Rotinas de Diagnóstico e Tratamento do Diabetes Mellitus

11.2. Outros medicamentos antidiabéticos

Outros medicamentos antidiabéticos

 

Roberta Magalhães Tarantino Mamede

Tatiana Martins Benevenuto Louro Berbara

Jacqueline Brito Pontes

Mayara Peres Barbosa

Lenita Zajdenverg

Melanie Rodacki

 

O diabetes mellitus tipo 2 (DM2) é um distúrbio metabólico que cursa com

hiperglicemia decorrente predominantemente de 2 mecanismos: resistência

à insulina e secreção deficiente de insulina. O primeiro pode ser

conceituado como dificuldade de ação periférica de insulina que,

inicialmente, pode ser compensada com aumento da secreção da mesma.

Como a insulina é uma potente inibidora da gliconeogênese hepática, a

diminuição de sua ação no fígado acarreta aumento da produção basal de

glicose, o que contribui para elevação da glicemia, especialmente a de

jejum. A secreção deficiente de insulina reflete falência progressiva de

células β pancreáticas.

No DM2 há diminuição da primeira fase de secreção de insulina.

Normalmente, a insulina é liberada em 2 fases, após estímulo com glicose,

sendo a primeira mais rápida e a segunda mais lenta, com pico de

insulinemia, respectivamente, em 15 minutos e de 50 a 60 minutos. A perda

da primeira fase de secreção de insulina cria uma distância considerável

entre a elevação pós-prandial da glicemia e a presença de insulina em sítios periféricos (tecidos muscular e adiposo), levando à hiperglicemia pós-

prandial precoce.

O objetivo do tratamento farmacológico do DM2 é atingir o controle

glicêmico satisfatório em conjunto com medidas não farmacológicas, como

perda de peso, mudanças de hábitos alimentares e aumento da atividade

física. As drogas disponíveis visam corrigir a insuficiência de insulina

(secretagogos de insulina e agentes incretinomiméticos), a resistência à

insulina (metformina e tiazolidinedionas), diminuir a absorção de glicose

(inibidores de α-glicose) ou aumentar sua excreção (inibidores do

cotransportador sódio-glicose do tipo 2 – SGLT2). Como o DM2 é um

distúrbio de fisiopatologia complexa, em que tanto a resistência à insulina

quanto a insuficiência deste hormônio estão implicados, frequentemente há

necessidade de combinação medicamentosa para que o objetivo terapêutico

seja atingido.

 

SECRETAGOGOS DE INSULINA

 

Secretagogos de insulina são drogas capazes de estimular a célula β

pancreática a aumentar a secreção de insulina, diretamente ou

potencializando resposta a estímulos como a glicose. Os representantes

desse grupo são as sulfonilureias e as glinidas.

 

Sulfonilureias (SFU)

 

As SFU foram introduzidas no tratamento do DM2 há mais de 50 anos.

São constituídas por uma estrutura comum, a sulfa, associada à ureia e

diversos radicais que conferem características específicas de cada

composto. As drogas disponíveis no mercado estão apresentadas na Tabela

11.2.1. As SFU podem ser divididas em 3 categorias, de acordo com a

época de seu desenvolvimento:

 

■ Primeira geração: clorpropamida.

■ Segunda geração: glibenclamida, glipizida e gliclazida. ■ Terceira geração: glimepirida.

 

Tabela 11.2.1 Sulfonilureias

Fármaco Comprimido Duração de Dose inicial Dose Tomada (×/d)

ação máxima

 

Clorpropamida 250 mg 24-62 h 125 a 250 500 1

 

Glibenclamida 5 mg 12-24 h 2,5 a 5 20 1 a 3

 

Gliclazida MR 30 e 60 mg 24 h 30 120 1

 

Glipizida 5 mg 6-24 h 2,5 a 5 20 1 a 3

 

Glimepirida 1,2, 3, 4 ou 6 18-24 h 1 a 2 8 1

mg

 

Mecanismo de ação

 

O mecanismo de ação das SFU sobre a célula β envolve a ligação da

droga a um receptor específico do canal de potássio dependente de

trifosfato de adenosina (ATP), o que provoca fechamento do mesmo com a

despolarização celular subsequente. A despolarização promove abertura dos

canais de cálcio voltagem-dependentes, com entrada de cálcio na célula, o

que desencadeia secreção de insulina. Não há restauração da primeira fase

de liberação, mas sim exagero da segunda fase.1

A secreção de insulina pela célula β é regulada pela concentração

extracelular de glicose. Variações da glicemia entre 54 e 180 mg/dL

provocam mudanças rápidas na relação ATP:ADP intracelular, já que um

transportador específico de glicose (GLUT-2) e a glicoquinase permitem

entrada e fosforilação imediatas de glicose, gerando glicose-6-fosfato, que

atua na conversão de ADP a ATP. A relação ATP:ADP é o provável

mecanismo sensor de glicose da célula β pancreática. Quando há elevação

da glicemia, a relação aumenta e canais de potássio ATP dependentes se

fecham, despolarizando o microambiente celular.

O canal de potássio ATP-dependente é composto de 2 subunidades: Kir

6.2, que atua como unidade formadora de poro, e SUR 1, que controla o estado de atividade do canal. A subunidade SUR 1 contém sítios para

ligação de ATP, bem como para ligação com SFU e derivados da

meglitinida. O primeiro sítio atinge equilíbrio prontamente e a ligação

estabelecida é rápida. O segundo sítio, ao contrário, atinge equilíbrio

lentamente, com ligação mais duradoura. A glimepirida, entretanto, interage

com um sítio um pouco diferente das outras SFU, com associação e

dissociação mais rápidas. O terceiro sítio, para ligação com derivados da

meglitinida, parece ser intermediário. Outros tecidos, além da célula β

pancreática, contêm canais de potássio ATP-dependentes, como miocárdio,

tecido muscular vascular e cérebro.

 

Farmacocinética

 

As SFU diferem na velocidade de absorção, distribuição e meia-vida. A

maior diferença entre eles na prática clínica está entre o tempo de duração e

a variação no potencial de hipoglicemia. A clorpropamida é a SFU

absorvida mais lentamente, seguida da glibenclamida. Gliclazida, glipizida

e glimepirida são absorvidas mais rapidamente. As SFU são metabolizadas

no fígado e excretadas pelos rins, com exceção da clorpropamida, que é

excretada praticamente inalterada por via renal. Álcool, bloqueadores H-2 e

anticoagulantes podem inibir competitivamente o metabolismo das SFU.

Por outro lado, barbitúricos e rifampicina podem aumentar o metabolismo.

Probenecida e alopurinol podem inibir a excreção das SFU. Enquanto

circulantes no organismo, as SFU permanecem ligadas à albumina. Drogas

que desloquem as SFU de seus sítios ligantes com albumina podem

interferir na sua ação, como aspirina, fibratos e trimetoprima.

A glipizida, a gliclazida e a glimepirida podem ser utilizadas em uma

tomada diária e com menor risco de hipoglicemia e ganho de peso.

 

Resultados

 

Em pacientes com 5 anos ou menos de diagnóstico de DM, a queda

esperada de glicemia de jejum (GJ) é de 60 a 70 mg/dL, em média, e da

hemoglobina glicada (HbA1c) é de 1,0% a 2,0%.2 Com o passar do tempo

sua eficácia começa a declinar. Em geral, a frequência de falência é de cerca

de 4% ao ano, de modo que, após 10 anos, aproximadamente 50% dos pacientes precisarão de insulina. Por outro lado, outros antidiabéticos

também apresentam perda de eficácia ao longo dos anos, pela perda

progressiva da função das células β que ocorre como parte da história

natural do DM2.3,4

 

Efeitos adversos

 

■ Hipoglicemia: é o efeito adverso mais comum e mais importante, sendo mais frequentemente

observado entre as drogas com maior tempo de ação hipoglicemiante, como clorpropamida e

glibenclamida. Os fatores predisponentes à hipoglicemia em pacientes que usam SFU são idade

avançada, redução ou omissão de refeição, doença renal, hepática ou cardiovascular, dose

excessiva, diarreia crônica, síndrome de má absorção, atividade física intensa, ingestão excessiva

de bebidas alcoólicas. Estudos mostram que o risco anual de desenvolvimento de hipoglicemia

que necessite de assistência de outra pessoa para o tratamento em usuários de SFU, em geral, é de

1,8% ao ano. Contudo, o risco é menor em indivíduos em uso de gliclazida e glimepirida.5-7

■ Rash cutâneo.

■ Ganho de peso: geralmente é observado nos 4 a 5 primeiros anos de tratamento. De acordo com

o UKPDS, há ganho equivalente a 7% do peso corporal inicial.

