Rotinas de Diagnóstico e Tratamento do Diabetes Mellitus
2. Classificação do diabetes mellitus
Classificação do diabetes mellitus
Joana Dantas
Roberta Magalhães Tarantino Mamede
Juliana Malheiros
INTRODUÇÃO
O diabetes mellitus (DM) é uma doença com elevada prevalência na
população e com formas de apresentação muito distintas. Ao diagnóstico,
os indivíduos podem se apresentar assintomáticos ou oligossintomáticos até
ter um quadro clínico franco, característico da hiperglicemia, cursando com
poliúria, polidipsia, perda ponderal, cetoacidose diabética ou coma
hiperosmolar não cetótico.1 Até 1979, classificávamos o diabetes de acordo
com o tipo de tratamento: insulinodependente (IDDM) e não
insulinodependente (NIDDM).1,2 Desde então, a sua classificação é feita de
acordo com a fisiopatologia da doença: insulinorresistência, autoimunidade,
alterações mitocondriais, distúrbios de secreção de insulina decorrentes de
alterações monogenéticas, entre outros, que serão discutidos separadamente
a seguir.2,3 Portanto, a importância da correta classificação é permitir a
escolha do tratamento adequado, orientar o clínico quanto às possíveis
comorbidades associadas a cada tipo de diabetes e orientar os familiares
quanto ao tipo de herança genética.2,3 Na maioria dos casos, anamnese
adequada e um bom exame físico nos permitem classificar a maior parte
dos pacientes; porém, em alguns, precisamos de certos exames
complementares discutidos a seguir, além do acompanhamento da evolução
da doença para a sua melhor definição. Na Tabela 2.1 descreve-se a
classificação etiológica do diabetes.
DIABETES MELLITUS TIPO 1
O diabetes mellitus tipo 1 (DM1) é uma doença crônica causada pela
destruição progressiva das células β pancreáticas, com consequente
evolução para a deficiência na produção de insulina e hiperglicemia. Pode
ser subdividido em 2 subgrupos: tipo 1-A, mediado pela destruição
autoimune da célula β, e tipo 1-B, também chamado de idiopático, muito
menos frequente, com apresentação clínica semelhante ao tipo 1-A, mas
sem componente autoimune identificado.4,5 O DM1-B caracteriza-se por
deficiência absoluta da secreção de insulina (avaliada por meio da dosagem
do peptídeo C) e ausência de autoanticorpos pancreáticos. Compreende
cerca de 5% dos pacientes classificados inicialmente como DM1 e é mais
frequente em asiáticos e afrodescendentes.6
Tabela 2.1 Classificação etiológica do diabetes mellitus
I. Diabetes tipo 1 (destruição de células β, de ciência absoluta de insulina)
A. Imunomediado
B. Idiopático
II. Diabetes tipo 2 (varia desde resistência insulínica com de ciência relativa de insulina a defeito na secreção de insulina
predominantemente, com resistência insulínica)
III. Outros tipos especí cos
A. Defeitos genéticos da função da célula β
1. Cromossomo 12, HNF-1a (MODY3)
2. Cromossomo 7, glicoquinase (MODY2)
3. Cromossomo 20, HNF-4α (MODY1)
4. Cromossomo 13, insulin promoter factor-1 (IPF-1; MODY4)
5. Cromossomo 17, HNF-1β (MODY5)
6. Cromossomo 2, NeuroD1 (MODY6)
7. DNA mitocondrial
8. Outros
B. Defeitos genéticos na ação da insulina
1. Resistência insulínica tipo A
2. Leprechaunismo
3. Síndrome de Robson-Mendenhall
4. Diabetes lipoatró co
5. Outros
C. Doenças do pâncreas exócrino
1. Pancreatite
2. Trauma/pancreatectomia
3. Neoplasia
4. Fibrose cística
5. Hemocromatose
6. Pancreatopatia brocalculosa
7. Outros
D. Endocrinopatias
1. Acromegalia
2. Síndrome de Cushing
3. Glucagonoma
4. Feocromocitoma
5. Hipertireoidismo
6. Somatostatinoma
7. Aldosteronoma
8. Outros
E. Induzido por droga
1. Vacor
2. Pentamidina
3. Ácido nicotínico
4. Glicocorticoide
5. Hormônio tireoidiano
6. Diazóxido
7. Agonista β-adrenérgico
8. Fenitoína
9. γ-Interferon
10. Outros
F. Infecção
1. Rubéola congênita
2. Citomegalovírus
3. Outros
G. Formas incomuns de diabetes imunomediado
1. Stiff-man syndrome
2. Anticorpo antirreceptor de insulina
3. Outros
H. Outras síndromes genéticas associadas ao diabetes
1. Síndrome de Down
2. Síndrome de Klinefelter
3. Síndrome de Turner
4. Síndrome de Wolfram
5. Ataxia de Friedreich
6. Coreia de Huntington
7. Síndrome de Laurence-Moon-Biedl
8. Distro a miotônica
9. Por ria
10. Síndrome de Prader-Willi
11. Outras
IV. Diabetes gestacional
O DM1-A pode ser dividido de acordo com a herança genética:
monogênica, mais rara, e poligênica. A forma monogenética está associada
a duas doenças raras, a síndrome poliglandular autoimune do tipo 1 (SPA-1)
e a síndrome Immune dysregulation, polyendocrinopathy, enteropathy, X-
linked (IPEX), com mutação dos genes AIRE e FoxP3, respectivamente.
