Rotinas de Diagnóstico e Tratamento do Diabetes Mellitus
12.3. Manejo clínico do diabetes mellitus como uma comorbidade durante a internação hospitalar
Manejo clínico do diabetes mellitus como uma comorbidade
durante a internação hospitalar
Livia Daher Balarini
Lenita Zajdenverg
Melanie Rodacki
INTRODUÇÃO
Diante da evidência de que o controle glicêmico satisfatório reduz a
morbimortalidade e, consequentemente, o tempo de internação, o manejo
clínico do paciente com diabetes mellitus (DM) deve ser realizado de forma
adequada e eficaz por toda a equipe de saúde envolvida na internação
hospitalar.
O controle da glicemia no ambiente intra-hospitalar se faz
preferencialmente com insulinoterapia para todos os pacientes com doenças
agudas. No entanto, deve ser individualizado de acordo com o estado
clínico do paciente. A alimentação também deve ser um importante alvo de
atenção nesses pacientes. As ingestões devem apresentar conteúdo
consistente de carboidratos em cada refeição, ao longo dos diferentes dias.
Isto é especialmente importante para pacientes em uso de insulina.1
Sugerimos que a monitoração seja feita por meio da aferição da
glicemia capilar nos pacientes com dieta por via oral, antes das refeições e
antes de dormir, e a cada 4 h a 6 h em pacientes críticos ou com dieta
enteral ou parenteral. Nos pacientes que não apresentem história de diabetes, é necessária a administração de insulina quando encontramos
glicemias pré-prandiais > 140 mg/dL e ao acaso > 180 mg/dL após 24 h a
48 h de monitoração glicêmica na internação hospitalar.2
A via preferencial de administração da insulina em pacientes críticos é
intravenosa; já em pacientes não críticos é subcutânea. O esquema
recomendado para administração subcutânea é basal-bolus, sendo o basal
com insulina lenta (NPH) ou análogo de insulina de ação prolongada
(Detemir/Glargina), e o bolus com insulina rápida (Regular) ou análogo de
insulina ultrarrápida (Asparte, Lispro, Glulisina) (Figura 12.3.1). Os
análogos de insulina são preferidos pelo maior perfil de segurança.
Análogos ultrarrápidos de insulina devem ser administrados de 0 a 15
minutos antes das refeições, já a insulina Regular deve ser administrada 30
minutos antes das refeições. Insulina em bolus, de modo geral, deve ser
omitida se a glicemia for < 70 mg/dL ou o paciente estiver em dieta zero.
A prescrição de insulina se dá de forma diferenciada, como será
demonstrado neste capítulo. Nos pacientes que já utilizam insulina, vários
fatores podem interferir nas necessidades de insulina. Enquanto doenças (p.
ex., infecções) e uso de glicocorticoides podem aumentar a necessidade de
insulina, redução da ingestão alimentar pode aumentar o risco de
hipoglicemia.
Figura 12.3.1 Perfil de ação das insulinas.
ORIENTAÇÕES PARA CONTROLE GLICÊMICO DO PACIENTE COM
DIABETES MELLITUS TIPO 2 HOSPITALIZADO, NÃO CRÍTICO, EM DIETA
POR VIA ORAL
■ Suspender hipoglicemiantes não insulínicos de uso habitual, nos pacientes em uso destas
medicações.
■ Cálculo para início de insulina:
□ 0,2 a 0,3 UI/kg/dia em pacientes com perfil de sensibilidade aumentada à insulina: idade ≥ 70
anos, taxa de filtração glomerular < 60 mL/min, doenças terminais ou baixa ingestão calórica.
□ 0,4 UI/kg/dia para pacientes com perfil de resposta normal à insulina: função renal normal,
glicemias capilares entre 140 e 200 mg/dL.
□ 0,5 UI/kg/dia para pacientes com perfil de resistência à ação da insulina: uso de corticoide,
obesos, uso de alta dose de insulina antes da admissão, glicemias capilares entre 201 e 400 mg/dL.
■ Dividir o total calculado em 50% de insulina basal e 50% de insulina em bolus.
□ Basal: Glargina 1 ×/dia, Detemir ou NPH 2 ×/dia por via subcutânea.
□ Bolus: insulina Regular 30 min antes das principais refeições ou análogo de insulina
ultrarrápida, 10 min a 15 min antes das principais refeições.