■ Retenção hídrica e hiponatremia: são efeitos adversos exclusivos da clorpropamida e se devem

à sua ação potencializadora da ação do hormônio antidiurético nos túbulos renais. Podem piorar o

controle pressórico e desencadear sintomas congestivos em pacientes com disfunção

cardiovascular. 8

■ Efeito antabuse-símile: ocorre em 10% a 15% dos pacientes que ingerem SFU (geralmente

clorpropamida) e álcool concomitantemente. Cursa com rubor facial, tonteira, taquicardia e

cefaleia. 9

■ Efeitos gastrintestinais: embora pouco frequentes, já foram relatados vômitos, náuseas e

icterícia colestática durante o uso das SFU.

■ Efeitos hematológicos: raramente há desenvolvimento de agranulocitose, anemia aplástica ou

hemolítica.

 

Desde o desenvolvimento das SFU de primeira geração existe a

preocupação de que as mesmas poderiam ter um efeito não seletivo nos

canais K+-ATP, atuando não só nos canais pancreáticos como também nos

canais presentes no miocárdio e tecido vascular. Com isso, haveria perda do

efeito isquêmico pré-condicionador, um mecanismo protetor autorregulador

no coração, e aumento do risco cardiovascular. Alguns estudos sugerem que

sulfonilureias podem estar associadas a piores resultados cardiovasculares,

especialmente após um infarto do miocárdio. Sulfonilureias mais recentes,

como a gliclazida e a glimepirida, são mais seletivas para os receptores

pancreáticos das sulfonilureias e não parecem estar associadas ao aumento da mortalidade cardiovascular em comparação com metformina ou outros

medicamentos para diabetes.

 

Contraindicações

 

■ DM tipo 1.1

■ Gestantes, amamentação.

■ DM2 em situações de estresse ou trauma (cirurgia, infecção grave).

■ História de reação alérgica a SFU ou compostos similares.

■ Doença renal avançada.

■ Doença hepática avançada.

■ Complicações hipoglicêmicas agudas.

 

Em caso de gravidez ou descompensação metabólica por cirurgia,

estresse ou infecção, deve ser feita troca temporária de SFU para insulina.

 

Derivados da metiglitinida e da fenilalanina (glinidas)

 

Os derivados da metiglitinida (repaglinida) e da fenilalanina

(nateglinida) são secretagogos de insulina de curta duração sem grupamento

sulfonilureia. A principal ação desses medicamentos é estimular a secreção

de insulina durante o período das refeições, reduzindo a hiperglicemia pós-

prandial, que é um fator de risco cardiovascular, e ainda com menor risco de

hipoglicemia pós-prandial. As drogas disponíveis no mercado são

apresentadas na Tabela 11.2.2.

 

Tabela 11.2.2 Derivados da metiglinidina

 

Fármaco Comprimido Dose inicial Dose máxima

 

Repaglinida 0,5 e 1 mg 2 mg 0,5 a 2 mg antes de cada 12 mg/dia

refeição

 

Nateglinida 120 mg 120 mg antes de cada 360 mg/dia

refeição

Farmacocinética

 

A repaglinida e a nateglinida são administradas por via oral. Têm início

de ação em 15 min a 30 min e duração de ação de 2 h a 4 h. O pico pós-

prandial de insulina é mais precoce e mais curto com a nateglinida do que

com a repaglinida. Como apresentam ação curta, devem ser administradas

antes de cada refeição. Se a refeição for omitida ou atrasada, o mesmo deve

ser feito com a medicação, o que reduz o risco de hipoglicemia em

pacientes com alimentação irregular. A dose administrada a cada refeição

pode ser calculada com base no conteúdo estimado de carboidrato da

mesma.10

A repaglinida é metabolizada pelo fígado por meio do citocromo P 450-

CYP 3A4 e pode interagir com medicamentos como cetoconazol e

eritromicina, que inibem seu metabolismo, bem como com rifampicina,

barbitúricos e carbamazepina, que aceleram seu metabolismo. Noventa

porcento da droga são excretados pela bile. Esta medicação pode ser usada

no paciente com insuficiência renal leve a moderada devido a sua

metabolização ser predominantemente hepática, devendo-se ter maior

cautela nos pacientes com hepatopatia. Apesar de não ser contraindicada em

pacientes com disfunção renal, a sua dose deve ser reduzida em pacientes

com doença hepática clinicamente significativa. A sua farmacocinética não

é modificada de forma expressiva em idosos, sendo também uma boa opção

para este grupo de pacientes.

 

Mecanismo de ação

 

Assim como as SFU, induzem fechamento dos canais de potássio ATP-

dependentes, mas se ligam a um local diferente do receptor SUR. Como

apresentam ação mais rápida do que as SFU, facilitam a primeira fase de

secreção de insulina.

 

Resultados

 

O tratamento com repaglinida em monoterapia reduz a HbA1c em 0,8%

a 1,7% e a GJ em 30 a 40 mg/dL.7 A nateglinida 320 mg/dia leva a uma

queda da HbA1c entre 0,55 e 1,04%. Estudos clínicos comparando

repaglinida e glibenclamida mostram que seus efeitos hipoglicemiantes são equivalentes, mas hipoglicemia e ganho ponderal são mais proeminentes

com a segunda. O uso da repaglinida não altera significativamente o peso

corporal. As glinidas devem ser iniciadas em doses baixas, antes das

refeições (3 vezes ao dia), e com aumento progressivo após 7 a 15 dias.11,12

 

Efeitos colaterais

 

■ Hipoglicemia: é menos frequente do que no tratamento com SFU e

geralmente é leve ou, no máximo, moderada.

■ Infecção do trato respiratório superior e rinite: foram relatados em,

respectivamente, 24% e 5% dos usuários de repaglinida, embora o

primeiro sintoma tenha sido relatado em 18% dos pacientes em uso de

placebo.

■ Tontura: 9% dos indivíduos em uso de repaglinida mencionaram

tontura, mas o sintoma também foi observado em 6% dos usuários de

placebo.

■ Aumento transitório de enzimas hepáticas.

 

DROGAS QUE ATUAM NA RESISTÊNCIA INSULÍNICA

 

Biguanidas

 

São os medicamentos orais mais antigos para o tratamento do DM. Seu

emprego foi baseado no efeito hipoglicemiante da guanidina, uma droga

que se mostrou hepatotóxica. A separação do efeito hepatotóxico do

hipoglicemiante resultou na síntese das biguanidas: fenformina e

metformina (MFM) (Tabela 11.2.3). Devido à possibilidade de precipitar

acidose láctica, a fenformina foi retirada do mercado. A MFM difere da

fenformina em alguns aspectos, que diminuem muito a chance de acidose

láctica.13 Dessa forma, permanece em comercialização, com apresentação

de acordo com a Tabela 11.2.2. A dose usual da MFM é de 500 mg, 2 vezes

ao dia, com aumento da dose a cada 2 semanas, até que o controle

satisfatório ou a dose máxima da droga sejam atingidos.

A MFM de ação estendida (XR) pode ser administrada 1 vez ao dia.

 

Tabela 11.2.3 Metformina

Fármaco Comprimido Dose inicial Dose máxima Tomada (×/dia)

 

Metformina 500, 850, 1.000 mg 500 a 1.000 mg 2.550 mg/dia 1 a 3

 

Metformina XR 500 e 750 mg 500 a 1.000 mg 2.000 mg/dia 1 a 2

 

A MFM se concentra no citosol da célula, tem baixa afinidade com

membranas mitocondriais e não inibe a fosforilação oxidativa. A

fenformina se acumula em membranas mitocondriais e inibe a atividade das

desidrogenases ligadas ao NADH localizadas nessas membranas, o que

inibe a oxidação da glicose e o ciclo de Krebs, favorecendo a glicólise

anaeróbica e a geração de lactato. Além disso, a MFM tem meia-vida mais

curta do que a fenformina, circula livre no plasma e não é metabolizada

pelo fígado. A fenformina circula ligada a proteínas plasmáticas e sofre

metabolização hepática, gerando um metabólito inativo. Cerca de 10% dos

caucasianos têm defeitos hereditários no metabolismo da fenformina, sendo

alto o risco de acidose láctica neste grupo se a droga for ingerida. Essas

diferenças tornam a MFM mais segura e raramente relacionada com

desenvolvimento de acidose láctica.1

 

Mecanismo de ação

 

Apesar de o mecanismo de ação molecular preciso da MFM ainda não

ter sido devidamente elucidado, sua principal ação parece ser a diminuição

da produção hepática de glicose. Embora a maioria dos estudos indique que

isto ocorra por diminuição da gliconeogênese, alguns autores também

sugerem que o decréscimo na glicogenólise esteja envolvido no processo.

