Rotinas de Diagnóstico e Tratamento do Diabetes Mellitus
8. Exames laboratoriais no acompanhamento do diabetes mellitus
Exames laboratoriais no acompanhamento do diabetes mellitus
Amanda Laudier
Lenita Zajdenverg
MONITORAÇÃO DO CONTROLE GLICÊMICO
Introdução
O reconhecimento da importância da monitoração do controle glicêmico
revolucionou o tratamento do diabetes mellitus (DM), que foi evidenciada
nos estudos DCCT (Diabetes Control and Complications Trial) e UKPDS
(United Kingdom Prospective Diabetes Study). Recentemente, uma revisão
da literatura mostrou que, ao retardar o início e a progressão das
complicações do DM, o bom controle glicêmico melhora também a
qualidade de vida.1 Quando há estímulo para a realização da monitoração, o
indivíduo participa ativamente do seu tratamento, o que facilita a
compreensão de suas metas. Esse processo, quando associado a ações
educativas, torna-se primordial na redução da mortalidade e da incidência
de complicações agudas do diabetes do tipo 1.2,3 Há crescente
aprimoramento da tecnologia para a verificação glicêmica de forma menos
invasiva, mais precisa e que afete ao mínimo a qualidade de vida dos
pacientes com diabetes. Existem vários métodos destinados à avaliação do
controle glicêmico; dentre os métodos tradicionais, o teste de glicemia
capilar domiciliar é o mais frequentemente utilizado, juntamente com a
dosagem da hemoglobina glicada (A1c). Porém, há os métodos mais recentes, em que se destacam os sensores contínuos de glicose, que
consistem na monitoração invasiva (intravenosa), minimamente invasiva
(fluido intersticial) ou não invasiva (aplicação transdérmica de radiação
eletromagnética). Além disso, existem os programas de informática
desenvolvidos para exibir a glicemia média semanal (GMS) e a
variabilidade glicêmica (VG), com base nos dados da automonitoração
glicêmica.
Métodos de automonitoração
Testes urinários
GLICOSÚRIA
Na última década, seu uso vem sendo reduzido devido a maior
disponibilidade e confiabilidade dos testes de glicemia capilar, porém ainda
pode ser indicado àqueles indivíduos que apresentam dificuldades para a
realização da monitoração sanguínea. É medida semiquantitativa da glicose
em uma amostra de urina, que pode também ser dosada em urina coletada
em determinado intervalo de tempo (p. ex., 24 h). Reflete indiretamente a
glicemia média durante o período de coleta da urina.
■ Técnica: pode ser realizada a partir do contato de uma amostra de urina com agentes redutores, p.
ex., teste de Benedict, ou com fitas reagentes que fornecem análise semiquantitativa da glicose
urinária.
■ Vantagens: a medida da glicosúria é indolor, tem custo menor que a glicemia capilar e auxilia no
diagnóstico do tipo mais comum de diabetes monogenético/MODY (maturity onset diabetes of
the young), a mutação do fator nuclear do hepatócito 1-α, já que esses indivíduos têm a glicosúria
desproporcionalmente mais elevada que a glicemia. 4
■ Limitações: estima valores de glicemia de um período retroativo; não detecta valores de glicemia
abaixo do limiar renal, que, em geral, é de 180 mg/dL, valor bem acima do que se espera de um
bom controle, além de poder variar entre os indivíduos, em crianças, grávidas e diabéticos de
longa data; um teste negativo não diferencia hipoglicemia, euglicemia e hiperglicemia leve a
moderada, sendo de pouco valor para detectar episódios de hipoglicemia; há a interferência de
drogas, como analgésicos de vias urinárias, que modificam a cor da urina, rifampicina,
cefalosporinas, vitamina C e complexo B; há a possibilidade de falso-positivo (produtos de
limpeza oxidantes ou peróxidos) e falso-negativo (glicemia abaixo do limiar renal, vitamina C na
urina superior a 75 mg/dL ou cetonúria de 40 mg/dL).
■ Cuidados: proteger as fitas da luz e da umidade; esperar o tempo de leitura recomendado pelo
fabricante; a urina deve permanecer em temperatura ambiente por, no máximo, 4 h, para evitar o
consumo da glicose por bactérias.
