Rotinas de Diagnóstico e Tratamento do Diabetes Mellitus
11. Tratamento medicamentoso do diabetes mellitus
Tratamento medicamentoso do diabetes mellitus
11.1 Insulinas
11.2 Outros medicamentos antidiabéticos
OceanofPDF.com
Insulinas
Márcio Garrison Dytz
Olga de Castro Santos
Lenita Zajdenverg
INTRODUÇÃO
A insulina representa o agente hipoglicemiante mais potente disponível
para o tratamento das diversas formas de diabetes.1 Todos os pacientes com
DM1 necessitam de tratamento permanentemente com insulina, exceto em
alguns casos de transplante de pâncreas ou de ilhotas.2 Muitos pacientes
com DM2 precisam usar insulina ao longo do tratamento, devido à queda
progressiva da função das células β pancreáticas.3
Os médicos e seus pacientes frequentemente são resistentes em iniciar a
terapia com insulina. Muitas vezes o tratamento é postergado pela equipe de
saúde, devido a alguns inconvenientes, como: tempo para a sua prescrição
adequada, preocupação quanto à habilidade dos pacientes em manejar a
insulina, risco de hipoglicemia e ganho de peso. Os pacientes, por sua vez,
são resistentes ao uso da insulina, pois apresentam medo da injeção e da
punção digital para a automonitoração, e frequentemente associam sua
necessidade à falência no controle da doença.
Assim, essas barreiras devem ser abordadas com a finalidade de
proporcionar ao paciente todos os benefícios que a insulina oferece no controle metabólico e na qualidade de vida, por meio de um tratamento bem
tolerado e eficaz.
HISTÓRICO
O pesquisador Frederick Banting procurou o professor de Fisiologia da
Universidade de Toronto, J.J.R. Macleod, em 1921, para utilizar o seu
laboratório com a ideia de realizar um experimento: efetuar a ligadura da
artéria pancreática de cachorros, aguardar a morte celular das células
digestivas, permanecendo apenas as ilhotas pancreáticas e, por fim, isolar
um extrato das ilhotas.4-6
Inicialmente, Macleod foi cético a respeito do projeto, mas autorizou o
uso do laboratório enquanto viajou de férias para a Escócia. Banting foi
auxiliado pelo aluno de medicina Charles Best, e conseguiram isolar o
extrato das ilhotas, que eles denominaram “isletina”. Com a injeção desse
extrato, conseguiram manter a cadela pancreatectomizada, chamada de
Marjorie, viva durante vários meses.4-6
Banting e Best apresentaram os resultados do experimento após o
retorno de Macleod, que apontou falhas no método. No entanto, os
experimentos foram repetidos e confirmaram os resultados promissores
iniciais. Entretanto, a extração da isletina demandava tempo, então Banting
sugeriu o uso de pâncreas bovino fetal, o qual não apresentava glândulas
digestivas pancreáticas, apenas ilhotas, e, com isso, a extração do substrato
estudado foi acelerada.
Em dezembro de 1921, Macleod convidou o bioquímico James Collip
para purificar os extratos das ilhotas pancreáticas bovinas. Após 1 mês, a
equipe estava pronta para realizar testes clínicos.4
Em janeiro de 1922, Leonard Thompson, um paciente jovem em estado
crítico com cetoacidose diabética grave (Figura 11.1.1), recebeu a primeira
injeção de insulina. Entretanto, o extrato era tão impuro que Thompson
apresentou reações alérgicas graves e seu uso foi interrompido. Collip
trabalhou arduamente na purificação do extrato e, após 12 dias, uma
segunda dose de insulina foi aplicada em Thompson, que dessa vez não
apresentou nenhum efeito colateral e demonstrou melhora clínica
importante.4
Figura 11.1.1 Paciente com diabetes mellitus tipo 1: antes e após o uso da insulina nos
primórdios da insulinoterapia. 7
Em 1923, o Prêmio Nobel de Medicina foi concedido para Banting e
Macleod pela descoberta da insulina. Ambos dividiram os seus prêmios
com Best e Collip, respectivamente.4
USO TERAPÊUTICO DA INSULINA
Inicialmente as insulinas para uso terapêutico eram apenas de origem
animal. A insulina humana foi desenvolvida após o surgimento da
tecnologia do DNA recombinante, em 1978, e passou a ser amplamente
utilizada a partir da década de 1980, em virtude de sua menor
imunogenicidade, com menor indução de anticorpos anti-insulina e por
causar menos reação no local de aplicação que a insulina bovina (que difere
da humana em 3 aminoácidos) e a suína (que difere em 1 aminoácido).5
O objetivo do tratamento com insulina é mimetizar a secreção endógena
de insulina pela célula β pancreática e manter a glicemia ao longo do dia
dentro dos limites da normalidade.
A secreção fisiológica de insulina é estimulada por nutrientes e outros
hormônios e consiste em rápida e intensa secreção inicial (primeira fase),
seguida por secreção mais prolongada na circulação porta (segunda fase)
(Figura 11.1.2).8
Figura 11.1.2 9 Secreção bifásica da insulina pelas células β pancreáticas.
Do ponto de vista clínico, a reposição fisiológica de insulina
compreende uma insulina basal — cujo objetivo é evitar a lipólise e a
liberação de glicose no período interdigestivo —, e uma insulina prandial,
chamada bolus refeição, cujo objetivo é mimetizar a resposta endógena de
secreção de insulina à ingestão de alimentos. Além disso, doses
complementares para corrigir hiperglicemias são muitas vezes necessárias,
e chamadas de bolus de correção.
Um grande desafio nessa reposição se deve ao fato de que a injeção
subcutânea de qualquer formulação de insulina não é capaz de reproduzir
com precisão a segunda fase de secreção de insulina, cuja magnitude e
extensão dependem da interação de múltiplos fatores, como o tipo e a
quantidade de alimento, a ação de diversos secretagogos endógenos, a
velocidade de esvaziamento gástrico e a ação de hormônios
contrarreguladores.
TIPOS DE INSULINA
Existem atualmente diversos tipos de insulina disponíveis no mercado
(Tabela 11.1.1 e Figura 11.1.3). Elas podem ser conhecidas pelo tempo de ação (ultrarrápido, rápido, intermediário ou prolongado); pela sua origem
(animal, humana ou análoga) ou pelo perfil de ação (basal ou prandial).