Mecanismos adicionais têm sido sugeridos, como indução de anorexia,

diminuição de absorção de glicose pelo intestino e aumento da captação

pelos músculos e adipócitos. A diminuição da absorção de glicose foi

demonstrada em estudos in vitro, mas não parece ser clinicamente

significativa. A melhora da ação muscular da insulina parece estar

relacionada com o aumento da atividade tirosina quinase do receptor de

insulina e da translocação e/ou atividade intrínseca do transportador GLUT-

4.

Alguns estudos demonstram que MFM diminui os ácidos graxos livres

(AGL) séricos, o que poderia contribuir para a redução de resistência

insulínica hepática e muscular em indivíduos com DM2, uma vez que, de

acordo com a hipótese do ciclo de Randle, níveis séricos elevados de AGL,

frequentemente observados em pacientes com DM2, podem inibir o

metabolismo muscular de glicose e aumentar a gliconeogênese hepática.

Além disso, a MFM aumenta a concentração sérica de GLP-1 (glucagon-

like peptide-1), e é possível que esta substância medeie parte dos efeitos da

droga.14,15

 

Farmacocinética

 

A droga é absorvida predominantemente no segmento superior do

intestino delgado e pode ser concentrada em células do trato alimentar. A

meia-vida da MFM varia de 2 h a 5 h e seu pico de concentração sérica é

atingido em 1,5 h a 2 h. A eliminação é predominantemente renal, sem

metabolização, por meio de secreção tubular proximal, mas 20% a 30% da

excreção podem ser realizadas pelas fezes. A única interação

medicamentosa clinicamente significativa da MFM é com a cimetidina, que

pode aumentar os níveis séricos de MFM em 40%.16 Existe uma

possibilidade teórica de interação com outras drogas eliminadas pela

secreção tubular proximal, como digoxina, quinidina, vancomicina e

morfina, mas não há relatos de que esses efeitos sejam importantes do ponto

de vista clínico.

 

Resultados

 

A MFM pode ser usada em monoterapia ou em associação a qualquer

um dos outros antidiabéticos e insulina. Em monoterapia, o uso de MFM na

dose diária de 2.000 mg ou mais é associado à redução média da GJ em 50

a 60 mg/dL e da HbA1c em 1% a 2%.2,5 O maior estudo com uso de MFM

em monoterapia mostrou que o efeito anti-hiperglicemiante é independente

de idade, etnia, duração do diabetes, peso corporal e concentração sérica de

peptídeo C. O preditor mais importante da redução da GJ, nesse estudo, foi

a GJ pré-tratamento.11 O uso da MFM associado a qualquer outro agente hipoglicemiante torna mais fácil o controle glicêmico comparando-se com o

uso isolado dessas substâncias.17

Em estudos comparando monoterapia com SFU e MFM, houve queda

similar da GJ e HbA1c com os 2 agentes. Entretanto, o uso de MFM, na

maioria dos estudos clínicos, foi associado a melhora do perfil lipídico e

redução de insulina plasmática, além de ausência de ganho de peso. Ao

contrário do tratamento com SFU, que resulta em ganho ponderal, o uso de

MFM não é associado a ganho de peso e pode provocar perda de peso leve

a moderada. O mecanismo pelo qual as biguanidas previnem ganho ou

induzem perda de peso ainda não foi explicado (diminuição da ingesta

calórica versus aumento de gasto energético).18

Além de efeitos benéficos no controle glicêmico, a MFM reduz

triglicerídeos (TGL) plasmáticos em 20% a 25%, com diminuição modesta

de colesterol total e lipoproteína de baixa densidade (LDL) séricos (5% a

10%). A lipoproteína de alta densidade (HDL) permanece inalterada ou

discretamente elevada. O efeito no perfil lipídico é independente de

alterações na glicemia ou no peso corporal, mas seu mecanismo ainda não

foi completamente esclarecido. O evento primário parece ser redução da

secreção hepática de lipoproteína de muito baixa densidade (VLDL),

possivelmente associada a aumento do clearance periférico de partículas

ricas em TGL.11,14

A MFM também parece ter efeitos cardiovasculares, participando da

regulação do tônus vascular e prevenção da aterosclerose. Inúmeros estudos

mostram que a MFM diminui os níveis de PAI-1 e aumenta a fibrinólise em

pacientes com DM2 e não diabéticos com resistência insulínica. No

UKPDS, a MFM foi a única medicação que determinou diminuição

significativa de complicações cardiovasculares em pacientes obesos com

DM2, reduzindo o risco de infarto agudo do miocárdio (IAM) em 39% e de

acidente vascular encefálico (AVE) em 41%.19

Além de ser usada no tratamento do DM2, a MFM pode ser usada no

tratamento da síndrome de ovários policísticos, uma vez que a resistência à

insulina está implicada na fisiopatologia da mesma. É ainda terapêutica de

escolha para os pacientes com glicemia de jejum alterada/intolerância oral à

glicose, sendo menos potente somente que a mudança no estilo de vida.20 Efeitos adversos

 

■ Gastrintestinais: são os efeitos adversos mais comuns e ocorrem em até 20% dos pacientes.

Pode haver gosto metálico, anorexia, náuseas, distensão abdominal e diarreia, os quais tendem a

desaparecer com a continuação do tratamento. Para minimizá-los, a droga deve ser ingerida com

as refeições e a dose deve ser aumentada lentamente. Menos de 5% dos pacientes são incapazes

de tolerar a medicação pelos seus efeitos colaterais. 21

■ Acidose láctica: é um efeito muito raro com o uso de MFM, desde que suas contraindicações

sejam respeitadas. Sua incidência é de 3 casos por 100 mil tratamentos/ano. Caso ocorra, a

medicação deve ser suspensa e a diurese deve ser induzida, com administração de diuréticos e

fluidos. A hemodiálise é necessária em pacientes com insuficiência renal grave. Pode ser feita

dosagem sérica e/ou intraeritrocitária de MFM, raramente disponíveis em nosso meio.9,22

■ Deficiência de vitamina B12: casos isolados de anemia megaloblástica por deficiência de

vitamina B12 foram relatados durante a administração crônica de MFM. Contudo, em um grande

estudo multicêntrico, apesar de níveis séricos reduzidos de vitamina B12 em 25% dos pacientes

com DM2 tratados com MFM por 6 meses, não houve redução abaixo do limite inferior da

normalidade nem queda de hematócrito em nenhum caso.23 Entretanto, se houver anemia

macrocítica em um paciente com DM2 em uso de MFM, níveis séricos de vitamina B12 devem

ser medidos. A depleção da vitamina B12 em usuários de MFM parece ocorrer por diminuição de

sua absorção intestinal por um antagonismo cálcio-dependente da membrana ileal, que parece ser

revertido com suplementação de cálcio. 24

 

Atenção: o tratamento com MFM em monoterapia não causa hipoglicemia,

mesmo quando a droga é ingerida em altas doses, em tentativa de suicídio.

 

Contraindicações

 

■ Pacientes com propensão a desenvolvimento de acidose láctica: anemia

grave, sepse, doenças críticas.

■ Insuficiência cardíaca congestiva sintomática que necessite de

tratamento farmacológico.

■ Doença hepática crônica (transaminases acima de 3 vezes o limite da

normalidade).

■ Disfunção renal: durante muitos anos, recomendou-se que a MFM fosse

suspensa com creatinina sérica > 1,4 mg/dL para mulheres e > 1,5

mg/dL para homens. Entretanto, observou-se que o uso de MFM em

pacientes com disfunção renal leve a moderada traz mais benefícios do

que riscos. Dessa forma, foram estabelecidas novas recomendações para

uso de MFM em pacientes com disfunção renal. Atualmente, é

permitido que pacientes com taxa de filtração glomerular (TFG) entre

45 e 59 mL/min mantenham o uso deste medicamento, monitorizando a

função renal a cada 3 a 6 meses. Se a TFG estiver entre 30 e 44

mL/min, nos pacientes em uso da droga, está indicada redução da dose,

para 50% da dose máxima, com monitoração da função renal a cada 3

meses. Entretanto, não é recomendado prescrever a medicação para

casos novos com este grau de disfunção renal. A droga deve ser

suspensa para pacientes com TFG de creatinina < 30 mL/min.

■ Gravidez, lactação.

■ Alcoolismo.

 

A MFM deve ser suspensa temporariamente antes de cirurgia planejada

ou administração de meio de contraste intravenoso, podendo ser suspensa

48 h antes e reintroduzida 48 h após procedimentos radiológicos

contrastados.

Também deve ser interrompida na vigência de problemas clínicos

intercorrentes, pelo risco de acidose láctica, com retorno da medicação após

resolução do caso.