Enquanto a primeira apresenta herança autossômica recessiva, a segunda
tem herança ligada ao X.6,7
A SPA-1 também é conhecida como APECED (polyendocrinopathy-
candidiasis-ectodermal dystrophy), e cursa com candidíase mucocutânea
crônica, hipoparatireoidismo e insuficiência adrenal. A presença dos 3
componentes não é necessária para o diagnóstico e outras doenças
autoimunes, como o DM1, podem ocorrer ao longo da vida. Em uma série
de casos, 23% dos indivíduos apresentavam o diagnóstico de diabetes do
tipo 1-A.8 Tem prevalência variável de acordo com a região, mais frequente
em áreas onde o casamento consanguíneo é mais comum, como na
Sardenha (1:14.000) e entre os judeus iranianos (1:9.000). Nos Estados
Unidos é muito rara e ocorre em 1:200.000 habitantes. Geralmente, a
primeira manifestação da doença acontece antes dos 5 anos de idade, sendo
caracterizada por candidíase oral, cutânea e vaginal. É seguida por
hipoparatireoidismo, diagnosticado em torno dos 10 anos de idade. O
diagnóstico da insuficiência adrenal ocorre em seguida, em geral aos 15
anos, podendo verificar-se até o início da vida adulta. A presença dos
anticorpos anti-CYP21, característicos da síndrome poliglandular
autoimune 2 (SPG-2), geralmente não ocorre na SPG-1. Nesse caso, são
encontrados mais frequentemente os anticorpos anti-CYP 17 e anti-
CYP11A1. As 3 doenças características da síndrome estão presentes em
40% dos indivíduos.9-11
A outra forma monogenética de DM1-A é conhecida como síndrome
IPEX, muito rara, e ocorre por uma alteração das células T regulatórias. O diabetes pode preceder ou aparecer concomitantemente com a enteropatia
autoimune, que cursa com diarreia aquosa significativa.12 Os primeiros
sintomas já parecem na fase neonatal. A dermatite, também característica
da síndrome, costuma suceder esses sintomas e pode ser extensa. Outras
doenças autoimunes, como hepatite, tireoidite e nefrite podem ocorrer ao
longo da vida do indivíduo, mas, em geral, a letalidade é elevada e ocorre
na primeira infância.12 Há relatos de casos com a possibilidade de aumento
da sobrevida com transplante de medula óssea.13,14
A forma poligênica do DM1-A é muito mais frequente. Ocorre em 15 a
30 milhões de pessoas na população mundial, que corresponde a 5% a 10%
de todos os casos de diabetes. Nas últimas décadas, sua incidência tem
apresentado aumento anual de 3% a 5%,4,5 principalmente em países
desenvolvidos e em crianças < 5 anos de idade.4-6 Existe uma importante
variação geográfica na incidência do DM1, sendo elevada na Finlândia e na
Suécia (36,5 e 24,2 indivíduos por 100 mil habitantes, respectivamente) e
baixa no México e no Paquistão. Em países como Brasil e Alemanha, a
incidência de DM1 é intermediária (estimada em cerca de 7,6 casos novos a
cada 100 mil habitantes).15 Cerca de 50% a 60% desses pacientes têm < 18
anos de idade no momento do diagnóstico e a incidência diminui ao longo
da vida adulta.4,6 O DM1-A apresenta incidência semelhante em indivíduos
do sexo masculino e feminino, com predomínio em caucasianos.6
Os genes mais importantes associados à forma poligênica do DM1-A
(também denominada oligogênica) estão localizados dentro do complexo de
histocompatibilidade (MHC), na região de classe II do sistema de HLA
(human leukocyte antigen – antígeno leucocitário humano), no cromossomo
6p21.31. Estes são responsáveis por 45% da suscetibilidade genética em
populações caucasianas.16,17 Aproximadamente 95% dos pacientes
apresentam HLA DR3-DQ2 ou HLA DR4-DQ8, e 60% são heterozigotos
HLA DR3-DQ2/DR4-DQ8, sendo este o genótipo de maior risco de
desenvolvimento da doença.18 Outros alelos são associados à proteção para
o desenvolvimento do DM1-A, como HLA-DR2, e essa proteção parece ter
um efeito dominante em relação aos HLA de risco para o desenvolvimento
do diabetes autoimune.16,18 Outros genes localizados fora do MHC também
foram estudados nos últimos anos e estão associados ao desenvolvimento
do DM1-A, entre estes o mais importante é o polimorfismo do gene da insulina, seguido pelo PTPN22. Outros polimorfismos também foram
associados: CTLA-4, IL-3, IL-4, entre outros.18,19
A avaliação da função secretória das células β também pode auxiliar na
classificação de um indivíduo como DM1-A, uma vez que, no momento do
diagnóstico, destruição significativa das células β das ilhotas pancreáticas já
terá ocorrido, com redução da secreção de insulina. Devemos avaliar a
função residual pancreática por meio da dosagem do peptídeo C (PC), pois
a dosagem da insulina tem algumas limitações importantes: 40% a 60%
sofrem efeito da primeira passagem pelo fígado, o seu clearance periférico
varia de acordo com as condições metabólicas, não é possível diferenciar a
insulina endógena da exógena e alguns kits disponíveis não conseguem
diferenciar a pró-insulina da insulina, além da possibilidade de haver
interferência dos anticorpos anti-insulina na análise.20,21 A dosagem do PC
pode ser basal ou sob estímulo da glicose, refeição padrão ou do
glucagon.21,22 Atualmente, o estímulo com uma refeição padrão é a técnica
considerada ideal, superior à avaliação basal e ao estímulo com glucagon.
Este, apesar de prático, pode causar náuseas transitórias, o que limita o seu
uso na prática clínica.21,22
Em geral, pacientes com longa duração do DM1 apresentarão PC
indetectável ou com baixos títulos. De forma oposta, nos primeiros anos do
diabetes, essa dosagem pode ser variável.7-10 Estudos recentes têm
demonstrado a presença de função residual das células β, uma proporção
significativa de indivíduos com DM1-A superior à descrita em estudos
iniciais, tanto ao diagnóstico quanto após vários anos de doença.20,23 Porém,
níveis de PC dentro da normalidade (> 1,5 ng/dL) em pacientes com DM1
de longa duração de doença não são a regra, portanto outros diagnósticos
diferenciais devem ser considerados. Por outro lado, pacientes com diabetes
mellitus tipo 2 (DM2) de longa duração apresentam níveis baixos de PC
pois há perda de função secretória ao longo do curso da doença.
