Rotinas de Diagnóstico e Tratamento do Diabetes Mellitus
15.3. Hipertensão arterial
Hipertensão arterial
Claudia Regina Lopes Cardoso
Gloria Maria Benamor Teixeira
Gil Fernando da Costa Mendes de Salles
INTRODUÇÃO
A hipertensão arterial e o diabetes mellitus tipo 2 (DM2) estão entre as
principais doenças crônicas da atualidade, em virtude da elevada
prevalência e do potencial para o desenvolvimento de doenças
cardiovasculares, as quais são as principais causas de morte no Brasil.
Atualmente, a prevalência de hipertensão arterial referida por indivíduos
acima de 20 anos de idade nas capitais brasileiras varia de 22,3% a 43,9%;
mais de 50%, entre 60 e 69 anos de idade; e de 75%, acima de 70 anos. A
elevação da pressão arterial (PA) em pacientes com DM2 tem sido
associada à hiperinsulinemia, à sobrecarga volêmica, ao aumento da
atividade simpática e a alterações do sistema renina-angiotensina. Assim
como no diabetes, a incidência da hipertensão arterial aumenta com a idade.
A hipertensão arterial sistêmica associa-se, com frequência, a alterações
estruturais e funcionais de órgãos-alvo (coração, cérebro, rins e vasos
sanguíneos). Suas principais complicações são:
■ Doença cardíaca hipertensiva, caracterizada pela presença de hipertrofia ventricular esquerda
(HVE).
■ Doença arterial coronariana.
■ Acidentes vasculares encefálicos isquêmicos e hemorrágicos. ■ Doença renal hipertensiva.
■ Doença arterial periférica.
É importante enfatizar que a hipertensão arterial, comorbidade comum
do diabetes e que afeta a maioria dos pacientes diabéticos, cuja prevalência
depende do tipo do diabetes, da idade, da presença de obesidade e da etnia,
é um dos principais fatores de risco para a ocorrência das complicações
cárdio e microvasculares. Nos pacientes com diabetes mellitus tipo 1
(DM1), a hipertensão arterial comumente acompanha a nefropatia diabética,
enquanto no DM2, a hipertensão arterial geralmente coexiste com outros
fatores de risco cardiometabólicos.
Portanto, além de elevar o risco de doenças cardiovasculares e renais na
população, a hipertensão arterial pode agravar o quadro de retinopatia e de
nefropatia diabética, que contribui para a perda da visão e para o
desenvolvimento de insuficiência renal terminal nesses pacientes.
DIAGNÓSTICO DE HIPERTENSÃO ARTERIAL
A hipertensão arterial é definida como a elevação da PA usual para
valores de pressão arterial sistólica (PAS) ≥ 140 mmHg, ou de pressão
arterial diastólica (PAD) ≥ 90 mmHg, medida pelo menos em 2 aferições
em momentos distintos. Para fins de diagnóstico, considera-se a média das
2 medidas. O conceito de PA usual é importante, pois sabe-se que a PA
pode variar com o período do dia, a atividade física, o sono e o estado
emocional. Além disso, a PA é, com frequência, mais elevada durante a
consulta médica. Assim, a hipertensão arterial não pode ser diagnosticada
com base em uma única aferição. Por outro lado, o registro da PA também
pode ser feito de forma contínua, sem a presença do médico, no domicílio e
no ambiente de trabalho do paciente. A monitoração contínua e não
invasiva da PA em regime ambulatorial permite estudar sua variabilidade e
contribui para melhorar o diagnóstico, o tratamento e a avaliação de risco
de pacientes hipertensos. Essa modalidade de registro da PA é denominada
monitoração ambulatorial da pressão arterial (MAPA). A monitoração
residencial da pressão arterial (MRPA) é outro método que pode ser utilizado no diagnóstico e manejo da hipertensão arterial, mas que não
fornece informações da variabilidade da pressão arterial ao longo das 24 h.
Medida da pressão arterial
A medida da PA deve ser feita por indivíduo treinado e deve seguir as
recomendações estabelecidas para essa aferição em não diabéticos. A
medida deve ser realizada com o paciente em posição sentada, com os pés
apoiados no chão, o braço apoiado no nível do coração, após 5 minutos de
repouso. Para diagnosticá-la, devem ser feitas 2 ou mais medidas da PA na
primeira consulta (medida casual), repetindose a aferição em consultas
posteriores. Portanto, para o diagnóstico de hipertensão arterial, valores de
PA elevada devem ser confirmados em outro dia. O tamanho do manguito
deve ser adequado para a circunferência da parte superior do braço.
