Rotinas de Diagnóstico e Tratamento do Diabetes Mellitus
13. Complicações agudas no diabetes mellitus
Complicações agudas no diabetes mellitus
Bianca Barone
Lenita Zajdenverg
INTRODUÇÃO
Apesar de ser uma doença crônica, o diabetes mellitus (DM) pode
cursar com diversas complicações agudas em sua evolução, seja logo ao
diagnóstico ou ao longo do tempo da doença. Dentre elas, merecem
destaque a cetoacidose diabética (CAD), o estado hiperosmolar não cetótico
(EHNC), a hipoglicemia, a acidose láctica e algumas complicações
infeciosas. Além disso, outras patologias agudas podem interferir
agudamente nos níveis glicêmicos dos pacientes com DM, como o infarto
agudo do miocárdio (IAM), as queimaduras extensas e o acidente vascular
cerebral (AVC). Nesses casos, pode haver o surgimento de CAD ou pode
ainda ocorrer descompensação glicêmica sem CAD, mas que merece
atenção especial e cuidado adequado, de modo a não aumentar a
morbimortalidade secundária à patologia intercorrente e para evitar
evolução para CAD.
CETOACIDOSE DIABÉTICA E ESTADO HIPEROSMOLAR NÃO CETÓTICO
A CAD e o EHNC são as complicações agudas metabólicas mais graves
que podem acometer os pacientes com DM. A diferenciação entre ambas
recai na presença ou não de acidose. Na CAD, há acidose metabólica em graus variáveis, dependendo da gravidade da CAD, enquanto no EHNC não
há acidose metabólica. A diferenciação entre elas encontra-se na Tabela
13.1.
A CAD cursa com hiperglicemia, acidose metabólica, desidratação e
cetose, com deficiência profunda de insulina, e acomete principalmente
pacientes com DM tipo 1 (2/3 dos casos de CAD), mas também acomete
DM tipo 2 (em 34% dos casos de CAD). Diversos são os fatores
precipitantes da CAD, como infecções e omissão da aplicação da insulina.
Outra possibilidade é que a CAD seja a manifestação inicial do DM1 ou
DM2. Isso pode ocorrer em cerca de 3% a 40% dos DM1. A maioria dos
casos de CAD ocorre entre 18 e 44 anos, mas pode ser visto em outras
faixas etárias em menor proporção. A CAD é a principal causa de morte em
crianças e adolescentes com DM1 e corresponde a 50% das causas de óbito
em paciente com DM com menos de 24 anos. Em adultos, a mortalidade
por CAD é baixa (cerca de 1%), ficando mais elevada caso haja alguma
comorbidade (chegando a cerca de 5% de mortalidade). Já o EHNC cursa
com hiperglicemia grave, hiperosmolaridade e desidratação, sem a presença
de cetose e acidose. Diferentemente da CAD, a mortalidade por EHNC é
mais elevada, chegando a cerca de 5% a 20%. Em ambas as complicações
agudas, o prognóstico piora caso ocorra em extremos etários e na presença
de hipotensão, coma e comorbidade graves.
Tabela 13.1 Critérios diagnósticos de CAD e EHNC
CAD leve CAD moderada CAD grave EHNC
Glicemia (mg/dL) > 250 > 250 > 250 > 600
pH arterial 7,25 a 7,30 7,0 a 7,24 < 7,0 > 7,30
Bicarbonato sérico 15 a 18 10,0 a 14,9 < 10,0 > 18,0
(mEq/L)
Anion gap >10 >12 >12 Variável
Cetonúria* Positiva Positiva Positiva Fraca
Cetonemia Positiva Positiva Positiva Fraca
Osmolaridade sérica Variável Variável Variável >320 mOsm/kg
Nível sensorial Alerta Alerta/sonolento Estupor/coma Estupor/coma
* Pelo teste do nitroprussiato. Adaptada de Kitabchi et al., 2009.
Os fatores precipitantes principais da CAD e do EHNC estão
representados na Tabela 13.2. Os mais frequentes são as infecções
(principalmente as de origem pulmonar) e a omissão de insulina. A CAD
pode ser ainda a forma clínica inicial do diagnóstico de DM1 e de DM2. No
caso de DM2, em alguns indivíduos, mais frequentemente de etnia
hispânica ou africana, há peptídeo C em níveis normais (logo, preservação
de função pancreática endócrina), ausência de anticorpos pancreáticos
associados ao DM1 e controle glicêmico adequado sem utilização de
insulina após o episódio de CAD. Esses casos denominam-se de DM2
propenso à cetose ou diabetes flatbush. O uso de cocaína pode ser um fator
de CAD recorrente.
Sobre a associação de CAD ao uso dos sistemas de infusão subcutânea
contínua de insulina (SICI), acredita-se que, com a melhora da tecnologia e
da educação em diabetes, cada vez menos casos de CAD em usuários
desses SICI venham a ser relatados. Contudo, ainda não existem estudos
controlados que mostrem redução da incidência dessa complicação aguda.
Como o montante de insulina presente no subcutâneo dos usuários de SICI
é pequeno, o surgimento de CAD pode ser rápido.
A CAD pode ocorrer em usuários de SICI em função de problemas na
bomba ou extrínsecos à bomba, como:
■ Obstrução ou posicionamento incorreto da cânula de infusão. ■ Presença de dobras ou bolhas no circuito de infusão. ■ Bateria fraca.
■ Presença de infecção no local da cânula.
■ Término de insulina no sistema de infusão, sem troca do cartucho ou permanência desacoplado
da bomba por longos períodos, sem uso de insulina compensatória por via convencional.
A fisiopatologia da CAD é mais bem conhecida, enquanto a do EHNC
não é totalmente elucidada. Sabe-se que no EHNC há nível de desidratação
maior que na CAD, além de haver algum nível circulante de insulina (seja
endógeno ou exógeno), o que não ocorre na CAD. Apesar de ser em nível
insuficiente para controlar a glicemia, consegue-se evitar a lipólise e a
cetogênese que ocorrem na CAD (ver adiante).
Na CAD, ocorre deficiência profunda de insulina, de modo absoluto ou
relativo, além de haver importante elevação de hormônios
contrarreguladores, como glucagon, cortisol, hormônio de crescimento
(GH) e catecolaminas, que levam ao surgimento de hiperglicemia, cetose e
elevação de ácidos graxos circulantes. A hiperglicemia se deve ao fato de
ocorrer aumento da gliconeogênese e da glicogenólise, além de haver queda
da utilização periférica de glicose. Essa hiperglicemia leva à
hiperosmolaridade plasmática, com surgimento de desidratação celular.
Além disso, o limiar renal de absorção de glicose é ultrapassado, levando à
glicosúria e à diurese osmótica, o que contribui para a desidratação celular.
