Rotinas de Diagnóstico e Tratamento do Diabetes Mellitus
9. Objetivos no tratamento do diabetes mellitus
Objetivos no tratamento do diabetes mellitus
Ana Paula Pires Lázaro
Lenita Zajdenverg
INTRODUÇÃO
No tratamento do paciente com diabetes, a primeira questão a ser
definida é o objetivo a ser atingido no controle glicêmico. Mas, para tanto, é
fundamental a análise global do paciente, com o diagnóstico do tipo de
diabetes, o nível educacional, as condições sociais, econômicas e
emocionais, a idade, o tempo de evolução da doença e a presença de
complicações.
O diabetes é uma doença de manejo complexo, pois sua abordagem
terapêutica envolve, além do uso de medicamentos, modificações
comportamentais que devem se integrar na rotina do paciente com diabetes,
ao longo de toda a sua vida. Vários estudos clínicos já mostraram que
pacientes com diabetes dificilmente seguem o tratamento proposto, sendo
que as taxas de não adesão costumam variar entre 40% e 90%.1 Para que o
paciente diabético possa obter os benefícios esperados do seu tratamento, é
necessário que os profissionais de saúde apresentem estratégias terapêuticas
individualizadas e realistas, baseadas em claras evidências científicas.
A educação em diabetes constitui uma ferramenta indispensável para o
sucesso terapêutico, a qual permite ao paciente adquirir uma postura mais
ativa em relação à sua doença. Diversos estudos já demonstraram que pacientes que receberam orientação quanto ao manejo clínico do diabetes e
de suas complicações apresentam melhor controle metabólico, com redução
mais acentuada dos níveis de hemoglobina glicada (HbA1c), menor ganho
de peso e melhora da qualidade de vida.2-5 No entanto, educar nem sempre é
uma tarefa fácil, pois exige um comprometimento mútuo entre uma equipe
multidisciplinar e o paciente. O apoio familiar também representa um
elemento essencial no processo de aprendizagem.
O CONTROLE ESTRITO DA GLICEMIA VALE A PENA?
O controle da hiperglicemia no diabetes tem como principal objetivo
evitar o aparecimento de complicações agudas e crônicas, além de aliviar
sintomas causados pelo aumento da glicemia, como poliúria e polidipsia.
Na década de 1990, a conclusão de 2 grandes estudos multicêntricos
populacionais, o Diabetes Control and Complications Trial (DCCT) e o
United Kingdom Prospective Diabetes Study (UKPDS),6,7 que analisaram,
respectivamente, indivíduos com diabetes tipo 1 (DM1) e tipo 2 (DM2)
recém-diagnosticados, submetidos ao controle estrito da glicemia, forneceu
evidências a favor da manutenção da glicemia próxima da normalidade
como forma de prevenir e diminuir a progressão de complicações
microvasculares (nefropatia e retinopatia) e complicações neuropáticas.
Outros estudos se seguiram e forneceram evidências a favor do controle
estrito da glicemia, como o estudo Kumamoto,8 publicado em 2000, que
analisou pacientes com DM2.
Recentemente, os estudos Action to Control Cardiovascular Risk in
Diabetes (ACCORD), Veterans Affairs Diabetes Trial (VADT) e Action in
Diabetes and Vascular Disease (ADVANCE),9-11 publicados em 2008,
questionaram os benefícios macrovasculares do controle glicêmico estrito
em alguns subgrupos de pacientes. O ACCORD foi um estudo
multicêntrico9 que analisou a importância do controle estrito da glicemia em
10.251 indivíduos com diabetes, portadores de doença coronariana
estabelecida ou de alto risco cardiovascular, com média de idade de 62,2
anos e tempo de doença em torno de 10 anos. Nesse estudo, no grupo
intensivamente tratado, em que a meta para HbA1c eram níveis abaixo de
6%, evidenciou-se um aumento na taxa de mortalidade por doença
cardiovascular (23,6%) em comparação com o grupo padrão, o que levou à interrupção do estudo, antes do tempo previsto. O aumento de peso, o uso
de alguma droga específica ou em combinação e o aumento da frequência
de hipoglicemia não se associaram a aumento da mortalidade no grupo
submetido ao controle estrito.
O estudo VADT foi realizado com 1.791 militares veteranos com
DM2,10 em mau controle, com média de idade de 60 anos e tempo de
doença em torno de 11 anos. Nesse estudo, o grupo submetido a controle
estrito da glicemia (HbA1c média, 6,9%) apresentou redução significativa
da albuminúria em comparação com o grupo padrão (HbA1c média, 8,4%);
porém, não houve diferenças em relação a retinopatia e neuropatia. O grupo
intensivo também apresentou tendência ao aumento da mortalidade por
doença cardiovascular, mas esse resultado não apresentou significância
estatística.
O estudo Action in Diabetes and Vascular Disease (ADVANCE)
também foi publicado em 2008.11 Esse estudo, que é considerado o maior
estudo multicêntrico de morbimortalidade em pacientes com DM2, analisou
11.140 indivíduos com diabetes com elevado risco cardiovascular e média
de idade de 66 anos, também com o objetivo de avaliar os benefícios da
redução da HbA1c a níveis inferiores a 6,5%. Os resultados mostraram
redução estatisticamente significativa de eventos microvasculares em 14%,
especialmente eventos renais (14% com p = 0,006), e redução de eventos
macrovasculares em 6%, porém sem poder estatístico. Também não houve
diferença em relação à mortalidade por doença cardiovascular. Esse estudo
tem um desenho semelhante ao do ACCORD,9 porém as metas glicêmicas
foram obtidas de maneira muito mais gradual. Outros fatores que
provavelmente contribuíram para as diferenças encontradas entre os 2
estudos incluem: menor duração do diabetes (em torno de 2 anos a menos)
nos pacientes incluídos no ADVANCE,11 média HbA1c mais baixa no início
do estudo (7,2%) e a maioria dos pacientes ainda não usava insulina.