Os autoanticorpos pancreáticos são marcadores da destruição autoimune
das células β, e a sua dosagem é uma ferramenta útil para a confirmação do
DM1-A, podendo ser solicitado quando há dúvida desse diagnóstico. O
anticorpo anti-ilhotas pancreáticas – ICA (cytoplasmatic islet cell antibody)
foi o primeiro a ser identificado, porém é uma técnica de difícil
reprodutibilidade.24 Posteriormente, outros 4 autoantígenos pancreáticos foram identificados, e testes para a detecção dos anticorpos contra esses
antígenos foram validados internacionalmente: anti-insulina,
antidescarboxilase do ácido glutâmico (anti-GAD), antitirosina fosfatase
(anti-IA2) e antitransportador de zinco (ZnT8).20,25,26 É importante lembrar
que, logo após o início da insulinoterapia (em 5 a 7 dias), a maior parte dos
pacientes desenvolve anticorpos contra a insulina exógena, o que pode
interferir no teste do anticorpo anti-insulina (AAI).27,28
Esses anticorpos podem preceder o aparecimento da doença clínica em
meses ou até anos.24,29 Evolutivamente, o primeiro autoanticorpo a ser
detectado na maioria dos indivíduos com risco para DM1-A é o AAI, sendo
seguido por anti-GAD, anti-IA-2, anti-IA2β.29-32 Nesse contexto, anti-ZnT8
surge mais tardiamente, e raramente precede outros autoanticorpos contra
ilhota. Todavia, ele pode surgir concomitante aos demais marcadores.33,34
Ao diagnóstico, 90% das crianças apresentam um ou mais anticorpos
pancreáticos positivos.3 A persistência desses anticorpos na fase pré-clínica
até o diagnóstico de diabetes é variável, com flutuações de seus títulos.27
Portanto, os pacientes tanto na fase pré-clínica quanto clínica (após o
diagnóstico) podem apresentar esses anticorpos negativos em algum
momento, sendo indicada mais de uma dosagem.3
A maioria dos autoanticorpos associados ao DM1 apresenta declínio da
positividade após o diagnóstico da doença, porém anti-GAD pode
permanecer positivo durante muitos anos após o diagnóstico.3,35 Anti-ZnT8
também pode permanecer positivo após o diagnóstico por longos períodos.33
Em geral, os pacientes com DM1-A têm índice de massa corporal
(IMC) normal ao diagnóstico ou baixo, devido ao estado de lipólise causado
pela insulinopenia. A presença de outras doenças autoimunes na família ou
no próprio indivíduo corrobora o diagnóstico de DM1-A.6 Indivíduos com
IMC elevado não devem ter o diagnóstico de DM1-A excluído, já que
também podem apresentar autoimunidade pancreática e necessidade de
insulinoterapia desde o diagnóstico. Com o aumento da obesidade mundial,
crianças e adolescentes estão fazendo o diagnóstico de diabetes autoimune
com IMC mais elevado que em décadas passadas; portanto, a sua presença
não deve afastar a possibilidade do diabetes autoimune.36
Cetoacidose diabética (CAD) é uma emergência endócrina tida como
característica dos pacientes com DM1. Ocorre ao diagnóstico com frequência variável em diversas populações. Na população brasileira, um
estudo recente encontrou frequência de 42,3%, com redução progressiva a
partir do ano 2000.37 Crianças apresentam maior frequência de CAD ao
diagnóstico, e ocorre em até 65% dos pacientes. Adultos podem ter essa
apresentação clínica inicial em até 30% dos casos.38 A CAD não é
específica dos pacientes com DM1-A, podendo ocorrer em casos
específicos de pacientes com DM2 com tendência à cetose, como será
discutido a seguir. Esses indivíduos têm um fenótipo de DM2 com
obesidade e sinais clínicos de resistência insulínica, mas não apresentam
autoimunidade pancreática. Após o início do tratamento, evoluem com
redução e até suspensão da insulinoterapia e podem manter o controle
glicêmico adequado por um longo período apenas com medicação oral e
mudança do estilo de vida.34 Portanto, em alguns casos será necessário
acompanhamento para a classificação correta do diabetes.
LATENT AUTOIMMUNE DIABETES OF ADULTS
Um grupo de indivíduos com diabetes apresenta inicialmente fenótipo
de DM2, mas com presença dos autoanticorpos pancreáticos, o que sugere
fisiopatologia mais semelhante ao DM1 do que ao DM2.2,3 Zimmet sugeriu
essa nomenclatura, latent autoimmune diabetes of adults (LADA), em
1995, a partir das observações de que muitos pacientes com o diagnóstico
de DM2 evoluíam para insulinoterapia mais precocemente e tinham
anticorpos contra as células β positivo.41 Cerca de 11% a 12% dos pacientes
definidos como DM2 têm anti-GAD (+) e evoluem para insulinoterapia
mais precocemente, segundo estudos em populações caucasianas.42,43 Já em
populações asiáticas, essa prevalência fica em torno de 5%.44,45
A Immunology of Diabetes Society (IDS) sugeriu 3 critérios para
padronizar o diagnóstico de LADA:45
■ Idade ≥ 35 anos.
■ Positividade para pelo menos um autoanticorpo pancreático (anti-ICA, anti-IA2, anti-GAD, anti-
ZnT8 ou AAI).
■ Ausência de necessidade de insulinoterapia por pelo menos 6 meses.
Na prática clínica, são pacientes com idade superior à faixa dos 30 a 35
anos, sem obesidade, com início insidioso da hiperglicemia, sem cetoacidose ao diagnóstico, além de ausência da necessidade de
insulinoterapia nos primeiros 6 a 12 meses. A presença de autoanticorpos
pancreáticos, principalmente o anti-GAD, permite diferenciar estes
pacientes daqueles com DM2. Em geral, pacientes com LADA apresentam
PC superior àqueles com DM1-A recém-diagnosticado, porém inferior ao
DM2, o qual se encontra geralmente normal ou até mesmo elevado.45,46
Como no DM1-A, a presença de obesidade não exclui o diagnóstico de
LADA, nem mesmo a presença de sinais clínicos de resistência insulínica,
como acantose nigricans e obesidade central, já que o espectro clínico é
variável. É provável que esses pacientes apresentem uma fisiopatologia
comum com o DM1 e DM2, associando a agressão autoimune das células β
(com redução da secreção de insulina) à resistência periférica à insulina.45-48
É importante lembrar que a idade é uma definição arbitrária e que a
definição de um ponto de corte para a idade de definição de LADA tem
sido criticada. Por outro lado, nem todos pacientes com DM1
diagnosticados após 35 anos apresentam LADA.