Estima-se que haja perda de aproximadamente 5% a 10% do peso corporal
durante um episódio de CAD. O elevado nível de ácidos graxos circulantes
decorre do aumento da lipólise no tecido adiposo e pode contribuir com o
surgimento de resistência periférica à insulina de modo transitório. Ocorre
também aumento da β-oxidação hepática, a qual gera corpos cetônicos (β-
hidroxibutirato e acetoacetato), levando à cetonemia e à acidose metabólica.
Além dessas alterações metabólicas, tem-se demonstrado um estado de
hipercoagulabilidade associado aos estados de hiperglicemia. Isso porque
ocorre elevação de citocinas pró-inflamatórias (como TNF-α, IL-6, IL-8,
IL-β), elevação de espécies reativas de oxigênio e de proteína C reativa.
Tabela 13.2 Fatores precipitantes de CAD e EHNC
Omissão de insulina
AVC, IAM, TEP, pancreatite aguda, traumatismo
Choque, hipovolemia, queimaduras, isquemia mesentérica
Patologias associadas (acromegalia, hemocromatose, hipertireoidismo)
Gestação
Forma clínica inicial
Infecção (principalmente pulmonares)
Uso de medicamentos corticosteroides, diuréticos (tiazídicos, clortalidona), agentes simpaticomiméticos (albuterol, dopamina,
dobutamina, terbutalina, ritodrina), bloqueadores α-adrenérgicos, bloqueadores β-adrenérgicos, pentamidina, inibidores de
protease, somatostatina, fenitoína, antipsicóticos atípicos (loxapina), glucagon, interferon, bloqueador de canal de cálcio,
clorpromazina, diazóxido, cimetidina, encainida, ácido etacrínico
Abuso de substâncias (álcool, cocaína)
Transtornos alimentares (compulsão alimentar, bulimia)
Problemas no sistema de infusão contínua de insulina
Restrição hídrica importante (idosos com EHNC)
Adaptada de Barone et al., 2007.
AVC = acidente vascular cerebral ; IAM = infarto agudo do miocárdio; TEP = tromboembolismo pulmonar.
A CAD é de instalação aguda, enquanto o EHNC se processa em dias a
semanas. Classicamente, ambas as descompensações agudas podem se
manifestar com poliúria, polidipsia, perda de peso, polifagia, vômitos,
desidratação, fraqueza e alteração do sensório. Além disso, sintomas
inespecíficos podem dificultar o grau de suspeição diagnóstica, como
cefaleia, parestesias, mal-estar, dor abdominal (esta principalmente nos
casos de CAD, em mais de 50% dos casos), sintomas neurológicos focais
(como hemianopsia ou hemiparesia) ou convulsões (focais ou
generalizadas), sendo essas 2 últimas mais frequentes no EHNC. A dor
abdominal pode ser em decorrência de um fator desencadeante,
principalmente em pacientes jovens ou na ausência de acidose grave. Ao
exame físico, os achados mais frequentes são redução do turgor cutâneo,
taquicardia, hipotensão e respiração de Kussmaul (nos casos de CAD).
Pode ainda ser encontrado nos casos de CAD o hálito cetônico (de “maçã passada”). Em relação à alteração do sensório, há grande variabilidade de
apresentação desde um estado alerta normal até letargia grave e coma,
sendo este mais frequente em casos de EHNC. Em função da vasodilatação,
o paciente pode se apresentar normotérmico ou hipotérmico, mesmo em
vigência de processo infecioso.
Em relação à investigação laboratorial, deve-se inicialmente buscar a
diferenciação entre CAD e EHNC, conforme demonstrado na Tabela 13.1.
Ambos cursam com hiperglicemia, sendo esta mais marcante no EHNC
(geralmente > 600 mg/dL) do que na CAD (> 250 mg/dL). No EHNC, não
se evidencia acidose (pH > 7,3, com bicarbonato > 18 mEq/L), mas há
marcante hiperosmolaridade sérica (> 320 mOsm/kg). Já na CAD, há
acidose metabólica, que é determinante da gravidade do quadro, com
cetonemia e cetonúria.
A glicemia pode ser mais baixa em crianças, pacientes em jejum
prolongado, em uso de biguanidas ou ainda no período gestacional. Em
contrapartida, tende a ser mais elevada em idosos. Curiosamente, cerca de
10% dos casos de CAD podem ser euglicêmicos, com glicemia < 250
mg/dL. A restrição alimentar durante o quadro, a administração de insulina
no caminho até o hospital ou a inibição da gliconeogênese por
medicamentos, na gestação e nos idosos podem ser fatores que levam à
redução da glicemia.
Em relação à avaliação da cetonemia, deve-se lembrar de que o teste
ainda mais difundido é o realizado exclusivamente com a reação com o
nitroprussiato de sódio, com o qual apenas são dosados o acetoacetato e a
acetona. Como o β-hidroxibutirato (BHB) é o corpo cetônico principal na
CAD, os resultados podem não ser fidedignos. Os testes com execução
similar à glicemia capilar são de fácil realização e podem contribuir
principalmente nos casos de CAD euglicêmica. Esses testes podem também
ser de grande utilidade para que os próprios pacientes realizem em casa
(assim como os testes de cetonúria), em caso de glicemia elevada (≥ 300
mg/dL ou até menos, a critério clínico) ou na vigência de estresse ou
quadros infecciosos. A avaliação da cetonúria é feita por meio do EAS ou
de tiras reagentes e permite a diferenciação da CAD com outras formas de
acidose metabólica, como a acidose láctica e o choque séptico. Cuidado
especial com a avaliação das tiras para mensuração de cetonúria é que, assim como para cetonemia, a grande maioria utiliza a reação do
nitroprussiato para mensuração dos corpos cetônicos. Desse modo, também
só medem os níveis de acetoacetato e acetona. Após o início do tratamento
para a CAD, com a melhora clínica do paciente, há conversão do BHB em
acetoacetato, o que leva à elevação da mensuração da cetonúria, o que
induz falsa interpretação de piora laboratorial do caso, o que, de fato, não
está ocorrendo. Dessa forma, esse tipo de teste de cetonúria é útil para o
diagnóstico de CAD, mas não para seguimento de seu tratamento. Apenas
recentemente começaram a ser comercializados testes de cetonúria que
mensuram BHB, com os quais não haveria esse inconveniente de falsa piora
laboratorial ao longo do tratamento.
Além desses exames, outros devem ser incluídos na avaliação, como
ureia, creatinina, hemograma completo e eletrólitos. Ambas, ureia e
creatinina, podem estar elevadas, em função de azotemia pré-renal. Além
disso, a mensuração colorimétrica da creatinina sofre interferência do
acetoacetato, dando resultados falsamente elevados. A proteólise aumentada
causa falsas elevações dos níveis séricos de ureia. Em relação ao
hemograma, podem ser evidenciadas a elevação do hematócrito (seja por
hemoconcentração ou por desidratação) e a leucocitose. A ocorrência de
desvio à esquerda (elevação quantitativa de bastões) não é patognomônica
da presença de infecção, já que pode ser encontrada em CAD, pela elevação
dos níveis de cortisol e noradrenalina. Entretanto, a presença de leucocitose
importante (> 25.000 a 30.000/mm3) indica fortemente a presença de
infecção.
