Rotinas de Diagnóstico e Tratamento do Diabetes Mellitus
7. Quadro clínico do diabetes mellitus
Quadro clínico do diabetes mellitus
Maria Claudia Peixoto Cenci
Adolpho Milech
INTRODUÇÃO
As manifestações clínicas do diabetes mellitus são polimorfas e variam
consideravelmente de paciente para paciente. Mais amiúde, a
sintomatologia é decorrente da hiperglicemia, que pode gerar desde um
quadro insidioso e brando até um quadro agudo com aparecimento abrupto
dos sintomas, podendo culminar em descompensação metabólica aguda da
doença (cetoacidose diabética ou estado hiperglicêmico hiperosmolar).
Alguns pacientes podem permanecer assintomáticos durante meses a anos
após a instalação do diabetes, sendo o seu diagnóstico efetuado casualmente
em exame de glicemia de rotina ou consulta médica devido a uma
complicação degenerativa da doença, como neuropatia periférica,
oftalmopatia, gangrena, impotência sexual ou evento
cárdio/cerebrovascular. A expressão inicial do diabetes em alguns pacientes
pode se caracterizar por síndrome de resistência insulínica, cujo espectro
varia desde obesidade e alterações do perfil lipídico até quadros mais
extremos, nos quais podem estar presentes acantose nigricans,
hiperandrogenismo, disfunção ovariana ou lipoatrofia.
MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS DECORRENTES DE INSULINOPENIA OU
DÉFICIT NA AÇÃO DA INSULINA
Poliúria
É consequência à diurese osmótica secundária a hiperglicemia
sustentada, que resulta em perda de glicose, água livre e eletrólitos na urina.
Constitui uma das manifestações mais precoces do diabetes, e, em crianças
pequenas, a enurese noturna devido à poliúria pode sinalizar o começo da
doença.1,2 Seu início pode ser insidioso e se agrava nos períodos de maior
ingestão de carboidratos (sobretudo no diabetes mellitus tipo 2, DM2), ou
súbito, progredindo até mesmo para incontinência urinária e nictúria
importante (mais comumente no diabetes mellitus tipo 1, DM1). O volume
urinário pode alcançar 5 a 6 L/24 horas ou mais.1
Polidipsia
É causada por estímulo ao centro da sede provocado pela desidratação
hipertônica, que, por sua vez, é consequência da poliúria. Por vezes, a sede
é um sintoma bastante incômodo, e, por outras, há referência de sensação de
secura na boca nos últimos meses. Não é incomum que o paciente ingira
grandes quantidades de bebidas açucaradas para aplacar a sede, agravando o
quadro metabólico.
Polifagia
Ocorre em 1/3 dos pacientes. Sua gênese parece resultar de um distúrbio
do mecanismo regulador dos centros hipotalâmicos de fome e saciedade,
que são sensíveis à ação da insulina. A glicopenia tissular causada por
insulinopenia ou prejuízo da ação da insulina leva à liberação do centro da
fome do controle inibitório do centro da saciedade, uma vez que este último
centro é estimulado quando ocorre suprimento de glicose às suas células
glicorreceptivas, o que provoca inibição do centro da fome.2 Além disso, há
redução dos níveis circulantes de leptina em resposta à perda do efeito
trófico da insulina sobre a célula adiposa. A leptina liberada pelos
adipócitos é transportada para o sistema nervoso central (SNC) e liga-se aos
seus receptores em áreas específicas do hipotálamo, reduzindo a expressão e a liberação de peptídeos orexígenos, como o neuropeptídeo Y e o
hormônio estimulante de melanócitos α (α-MSH), com ativação do sistema
nervoso autônomo e aumento do gasto energético, além de aumento da
secreção de peptídeos anorexígenos hipotalâmicos, inclusive a pró-
opiomelanocortina (POMC) e o hormônio liberador de corticotrofina
(CRH), o que leva a redução da ingesta alimentar.3
Emagrecimento
A perda de peso a despeito da polifagia reflete o grave estado
catabólico.2 É ocasionada por aumento da lipólise, acentuado catabolismo
proteico e desidratação presentes nas fases de descompensação metabólica
aguda do diabetes, sendo bastante frequente na abertura do quadro de DM1,
quando este se apresenta subagudamente em um período de semanas. A
perda lenta e constante de peso em pacientes com DM2, com o decorrer de
meses a anos, aliada à hiperglicemia moderada e sem outra causa aparente,
é indicativa da necessidade de insulinoterapia.
Fraqueza
Constitui uma queixa comum dos pacientes a incapacidade de realizar
suas tarefas habituais devido ao cansaço fácil, causado pelo aumento do
catabolismo proteico e distúrbios eletrolíticos, sobretudo a perda de
potássio corporal total.
Parestesias
As manifestações parestésicas, tais como sensação de dormência,
formigamento e prurido nas extremidades, podem estar presentes quando do
diagnóstico de DM1, particularmente nos casos de início subagudo, ou
mesmo à época do diagnóstico de DM2. Não são frequentemente
relacionadas com complicações crônicas do diabetes, porém são usualmente
associadas à depressão e à disfunção erétil. Refletem disfunção temporária
dos nervos sensoriais periféricos e geralmente regridem após instituição de
insulinoterapia e restauração dos níveis glicêmicos próximos ao normal;
logo, sua presença sugere neurotoxicidade decorrente de hiperglicemia
sustentada.2,4
Distúrbios visuais
Turvação visual e diminuição da acuidade visual podem estar presentes
à época do diagnóstico de diabetes ou após a correção de descompensação
metabólica aguda e se devem a alterações osmóticas dos humores aquoso e
vítreo do globo ocular induzidas por oscilações da glicemia, o que leva a
desajustes da refração e da acomodação visual.
