Rotinas de Diagnóstico e Tratamento do Diabetes Mellitus
14.1. Fisiopatologia
Fisiopatologia
Paula Bruna Araujo
Adolpho Milech
INTRODUÇÃO
O diabetes mellitus (DM) é uma doença metabólica caracterizada por
hiperglicemia secundária à falta absoluta ou relativa de insulina no
organismo. O principal objetivo no manejo clínico do DM é a prevenção
das complicações vasculares crônicas, as quais podem ser divididas em
microvasculares (inclusive retinopatia, nefropatia e neuropatia) e
macrovasculares (que afetam a vascularização arterial coronariana, cerebral
e periférica).
Grandes estudos clínicos prospectivos mostraram forte associação entre
níveis glicêmicos e complicações microvasculares (The Diabetes Control
and Complications Trial,1 Kumamoto Study,2 United Kingdom Prospective
Diabetes Study,3 The Advance Collaborative Group)4 e macrovasculares
(The Diabetes Control and Complications Trial/Epidemiology of Diabetes
Interventions and Complications – DCCT/EDIC,5 UKPDS Legacy),5,6 tanto
no DM tipo 1 (DM1), quanto no tipo 2 (DM2). Esses estudos são a base
para a atual recomendação do alvo de HbA1c < 7%. No entanto, a maioria
dos pacientes com diagnóstico de DM não atinge esse alvo.7
Outros fatores de risco associados ao desenvolvimento das
complicações crônicas do diabetes são a hipertensão arterial sistêmica, o tabagismo, a genética, a dislipidemia, a obesidade e a etnia.
COMPLICAÇÕES MICROVASCULARES
A incidência e a extensão da doença microvascular apresentam forte
correlação com a duração e a magnitude da hiperglicemia. Quando
mencionamos os danos teciduais induzidos pela hiperglicemia, estamos nos
referindo a um tipo particular de células: células endoteliais dos capilares
retinianos, células mesangiais dos glomérulos e neurônios e células de
Schwann dos nervos periféricos. Esse grupo celular tem a peculiaridade de
não ser capaz de controlar a concentração intracelular de glicose, uma vez
que não reduz a expressão do transportador de glicose quando exposto à
hiperglicemia extracelular, como fazem outros tipos celulares, o que o torna
vulnerável.8 Essas células, sob um estado de hiperglicemia crônica, sofrem
contínuo influxo de glicose do meio extracelular para o citosol, o que
resulta na geração excessiva de espécies reativas de oxigênio (ROS –
reactive oxygen species).9 Os mecanismos que levam à superprodução de
ROS envolvem ao menos 4 vias inter-relacionadas: a via dos polióis, o
aumento da formação intracelular de produtos de glicação avançada (AGE
– advanced glycation end-products), bem como da expressão do receptor de
AGE (RAGE), a ativação de isoformas da proteína quinase C (PKC –
protein kinase C) e o aumento de fluxo pela via das hexosaminas.10
A via dos polióis
A glicose e outros açúcares intracelulares são convertidos em alcoóis
derivados desses açúcares (polióis), em uma reação catalisada pela enzima
aldose redutase. A aldose redutase tem a função de reduzir aldeídos tóxicos
da célula a alcoóis inativos; no entanto, quando a concentração intracelular
de glicose se torna muito elevada, a aldose redutase também reduz a glicose
a sorbitol, enquanto oxida o cofator NADPH a NADP+. O sorbitol é então
oxidado a frutose pela sorbitol desidrogenase, que ao mesmo tempo reduz o
cofator NAD+ a NADH. Normalmente, esta via é responsável por uma
pequena parcela de metabolização de glicose, mas em hiperglicemia sua
contribuição é aumentada significativamente nos tecidos que não
necessitam de insulina para captação de glicose. A via dos polióis acaba por consumir o NADPH, um cofator essencial para a regeneração de um
antioxidante intracelular crítico, a glutationa reduzida (Figura 14.1.1).