Em relação aos eletrólitos, merecem destaque sódio e potássio. Na
CAD, há redução do montante corporal total de sódio, principalmente por
sua perda urinária. Na dosagem sérica, por outro lado, podem ser vistos
níveis normais, altos ou baixos. A presença de concentração elevada ou
normal sugere que tenha havido perda hídrica superior à perda desse íon,
enquanto a presença de baixa concentração de sódio indica hiponatremia
dilucional por saída de água das células para o extracelular, em função da
hiperglicemia. Para melhor avaliação dos níveis séricos de sódio, deve-se
fazer uma correção em função da glicemia: para cada 100 mg/dL de glicose
acima de 100 mg/dL adiciona-se 1,6 mEq à natremia. Em relação ao
potássio corporal, há redução em cerca de 5 mEq/kg, mas a concentração sérica do íon pode ser normal, alta ou baixa. A presença de hipopotassemia
ocorre em função da perda renal e dos vômitos, além de advir de
hiperaldosteronismo secundário, decorrente da depleção de sódio e da
presença de cetoácidos de carga negativa no lúmen tubular, os quais
aumentam a perda urinária de potássio. Já a presença de hiperpotassemia
indica o somatório do efeito osmótico da hiperglicemia (com deslocamento
de potássio do meio intracelular para o extracelular devido à saída de água
do interior das células), da acidose metabólica e da proteólise. A
insulinopenia reduz a entrada de potássio nas células, contribuindo também
para o aumento dos níveis de postássio na dosagem sérica.
A osmolaridade sérica está elevada em maior magnitude no EHNC e
tem relação inversa com o nível de consciência, de modo que, quanto maior
a osmolaridade, pior o estado mental do paciente. Quando a osmolaridade
plasmática atinge níveis superiores a 330 mOsm/kg, geralmente há torpor
ou coma. Sua medida pode ser feita com osmômetro ou por meio da
seguinte fórmula:
2 (Na+ + + K) + glicemia (em mg/dL)/18 + ureia (em mg/dL)/6
(Normal: 285 a 295 mOsm/kg.)
A elevação dos corpos cetônicos no sangue leva à acidose metabólica
com aumento do anion gap. Para cálculo do anion gap (soma dos cátions
diminuída da soma dos ânions) utiliza-se a seguinte fórmula:
Na+ – – – (Cl + HCO 3 )
Considera-se normal um resultado de 7 a 9 mEq/L. A presença de anion
gap > 10 a 12 mEq/L indica acidose metabólica com aumento de anion gap,
característicos de CAD.
Ao longo do tratamento, pode ocorrer diminuição do anion gap com
persistência da acidose. Este achado indica a ocorrência de acidose
hiperclorêmica, por sobrecarga de cloreto com a solução salina a 0,9%.
Avaliação por ECG para pesquisa ativa de IAM mesmo sem dor típica,
radiografia de tórax, exames de urina e escarro e hemoculturas, na busca de
local infeccioso como fatores precipitantes infeciosos, também devem ser
realizados. Se necessário, deve-se realizar radiografia ou,
preferencialmente, tomografia computadorizada (TC) de seios da face, para
pesquisa de mucormicose ou sinusite como fatores infecciosos associados.
Sempre devem ser pesquisadas lesões de pele e úlceras de decúbito.
O diagnóstico diferencial da CAD se faz principalmente com cetose de
jejum e cetoacidose alcoólica. Na cetose de jejum, raramente ocorre
glicemia > 250 mg/dL e acidose importante, e há história de jejum
prolongado. Já na cetoacidose alcoólica, há relato de abuso etílico, pode
haver acidose importante e, assim como na cetose de jejum, raramente há
hiperglicemia importante. Outras causas de acidose metabólica com
elevação de anion gap devem ser lembradas no diagnóstico diferencial da
CAD, como acidose láctica, ingestão de drogas (como salicilato, metanol,
etilenoglicol e paraldeído) e insuficiência renal crônica. Em casos de dúvida
diagnóstica, pode-se realizar a dosagem de lactato, salicilato e metanol
séricos. A intoxicação por etilenoglicol (utilizado como anticongelante de
carros) pode ser suspeitada pela presença de oxalato de cálcio e cristais de
hipurato no exame de urina. Já a intoxicação por paraldeído deve ser
suspeitada em função de odor forte e característico.
Tratamento
O tratamento da CAD e do EHNC tem seus alicerces na hidratação
adequada, na correção da hiperglicemia e dos distúrbios eletrolíticos, no
tratamento do fatores precipitantes e, acima de tudo, na monitoração
adequada do paciente. Em casos de CAD leve a moderada, o manejo pode
ser feito fora da unidade de terapia intensiva (UTI). Já em casos graves e
com alteração de sensório (o que ocorre na maioria dos casos de EHNC), o
manejo deve ser feito em UTI. A Tabela 13.1 mostra a classificação entre
essas formas de CAD.
Cetoacidose leve
Pode ser tratada muitas vezes em caráter ambulatorial, com hidratação
por via oral, desde que esta seja possível. Caso haja vômitos frequentes ou sinais clínicos de desidratação, a opção de reidratação passa a ser por via
parenteral (endovenosa), sendo necessária a internação.
Na CAD leve (Figura 13.1), pode-se administrar insulina regular ou
análogos de insulina de ação ultrarrápida por via subcutânea a cada uma
hora. Tal conduta, nesse tipo de paciente, é igualmente efetiva à
administração venosa de insulina na correção da glicemia e na redução da
cetonemia. No caso do uso da in sulina regular, deve-se administrar uma
dose inicial em bolus de 0,4 a 0,6 UI/kg por via sub cutânea ou
intramuscular. A seguir, a dose de manutenção recomendada é de 0,1
UI/kg/h por via subcutânea ou intramuscular, até que haja correção da
glicemia e da desidratação. No caso do uso dos análogos de insulina de
ação ultrarrápida, a dose recomendada é de 0,3 UI/kg em bolus por via
subcutânea, seguida por uma dose de manutenção de 0,1 UI/kg/hora pela
mesma via. Essa dose também deverá ser mantida até que a desidratação e a
hiperglicemia sejam corrigidas.
Figura 13.1 Tratamento da cetoacidose leve em adultos. CAD = cetoacidose diabética; SC = via subcutânea; IM = intramuscular.
