Rotinas de Diagnóstico e Tratamento do Diabetes Mellitus
14.6. Doença cardiovascular
Doença cardiovascular
Rodrigo Sá
Iara Atié
Ana Paula Reis Velloso Siciliano
Jacob Atié
INTRODUÇÃO
Radicalmente modificada no último século a partir do advento da
insulina, a história natural do diabetes mellitus (DM) substituiu a etiologia
metabólica (cetoacidose diabética) como causa principal de
morbimortalidade nesses pacientes pelas complicações vasculares.
Correlacionada a maior expectativa de vida dos pacientes acometidos
pelo diabetes, a incidência de eventos cardiovaculares continua aumentando
nesse grupo, e o tratamento dos pacientes diabéticos encontra a prevenção
das doenças cardiovasculares em suas diversas formas (doença coronariana,
cerebrovascular, arteriais periféricas e insuficiência cardíaca) como um dos
principais determinantes dos desfechos negativos.
Seja pela aterosclerose coronariana, pelo envolvimento
microangiopático, pela neuropatia autonômica, pela agressão direta ao
miocárdio ou por fatores ainda não esclarecidos, a gravidade e o
prognóstico da lesão cardíaca são piores em indivíduos com diabetes do que
em não diabéticos, e o infarto agudo do miocárdio (IAM) é extensamente documentado como principal causa de morte nesses pacientes, sobretudo
por grandes estudos populacionais.1-7
Apesar de estudos mais antigos sugerirem um risco cardiovascular
associado ao DM similar ao observado em pacientes não diabéticos com
IAM prévio (equivalente à doença coronariana), observações mais recentes
de ensaios clínicos, inclusive com pacientes com DM, sugerem redução no
risco cardiovascular, e aparentemente refletem maior eficácia das
intervenções terapêuticas contemporâneas nesse grupo de pacientes.8-10
O conhecido sinergismo dos demais fatores de risco cardiovascular com
a hiperglicemia justifica a necessidade da abordagem conjunta destas
comorbidades, bem como da busca ativa de lesões subclínicas controláveis.
Abordaremos, neste capítulo, os principais determinantes
fisiopatológicos dessa associação (DM e doença cardiovascular), a
investigação e o tratamento dos pacientes com DM e doença cardiovascular
conhecida e, por fim, a investigação e o manejo dos pacientes diabéticos
assintomáticos do ponto de vista cardiovascular.
ATEROSCLEROSE E DIABETES
O endotélio propriamente dito é, sem dúvida, o principal alvo da
perturbação vascular no diabetes. Seu funcionamento alterado (disfunção
endotelial), além de característico da doença vascular diabética, está
associado ao aumento dos desfechos adversos cardiovasculares e à
hipertensão.
Estão envolvidos nesse mau funcionamento do endotélio vascular, bem
como no quadro inflamatório local e sistêmico presentes nestes pacientes,
que justifica o encontro de placas de maior risco tanto em artérias
coronárias quanto em território carotídeo,11,12 fatores como:
■ A ativação do fator nuclear NFκB (mediador-chave na regulação de diversos genes-alvo pró-
inflamatórios e pró-ateroscleróticos nas células endoteliais).
■ A redução da produção de óxido nítrico.
■ O aumento na produção de espécies reativas de oxigênio. ■ O aumento dos produtos da peroxidação de lipídios. ■ A disfunção no componente dependente de endotélio para o relaxamento vascular. ■ O aumento da liberação de radicais livres.
Além da disfunção do endotélio, as células musculares lisas dos vasos,
os macrófagos derivados de monócitos e outros tipos celulares específicos
regionais (podócitos nos rins e pericitos na retina) parecem também ter
participação importante nos achados clínicos; estes últimos sobretudo na
doença microvascular.
Atribui-se à hiperglicemia a perda da propriedade de não adesividade do
endotélio, o que permite maior adesão de monócitos, fato este responsável
por um dos estágios mais precoces da aterogênese. A ativação de
metaloproteinases degradadoras da matriz também é atribuida à glicose,
enzimas estas implicadas na ruptura de placas e no remodelamento
arterial.13
Alterações patológicas na microvasculatura de pacientes com diabetes
alteram a perfusão de órgãos, sobretudo naqueles em que a perfusão é
altamente dependente dessa microcirculação, como é o caso da retina, dos
rins e dos órgãos do sistema nervoso periférico. Além disso, a doença
microvascular contribui também para a doença vascular periférica, para a
alteração da vascularização miocárdica e para a cicatrização de feridas.14
A principal alteração estrutural microvascular do paciente com diabetes
é o espessamento da membrana basal capilar, inclusive as arteríolas dos
glomérulos, miocárdio, músculo, pele e retina, que resulta na
microangiopatia diabética.