As características genéticas também não são iguais ao DM1 clássico,
uma vez que os pacientes com LADA apresentam menor frequência dos
HLA DR3 e DR4, e, de forma oposta, apresentam maior prevalência do
HLA protetor (DR2) do que os pacientes com DM1-A clássico.45,46 Alguns
polimorfismos genéticos fora da região do HLA (gene da insulina, do TNF-
α e PTPN 22) também são mais prevalentes nos pacientes com DM1-A
clássico do que com LADA.45,46,48 Esses pacientes, por outro lado, também
têm um perfil genético em comum com os pacientes com DM2, avaliado
pelo gene TCF7L2, sugerindo que não seja apenas um espectro do DM1-
A.47
O perfil imunológico também parece ser diferente entre essas formas de
diabetes. A presença de AAI, anti-IA2 e anti-ZnT8 é maior no DM1-A
clássico. A prevalência do anti-GAD é elevada em ambos, porém, a
subclasse de IgG4 do anti-GAD é mais prevalente nos pacientes com
LADA. Outras diferenças imunológicas parecem ocorrer entre esses 2 tipos
de diabetes, como maior reatividade das células T ao GAD 65, porém mais
estudos estão em andamento para compreender essas diferenças.45,46
Fourlanos et al. sugeriram pesquisar LADA em pacientes com 2 dos
critérios a seguir: (1) idade ao diagnóstico < 50 anos; (2) presença de
sintomas agudos de DM; (3) IMC < 25 kg/m2; (4) história pregressa de
doença autoimune. A utilização desses critérios tem sensibilidade de 90% e
especificidade de 71%.49
Ainda não há uma recomendação específica para esse grupo de
pacientes, mas estudos clínicos controlados estão em andamento para
auxiliar nessa decisão terapêutica. Coortes prospectivas têm demonstrado
que os pacientes com LADA apresentam pior controle metabólico dos que
os pacientes com DM2, talvez pelo retardo na insulinização plena desses
indivíduos.45,46 Um estudo japonês iniciou o tratamento com insulina desde
o diagnóstico de LADA e demonstrou melhor controle glicêmico e melhor
nível de PC estimulado quando comparada à sulfonilureia. Há outros grupos
que estão avaliando se há maior benefício de determinada classe de
antidiabético oral em relação às outras para os pacientes com LADA.
Recentemente, meta-análise da Cochrane que incluiu 1.019 pacientes
encontrou pior controle glicêmico com o uso da sulfonilureia quando
comparado à insulina, além de pior nível de PC estimulado.50
DIABETES MELLITUS TIPO 2
O DM2 compreende 85% a 90% dos casos de diabetes no mundo, com
prevalência estimada no Brasil de 7,6% da população. Com o aumento
mundial da obesidade, também observamos uma epidemia de DM2 em todo
o mundo. Cerca de 80% a 90% dos pacientes com DM2 têm síndrome
metabólica, definida por aumento da circunferência abdominal,
dislipidemia, hipertensão, além da alteração da glicemia.
Seu diagnóstico é clínico, geralmente indivíduos acima da faixa etária
dos 40 a 50 anos com sinais clínicos de resistência insulínica, como
obesidade central e acantose nigricans. Na sua maioria, o início dos
sintomas é insidioso, com um longo período assintomático precedendo o
diagnóstico, que frequentemente se dá com exame laboratorial de rotina.
Inicialmente, antidiabéticos orais associados a dieta e atividade física são o
tratamento adequado para a maioria dos pacientes; porém, cerca de 30%
necessitam de insulinoterapia posteriormente. A maioria dos pacientes tem
história familiar positiva para DM2 e/ou síndrome metabólica. A
concordância de gêmeos monozigóticos é de 80% a 90%.
O estado hiperosmolar não cetótico é a complicação aguda característica
do DM2. Normalmente, está associado a infecção, infarto agudo do
miocárdio (IAM), embolia pulmonar ou acidente vascular encefálico (AVE)
e apresenta elevada letalidade. Inicialmente, acreditava-se que a cetoacidose
diabética (CAD) fosse característica do paciente com DM1-A e, portanto,
todos os pacientes que tivessem essa apresentação clínica eram
classificados desta forma. Os primeiros relatos de CAD em pacientes
adultos, com fenótipo de DM2 e que conseguiam ficar sem utilizar insulina
por longos anos após a estabilização clínica inicial, surgiram na década de
1960.51 Posteriormente, em 1994, Banerji et al. descreveram casos de CAD
em pacientes jovens obesos de origem caribenha que residiam na área de
Flatbush, no Brooklyn, Nova York. O termo “diabetes flatbush” foi devido
a essa origem geográfica e, posteriormente, foi denominado diabetes tipo 2
com tendência à cetose. Esses pacientes tinham anti-ICA e anti-GAD
negativos e PC detectável.53 Outros estudos demonstraram que esses
indivíduos tinham níveis de PC após estímulo com glucagon intermediário
entre os pacientes com DM1 recém-diagnosticado e os DM2 obesos.54 Há
predomínio do sexo masculino (3:1), com relato de perda de peso, poliúria e
polidipsia por até 4 semanas antes da internação.54 Em 75% dos casos, não
há um evento desencadeante e a CAD pode recorrer, principalmente se o
paciente ficar sem tratamento adequado.54,55 Em um estudo prospectivo,
após 9 semanas, 70% desses pacientes estavam com excelente controle
metabólico com antidiabéticos orais e dieta. Após 10 anos, cerca de 50%
mantinham um bom controle glicêmico sem necessidade de insulina.55 O
mecanismo que causaria essa deficiência relativamente aguda, mas
reversível, da secreção de insulina permanece desconhecido, sendo
questionado o papel da lipotoxicidade e um distúrbio na secreção do
glucagon.39 Não há associação dos HLA de risco para o desenvolvimento do
DM1, porém outros genes foram associados, como mutação do gene HNF-1
e polimorfismo do gene PAX-4.39
A epidemia mundial de obesidade que também acomete crianças e
adolescentes está levando a um significativo aumento do diagnóstico de
DM2 nessa faixa etária. O DM1 é a principal forma de diabetes em
indivíduos com menos de 18 anos, contudo, em 2 ou 3 décadas o DM2 será
a principal forma de diabetes em adolescentes nos Estados Unidos.56 No Japão, cerca de 80% das crianças e adolescentes com diagnóstico de
diabetes são classificados como DM2. No continente norte-americano, há
predomínio em meninas (65%), com idade média de 14 anos e maior
prevalência em minorias étnicas, como índios americanos, hispânicos e
negros.39,56 Esse grupo etário também pode desenvolver diabetes com
tendência à cetose, devendo fazer diagnóstico diferencial com DM1
clássico por meio da dosagem dos autoanticorpos pancreáticos e do PC.
Na Tabela 2.2, observamos as principais diferenças clínicas entre os
pacientes com DM1, LADA e DM2.
DIABETES MONOGENÉTICO
O diabetes melllitus (DM) monogenético se caracteriza pelo início
precoce, diagnosticado geralmente antes dos 25 anos de idade em pelo
menos 1 e idealmente 2 membros da mesma família. Outra característica é
não necessitar de insulina nos primeiros anos, sendo mais bem avaliado
pela presença de níveis detectáveis de peptídeo C após 3 a 5 anos do
diagnóstico. Pela forma de herança, que na maioria das vezes é autossômica
dominante, idealmente 3 gerações da mesma família devem ter o
diagnóstico de diabetes, apesar de este não ser um critério obrigatório. A
obesidade não é usual e este tipo de diabetes é causado por um único
defeito genético que altera a função da célula β pancreática. O DM
monogenético pode ser dividido em 4 grandes grupos:
■ Diabetes neonatal.