Tabela 11.1.1 1 Características das insulinas disponíveis atualmente
Insulina Início de ação (h) Pico de ação (h) Duração (h) Comentários
NPH 1 a 3 4,0 a 10 10 a 20 Maior risco de
hipoglicemias do
que os análogos de
insulinas basais
Glargina 2 a 4 Sem pico 20 a 24 Frequentemente
utilizada em dose
única/diária
Detemir 2 Sem pico 16 a 24 1 a 2 aplicações/dia
NPH/Regular 70/30 0,5 a 1,0 3,0 a 12,0 (duplo) 10 a 16 Pré-mistura com
70% de insulina NPH
+ 30% de insulina
regular
Lispro 75/25 0,25 a 0,5 1,3 a 12,0 (duplo) 12 a 24
Lispro 50/50 0,25 a 0,5 1,0 a 12 (duplo) 12 a 24
Asparte 70/30 0,17 a 0,33 2,4 a 12 (duplo) 12 a 24
Regular 0,5 a 1,0 2,0 a 3,0 5 a 8 Mais hipoglicemias
pós-prandiais do que
os análogos
ultrarrápidos
Lispro, Asparte, 0,1 a 0,25 0,5 a 1,5 3 a 5 Aplicar próximo à
Glulisina refeição. Menos
hipoglicemia que a
insulina regular
Figura 11.1.3 Perfil de ação das insulinas.
Insulina Regular
A insulina Regular foi a primeira a ser produzida, e quando aplicada por
via subcutânea, apresenta início de ação em aproximadamente 30 min, pico
de ação em 2 h a 3 h e duração de 5 h a 8 h. Quando administrada por via
endovenosa, nos casos de descompensação aguda do DM, como na
cetoacidose e no estado hiperglicêmico hiperosmolar não cetótico, tem seu
início de ação entre 5 min e 6 min, terminando o seu efeito em torno de 15
min após o término da infusão.10 Pode ser usada no sistema de infusão
contínua de insulina (SICI), embora, nesse caso, prefira-se o uso de
análogos de insulina ultrarrápidos.11
A insulina Regular, quando injetada no tecido subcutâneo, tende a se
agregar e formar hexâmeros, em virtude da presença de átomos de zinco
que são adicionados à solução.8 Antes de serem captados pelos capilares
sanguíneos, os hexâmeros de insulina regular são clivados e convertidos em
dímeros e monômeros. Essa taxa também interfere na absorção e,
consequentemente, no pico dos níveis de insulina. Vários outros fatores
podem contribuir para a variabilidade de absorção da insulina regular: como
a dose utilizada, local e profundidade da injeção e o fluxo sanguíneo local.12
A insulina Regular, como parte do esquema intensivo do DM, deve ser
aplicada 3 vezes ao dia, cerca de 30 min antes das principais refeições (café
da manhã, almoço e jantar), para que o início de ação coincida com a
elevação da glicemia pós-prandial. Já foi demonstrado que, quando a
insulina regular é utilizada 5 min antes das refeições, a hemoglobina
glicosilada (A1c) é superior à encontrada quando aplicada 10 a 40 min
antes das refeições.2
A insulina Regular, por ter um custo mais acessível que os análagos
ultrarrápidos e, no Brasil, por ser fornecida pelo poder público, ainda é a
insulina prandial mais utilizada. Entretanto, os análogos ultrarrápidos
parecem oferecer vantagens em relação ao uso de insulina Regular,
apresentando relação favorável quanto à diminuição dos eventos
hipoglicêmicos.8,13
Insulina Neutral Protamine Hagedorn (NPH)
Em 1936, Hans Christian Hagedorn descobriu que a insulina passava a
ser absorvida de forma mais lenta no tecido subcutâneo após a adição da
protamina de peixe em suspensão com a insulina, prolongando assim seu
efeito.14
A insulina Neutral Protamine Hagedorn (NPH) costuma ser utilizada
para o tratamento da reposição da insulinemia basal no DM1 e no DM2 de
longa data. É largamente utilizada em nosso meio por apresentar boa
eficácia no tratamento do DM e baixo custo, sendo, no Brasil, fornecida
gratuitamente à população.
Com relação à farmacocinética, a insulina NPH humana tem início de
ação em 1 a 3 h, pico de ação em 4 a 10 h e duração entre 10 e 20 h, sendo
classificada como uma insulina de ação intermediária.1 A insulina NPH
deve ser agitada antes do uso a fim de tornar esta solução homogênea.15
De acordo com grandes estudos, como DCCT e EDIC,16,17 o
tratamento intensivo com múltiplas doses de insulina do DM1 diminui o
risco de complicações micro e macrovasculares.15-18 A insulina NPH pode
ser utilizada em esquemas de aplicação 3 vezes ao dia, pela manhã e
almoço (juntamente com insulina regular ou ultrarrápida) e ao deitar.19
Em pacientes com DM2 com controle glicêmico inadequado, tem-se
preconizado o uso da insulina NPH aplicada na hora de deitar, associada aos
agentes antidiabéticos orais, observando-se melhora significativa da A1c.19
Grandes estudos em DM2 (UKPDS e Kumamoto) demonstraram enorme
efeito benéfico do tratamento intensivo sobre as complicações
microvasculares (neuropatia, nefropatia e retinopatia).20,21
Análogos de insulina de ação ultrarrápida
A velocidade de absorção da insulina regular não permite a adequada
reprodução do padrão endógeno de secreção de insulina, comprometendo o
controle glicêmico pós-prandial. O seu pico de ação (2 h após injeção
subcutânea) torna necessário administrá-la pelo menos 30 min antes da
refeição, o que dificulta a adesão ao tratamento e aumenta o índice de
insatisfação do paciente. Sua ação por até 6 h a 8 h frequentemente causa
hiperinsulinemia pós-prandial e maior risco de hipoglicemia algumas horas
após a refeição, e esse risco aumenta muito à medida que se intensifica o
tratamento e os níveis de A1c se aproximam dos valores normais.13
A técnica de DNA recombinante e avanços tecnológicos mais recentes
permitiram a realização de modificações na molécula de insulina humana e
possibilitaram o desenvolvimento dos análogos de insulina humana de ação
ultrarrápida, cujo perfil de ação é capaz de reproduzir com mais precisão a
secreção fisiológica de insulina e melhorar o controle glicêmico.22
A literatura tem demonstrado que os análogos ultrarrápidos são
superiores à insulina regular no controle da hiperglicemia pós-prandial e na
redução de oscilações glicêmicas, tanto em pacientes com DM1, adultos e
crianças, como em pacientes com DM2.22
O risco de hipoglicemias, em especial os episódios noturnos, foi menor
com o uso de análogos ultrarrápidos e observa-se melhora discreta nos
níveis de A1c em comparação à insulina regular.22
Uma vantagem dos análogos ultrarrápidos é a possibilidade de
administrá-los imediatamente antes ou logo após a ingestão de alimentos,
sem comprometer o controle glicêmico global. Na prática, essa estratégia é
muito útil no tratamento de crianças pequenas cujo consumo de alimento não é totalmente previsível, permitindo o ajuste da dose de acordo com o
consumo realizado.