Outro ponto de destaque é o acometimento dos vasa vasorum, isto é, da
rede de pequenos vasos encontrada na adventícia e na camada média
externa de grandes artérias e da aorta.15 A neovascularização que ocorre
nestes vasos é mais um fator promotor da aterosclerose e preditor da ruptura
de placas.16
É difícil separarmos os efeitos relativos à dislipidemia versus
hiperglicemia na aterogênese. Sabe-se que a dislipidemia pode ser
exacerbada pela hiperglicemia, no entanto, alguns dados sugerem efeitos
possivelmente independentes da hiperglicemia sobre a aterosclerose.17,18
As dislipidemias são importantes fatores aterogênicos e muito
prevalentes nos diabéticos, sendo relacionadas fisiopatologicamente com a
doença. No diabetes, ocorre basicamente aumento de triglicerídeos, com
aumento da produção de lipoproteínas de muito baixa densidade (VLDL),
baixos valores plasmáticos de lipoproteína de alta densidade (HDL), níveis aumentados de lipoproteínas de baixa densidade (LDL) densas, pequenas e
glico-oxidadas. As partículas LDL são as mais aterogênicas e mais
suscetíveis à glico-oxidação. Quanto menores e mais densas, maior o
processo de formação da placa de ateroma.1,19
Por fim, perturbações no sistema proteofibrinolítico, na biologia
plaquetária, alterações na viscosidade plasmática, aumento da rigidez e
agregação das hemácias, entre outros, constituem um estado protrombótico
no paciente diabético, bem como um fator para o aceleramento do processo
de aterosclerose.19
A complexidade e a imbricação dos diversos mecanismos aqui
apontados tornam a compreensão da aterosclerose ainda difícil, havendo
lacunas importantes a serem preenchidas. Provavelmente, a expressão
multifenotípica das diversas etapas do processo da doença aterosclerótica
venha a ser definitivamente explicada por estudos na área da genética, que
definirão um deflagrador comum.
ALÉM DA ATEROSCLEROSE E DO DIABETES
Grande parte da “atenção cardiovascular” é voltada para o binômio
aterosclerosediabetes; no entanto, outros alvos e fatores de agressão
miocárdico são importantes e demandam nossa atenção: é o caso da cada
vez mais descrita cardiomiopatia diabética.
Indivíduos com diabetes apresentam fatores lesivos comuns associados
a disfunção miocárdica e risco de insuficiência cardíaca (p. ex., hipertensão,
hipertrofia ventricular esquerda, doença valvar, doença isquêmica e
fibrilação atrial); no entanto, o maior risco de alteração estrutural e
insuficiência cardíaca visto em pacientes com diabetes não é
completamente explicado por esses fatores, quando analisados
isoladamente. Um exemplo é a frequência de hipertrofia ventricular
esquerda (HVE): em torno de 10% em indivíduos sem DM e sem
hipertensão, 20% com diabetes isolado, 25% com hipertensão e 40% com
hipertensão e diabetes, o que mostra claramente os efeitos do sinergismo
sobre essa prevalência.
Em 1972, estudos de autópsia em diabéticos identificaram alterações
cardiológicas caracterizadas por HVE e sinais histopatológicos típicos da
chamada cardiomiopatia diabética.20 Cerca de 2/3 dos pacientes com
diabetes mellitus tipo 2 (DM2) desenvolvem cardiomiopatia diabética. A
cardiomiopatia se manifesta por disfunção sistólica, diastólica ou ambas,
com ou sem insuficiência cardíaca, e/ou por manifestação neuro-humoral.
O efeito direto da hiperglicemia e da resistência à insulina sobre o
metabolismo celular miocárdico pode contribuir para a disfunção
ventricular nesse grupo de pacientes,21 seja por alterações do tipo de
substrato metabólico utilizado em condições adversas e a consequente
produção de metabólitos lesivos, ou por acúmulo de triglicerídeos
miocelulares (esteatose miocárdica) com suas implicações metabólicas
(apoptose por lipotoxicidade), ou, ainda, por questões mecânicas funcionais
atribuídas ao aumento da massa miocárdica.22,23
CONSIDERAÇÕES CLÍNICAS NO INDIVÍDUO COM DIABETES E
CARDIOPATIA
■ Equivalência de risco: estudos clássicos da década de 1990, como o National Cholesterol
Education Program report from the United States e as diretrizes europeias,24,25 consideram o
DM2 um equivalente de doença coronariana; dados estes, como já referido neste capítulo,
questionáveis nos dias de hoje.
