Rotinas de Diagnóstico e Tratamento do Diabetes Mellitus
1. Diabetes: passado, presente e futuro
Diabetes: passado, presente e futuro
Adolpho Milech
José Egídio Paulo de Oliveira
INTRODUÇÃO
O conhecimento do diabetes mellitus (DM) já data de vários séculos. O
papiro egípcio Ebers, em 1500 a.C., descreve uma doença caracterizada
pela passagem de grande quantidade de urina. No entanto, o grande marco
foi a descrição de Arataeus da Capadócia, no século II, que denominou essa
enfermidade de diabetes (correr por meio de sifão), com sua clássica
descrição de que “a carne do corpo e dos membros se derretia e se convertia
em urina”.1,2 Apesar de várias descrições na China, no Japão e na Índia de
que em certas pessoas ocorria poliúria com a urina doce e espessa, coube a
Willis, em 1675, a observação da condição semelhante – doce e mel –,
estabelecendo o nome de diabetes mellitus.3,4
INSULINA: DESCOBERTAS E SEUS DESENVOLVIMENTOS
As ilhotas foram descobertas no século XIX por Brockman, mas só
receberam o nome de ilhotas de Langerhans após sua descrição, em
comunicação posterior por P. Langerhans, em 1869.5 Minnkowski e Von
Mering realizaram uma experiência em que a remoção do pâncreas causava
diabetes em cães.6 No final do século, Opie notou lesão nas células β nas
ilhotas de pacientes que faleciam da enfermidade.7
Em 1921, o trabalho de 4 pesquisadores – Banting, Best, MacLeod e
Collip – foi coroado com o isolamento da insulina por meio da sua extração
do pâncreas, o que permitiu evitar a sentença de morte para várias pessoas
com a doença. Leonard Thompson, Mary Elizabeth, Theodor Ryder, entre
outros, em 12 de janeiro de 1922, foram os primeiros a se beneficiar dessa
fantástica descoberta.8
Em 1950, foi desenvolvida uma insulina com tempo de ação mais
prolongado do que a insulina regular, a insulina NPH (Neutral Protamine
Hagendorn), caracterizada por ter pH neutro, pela presença da protamina
para aumentar o seu tempo de ação e pelo nome do seu descobridor.9
A “família” lenta, na qual o tempo de ação da insulina regular era
aumentado pela adição de excesso de zinco sem colocação de protamina,
surgiu a seguir, pois se acreditava que a protamina fosse responsável pela
alergia e pela lipodistrofia.9
Progressivamente, as insulinas foram sendo purificadas: pico único,
monocomponente até a síntese de insulina humana, o que constituiu o
primeiro medicamento a ser desenvolvido em grande escala pela engenharia
genética.9
O progresso continuou com o desenvolvimento dos análogos de
insulina, o que alterou o seu tempo de ação – lispro, aspart, glulisina,
glargina e detemir,10-15 e no momento estão em fase avançada de pesquisa as
insulinas degludec e lispro ligada ao polietilenoglicol (“PEGlada”), ambas
de ação ultraprolongada.16
ANTIDIABÉTICOS ORAIS
O campo dos hipoglicemiantes orais também se desenvolveu. A
carbutamida foi a primeira sulfonilureia, utilizada em 1955, logo
acompanhada de outras sulfonilureias da chamada 1a geração –
c1orpropamida, tolbutamida, acetoexamida e tolazamida. A 2a geração foi
composta de glibenclamida, glicazida, glipizida, gliquidona e glibornurida.
Finalmente, a glimepirida representa a 3a geração.17,18
No que tange às biguanidas, derivadas do primeiro produto que contém
guanidina – a sintalina –, já tiveram seus períodos de inferno e de glória.
Em 1977, foram praticamente proscritas do receituário nos EUA, devido ao relato de aumento de prevalência de acidose láctica com o uso da
fenformina. Esse achado não se confirmou com o uso da metformina, que
marcou o retorno triunfal das biguanidas ao receituário. A fenformina e a
butilbiguanida deixaram de ser utilizadas.19
O uso dos hipoglicemiantes orais foi enriquecido com o aparecimento
dos inibidores das α-glicosidades – acarbose, liberadores rápidos de insulina
–, repaglinida e nateglinida e o grupo das tiazolidinedionas – representadas,
no momento, apenas pela pioglitazona.20-23
Um grupo de drogas relacionadas com as incretinas – substâncias que
promovem a secreção de insulina quando mediada pela glicose – vem
assumindo importante papel no tratamento do diabetes, e pode ser dividido
em 2 classes: os análogos do GLP1 exenatida e liraglutida – substâncias
injetáveis que também diminuem o apetite e o peso corporal – e os
inibidores DPP4, que prolongam a vida média do GLP1, liberada pelo
intestino – vildagliptina, sitagliptina, saxagliptina e linagliptina.24
Drogas que atuam bloqueando a reabsorção renal de glicose por meio da
inibição do cotransportador2 de sódio e glicose (3GLT2), as glifozinas
passaram a ser comercializadas no Brasil em 2014.