A partir da subanálise dos estudos anteriores, foi demonstrado que o
subgrupo de pacientes com menor duração do diabetes, menor HbA1c no
início do estudo, ausência de doença aterosclerótica estabelecida e ausência
de idade avançada ou história de hipoglicemia grave apresentava menor
incidência de eventos cardiovasculares quando submetido a controle estrito
da glicemia.12 Assim como na doença microvascular, parece que o controle estrito do diabetes desempenha papel menos importante quando o processo
de aterosclerose já está estabelecido.
Memória do bom controle glicêmico (legacy effect)
O bom controle do diabetes desde o início do seu diagnóstico parece
estar associado à redução das complicações a longo prazo.13-16 Manter
HbA1c em níveis dentro da normalidade está associado ao menor acúmulo
mitocondrial de radicais livres e de produtos avançados da glicosilação.
O follow-up dos pacientes com DM1 acompanhados durante o DCCT6
deu origem ao estudo Epidemiology of Diabetes Intervention and
Complications (EDIC).14,16 Nesse estudo, foram demonstrados os benefícios
a longo prazo do controle glicêmico estrito desde o início do tratamento,
com redução da incidência e progressão de complicações microvasculares e
também de complicações macrovasculares, mesmo quando o controle
glicêmico desses pacientes se tornava similar ao dos pacientes do grupo
padrão.
O acompanhamento 10 anos após dos pacientes com DM2 incluídos no
estudo UKPDS15 mostrou resultados semelhantes ao EDIC,14,16 e também
demonstrou que o efeito do bom controle glicêmico precoce (legacy effect)
seria uma forma eficaz de prevenir o aparecimento e a progressão das
complicações secundárias.13
Metas no controle glicêmico do diabetes
Deve-se ter, como objetivo, o alcance de níveis normais de glicemia na
maioria da população com diabetes. A meta é conseguir o menor valor de
HbA1c possível, na ausência de hipoglicemia, ou prejuízos na qualidade de
vida. Os alvos glicêmicos mais flexíveis devem ser adotados em crianças
muito jovens, idosos frágeis, na presença de hipoglicemias graves ou
recorrentes, expectativa de vida limitada, complicações micro e
macrovasculares avançadas e comorbidades graves. Por outro lado, durante
a gestação e nas mulheres em idade fértil sugere-se um controle glicêmico
ainda mais rigoroso.
Metas no controle glicêmico de adultos
Manter a HbA1c em torno de 7% é a meta defendida pela maioria das
sociedades médicas especializadas em diabetes (Tabela 9.1).17-19 Baseadas
em evidências recentes, alguns consensos têm recomendado a redução
desse nível para 6,5%, especialmente em pacientes jovens, recém-
diagnosticados e com ausência de hipoglicemias recorrentes ou alto risco
cardiovascular.
A hiperglicemia pós-prandial é um fenômeno muito frequente em
pessoas com DM2 e pode ocorrer até mesmo quando o controle metabólico
geral parece estar adequado, conforme avaliado pela HbA1c.20 Estudos
epidemiológicos mostram a hiperglicemia pós-prandial de 2 h como sendo o
melhor preditor, independente da glicemia de jejum, de doença
cardiovascular e da mortalidade por todas as causas.21 Evidências recentes
sugerem que as elevações glicêmicas significativas após as refeições
parecem promover a variabilidade glicêmica (VG) e, consequentemente, o
estresse oxidativo e o dano vascular. 7,22-24 Embora ainda não esteja tão bem
estabelecido, parece que a hiperglicemia pós-prandial também representa
um fator de risco para o aparecimento de complicações microvasculares,
especialmente retinopatia e neuropatia.25
Portanto, assim como a glicemia de jejum, a glicemia pós-prandial
também deve ser abordada de forma eficaz na medida em que também
contribui para o aumento da HbA1c, especialmente quando esta se encontra
próxima a 7%. Naqueles pacientes com HbA1c próxima ao alvo, com
glicemias pré-prandiais controladas, deve-se solicitar a monitoração da
glicemia 2 h após a alimentação.
Tabela 9.1 Metas de hemoglobina glicada (HbA1c) e níveis glicêmicos em adultos
ADA IDF AACE SBD
HbA1c % < 7 < 6,5 < 6,5 < 7
Glicemia de jejum (mg/dL) 90 a 130 100 a 110 < 110 < 110
Glicemia pré-prandial (mg/dL) 90 a 130 100 a 110 < 110 < 110
Glicemia pós-prandial (mg/dL) < 180 < 135 < 140 < 140
ADA = American Diabetes Association; IDF = Internacional Diabetes Federation; AACE = American College of Endocrinology; SBD = Sociedade Brasileira de Diabetes.
Metas no controle glicêmico de crianças e adolescentes
Em crianças e adolescentes, as metas terapêuticas recomendadas variam
de acordo com a idade do paciente (Tabela 9.2).17 As crianças diferem dos
adultos em muitos aspectos, inclusive mudanças na sensibilidade à insulina
relacionadas com o estágio de desenvolvimento sexual e crescimento, e
suscetibilidade a danos neurológicos causados pela hipoglicemia.
Nesse grupo de pacientes, o apoio dos pais e familiares é fundamental,
com o intuito de orientar a aplicação de insulina, prevenir e tratar episódios
de hipoglicemia, além de fornecer suporte emocional. O uso de cartão de
identificação de portador de diabetes deve ser sempre estimulado.