Distúrbios do aparelho geniturinário
Prurido vulvar e sintomas de vaginite são frequentemente a queixa
inicial de mulheres com DM2, sendo também comum a sua apresentação à
abertura do quadro de DM1. Tem sido postulado que aumento nos depósitos
de glicogênio vaginal ocorre nas diabéticas, que favorece a instalação de
vulvovaginite por Candida albicans e Oidium albicans.5 Seu equivalente no
homem é a balanopostite, que ocorre principalmente nos portadores de
fimose.
Diversos graus de disfunção erétil e diminuição da libido (tanto em
homens quanto em mulheres) são relatados por diabéticos quando do seu
diagnóstico. Na maioria dos casos, esses distúrbios regridem após o
controle da glicemia, ao contrário da disfunção erétil, observada nas fases
mais avançadas da doença.
MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS ASSOCIADAS À SÍNDROME DE RESISTÊNCIA
À INSULINA
Obesidade central
Os diabéticos obesos podem ter qualquer forma de distribuição de
gordura corporal; entretanto, o diabetes está relacionado, tanto em homens
quanto em mulheres, com a distribuição de gordura predominantemente na
parte superior do corpo (particularmente abdome, tórax, pescoço e face),
denominada obesidade central, visceral, centrípeta ou de padrão androide.
Tal padrão de distribuição de gordura caracteriza-se por aumento da relação
cintura/quadril, correlaciona-se principalmente à gordura visceral e se
associa a alto risco para o desenvolvimento não só de diabetes, mas também
de hipertensão arterial, doença cardiovascular e doença da vesícula biliar. Seu prognóstico é significativamente mais desfavorável que a distribuição
de gordura na parte inferior do corpo (nádegas, quadril, coxas, região
inferior do abdome), denominada obesidade ginecoide ou centrífuga.
O pré-diabetes ou diabetes mellitus manifesto, a hipertensão arterial, a
hipertrigliceridemia com colesterol de lipoproteína de alta densidade (HDL)
baixo e a hiperinsulinemia associadas à obesidade central constituem a
chamada “síndrome de resistência insulínica” ou “síndrome
plurimetabólica”, e sua presença está relacionada com maior risco de
doenças ateroscleróticas.6
Acantose nigricans
É uma lesão aveludada caracterizada por papilomatose, hiperceratose e
hiperpigmentação da epiderme, geralmente encontrada na nuca e em dobras
axilares e inguinais e ocasionalmente na fossa antecubital e no dorso das
articulações interfalangianas distais. Tem sido observada em várias
endocrinopatias e neoplasias malignas, sobretudo as de sítio primário
gastrintestinal e pulmonar, e a sua presença tipicamente indica pelo menos
grau moderado de resistência insulínica subjacente.7
Disfunção ovariana/hiperandrogenismo
Oligomenorreia e amenorreia (primária ou secundária) são
manifestações comuns em mulheres com resistência insulínica significativa,
e associam-se a aumento da produção de androgênios pelos ovários, que
leva a elevação moderada dos níveis de testosterona plasmática e graus
variados de hirsutismo, podendo ocorrer virilização nos casos mais graves,
caracterizada pela presença de alopecia temporal, desenvolvimento
muscular masculino e clitoromegalia.8
MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS DECORRENTES DAS COMPLICAÇÕES
AGUDAS DO DIABETES MELLITUS
Cetoacidose diabética
O quadro clínico clássico inclui história de poliúria, polidipsia e perda
de peso a despeito de polifagia, com evolução para vômitos, dor abdominal, desidratação e alteração do sensório. A duração dos sintomas é
relativamente curta e varia de horas a dias (mas tipicamente < 24 h),
provavelmente devido aos efeitos tóxicos da cetose e da acidose.9
Taquipneia seguida por respiração de Kussmaul e sinais de desidratação
e depleção de volume, como diminuição da elasticidade da pele, mucosas
secas, língua pregueada, hipotensão e taquicardia, são frequentemente
encontrados no exame físico. A hipotensão postural é um achado comum,
enquanto a instalação de choque é rara.10 A presença de hálito de maçã à
respiração indica acidose e, em conjunto com a respiração de Kussmaul,
torna forte a suspeita de cetoacidose diabética (CAD). Nos casos em que
não há taquipneia, a hipótese de depressão do drive respiratório devido à
acidose grave com pH < 7,1 deve ser aventada.
Alterações do nível de consciência, que varia desde torpor até o coma
(este em apenas 10% dos casos), são evidenciadas na maior parte dos
pacientes.10,11
A ocorrência de dor abdominal acompanhada por diminuição ou
ausência de peristalse é comum e leva não raramente ao falso diagnóstico
de abdome agudo. Náuseas e vômitos catalase-positivos em borra de café
podem ocorrer e devem-se à atonia gástrica associada a distensão e ruptura
dos vasos sanguíneos da mucosa gástrica.
Pacientes com hiperglicemia grave e cetoacidose podem apresentar
rubor na área malar devido à vasodilatação periférica secundária a excesso
de prostaglandinas. Outras manifestações incluem fadiga, cefaleia, cãibras
e, em raros casos, hipotermia por vasodilatação periférica que pode estar
associada à sepse, considerada fator de mau prognóstico.11,12 Dor pleurítica
de causa ainda não devidamente conhecida é relatada por alguns pacientes e
cursa com resolução total após o tratamento adequado da CAD.
A presença de sinusite aguda caracterizada por descarga nasal
sanguinolenta e mucosa nasal com áreas enegrecidas e necróticas deve
sugerir mucormicose rinocerebral, infecção fúngica de ocorrência quase
exclusiva em diabéticos, que se desenvolve rapidamente em acidóticos e é
amiúde letal. A sobrevivência depende do pronto diagnóstico e da
instituição do tratamento.
