Rotinas de Diagnóstico e Tratamento do Diabetes Mellitus
12. Abordagem do paciente internado com diabetes mellitus
Abordagem do paciente internado com diabetes mellitus
12.1 Importância do controle glicêmico e objetivos
12.2 Preparo cirúrgico e para exames
12.3 Manejo clínico do diabetes mellitus como uma
comorbidade durante a internação hospitalar
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Importância do controle glicêmico e objetivos
Diana Madalena Choeri
Lenita Zajdenverg
Melanie Rodacki
INTRODUÇÃO
Hiperglicemia intra-hospitalar pode representar diabetes mellitus (DM)
já diagnosticado, DM sem diagnóstico prévio ou hiperglicemia associada a
hospitalização, a qual é definida como glicemia de jejum ≥ 126 mg/dL ou
glicemia ocasional ≥ 200 mg/dL durante a hospitalização, com reversão
após a alta hospitalar.1
Nos últimos anos, inúmeros estudos vêm demonstrando a importância
do controle glicêmico no prognóstico dos indivíduos hospitalizados pelos
mais diversos motivos.1,2 Tanto a hiperglicemia quanto a hipoglicemia se
associam ao aumento no risco de complicações cirúrgicas, infecciosas,
metabólicas, cardiovasculares e renais em indivíduos previamente
diagnosticados ou não com DM.1-4 A relação entre o mau controle
glicêmico e o aumento da morbidade e mortalidade intrahospitalar está bem
estabelecida pela literatura atual, o que torna a monitoração e o ajuste
adequado da glicemia um importante objetivo a ser alcançado.
ESTUDOS CLÍNICOS
A hiperglicemia no ambiente hospitalar pode ser resultado de inúmeros
fatores. Os pacientes internados experimentam situações de estresse pela
própria patologia de base, o que pode levar à descompensação do DM. O
uso de agentes hiperglicemiantes, como glicocorticoides ou vasopressores,
também pode causar hiperglicemia em pacientes hospitalizados.1
Existem evidências substanciais associando a hiperglicemia nesses
pacientes a desfechos favoráveis durante a internação. Estudos de coorte e
alguns estudos controlados sugerem que o tratamento intensivo da
hiperglicemia melhora o prognóstico dos indivíduos internados. Em geral,
esses estudos são heterogêneos no que diz respeito à seleção dos pacientes,
alvos glicêmicos e protocolo de tratamento com insulina utilizada, o que
limita a comparação dos resultados entre eles.
Em 1999, o estudo multicêntrico Diabetes mellitus, insulin-glucose
infusion in acute myocardial infarction (DIGAMI) avaliou 620 pacientes
com DM internados com infarto agudo do miocárdio (IAM),
randomizando-os em 2 grupos: um recebendo tratamento intensivo com
infusão venosa de insulina por pelo menos 24 h, seguido de 3 meses de
múltiplas doses subcutâneas; e outro grupo controle recebendo terapia
antidiabética convencional.5 O alvo do controle glicêmico para pacientes no
grupo em infusão venosa de insulina foi 126 a 196 mg/dL. Os pacientes
foram acompanhados em média por 3 anos, e o que se concluiu foi que o
grupo que recebeu tratamento intensivo pós-IAM apresentou mortalidade a
longo prazo menor que o grupo controle, tanto em 1 ano quanto após 3
anos.5
O valor da terapia com insulina também foi analisado no DIGAMI 2, no
qual 1.253 pacientes com DM2 e IAM foram randomizados em três grupos.