 

Tiazolidinedionas

 

As tiazolidinedionas (TZD) são substâncias que atuam como

sensibilizadoras de insulina, aumentando a captação periférica da glicose, o

que resulta em diminuição da resistência à insulina. A troglitazona foi o

primeiro composto lançado do grupo,25 mas foi retirada do mercado devido

ao seu potencial hepatotóxico. A rosiglitazona e a pioglitazona não

apresentam hepatotoxicidade significativa.26 Entretanto, em 2007, após

publicação de uma meta-análise por Nissen e Wolski (Effect of

rosiglitazone on the risk of myocardial infarction and death from

cardiovascular causes, NEJM), houve questionamento da segurança

cardiovascular da roziglitazona. Foi encontrado aumento de 43% de risco

de IAM em pacientes com DM2 em uso dessa medicação.27 A seguir, a

comercialização da droga foi suspensa. Atualmente, a única droga do grupo

comercializada é a pioglitazona com apresentação de comprimidos de 15 e

30 mg, dose máxima de 45 mg em uma tomada ao dia.

 

Mecanismo de ação

O principal mecanismo de ação das TZD é a ligação com receptores

celulares conhecidos como PPAR-γ (gamma peroxisome proliferator

activated receptor). Esses receptores são membros da superfamília de

receptores nucleares que regulam a expressão gênica quando estimulados.

A ativação estimula a produção de transportadores de glicose em células

musculares e adipócitos (GLUT-1 e 4), aumenta a síntese de glicogênio,

bem como a captação e oxidação da glicose, melhorando a sensibilidade à

insulina. Secundariamente, também há diminuição da liberação hepática de

glicose.28,29

Além disso, as TZD aumentam a conversão de pré-adipócitos em

adipócitos, o que, apesar de acarretar ganho ponderal, diminui AGL e TGL

séricos, levando à diminuição da resistência à insulina. Também é

verificada apoptose de adipócitos grandes e aumento do número de

adipócitos pequenos, o que é favorável, já que adipócitos pequenos captam

glicose de forma mais eficiente. Redução de níveis séricos de leptina e

TNF-α, associados à resistência à insulina, também foi relatada.30,31

Como resultado final, há queda da glicemia com redução de

insulinemia. Por atuarem na expressão gênica, esses medicamentos só

atingem o efeito metabólico máximo em 3 a 6 semanas.13

 

Farmacocinética

 

Após administração oral, as TZD são rapidamente absorvidas, com pico

de concentração sérica em 1 h para rosiglitazona e em 2 h para pioglitazona.

A farmacocinética da rosiglitazona não é alterada com alimentação, mas o

pico de concentração sérica da pioglitazona é retardado em 3 h a 4 h, apesar

de a absorção total não ser alterada. A meia-vida da rosiglitazona é de 3 h a

4 h e da pioglitazona é de 3 h a 7 h. Ambas se ligam a proteínas plasmáticas

(> 99%), principalmente à albumina, e são metabolizadas no fígado. Os

metabólitos são ativos. No caso da pioglitazona, 70% a 85% da excreção se

dão por via biliar, e 15% a 30%, por via urinária. Em relação à

rosiglitazona, 23% a 30% ocorrem por via fecal e 67% a 70%, por via

urinária.32

A troglitazona tem vitamina E em sua estrutura, o que a encaminha para

metabolização pelo sistema citocromo P450 (CYP) 3A4. Essa particularidade pode ser responsável pela hepatotoxicidade descrita com

este agente. A rosiglitazona e a pioglitazona, ao contrário, não contêm

vitamina E. A primeira é metabolizada pelos CYP 2C8 e 2C9, enquanto a

segunda é apenas parcialmente metabolizada pelo CYP 3A4, o que pode

provocar interação medicamentosa com o cetoconazol.33

 

Resultados

 

A monoterapia resulta em queda da GJ em 55 a 60 mg/dL e da HbA1c

em 0,7% a 1,8%.14,15 O efeito é dose-dependente e pode ser usada em

combinação com outras drogas antidiabéticas.34

Além de favorecer o metabolismo glicídico, as TZD apresentam efeitos

benéficos na função endotelial, na aterogênese e fibrinólise.16 A

pioglitazona, por atuar não só nos receptores PPAR-γ, mas também nos

receptores PPAR-α, envolvidos no metabolismo lipídico, tem efeito redutor

na concentração plasmática de TGL, de 50 mg/dL, em média. A

rosiglitazona não parece ter efeito clinicamente significativo nos níveis

séricos de TGL. Ambas são associadas à elevação de HDL sérica, de 7 a 8

mg/dL, e de LDL, de 5 mg/dL para pioglitazona e de 10 a 15 mg/dL para

rosiglitazona, em média. Contudo, as partículas de LDL parecem se tornar

maiores e menos propensas a alterações oxidativas.35

Alguns estudos sugerem ainda que as TZD provocam queda da PA e da

concentração plasmática de PAI-1, bem como redução da hiperplasia da

camada íntima da parede vascular, cuja espessura é considerada uma

medida de progressão de aterosclerose.36,37 Entretanto, apesar da melhora

nesse parâmetro não foi demonstrada capacidade significativa de prevenir

eventos cardiovasculares. Pelo contrário, há preocupação acerca de sua

segurança cardiovascular.40

Há evidências de que as glitazonas podem ser benéficas em pacientes

com esteatose hepática, reduzindo o acúmulo de gordura, a inflamação e a

fibrose local. Entretanto, a droga não deve ser usada se houver doença

hepática ativa.6

 

Efeitos adversos ■ Ganho de peso: pode ser atribuído ao aumento da população de

adipócitos e retenção hídrica. Após um ganho inicial variável de 0,5 kg

a 5 kg, o peso corporal se estabiliza. Apesar de haver ganho ponderal,

este se dá pelo aumento da gordura subcutânea e não visceral, com

redução da gordura visceral (central) e redistribuição da mesma para a

região subcutânea.38 Uma parte do ganho de peso se deve à retenção

hídrica.

■ Hepatotoxicidade: o uso de troglitazona foi associado a diversos casos

de insuficiência hepática (1:50 mil pacientes). As outras TZD têm se

mostrado seguras até o momento.39

■ Edema: as TZD aumentam o volume plasmático em 6% a 7% e

provocam aparecimento de edema em 4,8% dos pacientes. Isso pode

criar problemas em pacientes com insuficiência cardíaca congestiva

inicial ou edema periférico já instalado.40

■ Anemia: é dose-dependente e dilucional, cursando com queda do

hematócrito em 3% a 4% nas primeiras 4 a 12 semanas de tratamento, o

que é seguido de estabilização.41

■ Aumento dos níveis de LDL.

■ Risco de fraturas: os dados da literatura apontam para indução de

perda óssea pelo uso crônico de TZD, mais evidente entre as mulheres,

mas possivelmente também presente entre os homens. Resultados em

estudos experimentais e decorrentes das variações dos marcadores de

remodelação óssea sugerem que os efeitos das TZD no tecido ósseo

concentram-se sobre a diferenciação e a atividade dos osteoblastos,

portanto, sobre a formação óssea. Em teoria, tal efeito seria mais

deletério em mulheres na perimenopausa, momento no qual a

reabsorção óssea estaria “fisiologicamente” aumentada.42 Pacientes em

uso dessas medicações devem ser orientadas a respeito desse possível

efeito deletério. Deve-se frisar que não existe, até o momento,

recomendação oficial para avaliação e/ou seguimento diferenciado

desses pacientes quanto à massa óssea, estejam em uso ou não dessas

drogas. É possível que o uso de TZD deva ser incluído na lista de

fatores de risco para osteoporose e que sua indicação deva ser

reconsiderada em pacientes com outros fatores de risco para

osteoporose e fraturas, mas ainda é preciso grandes estudos, desenhados

para tal fim, antes de uma posição definitiva.43

■ Câncer de bexiga: após algumas publicações mostrando leve

associação entre o uso prolongado da pioglitazona e o câncer de

bexiga,18-20 a agência regulatória da França determinou a suspensão da

sua comercialização naquele país e a da Alemanha recomendou que

essa droga não fosse mais iniciada em novos tratamentos. No entanto, as

agências centrais dos Estados Unidos (Food and Drug Administration –

FDA) e da Europa (European Medicine Agency – EMA) posicionaram-

se de forma mais branda, mantendo a pioglitazona no mercado. Em

2011, houve mudança na bula do medicamento, que incluiu a

informação de aumento na chance de desenvolver câncer de bexiga com

pioglitazona e contraindica o uso da droga em pacientes com câncer de

bexiga, além de alertar pacientes usuários de droga sobre potenciais

sinais clínicos indicativos de câncer de bexiga.44

 

A Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD) recomenda que o

rastreamento do câncer de bexiga seja realizado mais pró-ativamente nos

pacientes em uso de pioglitazona ou nos que irão iniciá-la, inclusive com

exame semestral do sedimento urinário e ultrassonografia pélvica anual.