Estado hiperglicêmico hiperosmolar
Geralmente acomete adultos de meia idade e idosos e, ao contrário da
CAD, o início do estado hiperglicêmico hiperosmolar (EHH) é usualmente
insidioso. As manifestações de poliúria, polidipsia, perda de peso, fadiga,
borramento visual e cãibras desenvolvem-se progressivamente em um
período de dias a semanas. Os sinais clínicos são aqueles de desidratação,
sem acidose grave nem cetose. Com a deterioração progressiva do estado de
contração de volume, surgem hipovolemia, hipotensão, taquicardia,
hiperventilação e choque com hipoperfusão tecidual. As alterações do
status mental correlacionam-se à magnitude da hiperosmolaridade, que
variam desde desorientação leve até obnubilação e coma, mais frequente no
EHH do que na CAD.9
Um terço dos pacientes pode apresentar crise convulsiva focal ou
generalizada e muitos são diagnosticados como tendo doença intracerebral
primária. Sinais neurológicos como fasciculações, tremores, afasia,
mioclonia, anormalidades do tronco cerebral, hemiparesia, distúrbios
visuais e disfagia têm sido descritos e podem mimetizar um evento
neurológico focal como um acidente cerebrovascular, porém há resolução
rápida após a correção da condição metabólica subjacente.9,10
A ocorrência de febre é comum mesmo na ausência de infecção, que
deve ser rigorosamente excluída em todos os casos.
Sintomas gastrintestinais são menos frequentes em comparação à CAD,
e, quando presentes, devem alertar o médico para a possibilidade de doença
intra-abdominal primária, sobretudo se não houver melhora marcada dos
sintomas após o início da hidratação venosa e da insulinoterapia.9 Esteato-
hepatite não alcoólica decorrente do diabetes descompensado pode causar
dor abdominal localizada no quadrante superior direito.
MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS DECORRENTES DAS COMPLICAÇÕES
CRÔNICAS DO DIABETES MELLITUS
Manifestações oculares
O olho pode ser acometido de diversas maneiras no diabetes mellitus e
não raramente a diminuição persistente da acuidade visual, seja por catarata, glaucoma ou retinopatia, é a manifestação inicial da afecção ou
aquela que leva o paciente a procurar auxílio médico.
A hemorragia vítrea e o descolamento de retina comumente
acompanham os estágios mais avançados da retinopatia diabética, e a
presença da primeira deve ser aventada nos casos de perda súbita e indolor
da visão ou nos casos de repentina deterioração visual em um olho já
afetado por retinopatia, enquanto a segunda condição deve ser pesquisada
nos casos de perda visual precedida por escotomas cintilantes.
Pacientes que apresentam quadro de dor ocular intensa súbita, turvação
visual, fotofobia, náuseas, vômitos e hiperemia ocular devem ser avaliados
urgentemente por um oftalmologista para avaliação da presença de
glaucoma de ângulo fechado, uma vez que a ausência de tratamento
imediato pode resultar em amaurose permanente.
Mononeuropatias do III, IV e VI pares cranianos são encontradas em
associação ao diabetes, e são por vezes a primeira manifestação da doença,
que deve ser pesquisada na vigência de qualquer mononeuropatia que afete
os músculos extraoculares, mesmo nos pacientes sem história nem sintomas
de hiperglicemia. Os nervos mais frequentemente acometidos são o
abducente (VI nervo craniano) e o oculomotor (III nervo craniano); o
troclear (IV nervo craniano) é afetado menos amiúde, sendo raro o seu
acometimento isolado.12
Os pacientes com paralisia do abducente geralmente se queixam de
diplopia horizontal ou lateral e apresentam estrabismo convergente. Já o
quadro de paralisia do oculomotor é caracterizado por ptose palpebral
parcial ou completa do olho afetado, que pode mascarar uma diplopia
vertical ou horizontal, associado a estrabismo divergente. O esfíncter
pupilar é poupado na maioria (80%) dos casos de paralisia diabética do III
nervo,13 o que torna a presença de midríase elemento de grande valor no
diagnóstico diferencial com as oftalmoplegias por tumores, aneurisma ou
trauma. A paralisia isolada do troclear caracteriza-se por diplopia vertical e
impossibilidade de adução superior do globo ocular.
As oftalmoplegias diabéticas geralmente regridem espontaneamente ao
cabo de dois a seis meses, porém pode haver recorrência dos episódios de
paralisia.