■ Dividir a dose pelo número de administrações ao dia (em geral 3 × ao dia). Além da dose pré-
calculada do 2 bolus , é recomendado adicionar dose de correção conforme a glicemia capilar,
levando em consideração o perfil de sensibilidade à insulina, conforme a Tabela 12.3.1.
Tabela 12.3.1 Dose suplementar de insulina em bolus para correção de hiperglicemia (somar à dose prandial programada)
Glicemia capilar Sensíveis Usual Resistentes
> 141 a 180 + 2 + 4 + 6
181 a 220 + 4 + 6 + 8
221 a 260 + 6 + 8 + 10
261a 300 + 8 + 10 + 12
301a 350
+ 10 + 12 + 14
351a 400 + 12 + 14 + 16
> 400 + 14 + 16 + 18
Nota: administrar metade da dose na ceia. Geralmente se inicia com a coluna “Usual”. Nos pacientes com baixa ingestão, idosos ou com disfunção renal, iniciar com a coluna “Sensíveis”. Nos pacientes em uso de corticosteroides e usando mais de 80 unidades de insulina/dia, iniciar com “Resistentes”.
O uso de esquemas de insulina de acordo com a glicemia (sliding scale),
isoladamente, sem levar em conta o perfil fisiológico basal-bolus, baseia-se
em um conceito equivocado de tratar hiperglicemia. Nesse tipo de
tratamento, a insulina só é aplicada quando o controle metabólico já foi
perdido e, frequentemente, a dose é excessiva, o que provoca episódios
indesejáveis de hipoglicemia e grande variabilidade glicêmica.
Portanto, o uso de sliding scale isolado, apesar de amplamente
empregado, não é recomendado em pacientes com hiperglicemia mantida (>
140 mg/dL).3,4
Figura 12.3.2 Comparação da evolução da glicemia média entre pacientes tratados com basal-bolus × sliding-scale. Umpierrez GE. et al. Diabetes Care. 2007; 30:2181-85.
■ A via de administração preferencial é a subcutânea. ■ Reajustes deverão ser realizados a cada 24 h a 48 h, conforme monitoração da glicemia capilar. ■ O reajuste de insulina basal pode ser calculado da seguinte forma:
□ Para glicemias que se mantenham > 140 mg/dL no período pré-prandial, e > 180 mg/dL no
período pós-prandial, adicionar 50% do total de insulina usado nas 24 h anteriores para correção à dose diária de insulina.
□ Em caso de hipoglicemia (< 70 mg/dL), a dose de insulina deverá ser reduzida em 20%.
ORIENTAÇÕES PARA CONTROLE GLICÊMICO DO PACIENTE COM
DIABETES MELLITUS TIPO 1 HOSPITALIZADO, NÃO CRÍTICO
O tratamento do DM1 inclui insulinoterapia em esquema basal-bolus,
com múltiplas injeções de insulina ou bomba de infusão subcutânea de
insulina. Pacientes que estejam com estado mental preservado e tenham boa
adesão ao tratamento ambulatorial podem ter condições de administrar sua
própria insulina, da forma como fazem regularmente em casa. Esta conduta
só pode ser adotada se a equipe médica e a equipe de enfermagem julgarem
que o paciente é capaz de realizar os procedimentos necessários para tal. Se
o autocuidado for adotado, a equipe de enfermagem deve ter registro de
tudo que é realizado pelo próprio paciente.3
Caso o paciente esteja em alimentação por via oral, a glicemia capilar
deve ser aferida antes das refeições e ao deitar. O esquema basal-bolus deve
ser mantido durante a internação. A dose de insulina basal deve
corresponder a aproximadamente 50% da dose de insulina em uso e a dose
de insulina pré-prandial deve ser calculada de acordo com a ingestão
alimentar e com a glicemia capilar. O procedimento ideal para cálculo da
dose pré-prandial é identificar a quantidade de carboidratos a ser ingerida
em cada refeição, de acordo com o cálculo da equipe de nutrição, e ajustar
da dose de insulina de acordo com esta quantidade. Nos pacientes que
realizam dieta com contagem de carboidratos ambulatorialmente, a
proporção de insulina para a quantidade de carboidratos a ser ingerida já é
previamente definida. Nos pacientes que não fazem contagem de
carboidratos, a relação insulina:carboidrato pode ser calculada pela fórmula
