Rotinas de Diagnóstico e Tratamento do Diabetes Mellitus

17.3. Diabetes e fígado

Diabetes e fígado

 

Natalie Leite

 

INTRODUÇÃO

 

O papel do fígado é fundamental no metabolismo dos carboidratos,

lipídios e proteínas. O fígado é o local de produção e armazenamento de

glicogênio, da gliconeogênese e da degradação de insulina. Sendo assim,

ele tanto participa dos mecanismos fisiopatológicos do diabetes, como sofre

as consequências das alterações encontradas no metabolismo glicídico.

Diabetes mellitus (DM) é um fator de risco para a doença hepática

gordurosa não alcoólica (DHGNA) e pode levar a outras patologias

hepáticas, como a doen ça por aumento de deposição de glicogênio e a

hepatosclerose. Neste capítulo, maior ênfase será dada à DHGNA, em razão

de sua prevalência elevada e de seu potencial de evolução para cirrose

hepática e predisposição para carcinoma hepatocelular.

Em contrapartida, a doença hepática crônica pode causar tanto

intolerância à glicose como DM, pela redução da captação periférica da

glicose e da sensibilidade à ação da insulina. É válido acrescentar a

associação de DM a causas específicas de doença hepática – infecção pelo

vírus da hepatite C e hemocromatose –, independentemente da presença de

cirrose hepática.

A coexistência de DM e doença hepática requer uma abordagem

diferenciada, inclusive determinação do prognóstico e tratamento da DHGNA; rastreamento de complicações da doença hepática crônica;

tratamento do DM, levando em consideração o metabolismo hepático de

fármacos e o risco de hepatotoxicidade.

 

DOENÇA HEPÁTICA GORDUROSA NÃO ALCOÓLICA

 

Histórico

 

A DHGNA não é uma condição recente, visto que na década de 1950 já

haviam sido descritos casos de hepatopatia em indivíduos obesos. Em 1980,

Ludwig et al. encontraram − em 20 biopsias de pacientes com obesidade,

sobrepeso e sem ingestão alcoólica − uma entidade com alterações

histológicas compatíveis com hepatopatia alcoólica que denominaram então

de esteato-hepatite não alcoólica (EHNA).1 Mais tarde, essa entidade passou

a ser conhecida por DHGNA, pois, na verdade, compreende um amplo

espectro que vai desde a esteatose, passando pela esteato-hepatite (EH),

podendo progredir para cirrose e até carcinoma hepatocelular.

 

Patogênese

 

A resistência à insulina, que tem papel central no desenvolvimento da

DHGNA, decorre da redução da ação da insulina em vários órgãos e

tecidos.

A resistência à ação da insulina no tecido adiposo (principalmente do

tecido adiposo visceral) leva a um nível elevado de ácidos graxos na

circulação sanguínea, com subsequente acúmulo e toxicidade nos músculos,

fígado e células β do pâncreas.

Os ácidos graxos presentes no fígado resultam principalmente da

lipólise no tecido adiposo e, em menor proporção, da síntese de novo de

ácidos graxos e da dieta rica em gorduras. A síntese de novo de ácidos

graxos é o processo no qual são produzidos ácidos graxos a partir da

conversão de carboidratos que, posteriormente, são esterificados para

formar triglicerídeos (lipogênese hepática).

Independentemente das alterações no metabolismo lipídico, a

resistência à insulina leva à hiperglicemia pelo aumento da gliconeogênese

e glicogenólise hepática e redução da captação no músculo estriado. Em resposta à hiperglicemia, as células β do pâncreas aumentam a sua produção

de insulina. Tanto o estado de hiperinsulinemia como a hiperglicemia

induzem os fatores de transcrição nucleares que ativam genes importantes

na lipogênese hepática, agravando a esteatose hepática.

Em condições normais, o fígado se defende do excesso de ácidos graxos

e subsequente esterificação e formação de triglicerídeos pela oxidação

mitocondrial ou pela síntese e liberação de lipoproteínas de muito baixa

densidade (VLDL). A esteatose hepática se forma quando os mecanismos

de degradação não conseguem compensar a captação e a síntese de ácidos

graxos.

O aumento da oxidação mitocondrial, associado à disfunção

mitocondrial e à ativação de outras vias de oxidação (peroxissomos e

microssomos), acarreta grande aumento na produção de espécies reativas de

oxigênio. Níveis exagerados dessas espécies reativas de oxigênio causam:

peroxidação lipídica e subsequente dano de membranas plasmáticas e

organelas intracelulares; alterações na expressão de proteínas na membrana

celular, que determinam apoptose celular; disfunção mitocondrial, com

geração de maior quantidade de espécies reativas de oxigênio. Pacientes

com DHGNA, apesar de apresentarem níveis absolutos elevados de

secreção de VLDL, não conseguem aumentar a capacidade de exportação

de triglicerídeos em proporção direta ao acúmulo de gordura intrahepática.

O perfil de liberação de altos níveis de citocinas inflamatórias,

principalmente o fator de necrose tumoral alfa (TNF-α), e reduzidos níveis

de adiponectina pelo tecido adiposo também contribui na patogênese da

DHGNA.

O TNF-α ativa proteínas quinases que modificam os receptores

intracelulares de insulina, diminuindo a ligação da mesma ao seu receptor.

A ativação dessas mesmas proteínas aumenta a produção de outras citocinas

inflamatórias e do próprio TNF-α, contribuindo para a manutenção de um

estado inflamatório crônico e de resistência à insulina. Níveis elevados de

TNF-α também promovem disfunção mitocondrial com maior produção de

radicais livres e alterações celulares que desencadeiam a morte celular. Por

outro lado, a morte programada ou apoptose celular serve como sinal para

recrutamento de células inflamatórias e liberação de maior quantidade de

TNF-α.

A adiponectina produzida pelo tecido adiposo modula o metabolismo

glicídico e lipídico no fígado. Ela estimula a oxidação mitocondrial de

ácidos graxos, inibe a lipogênese, diminui a gliconeogênese hepática e

contribui para o aumento da sensibilidade à insulina. A adiponectina

também tem efeitos anti-inflamatórios, pois reduz a ativação de proteínas

quinases pelo TNF-α, diminui a produção do próprio TNF-α e de outras

citocinas inflamatórias.

Por fim, tanto o aumento de citocinas inflamatórias como a apoptose

celular estimulariam a fibrogênese, por meio da liberação de citocinas pró-

fibrogênicas e ativação de células estreladas no fígado.