Reduzindo a quantidade de glutationa reduzida, a via dos polióis aumenta a
suscetibilidade celular ao estresse oxidativo, o que se assemelha à hipoxia
tecidual, sendo chamado de pseudohipoxia hiperglicêmica.11
Um estudo realizado em retinas de ratos e humanos mostrou que a via
dos polióis pode ter papel importante na retinopatia diabética.12 Ele também
revelou que o inibidor da aldose redutase (sorbinol) impede os processos
vasculares, culminando com o desenvolvimento de capilares acelulares. Isto
pode implicar um papel da via dos polióis na apoptose de células
endoteliais. No entanto, o impacto total desta via na disfunção endotelial
não é completamente compreendido.
Figura 14.1.1 A via dos polióis. A aldose redutase reduz aldeídos gerados por espécies reativas de oxigênio (ROS) a alcoóis inativos e glicose a sorbitol, utilizando NADPH como cofator. Células com atividade aumentada da aldose redutase podem depletar a glutationa reduzida e assim levar ao aumento do estresse oxidativo. A sorbitol desidrogenase (SDH)
oxida o sorbitol a frutose utilizando NAD+ como cofator. Adaptada de Brownlee, 2001. 13 Aumento da produção intracelular de produtos nais de glicação
avançada
Os AGE são um complexo e heterogêneo grupo de compostos formados
a partir da glicação não enzimática e da oxidação de proteínas, lipídios e
polinucleotídeos que se acumulam no plasma e em tecidos de pacientes com
DM. A glicação não enzimática de proteínas é uma reação química entre o
grupo carbonila da glicose livre e os grupos amino de aminoácidos
nitrogenados das proteínas, como lisina ou arginina, produzindo bases de
Schiff, que sofrem rearranjo de Amadori para formar glicosaminas, como
hemoglobina glicada A1c (HbA1c) e frutosamina.11 Como os produtos de
Amadori são relativamente estáveis, apenas pequena fração sofre rearranjo
irreversível a AGE (Figura 14.1.2).
A hiperglicemia intracelular é o principal evento iniciador da formação
de AGE, tanto intra quanto extracelulares. Os AGE podem ainda surgir da
auto-oxidação intracelular da glicose a glioxal, da decomposição dos
produtos de Amadori a 3-deoxiglicosona e da fragmentação do
gliceraldeído-3-fosfato e di-hidroxiacetona a metilglioxal. Essas
dicarbonilas intracelulares (glioxal, metilglioxal e 3-deoxiglicosona)
reagem com grupos amino de proteínas intra e extracelulares para forma
rem os AGE.13 Nas células endoteliais, o metilglioxal é provavelmente o
principal AGE formado.
Figura 14.1.2 Formação dos produtos finais de glicação (AGE). A interação inicial do grupo carbonila da glicose com qualquer grupo amino livre em proteínas cria uma base de Schiff, que espontaneamente se rearranja a um produto de Amadori. Subsequentemente, alterações mais lentas (não mostradas) são progressivamente menos reversíveis, e, em última análise, levam à formação de AGE. Além disso, uma variedade de dicarbonilas reativas intracelulares, como glioxal, metilglioxal e 3-desoxiglicosona, podem ser formadas a partir da auto-oxidação da glicose ou de uma base de Schiff ou de um produto de Amadori, que podem reagir novamente com grupos amino de proteínas intra e extracelulares para formar AGE.
Os AGE podem interferir com a função endotelial por meio de 3
mecanismos: modificando proteínas intracelulares, levando a alteração de
suas funções; modificando componentes da matriz extracelular, alterando
sua interação com outros componentes da própria matriz e com receptores
(integrinas) expressos na superfície das células da matriz; modificando
proteínas plasmáticas que então passam a se ligar aos RAGE em células
como macrófagos, células endoteliais e células da musculatura lisa
vascular.9 A ativação dos RAGE estimula a geração de ROS, que, por sua
vez, ativa o fator de transcrição nuclear kappa B (NF-κB) e p21 ras,
levando a alterações patológicas da expressão de genes envolvidos na
inflamação vascular e na disfunção endotelial, como os genes da
trombomodulina, do fator tecidual (TF – tissue factor) e da molécula de
adesão celular vascular-1 (VCAM-1 – vascular cell adhesion molecule-1).
Além disso, o receptor endotelial de AGE, quando ativado, parece mediar,
em parte, o aumento da permeabilidade vascular induzida pelo DM,
provavelmente por meio da indução de fator de crescimento endotelial
vascular (VEGF – vascular endothelial growth factor).