■ 26-33 34 Extensão da doença coronária: alguns estudos, mas não todos, referem extensão de
doença coronariana maior em pacientes com diabetes do que naqueles sem diabetes, o que
expressa maior número de acometimento multiarterial e maior número de vasos doentes. 30
Acometimento multiarterial também pode ocorrer em pacientes com DM2 assintomáticos,
particularmente nos que apresentam 2 ou mais fatores de risco coronarianos além do DM.35
■ Prevalência de doença assintomática: além do aumento no número de eventos
cardiovasculares, pacientes com DM2 apresentam maior taxa de doença coronariana
assintomática, conhecimento este baseado na avaliação da presença de maior taxa de calcificação
coronária em pacientes com DM2 por tomografia, para quantificação de escore de cálcio e por
indução de isquemia silenciosa em exames de imagem com estresse.36
■ Epidemiologia:
□ Mais de 75% das hospitalizações por complicações são atribuídos à doença cardiovascular, e
aterosclerose é a responsável por aproximadamente 80% da mortalidade nos pacientes com doença cardiovascular.
□ Comparados aos indivíduos não diabéticos, pacientes com diabetes têm 2 a 4 vezes mais risco
de desenvolver e morrer de doença coronariana.37
□ Pacientes com diabetes apresentam pior desfecho cardiovascular após síndromes coronarianas
agudas (SCA),38 gradiente este que se manteve em todas as eras do tratamento das SCA (pré
ou pós-unidade coronariana, trombolítica, percutânea).38
O diagnóstico de diabetes prenuncia risco 2 vezes maior de acidente vascular encefálico
□ (AVE), comparado com pacientes não diabéticos, além de trazer risco 2 a 6 vezes maior de
desfecho clínico adverso após o AVE.39
□ Entre pacientes com doença arterial periférica sintomática, a prevalência do diabetes varia de
20% a 30%, e está mais associado à necessidade de amputações de extremidades.40
□ A insuficiência cardíaca congestiva também apresenta maior prevalência em pacientes com
diabetes, com risco aumentado em 600% nos homens e 900% nas mulheres, sendo a principal
causa de hospitalização e se associa a pior prognóstico nesse grupo de pacientes.41,42
TRATAMENTO DO INDIVÍDUO COM DIABETES E CARDIOPATIA
Assim como em qualquer doença, o manejo clínico do paciente com
diabetes e cardiopatia demanda não apenas o conhecimento das melhores
drogas e dos seus potenciais benefícios, mas também compreensão, por
parte do paciente, do seu estado mórbido e potenciais problemas, e, por
parte do médico, das necessidades, preferências e tolerância de cada um dos
pacientes. O tratamento baseado em metas é importante, mas sua adequação
à realidade de cada paciente é fundamental. Hoje a palavra individualização
ganha espaço e a diversidade de terapias disponível permite essa
abordagem.
O tratamento do paciente com diabetes e cardiopatia diabético deve ser
feito antes mesmo do aparecimento da doença, por meio da tentativa de
eliminação dos fatores de risco cardiovascular e do controle da
hiperglicemia. Uma vez estabelecida a cardiopatia, algumas medidas extras
deverão ser seguidas.
Controle glicêmico
Durante muito tempo, a aprovação de drogas úteis no tratamento do DM
baseou-se na observação das suas capacidades em reduzir os níveis de
glicose, sem a necessidade de demonstração da sua eficácia em desfechos
clínicos. No entanto, a política regulatória sobre as drogas utilizadas no
diabetes vem mudando e justificando a avalanche de estudos clínicos
focados nos desfechos cardiovasculares associados a estas terapias.43
Desde o estudo UPKDS (United Kingdom Prospective Diabetes Study –
1997), já se encontra bem estabelecido que o controle glicêmico intensivo
diminui significativamente a incidência de complicações microvasculares,44 bem como que o efeito do controle glicêmico sobre a doença macrovascular
ainda é controverso, embora se defenda a necessidade de sua obtenção.