Não há evidências na literatura que garantam a sequência de eventos da

esteatose para esteato-hepatite e progressão da fibrose. Tanto a resistência à

insulina como os insultos adicionais que justificam as alterações

inflamatórias e a degeneração hepatocelular mais encontradas na esteato-

hepatite são importantes e podem ocorrer simultaneamente.

Mais recentemente, o papel de fatores ambientais, como a composição

da dieta, a influência da flora residente e seu conjunto de genes

(microbioma), vem sendo recentemente estudado na gênese e evolução da

DHGNA.2

Considerando a complexidade dos mecanismos envolvidos na

patogênese da DHGNA, dificilmente um único gene seria identificado

como responsável por esta patologia. Estudos vêm demonstrando

associação de esteatose e esteato-hepatite com polimorfismos em genes

implicados no acúmulo de gordura hepática, na produção de adipocinas e

citocinas, na gênese da fibrose e do estresse oxidativo.3,4 Diferentes estudos

demonstraram associação de polimorfismo de nucleotídeo único no gene da

adiponutrina ou patatin-like phospholipase 3 gene (PNPLA 3) tanto à

presença de esteatose como de formas mais graves de apresentação de

DHGNA.3,5,6

 

Epidemiologia

 

A DHGNA vem ganhando destaque nos últimos 30 anos, com

prevalência de até 30% em países ocidentais. Como para a definição de

esteato-hepatite há necessidade de biopsia hepática, poucos estudos avaliaram a sua prevalência na população geral. Estima-se que ela varie

entre 2% e 3%.

A prevalência de DHGNA parece aumentar com a idade, e faixas etárias

maiores constituem fator de risco para fibrose e cirrose. Entretanto, há

relato de prevalência elevada em crianças e adolescentes acompanhando o

crescente aumento da obesidade na população pediátrica.

Nos primeiros estudos epidemiológicos, havia predominância do sexo

feminino, porém estudos mais recentes demonstraram maior prevalência

nos indivíduos do sexo masculino, tanto em adultos como em crianças.

A prevalência da DHGNA também pode variar de acordo com os

grupos populacionais estudados. Em estudos americanos, a frequência de

esteatose em americanos de origem africana foi inferior à de brancos não

hispânicos e de hispânicos, mesmo ajustando para presença de outros

fatores de risco, como obesidade e DM.7

 

Associação a diabetes mellitus

 

Até 70% dos pacientes com DHGNA têm diagnóstico de intolerância à

glicose e/ou DM quando submetidos ao teste de tolerância à glicose com 75

g de glicose anidra.8 Cerca de 25% dos pacientes com DHGNA vão

desenvolver DM em um período de 5 anos de acompanhamento.9

Em contrapartida, DM é um dos fatores de risco que mais se

correlacionou à presença de DHGNA, inclusive com formas mais graves de

apresentação histopatológica.10,11 Além de ser um fator preditivo de formas

mais graves de apresentação histológica da DHGNA, o DM aumentou a

taxa de progressão de fibrose em estudos de seguimento.

Estudos em pacientes com diabetes demonstraram prevalência elevada

de DHGNA, que variou entre 25% e 69,5%.12,13 Targher et al.

acompanharam 2.839 pacientes com diabetes mellitus tipo 2 (DM2) com

objetivos de estabelecer a prevalência de esteatose pela ultrassonografia

(US) abdominal em pacientes com DM e, em seguida, avaliar a associação

de doença cardiovascular à presença de DHGNA em uma grande coorte de

indivíduos com diabetes.12 A prevalência de DHGNA foi de 69,5% e

pacientes com DHGNA apresentaram maior prevalência de complicações

cardiovasculares (doença cerebrovascular, doença coronariana, doença arterial periférica). Essa associação foi independente de outros fatores de

risco cardiovascular, como controle glicêmico, medicações prescritas e

presença de síndrome metabólica.

Em nosso primeiro estudo encontramos uma prevalência de DHGNA

pela US abdominal de 69,4%.14 Demonstramos associação da presença de

esteatose à US a todas as medidas antropométricas (medida da

circunferência abdominal [CA], relação cintura-quadril e índice de massa

corporal [IMC]), os níveis de triglicerídeos séricos e da alanina

aminotransferase. Dentre os pacientes submetidos à análise histológica,

78% tinham esteato-hepatite, e fibrose moderada a acentuada esteve

presente em até 60% dos pacientes.15 Apenas 19% dos pacientes com

esteato-hepatite apresentavam valores séricos das aminotransferases acima

do normal. Não houve associação dos parâmetros de controle glicêmico,

complicações degenerativas e tempo de diagnóstico do DM à presença de

esteatose na US, nem à presença de esteato-hepatite e fibrose significativa à

biopsia hepática. Em um estudo indiano com metodologia semelhante, a

esteato-hepatite esteve presente em 62,6% dos pacientes e a fibrose

moderada em 37,3% daqueles pacientes submetidos a biopsia hepática. Os

parâmetros de controle do DM, o tempo de diagnóstico do DM e as

medidas antropométricas não foram capazes de predizer a presença ou

gravidade da DHGNA.16 Pacientes com esteato-hepatite tinham valores

maiores de alanina aminotransferase (ALT), ainda que dentro da faixa da

normalidade.

O impacto sobre a presença de DM no carcinoma hepatocelular (CHC)

não está estabelecido, embora alguns estudos venham demonstrando maior

incidência e pior prognóstico do CHC em pacientes diabéticos.

A razão pela qual pacientes com diabetes apresentam formas mais

graves de DHGNA não é conhecida. Além da resistência à insulina,

pacientes com DHGNA e DM compartilham outros mecanismos

fisiopatológicos, como aumento de citocinas circulantes e do estresse

oxidativo. Diferenças em todos esses mecanismos, bem como diferentes

polimorfismos genéticos, poderiam justificar maior gravidade na

apresentação histopatológica da DHGNA em pacientes com diabetes.

Em contrapartida, a DHGNA também tem influência no curso clínico

do DM. Existem evidências do maior risco de desenvolvimento de DM em pacientes com DHGNA e este risco foi maior em pacientes com esteato-

hepatite do que naqueles com apenas esteatose. Estudos demonstraram

maior presença de complicações macrovasculares e microvasculares em

pacientes com diabetes e DHGNA. A presença de esteatose hepática agrava

a resistência à insulina e pode elevar as doses necessárias de insulina para

equilibrar o controle glicêmico. Dessa forma, medidas que reduzam a

esteatose hepática poderiam ter influência tanto no prognóstico como na

resposta terapêutica do DM2.