Insulina Lispro
A insulina Lispro foi o primeiro análogo de insulina humana aprovado
para uso clínico em 1996. Apresenta inversão nas posições dos aminoácidos
lisina (B29) e prolina (B28) da cadeia B da insulina (Figura 11.1.4).13 Essas
modificações conferem à insulina Lispro uma tendência 300 vezes menor
para formar dímeros e hexâmeros e, em decorrência disso, apresenta
absorção mais rápida para a circulação. Essa configuração molecular foi
planejada pela observação de que moléculas de insulin-like growth factor-1
(IGF-1), estruturalmente semelhantes à insulina, apresentam menor
tendência para autoassociação devido a diferenças na sequência de
aminoácidos na porção C-terminal de sua cadeia.23
Figura 11.1.4 Estrutura dos análogos de insulina de ação ultrarrápida.
A afinidade da insulina Lispro pelo receptor de insulina é semelhante à
da regular. Sua afinidade pelo receptor IGF-1 é 1,5 vez maior que a da
insulina Regular, mas apenas 0,1% da afinidade do próprio IGF-1 pelo seu
receptor. A taxa de crescimento tecidual induzida, in vitro, é semelhante
entre ambas as insulinas. Extensos estudos em animais não revelaram
nenhum outro efeito adverso adicional desse análogo em relação à insulina
regular.23
A imunogenicidade da insulina Lispro é semelhante à da insulina
Regular humana. Ambas provocam aumento temporário nos títulos de
anticorpos não específicos de reação cruzada e que não apresentam
repercussão clínica.24
Estudos clínicos têm demonstrado que a insulina Lispro é superior à
insulina Regular na redução das hiperglicemias pós-prandiais e episódios de
hipoglicemia. No entanto, pesquisas que envolvem terapia com múltiplas
doses de insulina Regular e análogos de ação ultrarrápida mostraram apenas
pequena queda da A1c em pacientes com DM1 e ausência de alteração
significativa nos níveis da A1c em DM2 ou diabetes mellitus gestacional.22
Insulina Asparte
A insulina Asparte é um análogo de insulina humana ultrarrápida que
proporciona absorção subcutânea mais rápida que a insulina Regular. Ela
foi desenvolvida mediante substituição do aminoácido prolina pelo ácido
aspártico carregado negativamente na posição 28 da cadeia B.8,13 Essa
alteração produz repulsão elétrica entre as moléculas de insulina, reduzindo
sua tendência à autoassociação. Apresenta-se na forma de hexâmeros, que
rapidamente se dissociam em dímeros ou monômeros no tecido celular
subcutâneo.
Esse análogo apresenta afinidade aos receptores de insulina, taxa de
dissociação dos receptores, ativação da tirosinoquinase, afinidade pelos
receptores de IGF-1 e tem propriedades mitogênicas e toxicofarmacológicas
semelhantes às da insulina Regular humana.25
Além disso, tem propriedades farmacocinéticas e farmacodinâmicas
semelhantes às da insulina Lispro, exceto por pequena diferença na
afinidade por receptores de IGF-1.25
Insulina Glulisina
A insulina Glulisina é um análogo de ação ultrarrápida, também obtido
por tecnologia de DNA recombinante, com perfil de ação semelhante ao das
insulinas Lispro e Asparte. A insulina Glulisina foi desenvolvida pela troca
de asparaginase por lisina na posição 3 da cadeia B e de lisina por ácido
glutâmico na posição 29 da mesma cadeia, formando a 3B-lisina-29B-ácido
glutâmico-insulina humana (Figura 11.1.5).10,24,26 Diferentemente das
insulinas Lispro e Asparte, que contêm zinco em sua formulação, a insulina
Glulisina contém polissorbato 20, que mantém rápida taxa de dissociação
em monômeros após sua injeção subcutânea.24,26
Figura 11.1.5 27 Estrutura da insulina Glulisina.
A insulina Glulisina apresenta como propriedade peculiar a capacidade
de ativar predominantemente a via de sinalização do insulin receptor
substrate-2 (IRS-2) em detrimento do IRS-1.24 Dessa forma, apesar do
potencial efeito pró-mitogênico desse análogo (pelas modificações
estruturais da insulina), os estudos têm demonstrado que a Glulisina tem um
potencial mitogênico e metabólico semelhante à insulina humana,
possivelmente pela fosforilação preferencial do IRS-2. Além disso, propõe-
se que essa propriedade de fosforilação do IRS-2 exerça um efeito
antiapoptótico na célula β pancreática, mesmo em doses terapêuticas.24
Análogos de insulina de ação prolongada
Atualmente, existem dois análogos de ação prolongada, as insulinas
Glargina e Detemir. Elas apresentam duração de até 24 h, praticamente sem
pico de ação, e simulam a secreção basal normal de insulina, o que permite
maior flexibilidade e praticidade no tratamento do diabetes.28
Insulina Glargina
A insulina Glargina é um análogo de longa duração, desenvolvido por
meio da substituição de asparagina por glicina na posição 21 da cadeia A e
adição de duas moléculas de arginina na porção aminoterminal (posição 30)
da cadeia B (Figura 11.1.6). Isto a torna solúvel em pH ácido, o que retarda
a sua absorção e prolonga sua ação em pH neutro.8
Ao ser injetada no tecido subcutâneo, forma microprecipitados amorfos,
dos quais pequenas quantidades de insulina vão sendo gradualmente
liberadas. Com isso, não apresenta pico pronunciado e fornece um nível de
insulinemia que permanece constante por cerca de 24 h, podendo ser
administrada como insulina basal 1 vez ao dia. O horário de sua
administração não tem efeito clinicamente relevante, podendo o médico
adequar a seu critério dentro da dinâmica de vida de cada paciente.8
Figura 11.1.6 14 Estrutura da insulina Glargina.
