Rotinas de Diagnóstico e Tratamento do Diabetes Mellitus
12.2. Preparo cirúrgico e para exames
Preparo cirúrgico e para exames
Patrícia Borges
Claudia Regina Lopes Cardoso
Lenita Zajdenverg
Melanie Rodacki
INTRODUÇÃO
Pacientes com diabetes mellitus (DM) têm maiores chances de
necessitar de uma cirurgia do que pessoas sem diabetes. A cirurgia em
pacientes com DM está associada a internação hospitalar mais prolongada,
maior necessidade de internação em unidade de terapia intensiva e maior
mortalidade que nos indivíduos sem diabetes.
AVALIAÇÃO PRÉ-OPERATÓRIA
A avaliação pré-operatória de qualquer paciente, inclusive aqueles com
DM, foca-se na avaliação do risco cardiopulmonar e em sua possibilidade
de modificação. A doença coronariana é muito mais comum em indivíduos
com DM do que na população em geral, e, além disso, pacientes com
diabetes têm risco aumentado de isquemia silenciosa. Dessa forma, a
avaliação do risco cirúrgico é essencial nesses pacientes.
Embora pacientes com diabetes apresentem risco cardiovascular
aumentado, atualmente não se justifica o rastreio de doença coronariana em
pacientes assintomáticos, porque se sabe que o que realmente melhora os desfechos é o controle dos fatores de risco de doença cardiovascular. Além
disso, em um estudo em pacientes com diabetes assintomáticos e
eletrocardiograma normal que apresentaram distúrbios de perfusão
(presente em 1 em cada 5 pacientes investigados), a taxa de eventos
cardiovasculares foi extremante baixa, em um acompanhamento médio de
quase 5 anos, não só nos pacientes que realizaram a cintilografia mas
também nos que não realizaram a investigação.1-3
Os pacientes com diabetes candidatos à investigação coronariana são
aqueles com sintomas típicos ou atípicos e os com eletrocardiograma de
repouso anormal. Todos pacientes com diabetes mellitus tipo 2 (DM2) e
aqueles com diabetes mellitus tipo 1 (DM1) de longa duração devem
realizar eletrocardiograma anualmente. Portanto, se o paciente tiver
eletrocardiograma recente e for assintomático do ponto de vista
cardiovascular, este exame não precisa ser repetido no pré-operatório. Se a
capacidade funcional for maior do que 4 equivalentes metabólicos (MET) e
o eletrocardiograma for normal, nenhuma investigação adicional está
indicada em cirurgia de qualquer porte. Em pacientes com baixa capacidade
funcional e eletrocardiograma normal está indicado o ecocardiograma para
avaliar a função ventricular sistólica. Se esta for normal, sem disfunção
segmentar, nenhuma investigação adicional é necessária. Se a capacidade
funcional for baixa e o eletrocardiograma for alterado, mas sem isquemia, a
investigação de doença coronariana assintomática não é consenso. Em
geral, realizamos o ecocardiograma; se a função sistólica for boa e não tiver
disfunção segmentar, recomenda-se a vigilância hemodinâmica no pós-
operatório, eletrocardiograma diário e enzimas seriadas nas primeiras 48
horas, em cirurgias de médio e grande portes. Naqueles pacientes com baixa
capacidade funcional e eletrocardiograma alterado, se o ecocardiograma
apresentar disfunção segmentar e/ou disfunção sistólica global, está
indicada a cintilografia de perfusão de repouso e com estresse
farmacológico ou com exercício. De acordo com o território e a extensão da
isquemia na cintilografia de perfusão, o paciente deve ser submetido à
investigação invasiva com cineangiocoronariografia. No entanto, estudos
comparando tratamento médico intensivo, que está indicado de qualquer
forma em pacientes com diabetes e alto risco cardiovascular, com
procedimentos de revascularização miocárdica demonstraram a mesma taxa de ocorrência de desfechos cardiovasculares. Nesses estudos foram
excluídos pacientes diabéticos com angina classe IV (classificação
canadense), lesão de tronco de coronária esquerda, fração de ejeção menor
que 30% e hipotensão no primeiro estágio do protocolo de Bruce.