 

Diagnóstico

 

O diagnóstico da DHGNA é estabelecido em pacientes com alterações

histopatológicas semelhantes às da hepatopatia alcoólica, cuja ingestão

alcoólica seja < 20 g nas mulheres e < 30 g nos homens.

As informações fornecidas pelo paciente e seus familiares são muito

importantes para a exclusão de hepatopatia alcoólica, já que nenhuma

manifestação clínica ou exame laboratorial é suficientemente específico

para o uso de álcool. Aumento do volume corpuscular médio, níveis séricos

de gamaglutamil transferase (gama-GT) e relação aspartato

aminotransferase (AST)/ALT mais elevados são sugestivos de etiologia

alcoólica, mas de utilidade limitada. Além do álcool, é importante excluir

também outras causas secundárias de esteatose hepática. Vários fármacos e

exposição ambiental a hepatotoxinas podem causar esteatose, esteato-

hepatite e até cirrose hepática por diferentes mecanismos. Os casos de

esteatose secundários ao uso de fármacos são pouco frequentes na prática

clínica e representam menos de 2% do total de casos. No entanto, a

identificação de exposição a um fármaco ou hepatotoxina é muito

importante, pois a retirada do agente causal pode reverter a lesão hepática.

A DHGNA é em geral assintomática, porém pode cursar com fadiga,

dor ou leve desconforto no hipocôndrio direito e hepatomegalia ao exame

físico. Raramente, sinais de insuficiência hepática e/ou hipertensão portal

podem estar presentes em pacientes com doença hepática avançada.

A elevação de aminotransferases varia entre duas até cinco vezes o

limite da normalidade, e, em geral, ocorre mais frequentemente na esteato-

hepatite do que na esteatose simples. Por outro lado, dosagens

repetidamente normais de aminotransferases não excluem o diagnóstico de DHGNA e nem mesmo de estágios mais avançados de fibrose. Diversos

autores não encontraram um ponto de corte da ALT em que se possa

determinar com segurança a presença de esteato-hepatite e fibrose. Uma

outra consideração é que a ALT nem sempre é um bom marcador para o

acompanhamento evolutivo da DHGNA, pois pacientes com cirrose podem,

inclusive, apresentar redução de ALT à medida que a doença progride e

torna-se inativa.

A AST é menor do que ALT em 65% a 90% dos pacientes com

DHGNA. A AST aumenta com a redução de seu clearance à medida que

progride a fibrose sinusoidal, e a relação de AST/ALT > 1 está associada à

fibrose avançada. Níveis de fosfatase alcalina e gama-GT podem estar

elevados em até 2 a 3 vezes em mais da metade dos casos de DHGNA.

Em relação à cinética do ferro, podemos encontrar ferritina e saturação

de transferrina elevada em até 50% e 10% dos casos, respectivamente. A

hiperferritinemia não traduz maior sobrecarga de ferro, mas sim injúria e

inflamação hepática.

Alterações das provas de função hepática com hipoalbuminemia,

hiperbilirrubinemia e aumento do tempo de atividade de protrombina

podem ocorrer na presença de cirrose. Anemia, leucopenia e

trombocitopenia podem surgir como manifestações do hiperesplenismo.

Os métodos de imagem têm sido utilizados para pesquisa de DHGNA,

sendo que o mais estudado foi a US abdominal. A US também é o método

mais utilizado para avaliar a presença de esteatose, por ser mais disponível

e de menor custo. A presença de esteatose é inferida pelo aumento da

ecogenicidade do fígado em relação à do baço e à dos rins, redução da

visualização do lúmen de veias hepáticas e diafragma. Quanto à intensidade

do aumento da ecogenicidade, a esteatose será classificada em: leve

(aumento da ecogenicidade e visualização normal de vasos e diafragma);

moderada (aumento maior da ecogenicidade e leve redução da visualização

de vasos e diafragma), e grave (aumento marcante da ecogenicidade e

ausência da visualização de vasos e diafragma).

Em estudos que correlacionaram os achados ultrassonográficos à

histopatologia, a sensibilidade e a especificidade foram elevadas quando o

percentual de esteatose era > 30% na biopsia hepática.17,18 A associação do

ecodoppler à US abdominal pode melhorar o diagnóstico da esteatose, já que o acúmulo de gordura nos hepatócitos pode determinar padrão anormal

de fluxo nas veias supra-hepáticas. Também contribui para o diagnóstico de

estágios avançados da DHGNA com sinais de hepatopatia crônica e/ou

hipertensão portal.

Na tomografia computadorizada abdominal, a esteatose se reflete como

uma diminuição da atenuação do parênquima hepático, o que pode ser

determinado visualmente pela comparação com o baço. O critério objetivo

para determinação da esteatose é a medida da atenuação hepática pelo

menos 10 UH (unidades Hounsfield) menor que a do baço. Quanto menor a

atenuação do parênquima, maior a intensidade da esteatose.

A principal vantagem atribuída à ressonância nuclear magnética em

relação aos métodos mais disponíveis e de menor custo é a menor

variabilidade interobservador na quantificação da esteatose. A aquisição de

imagens ponderadas em T1 em que gordura e água estejam “em fase” e

“fora de fase” permite a identificação e a quantificação da esteatose pela

ressonância nuclear magnética. O fígado com esteatose aparece

hiperintenso em relação ao baço nas imagens em T1 “em fase”. Nas

imagens em T1 “fora de fase”, o fígado esteatótico encontra-se hipointenso

em relação ao baço. Quanto maior a perda de sinal obtida nessas duas fases,

maior a quantidade de esteatose. O depósito de ferro no fígado distorce o

campo magnético local, determinando então queda do sinal da sequência T1

“em fase” em comparação à “fora de fase”. Isto pode gerar dificuldade na

determinação da presença de esteatose e sequências triplo-eco ou múltiplos-

ecos e espectroscopia de prótons devem ser utilizadas em caso de

sobrecarga férrica tissular. A avaliação por espectroscopia pode quantificar

melhor líquidos e lipídios teciduais, porém ainda não há estudos clínicos

que demonstrem a utilidade desse método no seguimento dos pacientes com

DHGNA. Outra vantagem da ressonância nuclear magnética é a sua

superioridade no diagnóstico de lesões focais em fígados com esteatose. A

esteatose focal e a área poupada são lesões benignas comuns que podem ser

diferenciadas do carcinoma hepatocelular pelas técnicas de supressão de

gordura e estudo dinâmico com contraste paramagnético.