MANIFESTAÇÕES DECORRENTES DE NEUROPATIA DIABÉTICA
A polineuropatia simétrica distal, em sua forma predominantemente
sensitiva, é a mais comum das neuropatias diabéticas. O acometimento é
geralmente simétrico, inicia-se nos pododáctilos e estende-se, a seguir, para
os pés, extremidades distais das pernas (padrão “em bota”) e finalmente,
para as mãos (padrão “em luva”). A manifestação clínica mais precoce é a
perda da sensibilidade vibratória seguida de hipoestesia ou anestesia
dolorosa e/ou tátil, disestesias (parestesias induzidas por contato),
parestesias e dor (descrita usualmente como sensação de “alfinetadas” ou
“queimação”) de intensidades variadas. Os sintomas tipicamente surgem ou
exacerbam-se à noite e podem gerar insônia, sendo comum a presença de
hipersensibilidade ao contato com as roupas de cama. Na maioria das vezes,
a dor melhora com a movimentação, o que ajuda no diagnóstico diferencial
com afecções isquêmicas ou osteoarticulares. Alguns pacientes referem
hiperestesia cutânea, sobretudo da região plantar. O curso clínico das
manifestações dolorosas é altamente variável, pode durar meses a anos e ser
exacerbado por doenças intercorrentes, infecções ou depressão.4
A ocorrência de sintomas motores é menos comum e, quando isolada, é
muito mais rara do que a polineuropatia sensitiva isolada. Nessa variedade,
a força muscular encontra-se diminuída, sobretudo nas porções distais dos
membros inferiores. De incidência ainda mais rara é a neuropatia motora
proximal (ou amiotrofia diabética), que acomete principalmente diabéticos
do tipo 2 na faixa etária de 50 a 70 anos. Caracteriza-se por sensação de dor
aguda ou subaguda intensa, em queimação e profunda, limitada aos
membros inferiores (sobretudo cintura pélvica e coxas) e tipicamente
assimétrica, seguida de fraqueza muscular manifestada como dificuldade
para subir escadas ou levantar-se de uma cadeira baixa. A dor tipicamente
piora à noite e ao longo do dia, e não é aliviada por repouso ou manobras
mecânicas. A fraqueza muscular tende a ocorrer dentro de várias semanas
após o início da dor. O exame físico pode evidenciar atrofia do quadríceps
(mais frequentemente envolvido), iliopsoas, glúteos e de outros
grupamentos musculares. O reflexo patelar é ausente na maioria dos casos e
alguns podem ser acompanhados de importante perda ponderal. A
recuperação é usualmente espontânea, iniciando-se dentro de 3 a 12 meses
na maioria dos casos, e a recorrência é rara.14
A radiculopatia truncal, também conhecida como neuropatia
toracoabdominal, é uma rara complicação do diabetes, geralmente acomete
diabéticos tipo 2 de meia-idade e não se associa à duração ou ao controle da
doença. Apresenta-se como dor aguda, em queimação, profunda e
assimétrica, localizada em um ou mais segmentos de dermátomo no dorso,
tórax, abdome ou na distribuição de um nervo intercostal, por vezes
associada à perda ponderal, o que pode levar à extensa investigação
infrutífera de afecções intratorácicas ou intra-abdominais, antes que o
diagnóstico seja alcançado. A resolução do quadro em geral ocorre dentro
de 1 mês a 1 ano.
A mononeuropatia é particularmente comum em diabéticos e pode
ocorrer em qualquer um dos principais nervos periféricos. Quando dois ou
mais nervos estão envolvidos simultaneamente, de maneira assimétrica, o
quadro é denominado mononeuropatia múltipla. Os sintomas são
usualmente súbitos no acometimento dos nervos radial (quadro de “mão
caída”) e peroneal (“pé caído”) e, por vezes, insidioso nas neuropatias do
mediano, ulnar e femoral superficial (neuralgia parestésica). Os nervos
cranianos mais frequentemente afetados são o II, IV e VI pares (ver seção
Manifestações oculares em Manifestações clínicas decorrentes das
complicações crônicas do diabetes mellitus, neste capítulo). Outros nervos
eventualmente envolvidos, de vinculação controversa com o diabetes, são o
facial (que gera quadro de paralisia facial periférica), o vestibulococlear
(quadro de hipoacusia e/ou vestibulopatia) e o vago (disfonia por paresia ou
paralisia das cordas vocais). Em regra, a recuperação dos nervos lesados
acontece em intervalo de 3 a 12 meses.
O diabetes mellitus constitui a causa mais comum de neuropatia
autonômica e causa uma grande variedade de sintomas concernentes às
funções cardiovasculares, gastrintestinais, geniturinárias,
termorreguladoras, sudomotoras e pupilomotoras e insensibilidade à
hipoglicemia.
A neuropatia autonômica cardiovascular caracteriza-se por taquicardia
de repouso, redução da variação da frequência cardíaca com evolução para
frequência cardíaca fixa (definida como ausência de resposta ao exercício,
estresse ou sono), diminuição da tolerância ao exercício, disfunção
ventricular esquerda, infarto do miocárdio silencioso, instabilidade peroperatória e hipotensão ortostática, esta última considerada a marca
registrada da afecção.15 Define-se hipotensão ortostática como a diminuição
da pressão arterial sistólica de 20 mmHg a 30 mmHg ou queda da pressão
arterial diastólica de 10 mmHg a 15 mmHg ou mais associada a fraqueza,
lipotimia, vertigem, borramento visual e até síncope após a mudança
postural.
Os distúrbios neurovasculares gastrintestinais são comuns e afetam
principalmente diabéticos com longo tempo de doença e controle
metabólico insatisfatório, variando de sintomas leves a doença clínica
grave.16 Podem envolver: o esôfago, levando a anormalidades motoras e
doença do refluxo gastroesofageano; o estômago, causando gastroparesis
diabeticorum, em geral assintomática, mas por vezes acompanhada de
saciedade precoce, náuseas, vômitos, dor epigástrica, desconforto
abdominal, anorexia e halitose; e o intestino (enteropatia diabética),
produzindo constipação, que nos casos graves pode ser complicada por
ulceração, perfuração e impactação fecal, ou diarreia, geralmente profusa,
líquida, tipicamente mais intensa à noite a após as refeições, que pode durar
horas ou dias, comumente alternada com constipação, associada a
desconforto abdominal e ocasionalmente acompanhada de incontinência
fecal.
Os distúrbios autonômicos do trato geniturinário caracterizam-se por:
disfunção erétil, que pode ser a manifestação mais precoce de neuropatia
autonômica diabética,17 em regra de início gradual e caráter progressivo,
associada à ausência de ereções noturnas e matinais e conservação da libido
e ejaculação, que ajuda na diferenciação com a impotência psicogênica;
ejaculação retrógrada, com a ausência de exteriorização do sêmen e
consequente infertilidade; diminuição da libido e dispareunia nas mulheres,
e bexiga neurogênica, cujos sintomas são retenção ou incontinência
urinária, jato urinário fraco, sensação de peso suprapúbico e de
esvaziamento incompleto pós-miccional da bexiga, infecções de repetição
associadas a polaciúria e disúria e aumento desproporcional do volume da
primeira micção matinal, que pode evoluir para nefropatia obstrutiva.