Todos pacientes com diabetes devem ter a investigação, pelo menos
anual, dos fatores de risco cardiovascular e devem ser tratados
adequadamente, o que reduz o risco de complicações perioperatórias. Esses
fatores de risco incluem dislipidemia, hipertensão, tabagismo, história
familiar de doença coronariana prematura, de albuminúria anormal. Os
pacientes com doença coronariana conhecida e aqueles com risco
cardiovascular aumentado (pelo menos um fator de risco associado) devem
receber ácido acetilsalicílico (AAS), estatina e inibidor da enzima
conversora de angiotensina ou bloqueador do receptor de angiotensina II se
tiverem hipertensão arterial e/ou nefropatia diabética e nenhuma
contraindicação ao seu uso. Todas essas medicações devem ser mantidas no
período perioperatório. A suspensão do AAS deve ser efetuada uma semana
antes da cirurgia e seu retorno deve ser o mais rápido possível, de acordo
com porte e tipo da cirurgia, em geral em 12 a 24 horas no pós-operatório.
A estatina deve ser mantida no pré- e pós-operatório, assim como o restante
das medicações, de acordo com a estabilidade hemodinâmica, a função
renal e o potássio sérico, e do retorno do uso do tubo digestivo para
administração das medicações. Nos pacientes com doença coronariana
conhecida, e, particularmente, com infarto do miocárdio prévio, os
betabloqueadores devem ser iniciados no pré-operatório e mantidos no pós-
operatório.4-5
Todos os pacientes necessitam de cuidadosa anamnese e exame físico.
Alguns cuidados, contudo, são essenciais e devem ser pesquisados:
■ Determinação do tipo de diabetes dos pacientes: já que pacientes com DM1 têm risco muito
mais alto de cetoacidose diabética.
■ Complicações do diabetes: retinopatia, nefropatia, neuropatia, doença coronariana, doença
vascular periférica.
■ Controle glicêmico basal: frequência da monitoração, média dos níveis glicêmicos,
variabilidade da glicemia, hemoglobina glicada.
■ Avaliação de hipoglicemias: frequência, horários, sintomas, gravidade. ■ Terapia usada: medicações, tipo de insulina, doses e horários.
■ Características da cirurgia: quanto tempo de jejum, tipo de cirurgia (maior ou menor), horário e
duração estimada.
■ Tipo de anestesia.
A investigação laboratorial básica deve incluir pelo menos um
eletrocardiograma, função renal e hemoglobina glicada (HbA1c). Alguns
estudos sugerem que a HbA1c elevada pode predizer maior taxa de infecção
pós-operatória, infarto agudo do miocárdio e mortalidade. Maior
investigação do risco cirúrgico, inclusive testes não invasivos cardíacos,
deve ser considerada em alguns casos individuais.6
Não existem evidências suficientes para se recomendar HbA1c limite
antes de uma cirurgia eletiva.7-11 Dessa forma, os riscos associados ao
controle glicêmico ruim devem ser contrabalanceados com a necessidade do
procedimento cirúrgico. Um limite entre 8% e 9% é aceitável, dependendo
das circunstâncias de cada indivíduo. Para alguns pacientes, um alvo menor
é possível, mas para aqueles com alto risco de hipoglicemia, um alvo um
pouco mais elevado pode ser apropriado.