 

Atenção: o tratamento com TZD em monoterapia não causa hipoglicemia.

 

Contraindicações e precauções

 

As transaminases séricas devem ser dosadas em todos os pacientes antes

do início do tratamento e o uso de TZD é contraindicado se estas forem

superiores a 2,5 vezes o limite da normalidade. Em pacientes com

transaminases normais, recomenda-se sua monitoração periódica de acordo

com o julgamento clínico. Recomenda-se suspensão da droga se houver

aumento significativo de transaminases ou desenvolvimento de icterícia.

As TZD também são contraindicadas em pacientes com:

 

■ Insuficiência cardíaca congestiva (apesar de a pioglitazona não ter se mostrado associada ao

aumento de IAM, foi associada ao aumento de risco de insuficiência cardíaca não fatal no estudo

PROACTIVE, realizado para avaliar os efeitos cardiovasculares da pioglitazona em pacientes

com DM2 e alto risco de complicações macrovasculares).45

■ DM tipo 1.

■ Gestantes.

■ Durante a lactação.

 

DROGAS QUE DIMINUEM A ABSORÇÃO DE GLICOSE (INIBIDORES DA α-

GLICOSIDASE)

 

Os inibidores das α-glicosidases (IAG) são drogas que retardam e

prolongam a absorção de sacarídeos após as refeições, diminuindo

significativamente o pico hiperglicêmico pós-prandial. A acarbose foi o

primeiro composto do grupo a ser lançado no mercado.46

 

Farmacocinética

 

Os IAG são drogas pouco absorvidas que agem localmente no intestino

delgado. Somente 0,5% a 1,7% da acarbose ingerida é absorvida. A

acarbose é clivada no intestino grosso por bactérias, gerando metabólitos

que podem aparecer na urina.

 

Mecanismo de ação

 

As α-glicosidades são enzimas presentes na parede intestinal,

especialmente na primeira metade do intestino delgado, responsáveis pela

metabolização de amidos e dissacarídeos. Os IAG atuam localmente

inibindo a atividade dessas enzimas, de forma competitiva e temporária,

permitindo absorção mais prolongada de glicídeos. A acarbose, além disso,

também é capaz de inibir discretamente a enzima α-amilase. Não há

interação com o transportador intestinal de glicose dependente de sódio. A

acarbose diminui e aumenta, respectivamente, a concentração sérica de GIP

e GLP1, mas a importância clínica dessas alterações ainda não foi

estabelecida.

 

Resultados

 

A principal indicação de IAG em pacientes com DM2 é o tratamento da

hiperglicemia pós-prandial. A administração de acarbose em indivíduos

com DM2 reduz a glicemia pós-prandial em até 45 a 60 mg/dL em 30 min a

120 min. Em dose elevada (300 mg/dia), a droga provoca queda de 0,9%,

em média, na HbA1c.17 Contudo, essa dose raramente é tolerada, pela

elevada frequência de efeitos colaterais gastrintestinais. O uso de 150

mg/dL de acarbose é associado à redução de 0,6% na HbA1c. Apesar de

teoricamente não haver efeito sobre a GJ, esta geralmente é reduzida em 20

a 25 mg/dL em uso de acarbose. Os mecanismos prováveis para este efeito

são: (1) redução da glicotoxicidade por diminuição da glicemia pós-

prandial; (2) ação mediada por GLP1, uma vez que foi verificado que este

se eleva durante tratamento com acarbose.47

A acarbose pode ser usada em monoterapia, em associação a outras

drogas antidiabéticas ou insulina. A dose recomendada de acarbose é de 25

mg a 100 mg, 3 vezes ao dia. Para pacientes com menos de 60 kg, a dose

máxima recomendada é de 50 mg 3 vezes ao dia. O comprimido contém 50

mg da substância e deve ser introduzido lentamente. Para que o efeito dos

IAG seja satisfatório, é necessário que sejam ingeridos com a primeira

garfada de comida em cada uma das principais refeições, de modo que

estejam presentes no local de ação enzimática ao mesmo tempo que os

oligo e dissacarídeos. Administração com mais de 15 min de intervalo do

início da refeição altera significativamente o resultado do tratamento. O

efeito é significativo somente se a dieta contiver quantidades consideráveis

de carboidratos (provalmente > 50%).19

Além dos efeitos sobre o metabolismo glicídico, esses agentes

diminuem discretamente os níveis pós-prandiais de TGL. Ao contrário do

que seria esperado com a má absorção de carboidratos, as IAG geralmente

não causam perda de peso corporal.

 

Efeitos adversos

 

■ Gastrintestinais: pode haver redução da absorção de carboidratos, muitas vezes decorrente do

uso de altas doses da medicação e/ou ingesta elevada de glicídeos. Os carboidratos não

absorvidos são fermentados pela flora bacteriana colônica, que leva à produção de gás.

Consequentemente, há aparecimento de flatulências, diarreia e desconforto abdominal, que

podem ser observados em até 73%, 44% e 25%, respectivamente, dos pacientes em uso de

acarbose. Esses efeitos são a principal razão de abandono do tratamento, embora possam ser

reduzidos progressivamente com seu uso crônico.

■ Elevação de enzimas hepáticas: é um efeito muito raro, reversível e só ocorre quando doses

extremamente elevadas (900 mg/dia ou mais) são ingeridas.48

Atenção: em monoterapia, não há risco de hipoglicemia. Se o paciente em

uso de acarbose em combinação com outras drogas antidiabéticas

apresentar hipoglicemia, esta deve ser tratada com glicose

preferencialmente, e não sacarose, pois a acarbose inibe a conversão de

sacarose em glicose.

 

Contraindicações

 

■ Como monoterapia no DM1.

■ Distúrbios gastrintestinais.

■ Gestação.

■ Lactação.

 

AGENTES INCRETINOMIMÉTICOS

 

Há muitos anos já é reconhecido, apesar de não entendido, o efeito

incretinomimético em que a glicose absorvida por via oral fornece um

gatilho muito maior sobre a liberação de insulina do que quando

administrada por via endovenosa. Esse efeito corresponde a cerca de 70%

da secreção total de insulina em indivíduos saudáveis, em resposta a

sobrecarga oral de glicose ou refeição. Os principais responsáveis por tal

efeito são 2 hormônios produzidos pelas células intestinais que ganham a

circulação em resposta à absorção de glicose e outros nutrientes e

potencializam a secreção de insulina dependente de glicose: GIP (glucose-

dependent insulinotropic peptide) e GLP-1 (glucagon-like peptide-1).49

O GIP é secretado pelas células K enteroendócrinas,

predominantemente no intestino delgado proximal (duodeno e jejuno), em

resposta à ingestão de glicose e gordura. Potencializa a liberação de insulina

dependente de glicose e é inativado pela DPP-4 (dipeptidyl peptidase-4).

Apesar de sua meia-vida bastante curta (5 minutos a 7 minutos), parece ser

o maior responsável pelo efeito incretinomimético em indivíduos saudáveis.

O GLP-1 é secretado pelas células L enteroendócrinas, localizadas no

jejuno distal, íleo e cólon, porém mecanismos neurais também estão

envolvidos na sua liberação. Sofre inativação pela enzima DPP-4 (meia-

vida inferior a 2 minutos). O estímulo do receptor de GLP-1 ativa várias

vias de sinalização intracelular, inclusive aquelas relacionadas com a síntese e secreção de insulina, proliferação, neogênese e inibição da apoptose de

célula β.50,51

Em pacientes com DM2, o tratamento com GLP-1 parece aumentar os

níveis de insulina em jejum e pós-alimentação, diminuindo, logo, a glicemia

de jejum e suprimindo a hiperglicemia pós-prandial, sem causar

hipoglicemia.

O GLP-1 ajuda a manter os estoques de insulina por promover a

transcrição dos genes de insulina e glicose estimulados. O hormônio tem

sido associado à restauração da função das células β. Estudos in vitro

indicam que o GLP-1 protege essas células da ameaça de morte celular

induzida pela glicotoxicidade e lipotoxicidade, e ajuda a manter a

morfologia celular.

A habilidade em retardar o esvaziamento gástrico do GLP-1 traz efeitos

benéficos na redução da glicemia pós-prandial. O GLP-1 e os agonistas do

receptor GLP-1 reduzem a fome, a ingestão energética e o peso corporal em

pacientes com DM2, e esses efeitos parecem, em parte, ser resultado do

esvaziamento gástrico lentificado. Também parecem estar implicados na

regulação da ingestão energética no centro hipotalâmico regulador da

saciedade e nas vias neurais.52

O GLP-1 suprime os níveis de glucagon pós-prandiais, que estão

inapropriadamente aumentados em pacientes com DM2. Reduz a liberação

de glucagon, porém não inibe a sua secreção na presença de hipoglicemia,

nem mesmo prejudica os mecanismos contrarregulatórios. Portanto, é

pouco provável a ocorrência de hipoglicemia com o uso dos agonistas do

receptor GLP-1 e inibidores da DPP-4.