A principal vantagem da insulina Glargina em relação à insulina NPH é
a menor ocorrência de episódios de hipoglicemia, que representam um fator
limitante no tratamento e alcance das metas glicêmicas, em especial em
DM1.19,29
Na substituição da insulina NPH pela glargina, a recomendação é de que
a dose de insulina glargina prescrita inicialmente seja mantida a mesma,
caso a NPH esteja sendo utilizada em dose única e diminuída em 20%, caso
a NPH esteja sendo utilizada 2 ou mais vezes por dia.
Insulina Detemir
A insulina Detemir é um análogo de insulina com ação prolongada,
obtida por técnica de DNA recombinante com o uso do Saccharomyces
cerevisiae por meio da remoção do aminoácido treonina (posição 30 da
cadeia B) e acilação do aminoácido lisina (posição 29 da cadeia B) com um
ácido graxo mirístico de cadeia com 14 carbonos (Figura 11.1.7).13,31 O
ácido graxo liga-se reversivelmente à albumina circulante, o que confere ao
análogo lenta absorção e efeito metabólico prolongado e consistente.
Estudos de clamp euglicêmico demonstraram que a duração da insulina
Detemir é de aproximadamente 20 h podendo, em doses mais baixas, ter
declínio do seu efeito após 10 a 12h.31
Figura 11.1.7 Estrutura da insulina Detemir e da Degludec.
Dados experimentais revelaram que a insulina Detemir tem menor
afinidade com o receptor de insulina, pois apresenta potência molar de
aproximadamente 25% da insulina humana.32 Por esse motivo, ela é formulada em uma concentração molar de 4:1. Dessa forma, 1 UI de
insulina Detemir contém 4 vezes mais moléculas quando comparado com 1
UI de insulina humana, porém com potencial hipoglicemiante equivalente.
Essa concentração molar elevada associada à ligação reversível à albumina,
contribui para menor variabilidade glicêmica apresentada pela insulina
Detemir.32
Na prática clínica, a previsibilidade da insulina Detemir pode reduzir o
risco de hipoglicemias.35 E, quando comparada com as insulinas NPH e
glargina, a Detemir apresenta menor ganho de peso. Entretanto, ainda não
estão esclarecidos quais mecanismos, são responsáveis por este desfecho.1
A meta de titulação da insulina Detemir é um valor médio da glicemia
de jejum ou de antes do jantar entre 91 e 120 mg/dL. Se a meta pré-jantar
não puder ser atingida, deve-se avaliar a divisão da dose diária total de
Detemir em 2 injeções (manhã e noite), conforme as necessidades
individuais. Quando se opta pela mudança de um regime basal-bolus para
insulina Detemir, deve-se manter tanto a dose da insulina basal como da
titular. Se a dose de insulina basal anterior era aplicada 1 ou 2 ×/dia, pode-
se optar pelo uso da Detemir inicialmente apenas 1 ×/dia e, caso necessário,
titular para 2 ×/dia, de acordo com o controle glicêmico do paciente. Se a
insulina NPH era aplicada mais de 2 ×/dia, pode-se continuar com insulina
detemir 2 ×/dia.
Insulinas bifásicas
As insulinas bifásicas apresentam parte com um componente de ação
prolongada (insulina NPH, Lispro protaminada ou Asparte NPA), em
formulação combinada com componente NPL de ação rápida/ultrarrápida
(insulina regular, Lispro ou Asparte). Devem ser utilizadas por meio de
esquemas terapêuticos que incluem 2 ou 3 aplicações por dia.19,28
As insulinas bifásicas podem ser uma opção mais cômoda para
pacientes, principalmente com DM2, que apresentem controle glicêmico
estável e necessidades diárias de insulina constantes, sem necessidade de
ajustes frequentes das doses e tipos de insulina.
Também podem ser de utilidade para pacientes com dificuldades
visuais, que tenham dificuldade nos acertos das doses, bem como para pacientes idosos ou com dificuldades motoras que possam comprometer sua
capacidade de efetuar misturas corretas dos dois tipos de insulina (rápida e
intermediária).
Atualmente, no Brasil, são comercializados as seguintes insulinas
bifásicas: humana 70/30 (NPH 70%, Regular 30%), humana 50/50 (NPH
50%, Regular 50%), Lispro 75/25 (NPL 75%, Lispro 25%), Lispro 50/50
(NPL 50%, Lispro 50%) e Asparte 70/30 (Asparte protamina 70%, Asparte
30%).28
TÉCNICAS DE UTILIZAÇÃO DE INSULINA
Vários fatores podem ser responsáveis pelas flutuações glicêmicas,
aparentemente inexplicáveis, do paciente com diabetes. Entre eles: o local
de aplicação, a conservação, a presença de lipodistrofias, o transporte, a
homogenização e o tempo de uso da insulina. O uso efetivo da insulina
requer material e técnica apropriados, acompanhado de administração e
conservação adequadas.12
As insulinas apresentam sensibilidade à luz e às variações extremas de
temperatura e devem ser armazenadas sob refrigeração, em temperatura de
2°C a 8°C, sem congelar, independentemente do tipo de insulina.34 O local
ideal de armazenamento são as gavetas do refrigerador, onde a temperatura
é estável e evita o seu congelamento. Uma vantagem das canetas
descartáveis é que elas podem permanecer em temperatura ambiente
durante o seu uso, entre 2°C e 30°C, e mantidas sob refrigeração, quando
ainda estiverem fechadas. O frasco de insulina, após aberto, deve ser
utilizado no prazo de 30 dias, pois a partir daí ocorre perda da potência da
insulina.34
É recomendável retirar o frasco de insulina da geladeira momentos
antes de sua aplicação até atingir temperatura ambiente. As insulinas NPH e
as bifásicas devem ser homogeneizadas (misturadas) 20 vezes antes de cada
aplicação. As insulinas Regular e ultrarrápidas podem ser misturadas com a
insulina NPH dentro da mesma seringa.34 Deve-se evitar também a mistura
da Glargina com outros tipos de insulina, pois sua solução apresenta pH
ácido, que pode precipitar-se quando associada a outro tipo de insulina.