No grupo 1 os pacientes internados foram tratados por 24 h com insulina
venosa, seguida de terapia intensiva com insulina subcutânea, com objetivo
de manter glicemia em jejum entre 90 e 126 mg/dL e glicemia ocasional
menor que 180 mg/dL.6 No grupo 2, após tratamento com insulina venosa
por 24 h, os pacientes receberam tratamento padrão para controle da
glicose. No grupo 3, os pacientes receberam tratamento de acordo com a
prática local, tanto na fase aguda quanto na fase ambulatorial. Ao contrário
do que se acreditava, não houve diferença significativa na mortalidade entre
os 3 grupos. Alguns fatores podem ter interferido na interpretação dos resultados: o controle glicêmico, o qual se esperava melhor no grupo 1, foi
semelhante nos 3 grupos; a taxa do evento global foi menor do que o
esperado nos 3 grupos, o que pode ter atenuado diferenças significativas
entre os mesmos; o estudo foi interrompido antes do planejado em função
da falha em recrutar número suficiente de pacientes, o que diminuiu o poder
de detectar diferença significativa entre os tratamentos analisados.6
Em 2001, van den Berghe et al. publicaram estudo prospectivo com
pacientes admitidos em unidade intensiva pós-operatória sob ventilação
mecânica.8 Esses pacientes foram randomizados em um grupo recebendo
tratamento intensivo com insulina, mantendo glicemia entre 80 e 110
mg/dL e outro grupo recebendo tratamento convencional, mantendo
glicemia entre 180 e 215 mg/dL. Após 12 meses, com um total de 1.548
pacientes, 35 pacientes do grupo que recebeu tratamento intensivo
morreram (4,6%), quando comparados com 63 pacientes do grupo que
recebeu tratamento convencional (8,0%), representando redução de risco
significativa de 32% (IC 95% 2 a 55% p = 0,04). Além da diminuição da
mortalidade, o controle glicêmico intensivo reduziu o risco de complicações
características dos pacientes internados em unidade intensiva, como sepse e
necessidade de antibioticoterapia prolongada e insuficiência renal aguda.8
Em 2006, van den Berghe et al. conduziram novo estudo com 1.200
pacientes admitidos em unidade de terapia intensiva clínica, que iriam
permanecer pelo menos 3 dias internados.9 Estes pacientes foram
randomizados em um grupo recebendo tratamento intensivo com insulina
venosa, com objetivo de alvo glicêmico entre 80 e 110 mg/dL e um grupo
recebendo tratamento convencional com insulina venosa, com objetivo de
manter glicemia entre 180 e 200 mg/dL.9 Ao contrário do que foi constatado
no estudo realizado em 2001, não houve mudança na mortalidade hospitalar
global entre os grupos recebendo tratamento intensivo e convencional (37,3
versus 40%, respectivamente). Por outro lado, no grupo com tratamento
intensivo houve redução significativa no tempo de internação hospitalar e
em unidade intensiva, na duração da ventilação mecânica e na ocorrência de
insuficiência renal aguda.9
Estudos controlados recentes em pacientes críticos também falharam em
demonstrar melhora significativa na mortalidade com controle glicêmico
intensivo ou demonstraram até mesmo aumento no risco de morte.1,4 De qualquer modo, esses estudos trouxeram à tona o risco de hipoglicemia
grave com o resultado do controle glicêmico estrito.1,4
Desses estudos, o maior deles realizado até hoje – o Normoglycaemia in
Intensive Care Evaluation and Survival Using Glucose Algorithm
Regulation (NICE-SUGAR), controlado, randomizado, multicêntrico,
multinacional, comparou o efeito do controle glicêmico intensivo (81 a 108
mg/dL) com o controle glicêmico padrão (144 a 180 mg/dL) no resultado
de 6.104 pacientes críticos internados, a maioria deles necessitando de
ventilação mecânica.7
A mortalidade total e por causas vasculares no 90o dia foi maior no
grupo intensivo em relação ao convencional, tanto em pacientes clínicos
quanto cirúrgicos. Hipoglicemia grave também foi mais comum no grupo
tratado intensivamente (6,8% versus 0,5%, p inferior a 0,001).7 A razão
precisa para o aumento da mortalidade no grupo com controle estrito não
foi identificada. Os resultados desse estudo contrastam com o estudo inicial
de van den Berghe et al.8 Mesmo assim, os achados não condenam a
importância do controle glicêmico na unidade de cuidados intensivos, já
que no grupo controle (sem tratamento intensivo) a glicemia média era
adequada, de 144 mg/dL. Entretanto, sugere-se que talvez não sejam
necessários alvos glicêmicos menores que 140 mg/dL, e que alvos muito
rigorosos, menores que 110 mg/dL, podem ser perigosos.