Metas no controle glicêmico de idosos
Com o aumento da expectativa de vida, o número de idosos vem
aumentando progressivamente, o que possibilita aumento da prevalência de
doenças crônicas, como o DM2.26 A faixa etária não deve ser motivo para
que se menospreze o diagnóstico ou não se estimule o controle ideal.
No entanto, os idosos merecem atenção especial ao se definirem as
metas terapêuticas recomendadas, sendo fundamental a avaliação do estado
funcional e cognitivo do paciente, bem como sua expectativa de vida.
Em idosos com boas condições de saúde, metas semelhenates à
população adulta não idosa podem ser indicadas, buscando-se sempre
atingir HbA1c menor do que 7%, levando-se em consideração
particularidades próprias do envelhecimento. A possibilidade de interação
medicamentosa pela concomitância com outros tratamentos farmacológicos
e o comprometimento do clearance de creatinina, ambos levando a maior
risco de hipoglicemia, também merecem papel de destaque durante a
abordagem terapêutica desses indivíduos.
Tabela 9.2 Metas de hemoglobina glicada (HbA1c) e níveis glicêmicos em crianças e adolescentes com DM1
Glicemia pré- Glicemia ao deitar
Idade HbA1c (%) prandial (mg/dL) (mg/dL) Comentários
0 a 6 anos 7,5 a 8,5 100 a 180 110 a 200 Alto risco e maior
vulnerabilidade a
hipoglicemias
assintomáticas
relacionadas com
mecanismos
contrarregulatórios
imaturos; baixa
capacidade cognitiva
para reconhecer e
alertar sobre os
sintomas de
hipoglicemia
6 a 12 anos < 8 90 a 180 100 a 180 Risco de
hipoglicemia
relativamente baixo
13 a 19 anos < 7,5 90 a 130 90 a 150 Risco de
hipoglicemia grave
relacionado com as
variações hormonais
da puberdade
Problemas
psicológicos e de
desenvolvimento
Metas mais baixas
podem ser o objetivo
(HbA1c < 7%), sem
hipoglicemias
excessivas
American Diabetes Association. Standards of Medical Care in Diabetes – 2010. Diabetes
Cares. 2010; 33 (Suppl. 1): S11-61.17
Naqueles idosos mais comprometidos ou portadores de complicações
micro ou macrovasculares avançadas, deve-se adotar uma estratégia terapêutica mais flexível, com o objetivo de evitar hiperglicemia
sintomática que comprometa a saúde e o estado geral do indivíduo. São
aceitáveis, em idosos frágeis, glicemia de jejum e pré-prandial de até 140
mg/dL, glicemia pós-prandial de até 200 mg/dL e hemoglobina glicada de
até 8%.19
Metas no controle glicêmico de gestantes
O controle glicêmico da gestante com diabetes deve ser realizado de
forma muito rígida, visto que a hiperglicemia mantida é causa importante de
morbimortalidade materna, fetal e neonatal.
Tanto no diabetes gestacional como na gestante com DM1 ou DM2, a
hiperglicemia tem consequências graves.27,28 As metas glicêmicas definidas
pela American Diabetes Association (ADA) em 2010 são apresentadas na
Tabela 9.3.17
Tabela 9.3 Metas de hemoglobina glicada e níveis glicêmicos em gestantes
Diabetes gestacional13 14 Gestantes com DM1 ou DM2
Pré-prandial: 60 a 95 mg/dL Pré-prandial/bedtime/noturna: 60 a 99 mg/dL
Pós-prandial de 1 h: < 140 mg/dL Pico de hiperglicemia pós-prandial: 100 a 129 mg/dL
Pós-prandial de 2 h: < 120 mg/dL Hemoglobina glicada < 6%
American Diabetes Association. Standards of medical care in diabetes – 2010. Diabetes
Care. 2010; 33 (Suppl 1): S11-61.17
O teste HbA1c tem valor limitado no diabetes gestacional e não deve
ser utilizado para ajustar as doses de insulina, mesmo daquelas que tenham
diabetes pré-gestacional, em função da demora de 3 a 4 meses para que se
obtenha um resultado preciso de qualquer intervenção terapêutica. Nessa
situação, a automonitoração da glicemia capilar assume papel fundamental
na avaliação glicêmica das gestantes.
Metas no controle glicêmico em pacientes internados
O manejo adequado da hiperglicemia do paciente internado está
associado a menor morbimortalilidade e redução do tempo de internação. O
aumento da glicemia em ambiente hospitalar está relacionado com maior
tempo de ventilação mecânica, dificuldade de cicatrizar feridas e maior
índice de infecção bacteriana.
A hiperglicemia pode ser consequência de estresse, diabetes prévio
descompensado, suspensão de medicamentos hipoglicemiantes, dieta
parenteral e uso de drogas hiperglicemiantes. O alvo glicêmico no paciente
internado, especialmente para o paciente não crítico, ainda é motivo de
discussão.
O estudo multicêntrico conhecido por NICE-SUGAR, publicado em
2009,29 avaliou 6.104 pacientes críticos admitidos em unidades de cuidados
intensivos que foram randomizados em um grupo com controle intensivo da
glicemia (alvo de 81 a 108 mg/dL) e outro com controle tradicional (< 180
mg/dL). Nesse estudo, o grupo submetido ao controle estrito da glicemia
apresentou aumento de mortalidade por doença cardiovascular durante os
90 dias de acompanhamento (27,5% × 24,9%, p = 0,02), provavelmente
relacionado com o aumento de episódios de hipoglicemia. De acordo com
esse estudo, recomenda-se que, em pacientes críticos, inicie-se a terapia
com insulina endovenosa por meio de protocolos já estabelecidos, quando a
glicemia estiver > 180 mg/dL. Uma vez iniciada a insulinoterapia, deve-se
manter a glicemia em torno de 140 a 180 mg/dL.17,29 Alvos glicêmicos
menos rígidos podem ser mantidos para pacientes terminais ou com
comorbidades extensas.