Diversas sociedades, como a American Diabetes Association (ADA), a
American Heart Association (AHA) e o Americam College of Cardiology
(ACC), continuam a recomendar um tratamento que vise à hemoglobina
glicada (HbA1c) < 7%, com base nesses benefícios microvasculares,45 com
incertezas quanto ao benefício sobre o risco cardiovascular e sem
evidências com relação a desfechos cardiovasculares que justifiquem a
busca por um alvo menor.
Pilar na recomendação dessas sociedades, a metformina permanece
como terapia de escolha para todos os pacientes, desde que não haja
contraindicação, e a terapia combinada, podendo incluir o uso precoce de
insulina, o caminho para a obtenção do alvo sobre o valor de hemoglobina
A1c.
Entre as demais considerações estão os benefícios cardiovasculares da
pioglitazona e o ainda nebuloso risco aumentado de infarto pelo uso da
rosiglitazona,46,47 com ressalvas sobre o risco de ganho de peso, edema de
membros inferiores e insuficiência cardíaca dessa classe de drogas
(tiazolidinedionas),48 o risco de ganho de peso e hipoglicemia com o uso
tanto de insulinas quanto de secretagogos, bem como a falta de dados sobre
a eficácia e a segurança neste grupo de pacientes das novas drogas
disponíveis.
Modi cação dos fatores de risco
A modificação do risco cardiovascular, seja como intervenção primária
ou secundária, beneficia os pacientes com diabetes tanto quanto, ou mais,
os que não têm diabetes. Ela inclui alterações no estilo de vida, com o
objetivo da perda de peso; atividade física regular; interrupção do
tabagismo e controle dietético.
Tratamento da hipertensão arterial
O objetivo a ser atingido deve ser pressão arterial (PA) de 130 mmHg ×
80 mmHg.49 Estudos demonstraram não haver benefícios extras com a
diminuição da PA abaixo desses valores.50 Todas as classes de anti-hipertensivos podem ser utilizadas, sendo frequentemente necessárias
associações de 2 ou mais drogas.49
Apesar dessas evidências, o controle adequado dos fatores de risco é
raramente alcançado. Mesmo a melhora parcial de um fator de risco pode
ter um benefício considerável. Assim, todos os esforços devem ser dirigidos
na tentativa de se modificar o estilo de vida desse grupo de pacientes de alto
risco cardiovascular.
Tratamento da dislipidemia
Apesar da vasta tentativa de controle de triglicerídeos e HDL com
diversas drogas, seu benefício sobre o risco cardiovascular permanece
obscuro, e o foco segue sobre as medidas e intervenções para controle de
LDL colesterol.51
Modificações no estilo de vida, com perda de peso (se indicada) e
atividade física regular, devem ser recomendadas para melhora do perfil
lipídico de pacientes com diabetes.52
São considerados pacientes com DM e de baixo risco os que têm LDL
colesterol < 100 mg/dL; HDL colesterol > 50 mg/dL, e triglicerídeos < 150
mg/dL.52
As recomendações atuais para tratamento da dislipidemia em pacientes
com DM estão descritas no Capítulo 15.1.
Interrupção do tabagismo
Deve-se recomendar a todos os pacientes que parem de fumar ou de
utilizar produtos à base de tabaco, podendo, para isso, ser oferecido
tratamento específico hoje bastante difundido.52
Ácido acetilsalicílico
O uso rotineiro do ácido acetilsalicílico (AAS) deve ser recomendado
aos pacientes adultos com DM, com risco cardiovascular elevado (risco >
10% de doença cardiovascular em 10 anos), o que inclui a maioria dos
homens com mais de 50 anos e mulheres com mais de 60 anos, com pelo
menos um fator de risco adicional (história familiar de doença
cardiovascular, hipertensão, tabagismo, dislipidemia ou albuminúria).52 Essa
simples intervenção previne diversos eventos cardíacos e mortes.
As recomendações atuais não mais indicam o uso do AAS para todos os
pacientes com DM.52 Em pacientes com risco intermediário, como jovens
com um ou mais fatores de risco ou idosos sem fatores de risco, o
julgamento clínico deve ser feito individualmente, até que mais pesquisas
estejam disponíveis.
Deve ser recomendado aos pacientes com conhecida alergia ao AAS o
uso de 75 mg de clopidogrel 1 vez ao dia.