IMUNOLOGIA: AVANÇOS E EVOLUÇÃO
A imunologia, se ainda não impediu a eclosão de diabetes mellitus tipo
1 (DM1) em indivíduos predispostos, já trouxe um benefício a esses
pacientes ao impedir a rejeição nos casos de transplante pancreático e de
ilhotas, apesar de a sobrevida das ilhotas diminuir com o tempo. Uma
intervenção imunológica foi desenvolvida em Ribeirão Preto/SP pelo grupo
de Voltarelli. Pacientes acima de 18 anos de idade com DM1 recém-
diagnosticados foram submetidos a ablação e posterior transplante de
medula óssea. Desse modo, o sistema imunológico inato era preservado e o
adquirido, destruído. Ocorreu, então, recuperação da secreção de insulina.
Com o passar do tempo, houve recorrência do diabetes, porém ficou
demonstrado que, se pudermos deter a reação imunológica, há a
possibilidade de reversão do DM1.25-28
Tecnologia
Dentre os avanços tecnológicos, destacam-se os glicosímetros e a
bomba de infusão, que trouxeram importante contribuição ao controle dos
pacientes diabéticos. Com a aferição da glicemia em tempo real e a ligação
ao sistema de infusão, alcançou-se a possibilidade de fazer-se a terapia de
alça fechada ou “pâncreas artificial”.29
Planejamento alimentar
Outra evolução importante de conceito diz respeito ao planejamento
alimentar. Na era pré-insulina, a dieta era praticamente constituída de
lipídios e proteínas, com baixíssima ingestão de glicídios.
Progressivamente, a proporção de glicídios foi aumentada – de 40% até
55% do valor energético total da dieta – e, recentemente, para indivíduos
com diabetes tipo 1, a American Diabetes Association (ADA) indica dieta
adaptada ao paciente, com contagem de carboidratos e administração de
quantidade de insulina de ação ultrarrápida, adequada para sua
metabolização e manutenção da normoglicemia. Além disso, a quantidade
de lipídios recomendada foi diminuída porque a doença cardiovascular é a
principal causa da mortalidade entre os pacientes.30-31
Tipos de tratamento: objetivos e resultados
Ainda na década de 1980, uma preocupação continuava presente entre
os médicos que estavam acostumados a acompanhar pacientes com
diabetes, em paralelo às novidades no tratamento. As complicações crônicas
da enfermidade permaneciam em prevalências elevadas. No início da
década de 1990, foi publicado o primeiro grande estudo com pacientes
portadores de DM1, em que o tratamento convencional foi comparado ao
tratamento intensivo.32
No tratamento convencional, o objetivo foi evitar cetoacidose e
sintomas do diabetes. Já no intensivo, o objetivo principal foi trazer os
valores glicêmicos aos mais próximos possíveis da normalidade, com o
auxílio de múltiplas injeções subcutâneas diárias de insulina ou por meio do
uso de bombas de infusão contínua, em ambas as situações acompanhadas
de automonitoração continuada da glicose sanguínea, com múltiplas
avaliações da glicemia capilar pré e pós-refeições e a análise periódica da
hemoglobina glicada.
Os resultados do Diabetes Control and Complications Trial (DCCT)
foram animadores tanto nos pacientes recém-diagnosticados quanto no
outro grupo com mais tempo de evolução da afecção com retinopatia e/ou
nefropatia incipientes. Em comparação ao grupo submetido ao tratamento
convencional, o grupo intensivo de prevenção primária (recém-
diagnosticados) obteve redução da incidência de retinopatia em 76% dos
casos. No grupo de prevenção secundária (com retinopatia na base do
estudo), o tratamento intensivo reduziu a progressão da lesão em 54% dos
casos e o desenvolvimento de retinopatia proliferativa em 47%. Nas 2
coortes combinadas, a terapia intensiva reduziu a ocorrência de
microalbuminúria (excreção urinária de albumina > 30 mg/24 h) em 39%,
de albuminúria (excreção urinária de albumina > 300 mg/24 h) em 54% e
de neuropatia clínica em 60% dos casos. O principal efeito adverso foi a
hipoglicemia grave associada à terapia intensiva. Com o DCCT, foi possível
constatar que a insulinização intensiva apoiada na monitoração contínua da
glicemia oferece condições para a normalização da glicemia na maior parte
do dia, com espetacular redução na incidência e na velocidade de
progressão das complicações vasculares, oculares, renais e neurológicas no
paciente com DM1. Após o término do DCCT, os pacientes em tratamento
convencional foram convidados a mudar para a terapia intensiva e todos
foram enviados aos seus médicos de origem.