Novas técnicas radiológicas podem ser úteis no diagnóstico da esteato-

hepatite e fibrose em pacientes com DHGNA. Tanto a US como a ressonância nuclear magnética combinadas à elastografia vêm sendo

estudadas para a detecção de fibrose.

Em um estudo em 246 pacientes com DHGNA, houve boa acurácia para

fibrose avançada da rigidez hepática medida pela elastografia hepática

transitória por meio do Fibroscan.19 O valor preditivo negativo para fibrose

avançada foi de 97% em pacientes com medidas inferiores a 7,9 kPa

(quilopascais). Não houve influência do grau de esteatose ou do tecido

adiposo subcutâneo na medida da rigidez hepática. Entretanto, não foram

obtidas medidas válidas em 26% dos pacientes com IMC > 30. A

interferência na mensuração da rigidez hepática pode ser superada pelo uso

de sondas apropriadas para pacientes com obesidade. O parâmetro de

atenuação controlada (CAP), um programa para detecção e quantificação da

esteatose, foi incorporado ao Fibroscan. Poucos estudos foram

desenvolvidos até o momento, mas as vantagens demonstradas foram a

capacidade de detectar esteatose em níveis bem inferiores à US e boa

acurácia para definir diferentes graus de esteatose.20 A ideia de analisar

simultaneamente os graus de fibrose e esteatose pode trazer avanços no

acompanhamento de pacientes com DHGNA.

Boa acurácia para a detecção de fibrose também vem sendo

demonstrada em estudos que utilizaram a elastografia combinada à

ressonância nuclear magnética.21

 

Histologia

 

Até o presente momento, a biopsia hepática é o único método capaz de

definir a presença de esteato-hepatite e fibrose e, portanto, de estimar o

prognóstico da DHGNA. Ela também afasta outras etiologias que podem

ser as responsáveis ou contribuir com a DHGNA para as alterações das

enzimas hepáticas. A avaliação histológica também é de grande valor para

determinar a abordagem terapêutica.

Desde a descrição dos primeiros casos de esteato-hepatite não alcoólica

foram propostas diferentes classificações que vêm sendo utilizadas em

protocolos de estudo e na prática clínica. Pela classificação de Brunt, o

diagnóstico de esteato-hepatite será estabelecido quando, além de esteatose,

estiverem presentes 2 das 3 alterações em zona 3: focos de necroinflamação

com infiltrados de polimorfonucleares e/ou mononucleares; balonização de hepatócitos com ou sem corpúsculos de Mallory e presença de fibrose

pericelular e perissinusoidal.22

Em pacientes com esteato-hepatite que desenvolvem fibrose avançada, a

esteatose e a atividade necroinflamatória, que caracterizam a doença,

podem desaparecer. Por esse motivo, muitos autores vêm considerando que

um grande percentual das cirroses criptogênicas são, na verdade,

secundárias à esteato-hepatite não alcoólica.

Os patologistas precisam da correlação aos dados da história clínica

para a determinação do diagnóstico, pois as mesmas alterações

histopatológicas podem ser encontradas na esteato-hepatite por álcool ou

fármacos. São observados quadros mais intensos de esteato-hepatite na

lesão secundária ao álcool, com maior número de neutrófilos e corpúsculos

de Mallory. A interpretação da biopsia hepática auxilia pouco no

diagnóstico diferencial de DHGNA e lesões secundárias à exposição a

fármacos. A esteatose pode predominar na zona 1 nas lesões causadas por

amiodarona e corticoides. A esteatose microvesicular é menos frequente e

correlaciona-se a lesão hepática mais grave, desencadeada por disfunção

mitocondrial. Tetraciclina, ácido valproico, didanosina (DDI) e zidovudina

(AZT) são os principais fármacos associados a esse tipo de esteatose.

Com certeza, a histologia é de grande valor no diagnóstico da esteato-

hepatite, no estadiamento da fibrose e no diagnóstico diferencial de outras

patologias hepáticas, mas não existe consenso em relação à realização da

biopsia nos pacientes com DHGNA. Os principais argumentos contra o

procedimento são os custos, a morbidade e a falta de um tratamento

comprovadamente eficaz. A dor no local da biopsia é a complicação mais

comum, e acomete a maioria dos pacientes submetidos ao procedimento.

Sangramento maior com alteração dos sinais vitais, necessidade de

hospitalização, avaliação radiológica e intervenção terapêutica ocorrem em

até 1 de cada 2.500 procedimentos realizados. Outras complicações – como

pneumotórax, hemotórax e perfuração de vísceras ocas – podem ocorrer em

menor frequência e devem ser imediatamente reconhecidas e tratadas. A

morte após biopsia percutânea é muito rara, em torno de 1 a cada 10 mil

procedimentos, sendo mais relacionada com sangramento maior. Para

justificar o risco do procedimento invasivo é importante que o tamanho do

fragmento seja suficiente, o que permitirá a visualização de um número representativo de espaços-porta. A amostra obtida pela biopsia hepática

representa apenas 1/50.000 do total da massa hepática, e, além disso, o

acometimento do parênquima é heterogêneo na DHGNA. Então, quanto

maior o tamanho da amostra, maior a reprodutibilidade da análise

histológica. Fragmentos superiores a 25 mm oferecem melhor concordância

entre patologistas. O auxílio da US abdominal na definição do local da

biopsia percutânea contribui para a qualidade dos fragmentos obtidos e a

menor incidência de complicações. Por fim, as amostras devem ser

encaminhadas a patologistas com experiência em hepatopatias para que

sejam utilizadas as colorações apropriadas e adotados os critérios para

graduação e estadiamento da DHGNA.

 

Diagnóstico não invasivo de esteato-hepatite e brose avançada

 

Há crescente interesse na literatura em identificar métodos não

invasivos que possam diagnosticar esteato-hepatite e determinar a presença

e a extensão da fibrose. Marcadores séricos envolvidos na patogênese e

progressão da DHGNA podem ser úteis no diagnóstico, no

acompanhamento clínico e na resposta a intervenções terapêuticas.