Valores de pressão arterial para diagnóstico em pacientes com
diabetes
Tendo em vista o alto risco cardiovascular dos pacientes com diabetes e
o claro efeito sinérgico sobre o aumento do risco da presença concomitante
de diabetes e hipertensão, os valores de PA recomendados para o
diagnóstico de hipertensão arterial no DM são menores do que aqueles
propostos para indivíduos não diabéticos: ≥ 130 mmHg de PAS ou ≥ 80
mmHg de PAD, respeitando-se a regra de pelo menos 2 medidas em
ocasiões distintas. Entretanto, como será discutido a frente, as novas
diretrizes de 2013-2014 recomendam valores mais altos, < 140/80-85
mmHg para tratamento da hipertensão arterial em pacientes com diabetes
sendo, portanto, esses os valores também para diagnóstico.
HIPERTENSÃO ARTERIAL E MORBIMORTALIDADE
A PA aferida em consultório é a base do diagnóstico da hipertensão
arterial e tem valor prognóstico definido com relação às complicações
cardiovasculares e lesões de órgãos-alvo. Além disso, sua redução
sabidamente é capaz de prevenir a ocorrência de complicações
degenerativas crônicas do diabetes, em igualdade com o controle glicêmico
e metabólico.
MONITORAÇÃO AMBULATORIAL DA PRESSÃO ARTERIAL (MAPA)
Classi cação diagnóstica e valores de corte das pressões arteriais
A PA apresenta variação típica, ao longo do dia e da noite, que pode ser
registrada com o uso da MAPA. É usualmente 10% a 20% mais baixa
durante o sono (descenso noturno) e atinge o menor nível algumas horas
após o adormecer. O descenso é seguido pela elevação matinal, que
corresponde ao período de despertar (morning surge) e decorre da ativação
neuro-hormonal.
A MAPA registra a variação circadiana da PA e utiliza aparelhos
portáteis e automáticos que realizam medidas com intervalos de 15 min
durante o dia e de 30 min durante a noite, enquanto o paciente faz suas
tarefas cotidianas ou dorme. Os períodos de registro são divididos em
vigília e sono, de acordo com as informações fornecidas pelo paciente.
Devem ser obtidas pelo menos 16 medidas válidas no período de vigília e 8
durante o sono, para que o exame possa ser considerado adequado para a
análise. A MAPA obtém valores mais próximos da PA usual, pois diminui o
efeito do observador, que tende a aumentar a PA, além de eliminar o viés de
registro, como a preferência por números terminados em zero. A
monitoração contínua e não invasiva da PA em regime ambulatorial permite
estudar a sua variabilidade e contribui para melhorar o diagnóstico, o
tratamento e a avaliação de risco em pacientes hipertensos. Porém,
situações como distúrbios de movimento e obesidade mórbida (devido à
grande circunferência do braço) podem restringir seu uso.
Os valores da PA registrados na MAPA tendem a ser mais baixos que os
aferidos durante a consulta médica. Assim, os limites da normalidade da PA
ambulatorial são inferiores aos adotados para a medida casual e variam
conforme o período do dia. Esses limites são definidos para as médias da
PAS e da PAD de cada período (Tabela 15.3.1). Como os valores para
diagnóstico de hipertensão arterial em pacientes com diabetes são mais
baixos que em indivíduos sem diabetes, esses valores de normalidade na
MAPA, provavelmente, não se aplicam a pacientes com diabetes. Valores
para PA ambulatorial em pacientes com diabetes ainda não estão bem
estabelecidos, mas provavelmente se situam em torno de 5 mmHg a 10
mmHg mais baixos que nos indivíduos sem diabetes.
Tabela 15.3.1 Valores da normalidade da pressão arterial ambulatorial média por período em mmHg para indivíduos sem diabetes
Período PAS PAD
24 h < 130 < 80
Vigília < 135 < 85
Sono < 120 < 70
Além das PA médias nas 24 h e durante os períodos de vigília e sono, a
MAPA fornece informações adicionais de importância diagnóstica e
prognóstica; dentre elas, a variação circadiana da PA é a mais relevante. O
descenso noturno fisiológico normal da PA, denominado padrão dipper,
caracterizado por decréscimo da PA durante o sono de pelo menos 10%, e o
descenso noturno anormal da PA, denominado padrão não dipper,
caracterizado por decréscimo atenuado da PA, durante o sono, inferior a
10% dos valores médios da pressão arterial de vigília, são duas condições
com importantes implicações diagnósticas e prognósticas. Em pacientes
com diabetes, o padrão anormal não dipper se associa à presença de
neuropatia autonômica cardiovascular e de nefropatia diabética, bem como
a maior risco de morbidade e mortalidade cardiovascular. Um subgrupo
particular de pacientes que apresenta elevação da PA noturna em relação
aos seus níveis diurnos, denominados dipper reverso ou riser, é
frequentemente associado ao diabetes, especialmente com nefropatia clínica
(macroalbuminúria ou insuficiência renal), e indica pior prognóstico
cardiovascular.