As anormalidades da secreção sudoral inicialmente surgem sob a forma
de perda da sudorese nos pés (distribuição “em meias”), frequentemente
acompanhada por diminuição da percepção dolorosa e outros déficit da função autonômica. Padrões menos comuns incluem perda focal da
sudorese associada à neuropatia diabética truncal, sudorese gustatória
(definida como sudorese anormal após a alimentação, sobretudo de comidas
apimentadas, que pode se manifestar na face, cabeça, no pescoço, nos
ombros e no tórax) e hiperidrose noturna. As manifestações vasomotoras
incluem principalmente vasodilatação cutânea nas extremidades e
alterações da regulação térmica.
Na lesão do sistema simpático, ocorre falência da produção dos
sintomas neurogênicos de hipoglicemia, como taquicardia, palpitações,
ansiedade, fome e cansaço, que será manifestada apenas por meio de seus
sinais neuroglicopênicos, como distúrbios comportamentais, déficits
cognitivos, síncope, convulsões e coma e que gera episódios potencialmente
graves que podem surgir subitamente e sem aviso prévio.
Finalmente, nas suas fases mais adiantadas, a neuropatia periférica pode
levar a alterações tróficas, tais como a formação de mal perfurante plantar
(também conhecido como úlcera neuropática ou trófica), lesão que se
instala nos pontos que suportam maior pressão ou atrito, como base do
hálux, cabeça dos metatarsos, porção distal do pé e calcâneo, sendo indolor
e comumente associada a infecção, parestesias ou hipoestesia do pé ou
perna acometidos a alterações articulares, como a artropatia de Charcot, que
compromete na maioria das vezes os ossos do tarso e metatarso.
MANIFESTAÇÕES DECORRENTES DA NEFROPATIA DIABÉTICA
A manifestação mais precoce da nefropatia diabética, a
microalbuminúria, não é acompanhada de sintomas clínicos.
Posteriormente, ocorre proteinúria clínica, de hábito não seletiva e não
acompanhada de hematúria, seguida de desenvolvimento de hipertensão
arterial, edema (mesmo na ausência de hipoalbuminemia), hiperlipidemia e
queda da filtração glomerular, culminando aproximadamente após 10 anos
em insuficiência renal terminal, com uremia e necessidade de diálise.
A gastroparesia diabética, que leva a náuseas e vômitos, é um
importante diagnóstico diferencial dos sintomas gastrintestinais de uremia.
Além disso, diaforese e impotência sexual são manifestações comuns de
neuropatia autonômica em pacientes urêmicos.
O diabetes mellitus também é associado à necrose papilar renal, que
tende a ocorrer em pacientes com doença de longa duração e controle
metabólico insatisfatório; geralmente afeta ambos os rins e é mais frequente
em mulheres, sobretudo naquelas que apresentam infecção urinária
recorrente ou fizeram uso abusivo de anti-inflamatórios não esteroidais.
Pode apresentar-se como quadro oligoassintomático, de curso indolente,
intercalado com episódios de infecção urinária e cólica renal ou como um
quadro de pielonefrite aguda grave, com hematúria, cólica nefrética, uremia
e eliminação de tecido necrótico, que pode resultar em sepse e prognóstico
reservado. A presença de hematúria microscópica, piúria (muito comum
mesmo na ausência de infecção), proteinúria não nefrótica e imagens
urográficas de cálices “roídos por traças” e das papilas necróticas em
“sombra de anel” torna altamente provável o diagnóstico dessa afecção.
MANIFESTAÇÕES DA MACROANGIOPATIA DIABÉTICA
A macroangiopatia diabética acomete principalmente a circulação
coronariana (leva a angina pectoris, infarto do miocárdio, angina instável),
cerebral (causa doença cerebrovascular) e das extremidades inferiores (pode
ocasionar claudicação intermitente, gangrena seca ou mista, úlceras
isquêmicas, lesão troncular aguda), mas pode acometer quaisquer outros
setores da circulação (p. ex., isquemia/trombose mesentérica).
Como resultado da percepção alterada para dor nos diabéticos, a
isquemia ou o infarto do miocárdio podem se apresentar com sintomas
leves ou inteiramente assintomáticos. De acordo com o estudo de
Framingham,18 25% dos infartos do miocárdio em diabéticos foram
silenciosos, mas sintomas leves ou atípicos referentes ao infarto não
reconhecido puderam ser observados em quase metade desses casos.19
A detecção clínica precoce do acometimento arterial pode ser efetuada
mediante o exame periódico das artérias de extremidades inferiores, aorta e
carótidas, pela palpação dos pulsos e pela ausculta dos troncos arteriais. A
redução de amplitude ou a ausência de um pulso indicam oclusão parcial ou
total do tronco arterial acima do sítio examinado, enquanto a presença de
sopros sobre o trajeto de uma artéria indica, na maioria das vezes,
suboclusão do vaso.