Pacientes com esteato-hepatite apresentam níveis elevados de citocinas pró-

inflamatórias como fator de necrose tumoral e interleucina 6 e níveis

reduzidos de adiponectina, com propriedades anti-inflamatórias. Níveis de

derivados da citoqueratina 18, resultantes da ativação da apoptose, também

estão elevados em pacientes com esteato-hepatite. No entanto, é uma ilusão

imaginar que um único marcador possa ter sensibilidade e especificidade

suficientes para o diagnóstico das formas avançadas da DHGNA.

Vários modelos que reúnem parâmetros clínicos e laboratoriais foram

propostos com o objetivo de identificar pacientes com maior gravidade nos

achados histopatológicos. Dois modelos para avaliação de fibrose

apresentaram resultados promissores. Um sistema de escore de fibrose

desenvolvido em colaboração com vários centros utilizou seis parâmetros

para a construção de uma fórmula: –1,675 + 0,037 × idade + 0,094 × IMC +

1,13 × (0) na ausência ou (1) na presença de diabetes e/ou intolerância à

glicose + 0,99 × relação AST/ALT – 0,013 × contagem de plaquetas – 0,66

× albumina. Valores superiores a 0,676 e inferiores a – 1,455 associaram-se,

respectivamente, à presença e à ausência de fibrose avançada

(http://nafldscore). O escore proposto por Angulo et al. teve boa acurácia

em prever fibrose avançada com área sob a curva ROC de 0,88.23 Harrisson

et al. desenvolveram um escore ainda mais simples, que consiste na soma

ponderada de três variáveis: IMC > 28 (1 ponto), relação AST/ALT ≥ 0,8 (2

pontos) e diabetes (1 ponto). Soma de 2 a 4 esteve associada a fibrose

avançada com razão de chances de 17 (IC: 9,2 a 31,9).24 Chamamos a

atenção para o fato de que nos dois modelos a presença de DM foi um dos

parâmetros para detectar a presença de fibrose avançada.

Apesar da expectativa de incorporar métodos não invasivos à prática

clínica, os modelos e testes preditivos ainda necessitam de validação em

estudos prospectivos antes de sua ampla utilização.

 

Tratamento

 

Com o aumento da prevalência da DHGNA e formas mais graves de

apresentação histológica em pacientes com DM, é fundamental que se

identifiquem medidas terapêuticas que reduzam o risco de progressão da

doença hepática neste grupo de pacientes.

As medidas terapêuticas da DHGNA visam ao controle das condições

clínicas associadas, como obesidade, DM, hiperlipidemia e hipertensão

arterial.

A redução do peso por meio de dieta e prática de exercícios é a medida

primordial no tratamento desta condição. Entretanto, existem dificuldades

em sustentar as mudanças de estilo de vida por longo prazo. A perda de 5%

do peso com intervenção dietética tem importância na redução de níveis

séricos de enzimas hepáticas e da esteatose hepática. Perdas superiores a

cerca de 10% do peso habitual parecem necessárias para a melhora do grau

de inflamação à biopsia hepática. A restrição calórica é o principal objetivo

para a redução da esteatose hepática, porém, alimentos contendo xarope de

milho rico em frutose, gorduras trans e poli-insaturados com predomínio de

ômega 6 podem estar associados à presença de DHGNA e devem ser

evitados. A atividade física, além de contribuir para a redução de peso, leva

à redução da esteatose hepática e melhora das enzimas hepáticas. Ainda não

há definição quanto ao melhor programa de atividade física no tratamento

da DHGNA, mas a inclusão progressiva de exercícios na rotina diária já pode trazer benefício. Indivíduos sedentários não devem iniciar exercícios

vigorosos sem avaliação prévia do risco cardiovascular.

Medicamentos utilizados para o tratamento da obesidade, como o

orlistate, foram avaliados no tratamento da DHGNA. Estudos randomizados

não demonstraram diferença significativa na melhora histológica da

DHGNA entre os grupos tratados com orlistate ou placebo. Os pacientes

que melhoraram foram os que perderam peso, independentemente do

tratamento oferecido.25

Como a maioria dos pacientes submetidos à cirurgia bariátrica tem

DHGNA, há crescente interesse em avaliar o papel dos principais tipos de

cirurgias no tratamento da esteatose hepática (EH) com e sem fibrose

avançada. No estudo de Mathurin et al,26 381 pacientes foram

acompanhados com análise histológica antes, e 1 e 5 anos após a cirurgia. O

percentual de pacientes com diagnóstico provável ou definitivo de EH caiu

de 27,4% para 14,2% no primeiro ano de cirurgia. Houve progressão da

fibrose após 5 anos de cirurgia, mas 95,7% dos 381 pacientes mantiveram

estágio inicial de fibrose. Como nenhum dos pacientes incluídos no estudo

apresentava fibrose avançada, o efeito da cirurgia bariátrica neste grupo de

pacientes não pôde ser avaliado. Sabemos que a queda muito acentuada do

peso aumenta o fluxo de ácidos graxos livres para o fígado, o qual se

encontra desprovido de proteínas e demais nutrientes, com subsequente

peroxidação de lipídios. Assim, a curto prazo, a redução excessiva de peso

pode reduzir a esteatose, porém poderia agravar a lesão hepática subjacente

(inflamação lobular e fibrose). O tipo de procedimento, bem como a

segurança e a eficácia da cirurgia bariátrica em pacientes com cirrose não

estão estabelecidos. Entretanto, alguns autores consideram que pacientes

com cirrose compensada, sem evidências de hipertensão portal, são

elegíveis para procedimentos restritivos.