Quatro anos depois,33 a média das hemoglobinas glicadas do grupo que
originalmente estivera na terapia intensiva no DCCT foi de 7,9%, enquanto
a média verificada no grupo que no DCCT pertencia à terapia convencional
foi de 8,2%. A proporção de pacientes que teve piora da retinopatia,
inclusive retinopatia proliferativa, edema macular e necessidade de terapia
com laser, foi menor no grupo originário da terapia intensiva que no da
terapia convencional (p < 0,001). A proporção de pacientes com aumento
na excreção urinária de albumina também foi significativamente menor no
grupo originário da terapia intensiva.
O Epidemiology of Diabetes Interventions and Complications (EDIC)
concluiu que, após 4 anos, os pacientes que fizeram terapia intensiva foram
protegidos na progressão da retinopatia e da neuropatia, apesar da elevação
nos níveis glicêmicos. Alguns anos depois do DCCT, um grupo de
pesquisadores japoneses resolveu reproduzir esse estudo em pacientes com diabetes mellitus do tipo 2 (DM2). Esse estudo ficou conhecido
mundialmente como Kumamoto.34 Ele mostrou que também o portador de
DM2 pode ser beneficiado com o controle intensivo. O tratamento intensivo
com múltiplas injeções de insulina/dia retardou o aparecimento e a
progressão de retinopatia, nefropatia e neuropatia em pacientes japoneses
com DM2. Outra revelação importante desse estudo foi a manutenção da
hemoglobina glicada em valores planos, no curso dos 6 anos de
acompanhamento dos pacientes com insulinoterapia. Algumas críticas
surgiram com relação ao número de pacientes acompanhados (110 pessoas)
e também devido ao uso de insulina no tipo 2 apenas.
ESTUDOS IMPORTANTES PARA O TRATAMENTO DO DIABETES TIPO 2
Um grande estudo – o United Kingdom Prospective Diabetes Study
(UKPDS) –, realizado com pacientes com DM2, foi apresentado e
publicado no final da década de 1990. Após 10 anos de acompanhamento,
foi verificada uma diferença de 11% entre as médias de hemoglobina
glicada entre os grupos convencional e intensivo. Essa diferença levou a
uma redução favorável de 6% ao grupo intensivo em todas as causas de
mortalidade, de 10% nas mortes relacionadas com o diabetes, de 12% em
qualquer end point relacionado com o diabetes e de 25% nas complicações
microvasculares, todas com significado estatístico. Houve uma queda de
16% na incidência de infarto do miocárdio favorável ao controle intensivo,
mas sem significado estatístico. Em uma análise posterior, que incluiu todos
os pacientes em tratamento (na análise anterior, eles foram separados em
grupos por tipo de medicamentos para o estudo), verificou-se que, para
queda de 1% na hemoglobina glicada, houve redução de 21% para qualquer
end point relacionado com o diabetes; 21% para mortes relacionadas com o
diabetes; 14% para infarto do miocárdio fatal e não fatal; 37% para
complicações microvasculares; e 43% para amputação ou óbito por doença
vascular periférica, todos estatisticamente significativos.35,36
O UKPDS mostrou ainda que a metformina foi a medicação que causou
menor ganho ponderal e, entre todas aplicadas no estudo, foi a única que
reduziu a mortalidade relacionada com o diabetes e outras causas entre os
obesos com DM2.37 A análise dos participantes do estudo, 10 anos após,
demonstrou que o grupo do controle intensivo continuava a apresentar menor incidência das complicações micro e macrovasculares, como se o
organismo tivesse uma “memória glicêmica”, isto é, quanto melhor o
controle no início do tratamento, os resultados a longo prazo também
seriam melhores.38 Diferentemente dos resultados do UKPDS, os estudos de
tratamento intensivo em pacientes que já apresentavam doença
cardiovascular (ACCORD, ADVANCE e VADT) não mostraram eficácia
do controle intensivo da hiperglicemia para diminuir a incidência de
eventos circulatórios.39-41
Mas, para considerar um paciente com DM2 controlado, é necessário
que ele tenha o perfil de lipídios, a pressão arterial e o peso também
controlados, juntamente com a glicemia. Hoje temos evidências, por meio
dos estudos clínicos, dos benefícios do emprego de medicamentos
específicos no controle dessas condições, quando as medidas higiênico-
dietéticas falham nesse propósito.