Em uma meta-análise de 26 ensaios, em que se incluíam dados do
NICE-SUGAR, o risco relativo de morte com controle glicêmico intensivo
foi 0,93 quando comparado com a terapia convencional (intervalo de
confiança (IC) de 95%, 0,83 a 1,04).1 Aproximadamente metade desses
estudos relataram risco relativo de hipoglicemia de 6,0 para o tratamento
intensivo.1 O ambiente intra-hospitalar (unidade intensiva ou não)
influencia esses números. O tipo de unidade de terapia intensiva influenciou
os resultados: pacientes em centros de terapia intensiva cirúrgicos se
beneficiaram mais da terapia intensiva com insulina do que pacientes
internados em centros de terapia intensiva clínicos.
DEFINIÇÃO DE ANORMALIDADES NA GLICEMIA SÉRICA NO AMBIENTE
HOSPITALAR
Hiperglicemia hospitalar é definida como qualquer glicemia sérica
acima de 140 mg/dL. Valores significativa e persistentemente acima deste
requerem tratamento.1
Hemoglobina glicada acima de 6,5% sugere, em pacientes não
diagnosticados, que o diabetes precede a hospitalização.1
Hipoglicemia é definida como qualquer glicemia sérica abaixo de 70
mg/dL. Este é o padrão de definição em pacientes ambulatoriais e se
correlaciona com o início da liberação de hormônios contrarreguladores.1
Hipoglicemia grave em pacientes hospitalizados é definida como abaixo
de 40 mg/dL. Assim como a hiperglicemia, hipoglicemia também está
relacionada com desfechos desfavoráveis a curto e longo prazos.1
NA ADMISSÃO
Todos os pacientes admitidos no ambiente hospitalar devem ser
questionados sobre história pregressa de diabetes e, se positiva, esta deve
ser identificada no prontuário.1,4
Ainda na admissão, independentemente de história prévia de diabetes, a
dosagem da glicemia sérica deve ser solicitada.
Se o paciente não tiver diagnóstico de DM conhecido, e a glicemia
sérica for maior que 140 mg/dL, ele deve ser monitorizado por pelo menos
24 h a 48 h com glicemias capilares e receber a intervenção terapêutica
apropriada.1
Valores de hemoglobina glicosilada acima de 6,5% em pacientes sem
diagnóstico de DM conhecido sugerem que o diabetes precede a
hospitalização.1
Pacientes previamente normoglicêmicos recebendo terapias associadas
a hiperglicemia, como corticosteroides ou octreotida, nutrição enteral e
parenteral, devem ser monitorizados com glicemia capilar por pelo menos
24 h a 48 h depois do início dessas terapias. Aqueles com glicemia acima de
140 mg/dL devem continuar a monitoração e também receber a terapia
apropriada.4
MONITORAÇÃO
A monitoração por intermédio da glicemia capilar na beira do leito é o
melhor meio para guiar a dosagem de insulina a ser empregada.
Naqueles pacientes que estão se alimentando espontaneamente, a
monitoração da glicemia deve respeitar os horários das refeições e das
medicações. Portanto, deve ser feita 4 vezes ao dia: antes das refeições e na
hora de dormir.1,4 Em algumas situações, é necessário efetuar monitoração
pós-prandial da glicemia, em conjunto com a monitoração pré-prandial.
Em pacientes que estejam recebendo nutrição enteral contínua ou
parenteral, deve ser realizada a cada 4 h a 6 h.1,4 Frequência maior na
monitoração está indicada nos pacientes tratados com infusão contínua de
insulina ou após alteração na medicação que possa modificar o controle
glicêmico. Pacientes em infusão venosa contínua de insulina geralmente
necessitam de glicemia capilar horária.
Discrepâncias entre sangue capilar, venoso e arterial podem ser
observadas em pacientes com anemia, hipoperfusão e merecem atenção na
avaliação clínica.