A hipertensão arterial se caracteriza pela elevação simultânea da PA
casual e ambulatorial. Quando ocorre elevação isolada da primeira, o
diagnóstico é de hipertensão isolada de consultório ou hipertensão do jaleco
branco. Já na elevação da outra, o diagnóstico é de hipertensão ambulatorial
isolada ou hipertensão mascarada. A discordância entre os resultados de
ambas ocorre em pacientes hipertensos e independe do diagnóstico
concomitante de diabetes. Essas categorias distintas quanto ao controle ou
não dos níveis pressóricos medidos no consultório e na MAPA têm implicações terapêuticas específicas em pacientes com diabetes. Esses
pacientes com hipertensão isolada de consultório têm maior risco de
apresentar macroalbuminúria, retinopatia diabética, hipertrofia ventricular
esquerda e rigidez aórtica aumentada, em relação aos pacientes com PA
controlada no consultório e na MAPA. Da mesma forma, pacientes
diabéticos com hipertensão mascarada também apresentam maior risco de
desenvolver complicações degenerativas crônicas do diabetes.
Atualmente, a MAPA é recomendada em situações específicas, que
incluem a suspeita diagnóstica de hipertensão do jaleco branco ou de
hipertensão mascarada, além das avaliações de sintomas de hipotensão, da
eficácia terapêutica anti-hipertensiva e de pacientes com hipertensão arterial
resistente. Outras situações em que seu uso pode ser considerado incluem a
suspeita de disautonomia, em que pode ocorrer ausência de descenso
noturno e variabilidade aumentada da PA, além de hipotensão pós-prandial.
No entanto, é provável que essas indicações sejam ampliadas para que
identifiquemos as categorias anteriormente descritas, particularmente em
pacientes com elevado risco cardiovascular, como no diabetes. Em especial,
a hipertensão arterial resistente, definida como o não controle da PA de
consultório, apesar do uso regular de 3 medicações anti-hipertensivas,
inclusive obrigatoriamente um diurético, é frequente em pacientes com
diabetes. Esses pacientes têm hipertensão mais grave e necessitam utilizar
maior número de fármacos anti-hipertensivos para obterem controle da PA.
Por isso, o diabetes é um dos fatores de risco para desenvolvimento de
hipertensão resistente, que é uma das indicações precisas para realização de
MAPA.
Pelos motivos discutidos anteriormente, apesar de o diabetes não
constituir uma indicação clássica para a realização da MAPA, acreditamos
que esse método possa ser útil em melhorar o prognóstico e a qualidade de
vida destes pacientes e ser incluído como parte integral da abordagem
clínica ao paciente com diabetes mellitus.
MAPA e predição de risco
Tem-se demonstrado que a MAPA tem melhor valor prognóstico para a
ocorrência de eventos cardiovasculares que as medidas de consultório em
hipertensos tratados e não tratados, com e sem diabetes, mesmo após a correção para a PA casual e para outros fatores de risco. Em pacientes com
hipertensão resistente, foi demonstrado inclusive que a PA ambulatorial
elevada é preditora de morbimortalidade, enquanto a PA casual não tem
valor prognóstico.
Muitos estudos têm relatado o valor prognóstico da MAPA em relação à
medida de pressão convencional em pacientes com hipertensão arterial
sistólica (HAS) e, em menor número, no DM. A MAPA tem várias
vantagens metodológicas quando comparada à medida da pressão de
consultório: independe do operador, oferece informação de um grande
número de medidas das pressões e do seu perfil nas 24 h. Também é útil no
diagnóstico e permite avaliar a resposta à terapêutica ao longo do dia e da
noite. No entanto, seu custo é maior e os limites de diagnóstico das pressões
em populações de alto risco não estão estabelecidos. É ainda o único
método que fornece informação da variabilidade da PA ao longo de 24 h.