A exposição de células endoteliais aórticas humanas a altas
concentrações de glicose aumenta a expressão de RAGE e de ligantes de
RAGE, sendo esse efeito mediado por ROS,14 mostrando que os AGE e a
sinalização do NF-κB desempenham papel crucial no aumento da
circulação e/ou produção local de fator de necrose tumoral α (TNF-α –
tumor necrosis factor α) vascular, que então ativa a produção de ROS.
Assim, um ciclo vicioso de geração de ROS fica estabelecido. O NF-κB
também leva à geração de ROS por intermédio de citocinas, como o TNF-α,
e da estimulação da expressão da NADPH oxidase. A NADPH oxidase, por
sua vez, ativa NF-κB.15
Ativação da proteína quinase C
A família das PKC compreende pelo menos 11 isoformas amplamente
distribuídas nos tecidos de mamíferos. A atividade das isoformas clássicas é
dependente tanto de íons Ca2+ quanto de fosfatidilserina, sendo
significativamente aumentada pelo diacilglicerol (DAG), um segundo
mensageiro lipídico. A hiperglicemia intracelular aumenta a síntese de novo
de DAG a partir de glicose, por meio da via triose fosfato. O aumento de
ROS inibe a atividade da gliceraldeído-3-fosfato desidrogenase (GAPDH),
levando ao aumento dos níveis intracelulares de DAG, elevando a
disponibilidade de substrato para a via triose fosfato.9 A hiperglicemia pode
também ativar as isoformas de PKC, indiretamente, por meio da ligação dos
AGE aos seus receptores presentes na superfície das células endoteliais
(Figura 14.1.3).
As isoformas β e δ de PKC são as mais ativadas, mas o aumento de
outras isoformas também é encontrado. Em experimentos com DM, a
ativação de PKC-β tem mostrado mediar anormalidades de fluxo sanguíneo
renal e da retina. Isso ocorre por meio da inibição da expressão do RNA
mensageiro da óxido nítrico sintetase (eNOS) que reduz a produção
endotelial do vasodilatador óxido nítrico (NO), enquanto a produção da
endotelina-1 (ET-1), um vasoconstritor, está aumentada.16 No entanto, o
aumento da permeabilidade das células endoteliais induzido pela
hiperglicemia é mediado pela ativação da PKC-α. A ativação da PKC pela
hiperglicemia também induz a expressão do fator de aumento de
permeabilidade VEGF nas células do músculo liso vascular,
consequentemente aumentando a permeabilidade vascular e a angiogênese.
A ativação da PKC contribui também com o acúmulo de proteínas da
matriz microvascular por meio da indução de expressão de fator
transformador de crescimento-β1 (TGF-β1 – transforming growth factor-
β1), fibronectina e colágeno tipo IV, tanto em cultura de células mesangiais
quanto em glomérulos de ratos diabéticos. Esse efeito parece ser mediado
por inibição da produção de NO pela PKC, a qual também tem sido
implicada na superexpressão do inibidor do ativador de plasminogênior-1
(PAI-1 – plasminogen activator inhibitor-1), um inibidor da fibrinólise, na
ativação do NF-κB em culturas de células endoteliais e musculares lisas vasculares, e na regulação e ativação de várias oxidases NADPH
dependentes, associadas à membrana.11
Figura 14.1.3 Ativação da via da proteína quinase C (PKC) e diacilglicerol (DAG). A hiperglicemia aumenta o conteúdo de DAG, que leva à ativação das PKC, que por sua vez interfere com a expressão de óxido nítrico sintetase endotelial (eNOS), endotetelina-1 (ET-1), fator de crescimento vascular endotelial (VEGF), fator de crescimento transformador-β (TGF-β) e inibidor do ativador de plasminogênio-1 (PAI-1), mudanças provavelmente relacionadas com a ativação do fator de transcrição nuclear-κB (NF-κB). Adaptada de
Brownlee, 2001.13
Aumento de uxo pela via das hexosaminas
O aumento da concentração intracelular de glicose ativa a glicólise,
ocorrendo a metabolização da glicose a glicose-6-fosfato, em seguida a
frutose-6-fosfato e esta, na sua maior parte, segue na via glicolítica em uma
série de reações de oxidação que vão gerar piruvato e ATP. No entanto,
parte da frutose-6-fosfato pode ser desviada para a formação de
glicosamina-6-fosfato e finalmente UDP-N-acetilglicosamina (UDP-
GlcNAc), por meio da enzima glutamina-frutose-6-fosfato amidotransferase
(GFAT), sendo esta a via das hexosaminas (Figura 14.1.4).