CETONÚRIA
A presença de corpos cetônicos na urina pode indicar o diagnóstico ou
forte risco para o desenvolvimento de cetoacidose diabética nos indivíduos
com DM1, quando os níveis de acetoacetato e β-hidroxibutirato ficam
extremamente elevados. Além disso, cetonúria persistente em gestantes
aumenta o risco de morte fetal.5
Técnica: os testes disponíveis utilizam a reação do nitroprussiato e
nenhum deles detecta o β-hidroxibutirato. A acetona só é medida quando se
acrescenta glicina ao nitroprussiato.6
■ Indicações: gestantes diabéticas, com glicemia de jeum > 250 mg/dL; DM1, com glicemia > 300
mg/dL e glicemia > 250 mg/dL antes de iniciar exercícios físicos, quadro infeccioso, febril,
estresse agudo, náuseas, vômitos, dor abdominal, desidratação.
■ Limitações: falso-positivo – jejum prolongado, primeira urina da manhã em grávidas (até 30%),
uso de captopril, N-acetilcisteína, dimercaprol e penicilamina; falso-negativo – não pode ser
usada isoladamente como diagnóstico ou controle de cura da cetoacidose, pois as tiras detectam
apenas o acetoacetato, fazendo com que, na fase inicial, os níveis de corpos cetônicos aparentem
estar baixos e aumentem ao longo do tratamento, o que não significa falha; os níveis urinários
ainda podem permanecer elevados após a normalização da cetonemia.6,7
Testes sanguíneos
GLICEMIA CAPILAR
■ Técnica: a dosagem da glicemia capilar consiste na obtenção de uma
gota de sangue da lateral da polpa digital, que é aspirada pela fita por
capilaridade. A medida pode ser feita a partir da comparação visual de
fitas reagentes (glicose oxidase) com uma escala de cores, que fornece
intervalos com valores de glicemia, ou pela utilização de aparelhos de
leitura (glicosímetros), obtendo-se o resultado em, no máximo, 1 min
em um mostrador digital. A obtenção de sangue de locais alternativos,
como palmas (próximo ao polegar e ao dedo mínimo), antebraço, braço,
coxa e panturrilha, que são menos dolorosos, tem como limitação o
atraso em relação ao nível glicêmico medido na polpa digital, e é
indicada ao paciente com níveis glicêmicos estáveis.
Os glicosímetros são compostos por uma fita reagente que entra em
contato com um reflectômetro. Na maioria dos sistemas, a glicose do
sangue capilar é oxidada para ácido glucônico e peróxido de hidrogênio
após o contato do sangue nas fitas reagentes que contém glicose oxidase
ou peroxidase. Esta reação leva a uma alteração na cor da fita que pode
ser interpretada pelo método fotométrico ou pelo método
amperométrico.
Nos sistemas fotométricos, o resultado da glicemia é obtido pela
intensidade de mudança da cor. Estes glicosímetros, na maioria das
vezes, são capazes de interpretar um único comprimento de onda,
embora alguns glicosímetros que utilizam o método fotometria de
absorbância possam interpretar mais de um comprimento de onda.
Existem também sistemas fotométricos de monitoração de glicose
baseados na avaliação da reação da glicose com a hexoquinase. Quando
o sangue é aplicado à tira reagente, a glicose é fosforilada em glicose-6-
fosfato. Este é depois oxidado com redução concomitante do
dinucleotídeo de nicotinamida e adenina (NAD). A forma reduzida
(NADH) é diretamente proporcional à quantidade de glicose presente na
amostra. Em seguida, o NADH, na presença de outra enzima, reduz o
corante e um produto colorido é gerado. A tira com a sangue capilar é
inserida no fotômetro, que mede a reflectância da reação, sendo então
utilizado um algoritmo para calcular e quantificar a glicose daquela
amostra.
Nos sistemas amperométricos, utiliza-se a medida eletrônica da luz
que é refletida da fita reagente. A quantificação é feita pela medida da
corrente que é produzida quando a glicose oxidase catalisa a oxidação
da glicose a ácido glucônico ou quando a glicose desidrogenase catalisa
a oxidação de glicose para gluconolactona. Os elétrons gerados durante
esta reação são transferidos a partir do sangue para os eletrodos. A
magnitude da corrente resultante é proporcional à concentração de
glicose na amostra e é convertida para uma leitura no monitor.
■ Indicações: indicada para todos os pacientes em tratamento com
insulina e nas gestações complicadas pelo diabetes.8 Importante na
diferenciação entre fenômeno Somogyi e alvorecer, ao avaliar a
glicemia da madrugada. Nos pacientes com diabetes tipo 2, o número de
dosagens diárias não está bem definido,9,10 mas naqueles em uso de
hipoglicemiantes orais, devem ser feitas na frequência necessária para o
controle glicêmico (fase de descompensação e de ajuste do esquema
terapêutico e da análise do controle pós-prandial).9,11 Se o tratamento
está sendo modificado e os níveis glicêmicos permanecem instáveis, o
número de dosagens também deve ser aumentado.12
■ Frequência: é extremamente variável e deve ser individualizada.13
Pacientes que fazem controle com múltiplas doses ou bombas de
infusão contínua de insulina necessitam, em geral, de mais medições
diárias (antes das refeições e 2 h após as refeições e ao deitar). Nas
gestantes, a glicemia deve ser avaliada antes das refeições e 1 h após as
refeições.