■ Hiperglicemia familiar leve (MODY-2).
■ Diabetes familiar de início precoce (MODY relacionado com a mutação nos fatores de
transcrição).
■ Diabetes com manifestações extrapancreáticas.
O termo MODY (maturity onset diabetes of the young) classifica o
diabetes monogenético de acordo com a mutação genética envolvida
(conforme descrito na Tabela 2.3). O MODY-2 está relacionado com a
mutação no gene da glicoquinase, enquanto os outros 6 subtipos estão
relacionados com mutações em genes de fatores de transcrição. A
prevalência estimada é de que 1% a 2% de todos os casos de DM no mundo
sejam de DM monogenético. Entretanto, acredita-se que tal prevalência seja subestimada. Isso se deve, em grande parte, à escassez de meios de
diagnóstico, particularmente no Brasil, onde a real prevalência é
desconhecida. A história natural exata de cada tipo de mutação ainda é
desconhecida, além da possibilidade de outras mutações ainda não descritas
poderem ocorrer em populações específicas.
Tabela 2.2 Diferenças entre DM1, DM2 e LADA
Características DM1 DM2 LADA
Idade ao diagnóstico usual Crianças, adolescentes e * * > 40 anos de idade > 35 anos * adultos jovens
Frequência 10% 90% 10% a 12% dos pacientes
classi cados como DM 2
Peptídeo C Indetectável a detectável Normal a elevado (> 1,5 Nível intermediário entre
com baixo nível sérico (0,5 a ng/mL) DM 1 e DM2 1,5 ng/mL)
Anti-GAD Positivo Negativo Positivo
Associação a HLA Sim, associação a HLA de Não Sim, associação a HLA de
risco (DR3 e DR4) proteção (DR2-DQ8)
Quadro clínico Poliúria, polidipsia, perda > 50% dos casos Variável
ponderal assintomático
Emergência clínica Cetoacidose diabética Coma hiperglicêmico Não há
hiperosmolar não cetótico
Tratamento Insulinoterapia Medicação antidiabética Medicação antidiabética
medicamentoso inicial oral oral por período > 6
meses**
* Diagnóstico em qualquer faixa etária.
** Em geral, usam medicação oral por período superior a 6 a 12 meses. DM1 = diabetes mellitus do tipo 1; DM2 = diabetes mellitus do tipo 2; LADA = latent autoimmune diabetes of adults; anti-GAD = anticorpo antidescarboxilase do ácido glutâmico.
Tabela 2.3 Caracterização dos tipos de mutação
Quadro clínico Base Quadro clínico
Gene (heterozigoto) Tratamento molecular (homozigoto)
MODY- HNF-4α DM, ↓TG e LPa ADO, ins Alt transc
1 gênica
MODY- Glicoquinase Gli jejum ↑ Dieta, exercício ↓fosf DNP/tto ins
2 gli→↓sen-
sibilidade gli
célula β
MODY- HNF-1α DM, ↑glicosúria ADO, ins Sulfonil Alt transc
3 gênica
MODY- IPF1 DM ADO, ins Alt transc Agen pancr/DN
4 gênica
MODY- HNF-1β DM, cistos renais Ins Alt transc
5 gênica
MODY- NeuroD1 DM Ins Alt transc
6 gênica
ADO: antidiabético oral; Ins: insulina; TG: triglicerídeos; LPa: lipoproteína a; gli: glicose; DNP: diabetes neonatal permanente; tto: tratamento; alt transc: alteração da transcrição; Agen pancr: agenesia pancreática; DN: diabetes neonatal; fosf: fosforilação.
Entretanto, a grande importância na detecção dos casos não é só para
estimar a real prevalência da doença, mas para mudar a estratégia
terapêutica. Isso porque os 2 principais subtipos respondem muito bem a
medidas específicas: dieta e atividade física para o MODY-2, e droga oral,
particularmente sulfonilureia em vez de insulina, para o MODY-3.
No caso da hiperglicemia familiar leve (também denominada MODY-
2), há pouco efeito dos antidiabéticos orais, uma vez que a regulação
glicêmica está preservada, apenas em um limiar mais elevado. Nesses
casos, o mais importante no tratamento é dieta e atividade física. A única
exceção no tratamento do MODY-2 é a gestação, em que pode haver necessidade de insulina se o feto estiver macrossômico. Na ausência da
mutação no feto, o mesmo ficará macrossômico devido ao aumento da
insulina fetal em resposta à hiperglicemia materna.
No caso da mutação dos genes HNF-1α e HNF-4α (MODY-3 e 1), há
ótima resposta à sulfonilureia em baixa dosagem. O defeito da célula β,
resultado da redução da função de um fator de transcrição, leva a prejuízo
do metabolismo glicêmico. Porém, as sulfonilureias, que atuam no canal
K+, estimulam a liberação de insulina de forma ATP-independente,
conseguindo sobrepor esse defeito genético.
DIABETES NEONATAL
O DM neonatal corresponde à maioria dos casos de diabetes
diagnosticado antes dos 6 meses de vida. A incidência está em torno de 1
em cada 400 mil a 500 mil nascidos vivos. Cinquenta por cento dos casos se
devem a mutações nos genes KCNJ11, ABCC8 e gene da insulina. Em até
50% dos casos, há resolução espontânea, sendo chamado de DM neonatal
transitório, em oposição a 40% a 50% das crianças que permanecem com
DM (DM neonatal permanente).
Nos casos de DM neonatal permanente, ocorrem mutações na
subunidade Kir6.2 do canal de potássio ATP-dependente. Manifestações
neurológicas estão presentes em 20% dos casos (síndrome DEND –
desenvolvimento atrasado, epilepsia, diabetes neonatal). A forma de
apresentação é, em geral, do nascimento até 26 semanas de vida (média 5 a
7 semanas), com hiperglicemia marcada, cetoacidose diabética (CAD) em
30% dos casos, peptídeo C indetectável e baixo peso ao nascer (inferior a
2.500 g). As mutações ativadoras do KCNJ11 ou do ABCC8 levam à
inibição do fechamento do canal K+. Com isso, há aumento do K+
intracelular e hiperpolarização da membrana, que resulta em redução da
secreção de insulina.
As mutações no SUR1 levam a um fenótipo similar, porém sendo mais
frequente o diabetes neonatal transitório. Nesses casos, a síndrome DEND é
rara.