A ADA recomenda o uso de Aspirina (75 a 162 mg/dia) deve ser
considerada como estratégia de prevenção primária em pacientes com DM1
ou DM2 e risco cardiovascular aumentado (risco em 10 anos >10%). Isso
inclui a maioria dos homens > 50 anos e mulheres > 60 anos com pelo
menos um fator de risco maior adicional (história familiar de doença
cardiovascular, hipertensão arterial, tabagismo, dislipidemia ou
albuminúria). Em pacientes abaixo destas faixas etárias com múltiplos
fatores de risco (p. ex., risco em 10 anos entre 5 e 10%), o uso de aspirina
deve ser recomendado de acordo com o julgamento clínico. Em homens <
50 anos e mulheres < 60 anos com risco de doença cardiovascular em 10
anos < 5%, o risco de eventos adversos por sangramento ultrapassa os
benefícios do uso da droga. Aspirina deve ser utilizada como estratégia de
prevenção secundária em todos os pacientes com DM e história de doença
cardiovascular. Para pacientes com doença cardiovascular e alergia a
aspirina, clopidogrel 75 mg/dia deve ser utilizado. Terapia antiplaquetária
dupla é razoável por até um ano após a síndrome coronariana aguda.66
β-bloqueadores
Devem ser prescritos, quando bem tolerados e na ausência de
contraindicações, a todos os pacientes com DM e IAM prévio.53
Diversos estudos demonstram redução 2 vezes maior no risco relativo
de morte e nas taxas de reinfarto após IAM com o uso de β-bloqueadores,
quando comparados aos sem DM.41
As alterações que podem provocar no metabolismo glicídico e lipídico,
assim como a possibilidade de se mascararem sintomas de hipoglicemia, não devem ser consideradas contraindicações ao seu uso em pacientes com
diabetes do tipo 2.
Inibidores da enzima conversora de angiotensina
O estudo HOPE demonstrou que o ramipril reduz significativamente o
risco de morte por eventos cardiovasculares, IAM e mortalidade geral em
pacientes de elevado risco cardiovascular que não apresentem insuficiência
cardíaca congestiva associada.53 Outro estudo, o SECURE, demonstrou que
o ramipril também reduz o processo de aterosclerose.54
Esses resultados sugerem que o sistema renina-angiotensina-aldosterona
representa um papel central no desenvolvimento e na progressão da
aterosclerose, exercendo ações diretas nos vasos sanguíneos, além dos seus
efeitos hemodinâmicos. Assim, pacientes com qualquer evidência de
aterosclerose seriam considerados de alto risco e se beneficiariam da
inibição do sistema renina-angiotensina-aldosterona.55,56
Isso é particularmente importante, se lembrarmos que os pacientes com
DM apresentam anormalidades no metabolismo lipídico, com elevado risco
aterogênico.
Com base nessas evidências, deve-se considerar fortemente o uso de
inibidores da enzima de conversão de angiotensina (IECA) nesses
pacientes, sendo o medicamento de primeira escolha naqueles com
hipertensão arterial sistêmica e na presença de microalbuminúria.
Bloqueadores de receptor de angiotensina
Diversos estudos têm mostrado evidências de benefício na ação dos
bloqueadores de receptor de angiotensina (BRA) sobre eventos
cardiovasculares. O estudo LIFE (Losartan Intervention for Endpoint
Reduction), em DM2 com nefropatia, comparou, de forma randomizada,
1.195 pacientes hipertensos com sinais eletrocardiográficos de sobrecarga
esquerda em uso de losartan versus atenolol, considerando, como evento
cardiovascular, IAM, AVE e morte. Embora o controle da PA fosse
semelhante nos 2 grupos, o risco relativo para os eventos foi menor para o
grupo losartan (0,76), assim como para a mortalidade geral (0,61).57 INDICAÇÕES DE RASTREAMENTO DE DOENÇA ARTERIAL
CORONARIANA
A diretriz prática da ADA, alinhada com a maior parte dos estudos de
risco cardiovascular em diabetes, com destaque para um estudo de coorte
populacional retrospectivo, de quase 10 milhões de adultos (380 mil com
DM) em Ontário, Canadá, considera que a transição para o alto risco
cardiovascular ocorra a partir dos 40 anos de idade em pacientes com DM,
tanto tipo 1 quanto tipo 2.52,58,59
Somado ao aumento do risco cardiovascular, pacientes com DM2
apresentam ainda alta taxa de doença arterial coronariana assintomática,
quando comparados com a população geral, fatos estes que levantaram a
possibilidade de haver benefício no rastreamento de pacientes com DM
assintomáticos para doença coronariana.35
A incidência de doença coronariana assintomática no diabetes tem sido
avaliada por uma grande variedade de exames diagnósticos, entre eles o
escore de cálcio e a angiografia não invasiva para a detecção de
aterosclerose (feitas por tomografia computadorizada), testes de esforço
com ou sem a associação de imagem (para pesquisa de isquemia) e
coronariografia por cateterismo (método invasivo e padrão-ouro). No
entanto, uma pergunta se impõe frente a essa investigação: o que fazer com
o resultado? Isto é, a intervenção frente a um exame positivo melhora o
desfecho clínico?