OBJETIVOS GLICÊMICOS
Pacientes críticos
Para a maioria dos pacientes admitidos no ambiente de terapia intensiva,
a in fusão intravenosa de insulina deve ser a escolha para o adequado
controle da hiperglicemia e deve ser iniciada quando os valores glicêmicos
ultrapassam 180 mg/dL.1 Uma vez que a infusão é iniciada, os valores
glicêmicos devem ser mantidos entre 140 a 180 mg/dL.1
Melhores desfechos podem ser observados com valores no limite
inferior dessa faixa. Alvos glicêmicos menores podem ser apropriados em
pacientes selecionados, apesar de ainda não haver fortes evidências capazes
de certificar estes benefícios.1
Para alguns pacientes específicos, esses objetivos podem ser
apropriados. Um pequeno estudo sugere que pacientes tratados com
objetivos glicêmicos entre 120 e 140 mg/dL têm menor balanço nitrogênio
negativo do que os demais.1 De qualquer forma, valores menores que 110
mg/dL não são recomendados em pacientes críticos.
O uso de infusão de insulina intravenosa obedecendo a protocolos
demonstrou eficácia e segurança, sendo, portanto, altamente recomendado.
Pacientes não críticos
Os valores glicêmicos recomendados são baseados no julgamento e na
experiência clínica, uma vez que não há dados na literatura informando
valores específicos ideais nesse grupo de pacientes.1,8
Para a maioria dos pacientes tratados com insulina, a glicemia pré-
prandial não deve ultrapassar 140 mg/dL, assim como a glicose randômica
não deve ultrapassar 180 mg/dL, desde que estes objetivos sejam obtidos de
forma segura.1,8
Com o objetivo de evitar hipoglicemia, o esquema de insulina deve ser
revisto se os níveis de glicose caírem abaixo de 100 mg/dL e
necessariamente modificado caso os valores caiam abaixo de 70 mg/dL,
exceto se o evento for facilmente explicado por outros fatores como
omissão de uma refeição.1,4
Aqueles pacientes que já vinham sendo bem controlados com controle
intensivo da glicemia, fora do ambiente hospitalar, e que estejam
clinicamente estáveis podem ter objetivos glicêmicos mais baixos, menores
que os valores citados anteriormente.1,6
Da mesma maneira, maiores alvos glicêmicos podem ser aceitáveis em
pacientes com doenças terminais ou com comorbidades graves ou até
mesmo naqueles pacientes em que a monitoração e supervisão frequentes
pela equipe de enfermagem não sejam possíveis.
As decisões diárias a respeito do manejo das doses de insulina devem
ser individualizadas de acordo com o estado clínico do paciente, sua doença
de base, seu estado nutricional ou o uso concomitante de medicações que
afetem os níveis de glicose (glicocorticoides e octreotida).
Pacientes recebendo nutrição enteral ou parenteral
A desnutrição está presente em cerca de 40% dos pacientes críticos e
está associada a maior risco de complicações hospitalares, maior
mortalidade, maior permanência no hospital e maior custo durante a
internação. Melhorando o estado nutricional dos pacientes, ocorre restabelecimento do sistema imunológico, o que diminui a frequência e a
gravidade de complicações infecciosas no ambiente hospitalar.6
Inúmeros estudos retrospectivos ou prospectivos demonstraram que o
uso de nutrição enteral (EN) e parenteral (PN) são um fator de risco
independente para surgimento ou piora da hiperglicemia, a despeito de
história prévia de diabetes.6
Nesse grupo de pacientes, hiperglicemia está associada a risco
aumentado de complicações cardíacas, infecções, sepse, insuficiência renal
aguda e morte. A intervenção precoce no intuito de prevenir e corrigir
estados hiperglicêmicos pode melhorar os desfechos clínicos nos pacientes
recebendo EN e PN.6
Esses pacientes devem ser monitorizados assim que a dieta EN ou PN
seja iniciada, independentemente de história prévia de diabetes. A
monitoração poderá ser descontinuada se os valores glicêmicos forem
menores que 140 mg/dL sem insulinoterapia por 24 h a 48 h depois de ter
sido atingido o alvo calórico total.4
A insulinoterapia deverá ser iniciada se houver glicemia maior que 140
mg/dL.4
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