Os pacientes não críticos ainda não apresentam alvos glicêmicos
estabelecidos por meio de estudos multicêntricos. Os consensos atuais
recomendam que esses pacientes devam manter a glicemia pré-prandial <
140 mg/dL e a glicemia ao acaso < 180 mg/dL.17
MÉTODOS PARA A AVALIAÇÃO DO CONTROLE GLICÊMICO
Os métodos mais tradicionais (e também os mais utilizados) para a
avaliação do controle do diabetes são a monitoração glicêmica e a
hemoglobina glicada (HbA1c). Essas ferramentas atuam de forma decisiva para a orientação do médico na definição ou modificação de uma conduta
terapêutica.
Atualmente, novos métodos, como a variabilidade glicêmica (VG),
obtidos por meio de recursos informatizados, têm sido propostos para
avaliação mais ampla e dinâmica do controle glicêmico.
Monitoração glicêmica
A monitoração glicêmica pode ser realizada por meio da
automonitoração domiciliar da glicemia capilar (AMGC) ou pelo sistema de
monitoração contínuo da glicemia, que é mais conhecido por CGM (sigla
em inglês para Continuous Glucose Monitoring).
A AMGC deve ser indicada para todos os pacientes em tratamento com
insulina e nas gestações complicadas pelo diabetes. Seus benefícios em
indivíduos com diabetes tipo 2 controlado com dieta ou drogas orais ainda
não estão claros, porém ela pode ser de grande auxílio quando esses
pacientes ainda estão em fase de descompensação e no controle da
hiperglicemia pós-prandial.30
A frequência de medidas da glicemia capilar vai ser determinada de
acordo com as particularidades de cada paciente. Para a maioria dos
pacientes com DM1 e grávidas usando insulina, é recomendado realizar a
AMGC, 3 ou mais vezes ao dia.17
Os resultados obtidos a partir da AMGC podem ser úteis para prevenir
hipoglicemias, ajustar medicamentos (particularmente a dose de insulina
prandial) e ajustar a glicemia para a atividade física.
Como a acurácia das medidas da AMGC é dependente do aparelho e da
técnica utilizada, é importante avaliar periodicamente como o paciente está
realizando suas medidas de glicemia capilar e como está utilizando essas
medidas para o ajuste de medicamentos, ingestão alimentar e prática de
exercícios físicos.
O CGM constitui uma tecnologia emergente e complementar à AMGC
para aqueles indivíduos que sofrem de hipoglicemias assintomáticas e/ou
frequentes. O CGM mede a glicemia intersticial a cada 1 a 10 min por meio
de sensores e armazena esses dados, que podem ser acessados
retrospectivamente pelo médico ou mostrados em tempo real no monitor, o que permite análise sobre os níveis de glicose e seus padrões de tendência.
Suas principais limitações são o custo elevado, o desconforto para o
paciente, a necessidade de calibrações frequentes, a interferência de fatores,
como temperatura do corpo, sudorese e presença de substâncias oxidantes
ou antioxidantes.31 O CGM pode também superestimar ou subestimar os
resultados quando ocorrem flutuações importantes na glicemia.
Um estudo clínico randomizado de 26 semanas, que incluiu 322
indivíduos com DM1, mostrou que os pacientes com idade superior a 25
anos, submetidos a tratamento intensivo usando insulina e CGM,
apresentaram redução adicional de 0,5% na HbA1c (7,6% para 7,1%), em
comparação com o grupo que usou apenas insulinoterapia intensiva e
AMGC. Em crianças, adolescentes e indivíduos abaixo de 25 anos de idade,
não houve redução significativa da HbA1c. Porém, nesse estudo, os
indivíduos mais jovens usaram por menos tempo o CGM.32
Portanto, o CGM pode ser particularmente útil em indivíduos
selecionados com episódios recorrentes de hipoglicemias assintomáticas e
que estejam motivados para o uso contínuo de um sensor.
Hemoglobina glicada (HbA1c)
A medida da HbA1c é capaz de refletir a glicemia média plasmática das
últimas semanas e representa um forte preditor para complicações do
diabetes.6 A mensuração a cada 3 meses permite avaliar se a meta glicêmica
foi alcançada e se está sendo mantida. Ela deve ser realizada no início do
tratamento e ao longo do acompanhamento para auxiliar no manejo clínico.
Pacientes com glicemia estável e dentro do alvo podem ter sua HbA1c
mensurada 2 vezes ao ano. Em pacientes instáveis ou manejados
intensamente, deve-se realizar mensurações em período mais frequente que
3 meses.17
Atualmente, a literatura médica tem cada vez mais valorizado a
correlação entre HbA1c e glicemia média estimada (GME) (Tabela 9.4).
Algumas sociedades têm proposto o conceito de GME em substituição ao
conceito de hemoglobina glicada, pois esse termo costuma confundir o
paciente por utilizar um parâmetro hematológico para a expressão do
controle glicêmico.