A UDP-GlcNAc é usada como substrato por O-GlcNAc transferases
específicas para a modificação pós-translacional de resíduos de serina e
treonina de proteínas citoplasmáticas e nucleares. Dessa forma, ocorre a modulação da expressão de proteínas que funcionam como fatores de
transcrição que acabam por alterar a expressão de várias proteínas, como o
PAI-1 em células musculares lisas e o TGF-β1 e PAI-1 em células do
endotélio arterial, envolvidos na vasculopatia diabética.9 Ainda no contexto
das complicações vasculares, é relevante a inibição da eNOS nas células do
endotélio arterial, por meio de modificações no sítio Akt da proteína eNOS,
pelas O-GlcNAc transferases. A hiperglicemia também aumenta a atividade
da enzima GFAT, o que, em última análise, aumenta o substrato para
modificação de várias proteínas celulares.
Figura 14.1.4 A via das hexosaminas. A frutose-6-fosfato, um intermediário da via glicolítica, é convertida a glicosamida-6-fosfato pela enzima glutamina frutose-6-fosfato desidrogenase (GFAT). A glicosilação intracelular dos resíduos de serina e treonina, pela adição de UDP-N-acetilglicosamina (UDP-GlcNAc), é catalisada pela enzima O-GlcNAc transferase (OGT). A modificação de proteínas-alvo e de fatores de transcrição leva ao aumento da expressão de proteínas como o PAl-1 e o TGF-β1. Adaptada de Brownlee,
2001. 13
Mecanismo uni cado
Todos esses diferentes mecanismos patogênicos refletem um único
processo induzido pela hiperglicemia: a superprodução de superóxido pela
cadeia de transporte de elétrons mitocondriais, levando ao aumento da
produção de ROS, comum a todos os tipos celulares lesados pela
hiperglicemia.
O estresse oxidativo contribui para a patogênese das complicações
micro e macrovasculares, e sua ação leva ao dano mitocondrial, inclusive
redução da ATP sintetase mitocondrial, desregulação da homeostase dos
lipídios intracelulares e indução de aparecimento dos poros de transição de
permeabilidade mitocondrial. Isto pode levar a redução da atividade e até
mesmo da quantidade de mitocôndrias, o que pode deflagrar a necrose ou
apoptose celular.15,17 ROS podem ainda afetar as vias de sinalização,
inclusive proteínas G, fatores transcricionais e proteínas quinases.
A cadeia respiratória mitocondrial é formada por 4 complexos: C-I
(NADH-coenzima Q oxirredutase), C-II (succinato-ubiquinona
oxirredutase), C-III (ubiquinona-citocromo-c oxirredutase), C-IV
(citocromo-c oxidase), 2 transportadores de elétrons móveis, a coenzima
Q10 (ubiquinona) e o citocromo-c. Um quinto complexo enzimático
completa, então, a fosforilação oxidativa: o C-V (ATP sintetase). Com a
hiperglicemia, há mais glicose a ser oxidada no ciclo de Krebs, o que, na
prática, empurra mais doadores de elétrons (NADH e FADH2) na cadeia de
transporte de elétrons. Como resultado, o gradiente de tensão através da
membrana mitocondrial aumenta até que um limiar crítico é atingido. Nesse
ponto, a transferência de elétrons dentro do complexo III é bloqueada,
fazendo com que os elétrons em excesso retornem para a coenzima Q (em
situação normal a coenzima Q recebe elétrons dos complexos I e II e os
transfere para o complexo III), que doa esses elétrons, um de cada vez, para
um oxigênio molecular, assim gerando o superóxido, que leva à geração de
ROS. A isoforma mitocondrial da enzima superóxido dismutase degrada o
radical livre de oxigênio a peróxido de hidrogênio, que é então convertido a
H O e O por outras enzimas. 2 2
A produção mitocondrial de superóxido, induzida pela hiperglicemia,
ativa as 4 vias patológicas por meio da inibição de GAPDH (Figura 14.1.5).