Os receptores de GLP-1 são expressos em cardiomiócitos e células

endoteliais, e estudos pré-clínicos têm demonstrado que a ativação do

receptor de GLP-1 está associada a substancial cardioproteção e redução da

área de infarto. Evidências limitadas sugerem que o GLP-1 também

preserve a função ventricular em pacientes com insuficiência cardíaca ou

IAM. Tanto exenatide quanto liraglutide reduzem a pressão arterial, o peso

corporal e o perfil lipídico em pacientes com DM2, aumentando as

esperanças de que o tratamento em longo prazo com essas drogas possa

reduzir a incidência de eventos cardiovasculares.53

Alguns estudos nos últimos anos têm levantado a possibilidade de que o

GLP-1 possa ter efeitos neuroprotetores, tanto no sistema nervoso central

quanto periférico. Outra questão fundamental no uso de agentes

incretinomiméticos para o tratamento do DM2 concerne ao polimorfismo

do gene TCF7L2. Esse gene funciona como um fator de risco importante

para o DM2 e também está associado a prejuízo na habilidade do GLP-1 e

GIP de estimular a secreção de insulina. Esses achados elevam a

possibilidade de alguns pacientes com DM2 serem mais sensíveis às

incretinas que outros.

Portanto, o GLP-1 representa uma terapêutica interessante para o

tratamento do DM2, porque atua restaurando a secreção de insulina

dependente de glicose, e pode preservar a função das células β e melhorar

fatores de risco associados, como a obesidade.

Se os níveis de GLP-1 e sua sensibilidade não estiverem afetados no

diabetes, o efeito incretinomimético diminuído no DM2 pode ser atribuído à

redução da eficácia do GIP. A secreção fisiológica normal de GLP-1 parece

ser insuficiente para manter o efeito incretinomimético nos pacientes com

DM2. Dessa forma, níveis suprafisiológicos ou farmacológicos de GLP-1

parecem ser necessários para restabelecer o efeito insulinotrópico de ambos

os hormônios na fisiologia normal.

A Tabela 11.2.4 resume as principais diferenças entre os inibidores da

DPP-4 e os agonistas do receptor GLP-1.

 

Tabela 11.2.4 Características dos inibidores da DPP-4 × agonistas do receptor GLP-1

 

Inibidores da DPP-4 Agonistas do receptor GLP-1

 

Disponibilidade oral Injetáveis (via subcutânea)

 

Agentes menos potentes Mais potentes em reduzir glicemia

 

Múltiplos alvos Único alvo conhecido → receptor ligado PTN G

 

Superdosagem: não tóxico Superdosagem: problemático

 

Sem efeito colateral no SNC Náuseas e vômitos

Redução esperada na HbA1c de 0,5 a 0,8% Redução esperada na HbA1c de 0,5% a 1,5%

 

 

Combinação com ADO* e insulina Combinação com ADO*

 

*ADO = antidiabéticos orais.

 

Agonistas do receptor de GLP-1

 

Exenatide é uma molécula sintética, um peptídeo com 39 aminoácidos

idêntico à exendin-4, a qual foi primeiramente isolada da saliva do lagarto

Gila monster (Heloderma suspectum). Apresenta 53% de homologia com

GLP-1 de mamíferos, mas é estruturalmente resistente à ação da DPP-4. É

administrado por via subcutânea, 2 vezes por dia, 30 min antes das

refeições, e demonstrou significativa eficácia na redução da glicemia de

jejum e nos valores da HbA1c (9,1% a 8,3%), apesar de não prover ativação

por 24 h do receptor de GLP-1. A dose usual é de 5 μg a 10 μg, 2 vezes por

dia. Anticorpos contra exendin-4 foram detectados em 41% a 49% dos

pacientes tratados, entretanto a presença de anticorpos não afetou a resposta

ao tratamento. Dos 6% a 9% dos pacientes que desenvolvem altos títulos de

anticorpos, 3% a 9% parecem ter resposta atenuada ao exenatide. Em torno

de 83% dos pacientes que usaram agonistas do GLP-1 nos estudos clínicos

perderam peso. A forma de apresentação e a dose recomendada das

medicações estão descritas na Tabela 11.2.5.54

 

Tabela 11.2.5 Agonistas do receptor GLP-1

 

Fármaco Apresentação Dose inicial Dose máxima Tomada (×/dia)

 

Exenatide 5 μg e 10 μg 5 μg a 10 μg 20 mg 2

 

Liraglutide Caneta com 0,6 mg, 0,6 mg a 1,2 mg 1,8 mg 1

1,2 mg e 1,8 mg

 

Liraglutide é um derivado de GLP-1 ligado a ácidos graxos, resistente à

DPP-4. Liga-se de forma não covalente à albumina e apresenta duração de ação mais prolongada, sendo, dessa forma, administrado por via subcutânea

1 vez ao dia. A dose usual é de 0,6 mg a 1,2 mg, 1 vez ao dia (sempre

mesmo horário e sem relação com refeição), podendo chegar a 1,8 mg/dia.

Recomenda-se início com 0,6 mg na primeira semana e aumento para 1,2

mg a seguir.

Outro agonista do receptor GLP-1 a ser lançado no mercado é o

lixisenatide, com resultados similares e dosagem de 20 mg por via

subcutânea uma vez ao dia. Recomenda-se início com uso de 10 mg nas

primeiras duas semanas e administração na hora antecedente ao café da

manhã ou jantar.

Novas formulações de liberação prolongada estão surgindo, como o

exenatide administrado 1 vez por semana. Os agonistas do receptor GLP-1

de liberação prolongada controlam a glicemia de jejum melhor do que as

formulações convencionais, entretanto perdem um pouco a capacidade de

controle da glicemia pós-prandial.

Atualmente tem sido questionado o uso dessas medicações em

associação à insulina pelo potencial aumento do risco de hipoglicemia.

Estudos demonstraram ser essa associação bastante segura, sem aumento do

número de episódios de hipoglicemia entre a associação insulina basal a

exenatide e insulina basal a placebo. A associação a metformina,

sulfonilureia (com redução da dose de sulfa) e glitazona já é bem

estabelecida.55,56

 

Resultados

 

Geralmente, os agonistas do receptor GLP-1 levam a uma queda de

0,5% a 1,5% na HbA1c de pacientes com DM2, em monoterapia ou

associação a outras drogas, como metformina, sulfonilureias,

tiazolidinedionas ou insulina. O efeito na glicemia de jejum é a redução de

10 mg/dL em média para exenatide 10 μg/dia e de 30 mg/dL em média para

liraglutide. Por outro lado, o exenatide provoca redução discretamente

maior da glicemia pós-prandial do que o liraglutide. Estas diferenças se

devem ao perfil de duração de cada uma destas drogas e devem ser

consideradas durante a escolha do agente terapêutico a ser utilizado. Os

agonistas do receptor GLP-1 induzem perda de peso (de cerca de 5 kg, com diferença média em relação ao placebo ou outras drogas antidiabéticas de

1,4 a 3,5 kg), além de alguma melhora da pressão arterial e do perfil

lipídico.

 

Efeitos adversos

 

■ Efeitos no trato gastrintestinal: náuseas e vômitos são os principais

efeitos colaterais e que geralmente melhoram com a persistência do

tratamento. A titulação da dose, com início das medicações em dose

baixa, reduz a chance desses efeitos.

■ Pancreatite aguda: tem sido reportada como um efeito colateral raro da

terapia com agonistas do receptor GLP-1. Trinta casos iniciais foram

publicados em 2008, aos quais, em pelo menos 90%, outros fatores de

risco para pancreatite estavam associados. Além disso, uma análise

comparativa da frequência de pancreatite aguda aponta para um risco 3

vezes maior nos pacientes com DM2 quando comparados com

indivíduos sem diabetes. Não há evidências que sustentem a solicitação

de amilase e lipase em pacientes que irão iniciar tratamento com agentes

incretinomiméticos. Essas drogas devem ser suspensas na suspeita de

pancreatite aguda e não devem ser reiniciadas se a suspeita for

confirmada. Mais estudos são necessários para determinar se esses

agentes realmente estão implicados no aumento do risco de

pancreatite.57 Butler et al. demonstraram, em biopsias de pâncreas

humanos de 8 pacientes tratados com incretinomiméticos, aumento de

proliferação de células pancreáticas exócrinas e também do

compartimento endócrino (células α e β, em relação aos demais

tratamentos.58

■ Carcinoma medular de tireoide: a ativação dos receptores de GLP-1

estimula a secreção de calcitonina e promove o desenvolvimento de

hiperplasia de células C parafoliculares e câncer medular de tireoide em

roedores. Ocorreram alguns relatos de aumento do risco de lesões de

células C em roedores tratados com liraglutide, inclusive carcinoma

medular de tireoide. Entretanto, o seguimento clínico de 2 anos com a

droga não evidenciou tal efeito, nem mesmo elevação de calcitonina,

tendo a droga sido aprovada para uso clínico. O seguimento a longo

prazo será importante para a comparação da frequência de carcinoma

medular de tireoide em pacientes tratados com liraglutide e com outras

terapêuticas para o tratamento do DM2.59

 

Atenção: em monoterapia, não há risco de hipoglicemia.