Todas as insulinas devem ser aplicadas em locais nos quais exista tecido
subcutâneo abundante, como abdome (distante 2 cm da área periumbilical),
flancos, região anterolateral das coxas e região posterior dos braços. A
velocidade de absorção da insulina humana é maior no abdome, seguida dos
braços, coxas e glúteos. É importante planejar o rodízio dos locais de
aplicação para evitar lipodistrofias. A aplicação de insulina em locais de
lipodistrofia está relacionada com perfil de absorção imprevisível, o que
pode contribuir ainda mais para o controle glicêmico inadequado.34
As agulhas para aplicação da insulina estão disponíveis no comprimento
de 8 mm e 12,7 mm para seringas e 4 mm, 5 mm, 6 mm e 8 mm para as
canetas. A espessura da pele no local da injeção em adultos com diabetes
varia minimamente por características demográficas, inclusive o índice de
massa corporal (IMC). A espessura máxima total da epiderme é de
aproximadamente 2,4 mm, por isso, deve-se priorizar agulhas com menor
comprimento (até 6 mm), para evitar que a penetração seja intramuscular.34
As agulhas de menor comprimento (4 mm e 5 mm) dispensam o uso da
prega cutânea e devem ser aplicadas com um ângulo de 90°. Já a agulha de
6 mm a 8 mm pode ser necessária para a realização da prega cutânea
também com um ângulo de 90°. Crianças, idosos e gestantes que porventura
utilizem agulhas com 12,7 mm de comprimento devem realizar a aplicação
em um ângulo de 45° com a pele.34
Após a aplicação da insulina, deve-se contar lentamente até 10 para a
retirada da agulha, a fim de evitar perda de medicação.
O descarte das seringas e agulhas não pode ser realizado em lixo
comum. A maneira ideal de descarte é colocá-las em recipientes
industrializados apropriados. Outra alternativa para o descarte de seringas e
agulhas é colocá-las em um frasco rígido e resistente, com tampa de orifício
largo e que não rasgue.
ESQUEMAS DE INSULINA NO DM1
O objetivo do tratamento do diabetes é reduzir a hiperglicemia,
mantendo a frequência de hipoglicemias em um nível aceitável, e diminuir
a probabilidade de complicações micro e macrovasculares. A Associação
Americana de Diabetes (ADA) e a Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD) recomendam A1c < 7%, e a Associação Americana de Endocrinologia
Clínica (AACE) propõe A1c < 6,5% como meta de controle glicêmico.12,35
Idealmente, deve-se estabelecer um regime de insulina que reproduza o
mais fielmente possível a secreção endógena e que, ao mesmo tempo, seja
bem tolerado e de fácil execução pelos pacientes.
Depois de concluído o DCCT,15-18 ficou confirmado que o tratamento
com poucas verificações de glicemias e injeções de insulina não consegue
manter as glicemias pré e pós-prandiais e A1c dentro das metas
recomendadas nem mimetiza a insulinemia fisiológica. Assim, sugere-se
que o esquema intensivo de tratamento seja a principal forma terapêutica
nos indivíduos com DM1.
A dose de insulina total diária recomendada em indivíduos com DM1
recémdiagnosticados varia de 0,5 a 1,0 UI/kg/dia (Tabela 11.2.2). No
entanto, doses maiores podem ser necessárias para a recuperação do
equilíbrio metabólico. A dose de insulina depende de idade, peso corporal,
estágio puberal, duração e fase do diabetes, estado do local de aplicação,
tipo e quantidade de alimentos ingeridos, resultados de automonitoramento
e A1c, da rotina diária e de intercorrências.2,3 Nas fases iniciais quando
pode ocorrer melhora temporária da função da célula β no DM1, a dose
total de insulina diária utilizada é geralmente < 0,5 UI/kg/dia e,
posteriormente, passada essa fase, a necessidade aumenta para 0,7 a 1,0
UI/kg/dia em pré-púberes, podendo alcançar de 1,0 a 2,0 UI/kg/dia na
puberdade ou de 1,2 a 1,5 UI/kg/dia em situações de estresse (físico ou
emocional).2,3
Após o diagnóstico do DM1, geralmente nos primeiros 6 meses, pode
ocorrer um período de normalização das glicemias, conhecido como fase de
“lua de mel”, no qual se recomenda reduzir a dose de insulina total
administrada para evitar os eventos hipoglicêmicos.2
O tratamento intensivo com insulina pode ser alcançado por meio do
uso de sistemas de infusão contínua de insulina (SICI) ou múltiplas
aplicações diárias (3 ou mais aplicações de insulina ao dia). O controle
metabólico obtido com o uso do SICI é discretamente superior ao obtido
com as múltiplas doses; no entanto, ambos os métodos são adequados e
eficazes. O esquema de múltiplas aplicações ao dia pode ser obtido com a
aplicação da insulina NPH (2 a 4 ×/dia) ou insulina Glargina (1 ×/dia) ou insulina Detemir (1 ou 2 ×/dia), associada à insulina de ação rápida
(Regular) administrada meia hora antes das principais refeições ou de ação
ultrarrápida (Lispro, Asparte ou Glulisina) administrada antes das principais
refeições ou até mesmo logo após as refeições.2
No esquema intensivo, preconiza-se a divisão da dose total da insulina
NPH em 2 a 4 aplicações ao dia.