Os potenciais benefícios prognósticos da intervenção terapêutica mais
agressiva (aspirina), do controle da dislipidemia e dos demais fatores de
risco, ou até a revascularização miocárdica mais precoce, podem ser
questionados, uma vez que muitos desses tratamentos já devem fazer parte
do manejo desses pacientes frente ao alto risco cardiovascular inerente ao
diabetes, na realidade, não se modificando com a detecção de doença
assintomática propriamente dita.
São escassas e controversas, até o presente momento, as evidências de
que a intervenção em pacientes com DM assintomáticos e com achados de
alto risco em testes de estresse melhorem os desfechos de morte cardíaca ou
IAM não fatal. Além disso, não existem dados de peso que suportem o
benefício do rastreamento de pacientes assintomáticos com DM2 para a busca de isquemia miocárdica silenciosa, enquanto achados de estudos
retrospectivos observacionais e um pequeno estudo randomizado não cego
sugerem possível benefício.60,61 Trabalhos extensos como o DIAD
(Detection of Ischemia in Asymptomatic Diabetics) não demonstram esses
benefícios.62
Alguns critérios gerais são importantes na escolha dos pacientes e dos
métodos a serem utilizados para rastreamento:
■ A prevalência de doença coronariana deve ser suficientemente alta. ■ O teste utilizado deve ser capaz de, acuradamente, diferenciar pacientes de alto e baixo risco
cardiovascular (consideração importante é que o bom prognóstico de um teste de baixo risco não
pode ser aplicado para pacientes com DM após 2 anos).
■ A identificação de pacientes de risco deve orientar tratamentos com melhores desfechos. ■ A estratégia deve ser custo-efetiva.
Fato é que a abordagem mais custo-efetiva de rastreamento e prevenção
de eventos cardiovasculares no DM assintomáticos ainda é objeto de muito
debate.63,64 Sendo assim, o que recomendam as principais sociedades?
■ 52 ADA: não recomenda o rastreamento rotineiro em pacientes com DM assintomáticos, uma vez
que esse procedimento não se mostrou melhor do que apenas o tratamento agressivo dos fatores
de risco.52 No entanto, alguns pacientes de alto risco podem ser candidatos ao rastreamento com
testes provocativos, caso haja história de doença arterial periférica ou doença carotídea.
Recomenda-se uma verificação anual do risco cardiovascular para identificar pacientes que se
beneficiarão de tratamento com aspirina, IECA ou estatinas, mas não se orienta que esse critério
seja utilizado para a identificação de pacientes candidatos a testes provocativos. Vê-se no escore
de cálcio e na angiotomografia das coronárias um recurso útil e não invasivo, mas que ainda
carece de validação para seu maior uso. Pacientes com sintomas típicos ou atípicos ou, ainda,
com eletrocardiograma basal alterado, devem ser referenciados à investigação complementar.
■ American College of Cardiology e American Heart Association: em sua diretriz de teste
ergométrico de 2002, faz uma conclusão questionável, mas que orienta a avaliação de esforço em
pacientes com DM, assintomáticos, que planejam iniciar um programa de exercícios vigorosos.65
VASCULOPATIA PERIFÉRICA NO PACIENTE DIABÉTICO
Os pacientes com DM desenvolvem alterações vasculares mais extensas
e mais graves do que os indivíduos não diabéticos. O risco de arteriopatia
periférica oclusiva associada ao diabetes aumenta significativamente em
razão direta da idade do paciente e da duração do diabetes. Oito por cento
dos pacientes têm evidência clínica de arteriopatia no momento que se
sabem diabéticos, chegando a 45% 20 anos mais tarde.53 As lesões arteriais
não se diferenciam anatomopatologicamente da aterosclerose, mas algumas
peculiaridades clínicas permitem o estabelecimento do conceito de
macroangiopatia diabética, que consiste no acometimento de grandes e
médias artérias, e também de microangiopatia muito característica.