DOENÇA PERIODONTAL DIABÉTICA
As doenças periodontais constituem uma das complicações mais
prevalentes do diabetes e podem estar presentes tanto na abertura do quadro
quanto em associação às outras complicações crônicas da doença e mau
controle glicêmico. A causa primária da doença periodontal inflamatória
são as bactérias contidas na placa bacteriana sobre a superfície dentária. As
manifestações clínicas iniciais caracterizamse por gengivas dilatadas,
avermelhadas e de sangramento fácil, o que permite que a margem gengival
seja separada do dente, ocasionando aprofundamento do sulco gengival e
maior coleção da placa bacteriana e pode haver a formação de abscesso
dentário. Com a evolução do processo, ocorrem recessão gengival,
destruição do osso alveolar e possível perda do dente.20
MASTOPATIA DIABÉTICA
A mastopatia diabética, uma forma incomum de mastite linfocítica e
fibrose estromal, ocorre tipicamente em diabéticos tipo 1 com doença de
longa duração e pode afetar homens e mulheres. As lesões mamárias
apresentam-se como um nódulo ou massa solitária ou como nodularidade
difusa, e são mais frequentemente localizadas na região subareolar.
Recorrência é identificada em 1/3 dos casos, desenvolve-se geralmente
dentro dos primeiros 5 anos após o diagnóstico inicial e pode ser ipsilateral,
contralateral, bilateral ou múltipla. Sua patogênese não é totalmente
esclarecida; acredita-se que seja devida a uma reação autoimune induzida
pela hiperglicemia, que ocasiona expansão da matriz, acúmulo de linfócitos
e proliferação de miofibroblastos epitelioides.21
MANIFESTAÇÕES CUTÂNEAS DO DIABETES
Candidíase
As infecções causadas por Candida albicans são mais frequentemente
observadas na população diabética, principalmente nos casos de controle
metabólico ruim. Pode representar a manifestação inicial da doença ou
surgir em qualquer tempo após o diagnóstico. A candidíase pode apresentar-
se sob a forma de doença da mucosa oral (estomatite com lesões esbranquiçadas, queilite angular), paroníquia (eritema, edema e
descamação) e evoluir com destruição da lâmina ungueal, vulvovaginite
(corrimento vaginal esbranquiçado associado a prurido importante e eritema
vulvar) e balanopostite (eritema difuso ou focal da glande associado a
prurido e dor).
Infecções bacterianas
Pacientes com diabetes insatisfatoriamente controlado são mais
propensos ao aparecimento de infecções bacterianas, que nesses casos
costumam ser mais frequentes, com maior tendência à cronicidade e/ou
mais graves, o que por sua vez provoca maior dificuldade no controle
glicêmico e pode haver evolução para grave desequilíbrio metabólico. Mais
comumente, observam-se foliculites crônicas, furúnculos, abscessos e
celulites localizadas, que culminam em alguns casos com formação de
antraz ou celulites de grandes extensões.
Dermato toses
São mais prevalentes nos diabéticos e nestes tendem a apresentar caráter
crônico e recidivante. A tinea pedis interdigital é caracterizada por lesões
eritematosas, ulceradas, pruriginosas, cobertas por crostas maceradas e
fissuradas e amiúde apresentam infecção secundária, o que constitui uma
porta de entrada para infecções bacterianas. Nas formas eczematizadas, as
lesões apresentam distribuição “em mocassim”, ocupam a região plantar e
estendem-se para a face dorsal do pé até a base dos pododáctilos. A tinea
pedis de longa duração pode envolver as unhas, formando lesões amarelo-
amarronzadas espessas associadas a debris na região subungueal. Os
diabéticos com tinea corporis podem apresentar lesões extensas, que se
apresentam como grandes placas de bordas circinadas, com tendência à
liquenificação.
Ficomicoses
As mucormicoses acometem quase exclusivamente diabéticos
descompensados e são potencialmente fatais. A forma mais comum é a
rinocerebral, com formação de tecido enegrecido de aspecto necrótico e rinorreia purulenta, podendo haver rápida extensão para os seios paranasais,
palato, órbitas e cérebro, sobretudo nos acidóticos. Formas cutâneas,
torácicas e gastrintestinais também têm sido descritas.22
Eritrasma
É uma infecção superficial que geralmente acomete áreas
intertriginosas, como axilas, virilhas e espaços interdigitais. Sua presença é
comum em diabéticos mal controlados, sobretudo nos obesos com diabetes
tipo 2. As lesões têm coloração vermelho-acastanhada e são descamativas e
delgadas, podendo ser pruriginosas ou assintomáticas. As lesões
interpododáctilas costumam ser esbranquiçadas e maceradas e constituem
diagnóstico diferencial com a tinea pedis.
Otite externa maligna
Infecção necrotizante grave causada por Pseudomonas aeruginosa, que
ocorre quase exclusivamente em diabéticos. O quadro clínico inclui dor de
ouvido e na área mastoide, descarga auricular purulenta, presença de tecido
de granulação, pólipos ou exposição óssea do canal auditivo, podendo
evoluir para paralisia do VII, IX, X ou XI nervos cranianos, osteomielite da
base do crânio e meningite fatal. Mais de 1/5 dos pacientes apresenta
acometimento bilateral.23
Úlceras diabéticas
Ver seções Manifestações decorrentes de neuropatia diabética e
Manifestações da macroangiopatia diabética, anteriormente.
Neuropatia diabética
Ver seção Manifestações decorrentes de neuropatia diabética,
anteriormente.
Granuloma anular disseminado
Mais comum em mulheres diabéticas, caracteriza-se por pápulas e
placas de coloração vermelho pálido ou vivo, de configuração anular (devido à presença de depressão central), que varia, em tamanho, de
milímetros a 5 cm, disseminadas por toda a superfície corporal (mas
principalmente tronco e membros) e que apresentam desenvolvimento e
crescimento lentos. Sua resolução espontânea é menos provável que na
forma localizada de granuloma anular.22
Necrobiose lipoídica
Lesão cutânea incomum, fortemente associada ao diabetes mellitus. As
lesões típicas são placas infiltradas, ovoides, irregulares, de periferia
endurada, com limites nítidos e de coloração violácea, e uma área central
deprimida e atrófica amarelada, com superfície escamosa e
esclerodermiforme, que pode evoluir com ulceração em aproximadamente
1/3 dos casos. São geralmente múltiplas e bilaterais e ocorrem na região
pré-tibial na maioria dos casos, podendo ser observadas também nos
antebraços, dedos, face, couro cabeludo e tronco. Fazem diagnóstico
diferencial com necrobiose lipoídica, granuloma anular, sarcoidose, nódulos
reumatoides, dermopatia diabética, eritema nodoso, morfeia e dermatite por
estase.