O tratamento intensivo também pode ser alcançado com a substituição
da insulina NPH pela Glargina (1 ×/dia), com redução da dose da insulina
basal em 20%, e pela Detemir, sem a necessidade de diminuir a dose, mas
pode exigir 2 aplicações ao dia. A titulação da dose de insulina ocorre a
partir da glicemia de jejum e das glicemias capilares ao longo do dia, pré e
pós-prandiais. Inicialmente, a dose da insulina NPH ao deitar é reajustada
de acordo com os resultados da glicemia de jejum e as demais doses pelos
resultados pré-prandiais subsequentes. Os ajustes da dose da insulina
Glargina ou Detemir devem ser feitos a partir do resultado da glicemia do
dejejum. O ajuste das insulinas de ação rápida ou ultrarrápida é realizado
após a obtenção do resultado da glicemia 2 h pós-prandial, considerando o
fator de sensibilidade individual e a contagem de carboidratos.12
A dose da insulina de ação rápida ou ultrarrápida é composta pelo bolus
correção e bolus refeição. O bolus correção é estimado pela glicemia capilar
do momento menos a meta glicêmica desejada (p. ex., 100 mg/dL), dividido
pelo fator de sensibilidade individual. Já o bolus refeição é obtido pela
razão insulina/carboidrato a fim de realizar a contagem de carboidratos.36
O fator de sensibilidade (FS) consiste na capacidade que 1 UI de
insulina (rápida ou ultrarrápida) tem de reduzir a glicemia plasmática em
um indivíduo. Esse fator pode ser obtido pela regra dos 1.500 (para a
insulina regular) ou 1.800 (para os análogos de ação ultrarrápida), no qual o
FS corresponde a 1.500 ou 1.800, dividido pela dose total de insulina diária
(basal e bolus).36 Por exemplo: paciente em uso de 30 UI de insulina diária
(NPH + Regular) apresenta um fator de sensibilidade igual a 50 mg/dL
(1.500 ÷ 30). Logo, nesse paciente, 1 UI de insulina é capaz de reduzir,
aproximadamente, 50 mg/dL de glicose. Essas regras são importantes para
orientar o início do tratamento e os ajustes finos são feitos posteriormente,
conforme as metas glicêmicas pós-prandiais.
A contagem de carboidratos é um método pelo qual se define a
quantidade de insulina em função da quantidade de carboidratos ingeridos
por refeição. Esse método foi uma das estratégias nutricionais adotadas no
DCCT e é fundamentado no fato de que aproximadamente 90% a 100% dos
carboidratos provenientes dos alimentos são convertidos em glicose,15 15
min a 120 min após a sua ingestão, sendo, portanto, os principais
responsáveis pelas oscilações glicêmicas pós-prandiais.
Inicia-se o processo da contagem pelo cálculo da razão
insulina/carboidrato, sendo a regra dos 500 um dos métodos para calcular
esta razão.36 Essa regra consiste em dividir 500 pela quantidade de insulina
aplicada por dia: por exemplo, se o paciente aplica 50 UI/dia (500 ÷ 50 =
10), apresenta relação de 1 UI de insulina para cada 10 g de carboidratos
ingeridos. Outro método para estimar a relação insulina/carboidrato leva em
consideração o peso corporal e, de modo geral, utiliza a relação de
aproximadamente 1 UI de insulina para cada 25 g a 30 g de carboidrato
para criança, 10 g a 20 g para adolescentes e 8 g a 15 g de carboidratos para
adultos.
Tabela 11.1.2 Sugestão de doses de insulina basal recomendadas ao diagnóstico de DM1 para adolescentes e adultos
Basal
NPH: 0,5 UI/kg/dia (3 ×/dia: 1/2 AC, 1/4 AA e 1/4 AD)
Glargina: 0,4 UI/kg/dia (1 ×/dia AC ou AD)
Detemir: 0,5 UI/kg/dia (1 ou 2 ×/dia)
AC = antes do café; AA = antes do almoço; AD = antes de deitar.
ESQUEMAS DE INSULINA NO DM2
No DM2 há perda progressiva da função das células β, portanto, muitos
pacientes acometidos por esta enfermidade, especialmente com doença de
longa duração, irão precisar de insulina. Levando em consideração que a
maioria dos pacientes com DM2 mantém alguma secreção de insulina
mesmo em estágios avançados da doença, esquemas complexos de
insulinoterapia geralmente não são necessários.37
O início da insulina em pacientes com DM2 está indicado nos casos
muito descompensados, em estado de catabolismo, quando os valores da
glicemia de jejum plasmática encontram-se acima de 250 mg/dL, níveis de
glicemias aleatórias acima de 300 mg/dL, presença de A1c acima de 10%,
presença de cetonúria ou cetonemia ou presença de sintomas (poliúria,
polidipsia, polifagia e emagrecimento).19,38
Caso a insulina seja iniciada em pacientes recém-diagnosticados, uma
vez resolvidos os sintomas e melhorada a glicotoxicidade, com maior
compensação metabólica, muitas vezes é possível reduzir a dose da insulina
ou retirá-la.37
A insulina também deve ser considerada em pacientes que estejam em
uso de um ou mais agentes hipoglicêmicos, mas falha em atingir um
controle metabólico efetivo, especialmente nos casos em que há A1c muito
elevada (> 8,5%).38
Outras situações em que a insulina pode ser necessária no DM2, ao
menos transitoriamente, são em descompensação da glicemia por doença
aguda (estresse, infecção, isquemia miocárdica etc.), cetoacidose diabética
ou estado hiperosmolar não cetótico, perda ponderal progressiva e uso de
medicação hiperglicemiante (p. ex., corticosteroide). Muitas vezes, a
insulina também está indicada no período perioperatório. A insulina é o
tratamento de escolha para o DM2 durante a gestação e também em muitos
casos de doença renal ou hepática, em que a maioria dos outros agentes
antidiabéticos é contraindicada.
INSULINOTERAPIA NO DM2
O esquema mais frequentemente recomendado para iniciar a
insulinização em um paciente com DM2 é a administração de insulina ao
deitar (bedtime).35-39 Nesse esquema, inicia-se a insulina basal (NPH, Glargina ou Detemir) na dose de 10 UI (ou 0,2 UI/kg/dia) ao deitar,
mantendo-se os hipoglicemiantes orais em uso.35-39 Em pacientes com
hiperglicemia mais grave, pode-se iniciar com doses maiores de insulina
(0,3 a 0,4 UI/kg/dia) e, se houver alto risco de hipoglicemia, como, por
exemplo, em um paciente idoso, naqueles que tenham nefropatia ou
hepatopatia, é razoável iniciar com uma dose mais baixa (0,1 UI/kg/dia).35-39
Os pacientes devem ser orientados a ajustar suas doses de insulina basal
(análogos de Glargina ou Detemir) de acordo com os valores de suas
glicemias capilares de jejum. Se estes estiverem, em 3 manhãs
consecutivas, > 100 mg/dL, a dose pode ser aumentada em 2 UI e se
estiverem > 180 mg/dL, nesse mesmo período a dose pode ser aumentada
em 4 UI29 (Tabela 11.1.3).