Tabela 9.4 Correlação entre a HbA1c e a glicemia média estimada
HbA1c % Glicemia média estimada (mg/dL)
6 126
7 154
8 183
9 212
10 240
11 269
12 298
Os valores de correspondência entre os níveis de HbA1c e os
respectivos valores de GME foram inicialmente definidos durante o estudo
DCCT.6 Entretanto, o estudo A1C Derived Average Glucose (ADAG),23
cujos resultados foram publicados em 2008, reavaliou esses valores e
elaborou uma nova lista de correspondência baseada em análise que avaliou
a AMGC e o CGM em 507 adultos (83% caucasianos) com DM1, DM2 e
sem diabetes (Tabela 9.4). Os níveis de HbA1c foram obtidos ao final de 3
meses e avaliados em um laboratório central, onde foram comparados com
os níveis de glicemia média no período. Nesse estudo não houve diferenças
significativas entre os grupos étnicos na análise de regressão linear. No
entanto, se mais pacientes de outras etnias fossem incluídos, talvez
houvesse diferença. Como a glicemia média plasmática se correlaciona à
HbA1c em crianças e adultos de diversas etnias ainda é objeto de estudo.
A análise da HbA1c apresenta algumas limitações. Algumas condições
que afetam o turnover eritrocitário e as hemoglobinopatias devem ser
consideradas quando o resultado da HbA1c é incompatível com a situação
clínica do paciente. Além disso, a HbA1c não fornece avaliação acerca da
variabilidade glicêmica.
A frutosamina pode ser indicada para aqueles indivíduos em que a
interpretação da HbA1c encontre-se prejudicada. Ela também tem
importante aplicação para análise do controle glicêmico em intervalos mais
curtos, o que pode ser de valor nas gestantes e naqueles indivíduos que não
fazem AMGC, mas para os quais haja necessidade de avaliar a resposta à
terapêutica instituída. Não há, até o momento, estudos populacionais que
definam o nível de frutosamina e o risco de desenvolver complicações
crônicas do diabetes.
Variabilidade glicêmica
O conceito de variabilidade glicêmica (VG) como possível fator de
risco, independente da hemoglobina glicada para complicações secundárias
do diabetes, começou a ser considerado a partir dos resultados do estudo
DCCT.6 Nesse estudo, constatou-se uma diferença significativa entre o risco
de desenvolver retinopatia no grupo intensivo (8%) e convencional (22%),
mesmo com níveis idênticos de HbA1c (9%). Foi, então, sugerido que a
maior oscilação da glicemia ao longo do dia no grupo em tratamento
convencional poderia explicar tal fato.
Embora o real impacto que as variações da glicemia podem causar ainda
não esteja estabelecido, é cada vez maior o nível de evidência que a
relaciona com a variabilidade glicêmica e o aparecimento de complicações
micro e também macrovasculares.
Recentemente, alguns estudos foram publicados e mostraram que níveis
oscilantes de glicemia estão associados à disfunção endotelial e ao aumento
do estresse oxidativo, que é considerado uma das bases fisiopatológicas de
diversas complicações do diabetes.7,22-24 Foi demonstrado ainda que o
impacto deletério da hiperglicemia continuada e estável sobre a função
endotelial é menor do que aquele observado quando existe variabilidade
glicêmica. 7,23,24,33 Além disso, quanto maior a oscilação da glicemia, maior a
intensidade do estresse oxidativo.7
Existem diversas maneiras de se medir a variação de glicemia. Em se
tratando de exames laboratoriais, a detecção urinária de 8-iso-
prostaglandina F2α (PGF2α) pode ser avaliada e é um marcador de estresse
oxidativo que correlaciona-se de maneira direta às flutuações da glicemia
ao longo do dia, mas não à HbA1c.23
Na prática clínica, a VG pode ser determinada a partir de 2 métodos
principais: o desvio padrão de medidas obtidas por AMGC ou pela
amplitude média das excursões glicêmicas obtidas por CGM, que é mais
conhecida pela sua sigla em inglês MAGE (mean amplitude of glycemic
excursion). MAGE é calculada a partir da média aritmética das diferenças
entre picos e nadir consecutivos de medidas obtidas por meio da utilização
de um aparelho de CGM por um período de 48 h. Apesar de ser considerado
o padrão-ouro para a avaliação da VG, a necessidade de colocação do CGM
ainda é fator limitante para o uso disseminado da MAGE.
A ampla disponibilidade de glucosímetros faz com que essa ferramenta
seja a mais utilizada para o cálculo da VG. São necessárias 6 a 7 medidas
de glicemia capilar por dia, 3 dias por semana, durante 4 semanas. Os
resultados obtidos são transferidos para um computador, em que são
analisados por meio de software específico, que gera um gráfico de perfil
glicêmico e calcula os valores de glicemia média semanal (GMS) e VG, que
é expressa em termos de desvio padrão (DP) do conjunto de dados
glicêmicos do período. O recomendado é que o DP multiplicado por 2 deve
ser inferior à média da glicemia. Alguns autores preconizam que o DP
multiplicado por 3 deve ser inferior à média da glicemia.
A análise em conjunto desses parâmetros permite a interpretação mais
precisa do desempenho clínico do paciente e é útil principalmente nos casos
em que se observa um nível de HbA1c aparentemente normal, à custa de
amplas variações da glicemia para cima e para baixo.
PREVENÇÃO E CONTROLE DE FATORES DE RISCO CARDIOVASCULARES
A doença cardiovascular é a principal causa de óbito em pacientes com
diabetes.34 O risco de eventos vasculares nestes pacientes é 3 vezes maior,
como apontam diversos estudos. As alterações metabólicas do diabetes
conduzem a um ambiente muito particular de progressão e aceleração da
aterosclerose, sendo este processo agravado pela associação de outros
fatores de risco, sobretudo a hipertensão arterial, a dislipidemia e o
tabagismo. O combate ao excesso de peso, à hipercoagulabilidade e ao
sedentarismo também deve ser considerado estratégia terapêutica
importante.35 Sabemos que mais de 60% da morbidade, mortalidade e gastos em saúde nos pacientes com DM2 são dependentes da doença
macrovascular.