■ Precisão: a confiabilidade do método está relacionada com os seguintes
fatores:14
□ Simplicidade: quanto menor o número de etapas para se obter o
resultado, menor a chance de erros, como, por exemplo, a
necessidade de secar a fita.
□ Compreensão da técnica: é necessário checar periodicamente,
durante a consulta, se o procedimento está sendo feito de maneira
correta.
□ Calibragem adequada do glicosímetro: realizada em relação à
glicemia plasmática, esta é 10% a 15% menor que a capilar. Avaliar
se a data e a hora estão ajustadas. A maioria dos glicosíometros já
vem calibrada pelo fabricante pela glicemia plasmática.
□ Preservação das fitas da exposição a luz solar, calor ou impurezas.
□ Dificuldade para a interpretação das escalas de cores: alteração
visual ou cognitiva.
□ Obtenção de quantidade inadequada de sangue: falta de
preenchimento correto da fita com a gota de sangue.
□ Uso de substâncias para a limpeza do local de coleta de sangue que
interfere no método, como, por exemplo, o álcool iodado.
■ A imprecisão de sistemas de monitoramento de glicose é multifatorial e
pode, basicamente, ser resultante de quatro fontes: fatores relacionadas
com as tiras, fatores físicos, fatores relacionados com o paciente e
fatores farmacológicos.
□ Tiras: com defeito de fabricação e perda da cobertura enzimática,
com pontos desencapados, levam a subestimação dos valores de
glicose. Tiras que necessitam de uma amostra maior de sangue têm
menor acurácia devido à possibilidade de não se alcançar o volume
adequado para cobertura completa da superfície reagente.
□ Físicos: armazenar as tiras a temperatura e umidade elevadas ou
com o tubo aberto (permitindo que a umidade penetre) pode
encurtar a sua vida útil. Diferentes marcas de tiras de glicose podem
falhar de modos distintos. Quando ocorre uma falha, algumas
marcas podem subestimar o valor de glicose, enquanto outras
podem superestimá-lo. Em ambos os casos, o erro pode ser grande,
e, geralmente, os medidores são incapazes de detectar um problema
com a tira mal armazenada. Para a segurança do paciente, o
fabricante da tira deve identificar e alertar publicamente o que vai
acontecer com uso de tiras vencidas ou tiras que foram expostas a
temperatura ou umidade inadequadas. Altitudes extremas com
alteração da concentração de oxigênio podem levar a
superestimação da glicemia quando utilizados monitores baseados
na reação da glicose oxidase. Nestes casos, o uso de reagente pelo
método glicose desidrogenase é mais adequado.
□ Paciente: erro ou esquecimento ao fazer a codificação para calibrar
a fita não são infrequentes. Glicosímetros que não necessitam de
codificação reduzem o risco deste tipo de erro.
□ Não lavagem das mãos pode levar a erro de medições quando restos
de alimentos ou corantes se misturam à amostra coletada.
□ Variações do hematócrito podem alterar os resultados, entretanto,
diversos glicosímetros informam ajustes para o hematócrito,
reduzindo estes erros. Mesmo assim, não se recomenda o uso dos
glicosímetros em indivíduos com hematócrito muito baixo.
□ Na presença de hipertrigliceridemia ou hiperuricemia graves pode
haver interferência na reação da glicose oxidase e, portanto, deve-se
indicar uso de monitores baseados no método da glicose
desidrogenase.
□ Farmacológicos: uso de paracetamol, L-dopa, tolazamida e ácido
ascórbico (vitamina C) pode alterar, geralmente de forma muito
discreta, as leituras de glicosímetros amperométricos ou
fotométricos que utilizam a reação da glicose oxidase. A maltose e a
xilose podem ter efeito pequeno nos monitores que utilizam a reação
da glicose desidrogenase. Por outro lado, o icodextrin que é
utilizado em alguns fluidos de diálise peritoneal pode aumentar o
valor de glicose medida pela reação da glicose desidrogenase em
mais do que 100 mg/dL.