Medicamentos hipolipemiantes têm sido utilizados para o controle da

hipercolesterolemia e, principalmente, da hipertrigliceridemia associada à

DHGNA. A prescrição de estatinas se justifica pelo risco cardiovascular

elevado e baixo risco de hepatotoxicidade nesses pacientes. Além disso,

resultados favoráveis foram demonstrados com o uso da atorvastatina,

inclusive um pequeno número de pacientes com melhora histológica em

biopsias de seguimento.27

O sistema renina-angiotensina parece estar envolvido na fibrogênese

hepática. Em pacientes com DHGNA e hipertensão arterial o uso de

antagonistas do receptor de angiotensina pode ser recomendado pelos

benefícios obtidos na melhora da inflamação e da fibrose em estudos com

pequeno número de pacientes tratados com esta classe de anti-

hipertensivos.28

Pela importância da resistência à insulina na patogênese da DHGNA

foram avaliados fármacos que elevam a sensibilidade à insulina no

tratamento desta condição, em pacientes com e sem DM. Entretanto, a

maioria dos estudos incluiu número inadequado de pacientes, por curto

período de acompanhamento, sem avaliação histológica e sem grupo-

controle. Maior destaque vem sendo dado às glitazonas, as quais atuam

reduzindo a produção e aumentando a oxidação de ácidos graxos. Desse

modo, ocorre redistribuição da gordura para o tecido adiposo, o que

aumenta a sensibilidade à insulina no fígado e músculo. Os efeitos

colaterais mais frequentes das glitazonas são o ganho ponderal de 2 kg a 5

kg e a perda óssea em mulheres no período após a menopausa. Há relato de

maior mortalidade cardiovascular e infarto agudo do miocárdio relacionado

com o uso de roziglitazona, mas, ao contrário, menor incidência de eventos

isquêmicos com o uso de pioglitazona. Um estudo recente francês

descreveu maior risco de neoplasia de bexiga em pacientes que usavam

pioglitazona. O risco aumentava com a dose e tempo de uso superior a 2

anos. O maior benefício da utilização das glitazonas reside na redução dos

níveis séricos das aminotransferases e da esteatose hepática. Três estudos

com pioglitazona (doses de 30 a 45 mg/dia) foram randomizados com

grupo-controle e incluíram um número mínimo de 50 pacientes e avaliação

histológica ao final do tratamento.29-31 Em todos os estudos houve melhora

da atividade necroinflamatória, enquanto apenas Aithal et al. comprovaram

redução da fibrose hepática.29 É importante enfatizar que a maioria dos

pacientes incluídos nesses estudos não tinha diabetes.

Outra medicação utilizada para o tratamento do DM, a metformina, foi

estudada na DHGNA. A metformina reduz a produção de glicose hepática

ao mesmo tempo que aumenta a sua utilização periférica no músculo

esquelético. Em estudos randomizados com metformina e dieta versus

apenas dieta houve melhora dos níveis séricos de aminotransferases e da

esteatose em exame de imagem.32,33 Não houve diferença da presença de

esteatose detectada por US abdominal entre os pacientes que utilizaram

metformina ou apenas dieta e atividade física no estudo de Nar et al. 34

Foram avaliadas diferentes doses (1.500 a 2.000 mg/dia) por um período de

6 até 12 meses, sem melhora significativa dos parâmetros histológicos.32,35,36

Dois estudos do tipo caso-controle demonstraram redução do risco relativo

de carcinoma hepatocelular tanto em cirróticos com diabetes37 como em

pacientes com diabetes tratados com metformina.38 Além do possível efeito

protetor em relação ao carcinoma hepatocelular, há também outras

vantagens conhecidas na utilização da metformina, como redução: de 4% a

8% do peso; do risco de desenvolvimento de diabetes em pacientes com

intolerância à glicose; do risco de complicações cardiovasculares, este

último independente da redução dos níveis glicêmicos. Os principais efeitos

colaterais são náuseas, desconforto abdominal e diarreia. A metformina não

deve ser prescrita em pacientes com insuficiência renal (> o estágio 3) e em

insuficiência cardíaca avançada.

Os análogos de glucagon-like peptide-1 (GLP-1) e os inibidores de

dipeptidil-peptidase 4 (DPP-4) (a enzima que degrada o GLP-1) aumentam

os níveis de GLP-1 que estimulam fisiologicamente a insulina, suprimem a

secreção do glucagon e retardam o esvaziamento gástrico, promovendo a

saciedade. Há estudos em curso com esses novos fármacos, randomizados,

incluindo pacientes com e sem diabetes com previsão de seguimento por

longo prazo e avaliação histológica ao término do acompanhamento.

Diversos agentes antioxidantes, citoprotetores e anticitocinas vêm sendo

testados no tratamento da DHGNA. A vitamina E reduz o estresse oxidativo

e diminui os níveis de citocinas que estimulam a fibrogênese hepática. O

uso da vitamina E merece maior ênfase pelos resultados obtidos em um

estudo randomizado em pacientes com EHNA sem DM publicado

recentemente. Sanyal et al. 31 demonstraram a superioridade da vitamina E

(800 UI/dia) em comparação à pioglitazona (30 mg/dia) e ao placebo na

melhora do escore de esteato-hepatite. Tanto a vitamina E como a

pioglitazona reduziram significativamente os níveis de aminotransferases.

Como há evidências prévias na literatura de maior morbidade e mortalidade

com o uso de vitamina E, necessitamos ser cautelosos na recomendação do

seu uso em todos os pacientes com DM e DHGNA. Agentes citoprotetores, como o ácido ursodesoxicólico em doses elevadas, e fármacos que atuam

no perfil de citocinas, como a pentoxifilina, aguardam estudos com maior

número de pacientes, controlados e com análise histológica.

Outras medidas são importantes no tratamento de pacientes com

DHGNA, como orientação a respeito de fármacos e/ou quaisquer

substâncias que possam ser hepatotóxicas e ingestão alcoólica. Níveis

seguros de ingestão alcoólica são difíceis de definir. Há evidências de que o

consumo de pequenas quantidades de álcool (menos que 7 drinks por

semana) pode ter um efeito protetor pelo aumento da sensibilidade à

insulina. No entanto, doses diárias < 20 g podem contribuir para lesão

celular, fibrogênese e carcinogênese na esteato-hepatite não alcoólica, e

pacientes com evidência de fibrose avançada não devem ingerir qualquer

quantidade de álcool. Os pacientes também devem receber aconselhamento

em relação à interrupção pelo risco de acelerar a progressão da fibrose

hepática. Todos os pacientes com testes sorológicos negativos para hepatite

A ou B devem ser imunizados, já que os pacientes com doença hepática

crônica podem apresentar quadros mais graves de hepatite aguda.

 

Prognóstico

 

Pacientes com DHGNA têm maior risco de morte por doenças

cardiovasculares e complicações de doença hepática. Vários estudos

longitudinais identificaram que a doença cardiovascular é a causa de óbito

mais comum nos pacientes com DHGNA. Alguns autores vêm sugerindo

que a DHGNA não é apenas um marcador de risco para doença

cardiovascular, mas que ela poderia estar ativamente envolvida na sua

patogênese. Os mecanismos seriam a liberação de substâncias pró-

aterogênicas (proteína C, fibrinogênio, inibidor do ativador de

plasminogênio 1 e citocinas inflamatórias) e contribuição na resistência à

insulina e na dislipidemia.