EFEITO DA CIRURGIA NO CONTROLE GLICÊMICO
Procedimentos cirúrgicos maiores levam a estresse metabólico, com
aumento da secreção de hormônios catabólicos e inibição de hormônios
anabólicos, particularmente a insulina. A inibição inicial da secreção de
insulina é seguida por um período pós-operatório de resistência à ação da
insulina. Dessa forma, grandes cirurgias resultam em um estado de
insuficiência de insulina. A magnitude da liberação dos hormônios
contrarregulatórios varia de indivíduo para indivíduo e é influenciada pelo
tipo de anestesia (anestesia geral está associada a alterações metabólicas
maiores quando comparada à anestesia peridural), pela extensão da cirurgia
(revascularização cardiovascular por bypass resulta em maior resistência
insulínica), e por fatores pós-operatórios, como sepse, hiperalimentação e
uso de corticosteroides.
Pacientes com diabetes estão mais suscetíveis a infecção e pior controle
glicêmico no período perioperatório, o que gera um impacto significativo
no risco de infecção pós-cirúrgica.12,13
OBJETIVOS GERAIS DO CONTROLE GLICÊMICO
Os objetivos do manejo dos pacientes diabéticos no período
perioperatório são:
■ Manter o equilíbrio hidreletrolítico.
■ Prevenir a cetoacidose.
■ Evitar hiperglicemia significativa.
■ Evitar hipoglicemia.
Pacientes com DM1 apresentam deficiência profunda de secreção de
insulina, sendo suscetíveis a desenvolver cetose e acidose. Um erro comum
é conduzir esses pacientes como um paciente com DM2, que não costumam
desenvolver cetoacidose, omitindo, por exemplo, a dose de insulina de ação
prolongada quando sua glicemia não está “muito elevada”.
Hipoglicemia é outra potencial complicação do controle metabólico
ruim no perioperatório. Mesmo poucos minutos de hipoglicemia podem ser
perigosos, o que possibilita a indução de arritmias, outros eventos cardíacos
ou déficits cognitivos transitórios. Hipoglicemia e neuroglicopenia
subsequente podem ser difíceis de serem detectadas em pacientes sedados
no pós-operatório.
ALVO GLICÊMICO
A variação de alvos glicêmicos recomendados em diferentes diretrizes
se dá pela falta de evidência do quanto um controle glicêmico deve ser
rigoroso no perioperatório de pacientes diabéticos.
Em decorrência dos danos que a hiper e a hipoglicemia podem causar, é
razoável que se recomende a manutenção dos níveis glicêmicos entre 110 e
180 mg/dL.
Vale lembrar que os alvos glicêmicos devem levar em conta situações
individuais de cada paciente, como idade e comorbidades, por exemplo,
para que esses objetivos sejam seguros para cada indivíduo.
ABORDAGEM DO CONTROLE GLICÊMICO NO PERÍODO
PERIOPERATÓRIO
Idealmente todos os pacientes com diabetes mellitus devem ter suas
cirurgias no primeiro horário da manhã, para minimizar a quebra de sua
rotina de alimentação e aplicação de insulina, nos casos em que esta é
utilizada.
As recomendações são geralmente categorizadas com base em tipo de
diabetes, natureza e extensão do procedimento cirúrgico, terapia
medicamentosa prévia e o controle do estado metabólico antes da cirurgia.
Um fator importante para o sucesso de qualquer regime é a monitoração
frequente da glicemia capilar, o que permite a pronta detecção de qualquer
alteração no controle metabólico. A glicemia capilar, entretanto, é menos
confiável em pacientes hipotensos, em uso de vasopressores ou com baixa
perfusão periférica.
Diabetes mellitus tipo 2 em tratamento apenas com dieta
Geralmente não necessitam de terapia no perioperatório. Em pacientes
cuja glicemia ultrapassar o alvo estabelecido, pode ser administrada
insulina de ação rápida (Regular) ou ultrarrápida (Lispro, Asparte ou
Glulisina) subcutânea, conforme uma escala preestabelecida.
A glicemia deve ser checada antes da cirurgia e logo após a cirurgia.
Para cirurgias longas é recomendada monitoração de glicemia capilar
durante a cirurgia, a cada 1 ou 2 horas. Não é necessária a infusão de soro
glicosado, se não for administrada insulina.