Estudos ressaltam a importância das medidas das pressões obtidas na
MAPA, das diferentes categorias relacionadas com o controle da PA, como
a hipertensão isolada de consultório e a hipertensão ambulatorial isolada ou
dos padrões de descenso noturno e de outros parâmetros derivados da
MAPA.
Há poucos estudos que investigaram no DM se as pressões da MAPA se
correlacionam melhor do que as pressões de consultório a dano de órgãos.
Nesses estudos, da mesma forma que em pacientes sem diabetes, as PA
obtidas na monitoração ambulatorial parecem se correlacionar melhor a
complicações degenerativas, particularmente nefropatia diabética. Pacientes
com DM e neuropatia autonômica cardiovascular apresentam pior perfil na
MAPA, com pressões ambulatoriais mais elevadas e maior prevalência de
padrão não dipper.
Os padrões de descenso noturno têm sido estudados em pacientes
hipertensos com e sem diabetes, mas os resultados ainda são controversos.
Um dos problemas que pode justificar a variabilidade desses resultados é a
baixa reprodutibilidade dos padrões de descenso. Esse fato pode estar
relacionado com grau de atividade no período de vigília e qualidade do
sono. Além disso, tem sido demonstrado que o descenso é menos comum
nos pacientes idosos, nos obesos, naqueles com diabetes, complacência
arterial ou pressões ambulatoriais mais elevadas, os quais já apresentam maior risco de complicações cardiovasculares. Também a apneia obstrutiva
do sono, comumente encontrada em pacientes obesos com DM, está
frequentemente associada ao padrão não dipper de descenso da PA.
A má reprodutibilidade do padrão não dipper é um dos problemas que
dificulta a comparação dos resultados. Um estudo demonstrou que os
pacientes com DM apresentaram menor variabilidade do padrão de
descenso e, portanto, têm registros mais confiáveis quanto ao descenso
noturno da PA.
Em pacientes hipertensos, dos quais 1/4 tinha DM, demonstrou-se que a
hipertensão noturna foi associada a maior risco de doença cardiovascular,
mas não o padrão não dipper. Também se evidenciou que a PA matutina
mais elevada e a noturna prediziam maior risco de complicações
cardiovasculares em pacientes com ou sem DM, em comparação com a
casual. No diabetes, as PAS e PAD, em particular as noturnas, parecem
preditores mais importantes de eventos cardiovasculares do que os padrões
de descenso não dipper e riser.
Em conclusão, a MAPA parece fornecer, para pacientes com diabetes,
informações prognósticas adicionais à medida convencional da PA de
consultório, particularmente as medidas noturnas e os padrões de
variabilidade circadiana desta.
OBJETIVOS TERAPÊUTICOS
O alvo terapêutico do tratamento anti-hipertensivo em pacientes com
diabetes é a obtenção do controle da PA casual medida em consultório, ou
seja, < 130/80 mmHg. Por outro lado, os níveis de corte para afirmar o
controle da PA de pacientes com DM na MAPA ainda não estão definidos.
Com base em estudos prospectivos com análise de desfechos, acredita-se
que uma PA de consultório < 140/90 mmHg corresponda aos valores de
MAPA considerados como normais em pessoas sem diabetes (PA de vigília
< 135/85 mmHg e de 24 h < 130/80 mmHg). Portanto, considerando os
valores utilizados para o diagnóstico de hipertensão arterial de 130/80
mmHg, acredita-se que as pressões do MAPA devam ser de 5 mmHg a 10
mmHg menores quando comparadas àquelas de pessoas sem diabetes, ou
seja, PA de vigília < 125/75 mmHg e de 24 h < 120/70 mmHg. Até o momento, os estudos que demonstraram benefício do controle da PA no
DM se basearam em pressões medidas em consultório. Embora todas as
diretrizes das Sociedades de Diabetes e de Hipertensão Arterial desde 2002
recomendem o alvo terapêutico para controle da hipertensão em pacientes
com diabetes em níveis de PA casual de consultório abaixo de 130/80
mmHg, não há demonstração inequívoca de que a obtenção desses valores
de PA efetivamente melhore o prognóstico cardiovascular e a incidência de
complicações microvasculares em relação a valores de controle mais
convencionais < 140/90 mmHg. O estudo ACCORD foi o único que
comparou 2 alvos pressóricos de tratamento < 130/80 mmHg, PA sistólica <
120 mmHg e PA sistólica < 140 mmHg e observou redução significativa de
risco apenas de acidente vascular encefálico, mas não de risco total de
eventos cardiovasculares ou de morte. Recentemente um subestudo do
ONTARGET também demonstrou benefício de reduções da PA < 130/80
mmHg para a ocorrência de nefropatia diabética (surgimento de
microalbuminúria ou progressão para macroalbuminúria e piora da função
renal) e para a ocorrência de acidente vascular encefálico, mas novamente
não mostrou benefício para a ocorrência de eventos coronarianos ou morte.