500/dose total de insulina em uso ou estimada empiricamente de acordo com o peso do paciente. Dessa forma, sabendo a quantidade de carboidratos
a ser ingerida e a necessidade de insulina para cada grama de carboidrato,
podemos prescrever a dose adequada de insulina para cada refeição, desde
que não haja necessidade de correção para hiperglicemia. Por exemplo, se a
equipe de nutrição prescrever 45 g de carboidratos no café da manhã, 60 g
no almoço, 30 g no lanche da tarde, 60 g no jantar e 30 g na ceia em um
paciente que tenha relação insulina carboidratos de 1:15 g, a insulina
prandial a ser prescrita, em um paciente normoglicêmico, será 3 unidades
no café da manhã, 4 unidades no almoço, 2 unidades no lanche e 4 unidades
no jantar e 2 unidades na ceia. Em pacientes em uso de insulina NPH,
especialmente naqueles que utilizam 3 doses de insulina NPH ao dia, a
insulina prandial do lanche muitas vezes pode ser omitida, levando-se em
consideração o pico de ação da insulina NPH pré-almoço, que muitas vezes
coincide com o horário do lanche da tarde. Da mesma forma, em pacientes
que utilizam NPH, é necessário que o paciente realize a ceia. Para pacientes
em uso de insulina Glargina, se a dose de insulina basal estiver adequada, a
ceia não é necessária, embora possa ser realizada se o paciente assim
desejar. Nos pacientes com DM1 hospitalizados em uso de insulina NPH,
especialmente naqueles que a utilizam três vezes ao dia, habitualmente não
utilizamos insulina Regular ou ultrarrápida na ceia (especialmente a
primeira), exceto se houver ingestão muito significativa de carboidratos (o
que usualmente não é recomendado) ou hiperglicemia acentuada, para
correção. Esta conduta visa evitar o desenvolvimento de hipoglicemia
durante a madrugada.
A dose da insulina a ser administrada antes das refeições depende não
só da quantidade de carboidratos a ser ingerida, mas também da glicemia no
momento da administração. A dose de insulina a ser somada à dose de
insulina necessária para “cobrir” os carboidratos a serem ingeridos deve ser
calculada de acordo com o fator sensibilidade. Este, caso não seja
conhecido previamente pelo paciente, pode ser calculado pela fórmula
1.700/dose total de insulina em uso, desde que o paciente esteja com
controle metabólico próximo ao aceitável ambulatorialmente. O uso desta
fórmula em pacientes muito hiperglicêmicos pode subestimar o fator de
sensibilidade e o seu uso em pacientes com hipoglicemias de repetição pode
superestimar este índice. Um paciente com glicemias próximas ao alvo preconizado, sem hipoglicemias significativas de repetição, que utilize 50
unidades de insulina ao dia, terá fator de sensibilidade de 1.700/50 = 34,
que pode ser “arredondado” para 35. Logo, 1 unidade de insulina deverá ser
adicionada para cada 35 mg/dL de glicemia acima do alvo. Retomando o
primeiro exemplo, com dose de insulina prandial calculada como 3
unidades no café da manhã, 4 unidades no almoço, 2 unidades no lanche e 4
unidades no jantar e fator de sensibilidade de 35, a dose de insulina poderia
ser prescrita conforme a Tabela 12.3.2:
Tabela 12.3.2 Exemplo de prescrição de insulina prandial para pacientes com DM1 hospitalizados
Café Almoço Lanche Jantar Ceia*
<140 3 4 2 4 2
140 a 175 4 5 3 5 3
176 a 210 5 6 4 6 4
211 a 245 6 7 5 7 5
246 a 280 7 8 6 8 6
281 a 315 8 9 7 9 7
>315 9 10 8 10 8
* Para a ceia, este esquema seria adequado em pacientes utilizando análogos de insulina de longa duração. Em pacientes em uso de insulina NPH, especialmente naqueles que a utilizam 3 vezes ao dia, seria mais adequado não administrar nenhuma insulina prandial caso a glicose esteja < 175 mg/dL, 2 unidades de 176 a 210 mg/dL, 3 unidades de 211 a 245 mg/dL, 4 unidades de 246 a 280 mg/dL, 5 unidades de 281 a 315 mg/dL e 6 unidades se > 315 mg/dL.
