente no controle da hiperglicemia
pós-prandial e devem ser evitados em pacientes portadores de disfunção
renal.
Análogos de GLP-1 (glucagon-like peptide 1)
Seus representantes são a exenatida e a liraglutida, sendo
respectivamente um incretinomimético e um análogo do GLP-1
propriamente dito. Embora os dados em idosos sejam limitados com este
tipo de drogas, elas, quando usadas isoladamente, não apresentam risco de
hipoglicemia. Ambas podem cursar ainda com perda de peso, mas esse
aspecto ser levado em conta, sobretudo nos idosos, quando nem sempre a
perda de peso é desejada. Outro aspecto é que tais medicações são de uso
injetável (subcutâneo), o que muitas vezes pode dificultar a adesão por
parte dos pacientes. Náuseas, vômitos e diarreia são os efeitos colaterais
mais comuns e podem atingir até 40% dos indivíduos.
Inibidores da dipeptidil-peptidase 4
Tais drogas inibem a dipeptidil-peptidase-4 (DPP-4), a qual é
responsável pela degradação dos hormônios incretínicos, tais como o GLP-
1, e levam a secreção de insulina glicose-dependente, assim como
diminuição da produção de glucagon. Esse mecanismo de liberação de
insulina glicose-dependente minimiza o risco de hipoglicemia, tornando-as
relativamente seguras nos idosos. No entanto, a segurança destas, a longo
prazo, não está bem estabelecida e tais drogas, com exceção da linagliptina,
requerem ajuste de doses em caso de disfunção renal.
Insulinas
O seu uso, isolado ou em associação a outras drogas utilizadas no
tratamento do DM, pode levar a hipoglicemia e ganho de peso. A insulina é
subutilizada no tratamento do DM, sobretudo devido ao temor de
hipoglicemia, a qual, especificamente nos idosos, pode ter consequências
catastróficas. Com o advento dos análogos de insulina de longa duração,
elas podem ser usadas com maior comodidade posológica e com menor
risco de hipoglicemia, quando comparadas à insulina NPH. Os análogos de
longa duração atualmente disponíveis são a Glargina e a Detemir. É de
extrema importância avaliar as capacidades cognitiva e funcional do idoso,
como a sua capacidade de realizar a automonitoração glicêmica, reconhecer
e tratar a hipoglicemia, assim como a disponibilidade de algum cuidador
que possa auxiliar na administração da mesma. Por apresentar
metabolização renal, a insulina deve ter a sua dose ajustada em pacientes
portadores de insuficiência renal.
Atualmente, encontra-se em fase 3 um estudo com a insulina Degludec.
Esta é fruto de avanços na tecnologia de DNA recombinante, que leva a um
refinamento das propriedades farmacocinéticas dos análogos de insulina de
longa duração atualmente disponíveis. A insulina Degludec sofre a
formação de múltiplos hexâmeros após a injeção subcutânea, conferindo-
lhe maior duração (> 24 h), assim como menor incidência de hipoglicemia.
No entanto, sua segurança a longo prazo, sobretudo no que diz respeito a
possível potencial carcinogênico, ainda não está estabelecida.
CONCLUSÃO
O manejo do DM no idoso é desafiador, uma vez que este se constitui
em um grupo heterogêneo com variáveis capacidades cognitiva e funcional,
assim como diferentes comorbidades. Tal manejo deve ser sempre
individualizado, respeitando as preferências do paciente ou de seu cuidador.
O controle dos níveis pressóricos e lipídicos, o abandono do tabagismo e o
uso de aspirina devem ser considerados na maioria dos pacientes. Idosos
com expectativa de > 10 anos devem ter alvo de HbA1c < 7,0%, enquanto
idosos frágeis ou com expectativa de vida limitada devem ter metas
glicêmicas menos rigorosas, sendo razoável < 8,0%. O tratamento deve ser
equacionado, no sentido de se evitarem as complicações crônicas
relacionadas com o DM, assim como a ocorrência de hipoglicemia, visando
sempre preservar a qualidade de vida destes pacientes.
LEITURA RECOMENDADA
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