O estudo Steno 2 demonstrou que o controle intensivo da glicemia, da
pressão arterial, da dislipemia e o uso de aspirina levaram a diminuição na
mortalidade, na retinopatia e na insuficiência renal quando comparado ao
grupo controle.42 Estudos de prevenção primária (AFCAPS/TexCAPS com
a lovastatina) e secundária (CARE e LIPID com a pravastatina; 4S e 4S
Extended com a sinvastatina) com o uso dos inibidores da HMGCoA
redutase para redução de eventos cardiovasculares mostraram melhores
resultados entre os pacientes com DM 2, quando comparados com os
indivíduos não diabéticos.43-47 Com o uso de fibratos, os resultados não
foram significativos na prevenção primária (Helsinki Heart Study
Genfibrozil), apesar da expressiva redução de 68% de eventos
cardiovasculares no resultado final.48 Já na prevenção secundária, os
resultados foram significativos e, portanto, melhores (VA-HIT
genfibrozil).49 O controle da pressão arterial no UKPDS apresentou
resultados mais expressivos que o próprio controle glicêmico na redução de
complicações vasculares.50 Nesse aspecto, é importante o controle da
pressão tanto sistólica quanto diastólica.51,52 Por outro lado, o indivíduo com
DM2 sem complicações tem igual condição de apresentar infarto do
miocárdio como o não diabético que já teve um evento prévio.53 Logo, é
importante o emprego de outras medidas, na tentativa da redução dos
eventos cardiovasculares nessa população, como os agentes antiagregantes plaquetários. Existem evidências de que o seu uso em pacientes com alto
risco, como no diabetes, leva a redução significativa de eventos
cardiovasculares.54,55 O controle da obesidade com as drogas existentes é
pouco satisfatório em relação à perda e à manutenção do peso perdido a
médio e longo prazos.56 Porém, até mesmo pequenas perdas de 5% a 10%
do peso podem trazer benefícios no controle da glicemia, dos lipídios e da
pressão arterial.57
CONCLUSÃO
O DM2 hoje é reconhecido mundialmente como um grande problema
de saúde pública. Mas temos atualmente evidência de que ele pode ser
prevenido com modificações do estilo de vida ou, quando essas medidas
não forem possíveis de serem implementadas, com o uso associado de
medicamentos. O prolongamento do estudo Diabetes Prevention Program
demonstrou a permanência de benefícios com a mudança de estilo de
vida.57-62
A cirurgia bariátrica, destinada inicialmente para tratamento de
pacientes com obesidade grau 3, revelou-se eficaz em promover remissão
do diabetes, o que incentivou nos pesquisadores o estudo do papel do
intestino no metabolismo glicídico.63,64
Os estudos sobre o papel dos genes no DM2 ainda são inconclusivos.
Por outro lado, o papel da flora intestinal específica para cada pessoa tem
sido objeto de estudo,65 bem como o papel dos tecidos adiposos branco e
marrom.66,67 Finalmente, não se conseguiu ainda reverter as alterações
epigenéticas que contribuem muito para a epidemia da doença.
Em novembro de 2012, 2 importantes artigos foram publicados. Banakh
et al.68 conseguiram demonstrar, em animais com modelo para DM1, a
presença de células-tronco no pâncreas capazes de se diferenciar em células
beta. Russell et al.69 conseguiram desenvolver um sistema de alça fechada
em que ocorrem simultaneamente a aferição da glicemia e a infusão de
insulina ou glucagon, conforme o resultado dessa aferição, caracterizando
um “pâncreas artificial”.
Um longo caminho foi percorrido desde a descrição de Arataeus. No
entanto, é necessário que essa estrada nos leve ao conhecimento da imunologia que permita evitar a eclosão do diabetes do tipo 1 e da biologia
molecular, deslindar a patogenia do tipo 2 e a prevenção das complicações
e, quem sabe, a cura dessa enfermidade.
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