Por outro lado, os benefícios da redução da PA abaixo de 140/90 mmHg em
pacientes com diabetes estão bem estabelecidos, tanto para a prevenção de
doenças cardiovasculares quanto para as complicações microvasculares.
Portanto, atualmente se aceita que o alvo pressórico para tratamento deva
ser individualizado, com objetivo de atingir PA < 130/80 mmHg na maioria
dos pacientes com diabetes, mas considerando-se uma PA entre 130 a
139/80 e 85 mmHg como aceitável, principalmente nos indivíduos mais
idosos, com diabetes de longa duração ou com doenças cardiovasculares já
estabelecidas. As diretrizes mais recentes da American Diabetes
Association (ADA) e European Society of Hypertension (ESH)
recomendam alvos pressóricos mais altos, < 140/80 mmHg e < 140/85
mmHg, respectivamente.
TRATAMENTO
Em pacientes com DM e hipertensão leve (PAS = 130 a 139 mmHg ou
PAD = 80 a 89 mmHg), considerados como pré-hipertensão em pacientes
sem diabetes, uma abordagem não farmacológica pode ser tentada por um período de 3 a 6 meses, com realização de exercícios físicos regulares,
interrupção do tabagismo e medidas dietoterápicas: redução da ingestão de
sódio, perda de peso se houver sobrepeso/obesidade e redução do consumo
de álcool. Se após esse período a PA persistir > 130/80 mmHg ou se a PA
inicial já for ≥ 140/90 mmHg, o tratamento farmacológico deve ser
iniciado, concomitantemente às medidas de mudança do estilo de vida
recomendadas anteriormente. A redução em 10 mmHg da PAS demonstrou
ser eficaz na redução de eventos cardiovasculares, não só de acidente
vascular encefálico como de eventos coronarianos, independentemente do
esquema terapêutico utilizado. No entanto, estudos individuais e
metanálises sugerem que possa haver algum efeito benéfico causa-
específico de acordo com o agente hipertensivo utilizado, que independe da
PA (isto é, redução de desfecho sem diferenças nesta). Entretanto, não está
claramente demonstrado que haja vantagem específica de determinada
classe de fármacos anti-hipertensivos sobre as demais, como tratamento
inicial de hipertensão arterial na redução de desfechos cardiovasculares. Os
fármacos inibidores do sistema renina-angiotensina, os inibidores da enzima
conversora de angiotensina (IECA) e os bloqueadores dos receptores AT1
da angiotensina II (BRA) apresentam, teoricamente, vantagens únicas,
independentes do efeito na PA, em relação às outras drogas anti-
hipertensivas no DM, e foram demonstrados em alguns estudos serem
superiores, particularmente em relação aos β-bloqueadores, em reduzir a
morbidade e a mortalidade cardiovascular. Por isso, embora evidências de
vantagens específicas dos inibidores do sistema renina-angiotensina em
indivíduos com diabetes permaneçam controversas com relação a melhorar
o prognóstico cardiovascular, o alto risco cardiovascular associado e a alta
prevalência de doença cardiovascular subclínica nesses indivíduos
favorecem a recomendação do seu uso como primeira linha no tratamento
de hipertensão arterial nestes. Também os benefícios inquestionáveis dos
inibidores do sistema renina-angiotensina nos pacientes com DM e com
microalbuminúria ou insuficiência renal fornecem forte embasamento para
o uso desses agentes. O estudo ADVANCE demonstrou que o grupo que
atingiu a maior redução da PA apresentou menos desfechos micro e
macrovasculares, efeito provavelmente independente do esquema
terapêutico utilizado. Devido à importância prognóstica da PA noturna
durante o sono, pelo menos uma das medicações anti-hipertensivas deve ser administrada ao deitar. Demonstrou-se que isso melhora o prognóstico em
pacientes com diabetes. Um aspecto importante e que deve ser novamente
reafirmado é que esses pacientes têm hipertensão mais grave e necessitarão
frequentemente de tratamento com múltiplas drogas para atingir os
objetivos terapêuticos.