Cetoacidose moderada a grave
Hidratação
A hidratação é direcionada à expansão intravascular, intersticial e
intracelular, além da manutenção da perfusão renal adequada. Quando
realizada adequadamente, promove diminuição da retenção de glicose e
corpos cetônicos no plasma, além de diminuir o estímulo adrenérgico, a
resistência periférica à insulina e o estímulo à gliconeogênese hepática. A
reposição de líquidos deve ser generosa. Em pacientes idosos e/ou
cardiopatas deve ser realizada com cuidado e monitoração, por intermédio
da cateterização de artéria pulmonar. A conduta inicial é a infusão de
solução salina a 0,9% em um volume de aproximadamente 1.000 mL a
1.500 mL (15 a 20 mL/kg) na primeira hora. A hidratação a seguir vai
depender do estado hemodinâmico, do nível de desidratação, do débito
urinário e do balanço eletrolítico. A etapa seguinte geralmente vai consistir
em NaCl a 0,45% em uma velocidade de 250 a 500 mL/h se o sódio sérico
estiver normal ou NaCl a 0,9% na mesma velocidade, caso o sódio sérico
esteja baixo. A reposição das perdas hídricas estimadas deve ser feita nas
primeiras 24 h. Estima-se que a perda hídrica na CAD seja de 5% a 10% do
peso corporal, mas a gravidade da desidratação pode ser avaliada por meio
da concentração corrigida de sódio e da osmolaridade sérica. As natremias
corrigidas superiores a 140 mEq/L e as osmolaridades superiores a 340
mOsm/kg associam-se a maior déficit de líquido. Durante o tratamento,
quando a glicemia atingir níveis < 200 mg/dL (na CAD) ou < 300 mg/dL
(no EHNC), a hidratação passa a ser feita com NaCl a 0,45% associado a
glicose a 5% (SG 5%), em uma velocidade de cerca de 150 a 250 mL/h. SG
5% deve ser mantida até a correção da acidose.
Insulinoterapia
Atualmente, sabe-se que a insulinoterapia é eficaz, independentemente
da via de administração, apesar de a via endovenosa ser a preferida, em
função da facilidade do ajuste de dose, da pequena meia-vida da insulina e
do atraso do início do efeito e do longo efeito da insulina aplicada por via
subcutânea. Até recentemente, recomendava-se uma dose em bolus, mas
viu-se que tal medida não se faz necessária, caso seja administrada insulina
venosa na dose de 0,14 U/kg/h. Entretanto, a American Diabetes Association ainda deixa a possibilidade do esquema antigo (com bolus de
0,1 UI/kg com dose subsequente de 0,1 UI/kg/h) como possibilidade
terapêutica. A solução para a bomba infusora pode ser preparada com 25 UI
de insulina Regular em 250 mL de solução salina a 0,9%. Nessa solução,
cada 10 mL correspondem a 1 UI de insulina. Devem-se desprezar os 30
mL a 50 mL iniciais, que permanecem ligados ao equipo de soro e não são
realmente infundidos. Caso não haja queda da glicemia capilar em cerca de
50 a 75 mg/dL na primeira hora, deve ser administrado bolus de 0,14 UI/kg
de insulina regular e então devese retornar ao esquema prévio, revendo a
dose de insulina até que essa meta de queda glicêmica seja atingida.
Durante o tratamento, quando a glicemia atingir níveis < 200 mg/dL (na
CAD) ou < 300 mg/dL (no EHNC), a dose de insulina pode ser reduzida
para 0,02 a 0,05 UI/kg/h, associando-se SG 5% (como visto anteriormente,
na parte de hidratação). Nos casos de CAD, outra opção é passar a
administrar insulina rápida de modo subcutâneo, na dose de 0,1 UI/kg, a
cada 2 h. A dose de insulina deve ser então periodicamente revista, de modo
a manter a glicemia entre 150 e 200 mg/dL (na CAD) e entre 250 e 300
mg/dL (no EHNC), até que haja resolução do quadro. Na CAD, considera-
se resolvido o quadro quando houver glicemia < 200 mg/dL e 2 dos
seguintes parâmetros: bicarbonato sérico ≥ 15 mEq/L, pH venoso > 7,3 e
anion gap ≤ 12 mEq/L. Já no EHNC, considera-se resolução do quadro
quando houver normalização do estado mental e normalização da
osmolaridade plasmática. Nesse momento, deve-se associar o início da
administração de insulina subcutânea com a manutenção da infusão venosa
por 1 a 2 h, de modo a evitar recorrência de hiperglicemia e cetoacidose.
Insulina de ação intermediária (NPH) ou análogo de insulina de longa
duração (Detemir, Glargina) deve ser introduzido após o início de aceitação
alimentar, associado a esquema bolus com insulina Regular ou análogos de
ação ultrarrápida (como insulina Lispro, Asparte ou Glulisina).
Nos pacientes que já faziam uso de insulina, deve-se reintroduzir a
mesma dose previamente utilizada. No caso de paciente recém-
diagnosticado, deve-se administrar uma dose inicial de insulina de 0,5 a 0,8
UI/kg/dia, fracionando em pelo menos duas tomadas diárias, em terapia
basal-bolus, divididos 50% a 70% em insulinas de efeito prolongado (NPH,
Glargina ou Detemir) e insulinas prandiais (Regular, Lispro, Asparte ou Glulisina). Administração de insulina de ação rápida antes das refeições, de
acordo com os níveis glicêmicos, deve ser mantida. Alguns pacientes com
DM2 podem receber alta em uso de hipoglicemiantes orais, após
compensação clínica.
Correção dos distúrbios eletrolíticos
A correção da hipopotassemia só pode ser iniciada após a obtenção de
débito urinário adequado (pelo menos 50 mL/h). Recomenda-se a
instituição de monitoração eletrocardiográfica durante a reposição desse
eletrólito. A dose de reposição de potássio vai variar, dependendo da
potassemia. Em caso de níveis < 3,3 mEq/L, deve-se iniciar a reposição de
potássio em uma velocidade de 20 a 30 mEq/h, juntamente com hidratação
venosa, e deve-se aguardar para iniciar a insulinoterapia quando os níveis
de potássio atingirem valores superiores a 3,3 mEq/L. Isso se baseia no fato
de que graus tão graves de hipopotassemia oferecem risco de complicações,
como arritmias cardíacas, parada cardiorrespiratória ou ainda de fraqueza
da musculatura respiratória, com potencial evolução para insuficiência
respiratória aguda. Caso os níveis estejam entre 3,3 e 5,2 mEq/L, a dose a
ser administrada é de 20 a 30 mEq por litro de solução venosa, de modo a
manter a potassemia em torno de 4 a 5 mEq/L. Caso a potassemia inicial
esteja > 5,2 mEq/L, a reposição de potássio não deve ser iniciada nesse
momento, mas deve ser revista a cada 2 h.
A administração de bicarbonato de sódio deve ser reservada para os
casos de CAD nos quais haja pH < 6,9, pois a administração de bicarbonato
pode piorar a hipopotassemia, produzir acidose paradoxal do liquor no
SNC, piorar a acidose intracelular (por maior produção de dióxido de
carbono), causar hipocalcemia e hipoxia e alentecer a queda da cetonemia.