Pacientes em bomba de infusão subcutânea de insulina podem
permanecer utilizando o dispositivo durante a internação conforme o fazem
ambulatorialmente, reduzindo ou aumentando a dose de insulina conforme
necessário de acordo com as glicemias capilares.
Para pacientes com DM1 em dieta zero, a insulina nunca pode ser
suspensa, pois isso propicia o desenvolvimento de cetoacidose diabética.
Nestes casos, é necessário manter insulina basal e suspender a insulina
Regular ou ultrarrápida prandial. Insulina Regular ou ultrarrápida deverá ser
aplicada na presença de hiperglicemia, para correção, de acordo com
esquema pré-elaborado.
ORIENTAÇÕES PARA CONTROLE GLICÊMICO DO PACIENTE COM
DIABETES MELLITUS TIPO 2, NÃO CRÍTICO, EM USO DE DIETA POR VIA
ENTERAL CONTÍNUA
Hiperglicemia é uma complicação comum da dieta enteral e pode
contribuir para eventos adversos. Fórmulas com conteúdo reduzido de
carboidrato são capazes de reduzir a glicemia e devem ser utilizadas em
pacientes hiperglicêmicos. Hiperglicemias mantidas devem ser tratadas com
esquema de insulina. Para pacientes em dieta enteral contínua, podem ser
instituídos esquemas com Glargina uma vez ao dia, insulina NPH 2 vezes
ao dia ou esquema basal-bolus. Para pacientes em dieta enteral com
interrupções programadas, é preferível utilizar o esquema basal-bolus, com
administração de insulina basal uma vez ao dia para análogos de longa
duração ou 2 vezes ao dia para insulina NPH + insulina em bolus a cada 6 h
para insulina Regular ou a cada 4 h para análogos de insulina de curta
duração. O bolus que antecede o período programado para interrupção da
dieta deve ser omitido, evitando assim a hipoglicemia. A dose inicial de
insulina deve ser de 0,2 a 0,5 unidade/kg/dia, com ajustes diários da dose.
As glicemias capilares devem ser mensuradas de 6/6 h e doses
suplementares de insulina de ação ultrarrápida (preferencialmente) ou de
insulina Regular devem ser administradas se houver hiperglicemia. A dose
de insulina suplementar utilizada pode ser utilizada como parâmetro para
ajuste de dose, devendo-se somar 80% da dose utilizada de insulina rápida à
dose total de insulina a cada dia. Caso a dieta enteral seja interrompida de forma programada, ajustes na infusão de insulina ou infusão endovenosa
temporária de glicose devem também ser programados. Caso haja
interrupção inesperada por mais de 2 h, se houver insulina em bolus
programada para o período, esta deve ser suspensa e soro glicosado a 10%
deve ser administrado por via endovenosa, com infusão de glicose na
mesma quantidade que seria ofertada pela dieta enteral, para prevenir
hipoglicemia. Monitorar eletrólitos e ofertar água suficiente também são
essenciais em pacientes em dieta enteral. A desidratação é complicação
frequente da dieta enteral e causa frequentemente subdiagnosticada de
hiperglicemia.
ORIENTAÇÃO PARA CONTROLE GLICÊMICO DO PACIENTE COM
DIABETES MELLITUS DO TIPO 2, NÃO CRÍTICO, EM DIETA POR VIA
PARENTERAL
A dose de insulina a ser utilizada, inicialmente, é de 0,2 a 0,5
unidade/kg/dia. Podem ser utilizados esquemas basal-bolus ou de análogos
de insulina de longa duração 1 ×/ao dia ou insulina NPH 2 ×/ao dia.
A monitoração glicêmica e a administração de insulina em bolus
deverão ser realizadas a cada 6 h, se feito com insulina regular, e a cada 4 h,
se realizada com análogo de insulina ultrarrápida.
A via de administração preferencial é a subcutânea. Pode ser necessária
a administração intravenosa para adequado controle de hiperglicemia. Em
nosso serviço, não usamos a insulina já misturada à dieta, embora seja
utilizada em alguns centros. Quando há necessidade de insulina intravenosa,
ela é administrada em via separada à usada para nutrição parenteral.