■ Limitações: custo elevado, desconforto, disponibilidade de tempo para
os testes e erros nas técnicas, que levam a risco de imprecisão nos
resultados. Com a finalidade de evitar erros e dificuldades na realização
da análise da glicemia capilar, além de facilitar o manejo do diabetes,
foram feitos vários avanços nesse campo, como, por exemplo, as
lancetas a laser, que evitam o uso de instrumentos perfurantes; os novos
glicosímetros que exigem menor quantidade de sangue; e os testes em
locais menos dolorosos.15 Além disso, foram desenvolvidos programas
que permitem acoplar a memória do glicosímetro a computadores, e que
fornecem, assim, gráficos e cálculos estatísticos que facilitam a
interpretação dos resultados encontrados.
CETONEMIA
Atualmente se dispõe de glicosímetros que, por meio de fita reagente
específica, também são capazes de dosar a cetonemia (β-hidroxibutirato)
com apenas 10 µL de sangue capilar, em poucos segundos (30 segundos). Já
foi demostrado que o sensor de cetonemia apresentou valores comparáveis
ao método de referência, com precisão e acurácia semelhantes, embora
tenha havido discreta tendência a superestimar os valores do β-
hidroxibutirato sérico.15 A dosagem da cetonemia capilar pode ser útil para
o diagnóstico mais precoce e acurado da cetoacidose diabética (β-
hidroxibutirato > 3 mmol/L) (Tabela 8.1).
■ Técnica: aplica-se uma gota de sangue em uma fita reagente específica para a medida do β-
hidroxibutirato, que contém a enzima hidroxibutirato desidrogenase, a qual intervém na oxidação
do β-hidroxibutirato.
■ Indicações: avaliar a resposta ao tratamento da cetoacidose; indica gravidade quando a glicemia
está superior a 250 mg/dL.
■ Limitações: as principais limitações para a realização da cetonemia capilar são o custo elevado, o
desconforto, a disponibilidade de tempo para os testes e os erros na técnica, como calibração
inadequada.
Tabela 8.1 Diagnóstico de acordo com a dosagem de cetonemia
β-hidroxiburato Diagnóstico Recomendação
0 a 0,4 mmol/L Sem cetose Dose corretora de insulina, se necessário
0,5 a 0,9 mmol/L Suspeita de cetose Repetir glicemia e cetonemia em 1 hora,
considerar cetose se > 1 mmol/L
1,0 a 2,9 mmol/L Cetose estabelecida Padrão de cetose – medidas preventivas**
≥ 3,0 mmol/L Risco de cetoacidose Procurar emergência
*Em caso de hiperglicemia (> 250 mg/dL).
**Intensificar insulinização.
Métodos laboratoriais de avaliação do controle do diabetes mellitus
a médio e longo prazos
Hemoglobina glicada (HbA1c)
Em 1912, Louis Maillard descreveu, pela primeira vez, suas
observações do processo no qual o contato prolongado de açúcares com
aminoácidos resultava em um produto de coloração escura. Entretanto,
somente em 1968, com o reconhecimento da hemoglobina glicada, foi
demonstrada, pela primeira vez, a reação de Maillard in vivo. O termo
genérico hemoglobina glicada refere-se a um conjunto de substâncias
formadas pelas reações entre a hemoglobina A e alguns açúcares. Em
condições em que a hiperglicemia se mantém por um período sustentado,
ocorre um processo não enzimático lento de glicação proteica irreversível,
quando a glicose se liga à valina N-terminal da cadeia β da hemoglobina A
e forma a hemoglobina glicada, que pode ser separada por eletroforese em 3
frações diferentes: HbA1a; HbA1b; HbA1c; esta última é a única
irreversivelmente glicada (estável).1,2 Como esse processo é contínuo e a
membrana plasmática dos eritrócitos é totalmente permeável à glicose, o
nível da HbA1c representará a média das glicemias durante o tempo de vida
do eritrócito, que corresponde a aproximadamente 120 dias, e reflete, então,
o controle glicêmico das últimas 6 a 8 semanas. O valor da HbA1c não
representa exatamente a simples média das glicemias das últimas 6 a 8 semanas, pois sabe-se que as glicemias médias dos 30 dias precedentes à
coleta contribuem com aproximadamente 50% do resultado final da HbA1c,
25% 2 meses antes e 25% 3 a 4 meses antes.6 Os valores de A1c são
expressos em termos do percentual de ligação das moléculas de glicose à
molécula de hemoglobina. A relação entre A1c e glicemia média estimada
(GME) foi definida durante o estudo DCCT. Entretanto, o estudo ADAG
reavaliou esses valores. Atualmente, recomenda-se que os laboratórios de
patologia clínica expressem os resultados do teste da A1c tanto em termos
percentuais como em GME, com o objetivo de facilitar a compreensão do
resultado pelo paciente (Tabela 8.2).