Diabetes mellitus tipo 2 em tratamento com hipoglicemiantes orais
ou drogas injetáveis não insulínicas
Os pacientes devem ser orientados a manter seus hipoglicemiantes até a
manhã da cirurgia, não administrando estas drogas nesse período. As
sulfonilureias aumentam o risco de hipoglicemia, além de existir
preocupação sobre seus efeitos vasculares em pacientes com isquemia
cardíaca ou cerebral. A metformina é contraindicada em condições de risco
de hipoperfusão renal, acúmulo de lactato e hipoxemia tecidual. As
tiazolidinedionas (TZD) podem piorar retenção de líquidos e edema
periférico, o que pode precipitar a insuficiência cardíaca congestiva. Os
novos agentes, como os inibidores de DPP-4 e os análogos de GLP-1, podem alterar a motilidade gastrintestinal, piorando o estado pós-
operatório.
A maioria dos pacientes com bom controle glicêmico não necessitarão
de insulina para procedimentos cirúrgicos rápidos. Para pacientes que
desenvolverem hiperglicemia, doses suplementares de insulina de ação
rápida podem ser administradas, por via subcutânea, conforme escala
preestabelecida, baseada na glicemia capilar.
A maior parte das drogas hipoglicemiantes pode ser reiniciada após a
cirurgia, quando o paciente voltar a se alimentar, com exceção da
metformina, que deve ter sua reintrodução postergada, caso haja suspeita de
hipoperfusão renal, até a documentação de função renal adequada.6,14,15
Diabetes mellitus tipo 1 ou tipo 2 com uso de insulina
De modo geral, recomenda-se manter a alimentação e a insulinoterapia
usual no dia anterior à cirurgia. Nos pacientes com tendência a
hipoglicemia, a dose de insulina basal na noite anterior à cirurgia pode ser
diminuída em 10% a 20%. Glicemia capilar deve ser aferida antes de
dormir e, caso, esteja elevada, insulina regular ou ultrarrápida deve ser
utilizada conforme escala. Caso haja hipoglicemia, o paciente pode utilizar
glicose em gel por via oral para correção.6
Cirurgias de pequeno e médio portes
A maioria dos pacientes nesta categoria pode manter o uso de insulina
por via subcutânea. Nestes casos, a conduta em relação à insulina depende
do número de refeições a serem omitidas e do tipo de insulinoterapia em
uso. De modo geral, o esquema deve ser alterado até o momento em que a
alimentação seja restaurada.
1. Para pacientes que realizam cirurgias de pequeno porte ou médio
porte pela manhã, nas quais haverá apenas atraso do café da manhã,
recomenda-se:
■ Caso utilizem insulina Glargina ou Detemir em esquema basal-bolus ou bomba de insulina,
manter a dose de insulina basal. A dose de insulina regular ou ultrarrápida deve ser feita de
acordo com escala predeterminada até que o paciente retome a alimentação. A partir deste
momento, deve ser feita dose de bolus usual. Para pacientes com tendência a hipoglicemia ou
média de glicemias no limite inferior do alvo glicêmico no período próximo à cirurgia, é
recomendada a redução da insulina basal em 10% a 20% para evitar hipoglicemia perioperatória.
■ Caso utilizem insulina NPH, para cirurgias rápidas, pode ser feito apenas atraso na administração
de insulina, na mesma dose habitual, após o procedimento cirúrgico e retorno da alimentação.
Entretanto, para pacientes com DM1, se houver atraso no procedimento cirúrgico ou duração
mais prolongada do que a prevista do procedimento cirúrgico, a insulina NPH deve ser
administrada, visando evitar o desenvolvimento de cetoacidose diabética.