Escleredema diabeticorum
Afeta, na maioria das vezes, homens diabéticos obesos de meia-idade,
com doença de longa duração, e que comumente exibem complicações
crônicas da doença. As lesões são caracteristicamente enduradas e
eritematosas, finamente granulares, difusas, e surgem, a princípio, na nuca,
estendendo-se para os ombros, dorso e extremidades, o que resulta em
importante limitação do movimento e diminuição da percepção à dor e ao
toque. O escleredema não responde à melhora do controle glicêmico.
Síndrome da mão rígida diabética
Diabéticos do tipo 1 mal controlados podem desenvolver pele mais
firme, cérea, em associação à limitação da mobilidade articular, resultante
da derme e do subcutâneo. Os pacientes queixam-se de rigidez, perda da
agilidade e fraqueza das mãos, cuja pele se apresenta espessa, firme e cérea,
com evidências de limitação da flexão e da extensão das pequenas articulações, predominantemente nas interfalangianas proximais e
metacarpofalangianas, e pode haver tenossinovite de repetição. Devido à
contratura dos tendões flexores, o paciente pode ser incapaz de encostar os
dedos e as regiões palmares de encontro um ao outro, como em oração,
quando solicitado, configurando o “sinal da prece”.
Xantocromia
A presença de coloração amarelo-alaranjada causada por concentração
de caroteno em áreas de estrato córneo espesso (regiões palmar e plantar,
proeminências ósseas, calosidades) e de atividade sebácea proeminente
pode ser evidenciada em até 10% dos casos de diabetes. Ao contrário da
icterícia, a esclerótica é poupada.
Xantomas
A forma papuloeruptiva ocorre quando os níveis de triglicerídeos
ultrapassam 1.000 mg/dL e caracteriza-se por lesões pequenas, amareladas,
por vezes coalescentes, que acometem mais comumente a superfície
extensora dos membros e o dorso. O controle da hipertrigliceridemia pode
resultar em desaparecimento das lesões. Os xantomas palpebrais
(xantelasmas) são pequenas placas ovaladas, amareladas, de bordas nítidas,
comuns em mulheres de meia-idade com diabetes, hiperlipoproteinemia ou
doenças hepatobiliares, e cerca de 50% dos pacientes acometidos são
normolipêmicos. Geralmente não há regressão das lesões com o controle
metabólico.
Por ria cutânea tardia
Doença hereditária caracterizada por distúrbios do metabolismo das
porfirinas, mais comum em homens, e associada ao diabetes mellitus em
25% dos casos, que pode preceder o quadro de porfiria. As lesões clássicas
incluem bolhas e vesículas tensas, que evoluem com erosões e cicatrizes
pigmentadas em áreas expostas ao sol e mais vulneráveis a traumatismos.
Hemocromatose
Diabetes mellitus é encontrado em 65% dos casos de hemocromatose,
em associação a cirrose hepática, insuficiência cardíaca e pigmentação
característica – acastanhada (bronzeada) difusa, mas, sobretudo nas áreas
expostas, acompanhada de pele mais lisa e brilhante e observada em 90%
dos pacientes com a doença.
Dermopatia diabética
Achado cutâneo muito comum no diabetes, caracteriza-se por lesões
inicialmente eritematosas, pequenas, indolores, que, após várias semanas,
progridem para placas cicatriciais, pigmentadas, acastanhadas, levemente
deprimidas, atróficas, descamativas, isoladas ou agrupadas sobre a região
pré-tibial, antebraços, pés e proeminências ósseas, de cerca de 0,5 cm a 1
cm de diâmetro. Ocorre mais amiúde em homens diabéticos com mais de 50
anos de idade e não melhora com a instituição de bom controle glicêmico.
Bulose diabética
A formação espontânea de bolhas é manifestação rara, geralmente
acometendo diabéticos com longo tempo de duração da doença e já
portadores de neuropatia e/ou retinopatia. As lesões são indolores, não
hemorrágicas, sem eritema circundante e observadas nos pés, mãos e
extremidades distais, bilateralmente, variando de tamanho, desde pequenas
vesículas até bolhas de 5 cm de diâmetro. O quadro, em geral, se resolve
espontaneamente ao longo de várias semanas.
Rubeose
O eritema facial mais acentuado nas regiões malares e acompanhado de
ardor (rubeose) pode ser um sinal precoce de diabetes e parece resultar de
diminuição da habilidade dos vasos da derme em realizar vasoconstrição.
Alguns autores defendem que pode haver melhora do quadro com a
otimização do controle glicêmico.
Vitiligo
O vitiligo é cerca de 3 a 5 vezes mais frequente na população diabética
que na população geral, iniciando-se antes dos 20 anos de idade em metade dos casos, e não está relacionado com o controle metabólico. É
caracterizado por máculas amelanocíticas que surgem tipicamente ao redor
da boca, narinas, superfície extensora das mãos, genitália, axilas, mamilos,
cotovelos e região pré-tibial, e aumenta progressivamente. Em alguns casos,
a despigmentação cutânea pode quase ser completa.
Acantose nigricans
Ver seção Manifestações clínicas associadas à síndrome de resistência
insulínica, neste capítulo.