Tabela 8.2 Resultados dos testes de A1c com resultados percentuais e em GME
A1c (%) GME (mg/dL)
6 126
7 154
8 183
9 212
10 240
11 269
12 298
American Diabetes Association. Standards of Medical Care in Diabetes – 2011. Diabetes
Care 34(Suppl 1):S11-S61, 2011.16
A American Diabetes Association (ADA), a European Association for
the Study of Diabetes (EASD) e a International Diabetes Federation (IDF)
propõem o conceito de GME a partir da seguinte fórmula: GME = 28,7 ×
A1c – 46,7. Diversos estudos (DCCT, UKPDS) têm demonstrado
correlação direta entre os níveis de HbA1c e o risco de desenvolvimento de
complicações crônicas microvasculares do DM, tendo menor evidência para
a redução das doenças cardiovasculares.2
■ Técnicas: existem diversas técnicas para a dosagem da A1c. Desde 1996, um programa
internacional tem por objetivo padronizar um ensaio laboratorial denominado National
Glycohemoglobin Standardization Program (NGSP). No Brasil há um programa semelhante,
chamado de Grupo Interdisciplinar de Padronização da Hemoglobina Glicada HbA1c (GIP-A1c).
Portanto, ao se interpretar um resultado, deve-se analisar o método empregado e a faixa de
normalidade fornecida pelo laboratório.
São os seguintes os métodos atualmente mais empregados:
■ Cromatografia por troca iônica: separa a fração A1c. Os resultados podem estar falsamente
aumentados na uremia, no alcoolismo e na presença de hemoglobina F e falsamente reduzidos na
presença de hemoglobinas S ou C.
■ Cromatografia por afinidade: não separa as 3 frações, porém não é afetada pela temperatura ou
pela presença de variantes da hemoglobina.
■ Eletroforese: em gel ágar, não separa as 3 frações, mas, em gel de poliacrilamida, pode
quantificar a fração A1c.
A metodologia de referência do GIP-A1c é a cromatografia líquida de
alta performance (HPLC/CLAE), técnica baseada na troca iônica.
■ Frequência: em geral, a medida da HbA1c a cada 3 meses fornece um bom parâmetro de análise
do controle glicêmico do paciente, além de permitir avaliar a resposta às mudanças na terapêutica
adotada. Em indivíduos com quadro estável, a medida da HbA1c deve ser realizada pelo menos
semestralmente.
■ Limitações: condições que causam falso aumento ou falsa redução (Tabela 8.3).
Tabela 8.3 Condições que causam falso aumento ou falsa redução
HbA1c falsamente reduzida HbA1c falsamente aumentada
Anemia hemolítica, hemoglobinopatias (Hb S ou C), Hemoglobina carbamilada: Hb-ureia (insu ciência renal)
hipertireoidismo, queimaduras graves, intoxicação por
chumbo, de ciência de eritropoietina Hemoglobina acetilada: Hb-salicilato
Comprometimento da medula óssea (radiação, toxinas, Anemia ferropriva – aumento de até
brose, tumores, leucemia, mieloma múltiplo) 2%.Hipertrigliceridemia, hiperbilirrubinemia, alcoolismo,
opioide
De ciência de ácido fólico, vitamina B6 ou B12 Hemoglobina F
Grandes quantidades de vitamina C ou E Aumento do número de glóbulos vermelhos ou do
hematócrito
Proteínas séricas glicadas (frutosamina)
É um método que mede as proteínas séricas que sofrem processo de
glicação não enzimática. A principal proteína dosada é a albumina glicada.
A sua utilidade clínica ainda não foi bem estabelecida e não há evidências
de que seus valores se relacionem com o risco de complicações crônicas do
DM.
■ Técnica: os melhores métodos são aqueles que se baseiam na diferença de reatividade química
entre as proteínas glicadas e não glicadas (ensaio da frutosamina).
■ Interpretação: como a meia-vida da albumina varia entre 14 e 20 dias, a medida da frutosamina
reflete o controle glicêmico dos 7 a 14 dias que precederam a coleta do sangue e tem boa
correlação com os níveis de HbA1c.
■ Indicações: pacientes com hemólise e gestantes. ■ Limitações: clearance ou metabolismo protéico alterados – hepatopatias, síndrome nefrótica e
infecções agudas.
1,5 Anidroglucitol
O 1,5 anidroglucitol (1,5 AG) é um biomarcador do controle glicêmico
pós-prandial e também pode refletir a variabilidade glicêmica. O 1,5AG é
um análogo da glicose e tem sua absorção tubular alterada por competição
com a glicose. Os níveis plasmáticos de 1,5AG ficam reduzidos nos estados
hiperglicêmicos. O nível de 1,5AG, portanto, tem correlação inversa à
HbA1c. Estudos são contraditórios quanto ao papel do 1,5AG para medir
variabilidade glicêmica.