2. Para pacientes que realizam cirurgias de pequeno ou médio porte pela
manhã em que haverá omissão do café da manhã, recomenda-se:
■ Caso utilizem insulina Glargina ou Detemir em esquema basal-bolus, se as doses de insulina
basal e em bolus estiverem equilibradas (~ 50% da dose para cada) e não houver tendência a
hipoglicemia, manter a dose de insulina basal. Se houver tendência a hipoglicemia ou controle
glicêmico próximo ao limite inferior do alvo preconizado, deve-se reduzir a dose de insulina
basal em 10% a 20%. Caso a dose de basal seja significativamente mais elevada que a dose de
insulina em bolus (> 60% do total), deve-se reduzir a dose de insulina basal em cerca de 20% no
dia da cirurgia. A insulina habitualmente utilizada em bolus deve ser omitida e insulina regular ou
ultrarrápida deve aplicada apenas para correção da hiperglicemia, conforme esquema, até que a
alimentação seja reiniciada.
■ Caso utilizem insulina NPH, reduzir a dose de insulina NPH matinal em 30% a 35% (ou seja,
administrar 65% a 70% da dose matinal) e administrar insulina regular ou ultrarrápida conforme
esquema.
■ Caso utilizem insulina pré-mistura, administrar pela manhã insulina NPH na dose de 65% a 70%
da parcela correspondente à insulina de ação intermediária. Sendo assim, para pacientes em uso
de insulina 70/30, deve-se diminuir 30% a 35% da dose de insulina de ação intermediária em uso,
que corresponde a 70% da dose matinal total de insulina pré-mistura. Para pacientes em uso de
insulina pré-mistura 50/50, a parcela correspondente de insulina de ação intermediária é de 50%
da dose matinal total de insulina pré-mistura. Além disso, deve-se administrar insulina Regular
ou ultrarrápida conforme esquema, caso haja hiperglicemia.
3. Para pacientes que realizam cirurgias de pequeno porte pela manhã
em que haverá omissão de café da manhã e almoço:
■ Caso utilizem insulina Glargina, Detemir ou bomba de insulina, proceder como no item 2. ■ Caso utilizem insulina NPH, administrar pela manhã insulina NPH na dose de 30% a 35% da
habitual (ou seja, reduzir em 65% a 70% a dose habitual) e aplicar insulina de ação rápida ou
ultrarrápida conforme esquema. Pacientes com mau controle metabólico podem receber 50% da
dose habitual de insulina NPH.
■ Caso utilizem insulina pré-mistura, administrar pela manhã insulina NPH na dose de 30% a 35%
da parcela correspondente à insulina de ação intermediária. Pacientes com mau controle
metabólico podem receber 50% da parcela correspondente à insulina de ação intermediária.
4. Para pacientes que realizam cirurgias de pequeno e médio porte à
tarde ou à noite, caso utilizem insulina Glargina, Detemir ou bomba de
insulina, proceder de forma semelhante às situações anteriores. Para
pacientes que utilizem insulina NPH e permaneçam em jejum desde o
despertar, pode ser administrada a dose de 30% a 35% da dose habitual
matinal de insulina NPH, com esquema de insulina Regular ou ultrarrápida
para correção de hiperglicemia. Se o café da manhã for permitido, insulina
em bolus deve ser administrada neste horário.
O esquema de insulina Regular ou ultrarrápida para correção de
hiperglicemia no período perioperatório deve ser feito com base no fator de
sensibilidade, que é determinado pela fórmula a seguir: 1.700/dose total de
insulina. O fator de sensibilidade indica o quanto uma unidade de insulina
pode reduzir a glicemia. Sendo assim, um paciente que utilize 42 unidades
de insulina como dose total diária (incluindo insulina basal e em bolus), terá
o fator de sensibilidade de 1.700/42 = 40,4, que pode ser aproximado para
40 mg/dL. Dessa forma, cada unidade de insulina será capaz de reduzir 40
mg/dL da glicemia. Levando isto em consideração, podemos criar um
esquema que preconize 1 unidade de insulina a mais para cada faixa de
glicemia acima do alvo glicêmico estabelecido. Caso o alvo glicêmico
estabelecido para o paciente em questão seja < 140 mg/dL, pode-se
estabelecer o esquema conforme a Tabela 12.2.1.