As mutações no gene da insulina correspondem a 12% dos casos de DM
neonatal permanente, sendo mais comuns em pré-escolares e escolares, e simulam um DM1 com fase de lua de mel prolongada. A síndrome IPEX, já
descrita anteriormente, também pode ser diagnosticada no período neonatal,
bem como a síndrome de Wolcott-Rallison, caracterizada por DM precoce,
displasia epifiseal, insuficiência renal e insuficiência hepática.11
O DM neonatal transitório é geralmente diagnosticado na primeira
semana de vida. As crianças têm baixo peso ao nascer (média 2.000 g) e há
necessidade de menor dose de insulina. A remissão ocorre em torno de 12
semanas, porém pode ocorrer recaída, em 50% a 60% dos casos, por volta
dos 14 anos. Portanto, existe a necessidade de seguimento dos casos até a
adolescência. Macroglossia e hérnia umbilical estão presentes em 23% e
7% das crianças, respectivamente, e a sua fisiopatologia é desconhecida.
Com relação ao diagnóstico diferencial entre os 2 tipos de diabetes
neonatal, ocorrem hiperglicemia mais precoce, menor peso ao nascimento,
necessidade de menor dose de insulina e menor frequência de CAD no DM
neonatal transitório.
O papel do aconselhamento genético para o diabetes neonatal é mínimo,
uma vez que mais de 80% dos casos se devem à herança autossômica
recessiva e à mutação de novo.
Nos casos em que há a mutação do canal K+ e pouca ou nenhuma
secreção endógena de insulina (peptídeo C indetectável), a insulinoterapia
está indicada. Entretanto, como as sulfonilureias se ligam à subunidade
SUR1 do canal causando o seu fechando de forma ATP-independente, há
excelente resposta a essa droga. Quando há mutação do Kir6.2, há resposta
de 90% dos casos com sulfonilureia em dose alta (equivalente a
glibenclamida 0,4 a 0,8 mg/kg/dia), mas todos devem ter função residual
das células β avaliada por meio da dosagem do PC. É, inclusive, descrita
alguma melhora nos sintomas neurológicos associados devido à ligação não
específica ao SUR dos canais K+ dos nervos, músculos e no sistena nervoso
central (SNC).
DIABETES COM MANIFESTAÇÕES EXTRAPANCREÁTICAS
Os casos de diabetes com manifestações extrapancreáticas são
heterogêneos. O MODY-5 ou a síndrome de cistos renais e DM é
caracterizado por mutações no gene HNF-1β, com grande variação fenotípica. O HNF-1β é um fator de transcrição expresso no
desenvolvimento embrionário do rim, pâncreas, fígado e trato genital.
Portanto, mutações desse gene são responsáveis pelo aparecimento de cistos
renais (mais comum), displasia renal, malformações do trato geniturinário,
alteração na função hepática, hiperuricemia e gota. Os recém-natos têm
baixo peso ao nascer pela redução da secreção de insulina intrauterina. O
fenótipo do diabetes é similar ao da mutação no gene HNF-1α; entretanto,
há maior resistência à insulina e ausência de resposta à sulfonilureia. Outra
diferença é que, em 2/3 dos casos, as mutações são espontâneas, não sendo
necessária a presença da doença em 3 gerações.
Outro tipo de DM com manifestações extrapancreáticas é a síndrome de
Wolfram, que é caracterizada por diabetes insipidus, DM, atrofia óptica,
surdez neurossensorial e ataxia de tronco. A síndrome é decorrente da
mutação no gene WFS1, geralmente autossômica recessiva. A maioria dos
casos se apresenta com DM e atrofia óptica progressiva em menores de 16
anos. O DM geralmente surge aos 6 anos de idade e com grande
necessidade de insulina.
A anemia megaloblástica responsiva à tiamina (síndrome de Roger) está
relacionada com anemia megaloblástica, DM e surdez neurossensorial. A
forma de herança é autossômica recessiva e ocorre mutação no gene
SLC19A2. Com relação ao DM, há necessidade de insulina com relatos de
melhora parcial com o uso de tiamina.
DIABETES MITOCONDRIAL
O diabetes mitocondrial ocorre por herança materna, logo, há
transmissão a toda prole, porém nem todos são afetados (penetrância de
85% aos 70 anos). Há prevalência estimada de 0,4% na população geral,
mas nos japoneses essa prevalência parece ser superior, de 1,5%. É
caracterizado por DM, surdez neurossensorial bilateral e baixa estatura.
Vale a pena ressaltar que a disfunção mitocondrial presente leva a
manifestações nos órgãos mais metabolicamente ativos. As formas mais
graves se apresentam com miopatia, encefalopatia, acidose láctica e
episódios tipo AVE (síndrome MELAS). Com relação ao DM, a forma de
apresentação geralmente é insidiosa, semelhante ao DM2 (falência
progressiva de células β). Em torno de 20% se apresentam com a forma aguda, similar a um quadro de DM1, e CAD pode ocorrer em 8% dos casos.
A idade média do diagnóstico é de 37 anos.
O tratamento inicial dos casos de diabetes mitocondrial é dieta e
antidiabéticos orais. Entretanto, a maioria evolui em 2 anos para a
necessidade de insulinoterapia. É fundamental ter atenção nesses pacientes
para o risco de acidose láctica ao utilizar metformina.
DIABETES ASSOCIADO A MUTAÇÕES NO RECEPTOR INSULÍNICO
São mais de 70 tipos de mutações descritas no receptor de insulina que
podem resultar em hiperinsulinemia, hiperglicemia leve, diabetes grave,
virilização em mulheres e cistos ovarianos.56 Alguns pacientes podem se
apresentar com acantose nigricans. Antigamente era chamada de resistência
insulínica do tipo A. O leprechaunismo (fatal na infância) e a síndrome de
Rabson-Mendenhall (associada a anormalidades nos dentes e unhas com
hiperplasia de hipófise) são duas síndromes pediátricas com mutação no
receptor da insulina (alterações na função do receptor) e extrema resistência
à insulina.58 No leprechaunismo há diminuição extrema do tecido adiposo
subcutâneo, hirsutismo, acantose nigricans, fácies característica. Cursa com
crescimento intrauterino retardado e evolui para óbito, geralmente no
primeiro ou segundo ano de vida. Além da característica hiperglicemia pós-
prandial, cursa com hipoglicemia paradoxal nos períodos de jejum devido a
baixa capacidade de gliconeogênese. Aproximadamente 1/3 dos pacientes é
oriundo de casamentos consanguíneos.58
DIABETES LIPOATRÓFICO
O diabetes lipoatrófico é uma doença heterogênea caracterizada por
perda parcial ou completa do tecido celular subcutâneo, que pode ser
congênita ou adquirida.59,60 A extensão da perda de gordura se correlaciona
à gravidade das anormalidades metabólicas. Clinicamente, os pacientes com
lipodistrofia grave apresentam importante resistência insulínica e um grupo
de características clínicas e laboratoriais, como: hiperlipidemia grave,
doença hepática progressiva (esteatose, cirrose, hepatomegalia), hipertrofia
muscular com veias proeminentes, hipertrigliceridemia, hiperglicemia, aumento da taxa metabólica e, ocasionalmente, hipertricose/hirsutismo,
cardiomegalia (cardiomiopatia hipertrófica) e retardo mental.61,62
Classi cação das lipoatro as
Classificam-se em:
■ Adquirida: lipoatrofia total (síndrome de Lawrence), parcial (atrofia
superior com hipertrofia inferior), relacionada com o uso de inibidores
de protease na infecção pelo HIV e localizada (induzida por drogas,
induzida por pressão, idiopática, paniculite, centrífuga).