Pressão arterial
A hipertensão arterial sistêmica (HAS) é uma comorbidade que afeta a
grande maioria da população diabética. Sua prevalência varia de acordo
com a idade, tipo de diabetes, índice de massa corporal e etnia.
Frequentemente, a HAS, no DM1, é resultado da evolução da nefropatia, e,
no DM2, ela coexiste com outros fatores de risco cardiovasculares.
A pressão arterial (PA), no paciente com diabetes, deve ser mensurada
de rotina a cada consulta médica. O alvo da pressão arterial, para a
American Diabetes Association, deve ser < 140 × 80 mmHg. Entretanto, o
Eight Joint National Committee (JNC 8) estabelece como alvo para
pacientes em DM, a PA de < 140 × 90 mmHg. Para pacientes acima do
alvo, devem ser iniciadas modificações do estilo de vida, o que inclui uma
dieta com restrição de sódio (até 1,5 g/dia) e aumento da ingestão de
potássio, perda de peso, atividade física e restrição de álcool.
Caso sejam confirmadas em 2 ocasiões PAS acima de 140 mmHg e
PAD acima de 90 mmHg, deve-se iniciar, além de modificações do estilo de
vida, a terapia farmacológica, como indicado na Tabela 9.5.
Tabela 9.5 Recomendações para adultos, gestantes, crianças e adolescentes
Pressão arterial sistólica (PAS) Pressão arterial diastólica
(PAD)
Adultos < 140 mmHg < 80 mmHg*
< 90 mmHg**
Gestantes com diabetes e hipertensão 110 mmHg a 129 mmHg 65 mmHg a 79 mmHg
arterial
Crianças e adolescentes com DM1 < percentil 90 para idade, sexo e percentil de altura * Para a American Diabetes Association (ADA).
** Para o Eight Joint National Committee (JNC 8).
Durante a gestação de uma paciente com DM e hipertensão, os alvos
pressóricos devem se situar entre 110 mmHg e 129 mmHg para PAS e 65
mmHg e 79 mmHg para PAD, com o intuito de evitar desfechos materno-
fetais indesejáveis.
Lipídios
O alvo principal da terapêutica é normalizar o colesterol de
lipoproteínas de baixa densidade (LDL). A estratégia secundária envolve o
aumento do colesterol de lipoproteínas de alta densidade (HDL) e a redução
de triglicerídeos. Os consensos atuais recomendam maior foco no colesterol
não HDL e na apolipoproteína B em pacientes com diabetes, pois estes
apresentam, apesar de níveis considerados normais de LDL, partículas mais
aterogênicas por serem pequenas e densas.17
Em pacientes com diabetes e doença arterial coronariana (DAC)
estabelecida ou > 40 anos de idade com mais de um fator de risco
cardiovascular, o uso de estatina está recomendado, independentemente do
perfil lipídico. Para indivíduos com DAC estabelecida, o alvo de LDL deve
ser < 70 mg/dL. Para aqueles sem DAC, o LDL deve se manter < 100
mg/dL. Caso o indivíduo não alcance o alvo recomendado com a terapia
medicamentosa máxima tolerada, um alvo de LDL < 30% a 40% o basal
pode ser recomendado (Tabela 9.6).17,36
Em 2013, a American College of Cardiology/American Heart
Association Task Force estabeleceram um novo guideline com metas a
serem atingidas no tratamento de dislipidemia, que serão abordadas no
capítulo de “Diabetes e dislipidemia”.
Tabela 9.6 Metas das dosagens dos lipídios em adultos com diabetes
Alvo
Colesterol total < 200 mg/dL
LDL < 100 mg/dL
< 70 mg/dL (DAC estabelecida)
HDL > 40 mg/dL Homens
> 50 mg/dL Mulheres
Triglicérides < 150 mg/dL
Colesterol não HDL < 130 mg/dL
< 100 mg/dL (DAC estabelecida)
APO B < 90 mg/dL
< 80 mg/dL (DAC estabelecida)
DAC = doença arterial coronariana; HDL = lipoproteína de alta densidade; LDL = colesterol de baixa densidade.
Em caso de hipertrigliceridemia grave, mudanças no estilo de vida
(MEV) e fibratos, ou niacina, devem ser a terapia principal, com o objetivo
de reduzir o risco de pancreatite.17
A dosagem do perfil lipídico na infância deve ser indicada em crianças
> 2 anos de idade que apresentam história familiar de hipercolesterolemia,
DAC precoce (< 55 anos) ou história familiar desconhecida. Caso a história
familiar seja negativa, deve-se solicitar o perfil lipídico em crianças com
diabetes apenas na puberdade (> 10 anos). O alvo do LDL em crianças é <
100 mg/dL (Tabela 9.7).
Tabela 9.7 Metas das dosagens dos lipídios para crianças e adolescentes com DM1
Alvo
Colesterol total < 200 mg/dL
LDL < 100 mg/dL
HDL > 40 mg/dL
Triglicérides < 150 mg/dL
HDL = lipoproteína de alta densidade; LDL = colesterol de baixa densidade.
Tabagismo
O tabagismo, por meio de diferentes ações metabólicas e vasculares,
potencializa as complicações do diabetes e aumenta a mortalidade,
constituindo um fator de risco cardiovascular independente.34,39 O
tabagismo promove a hiperativação do sistema nervoso simpático, o
aumento da liberação de cortisol e da resistência à insulina. Além disso, o
tabagismo frequentemente se associa a um estilo de vida inadequado,
caracterizado pelo sedentarismo e o consumo excessivo de álcool.