Tabela 12.2.1 Exemplo de tabela para correção de hiperglicemia (com fator de sensibilidade de 40 mg/dL)
Glicemia Dose de insulina
< 140 mg/dL 0
140 a 179 mg/dL 1
180 a 219 mg/dL 2
220 a 259 mg/dL 3
260 a 299 mg/dL 4
≥ 300 mg/dL 5
Deve-se lembrar sempre que a administração de doses ímpares de
insulina (1, 3, 5, 7 etc.) pressupõe a utilização de canetas de insulina,
bombas de insulina ou seringas de insulina de 30 ou 50 unidades, já que nas
seringas de 100 unidades só são permitidas administrações de doses pares
(2, 4, 6, 8 etc.) de insulina (pois nestas seringas cada marcação corresponde
a duas unidades de insulina, enquanto nas seringas de 30 ou 50 unidades,
uma marcação equivale a uma unidade). Para pacientes em uso de doses
elevadas de insulina, as escalas podem ser estabelecidas apenas com doses
pares de insulina, para simplificação, levando-se em conta que geralmente
há baixo risco de hipoglicemia nestes pacientes. Dessa forma, em um
paciente com dose total de insulina de 85 unidades ao dia, cujo fator de
sensibilidade será de 20 mg/dL, o esquema de insulina pode ser
simplificado administrando-se 2 unidades para cada 40 mg/dL da glicemia
acima do alvo preconizado, conforme a Tabela 12.2.2.
Tabela 12.2.2 Exemplo de tabela para correção de hiperglicemia (com fator de sensibilidade de 20 mg/dL)
Glicemia Dose de insulina
< 140 mg/dL 0
140 a 179 mg/dL 2
180 a 219 mg/dL 4
220 a 259 mg/dL 6
260 a 299 mg/dL
8
≥ 300 mg/dL 10
A glicemia capilar, no período perioperatório, deve ser mensurada a
cada 4 a 6 horas para pacientes em uso de insulina Regular e a cada 2 a 4
horas para pacientes em uso de análogos ultrarrápidos de insulina. Caso
haja hiperglicemia mantida (> 180 mg/dL), a glicemia deve ser checada de
1/1 h, para avaliação da resposta terapêutica. Entretanto, uma nova
administração de insulina Regular ou ultrarrápida deve ser postergada em
pelo menos 2 h para análogos ultrarrápidos de insulina e 4 h para insulina
Regular, de modo geral. Nos casos de hiperglicemia sem correção, deve-se
reavaliar o esquema elaborado, aumentando-se a dose de insulina utilizada.
Caso a glicemia seja persistentemente muito elevada, sem correção
adequada mesmo após aumento da dose de insulina, considerar iniciar
infusão venosa contínua de insulina. Caso a glicemia esteja < 80 mg/dL ou
< 100 mg/dL e em declínio, iniciar 40 mL/h de soro glicosado a 5% e
repetir glicemia em 1 h, suspendendo a infusão quando a glicemia
ultrapassar este valor.
Para pacientes que estejam apenas em administração subcutânea de
insulina no período perioperatório de cirurgias de pequeno ou médio porte,
aporte venoso de glicose na forma de soro glicosado 5% (SG5%) ou 10%
geralmente não é necessário, exceto nos casos de desnutrição, catabolismo
ou tendência a hipoglicemia, geralmente na forma de 40 mL/h de SG5%.
Caso seja necessário iniciar insulina endovenosa, o aporte endovenoso de
glicose se torna indispensável.
Cirurgias de grande porte
O paciente deve ser admitido na noite anterior à cirurgia, principalmente
se o seu controle glicêmico não for satisfatório (HbA1c > 8%).