Novas tecnologias em monitoração Sensores contínuos de glicose
Nos últimos anos, desenvolveu-se a monitoração contínua e
minimamente invasiva que vem sendo considerada um importante
instrumento na avaliação glicêmica dos pacientes com diabetes. O sistema
de monitoração de glicose contínuo (CGM) tem programas (softwares) que
analisam as informações de concentração de glicose coletadas por esses
equipamentos. O CGM usa uma calibração retrospectiva baseada em 3 a 4
medidas de glicemia capilar (GC), inserida pelo paciente a cada dia, mas
não há uma recomendação clara sobre o melhor momento para realizar a
calibração do sensor. Um sensor ideal deve ter as seguintes qualidades:
acurácia, precisão, sensibilidade e estabilidade. Tais características variam
entre os diversos aparelhos. Seus resultados são baseados em reações
eletroquímicas, obtidas por métodos enzimáticos, como a reação do
peróxido de hidrogênio e a da glicose oxidase.
■ Técnica: a monitoração contínua pode ser realizada por técnicas invasivas (intravenosas), não
invasivas (aplicação transdérmica de radiação eletromagnética, ainda em pesquisas incipientes) e
minimamente invasivas (utilizam o fluido intersticial). A captação de glicose no fluido intersticial
pode ser feita por microdiálise e iontoforese reversa, entre outras técnicas. Os monitores
contínuos precisam ser calibrados com a dosagem da glicemia capilar.
■ Indicações: diabetes tipo 1 de difícil controle; ajuste da terapia e das modificações do estilo de
vida; avaliação do controle glicêmico em ensaios clínicos, condições em que seja necessário o
controle mais rigoroso da glicemia (gestação e DM na infância); diagnóstico e prevenção de
hipoglicemias.
■ Limitações: irritação da pele, desconforto, alto custo, sensibilidade à luz.
Os dispositivos aprovados para uso clínico pela US Food and Drug
Administration (FDA) nos EUA e na Europa são o Guardian® Real-time
Continuous Glucose Monitoring System (Medtronic Minimed), o Paradigm
® Continuous Glucose Monitoring System (CGMS – Medtronic minimed),
comercializados no Brasil, além do Gluco Watch G2 Biographer (GW2B), o
FreeStyle Navigator Continuous Glucose Monitor (Abbott), o Gluco-Day
(Menarini Diagnostics), o Dexcom STS e o Pendra.
Os estudos prospectivos randomizados comparando os sistemas de
monitoração contínua com a automonitoração da glicemia capilar mostram
que o benefício da monitoração contínua sobre o controle glicêmico está
relacionado com o tempo de uso do sensor. O paciente deve, portanto, estar motivado para o uso deste, pois sua eficácia é proporcional ao grau de
adesão.
SISTEMAS DE MONITORAÇÃO DE GLICOSE CONTÍNUOS (CGM)
O CGM foi o primeiro comercialmente disponível, lançado no Brasil
em dezembro de 2003. O sistema consiste em um sensor subcutâneo que
mede a glicose no fluido intersticial e um monitor externo que se adapta ao
cinto do paciente. O sensor é inserido com uma agulha (retirada após a
inserção) no tecido subcutâneo do abdome e utiliza a reação enzimática do
peróxido de hidrogênio. Os sinais elétricos, medidos em nanoamperes, são
captados pelo monitor a cada 10 segundos e uma média desses valores é
feita a cada 5 min (288 valores em 24 h), por até 72 h. Os dados não podem
ser vistos em tempo real (não aparecem no monitor). Eles são avaliados por
um programa de computador e convertidos em gráfico. O paciente deve
anotar suas atividades diárias e os horários das medicações para que estes
sejam relacionados com as dosagens da glicose naquele período de tempo.
A calibração é feita 4× por dia, pela medida da glicemia capilar. As
principais limitações do CGM são a neccessidade de calibração 4× ao dia,
chance de irritação ou infecção da pele e baixa acurácia para hipoglicemia.
Alterações glicêmicas rápidas causam atraso na medida do aparelho com
relação a glicemia sanguínea, podendo subestimar os superestimar seu
valor. No Brasil está disponível o dispositivo de CGM denominado
Guardian®, que fornece os resultados das medidas em tempo real.
GLUCO WATCH BIOGRAPHER
Foi o primeiro sensor contínuo aprovado pela FDA, em 1999.