AJUSTE DE DOSE DE INSULINA SUBCUTÂNEA EM PACIENTES
HOSPITALIZADOS
Os ajustes de dose de insulina podem ser feitos diariamente com base
nas glicemias apresentadas e nas variações de ingesta calórica. O ideal é
ajustar a insulina basal em primeiro lugar. Se a glicemia ao deitar estiver
satisfatória, pouca mudança na glicemia é esperada se a insulina basal
(basal total para insulina Glargina e basal noturna para insulina NPH e
Detemir) estiver adequada, e, consequentemente, a glicemia matinal, antes do café da manhã, estará adequada. Nesta situação, caso haja hiperglicemia
matinal, a insulina basal deve ser aumentada. Uma exceção a esta regra
seria a presença de hipoglicemia durante a madrugada, o que poderia
provocar hiperglicemia de rebote pela manhã. Nos casos de hipoglicemia
durante a noite e/ou antes do café da manhã, a conduta deve ser redução da
dose de insulina basal. Ajustes na insulina basal devem ser feitos até que a
glicemia de jejum seja < 140 mg/dL.
Caso esta esteja adequada e haja hiperglicemia ao longo do dia, é
necessário ajuste de insulina em bolus ou insulina basal aplicada durante o
dia nos pacientes que utilizam insulina NPH ou Detemir duas vezes ao dia,
de acordo com o padrão das glicemias capilares. Os ajustes de dose de
insulina (aumento ou diminuição, quando cada uma destas condutas estiver
indicada) devem ser de 10% a 20% a cada 1 ou 2 dias. Em casos de hiper
ou hipoglicemia muito acentuada, a dose poderá ser alterada em maior
proporção. Nestes casos o aumento pode ser estimado por 1/3 da dose de
insulina utilizada para correção de hiperglicemia. É importante lembrar de
ajustar a dose não apenas da insulina basal, mas também da insulina
aplicada em bolus. Caso haja hiperglicemia e a administração da insulina
preconizada no esquema não seja capaz de corrigir a hiperglicemia, é
necessário aumentar a dose de insulina no esquema para os dias
subsequentes.
ORIENTAÇÃO PARA CONTROLE GLICÊMICO DO PACIENTE CRÍTICO COM
DIABETES MELLITUS
■ No paciente crítico, é recomendando controle glicêmico por sistema de infusão intravenosa
contínua em caso de glicemia capilar > 180 mg/mL. Em pacientes com aporte calórico contínuo,
usamos solução de insulina regular 100 UI/mL, 1 mL em 99 mL de soro fisiológico (1 UI/mL). A
meia-vida curta da insulina intravenosa (4 min a 5 min) permite a rápida correção de
hipoglicemias.
■ O ritmo de infusão inicial pode ser calculado por ritmo (mL/h) = glicemia atual – glicemia
mínima × fator de correção (FC). A glicemia mínima depende de cada caso, podendo ser
estabelecida em 160 mg/dL. O FC depende do perfil de resposta à insulina estimada do paciente,
sendo comum iniciar com FC igual a 0,02, elevando-se esse fator em 0,03 a 0,05 nos casos mais
resistentes ou reduzindo-se para 0,01 nos pacientes mais sensíveis à insulina.
■ Exemplo: Glicemia do paciente: 300 (300 – 160) × 0,02 = 2,8 UI/h. ■ Manter alvo glicêmico de 140 a 180 mg/dL.
■ É recomendado trocar a bolsa da solução a cada 6 h, em razão de precipitação e redução da
efetividade da insulina.
■ Monitoração da glicemia capilar de 1 h em 1 h para ajuste da infusão. ■ Insulina endovenosa geralmente é utilizada em pacientes que não estejam se alimentando.
Quando a alimentação for reiniciada, há transição para a insulina por via subcutânea.