Todos os pacientes com DM devem ser encorajados a evitar ou
abandonar o cigarro. A cada consulta, deve-se explicar os riscos do
tabagismo em relação ao diabetes e questionar se o paciente deseja parar.
Caso o paciente esteja motivado a parar de fumar, deve-se traçar uma
estratégia terapêutica individualizada e oferecer terapia farmacológica, caso
necessário.17 Se possível, deve-se encaminhar o paciente para uma unidade
de tratamento especializada.
Exercício físico
A prática regular de exercícios físicos está associada a melhora do
controle glicêmico, redução dos fatores de risco cardiovasculares, perda de
peso, melhora da autoestima e sensação de bem-estar.40
É recomendado que indivíduos > 18 anos de idade pratiquem, em
média, 150 min por semana (30 a 60 min por dia) de atividade física de
moderada intensidade (50% a 70% da frequência cardíaca máxima), ou 75
min de atividade física vigorosa por semana ou uma combinação
equivalente.17 Na ausência de contraindicações, a musculação que envolve
os principais grupamentos musculares também é recomendada 2 ou mais
vezes por semana. Nos adultos idosos com limitações osteoarticulares, o
treinamento progressivo da resistência pode ser uma estratégia excelente
para melhorar a resistência à insulina e o controle metabólico. Alguns estudos evidenciaram redução do valor absoluto da HbA1c em 1,2% com
um programa de exercícios físicos de resistência praticados por idosos 3
vezes por semana.41-43
O screening para doença arterial coronariana em indivíduos
assintomáticos que planejam iniciar uma atividade física permanece
controverso. Alguns autores recomendam realizar uma avaliação
cardiológica com teste de esforço em pacientes com diabetes, sedentários e
com mais de um fator de risco cardiovascular (HAS, dislipidemia,
tabagismo, nefropatia, neuropatia autonômica, retinopatia, idade acima de
35 anos, independentemente da existência de outros fatores de risco, e idade
acima de 25 anos, com mais de 15 anos com DM1, ou mais de 10 anos com
DM2).
Algumas precauções também devem ser tomadas antes do início da
atividade. É recomendado que o indivíduo com diabetes:
■ Use um cartão de identificação.
■ Mantenha, sempre ao alcance, carboidratos de absorção rápida para correções; glicêmicas
eventualmente necessárias.
■ Avalie os pés antes e após os exercícios.
■ Utilize calçados adequados com meias brancas de algodão ou poliéster. ■ Faça ingestão de líquidos adequadamente.
A glicemia capilar deve ser medida antes, durante e após a prática de
atividade física com o intuito de avaliar o efeito do exercício no indivíduo.
É interessante salientar que a prática de exercícios vigorosos pode levar a
tendência à hiperglicemia e não diminuição da glicose, que, no entanto,
pode ocorrer mais tarde. Em caso de glicemia < 100 mg/dL, se o paciente
estiver em uso de insulina ou secretagogos, deve-se ingerir uma quantidade
extra de carboidratos, de acordo com o tipo de atividade. Caso a glicemia
esteja > 250 mg/dL, com cetonúria/cetonemia negativas e o paciente estiver
se sentindo bem, a prática de atividade física não precisa ser interrompida.
Em pacientes em uso de insulina humana, recomenda-se não injetar em
áreas próximas aos músculos que serão mais utilizados. Os pacientes com
diabetes também devem ser avaliados quanto às condições que
contraindiquem a prática de atividade física, hipertensão arterial sistêmica não controlada, retinopatia proliferativa, neuropatia periférica e autonômica
e nefropatia diabética (Tabela 9.8).17,36
Tabela 9.8 Situações especiais e a prática de atividade física
Situações especiais Comentários
Retinopatia diabética Pelo risco de hemorragia vítrea ou descolamento de retina,
os exercícios vigorosos ou de resistência de alta intensidade
devem ser contraindicados em casos de retinopatia
proliferativa ou retinopatia não proliferativa grave
Neuropatia periférica Estimular atividades físicas sem sustentação de peso (p. ex.,
hidroginástica, natação, bicicleta)
Neuropatia autonômica Risco de hipotensão postural, resposta cardíaca diminuída ao
exercício, alteração da termorregulação e absorção
imprevisível de carboidratos, predispondo a maior risco de
hipoglicemia A neuropatia autonômica está fortemente
associada à doença cardiovascular. Portanto, alguns autores
recomendam que esses pacientes sejam submetidos a uma
avaliação cardiológica rigorosa
Nefropatia diabética Não existe restrição à atividade física A micro e a
macroalbuminúria estão associadas à disfunção
cardiovascular. Portanto, esses pacientes também devem ser
submetidos a uma avaliação cardiológica cuidadosa
Índice de massa corporal (IMC) e circunferência abdominal (CA)
A obesidade é considerada atualmente uma doença de prevalência
crescente e um dos principais problemas de saúde pública na sociedade
moderna. Sua relação com o DM2 é bem estabelecida. Indivíduos com
sobrepeso ou obesidade têm aumento significativo do risco de
desenvolverem diabetes. Além disso, a obesidade exacerba as
anormalidades metabólicas do diabetes, como a hipertensão e a
dislipidemia. Perda de peso modesta (em torno de 5% do peso corporal)
está associada à redução da resistência à insulina e da glicemia, melhora do
perfil lipídico e da pressão arterial.44
A medida da circunferência abdominal (CA) é um método considerado
simples na avaliação da distribuição da gordura corporal. É a medida com
melhor correlação à quantidade de gordura visceral e, consequentemente, ao
risco metabólico e cardiovascular. De acordo com a International Diabetes
Federation (IDF), os valores de corte para a medida da CA devem ser
determinados conforme a etnia (Tabela 9.9), o que muitas vezes é difícil de
ser definido na população brasileira.