Semelhante a um relógio de pulso, utiliza o método de iontoforese reversa
para extrair o fluido intersticial e dosa a glicose também pela reação do
peróxido de hidrogênio. Disponibiliza, em seu monitor, o valor da glicose
intersticial em tempo real. Realiza leitura a cada 10 min durante 12 h. A
diferença de tempo em relação à glicemia capilar é de 15 min a 17 min,
necessita de 2 h a 3 h para calibração a partir da glicemia capilar. Apenas a
primeira calibração é obrigatória. Tem a vantagem de fornecer os perfis de
sua glicemia, alarmando sobre as tendências a hipoglicemia e hiperglicemia
com até 20 min de antecedência, podendo detectar até 90% das quedas
rápidas da glicemia. Além disso, é capaz de detectar 6× mais episódios de hipoglicemia e 13× mais episódios de hiperglicemia que o CGM. Suas
limitações são omitir leituras quando ocorrem impactos no sensor,
transpiração excessiva, rápidas mudanças na temperatura corporal e
provocar irritação e queimaduras na pele pelo processo de iontoforese.
Como o CGM, não tem eficácia adequada para hipoglicemia. Não houve
melhora da HbA1c nem das hipoglicemias em crianças com DM1. Devido a
essas limitações, seu uso foi pouco indicado, tendo sido suspensa a sua
comercialização.
FREESTYLE NAVIGATOR CONTINUOUS GLUCOSE MONITORING SYSTEM
Aprovado pela FDA em março de 2008, é composto de 3 partes: 1
sensor, 1 transmissor e 1 receptor. O sensor usado por até 5 dias é colocado
sob a pele e é acoplado a um sensor de montagem de plástico com adesivo
para aderir à pele. O transmissor encaixa no sensor de montagem e envia
informações de glicose para o receptor. O sistema mede os níveis de glicose
1× por min, liberando o alarme quando há variações importantes na
glicemia com 10 min, 20 min ou 30 min de antecedência. O sistema
também armazena até 60 dias de informações que podem ser analisadas
pelo usuário ou um profissional de saúde. Necessita menor número de
calibrações e tem mostrado acurácia quando comparado ao método
laboratorial de referência. Parece ser mais acurado que o CGM para
hipoglicemias. Em crianças com DM1, mostrou menor acurácia que a
glicemia capilar, mas tem o potencial de contribuir com o tratamento desses
pacientes, sendo indicado para pessoas com 18 anos de idade ou mais. As
leituras e os alarmes sobre os níveis de glicose do sistema FreeStyle
Navigator não se destinam a substituir a monitoração da glicemia
tradicional no sangue. Antes de ajustar a terapia para controle do diabetes
com base nos resultados e alarmes do sistema FreeStyle Navigator, deve ser
dosada a glicose plasmática.
Outros sensores
Novos sensores já foram aprovados para uso clínico, mas ainda existem
poucos trabalhos que comprovem a eficácia, a sensibilidade e o potencial de
melhorar o controle glicêmico. As pesquisas estão avançando e outros
monitores estão em fase de testes, inclusive as técnicas invasivas intravasculares de longa e curta duração e as não invasivas, que utilizam
ultrassom, laser, infravermelho, tomografia de coerência óptica e, mais
recentemente, lentes de contato com sensores de glicose. São eles:
GLUCO-DAY (MENARINI DIAGNOSTICS)
Lançado em 2001, aprovado apenas na Europa, utiliza a técnica de
microdiálise para captar a glicose do interstício. As médias são fornecidas a
cada 3 min por até 48 h em tempo real.
DEXCOM STS
O monitor DexCom STS foi aprovado em 2006 nos EUA, com o
objetivo de ser um adjuvante da glicemia capilar na monitoração glicêmica
dos pacientes com diabetes. É um sistema minimamente invasivo, composto
por um sensor subcutâneo que utiliza a técnica da enzima ligada à ponta do
cateter, com informações em tempo real, possibilidade de alarmar,
necessidade de calibração a cada 12 h e duração de até 7 dias, fornecendo 5
testes por min.
PENDRA
Recebeu aprovação na Europa (CE), em 2004, e assim ele estava pronto
para a comercialização, mas a sua difusão no mercado foi impedida por
algumas preocupações sobre o seu desempenho real. Utiliza a técnica de
espectroscopia por impedância e o sensor fica no punho. Fornece 1 teste por
min, com calibração de 1 h.