Nesse caso, deve-se preparar uma solução com 100 mmol (2 ampolas) de
NaHCO3 em 400 mL de água destilada, adicionando-se 20 mEq de KCl,
com infusão em 2 h (200 mL/h). Essa infusão deve ser repetida a cada 2 h,
até que se obtenha pH > 7,0. É fundamental a monitoração dos níveis
séricos de potássio a cada 2 h durante a infusão de bicarbonato, em função
do risco de essa infusão promover piora da hipopotassemia.
Apesar de haver depleção de fosfato na CAD, os níveis séricos desse
ânion estão geralmente normais ou aumentados ao diagnóstico dessa
complicação aguda. Com a instituição da insulinoterapia, ocorre queda da
fosfatemia. Não há consenso sobre o benefício da reposição de fosfato
durante o tratamento da CAD. Além disso, a reposição excessiva de fosfato
pode levar a hipocalcemia grave. Desse modo, restringe-se a reposição de
fosfato a casos muito específicos, como a presença de disfunção ventricular
esquerda, anemia, depressão respiratória ou fosfato sérico < 1 mg/dL. No
caso de necessidade de reposição, a dose proposta é de 20 a 30 mEq/L de
fosfato de potássio (K 2PO4) nas etapas de reposição hídrica, em uma
velocidade máxima de infusão de 4,5 mmol/h (1,5 mL/h de K PO ). Não há 2 4
estudos que avaliem a reposição de fosfato nos casos de EHNC.
Caso o tratamento não seja adequadamente realizado (Figura 13.2), o
paciente pode evoluir com hiperglicemia e cetoacidose reentrantes,
principalmente se o erro no manejo ocorrer na fase de transição da
administração de insulina por via endovenosa contínua para a via
subcutânea em múltiplas doses diárias. Caso isso ocorra, são evidenciadas
novamente hiperglicemia e acidose, sendo necessária a reintrodução de
insulinoterapia venosa em paciente em recuperação.
Figura 13.2 Tratamento da CAD moderada a grave ou EHNC. CAD = cetoacidose diabética, EHNC = estado hiperosmolar não cetótico; UTI = unidade de terapia intensiva; SG = soro glicosado; BI = bomba infusora; DM = diabetes mellitus.
Complicações
As principais complicações do tratamento da CAD são a hipoglicemia, a
hipopotassemia e o edema cerebral. A hipoglicemia geralmente se deve ao
excesso de insulina em algumas das etapas do tratamento. Pode ser evitada
com o uso de doses corretas e com a administração de SG 5%
concomitantemente à insulina quando a glicemia atingir valores ≤ 250
mg/dL. A pesquisa ativa de hipoglicemia assintomática a cada 1 a 2 h se faz
necessária, já que muitos pacientes podem não apresentar sintomas
adrenérgicos com a instalação da hipoglicemia. A hipopotassemia também é
uma consequência do uso da insulina e do tratamento da acidose com
bicarbonato sem que os cuidados anteriormente mencionados tenham sido
tomados.
O edema cerebral é uma complicação rara em adultos, sendo mais
frequente em crianças. Apesar de raro, tem elevada taxa de mortalidade
(cerca de 20% a 40%). Alguns são os fatores associados ao surgimento de
edema cerebral em casos de CAD. O surgimento de acidose paradoxal do
liquor durante o uso de bicarbonato de sódio no tratamento da acidose é um
deles, já que este ânion não penetra a barreira hematoencefálica. Outros
fatores são a redução da oxigenação do SNC, o efeito direto da insulina no
transporte de água através da membrana e a produção de osmóis
idiogênicos (possivelmente mioinositol, taurina e betaína). Esses osmóis
idiogênicos são produzidos pelos neurônios cerebrais, para impedir sua
retração com a desidratação durante a hiperosmolaridade extracelular
provocada pela glicemia. Como a queda da osmolaridade é mais rápida que
a metabolização dos osmóis idiogênicos, gera-se um influxo de líquidos
para o interior dos neurônios, o que causa edema cerebral. Além disso,
acredita-se que própria insulinoterapia promova a entrada de partículas
osmoticamente ativas para o espaço intracelular. Outro fator que pode
contribuir com a formação de edema cerebral é a reposição muito rápida de
sódio. Desse modo, medidas preventivas para o surgimento de edema
cerebral são a correção gradativa do déficit de sódio e água e a correção
gradual da glicemia. O edema cerebral pode se manifestar rapidamente,
com deterioração do nível de consciência, alterações do comportamento,
letargia e cefaleia, e evoluir com convulsões, alterações pupilares,
papiledema, elevação dos níveis tensionais, bradicardia, incontinência urinária e parada respiratória, em função de herniação do tronco encefálico.
Sugere-se também que haja maior papel de um mecanismo vasogênico do
que do mecanismo citotóxico anteriormente mencionado. Tais hipóteses de
baseiam em modelos animais, e mais estudos são necessários para que se
possa extrapolar esses achados em seres humanos.
Em relação à prevenção do surgimento de CAD e EHNC, o pilar é a
educação em diabetes e o fácil acesso do paciente ao seu médico assistente
ou equipe de saúde, já que, na maioria das vezes, poderiam ser evitados ou
pelo menos precocemente diagnosticados. A realização de monitoração
domiciliar da glicemia deve ser regular e, caso haja elevação significativa
da glicemia (≥ 300 mg/dL ou 250 mg/dL, em casos selecionados,
especialmente em vigência de doenças intercorrentes, como as infecções),
deve-se orientar o paciente a realizar testes para pesquisa de cetonemia ou
cetonúria. Além disso, em caso de hiperglicemia, o paciente deve receber
orientação para aumentar a ingesta hídrica, para a administração
suplementar de insulina para corrigir a hiperglicemia, para monitorar a
glicemia atentamente e mais frequentemente.
Hipoglicemia
É a complicação aguda mais frequente nos pacientes com DM, sendo
bastante frequente nos casos de DM1. Estudos com monitoração contínua
da glicemia em indivíduos com DM1 mostram que esta fica abaixo de 50 a
60 mg/dL em cerca de 10% do tempo nos casos de pacientes bem
controlados. Já nos pacientes com DM2, a frequência de hipoglicemia é
bem menor, variando em função do tratamento instituído. Nos pacientes em
uso intensivo de insulina, estima-se que a incidência de hipoglicemia seja
cerca de 10% daquela apresentada pelos pacientes com DM1. O medo da
ocorrência de hipoglicemia é um dos principais fatores que limitam a
obtenção de controle glicêmico adequado, seja nos pacientes com DM1 ou
DM2.