■ Para a transição de insulina venosa contínua para subcutânea intermitente, utilize a quantidade
média de insulina recebida por hora (de preferência, nas últimas 6 h) na bomba de infusão, e
multiplique por 20, obtendo assim a dose total diária de insulina basal. A dose de insulina em
bolus, para início, pode ser de 10% do total de insulina basal, levando em conta que a ingestão
será irregular pois o paciente está reiniciando a alimentação. É imprescindível desligar a bomba
somente após 2 h da aplicação da insulina subcutânea, período este necessário para a obtenção de
nível circulante mínimo para se evitar descompensação cetótica, principalmente naqueles sem
reserva pancreática. Cabe ressaltar que indivíduos sem DM podem não necessitar do esquema
basal-bolus se a HbA1c de entrada for < 6%, ou se o ritmo de infusão EV nas últimas horas for <
1 UI/h.
■ Vale lembrar que essa orientação não é válida para pacientes em cetoacidose diabética, que têm
seu tratamento específico descrito em outro capítulo.
■ O ajuste da dose de insulina em infusão endovenosa deve ser feito de acordo com o protocolo
estabelecido pela instituição. Uma sugestão de protocolo é apresentada na Tabela 12.3.3.
Paciente crítico — protocolo de insulina venosa continua*
i. Este protocolo NÃO SE APLICA a pacientes com cetoacidose diabética
ou coma hiperosmolar.
ii. Iniciar o protocolo após glicemia capilar (GC) > 180 mg/dL em > 2
medidas consecutivas sem perspectiva de melhora.
iii. Concentração da solução: soro fisiológico 99 mL + 100 UI de insulina
Regular.
iv. Taxa de infusão inicial: dividir o valor da glicemia inicial (GI) por 100
(utilizar múltiplo de 0,5 UI).
■ Ex.: GI inicial = 325 mg/dL (325 ÷ 100 = 3,25) – bolus e início de
infusão de 3,5 UI.
■ Ex.: GI inicial = 274 mg/dL (274 ÷ 100 = 2,74) – bolus e início de
infusão de 2,5 UI.
v. Iniciar infusão de insulina endovenosa e manter a glicemia na faixa de
120 a 159 mg/dL.
1o passo: Ajuste da Taxa de Infusão
Glicemia Ajuste de infusão de insulina
– Encaminhar glicemia ao laboratório se possível, diante dos erros inerentes aos glucosímetros de
beira de leito
– Interromper a infusão e administrar glicose a 25% segundo a fórmula: (100 – glicemia) × 0,6 =
mL de glicose a 25% IV ou (100 – glicemia) × 0,3 = mL de glicose a 50%
< 50 mg/dL
– Checar a glicemia de 15 em 15 min até > 90mg/dL
– Rechecar em 60 min. Se GC > 159 mg/dL, reiniciar a infusão a uma taxa de 50% da dose
anterior (utilizar múltiplo de 0,5 UI)
– Encaminhar glicemia ao laboratório se possível, diante dos erros inerentes aos glucosímetros de
beira de leito
– Interromper a infusão e administrar glicose a 25% segundo a fórmula: (100 – glicemia) × 0,6 =
mL de glicose a 25% IV ou (100 – glicemia) × 0,3 = mL de glicose a 50%
50 a 70 mg/dL
– Checar a glicemia de 30 em 30 min até > 90 mg/dL
– Rechecar em 60 min. Se GC > 159 mg/dL, reiniciar a infusão a uma taxa de 50% da dose
anterior (utilizar múltiplo de 0,5 UI)
71 a 119 mg/dL Interromper a infusão e rechecar em 60 min. Se GC > 119 mg/dL. Reiniciar a infusão, reduzindo a
taxa em 50% da dose anterior (utilizar múltiplo de 0,5 UI)
Identi que o nível de glicemia e associe a uma das colunas abaixo. Aplique a seguir o 2º passo (Delta Δ)
> 119 mg/dL
A taxa de mudança está de nida a partir da variação horária do GC:
120 a 159 mg/dL 160 a 199 mg/dL/h ≥ 200 mg/dL INSTRUÇÕES
↑ GC > 60 mg/dL/h ↓ GC (qualquer ↓ Infusão em 2Δ
valor)
↑ GC entre 1 e 60 ↓ GC entre 1 e 20 ↓ Infusão em 1Δ mg/dL/h ou GC: mg/dL/h ou GC: inalterada inalterada
↑ GC entre 1 e 39 ↓ GC entre 1 e 40 ↓ GC entre 21 e 60 Sem alteração mg/dl/h, GC: mg/dL/h mg/L/h inalterada ou ↓ GC
entre 1 e 20
mg/dL/h
↓ GC entre 21 e 40 ↓ GC entre 41 e 60 ↓ GC entre 61 e 80 ↓ Infusão em 1Δ mg/dL/h mg/dL/h mg/dL/h
↓ GC > 40 mg/dL/h ↓ GC > 60 mg/dL/h ↓ GC > 80 mg/dL/h ↓ Infusão em 2Δ
2o Δ passo: Delta () (utilizar múltiplo de 0,5 UI)
Infusão anterior 1Δ = Taxa de mudança 2Δ = 2X Taxa de mudança
< 3,0 UI 0,5 UI 1 UI
3,0 a 6,0 UI 1 UI 2 UI
6,5 a 9,5 UI 1,5 UI 3 UI
10 a 14,5 UI 2 UI 4 UI
15 a 19,5 UI 3 UI 6 UI
≥ 20 4 UI 8 UI
Atenção: Reduzir em 50% a Infusão de Insulina se ocorrer interrupção do suporte nutricional, hidratação com glicose em dose
elevada, ou no início de métodos dialíticos.