Infusão de insulina venosa é a terapia padrão para o manejo
perioperatório de indivíduos com DM, especialmente pacientes com DM1 e
DM2 em uso de insulina, que passarão por cirurgias extensas. A infusão facilita o manejo devido à meia-vida curta da insulina intravenosa (5 min a
10 min), que permite um controle mais preciso da glicemia.
As instituições de saúde ao redor do mundo contam com diferentes
alogaritmos. Esses algoritmos facilitam a comunicação entre médicos e
enfermeiros, atingem o controle da hiperglicemia de forma oportuna e
proveem uma maneira de determinar a taxa de infusão de insulina adequada
para manter os alvos glicêmicos definidos.
Duas formas de infusão de insulina têm sido usadas: combinando
insulina, glicose e potássio em uma mesma solução (solução GIK), ou
infundindo insulina em uma bomba de infusão separadamente.
A solução combinada (GIK) é iniciada em uma taxa de infusão de 100
mL/h em uma solução de 500 mL de soro glicosado a 10% + 10 mmol de
potássio + 15 unidades de insulina de ação rápida. Ajustes na dose de
insulina são feitos de 5 em 5 unidades de acordo com a glicemia capilar
monitorada pelo menos a cada 2 h. O potássio é adicionado para prevenir
hipopotassemia e deve ser monitorado a cada 6 horas. Esse tipo de infusão é
eficiente, seguro e eficaz, porém não permite um ajuste seletivo da insulina
sem trocar toda a solução. Dessa forma, a infusão separada de insulina é a
mais utilizada.
Geralmente, a infusão contínua de insulina separadamente é preparada
de forma a ficar na proporção de 1 unidade para 1 mL de soro fisiológico a
0,9%. Uma forma de calcular a dose inicial é dividindo-se o nível de
glicemia (mg/dL) por 100 (p. ex., se a glicemia inicial for 260 mg/dL, 260 ÷
100 = 2,5, então o drip deve ser iniciado a 2,5 U/h). Uma infusão inicial em
bolus é usada frequentemente quando o paciente apresenta hiperglicemia
significativa (> 200 mg/dL). A glicemia capilar deve ser monitorada de
forma horária para ajuste de infusão da insulina. Esse tipo de infusão é mais
flexível e não requer a troca de toda a solução, como a GIK. A infusão deve
ser mantida no pós-operatório até que a dieta oral seja retomada, quando o
tratamento usado previamente deve ser restabelecido.
Não se pode esquecer de prover reposição adequada de glicose ao
paciente para evitar o catabolismo, estado de cetose e hipoglicemia induzida
pela insulina. A taxa de glicose que um indivíduo adulto sem diabetes
requer para prevenir o catabolismo é de 120 g/d (ou 5 g/h). Com o jejum
pré-operatório, estresse cirúrgico e terapia de infusão contínua de insulina, a demanda calórica na maioria dos pacientes com diabetes é de 5 g a 10 g de
glicose por hora. Isso pode ser fornecido pelo soro glicosado a 5% ou 10%.
A infusão de soro glicosado a 5% a uma taxa de 100 mL/h fornece 5 g/h de
glicose. Se houver necessidade de restrição de líquidos, pode-se usar o soro
glicosado a 10%. Os fluidos contendo lactato causam exacerbação da
hiperglicemia.
PREPARO DE PACIENTES COM DIABETES MELLITUS PARA A
REALIZAÇÃO DE EXAMES COMPLEMENTARES
Para determinar a conduta a ser seguida durante a realização de exames
complementares, é necessário saber o horário em que o exame será
realizado, sua duração, qual o tempo de jejum a ser realizado e se envolve
administração de contraste. Exames complementares que envolvam um
período de jejum devem ser preferencialmente realizados no período da
manhã. Caso o procedimento seja curto e a alimentação seja reiniciada logo
a seguir, as medicações devem ser apenas atrasadas e administradas após o
exame. No caso do uso de insulina em esquema basal-bolus com análogos
de insulina (Detemir ou Glargina) ou bomba de insulina, a insulina basal
matinal pode ser administrada normalmente (devendo ser reduzida apenas
nos pacientes em uso de proporção de insulina basal significativamente
superior do que de insulina em bolus e nos pacientes com tendência a
hipoglicemia) e a insulina em bolus deve ser omitida no período
correspondente ao exame. Caso insulina NPH seja utilizada, esta pode ser
atrasada e administrada após a realização do exame. Para procedimentos
realizados à tarde, deve-se evitar jejum por mais de 4 h e os medicamentos
para o tratamento do diabetes devem ser reduzidos no período de jejum.