Essa inibição eleva o nível de todos os intermediários que estão a montante
do GAPDH na via glicolítica. Níveis aumentados do gliceraldeído-3-fosfato ativam 2 das 4 vias: a via AGE, porque o metilglioxal, principal precursor
intracelular de AGE, é formado a partir de gliceraldeído-3-fosfato; e a via
da PKC, uma vez que o ativador da PKC, DAG, também é formado a partir
de gliceraldeído-3-fosfato. Mais acima, os níveis de frutose-6-fosfato
aumentam, o que intensifica o fluxo por meio da via das hexosaminas, em
que frutose-6-fosfato é convertida pela enzima GFAT em UDPN-GlcNAc.
Finalmente, a inibição da GAPDH aumenta os níveis intracelulares do
primeiro metabólito da via glicolítica, a glicose. Isto aumenta o fluxo por
meio da via dos polióis, em que a enzima aldose redutase reduz a glicose e
consome NADPH no processo.18
A inibição da GAPDH ocorre por meio da poli ADP-ribose polimerase
(Parp). O aumento de ROS na mitocôndria, em resposta à hiperglicemia,
leva à ruptura de cadeias de DNA. Esse evento acaba por ativar a Parp a
qual em condições normais encontra-se no núcleo em uma forma inativa.
Foi demonstrado que a inativação da Parp ou a superexpressão de
superóxido dismutase abolem as 4 vias que levam à superprodução de ROS,
sugerindo que o aumento do estresse oxidativo no DM seja fortemente
regulado pela Parp e pela GAPDH, o que pode representar um alvo para
novas estratégias que possam prevenir as complicações vasculares nessa
doença.18
Figura 14.1.5 Mecanismos propostos para explicar o dano celular induzido pela hiperglicemia e pelo estresse oxidativo como via final comum da ativação das 4 vias metabólicas. O excesso de radical superóxido (O –) inibe parcialmente a gliceraldeído-3-
2
fosfato desidrogenase (GAPDH), uma enzima da via glicolítca, o que leva ao aumneto dos metabólitos formados antes da ação da GAPDH. Esses metabólitos são desviados para utilização nas 4 vias metabólicas responsáveis pelo dano celular da hiperglicemia, em um
ciclo vicioso que aumenta a geração de superóxido. Adaptada de Brownlee, 2001. 11
COMPLICAÇÕES MACROVASCULARES
A doença macrovascular, tanto no DM1 quanto no DM2, é caracterizada
pela aterosclerose acelerada. Embora os mecanismos pelos quais a
resistência à insulina e a hiperglicemia levam a doenças cardiovasculares
não sejam completamente compreendidos, todos os fatores de risco
cardiovasculares que caracterizam o DM convergem para a parede dos
vasos, mais especificamente para o endotélio, como um alvo celular
comum. Atualmente, acredita-se que fatores circulantes associados ao meio
metabólico modificado do DM (p. ex., hiperglicemia, glicação e produtos
de oxidação) causem disfunção endotelial. Este, por sua vez, leva a
alterações vasoconstritoras, pró-inflamatórias e pró-trombóticas que
contribuem para o desenvolvimento da placa aterosclerótica e para maior
chance de trombose após a ruptura da placa. Além das células endoteliais,
ocorre alteração na função das células musculares lisas dos vasos e das
plaquetas, o que revela extenso distúrbio vascular nessa doença.
A disfunção da célula endotelial, um preditor independente de eventos
cardiovasculares, é o resultado da lesão arterial, devido à exposição aguda
ou crônica a fatores de risco cardiovasculares, que ocorrem desde o início
do DM e dos estados de resistência à ação de insulina. Em paralelo à
disfunção endotelial, a aterosclerose pode resultar de um desequilíbrio entre
a magnitude da lesão vascular e da capacidade de reparação, o que leva à
morte acelerada da célula endotelial.