Macroangiopatia
Em virtude da íntima relação entre diabetes e vasculopatias, às vezes
pouco sintomáticas, em todo indivíduo com DM é imprescindível procurar
uma lesão arterial, mesmo sem expressão clínica, pela existência de maior
risco para a doença nesses pacientes. Nos indivíduos com arteriopatia
oclusiva crônica, a procura sistemática de diabetes é indispensável.
As arteriopatias dos diabéticos entram na classificação geral da
aterosclerose, mas nelas apresenta algumas peculiaridades. De acordo com
Leriche, o diabetes leva a quadro mais precoce de aterosclerose. E, de fato,
em várias arteriografias pode-se notar similitude entre as lesões arteriais do
idoso e as do indivíduo com DM ainda jovem. Geralmente admite-se que
nestes casos a aterosclerose é mais difusa, mas grave, e se manifesta em
uma idade mais precoce (aproximadamente 10 anos antes).
A arteriopatia no DM se caracteriza por:
■ Acometimento frequente da artéria femoral profunda, que é um fator importante no aumento do
risco de amputação.
■ Acometimento mais frequente das artérias tibiais e fibulares, que dificulta os procedimentos de
revascularização.
Existe um grau importante de calcificação da média, que dificulta as
suturas cirúrgicas e altera de maneira intensa a complacência da parede
arterial.
A par do processo de envelhecimento, é preciso destacar o papel do
hiperinsulinismo nos indivíduos com DM2 obesos não insulinodependentes:
a insulina favorece a proliferação das células musculares da camada média
da parede arterial e do tecido conjuntivo.
A calcificação arteriolar da média é mais frequente em pacientes com
DM, e considera-se relacionada com a disfunção autonômica. Acredita-se
que o desenvolvimento da calcificação da média arterial seja devido à desnervação autonômica da íntima e da média das artérias musculares
pequenas. O aumento da calcificação da média tem sido descrito após
simpatectomia.
Microangiopatia
A desnervação autonômica altera a homeostase microcirculatória. A
alteração do mecanismo de controle inclui aumento das ligações
arteriovenosas, distribuição disfuncional entre perfusão capilar e fluxo
sanguíneo e alteração da vasoconstrição postural, que leva à hipertensão
capilar postural e à formação de edema, prejudicando a resposta hiperêmica
cutânea para a lesão.
Abordagem do paciente
A ausência quase total de queixas faz com que muitas vezes se
subestime a gravidade da doença arterial oclusiva no diabético, e pode
mesmo faltar a claudicação intermitente, um dos mais importantes sintomas
reveladores de arteriopatia. Por isso, com a finalidade de detecção precoce
das alterações vasculares, a AHA e a ADA recomendam que os pacientes
diabéticos sejam submetidos pelo menos 1 vez por ano a um exame
vascular, independentemente da presença ou não de lesões tróficas ou de
qualquer sintoma.52,65
A verificação da PA do 1o pododátilo pode evidenciar, de forma precisa
e reprodutível, a pressão de perfusão do pé na ocorrência de calcificação da
média das artérias tibiais. O exame é muito útil, uma vez que nas artérias
digitais ocorre menos o processo de calcificação da média.
Exames complementares
■ Doppler arterial dos membros inferiores, com verificação das pressões segmentares. A PA pode
estar falseada pela presença de calcinose da média, que, ao modificar a elasticidade da parede
arterial, a torna menos compressível.
■ Ecocolor Doppler: para uma avaliação arterial troncular completa. ■ Em caso de isquemia, com ou sem a presença de alteração trófica, verificar a pressão de oxigênio
pela via transcutânea.
■ Radiografia dos dois pés, de frente e de perfil, para avaliar complicações osteoarticulares e sinais
de osteomelite, uma vez que esses achados alteram o prognóstico e influenciam a decisão quanto
a um tratamento mais conservador ou mais radical.
■ Arteriografia: como procedimento pré-cirúrgico. Devem ser tomadas precauções relacionadas
com hidratação adequada e proteção da função renal.
■ Na prática, as lesões das grandes, médias e pequenas artérias foram definidas pela arteriografia,
que permitiu identificar certas imagens muito sugestivas do diabetes.