No caso de procedimentos mais prolongados, medicações não
insulínicas podem ser suspensas na manhã do dia da realização do exame e
reestabelecidas após retorno da alimentação. Uma exceção a esta regra é a
conduta quanto à metformina em pacientes submetidos a exames que
necessitem de contraste iodado. Nestes casos, a metformina deve ser
suspensa antes do exame e retornada 48 h após a realização do mesmo.
Uma medida de creatinina antes do retorno da metformina é preferível, para
avaliar se houve prejuízo na função renal após o exame. A conduta quanto à
administração de insulina em pacientes submetidos a exames complementares mais prolongados deve ser a mesma adotada durante a
realização de cirurgias de pequeno e médio portes. No período de jejum a
glicemia deve ser monitorada de hora em hora caso o exame seja atrasado e
o período de jejum seja mais duradouro do que o previsto. Caso haja
hipoglicemia neste período, infusão de glicose pode ser necessária.
Pacientes submetidos a colonoscopia necessitam de recomendações
especiais, pois são submetidos a preparo antes do procedimento:
■ No dia antes do procedimento, pacientes em uso de medicamentos orais para tratamento do
diabetes devem usar apenas metade da dose habitual pela manhã e suspender a administração
noturna. Pacientes em uso de agonistas do receptor GLP-1 e inibidores de DPP-4 podem receber
a dose habitual destes medicamentos. No dia do procedimento, medicamentos não insulínicos
devem ser suspensos e retornados quando a alimentação for reiniciada.
■ Para pacientes em uso de insulina, caso utilizem esquema basal-bolus com contagem de
carboidratos e análogos de insulina, manter esquema usual no dia anterior e no dia do exame.
Entretanto, indivíduos nesta categoria com tendência a hipoglicemia e/ou em uso de doses
excessivas de insulina basal (> 60% do total), bem como pacientes em uso de esquema basal-
bolus com insulina NPH devem ser orientados a diminuir a dose de insulina habitual em 10% a
20%. Nos pacientes em uso de outros esquemas de insulina, a dose de insulina deve ser reduzida
em 30% a 50% na noite anterior ao exame, dependendo do grau de controle glicêmico do
paciente e da proporção de insulina basal utilizada (quanto maior a proporção, maior a
necessidade de redução).
■ A dieta líquida deve conter alimentos contendo carboidratos, como gelatina com açúcar e sucos
de frutas. Dois copos de gelatina comum (com açúcar) ou suco nos horários das refeições e um
copo entre as refeições e ao deitar geralmente são capazes de prevenir hipoglicemia em pacientes
que utilizam insulina.14
Alguns cuidados adicionais devem ser adotados em pacientes com
diabetes submetidos a exames complementares. Para a realização de
tomografia por emissão de pósitrons (PET-scan), recomenda-se que o
paciente esteja com controle glicêmico o mais satisfatório possível, pois a
hiperglicemia aguda e o uso de insulina no momento do exame inteferem na
absorção do radioisótopo flúor-18-fluorodesoxiglicose e podem interferir no
resultado do exame.15 Pacientes em uso de bomba de infusão subcutânea de
insulina e sensores para monitoração contínua de glicose no líquido
intersticial devem retirar estes aparelhos para realização de raios X,
ressonância magnética e tomografia computadorizada, pois o forte campo
magnético pode interferir na infusão de insulina e mensuração de glicose.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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