 

Contraindicações

 

■ Distúrbios gastrintestinais.

■ Gestação.

■ Lactação.

■ Insuficiência renal: para pacientes com insuficiência renal leve, não é

necessário ajuste de dose. A experiência com pacientes com

insuficiência renal moderada é limitada e não pode ser recomendada

para pacientes com insuficiência renal grave, inclusive pacientes com

doença renal terminal.

■ Insuficiência hepática: a experiência com pacientes com insuficiência

hepática é muito limitada para recomendar o uso em pacientes com

insuficiência hepática leve, moderada ou grave.

 

Inibidores da DPP-4

 

A administração de inibidores de DPP-4 visa reduzir a metabolização

do GLP-1 e GIP e aumentar sua concentração circulante. Com isso,

potencializa a ação desses hormônios. A magnitude dos seus efeitos sobre a

atividade do GLP-1 é limitada pelos níveis de hormônio endógeno

disponível. A DPP-4 é uma enzima com muitos substratos, inclusive

neuropeptídeos, citocinas e outros hormônios gastrintestinais. Esse fato põe

em questão a segurança do seu uso clínico. Entretanto, vários ensaios

clínicos demonstraram que os inibidores da DPP-4 são bem tolerados. A

forma de apresentação e as doses recomendadas das medicações estão

descritas na Tabela 11.2.6.60-62

A sitagliptina foi o primeiro inibidor da DPP-4 aprovado para uso em

2006. Sua dose posológica é de 100 mg, 1 vez por dia, com ajuste

posológico para insuficiência renal (dose de 50 mg/dia para filtração

glomerular < 50 mL/min e dose de 25 mg/dia para filtração glomerular < 30

mL/min ou hemodiálise). É bem tolerada e não relacionada com náuseas, vômitos e hipoglicemias (em monoterapia). Entretanto, também não está

relacionada com a inibição do esvaziamento gástrico ou perda de peso

(efeito neutro sobre o peso) e é menos potente que os agonistas do receptor

do GLP-1.

 

Tabela 11.2.6 Inibidores da DPP-4

 

Fármaco Comprimido Dose inicial Dose máxima Tomada (×/dia)

 

Sitagliptina 100 mg 25 mg (TFG < 30), 100 mg 1

50 mg (TFG < 50) a

100 mg

 

Vildagliptina 50 mg 50 mg 100 mg 2

 

Saxagliptina 5 mg 2,5 mg (TFG < 50) a 5 mg 1

5 mg

 

Linagliptina 5 mg 5 mg 5 mg 1

 

TFG = taxa de filtração glomerular.

 

A vildagliptina foi o segundo inibidor da DPP-4 liberado para uso

comercial. Sua posologia é 50 mg, 2 vezes ao dia. Não é recomendada para

pacientes com taxa de filtração glomerular < 50 mL/min ou insuficiência

hepática. Por não ser metabolizada pela via do CYP 450, não inibe ou induz

as principais enzimas desse sistema (baixo risco de interação

farmacológica).

A saxagliptina é o terceiro inibidor de DPP-4 lançado no mercado

brasileiro. Sua dose posológica é de 2,5 mg a 5 mg, 1 vez ao dia, com

correção para insuficiência renal (2,5 mg/dia, se filtração glomerular < 50

mL/min; em casos de hemodiálise, aplicar a dose após as sessões). Potentes

inibidores da CYP 3A4/5 (cetoconazol, atazanavir, claritromicina, indinavir,

itraconazol, nelfinavir, ritonavir, saquinavir) aumentam as concentrações

plasmáticas de saxagliptina, devendo sua dose ser limitada a 2,5 mg/dia.

Pode ocorrer linfopenia dose-relacionada com o uso de saxagliptina. Além disso, o estudo SAVOR demonstrou que a saxagliptina aumentou a taxa de

hospitalização por insuficiência cardíaca, apesar de não ter aumentado a

taxa de eventos isquêmicos. Mais estudos serão necessários para

compreender os riscos a longo prazo.

A dose da linagliptina é de 5 mg/dia sem ajuste de dose para pacientes

com insuficiência renal, insuficiência hepática ou idosos. Sua eficácia pode

ser reduzida quando administrada em combinação com fortes indutores da

glicoproteína P, como rifampicina.

O efeito colateral da classe descrito é a ocorrência de nasofaringite e

tosse. A pancreatite ainda é um efeito de frequência desconhecida.63,64

 

INIBIDOR DE SGLT-2 (COTRANSPORTADOR SÓDIO-GLICOSE DO TIPO 2)

 

Estes medicamentos inibem o SGLT-2 nos túbulos renais proximais, que

representam mais de 90% de reabsorção de glicose pelos rins. O bloqueio

desse transportador provoca glicosúria e redução da glicemia de jejum

dose-dependente. Adicionalmente, podem contribuir para a perda de peso

pela indução de perda urinária de glicose. As drogas desta classe estão

sendo introduzidas no mercado (dapagliflozina e canagliflozina).

Promovem queda de cerca de 0,7% na HbA1c, além de queda discreta de

PA, peso corporal e aumento discreto de HDL.

Os efeitos colaterais mais comuns são hipoglicemia (quando usado com

sulfonilureias ou insulina), dislipidemia, disúria, infecção dos tratos urinário

e gastrintestinal. Devido a preocupações sobre o aumento da incidência de

câncer de bexiga e de mama em ensaios clínicos, o medicamento

inicialmente não teve aprovação nos Estados Unidos nem no Brasil. Novos

dados diminuíram essa preocupação, mas estudos em fase IV serão

realizados para analisar esse risco e a droga é contraindicada para pacientes

com câncer de bexiga ou disfunção renal moderada a grave. Existem vários

outros inibidores de SGLT-2 atualmente em testes de fase III, incluindo

empagliflozina e ipragliflozina.65

 

TERAPIAS BASEADAS EM AMILINA PARA O TRATAMENTO DO DM

 

A amilina é deficiente no DM1 e relativamente deficiente em pacientes

com DM2 em uso de insulina. O análogo sintético, pramlitide, foi introduzido para o tratamento do DM, com ação similar. Esse análogo tem

impacto no controle glicêmico por diferentes mecanismos, inclusive

lentificação do esvaziamento gástrico, regulação de glucagon pós-prandial e

redução da ingesta alimentar. Não causa hipoglicemia na ausência de

terapias que causem hipoglicemia.

A amilina é um peptídeo de 37 aminoácidos armazenado pelas células β

e cossecretado com a insulina. Seus níveis, assim como os da insulina,

aumentam e diminuem de forma sincronizada, tendo essas substâncias

ações complementares na regulação de níveis de nutrientes na circulação. A

amilina reduz o esvaziamento gástrico, suprime a secreção de glucagon,

reduzindo a produção hepática de glicose, promove a saciedade e diminui o

apetite. A insulina estimula a captação de glicose no músculo e gordura,

inibe a lipólise, promove a deposição de glicogênio e aumenta a síntese

proteica. Esses efeitos são glicose-dependentes.

O pramlitide é seu análogo para uso subcutâneo que não é

comercializado no Brasil. Permite que a insulinoterapia exógena satisfaça

mais facilmente as necessidades fisiológicas. Doses suprafisiológicas desse

análogo não provocam hipoglicemia em indivíduos normais. Além disso,

não interferem na recuperação da hipoglicemia induzida por insulina.

Demonstrou-se redução (discreta) de HbA1c e redução do peso corporal

tanto no DM1 quanto no DM2 com este agente. Tem como efeitos adversos:

náuseas leves e moderadas, geralmente revertidas em 4 semanas. As

náuseas podem ser minimizadas com titulação lenta da dose da medicação,

por isso o pram litide deve ser administrado imediatamente antes das

refeições, separadamente da insulina em um local diferente, por precipitar

acima de pH 5,5. A dose pré-prandial da insulina deve ser reduzida em 50%

e elevada gradualmente até atingir a euglicemia, e as refeições devem

conter pelo menos 250 kcal ou 30 g de carboidratos. O pramlitide não deve

ser administrado em pacientes com hipoglicemia sem sintomas. A sua dose

inicial, no DM1, é 15 μg antes das refeições, com aumento de 15 μg a cada

3 a 7 dias, conforme tolerado, até 60 μg (ou 10 unidades de administração

em seringa). Se houver náuseas persistentes, a dose deve ser reduzida

novamente, até a resolução. A dose inicial recomendada para DM2 é de 60

μg, aumentada, conforme tolerado, até 120 μg antes de cada refeição. O

pramlitide lentifica o esvaziamento gástrico e pode retardar a taxa de absorção de medicações orais. Pacientes com gastroparesia não devem usá-

lo. Medicações orais que requeiram absorção rápida devem ser

administradas 1 h antes ou 2 h depois da injeção do medicamento.