PERFIL GLICÊMICO/GLICEMIA MÉDIA SEMANAL (GMS)/VARIABILIDADE
GLICÊMICA (VG)
Os novos parâmetros propostos para a avaliação mais precisa do
controle glicêmico incluem a análise qualitativa do perfil glicêmico e o
cálculo de dois parâmetros independentes de avaliação de risco das
complicações do diabetes: GMS e VG; esta expressa em termos de desvio
padrão (DP) do conjunto de dados glicêmicos do período. Pelo método
proposto, o paciente realiza de 6 a 7 testes de glicemia por dia, 3 dias por
semana, durante cerca de 4 semanas. Os resultados são transferidos para um
computador, em que são analisados com o auxílio de um software específico, o qual gera um gráfico do perfil glicêmico e calcula os valores
da GMS e da VG. O controle glicêmico só é considerado adequado com a
normalização conjunta dos parâmetros mencionados. O conceito de VG e
suas aplicações na prática clínica começaram a ser mais intensamente
desenvolvidos nos últimos anos, a partir dos resultados do estudo DCCT,
que demonstrou que pacientes com HbA1c semelhantes apresentavam
riscos distintos de retinopatia, atribuindo tal diferença aos valores de VG.
A medida de amplitude média das excursões da glicemia (MAGE) tem
sido preconizada como ferramenta para medir a variabilidade glicêmica,
entretanto, as definições de pico e nadir glicêmicos são arbitrárias e não há
ainda um algoritmo padrão para determinar critérios que se relacionem com
as complicações.
O alvo para GMS é < 150 mg/dL e para VG < 50 mg/dL.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
1. Jacobson AM. Impact of improved glycemic control on quality of life in pacients with
diabetes. Endocr Pract. 2004; 10(6):502-8.
2. Diabetes Control and Complication trial Research Group. The effect of intensive treatment of
diabetes on the development and progression of long-term complications in insulin-dependent diabetes mellitus. N Engl J Med. 1993; 329:986-97.
3. Lauritzen T, Larsen HW, Larsen KF et al. Effect of 1 year of near-normal blood glucose levels
on retinopathy in insulin-dependent diabetics. Lancet. 1983; 1:200-4.
4. Bingham C, Ellard S, Nicholls A et al. The generalized aminoaciduria seen in patients with
hepatocyte nuclear factor - 1 α mutatinos is a feature of all patients with diabetes and is associated with glicosuria. Diabetes. 2001; 50(9):2047-52.
5. Jovanovic L. American Diabetes Associations Fourth International Workshop – Conference on
Gestational Diabetes Mellitus: Therapeutic Interventions. Diabetes Care. 1998; 21(2):131-7.
6. Goldstein DE, Little RR, Lorenz RA et al. Tests of glycemia in diabetes. Diabetes Care. 2004;
27(7):1761-73.
7. Ampudia-Blasco FJ, Parramón M. Terapia con infusión subcutánea continua de insulina (I).
Consejos prácticos para la vida diaria con infusión subcutánea continua de insulina (ISCI): Ventajas de la determinación de la cetonemia capilar. Diabetol. 2005; 21:44-51.
8. Goldstein DE, Little RR, Lorenz RA et al. Tests of glycemia in diabetes (Technical Review).
Diabetes Care. 1995; 18:896-909.
9. Blonde L, Ginsberg BH, Horn et al. Frequency of blood glucose monitoring in relation to
glycemic control in patients with type 2 diabetes. Diabetes Care. 2002 jan; 25(1):245-6.
10. Franciosi M, Pellegrini F, De Berardis G et al. The impact of blood glucose self-monitoring on
metabolic control and quality of life in type 2 diabetic patients: An urgent need for better educational strategies. Diabetes Care. 2001; 24(11):1870-7.
11. American Diabetes Association. Postprandial blood glucose. Diabetes Care. 2001; 24 (4):775-
8.
American Diabetes Association. Standards of medical care in diabetes. Diabetes Care. 2007;
12. 30(S1):S4-S41.
13. Weir GC, Nathan DM, Singer DE. Standards of care for diabetes (Technical Review). Diabetes
Care. 1994; 17:1514-22.
14. Bergental R, Pearson J, Cembrowski GS et al. Identifying variables associated with inaccurate
self-monitoring of blood glucose: Proposed guidelines to improve accuracy. Diabetes Educ. 2000; 26(6):981-9.
15. Byrne HA, Tieszen KL, Hollis S et al. Evaluation of na electrochemical sensor for measuring
blood ketones. Diabetes Care. 2000; 23(4):500-3.
16. Diretrizes da Sociedade Brasileira de Diabetes; 2009; Itapevi, São Paulo, Brasil. São Paulo,
Rio de Janeiro: A. Araújo Silva Farmacêutica; 2009.
17. American Diabetes Association. Standards of Medical Care in Diabetes – 2011. Diabetes Care.
2011; 34 (Suppl. 1):S11-S61.
18. Sociedade Brasileira de Diabetes. Diretrizes da Sociedade Brasileira de Diabetes 2012-2013.
São Paulo: AC Farmacêutica; 2013.
OceanofPDF.com