Além da sensação de mal-estar e dos demais sintomas que advêm da
hipoglicemia leve a moderada (como explicitados mais à frente), existe
ainda o risco iminente de perder a vida que a hipoglicemia grave pode
trazer ao indivíduo. Existe controvérsia adicional sobre a possível
associação entre declínio cognitivo e/ou demência e elevada frequência de episódios de hipoglicemia grave. Definem-se como hipoglicemia grave os
casos em que o paciente apresenta perda de consciência e/ou depende do
auxílio de terceiros para reversão do evento.
As principais causas de hipoglicemia são o jejum prolongado (p. ex.,
para a realização de exames), a prática de exercícios prolongados e
extenuantes sem orientação quanto à alimentação antes e/ou durante a
atividade, a libação alcoólica e o uso inadvertido de dose excessiva de
insulina ou hipoglicemiante oral. Os hipoglicemiantes orais de primeira
geração (clorpropamida) levam a maior risco de hipoglicemia, por sua
maior meia-vida.
Os sintomas de hipoglicemia vão variar em função da magnitude da
queda da glicose plasmática. Em casos de hipoglicemia leve (glicemia em
torno de 65 a 70 mg/dL), os sintomas serão ansiedade, palpitação, tremor
(adrenérgicos), sudorese, fome e parestesia (colinérgicos). Já com a queda
adicional da glicemia (55 a 65 mg/dL), há o surgimento de sintomas
neuroglicopênicos como fraqueza, calores, fadiga, dificuldade de
concentração, labilidade emocional, alterações de comportamento,
alterações da fala. Se a glicemia atingir valores mais baixos (50 a 55 mg/dL
ou menos), pode haver o surgimento de outros sintomas neuroglicopênicos,
como perda de consciência, convulsões, coma e, caso não seja instituído o
tratamento adequado, o indivíduo pode evoluir com óbito. Indivíduos
inadequadamente controlados tendem a apresentar sintomas de
hipoglicemia com concentrações de glicose mais elevadas que pacientes
com DM bem controlados.
Muitas vezes, apenas com a sintomatologia conclui-se que se trata de
um episódio de hipoglicemia. A realização de glicemia capilar é suficiente
para a confirmação. Contudo, caso a realização desta retarde em demasia o
tratamento, deve-se instituir o tratamento adequado sem que a glicemia
capilar seja realizada. Em geral, considera-se hipoglicemia quando a
glicemia encontra-se < 60 mg/dL.
A forma de tratamento da hipoglicemia vai variar dependendo do estado
de consciência do paciente. Se o paciente estiver consciente, com queixas
leves (fome, tremor, nervosismo, ansiedade, taquicardia, sudorese, palidez,
déficit de atenção e comprometimento cognitivo leve) ou ainda caso esteja
assintomático, devem ser oferecidos 15 g a 20 g de carboidrato por via oral. Um exemplo seria a adição de uma colher de sopa de açúcar em meio copo
de água ou ainda ingerir 150 mL de refrigerante não dietético ou 150 mL de
suco de laranja. Devem-se evitar alimentos ricos em gordura para a
correção de hipoglicemia, pois, além de retardar o início da correção,
promovem efeito hiperglicêmico mais sustentado. Nos casos moderados a
graves, com queixa de turvação visual, cefaleia, confusão mental, midríase,
dificuldade para falar, o tratamento deve ser mais intensivo, com
oferecimento de 30 g de carboidrato por via oral.
Caso o paciente esteja desacordado e em ambiente hospitalar, deve ser
injetada por via endovenosa glicose hipertônica em quantidade equivalente
(30 mL a 40 mL de glicose a 50%). Após 15 a 20 minutos do tratamento,
nova glicemia capilar deve ser realizada, para averiguar se ainda persiste a
hipoglicemia. Se isto ainda ocorrer, deve-se repetir o esquema de
tratamento, reavaliando o sensório do indivíduo e a glicemia. Após
reestabelecida a euglicemia e o nível normal de consciência, o paciente
deve ser encaminhado para a realização de um lanche, para prevenção de
novos episódios de hipoglicemia, já que a correção da hipoglicemia com
esse aporte glicêmico é transitória (menos de 2 h de duração). Além disso,
orientações para evitar novos episódios devem ser dadas, como o ajuste de
dose de insulina, e que se evitem longos períodos sem alimentação.
Aos indivíduos com elevado risco de hipoglicemia, sugere-se que
tenham, em casa, glucagon (Glucagen®), para ser administrado em caso de
hipoglicemia e perda de consciência. A dose a ser administrada é de 1 mg
(1 ampola) por via intramuscular ou subcutânea. Da mesma forma que com
a correção oral ou venosa, a glicemia deve ser revista após 15 a 20 minutos
da administração do glucagon. O uso de glucagon pode ter como efeito
adverso quadro de náusea, o que dificultaria a necessária ingestão alimentar
após a recuperação do nível de consciência.
Acidose láctica
Uma clássica, porém muito rara, causa de acidose láctica em pacientes
com DM está associada ao uso de metformina. Uma biguanida
anteriormente disponível no mercado, a fenformina, estava associada a risco
de acidose láctica 10 vezes maior que o relacionado com o uso da
metformina, cuja incidência é de 3 casos por 100 mil tratamentos/ano. Estudos mostram que a ocorrência de acidose láctica em pacientes com DM
em uso de metfomina está, em sua maioria, relacionada com a presença de
condições clínicas que são contraindicações conhecidas para o uso dessa
biguanida, como insuficiência renal, insuficiência cardíaca, hipoxia, sepse
etc. Entretanto, mesmo na ausência dessas patologias, sabe-se que o uso de
superdosagem de metformina também já foi apontado como associado à
acidose láctica. Quadro de acidose láctica pode surgir associado a CAD e ao
EHNC, principalmente quando há evolução para choque e má perfusão
tecidual.
A letalidade dessa complicação metabólica é elevada, e chega a cerca de
80%, mas parece estar mais fortemente relacionada com a patologia de base
do que com a medicação em si.
O diagnóstico consiste na dosagem de lactato (> 5 mmol/L), que se
encontrará elevado, associado a queda do pH relacionada com redução dos
níveis séricos de bicarbonato.
O tratamento consiste na suspensão da metformina, além do tratamento
da patologia subjacente, por exemplo, da descompensação do insuficiência
cardíaca. Além disso, deve-se induzir a diurese, com a administração de
líquido e de diuréticos. Caso haja insuficiência renal grave, a realização de
hemodiálise pode ser necessária e, em caso de elevado risco de recidiva da
descompensação da patologia de base, deve-se estudar a mudança do
esquema terapêutico do DM por outro que não inclua a metformina, já que
esta deverá ser suspensa a cada nova descompensação. A administração de
bicarbonato de sódio por via intravenosa está restrita aos casos de acidose
grave (pH < 7,15), e somente até que se atinja pH sérico não maior que 7,2.