 

OUTRAS MEDICAÇÕES ANTIDIABÉTICAS

 

Colesevelam é uma droga que sequestra ácidos biliares e reduz o LDL

colesterol. Tem efeito discreto na redução da glicemia (queda de 0,5% na

HbA1c), por um mecanismo incerto (possivelmente por redução da

absorção de glicose no trato gastrintestinal). Seus efeitos colaterais incluem

constipação, náuseas, dispepsia e aumento de triglicerídeos.

A bromocriptina, agonista da dopamina derivada do ergot utilizada para

tratamento da hiperprolactinemia, também tem efeito discreto na redução da

glicemia (redução de HbA1c de 0,5% em média), mas com efeitos

gastrintestinais frequentes. Uma formulação de rápida liberação foi

aprovada pelo FDA para tratamento do DM2, em dose de até 4,8 mg/dia.66

 

RECOMENDAÇÕES PARA USO DE DROGAS ANTI-DIABÉTICAS EM

MONOTERAPIA E EM ASSOCIAÇÃO

 

Conforme as últimas recomendações da American Diabetes Association

(ADA), a metformina é a droga de primeira escolha no tratamento do

diabetes melitus tipo 2 (DM2), exceto na presença de contraindicações ou

intolerância. Deve ser iniciada logo após o diagnóstico, especialmente

naqueles pacientes em que mudanças no estilo de vida não atingiram, ou

que provavelmente não irão atingir, as metas de HbA1c. Devido à elevada

frequência de efeitos gastrintestinais, a metformina deve ser iniciada em

doses baixas, e gradualmente ajustada. Pacientes com HbA1c elevada (≥

9,0%) dificilmente alcançarão o alvo glicêmico com a monoterapia. Desta

forma, justifica-se o início do tratamento com a combinação de dois agentes

antidiabéticos, ou então com insulina. Caso o paciente se apresente com

sintomas significativos de hiperglicemia, e/ou tenha concentrações

plasmáticas de glicose ou de HbA1c muito elevadas (≥ 300 a 350 mg/dL e

10 a 12%, respectivamente), insulinoterapia inicial é fortemente

recomendada, sendo obrigatória na presença de sintomas catabólicos ou de

cetonúria. Assim que os distúrbios metabólicos forem resolvidos e os sintomas desaparecem, é possível diminuir a dose da insulina até sua

suspensão completa, substituindo-a por agentes orais em combinação

(Figura 11.2.1).

 

Figura 11.2.1 Recomendações da ADA para tratamento de DM2.

 

DPP4 = dipeptidil peptidose; GLP1 = glucagon like peptide 1; TZD = tiazolidinedione; SU = sulfonilureia; AgGLP1 = agonista do GLP1; iDPP4 = inibidor de dipeptidil peptidose 4.

 

Caso a metformina esteja contraindicada, um outro agente antidiabético

deve ser escolhido de forma individualizada, considerando-se as

preferências, características, suscetibilidade a efeitos colaterais, potencial

para ganho de peso e risco de hipoglicemia de cada paciente. Em geral,

sulfonilureias, glinidas, pioglitazona, inibidores do DPP-4 e agonistas do

receptor GLP-1 são os mais usados. Inibidores da alfaglicosidase também

podem ser considerados em pacientes selecionados, mas seus efeitos modestos na glicemia e os efeitos colaterais tornam essas drogas menos

atraentes.

Uma vez iniciada a monoterapia, esperamos alcançar o alvo da HbA1c

em até 3 meses. Quando isso não ocorre, o próximo passo deve ser a adição

de um segundo agente oral, um agonista do receptor GLP-1, ou uma

insulina basal. Quanto mais elevada for a HbA1c, maior será a necessidade

da insulina. Em média, a maioria das associações é capaz de levar a uma

redução adicional da HbA1c em cerca de 1%. Com base nos estudos

disponíveis, ainda não é possível estabelecer recomendações sobre qual a

melhor droga a ser usada em associação à metformina. Por isso, as

vantagens e desvantagens de cada droga devem ser consideradas para cada

paciente, como efeitos adversos, tolerabilidade e custo.

Alguns estudos mostraram vantagens na adição de um terceiro agente

não insulínico, quando a combinação de dois hipoglicemiantes não é capaz

de alcançar as metas glicêmicas. Nestes casos, deve-se optar por associar

drogas com mecanismos de ação complementares. É muito importante que

o paciente seja monitorizado de perto, pois aumentando-se o número de

drogas, aumenta-se também o risco de efeitos colaterais, interações

medicamentosas, custo e má adesão. Uma vez que o DM2 está associado à

perda progressiva das células β pancreáticas, muitos pacientes,

especialmente aqueles com longo tempo de doença, irão eventualmente

precisar de insulinoterapia, principalmente quando os níveis de

hiperglicemia (HbA1c > 8,5%) sugerirem que a adição de um terceiro

agente terá benefício limitado.

Em geral, a metformina é mantida após a adição da insulina basal, pois

estudos demonstraram menor ganho de peso quando as duas são usadas em

associação. Secretagogos não parecem ter nenhum benefício adicional na

redução da HbA1c, ou na prevenção de hipoglicemias ou ganho de peso

após o início da insulinoterapia. No entanto, podem ser úteis para obter o

controle glicêmico durante o dia em pacientes em uso de insulina basal

noturna com tempo de ação intermediário (p. ex., NPH, NPL). Por outro

lado, quando uma insulina prandial for iniciada, os secretagogos devem ser

suspensos. Tiazolidinedionas devem ser reduzidas ou suspensas, a fim de se

evitar ganho de peso excessivo ou edema, exceto em casos selecionados de

resistência significativa à ação da insulina e contraindicação à metformina, para ajudar a reduzir a HbA1c e minimizar a dose de insulina necessária.

Associações de insulina com agonistas do receptor GLP-1 podem ser úteis

em alguns pacientes e são particularmente interessantes, pois permitem

atuar nas glicemias pré e pós-prandiais, reduzindo necessidade de insulina,

ganho de peso e risco de hipoglicemias. No entanto, os altos custos destas

combinações devem ser considerados.39

As diretrizes da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD) estabelecem

que a escolha do antidiabético oral deve ser individualizada, e levar em

consideração o estado geral, comorbidades, glicemia, peso e idade de cada

paciente, assim como o perfil de reações adversas, contraindicações e

interações das drogas disponíveis. Nos casos em que as manifestações

clínicas forem leves e a glicemia for inferior a 200 mg/dL, deve-se optar

por drogas que não promovam aumento da secreção de insulina, como

metformina, inibidores do DPP-4, análogos do GLP-1 ou pioglitazona,

sendo a metformina a droga de primeira escolha. Nos pacientes que se

apresentam com manifestações moderadas e glicemias entre 200 e 300

mg/dL, deve-se iniciar a terapia oral combinada com metformina e outro

hipoglicemiante oral, e nesses casos os secretagogos podem ser usados. Nas

situações de hiperglicemia grave (> 300 mg/dL), com manifestações

intensas, inicia-se insulinoterapia (Figura 11.2.2).67

Figura 11.2.2 Recomendações da SBD para tratamento do DM2.

 

iDPP4 = inibidor de dipeptidil peptidose 4; GLP1 = glucagon like peptide 1.

 

A American Association of Clinical Endocrinologists (AACE)

preconiza que o tratamento do DM2 seja iniciado com modificações do

estilo de vida, enfatizando medidas para perda de peso, e medicamentos

antidiabéticos. Caso a HbA1c inicial seja inferior a 7,5%, monoterapia com

metformina é recomendada, mas outros agentes antidiabéticos também

podem ser utilizados como opções de primeira linha (agonistas de GLP-1,

inibidores de DPP-4 ou inibidores da alfaglicosidase). Outras opções de

segunda linha seriam tiazolidinedionas e sulfonilureias. Caso a HbA1c seja

maior ou igual a 7,5%, a combinação de metformina com outros agentes é

recomendada desde o início. Este algoritmo inclui o uso de colesevelam,

bromocriptina e SGLT-2 como opções para o manejo do DM2,

especialmente em terapia combinada.68

 

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