Tabela 11.1.3 29 Modelo de titulação da dose de insulina basal adaptado do estudo Lanmet
Dose inicial de insulina basal (bedtime): 10 UI ou 0,2 UI/kg/dia
Glicemia capilar do desjejum (mg/dL) Aumento da dose de insulina (a cada 3 dias)
100 a 180 2 UI
180 4 UI
Diminuir a dose de insulina (2 a 4 UI), caso ocorra hipoglicemia (< 70 mg/dL)
COMO INTENSIFICAR O ESQUEMA DE INSULINA
Uma estratégia para o controle da glicemia pós-prandial, nos pacientes
em que o controle glicêmico não tiver sido atingido apenas com insulina
basal, pode ser a adição de uma insulina prandial na refeição que resulte em
maior pico hiperglicêmico e/ou com maior conteúdo de carboidrato, o que é
conhecido como esquema basal-plus.35-40 Há evidências suficientes para
concluir que esse esquema pode ser útil nos casos em que haja falha da
insulinoterapia basal isolada, mas ainda não há necessidade de um esquema basal-bolus completo. O esquema basal-plus geralmente é iniciado com 4
UI de insulina rápida ou ultrarrápida, na refeição, associado a maior
hiperglicemia pós-prandial, com aumento da dose 2 ×/semana em uma
unidade até que a glicemia pós-prandial seja < 160 mg/dL (após 2 h) ou <
130 mg/dL (após 3 h).40 Subsequentemente, outras injeções de insulina
podem ser adicionadas às demais refeições, conforme haja necessidade.40
A necessidade de iniciar insulina prandial torna-se maior, se a dose
diária de insulina basal ultrapassar 0,5 UI/kg/dia, especialmente se
ultrapassar 1,0 UI/kg/.35-39 A cobertura prandial pode ser feita com análogos
de insulina de curta duração (insulina Lispro, Asparte ou Glulisina) ou com
insulina Regular, antes das refeições. Vale ressaltar que os secretagogos de
insulina (sulfonilureias ou glinidas) devem ser retirados uma vez iniciada a
insulina prandial.35-39
Quando o paciente com DM2 tem capacidade secretória pancreática de
insulina muito baixa ou mesmo inexistente, o melhor esquema de
insulinização a ser seguido é o basal-bolus, mesmo modelo de tratamento
do DM1.
TERAPIA COM SISTEMA DE INFUSÃO CONTÍNUA DE INSULINA (SICI)
O uso clínico das bombas de insulina tem sido empregado visando
atingir o controle glicêmico da forma mais confortável e fisiológica
possível. O sistema de infusão contínua de insulina (SICI) é um dispositivo
externo de alta precisão, do tamanho de um celular, que administra insulina
de forma contínua em esquema basal-bolus, utilizando os análogos
ultrarrápidos. Consiste em um reservatório de insulina conectado a um
cateter plástico e a uma cânula inserida no tecido subcutâneo, que devem
ser trocados a cada 2 a 3 dias.11
No esquema basal-bolus, a insulina ultrarrápida é liberada de forma pré-
programada, em microdoses durante 24 h como o esquema basal. Essa
programação pode ser feita de forma individualizada e personalizada em até
48 diferentes esquemas basais.11
A dose da insulina prandial deve ser composta pelo bolus refeição,
calculado pela contagem de carboidratos, e pelo bolus correção, por meio
de medições de glicemias capilares antes das refeições. A automonitoração é fundamental na terapia com SICI, direcionando os ajustes das taxas basais
e bolus.41
A decisão de iniciar o tratamento com o SICI deve ser dividida entre
médicos e pacientes, levando em consideração a preferência pessoal, o
estilo de vida, a motivação e o nível intelectual dos pacientes. Está indicado
em casos de hipoglicemias graves, hipoglicemias despercebidas, labilidade
glicêmica e gastroparesia diabética.11 Pacientes com o fenômeno do
alvorecer pronunciado também podem se beneficiar do SICI. Durante a pré-
concepção ou gravidez, mulheres com DM1 também podem beneficiar-se.
Dentre as vantagens de seu uso estão a eliminação da necessidade de
múltiplas injeções, permitir maior flexibilidade ao tratamento com ajustes
finos e, em contrapartida, apresenta como desvantagens o alto custo, as
infecções locais e o risco de cetoacidose diabética, sobretudo por obstrução
do cateter.11
COMPLICAÇÕES DO USO DE INSULINA
Hipoglicemia
A hipoglicemia é uma consequência comum à utilização das insulinas e
representa um fator limitante ao tratamento do diabetes devido ao seu alto
índice de morbidade e mortalidade.42 No estudo prospectivo DCCT, o
tratamento intensivo, com metas glicêmicas mais rígidas, embora associado
a menor ocorrência e progressão das complicações crônicas micro e
macrovasculares, aumentou 2 a 3 × o risco de hipoglicemias em indivíduos
com DM1.15-18
Pode ser causada pelo uso indevido de altas doses de insulina, pelo
aumento da utilização da glicose durante atividades físicas, pelo menor
aporte de glicose por omissão de refeições, gastroparesia e doença celíaca,
pela diminuição da produção endógena de glicose, como na ingestão de
álcool e na diminuição do clearance de insulina na falência renal.42
Os sinais e sintomas de hipoglicemia podem ser classificados como
autônomos e neuroglicopênicos. Os autônomos incluem os de origem
adrenérgica (palpitação, tremor, ansiedade) mediados por epinefrina e
norepinefrina e os de origem colinérgica (sudorese, fome e parestesia)
mediados por acetilcolina.43 Já os neuroglicopênicos (irritabilidade,
confusão mental, dificuldade de raciocínio, dislalia, visão turva, ataxia,
parestesia, cefaleia, convulsão e coma) são secundários à percepção do
sistema nervoso central da diminuição dos níveis de glicose. De acordo com
a intensidade, a hipoglicemia pode ser classificada em leve (somente sinais
e sintomas adrenérgicos), moderada (sintomas neuroglicopênicos
moderados) e grave (necessidade de auxílio de terceiros, com ou sem perda
de consciência e/ou crise convulsiva.43
Nos episódios de hipoglicemia leve e moderada pode ser orientado para
pacientes conscientes o seguinte protocolo:
■ Antecipar a refeição ou consumir um lanche, se a glicemia capilar estiver entre 50 e 70 mg/dL. ■ Ingerir líquido açucarado (aproximadamente 15 g de carboidratos de alta absorção), se a glicemia
capilar estiver < 50 mg/dL; por exemplo, meio copo (60 mL) de água com uma colher de sopa
(rasa) de açúcar, ou 1 copo (120 mL) de suco de fruta ou refrigerante comum (não dietético), ou
um sachê de glicose.