Além disso, a infusão deve ser lenta (em 30 a 40 min), de modo a evitar
elevação paradoxal dos níveis séricos de lactato (já que o NaHCO 3 estimula
a atividade da enzima fosfofrutoquinase) e precipitação de quadro de
insuficiência cardíaca induzida pelo bicarbonato de sódio.
MANEJO EM ALGUMAS COMPLICAÇÕES INFECCIOSAS
Dengue
A dengue é uma patologia que tem acometido cada vez mais indivíduos
em todo o Brasil; entre eles incluem-se pacientes com DM. Segundo o
último protocolo do Ministério da Saúde sobre classificação de risco e
manejo do paciente com dengue, os casos de dengue devem ser
classificados de A a D, em função da sua gravidade. A presença de DM já
coloca o indivíduo sob suspeita de dengue no grupo B. Nesse caso, devem-
se colher exames complementares (hemograma completo e sorologia viral),
mantendo o paciente em hidratação oral na unidade de atendimento até que
se obtenha o resultado desses exames.
Cuidado especial com a glicemia deve ser dado, pois o paciente pode
estar inapetente e pode ocorrer hipoglicemia. Caso a ingestão oral esteja
muito baixa, a adição de hidratação venosa deve ser avaliada, com inclusão
de glicose, assim como pode ser necessário um ajuste da dose de insulina
durante essa fase. A hidratação oral nessa fase deve ser feita, em adultos, na
dose de 80 mL/kg/dia, sendo 1/3 com solução salina oral e 2/3 com ingestão
de líquidos caseiros (como água, suco de frutas, chás, água de coco). Além
da hidratação, o paciente deve se manter em repouso, recebendo, se
necessário, antieméticos e antitérmicos (dipirona ou paracetamol). Após o
resultado do hematócrito, a conduta inicial deve ser reavaliada.
Caso o hematócrito esteja normal, deve-se manter a conduta vigente,
com liberação para casa, orientação para retornar para reavaliação
clinicolaboratorial do 3o ao 6o dia da doença ou em caso de surgimento de
sinais de alarme (dor abdominal intensa, vômitos persistentes,
hepatomegalia dolorosa, hipotensão postural ou lipotimia, hemorragia
importante, sonolência ou irritabilidade, diminuição da diurese, hipotermia,
desconforto respiratório). São considerados também sinais de alarme o
aumento repentino do hematócrito e a queda abrupta das plaquetas.
Caso o resultado do hematócrito esteja elevado em mais de 10% do
valor habitual ou esteja > 50% em homens ou acima de 44% em mulheres,
o paciente deve ser admitido para hidratação oral supervisionada (80
mL/kg/dia, sendo 1/3 administrado em 4 h sob a forma de solução salina)
ou venosa (40 mL/kg em 4 h, sob a forma de soro fisiológico ou Ringer
lactato). Após período de 4 h, deve ser feita reavaliação clínica e do
hematócrito e, caso não haja surgimento de sinais clínicos de alarme nem
elevação adicional do hematócrito, o paciente pode receber alta, com orientação de manter hidratação oral como no início (80 mL/kg/dia), com a
orientação de retornar para reavaliação diariamente ou em caso de
surgimento de sinais clínicos de alerta, até que tenham se passado 48 h do
término do período febril. Caso nessa reavaliação surjam sinais de alerta ou
haja aumento adicional do hematócrito, o paciente deve ser mantido
internado e a hidratação vigente deve ser substituída por via venosa com
soro fisiológico ou Ringer lactato, 20 mL/kg/h. A reavaliação clínica desses
casos passa a ser a cada 2 h. Caso haja melhora clínica e laboratorial, com
diurese normal e queda do hematócrito, deve-se modificar a hidratação
venosa vigente para novo esquema em 2 fases. A primeira fase (6 h) é em
volume de 25 mL/kg. A segunda fase (iniciada caso se mantenha melhora
clinicolaboratorial) é de 25 mL/kg em 8 h, sendo 1/3 com soro fisiológico e
2/3 com soro glicosado. A adição de sódio e de potássio deve ser realizada.
O paciente deve ser mantido internado até que se obtenham estabilização
hemodinâmica e ausência de febre por 48 h, melhora do quadro clínico,
ausência de sintomas respiratórios, hematócrito normal e estável por 24 h e
as plaquetas estejam em elevação e acima de 50.000/mm3. Após a alta,
esses indivíduos deverão retornar para reavaliação diariamente ou em caso
de surgimento de sinais clínicos de alerta.
Caso, após a etapa de hidratação venosa agressiva (20 ml/kg/h), não
haja melhora clinicolaboratorial, pode-se repetir essa etapa por até 3 vezes,
com reavaliação a cada 2 h. Se não houver melhora clínica e o hematócrito
estiver em ascensão, devem-se administrar coloides sintéticos (10 mL/kg/h)
ou albumina (3 mL/kg/h). Porém, caso o hematócrito esteja em queda, com
hipotensão e/ou oligúria, a investigação de hemorragia por coagulopatia de
consumo deve ser realizada, avaliando-se a necessidade de infusão de
plasma (10 mL/kg), vitamina K, crioprecipitado (1 unidade para cada 5 kg a
10 kg de peso) e de hemotransfusão, uma vez confirmada a presença de
discrasia.
Furunculose e antraz
Os pacientes com DM mal controlados têm maior risco de surgimento
de infecções cutâneas por Staphylococcus sp., como a furunculose. A lesão
(furúnculo) pode surgir em qualquer local que contenha folículo piloso e
tem aspecto nodular endurecido, eritematoso e doloroso, podendo evoluir com área necrótica central após alguns dias. Após esse estágio, sofre
flutuação central e elimina uma secreção necrossanguinolenta, evoluindo
com alívio da dor local. Já o antraz tem predileção por surgimento em
dorso, principalmente em área de nuca e ombro, acometendo mais
frequentemente homens idosos, cursando com sintomas locais similares a
furúnculos e sintomas gerais, com febre e queda do estado geral. O
tratamento consiste em medidas locais, como a não manipulação e a
colocação de calor local. Além disso, podem-se utilizar cremes com
antibióticos. A antibioticoterapia oral está indicada nos casos em que
houver grande área de enduração (> 6 cm), antraz, celulite ou
sintomatologia sistêmica. As opções antimicrobianas são cefalexina,
cefadroxil, eritromicina, amoxicilina com clavulanato ou oxacilina por pelo
menos 10 dias.
Mucormicose
Os agentes causadores da mucormicose são fungos saprófitos
habitualmente presentes no solo, na comida, no ar e em material em
processo de decomposição. Penetram no organismo principalmente por via
inalatória. Após sua penetração, inicialmente os esporos se depositam nos
cornetos nasais, podendo descender aos alvéolos pulmonares em um
segundo momento. A presença de cetoacidose é um dos principais fatores
de risco para o surgimento dessa complicação infecciosa, uma vez que a
hiperglicemia e a acidose agem como fatores facilitadores do crescimento
fúngico.