Esquemas terapêuticos
O tratamento anti-hipertensivo deve incluir um inibidor do sistema
renina-angiotensina, um inibidor de enzima conversora de angiotensina ou
um bloqueador do receptor de angiotensina 2. Se uma das classes não for
tolerada, usualmente os IECA pelo efeito adverso da tosse, poderá ser
substituída pela outra classe. Se necessário, para atingir as pressões-alvo,
outras classes de medicações anti-hipertensivas devem ser incluídas, como
bloqueadores de canal de cálcio, diuréticos ou β-bloqueadores. Um
diurético tiazídico pode ser incluído para atingir a pressão-alvo, como
segunda ou terceira classe de medicação, naqueles que tiverem taxa de
filtração glomerular (TFG) > 30 mL/min/1,73 m2, ou um diurético de alça
para aqueles com TFG < 30 mL/min/1,73 m2. Está indicado monitorar o
potássio sérico e a função renal nos pacientes em uso de um inibidor de
enzima conversora de angiotensina, de bloqueador do receptor de
angiotensina ou de diuréticos. Como afirmado anteriormente, a maioria dos
pacientes com DM necessitará da combinação de 2 ou mais fármacos anti-
hipertensivos para atingir os objetivos terapêuticos. Uma combinação tripla
particularmente eficaz e potente por ser sinérgica é a de inibidor do sistema
renina-angiotensina (IECA ou BRA), bloqueador de canal de cálcio di-
hidropiridínico e diurético. Os β-bloqueadores podem ser utilizados em
pacientes com diabetes, principalmente quando houver doença arterial
coronariana ou insuficiência cardíaca concomitante, com preferência para
os β-bloqueadores vasodilatadores mais modernos. Também pacientes com
taquicardia persistente (acima de 90 bpm), que frequentemente é reflexo de
disautonomia cardiovascular, podem se beneficiar do uso de β-
bloqueadores. Nos pacientes com hipertensão resistente, ou seja, com PA de
consultório ≥ 130/80 mmHg, apesar do uso regular de 3 medicamentos anti-
hipertensivos em doses ótimas, inclusive um diurético, a MAPA está
claramente indicada para avaliar o tratamento e o prognóstico. Caso a MAPA confirme o não controle da PA ambulatorial (PA de 24 ≥ 125/75
mmHg), o uso adicional de diurético antagonista da aldosterona
(espironolactona é o único disponível no Brasil, em doses de 25 a 100
mg/dia) é a medicação de escolha. Novamente, uma cuidadosa monitoração
do potássio sérico e da função renal é necessária.
Nefropatia
A nefropatia diabética ocorre em 20% a 40% dos pacientes e é,
isoladamente, a principal causa de doença renal em estágio terminal. Uma
série de intervenções foi demonstrada como capaz de reduzir o risco e de
retardar a progressão da doença renal. Não só o controle glicêmico, mas
também o controle pressórico reduz o desenvolvimento de nefropatia. Os
inibidores da enzima conversora de angiotensina retardam a progressão não
só da microalbuminúria para macroalbuminúria, como também o declínio
da função renal em pacientes com macroalbuminúria. Os bloqueadores de
receptor de angiotensina também foram eficazes em proteger do
aparecimento de microalbuminúria em pacientes com diabetes, hipertensão
arterial e normoalbuminúria. Além disso, inibidores da enzima conversora
de angiotensina diminuem os eventos cardiovasculares, fornecendo suporte
adicional para o seu uso em pacientes com diabetes e microlbuminúria, um
claro fator de risco cardiovascular. Os bloqueadores do receptor de
angiotensina também foram capazes de reduzir a progressão da doença
renal. É importante ressaltar que ambas as drogas têm efeitos benéficos na
perda da função renal, além do efeito decorrente do controle da PA. A
combinação de ambas as drogas que bloqueiam o sistema renina-
angiotensina promove redução adicional da proteinúria, mas o efeito em
longo prazo, no desfecho renal ou cardiovascular, é controverso e ainda não
foi avaliado em grandes estudos clínicos. Os bloqueadores do receptor de
angiotensina parecem ter efeito de elevação do potássio de menor
magnitude que os inibidores da enzima conversora de angiotensina.
Entretanto, a associação dos 2 eleva significativamente o risco de
hiperpotassemia. Outras medicações, como diuréticos, antagonistas de canal
de cálcio e β-bloqueadores, podem ser utilizadas em associação aos
inibidores da enzima conversora de angiotensina ou bloqueadores do
receptor de angiotensina para controle da PA. Da mesma forma, eles podem ser usados como opção terapêutica naqueles raros pacientes que não
toleram os inibidores e receptores citados.
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