Atenção: Doses superiores a 20 UI/h devem promover uma análise dos fatores envolvidos e avaliação de problemas técnicos
Obs:
1. SE GC estável em 3 medidas consecutivas, poderá passar a cada 2 horas fazendo ajuste conforme ex.; 1a glicemia = 120
mg/dL duas horas após 150 mg/dL. Variação = 30 ÷ 2 = + 15 mg/dL/h.
2. Retroceder GC horária se:
• Glicemia fora da meta
• Quando ocorrer alteração na taxa de infusão da insulina • Inicio ou término de aminas/corticoide/octreotida/vasopressina
• Inicio ou término do suporte nutricional
RECONHECIMENTO E TRATAMENTO DA HIPOGLICEMIA NO PACIENTE
INTRA-HOSPITALAR
A hipoglicemia é definida quando a glicemia está < 70 mg/dL, para
pacientes com DM.
A hipoglicemia hospitalar, além do desconforto ao paciente e apreensão
de seus acompanhantes, pode determinar aumento dos índices de
morbimortalidade. A hipoglicemia estimula o sistema simpático e propicia
a ocorrência de arritmias, aumenta a demanda miocárdica de oxigênio,
favorece quadros anginosos, e aumenta a liberação de citoquinas
inflamatórias.
A hipoglicemia deve ser prevenida, evitando-se os atrasos de dieta, a
utilização isolada de tabelas sliding-scale e a falta de ajuste frente à
mudança clínica do paciente. Deve ser corrigida de forma rápida e eficaz no
paciente consciente, capaz de ingerir líquidos por via oral, pela oferta de 15
g de carboidrato por via oral (1 colher de sopa de mel ou açúcar líquido, 1
copo de refrigerante ou suco de laranja). Repete-se a glicemia capilar a cada
15 min, reofertando o carboidrato até atingir glicemia superior a 80 mg/dL.
No paciente com redução da consciência, quando está contraindicada a
ingestão oral, ou no paciente em jejum, utiliza-se a solução glicosada
hipertônica de glicose a 50%, 30 mL em bolus.
Nas hipoglicemias graves (< 40 mg/dL), pode-se ofertar o dobro de
glicose endovenosa.
Repete-se, nesses casos, a glicemia capilar a cada 15 min, até que se
atinja glicemia mínima de 80 mg/dL.
ALTA HOSPITALAR
Assim como na ocasião da internação, importantes alterações no
tratamento da hiperglicemia costumam acontecer no momento da alta. Para isso, convém programar a alta com 1 a 2 dias de antecedência, para já
reconciliar as medicações usadas previamente e incluir o novo esquema
proposto. Também é necessário avaliar o entendimento do paciente em
executar o plano terapêutico proposto para o período após a alta hospitalar e
efetuar medidas educativas visando à adesão adequada ao tratamento.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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Curr Diab Rep. 2001; 10.1007/s11892-011-0236-5.
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* Este protocolo foi gentilmente cedido pelo Hospital Pró-Cardíaco (Rio de Janeiro-RJ), especialmente pelos Dr. Flavio Eduardo Nacul e Plínio Nascimento Gomes, o qual foi responsável
pela elaboração deste material, adaptado a partir do protocolo de Yale. 8
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