A longo prazo, pacientes com DHGNA também podem evoluir com

cirrose hepática, aparecimento de carcinoma hepatocelular e falência

hepática com indicação de transplante hepático.

A DHGNA é fator de risco para carcinoma hepatocelular, que pode

ocorrer até em pacientes com esteato-hepatite sem cirrose. A carcinogênese

hepática induzida pela esteato-hepatite resulta do estresse oxidativo com liberação de citocinas e mecanismos de aumento da proliferação celular em

contrapartida à inibição da apoptose. Esses dados apontam para a

necessidade de detecção precoce de carcinoma hepatocelular nessa

população.

Com o aumento da prevalência da DHGNA, estima-se que ela será a

principal indicação de transplante hepático nos próximos 10 a 20 anos. A

sobrevida após três anos de transplante é semelhante às outras indicações,

mas a DHGNA pode recorrer ou surgir de novo no período pós-transplante.

 

HEPATOSCLEROSE

 

Recentemente vem sendo descrita em biopsias hepáticas de pacientes

diabéticos uma nova condição denominada hepatosclerose. Em um estudo

de autópsias por um período de 10 anos, 19 (12%) de 159 pacientes com

DM incluídos apresentavam densa proliferação de colágeno perissinusoidal

característica da hepa tosclerose. Houve associação dessa lesão à presença

de nefropatia diabética, e alguns autores têm sugerido que ela seja

consequência da microangiopatia diabética no fígado.

 

DOENÇA HEPÁTICA POR ACÚMULO DE GLICOGÊNIO

 

Em pacientes com DM tipo 1 (DM1) mal controlados, devido à

hiperglicemia, à hiperinsulinização e aos níveis elevados de cortisol

secundários à hipoglicemia, pode ocorrer depósito aumentado de glicogênio

intra-hepático. As manifestações clínicas características são: hepatomegalia,

esplenomegalia (menos frequente) e atraso do crescimento e/ou

hipogonadismo secundário ao aumento de cortisol sérico. Níveis de

aminotransferases podem estar elevados e há aumento da ecogenicidade

hepática à US abdominal. A biopsia hepática demonstra depósito de

glicogênio intracitoplasmático, com mínima necrose e sem fibrose. A

melhora do controle glicêmico leva à regressão da hepatomegalia e das

alterações nas enzimas hepáticas.

 

DIABETES SECUNDÁRIO À DOENÇA HEPÁTICA CRÔNICA

Pacientes com cirrose hepática têm elevada prevalência de intolerância

à glicose (60%) e diabetes (20%). No entanto, o quadro clínico e a evolução

do diabetes que surgem no contexto da doença hepática crônica são

diferentes. São menos frequentes nesses pacientes história familiar de

diabetes e aparecimento das complicações micro e macrovasculares do

diabetes. As complicações degenerativas são menos frequentes devido ao

menor tempo do diabetes e a alterações da cirrose hepática – redução do

colesterol, dos níveis tensionais – que podem proteger o sistema

cardiovascular da aterosclerose. O prognóstico a longo prazo é determinado

pela extensão da doença hepática e suas complicações.

Qualquer intervenção terapêutica em pacientes com cirrose e diabetes

deve ser avaliada em termos de riscos e benefícios. Já que não é grande o

impacto das complicações crônicas relacionadas com o diabetes, não é

prudente a conduta agressiva no controle dos parâmetros metabólicos.

Mudanças de estilo de vida não podem ser adotadas com facilidade em

pacientes hipercatabólicos e com comprometimento geral pela cirrose

hepática. Mais de 50% dos pacientes com doença hepática avançada podem

estar desnutridos e muitos já vêm ingerindo uma dieta com restrição de sal

ou limitação de proteínas.

As alterações no metabolismo de drogas secundárias à doença hepática

e o risco de hepatotoxicidade de alguns fármacos são outras limitações que

serão discutidas. A doença hepática reduz a capacidade de realizar

gliconeogênese e reduz o metabolismo de fármacos, com elevação de seus

níveis séricos. Não há recomendação de rotina para monitoração das

aminotransferases no tratamento farmacológico do diabetes. No entanto,

como regra geral, quando há elevação > 3 vezes o valor superior da

normalidade de aminotransferases, recomenda-se a suspensão do

medicamento suspeito de hepatotoxicidade. Há também poucos estudos que

avaliem o uso de medicamentos orais para o tratamento do diabetes em

pacientes com hepatopatia. Sulfonilureias e glinidas podem ser utilizadas

em pacientes com doença hepática, apenas com maior cautela em relação ao

risco de hipoglicemia. Apesar de seguras, drogas que aumentam a secreção

de insulina são de menor utilidade no diabetes secundário à doença hepática

crônica. A metformina não depende da metabolização hepática e seu risco

de hepatotoxicidade é baixo (1 caso de insuficiência hepática/6.000.000 de tratamentos). Apesar de haver a descrição de maior risco de acidose láctica

em pacientes com hepatopatia, esse risco é provavelmente ligado ao

etilismo ou à redução da função renal também presentes nesses pacientes. A

pioglitazona tem metabolização hepática e o risco de hepatotoxicidade é

superior ao da metformina (3 casos de insuficiência hepática/3.000.000 de

tratamentos). Anormalidades de aminotransferases que não determinam

interrupção de seu uso podem ser encontradas. O uso de pioglitazona em

pacientes com cirrose leva à retenção hídrica e ao possível desenvolvimento

de edema e/ou ascite. Inibidores de DPP-4 podem ser usados em pacientes

com leve a moderado acometimento da função hepática. Têm menor

influência na redução do peso do que a metformina e oferecem menor risco

de hipoglicemia quando comparados às sulfonilureias. Em pacientes

cirróticos com importante comprometimento da função renal, ajustes na

dose podem ser necessários, principalmente com a saxagliptina.

Pacientes com cirrose descompensada têm menor habilidade em

compensar episódios de hipoglicemia. A maioria dos hipoglicemiantes orais

é contraindicada nesse grupo de pacientes devido aos efeitos tóxicos

potenciais em decorrência da redução do metabolismo renal e hepático. O

uso de insulina com monitoração cuidadosa é a melhor opção terapêutica

nesse grupo de pacientes. Variações no metabolismo da insulina, da

regularidade da dieta, podem dificultar a obtenção do controle glicêmico.