A mucormicose pode se manifestar de diversas formas, sendo as
principais a rinocerebral, a pulmonar, a gastrintestinal, a cutânea e a
disseminada. De modo geral, a forma rinocerebral ocorre principalmente
em pacientes com DM e CAD, cursando agudamente com cefaleia, dor
facial, febre, alteração do sensório, oftalmoplegia, proptose, lesões
enegrecidas em face, hemiparesia ou hemiplegia. As manifestações clínicas
da forma pulmonar são subagudas, podendo evoluir em mais de 4 semanas
com tosse seca, dor pleurítica, pneumonia com escarro com raias de sangue
ou francamente sanguinolento, podendo se apresentar com hemoptise
maciça fatal. O envolvimento dos ápices pulmonares é mais comum, em
função da maior aeração nessas áreas. O aspecto radiográfico da forma pulmonar é inespecífico, com consolidação, derrame pleural e cavitação
pulmonar. O diagnóstico é feito com cultura do escarro e confirmado com a
biopsia das lesões, mostrando necrose e hifas. O tratamento consiste em
desbridamento cirúrgico das áreas acometidas, podendo ser necessária a
realização de lobectomia ou pneumectomia ou de enucleação da órbita.
Além da cirurgia, é necessária a utilização de altas doses de antifúngicos
[anfotericina B na forma deoxicolato, 1,0 a 1,5 g mg/kg/dia (total de 2,5 a
3,0 g/dia) IV ou anfotericina B lipossomal 5 mg/kg/dia IV]. Pode-se
associar oxigenoterapia hiperbárica como adjuvante. A mucormicose tem
elevada taxa de mortalidade, chegando a 96% nas formas disseminadas.
Otite externa maligna
A otite externa maligna é uma patologia causada classicamente por
Pseudomonas aeruginosa, apesar de outros patógenos estarem também
associados a essa complicação, como Proteus mirabilis, Staphylococcus
aureus e Staphylococcus epidermidis. As manifestações clínicas principais
são otalgia com irradiação para a região temporomandibular, otorreia e
edema na região do pavilhão auricular, que pode evoluir com paralisia de
nervo facial ipsilateral, necrose óssea, tromboflebite do seio dural,
meningite, abscesso cerebral e óbito. O diagnóstico deve ser precoce e é
feito com cultura do tecido desbridado, cintilografia óssea com tecnécio99,
que mostra captação local aumentada e tomografia computadorizada.
Outros achados inespecíficos são elevação de velocidade de
hemossedimentação (VHS), mas sem leucocitose. O tratamento consiste na
associação de desbridamento cirúrgico precoce com antibioticoterapia
parenteral, com ceftazidima 2 g IV 8/8 h; ou ciprofloxacino 400 mg IV
12/12 h; ou cefepime 1 g 6/6 h; ou meropeném/cilastatina 500 mg 6/6 h; ou
meropeném 1 g 8/8 h. Em alguns casos, pode-se obter benefício da
associação com oxigenoterapia em câmara hiperbárica. É comum a
recorrência dessa patologia.
Pielonefrite aguda e papilite necrosante
A necrose da papila renal pode acometer pacientes com DM, com
doença vascular ou glomeruloesclerose, sendo secundária à pielonefrite
grave. Deve-se à isquemia de vasos sanguíneos da medula e da papila renal. Os achados clínicos são os mesmos da pielonefrite aguda, com febre alta,
calafrios, dor abdominal, lombar ou em flanco, além de queixas como mal-
estar, anorexia, mialgia, cefaleia. Pode ainda se manifestar com hematúria
massiva, cólica nefrética e oligúria. Os principais agentes são Escherichia
coli, Enterococcus spp., Pseudomonas spp. e Staphylococcus epidermidis.
Em caso de bacteremia, vômitos ou sinais de desidratação, opta-se pela
antibioticoterapia por via endovenosa. A duração total do tratamento é de
14 dias, independentemente da forma da administração. O esquema
antibiótico vai variar em função da urinocultura e do antibiograma. Caso se
identifique Enterococcus spp., a opção antimicrobiana recai sobre
ampicilina ou amoxicilina. Caso o agente seja um bacilo gram-negativo, as
opções antibióticas são as fluoroquinolonas (principalmente se o tratamento
for por via oral, ou ainda os aminoglicosídeos, se a via endovenosa for a
escolhida). Em função da sua maior toxicidade, assim que for possível a
mudança para via oral, devem-se trocar os aminoglicosídeos por outro oral,
de acordo com o antibiograma. A melhora geralmente ocorre após 48/72 h
de antibioticoterapia. Caso isso não ocorra, deve-se suspeitar da ocorrência
de alguma complicação, como obstrução do trato urinário, calculose renal
associada ou alguma complicação supurativa local, como abscesso
perinéfrico, o qual pode exigir desbridamento cirúrgico. A realização de
ultrassonografia ou de tomografia computadorizada abdominal esclarece
essa possibilidade. O surgimento de abscesso renal aumenta a possibilidade
de se tratar da disseminação hematogênica de uma infecção de outro local, e
os agentes causais mais frequentes dessa complicação são o Staphylococcus
aureus (caso haja apenas envolvimento cortical) ou os gram-negativos (caso
haja envolvimento corticomedular). Independentemente da ocorrência ou
não de complicação, após finalizado o tratamento, deve-se realizar
urinocultura de controle cerca de 2 a 4 semanas após o fim do tratamento,
para que sejam possíveis o diagnóstico e o tratamento precoce de recidivas,
mesmo que assintomáticas.
Pielonefrite en sematosa
Essa complicação infecciosa é causada geralmente por enterobactérias,
que levam ao surgimento de febre, dor em flanco e vômitos. Pode ser uma
complicação de pielonefrite. O diagnóstico de suspeição é feito por meio da radiografia de abdome, onde é visto gás em loja renal, mas a confirmação é
por meio de tomografia computadorizada de abdome. O tratamento consiste
em hidratação e antibioticoterapia venosa, controle metabólico adequado e
desbridamento cirúrgico.
IAM, AVC, queimadura externa, grandes cirurgias
Estas situações clínicas podem levar à piora do controle glicêmico ou
ainda precipitar o surgimento de CAD ou EHNC. Para evitar que tais
complicações metabólicas ocorram, a intensificação da frequência da
monitoração da glicemia capilar deve ser instituída, com eventuais ajustes
da dose de insulina em uso. Eventualmente, naqueles indivíduos que
vinham em tratamento sem insulina, a adição da mesma ao esquema de
tratamento se faz necessária, até a resolução da intercorrência clínica
subjacente. Hidratação adequada e dieta apropriada para paciente com DM
devem ser garantidas ao longo de todo o período de internação, para evitar
piora glicêmica e evolução para CAD e EHNC.
LEITURA RECOMENDADA
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