■ Congênita: lipoatrofia total (síndrome de Berardinelli), parcial
(Dunnigan, Koeberling, lipodistrofia com outras características
dismórficas, displasia mandibuloacral), outras.
Lipoatro a congênita parcial
■ Síndrome de Koeberling: doença rara, caracterizada por perda do
tecido adiposo de extremidades, musculatura proeminente com
obesidade truncal e gordura visceral normal.63,64 Na maior parte dos
pacientes, ocorre hipertrigliceridemia e diabetes.65 Suas características
fenotípicas são similares às da síndrome de Dunnigan (as 2 síndromes
podem ser variantes de um mesmo distúrbio).
■ Síndrome de Dunnigan: transmissão autossômica dominante,
localizada no cromossomo 1q21-22,66 com mutação no gene lamin A/C
(ou LMNA).57 Há ausência de gordura em extremidades, abdome e
tórax, com excesso de subcutâneo em fossa supraclavicular e ao redor
da face. Os pacientes apresentam tecido adiposo normal na infância,
com perda de tecido subcutâneo em extremidades, geralmente após o
início da puberdade.68 Está associada a musculatura proeminente,
hirsutismo, acantose nigricans, anormalidades menstruais, diabetes e
hipertrigliceridemia (hiperquilomicronemia) com baixo HDL.69,70
■ Lipodistrofia com outras características dismórficas: transmissão
autossômica dominante e alta penetrância. Caracterizada pela presença
de lipodistrofia, displasia mandibuloacral e contratura articular.
Lipoatrofia identificada na infância ou no início da adolescência, mais
comum no sexo feminino, com padrão de distribuição de gordura
semelhante à sindrome de Cushing.70 Alguns pacientes podem ter
acantose nigricans, hipertensão arterial e hiperandrogenismo ovariano.
Também são comuns diabetes, hiperlipidemia e resistência insulínica
grave.
■ Síndrome de Barraquer-Simons: ocorre perda do tecido adiposo na
face e no tronco superior, com aumento da adiposidade no resto do
corpo.71,72 A maioria tem aceleração na ativação do complemento com
IgG (fator C3 nefrítico), que causa lise do tecido adiposo que expressa
adipsina.73,74 Geralmente inicia-se na infância ou adolescência e
normalmente após período febril. Há relatos de associação a doenças
autoimunes.65,75,76 Os pacientes cursam com hiperinsulinemia, mas sem
resistência insulínica grave. A presença de diabetes é menos frequente
que nos outros tipos de lipodistrofia, e 20% dos pacientes desenvolvem
glomerulonefrite membranoproliferativa.78
Lipoatro a adquirida associada ao HIV
No paciente com HIV, lipoatrofia periférica e lipo-hipertrofia central, há
redução dos níveis de adiponectina.81 Os níveis de leptina estão baixos no
subgrupo com lipoatrofia e, em ratos, a deficiência de leptina está associada
à resistência insulínica.79 A presença de lipoatrofia parece estar relacionada
com a carga viral e o número de CD4 no início da terapia do HIV.80 Alguns
inibidores da transcriptase reversa nucleosídeo (estavudina, lamivudina,
zidovudina) estão associados à lipoatrofia.81
O uso de inibidores de protease (principalmente lopinavir e ritonavir)
está relacionado com maior incidência de anormalidades glicêmicas,82-84 e a
gravidade da lipoatrofia entre os pacientes usando estavudina e zidovudina
parece estar associada a maior risco de resistência insulínica.86
Lipodistro a congênita generalizada (síndrome de Berardinelli)
Apresenta herança autossômica recessiva com frequente associação a
consanguinidade. Há 3 formas moleculares distintas nas quais em 95% dos
casos ocorrem mutações nos genes AGPAT2 e BSCL2.87-89
■ Tipo 1: mutação no gene AGPAT2, localizado no cromossomo 9q34.
■ Tipo 2: mutação no gene BSCL2, localizado no cromossomo 11q13, que codifica a proteína
chamada seipin. A expressão de BSCL2 é importante para a adipogênese in vitro (ausência de
BSCL2 leva a falha na indução da expressão de fatores de transcrição lipogênicos, como PPAR-γ,
C/EBP-alfa, AGPAT2, DGAT2 e Lipin 1.
■ Tipo 3: mutação no gene CAV-1, identificado em apenas um indivíduo, localizado no
cromossomo 7q31. 89 O seu produto (a caveolina-1) é um componente importante na regulação
das vias de sinalização e processos como migração celular, polarização e diferenciação dos
adipócitos.
Clinicamente, a síndrome de Berardinelli manifesta-se como ausência
de tecido subcutâneo já nos primeiros 2 anos de vida. Há quase ausência de
tecido adiposo em abdome, tórax e medula óssea. Há quantidade normal de
tecido adiposo em língua, lábios, órbita, palma das mãos, planta dos pés,
períneo e periarticular.90 Durante a infância, o apetite está aumentado, o
crescimento linear acelerado, há aumento da taxa metabólica e avanço da
idade óssea. Pode ocorrer abdome protruso por hepatomegalia (infiltração
de gordura com risco de cirrose), acantose nigricans, aparente hipertrofia
muscular, precocidade sexual, e alguns pacientes podem ter retardo mental.