■ Repetir a glicemia capilar 10 a 15 min após a ingestão de glicose e, se continuar < 50 mg/dL,
repetir o procedimento.
Paciente inconsciente ou apresentando vômito incoercível:
■ Administrar (friccionar) glicose líquida ou mel na região interna das bochechas e na gengiva e/ou
administrar glucagon intramuscular ou subcutâneo, na dose de 0,5 mg para pacientes com peso
inferior a 25 kg e de 1,0 mg para aqueles acima de 25 kg.
■ Em caso de insucesso no tratamento domiciliar ou quando o indivíduo encontrar-se inconsciente,
encaminhar imediatamente o paciente ao hospital para administração de glicose endovenosa.
Ganho de peso
Embora o início da insulinoterapia esteja associado a ganho de peso,
este se deve, ao menos em parte, à restauração do peso perdido pela
descompensação da glicemia. Para evitar ganho excessivo de peso com o
uso de insulina, é importante enfatizar a adesão a uma dieta saudável e a
prática de atividade física. O uso de insulina Detemir é associado a ganho
de peso discretamente inferior àquele com NPH e Glargina.31 A prática
comum (e errada) de postergar o início da insulinoterapia, ao máximo, pode
favorecer o ganho de peso.
Lipodistro as
As lipodistrofias (lipoatrofia e lipo-hipertrofia) são complicações que
podem ocorrer em razão da terapia com insulina. A lipo-hipertrofia é um
efeito adverso comum, que ocorre em torno de 50% dos pacientes com
DM1 que estão em tratamento intensivo. A aplicação de insulina em áreas
que apresentam lipo-hipertrofias torna-se menos dolorosa pelo
desenvolvimento de tecido fibroso, podendo ter absorção errática e
ocasionar oscilações glicêmicas capazes de influenciar o controle
metabólico. Contudo, essas alterações podem ser evitadas ou minimizadas
com o rodízio planejado de insulina, o que possibilita, com o tempo, sua
regressão.
Já a incidência de lipoatrofia diminuiu acentuadamente em virtude da
utilização de insulinas fabricadas com elevado grau de pureza, uma vez que
esta complicação tem origem imunológica.
Insulinoterapia e câncer
O diabetes mellitus é um fator de risco bem estabelecido para diversos
tipos de neoplasias malignas, como câncer de mama, pâncreas, intestino,
fígado, rim, endométrio e linfoma não Hodgkin.1 A taxa de mortalidade no
câncer, inclusive, é maior nos pacientes que têm diabetes e nos pacientes
com DM2 em uso de insulina.
Estudos in vitro com insulina em altas doses demonstraram efeitos
mitogênicos e carcinogênicos devido à ligação com o receptor do IGF-1, o
que sugere que a hiperinsulinemia possa promover tumorigênese.
Entretanto, é desconhecido se a insulina exógena aumenta o risco de
câncer.1
Existem diversos estudos com a insulina Glargina, pois esta apresenta
afinidade 6 a 8 × maior ao receptor de IGF-1. Todavia, a insulina Glargina é
rapidamente degradada nos metabólitos M1 e M2 e o metabólito
predominante, M1, apresenta afinidade ao receptor de IGF-1 de apenas 0,4
vez quando comparado com a insulina regular.27
Estudos não revelaram evidências conclusivas quanto ao aumento do
risco de malignidade entre pacientes tratados com Glargina, ao comparar
com pacientes tratados com as demais insulinas.44
NOVAS PERSPECTIVAS
Novos análogos de insulina de curta e longa duração estão em
desenvolvimento para gerar alternativas mais fisiológicas de insulinas. A
insulina Degludec é um análogo de ação ultralonga que forma multi-
hexâmeros após a injeção subcutânea, a partir da qual monômeros de
insulina se dissociam lentamente para a circulação, o que acarreta meia-vida
de mais de 24 h.1 O análogo LY2604451 está em fase de pesquisa clínica e
trata-se da insulina Lispro “peguilada”, ou seja, ligada ao polietilenoglicol.
Este análogo tem ação prolongada e a expectativa é que seja recomendado
uso semanal para cobertura basal de insulina.
A insulina Linjeta é um análogo ultrarrápido que apresenta em sua
formulação EDTA e ácido cítrico, o que acarreta dissociação mais rápida
dos hexâmeros em monômeros. O pico de ação deste análogo foi estimado
em 33 min, 18 min mais rápido que a insulina Lispro e 33 min mais rápido
que a insulina Regular. O Linjeta tem a expectativa de reduzir os episódios
de hiperglicemia pós-prandial e de hipoglicemia pós-prandial tardia,
comuns com a insulina regular.1
A “Smart Insulin” encontra-se em fase de desenvolvimento. Trata-se de
uma estrutura polimérica que contém insulina ligada a moléculas de glicose.
Assim, após injetada, a insulina atuaria dependendo do nível circulante de
glicose. O resultado esperado é a redução do risco de hipoglicemia.
As insulinas biossimilares devem aparecer após a queda da patente dos
análogos de insulina atuais. Antes de entrarem no mercado, as insulinas
biossimilares deverão apresentar perfil farmacológico eficaz e demonstrar
ação, segurança e tolerabilidade consistentes com os análogos disponíveis
atualmente.
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