MANIFESTAÇÕES COGNITIVAS DO DIABETES
Estudos recentes apontam que pacientes diabéticos podem apresentar
maior chance de declínio cognitivo em comparação aos não diabéticos.24,25
Indivíduos com DM1 parecem mais propensos a apresentar déficit focais ou
generalizados que envolvem a psicomotricidade, o processamento de
informações, a flexibilidade mental, a atenção e a percepção visual,
enquanto pacientes com DM2 parecem ter maior risco de apresentar déficit
de memória, redução da psicomotricidade e declínio da atividade do lobo
frontal. A sua fisiopatogenia ainda não está esclarecida, sendo importante
considerar a idade do paciente quando do diagnóstico de diabetes, o seu
controle metabólico, a presença de complicações crônicas da doença e
comorbidades associadas, como dislipidemia e hipertensão arterial. Estudos
de neuroimagem mostram algumas alterações estruturais semelhantes
àquelas encontradas no envelhecimento normal, tais como redução da
densidade da substância cinzenta, alterações na microestrutura da
substância branca e, com o decorrer do tempo, atrofia cortical e subcortical.
As principais hipóteses implicadas na sua patogenia são: hiperglicemia
prolongada, hipoglicemia de repetição, doença microvascular, resistência à
insulina, hiperfosforilação de proteína τ e deposição β-amiloide.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
1. Arduíno F. Sintomas, diagnóstico, prognóstico e mortalidade do diabetes. In: Arduíno F, editor.
Diabetes Mellitus. 3a edição. Guanabara Koogan; 1980.
2. Masharani U, Karam JH. Pancreatic hormones & diabetes mellitus. In: Greenspan FS, Gardner
DG, editors. Basic & Clinical Endocrinology. 7th edition. Lange Medical Books/McGraw-Hill;
2004.
3. Rowland NE, Morien A, Li Bai-Han. The physiology and brain mechanisms of feeding.
Nutrition. 1996; 12:626-39.
4. Callaghan BC, Cheng HT, Stables CL et al. Diabetic neuropathy: Clinical manifestations and
current treatments. Lancet Neurol. 2012; 11:521-34.
5. Rein MF, Holmes KK. Nonspecific vaginitis vulvovaginal candidiasis and trichomoniasis. Curr
Clin Topics Infect Dis. 1983; 4:281.
6. Kahn HS, Williamson DF. Abdominal obesity and mortality risk among men in nineteenth-
century North America. Int J Obes. 1994; 18:686-91.
7. Goldstein BJ. Syndromes of extreme insulin resistance. In: Kahn CR, Wein GD, editors.
Joslin’s diabetes mellitus. 13th ed. Lea & Febiger; 1994.
8. De Clue TJ, Shah SC, Marchese M et al. Insulin resistance and hyperinsulinemia induce
hyperandrogenism in a young type B insulin-resistant female. J Clin Endocrinol Metab. 1991; 72:1308-11.
9. Kitabchi AE, Umpierrez GE, Miles JM et al. Hyperglycemic crises in adult patients with
diabetes. Diabetes Care. 2009; 32:1335.
10. Rossini AA, Morders JP. Diabetic comas. In: Rippe JM, Irwin RS, Fink MP et al., editors.
Intensive Care Medicine. 3rd edition. Little Brown and Company; 1996.
11. Barone B, Rodacki M, Cenci MCP et al. Cetoacidose diabética em adultos – Atualização de
uma complicação antiga. Arq Bras Endocrinol Metab. 2007; 51:1434-47.
12. Zorrilla E, Kozak GP. Ophtalmoplegia in diabetes mellitus. Ann Intern Med. 1967; 67:968-76.
13. Goldstein JE, Cogan DG. Diabetic ophthalmoplegia with special reference to the pupil. Arch
Ophtalmol. 1960; 64:592-600.
14. Coppack SW, Watkins PJ. The natural history of diabetic femoral neuropathy. Q J Med. 1991;
79:307-13.
15. Ziegler D. Cardiovascular autonomic neuropathy: Clinical manifestations and measurement.
In: Guidelines for the diagnosis and outpatient management of diabetic peripheral neuropathy. Diabetes Reviews. 1999; 7: 342-57.
16. Feldman M, Schiller LR. Disorders of gastrointestinal motility associated with diabetes
mellitus. Ann Intern Med. 1983; 98:378-84.
17. Kolodny RC, Kahn CB, Goldstein HH et al. Sexual dysfunction in diabetic men. Diabetes.
1974; 23:306-9.
18. Margolis JR, Kannel WB, Feinleb M et al. Clinical features of unrecognized myocardial
infarction – Silent and symptomatic: Eighteen year follow-up: The Framingham Study. Am J Cardiol. 1973; 32:1-7.
19. Kanneli WB, Abott RD. Incidence and prognosis of unrecognized myocardial infarction. N
Engl J Med. 1984; 311:1144-7.
20. Oliveira CM, Paula FO, Aarestrup FM. Diabetes e doença periodontal. JBM. 2000; 78:12-8.
21. Ely KA, Tse G, Simpson JF et al. Diabetic mastopathy. Am J Clin Pathol. 2000; 113:541-5.
22. Mackool BT, Lowitt MH, Dover JS. Skin manifestations of diabetes mellitus. In: Kahn CR,
Wein GD, editors. Joslin’s diabetes mellitus. 13th edition. Lea & Febiger; 1994.
23. Zaky DA, Bentley DW, Lowyk K et al. Malignant external otitis: A severe form of otitis in
diabetic patients. Am J Med. 1976; 61:298-302.
24. Seaquist ER. The final frontier: How does diabetes affect the brain? Diabetes. 2010; 59:4-5.
25. Széman B, Nagy G, Varga T et al. Changes in cognitive function in patients with diabetes
mellitus. Orv Hetil. 2012; 153:323-9.
OceanofPDF.com