■ Calcificações arteriais: visíveis mesmo em raios X simples, sem contraste, frequentes nos
idosos, elas devem suscitar uma investigação sistemática do DM quando observadas em pacientes
com idade < 45 anos. Trata-se de calcificação da média, que atinge particularmente as artérias do
tipo muscular ou musculoesquelética, provavelmente por degradação das fibras elásticas.
■ Acometimento preferencial das artérias de pequeno e médio calibres: nota-se que o tipo
lesional do diabético se aproxima do observado habitualmente nas artérias dos idosos, o que
sugere nos pacientes um processo de envelhecimento prematuro. Nas formas mais típicas, os
grandes troncos arteriais estão geralmente preservados e a localização da aterosclerose nas
artérias distais, principalmente as artérias das pernas, é muito característica do DM. As imagens
arteriográficas do tripé da perna são notadamente sugestivas.
■ Acometimento das vias colaterais: o acometimento das artérias colaterais é frequente no curso
do diabetes.
As lesões das artérias do pé merecem atenção especial. Os principais
sinais clínicos são:
■ Predominância de lesão distal.
■ Concomitância de neuropatia sensitiva e motora. ■ Formas assintomáticas mais frequentes.
■ Menor resistência à infecção.
■ Calcinose da média.
■ Evolução rápida e frequente para alterações tróficas. ■ Taxa de amputação muito elevada.
Tratamento da arteriopatia periférica
Informação
■ Conversar com o doente, para educá-lo em relação aos cuidados preventivos necessários. Sempre
que possível, orientá-lo também por escrito.
■ Enfatizar a importância de parar de fumar. ■ Recomendar que os pés sejam mantidos limpos e secos, especialmente na região interdigital.
Cuidados com as unhas e regiões periungueais. Aconselhar a não cortar as cutículas nem usar
soluções abrasivas para remover calosidades.
■ Alertar sobre o perigo do uso direto do calor. Um dos sintomas comuns nos pacientes com
arteriopatias oclusivas é o esfriamento apreciável da extremidade afetada. É natural que o doente
ou os familiares apliquem calor na extremidade fria para aquecê-la, levando a dano tecidual
grave: queimaduras e necroses.
■ Salientar a atenção necessária na escolha do calçado adequado:
□ Proteção contra pressão excessiva sobre o calcâneo ou sobre proeminências ósseas, como os
maléolos.
□ Não usar sandálias sustentadas entre os dedos.
□ Examinar o interior dos sapatos antes de calçá-los.
□ Não andar com os pés descalços.
■ Tratar imediatamente a menor escoriação cutânea capaz de aumentar a probabilidade de infecção
grave, que pode levar a osteomielite e amputação. A presença de uma úlcera é um marco na
evolução dos pacientes com DM.
Tratamento medicamentoso
■ Controle da hipertensão arterial: a hipertensão arterial associada ao DM aumenta em 2,5 vezes
o risco de macroangiopatia no homem, e em mais de 5,5 vezes na mulher. Deve-se evitar queda
tensional importante, o que poderia provocar baixa do débito da perfusão distal e agravamento da
arteriopatia periférica.
■ Medicamentos vasoativos que se propõem a agir nas condições hemorreológicas e na
agregação plaquetária: pentoxifilina, buflomedil e prostanoides.
■ Antitrombóticos, heparina e os antivitamina K facilitam a cicatrização das alterações tróficas e
mostram tendência para diminuir a frequência de amputações maiores.
■ Antibioticoterapia em caso de infecção.
■ Tratamento cirúrgico, principalmente em caso de alterações tróficas importantes.
RECOMENDAÇÕES DA AMERICAN DIABETES ASSOCIATION PARA
PACIENTES COM DOENÇA CARDIOVASCULAR
As diretrizes da ADA de 2014 indicam uso de IECA, aspirina e
estatinas em todos pacientes com doença cardiovascular conhecida, para
redução de eventos cardiovasculares (exceto se estas drogas forem
contraindicadas). Recomenda-se ainda uso de β-bloqueadores em pacientes
com IAM prévio, por pelo menos 2 anos após o evento. Em pacientes com
insuficiência cardíaca sintomática, tratamento com tiazolidinedionas deve
ser evitado. Em pacientes com insuficiência cardíaca estável, metformina
pode ser usada se a função renal estiver preservada, mas a droga deve ser
evitada em pacientes instáveis ou hospitalizados.52
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