O fenótipo clínico varia de acordo com o tipo de mutação,88-91 sendo a do
tipo 2 mais grave, com maior incidência de morte prematura, retardo mental
e cardiomiopatia. A do tipo 3 tem fenótipo intermediário. Os achados
metabólicos incluem diabetes, que usualmente é refratário à insulinoterapia,
hipertrigliceridemia com elevação de VLDL e quilomícron (risco de
pancreatite) e redução de leptina.93
MUTAÇÃO NO GENE PPAR-γ
Mutações neste gene podem ocasionar DM2 de início precoce
(lipodistrofia familiar do tipo 3).56
DOENÇAS DO PÂNCREAS ENDÓCRINO
Qualquer processo que lese difusamente o pâncreas pode causar
diabetes. Os processos adquiridos incluem: pancreatite, trauma, infecção,
pancreatectomia, câncer de pâncreas, sendo a pancreatite crônica etílica a
mais comum.57,58 Se extensas, fibrose cística e hemocromatose também
podem causar lesão nas células β com prejuízo na secreção de insulina.58 ■ Fibrose cística: pacientes com deficiência pancreática endócrina podem ter redução na secreção
de insulina, mas tolerância normal à glicose podendo evoluir para intolerância à glicose e
diabetes. Até o final da adolescência, em torno de 25% dos pacientes desenvolverão DM. 93,94
ENDOCRINOPATIAS
Diversos hormônios (como GH, cortisol, glucagon, catecolaminas etc.)
antagonizam a ação da insulina nos tecidos periféricos e no fígado. Dessa
forma, doenças como feocromocitoma, acromegalia, síndrome de Cushing,
glucagonoma, aldosteronoma, somatostatinoma podem cursar com diabetes
em aproximadamente 20% a 50% dos casos. Já a frequência de intolerância
à glicose pode variar de 75% a 80% nos casos de doença de Cushing e de
60% a 70% nos pacientes com diagnóstico de acromegalia. Essas causas
geralmente são identificadas em indivíduos com defeitos preeexistentes na
secreção de insulina, e, apesar de raras, devem ser lembradas por
representarem causa potencialmente reversível do diabetes, pois este
tipicamente se resolve quando o excesso de hormônio é sanado.57,58
DIABETES INDUZIDO POR DROGAS
Um grande número de drogas pode reduzir a tolerância à glicose por
meio de redução na secreção de insulina, aumento na produção hepática de
glicose ou causando resistência insulínica. Entre elas estão incluídos
anticoncepcionais orais, glicocorticoides, acido nicotínico, tiazídico, β-
bloqueador, inibidor de proteases, tacrolimo, ciclosporina, agonista
GnRH.95 Alguns antipsicóticos atípicos, como olanzapina e clozapina,
podem causar diabetes, ganho de peso, obesidade, hipertrigliceridemia. O
mecanismo, contudo, não está bem esclarecido.94-96 Pacientes em uso de
ziprasidona e aripiprazol não estão sob o risco de desenvolver diabetes ou
dislipidemia. Risperidona e quetiapina mostraram risco de ganho de peso,
porém os dados são conflitantes em relação ao risco de diabetes e
dislipidemia.97 Vacor (veneno de rato) e pentamidina também podem
ocasionar diabetes por destruição das células β permanentemente, assim
como em usuários de interferon-α, que podem desenvolver DM relacionado
com a produção de anticorpos contra célula β.57
INFECÇÕES
Alguns vírus têm sido relacionados com o diabetes por destruição da
célula β (citomegalovírus, rubéola, coxsackie B, adenovírus e o da
parotidite). Cerca de 20% dos pacientes com síndrome da rubéola congênita
apresentam diabetes.57,58
SÍNDROMES GENÉTICAS OCASIONALMENTE RELACIONADAS COM O
DIABETES
Diversas síndromes genéticas podem cursar com maior incidência de
DM, como as síndromes de Down, de Turner, de Klinefelter, de Wolfram ou
DIDMOAD (diabetes insipidus, diabetes mellitus, atrofia óptica e surdez),
entre outras.
A síndrome de Turner está associada a resistência à insulina, obesidade
central, ao DM2 e dislipidemia.100
A síndrome de Wolfram é uma doença autossômica recessiva com
penetração incompleta, causada por mutação no gene WFS1, que codifica
uma proteína denominada wolframina, localizada no cromossomo
4p16.1,101-102 que é expressa na célula β e nos neurônios. Pacientes afetados
por essa síndrome podem apresentar diabetes insipidus, diabetes com
necessidade de insulina, surdez neurossensorial progressiva, hidronefrose e
disfunção cerebelar.103,104
Foi identificado recentemente outro gene na síndrome de Wolfram
(CISD2), cuja mutação cursa com atrofia óptica precoce, DM, surdez,
diminuição da vida útil e ausência de DI.57
Na síndrome de Wolfram também podem estar presentes anormalidades
neurológicas (ausência do reflexo de náusea, atrofia cerebral), psiquiátricas,
do trato urinário (hidronefrose por atonia ou hiper-reflexia da bexiga) e
alguns tipos de disfunção endócrina (hipogonadismo por falência testicular,
disfunção hipotálamo-hipofisária, principalmente em pacientes com atrofia
do parênquima cerebral e dilatação do terceiro ventrículo, deficiência de
ACTH e GH, sendo esta última a alteração mais frequentemente
documentada por Medlej et al.).107 A proporção dos 4 componentes
(DIDMOAD) é em torno de 53% a 58%. Há maior risco de perda auditiva
neurossensorial e diabetes em portadores de anomalia no gene WFS1. A
patogênese é desconhecida. Segundo Medlej et al.,107 morte prematura pode ocorrer nos portadores da síndrome, principalmente por manifestações
neurológicas. Pode haver complicações microvasculares relacionadas com o
diabetes, porém a incidência não foi menor do que a descrita nos pacientes
com DM1.105
FORMAS RARAS DE DIABETES AUTOIMUNE
A síndrome da pessoa rígida (stiff-man syndrome) é um distúrbio
autoimune do sistema nervoso central caracterizado por rigidez acentuada e
progressiva da musculatura axial, com espasmos dolorosos, associado a
diabetes em aproximadamente 1/3 dos casos. Tem maior prevalência no
sexo feminino, e, em geral, esses pacientes têm altos títulos de anticorpos
anti-GAD. Geralmente a síndrome está associada ao DM1 (anti-GAD está
presente em 60% dos pacientes) e outras doenças autoimunes, como
tireoidite, vitiligo e anemia perniciosa. Foi observado aumento de IgG
policlonal e monoclonal no liquor na maioria dos pacientes, contra
neurônios gabaérgicos e seus nervos terminais.106,107
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