A prevalência de diabetes em candidatos a transplante hepático é

elevada e pode afetar a sobrevida no pós-transplante. O transplante pode

curar o diabetes secundário à cirrose hepática em 2/3 dos casos. Em

contrapartida, pacientes com história familiar de diabetes e condições

clínicas associadas à síndrome metabólica podem vir a desenvolver diabetes

no pós-transplante. A prevenção de diabetes no póstransplante requer

orientação de dieta e programa de exercícios regulares. Não há um

protocolo recomendado para o tratamento do diabetes nesse contexto, mas o

objetivo é alcançar o controle glicêmico, reduzindo riscos de infecção e

morte no pós-transplante. Há evidências da redução da frequência de

complicações metabólicas limitando-se o uso de corticoides e evitando-se o

uso de tacrolimo.

 

DIABETES E HEPATITE C

O vírus da hepatite C pertence à família Flaviviridae, gênero

Hepacivirus. É um vírus RNA de fita simples e, com base na variação de

sua sequência nucleotídica, 6 genótipos foram identificados. Os genótipos

têm distribuição geográfica diversa e aplicação clínica na seleção do tipo e

do tempo de tratamento com antivirais.

A hepatite C é transmitida predominantemente por via parenteral. São

consideradas populações de risco acrescido para a infecção pelo vírus da

hepatite C (HCV) por via parenteral: indivíduos que receberam transfusão

de sangue e/ou hemoderivados antes de 1993, usuários de drogas

intravenosas ou usuários de cocaína inalada que compartilham os

equipamentos de uso, pessoas com tatuagem, piercings ou que apresentem

outras formas de exposição percutânea. Entretanto, em um percentual

significativo de casos, não é possível identificar a via de transmissão.

Pacientes com hepatite C têm maior risco de apresentar diabetes e o

risco é independente do desenvolvimento de cirrose. O HCV atua

diretamente na sensibilidade à insulina e aumenta indiretamente a liberação

de citocinas e o estresse oxidativo. A resistência à insulina está associada a

pior prognóstico da hepatite C e redução da resposta ao tratamento com

interferon peguilado e ribavirina.

Pacientes com diabetes, por outro lado, têm elevada prevalência de

sorologia para hepatite C. Por isso, em pacientes com diabetes e

manifestações clínicas e/ou exames laboratoriais que sugiram doença

hepática, devemos solicitar exame sorológico para a detecção do anticorpo

contra o vírus da hepatite C.

 

DIABETES E HEMOCROMATOSE

 

Hemocromatose hereditária pode cursar com cirrose hepática,

cardiomiopatia, diabetes, artrite, disfunção tireoideana e impotência. O

acúmulo de ferro no tecido hepático leva ao aumento da resistência à

insulina, enquanto a deposição de ferro nas células β do pâncreas diminui a

secreção de insulina. No estágio pré-cirrótico 20% dos pacientes com

hemocromatose apresentam critérios diagnósticos de diabetes. Diante da

suspeita clínica devem ser solicitados exames para avaliação da presença de

sobrecarga de ferro. Pacientes com índice de saturação de transferrina superior a 45% e/ou níveis de ferritina > 1.000 ng/mL devem ser

posteriormente investigados com avaliação genética, exames de imagem e

análise histológica para a quantificação tecidual. Após a confirmação do

diagnóstico, os pacientes serão tratados com sangrias regulares para a

redução do acúmulo de ferro.

Essa estratégia pode evitar o dano progressivo do fígado e do pâncreas e

contribuir para a preservação da secreção de insulina e de complicações

ligadas ao diabetes.

 

AVALIAÇÃO DAS ALTERAÇÕES HEPÁTICAS EM PACIENTES COM

DIABETES MELLITUS

 

Como discutimos ao longo do capítulo, o DM é um fator de risco para a

DHGNA e pode estar associado a causas específicas de doença hepática.

Além disso, a coexistência de DM e doença hepática requer abordagem

diagnóstica e terapêutica diferenciada e pode levar a outras patologias

hepáticas, como a doença por aumento de deposição de glicogênio e

hepatosclerose. Maior ênfase será dada à DHGNA por sua prevalência

elevada e potencial de evolução para cirrose hepática e predisposição para

carcinoma hepatocelular.

Sendo assim, é fundamental que todos os pacientes com diabetes sejam

submetidos à avaliação clínica, laboratorial e ultrassonográfica inicial

(Figura 17.3.1). Não está estabelecido que pacientes com DM e avaliação

inicial (clínica, laboratorial e radiológica) normal tenham maior risco de

evoluir para doença hepática crônica. No entanto, é válido que sejam

reavaliados em 1 a 2 anos com o intuito de detectar o aparecimento de

alterações laboratoriais e/ou radiológicas.

Pacientes com suspeita em razão da avaliação clínica, de fatores de

risco e/ou de exames complementares devem ser submetidos a exame

sorológico para detecção do HCV e pesquisa de sobrecarga de ferro e, de

acordo com o resultado, serão orientados a prosseguir com a investigação

diagnóstica.

Figura 17.3.1 Avaliação hepática em pacientes com diabetes. HCV = vírus da hepatite C; US = ultrassonografia; DHGNA = doença hepática gordurosa não alcoólica; EH = esteatose hepática.

 

Pacientes com DM que apresentem elevação de aminotransferases em

dosagens seriadas e/ou na presença de esteatose na US apresentam maior

risco de EH e/ou fibrose moderada/acentuada. A biopsia hepática estaria

indicada neste grupo de pacientes para definir com precisão o risco de

evolução para formas mais graves de DHGNA. Outras estratégias,

entretanto, vêm sendo estudadas para evitar o número de procedimentos

invasivos. A utilização das novas técnicas radiológicas, como a elastografia

transitória e a pesquisa do polimorfismo de nucleotídeo único no gene da

adiponutrina ou patatin-like phospholipase 3 gene (PNPLA 3) poderia

selecionar candidatos com maior risco, que então seriam submetidos à

análise histológica.

Por fim, quando a avaliação inicial já sugerir a presença de doença

hepática crônica, será necessário o acompanhamento em ambulatórios

especializados com hepatologista para o rastreamento de complicações

crônicas.

 

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