Tabela 9.9 Medidas de cintura definidas por sexo e etnia, segundo a IDF
Mulheres (cm) Homens (cm)
Europeus 80 94
Sul-asiáticos/Chineses 80 90
Sul-americanos/Africanos 80 90
Japoneses 90 85
O tratamento farmacológico da obesidade (Tabela 9.10) está indicado na
falência do tratamento não farmacológico quando IMC > 30 kg/m2, ou IMC
> 27 kg/m2 associado a comorbidades, como o diabetes mellitus.
As dietas de baixo teor calórico pela restrição de carboidratos e/ou
gorduras parecem ser as mais efetivas para promover a perda de peso,
especialmente quando associadas a um plano de exercícios físicos
regulares. A restrição de gorduras deve contemplar ingestão de gordura
saturada < 7%, e a ingestão de gordura trans deve ser evitada. O consumo
de fibras na dieta (14 g/1.000 kcal) também deve ser estimulado.17
A cirurgia bariátrica parece ser uma opção para os pacientes diabéticos
com IMC > 35 kg/m2, que não apresentem controle da glicemia ou de outras
comorbidades associadas com mudança do estilo de vida e terapia
farmacológica. No entanto, o procedimento acarreta alguns riscos exige
acompanhamento clínico ao longo de toda a vida. Em alguns estudos, foi
demonstrada melhora significativa do controle glicêmico ou até normalização da glicemia, dependendo da técnica utilizada, em pacientes
com DM2 que foram submetidos à cirurgia bariátrica.45,46
Tabela 9.10 Classificação da OMS para avaliação do perfil antropométrico-nutricional em adultos
IMC
Baixo peso 2 < 18,5 kg/m
Normal 2 18,5 a 24,9 kg/m
Sobrepeso 2 25 a 30 kg/m
Obesidade grau 1 2 30 a 35 kg/m
Obesidade grau 2 2 35 a 40 kg/m
Obesidade grau 3 2 > 40 kg/m
Quando se trata de crianças e adolescentes, é recomendado verificar a
cada consulta seu peso, altura, calcular o seu IMC e analisar os valores
utilizando-se gráficos apropriados. Esses valores são importantes para
avaliar se o ritmo de crescimento da criança está adequado ao padrão
familiar e recalcular o valor calórico de sua dieta e a necessidade de
insulina. Define-se como obesa a criança que apresenta IMC > percentil 85
para idade e sexo. Nesse caso, mudanças no estilo de vida e dieta se fazem
necessárias para promover perda de peso.
Hipercoagulabilidade
É sabido que o risco de doença arterial coronariana (DAC) encontra-se
bastante elevado em pacientes com diabetes. Com base em resultados
recentes de ensaios clínicos com grande número de pacientes e metodologia
satisfatória, as principais sociedades revisaram seus critérios para utilizar o
ácido acetilsalicílico (AAS) na prevenção primária. De acordo com o novo critério, o uso do AAS (75 a 162 mg/dia) para prevenção primária fica
recomendado para pacientes com DM1 ou 2 com risco cardiovascular
aumentado (> 10% em 10 anos). Geralmente, pacientes > 50 anos (homens)
ou > 60 anos (mulheres) com fatores de risco cardiovasculares adicionais,
como hipertensão, micro ou macroalbuminúria, dislipidemia, tabagismo e
história familiar de DAC, terão indicação de AAS pelo novo critério
(Tabela 9.11). Para pacientes abaixo da faixa etária estabelecida com
múltiplos fatores de risco cardiovascular, o julgamento clínico se faz
necessário.47
Tabela 9.11 Indicações para o uso do AAS na prevenção primária em adultos portadores de diabetes mellitus
Hipertensão arterial Micro ou macroalbuminúria
Dislipidemia
Homens > 50 anos e mulheres > 60 anos com mais um
fator de risco cardiovascular
Tabagismo
História familiar de DAC
DAC = doença arterial coronariana.
Salvo contraindicações (alergia, tendência a sangramentos, doença
hepática ativa, hemorragia gastrintestinal recente) ou intolerância, o uso do
AAS para prevenção secundária (infarto agudo do miocárdio prévio ou
angina, bypass vascular, claudicação intermitente, acidente vascular
encefálico isquêmico ou ataque isquêmico transitório) permanece
recomendado devido a seus incontestáveis benefícios. Em caso de alergia
ao AAS, o uso do clopidogrel deve ser considerado.
PERSPECTIVAS
Existem alguns parâmetros cuja importância ainda não se encontra bem
definida na prática clínica devido à falta de grandes estudos concluídos.
Como exemplo, podemos citar as medidas dos produtos finais da glicosilação, dos produtos resultantes de estresse oxidativo e dos
triglicerídeos pós-prandiais. Existe um leque de possibilidades terapêuticas
que ainda não foi esgotado. Portanto, no futuro, mudanças no perfil de
acompanhamento e critérios de controle do diabetes são esperadas.
CONCLUSÃO
O alcance dos objetivos no controle do paciente com diabetes não é
tarefa fácil. Os esforços para reduzir a glicemia devem ser individualizados
e balanceados entre os riscos e os benefícios. Deve-se ter em mente que,
além de evitar as complicações, tanto agudas quanto crônicas do diabetes,
preservar a qualidade de vida do individuo também é prioridade.
Hoje em dia, está claro que apenas o controle da glicemia não é
suficiente para conter o processo de aterosclerose, especialmente nos
indivíduos com DM2. Os consensos atuais reforçam a importância de um
tratamento global do diabético, objetivando o processo educacional e
também o combate aos fatores de risco cardiovascular.
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