Disfunção endotelial
O endotélio, o maior órgão do corpo, é uma camada única de células
que reveste a superfície luminal dos vasos sanguíneos, que forma uma
interface entre o sangue circulante no lúmen e no resto da parede do vaso
desempenha papel crítico na homeostase vascular. Ele regula ativamente o tônus e a permeabilidade vascular, o equilíbrio entre coagulação e
fibrinólise, a atividade inflamatória e a proliferação celular, por meio da
liberação de vários mediadores e/ou ativação de fatores de transcrição.
Estes incluem fatores relaxantes derivados do endotélio, tais como NO,
fator hiperpolarizante derivado do endotélio (EDHF) e prostaciclina (PGI2);
e os fatores constritores, tais como ET-1, prostaglandinas, angiotensina II
(ANG-II) e ROS, bem como moduladores inflamatórios.15 Em algumas
situações, como no DM, ocorre a disfunção endotelial, que se caracteriza
pelo endotélio que perde sua habilidade de manter a homeostase vascular.
O estímulo para a produção de fatores vasodilatadores dependentes do
endotélio inclui acetilcolina, trombina, serotonina, ANG-II e agonistas α-
adrenérgicos. Em geral, esses fatores também promovem vasoconstrição
por meio de efeitos diretos sobre as células musculares lisas. O NO
endotelial e outros vasodilatadores se opõem a esses efeitos
vasoconstritores, agindo, portanto, de maneira a manter a patência e a
complacência arterial normal, apesar da produção local de vasoconstritores.
Quando o endotélio está disfuncional, os efeitos vasoconstritores não são
antagonizados e o tônus arterial fica aumentado. Além disso, estados
patológicos como hipercolesterolemia, dislipidemia, tabagismo e DM são
associados a produção endotelial aumentada de ET-I e a outros
vasoconstritores derivados do endotélio que podem gerar vasoespasmo e
aumento da rigidez arterial.17 A disfunção endotelial provoca ainda o
aumento da interação com os leucócitos, o crescimento das células
musculares lisas, o comprometimento da coagulação, a inflamação vascular,
a trombose e, portanto, o aparecimento e progressão da aterosclerose.
O NO, sintetizado pelas células endoteliais a partir de L-arginina, é um
mediador muito importante com propriedades vasodilatadoras,
antiplaquetárias, antiproliferativas, de redução da permeabilidade, anti-
inflamatórias e antioxidantes (Figura 14.1.6). Ele inibe o rolamento e a
adesão leucocitária, assim como a expressão de VCAM-1 e da proteína
quimiotática de monócito-1 (MCP-1 – monocyte chemotatic protein-1),
provavelmente por meio da inibição do NF-κB.11 O NO também se difunde
até a camada de células musculares lisas endoteliais, onde induz
relaxamento e redução da proliferação celular. Um estímulo fundamental
para a produção endotelial de NO é o aumento do estresse de cisalhamento, que é a força de atrito na superfície endotelial produzida pelo fluxo
sanguíneo. Em artérias saudáveis, aumento no fluxo arterial estimula a
“dilatação fluxo-mediada”. O consequente aumento de diâmetro do lúmen
age de forma homeostática para limitar o aumento do estresse de
cisalhamento que resulta do maior fluxo. O NO derivado do endotélio
também contribui para a vasodilatação mediada por isquemia e para a
resposta hiperêmica ao exercício. Porém, na disfunção endotelial, a
disponibilidade de NO está reduzida, tanto pela diminuição da sua produção
quanto pela perda de sua atividade biológica, o que ocorre devido ao
aumento do estresse oxidativo. A eNOS bem como a PGI2 sintetase são
inibidas pelo excesso de ROS e por ação de mediadores inflamatórios.15 Por
esse mecanismo, a regulação do fluxo sanguíneo fica prejudicada e
contribui para a redução da capacidade de exercício em certos estados
patológicos, inclusive insuficiência cardíaca e doença arterial periférica.
A importância da inflamação na patogênese da aterosclerose é bem
reconhecida e o endotélio vascular participa do processo inflamatório,
contribuindo e sendo afetado por ele. Na presença de fatores pró-
inflamatórios, inclusive TNF-α e proteína C reativa, o endotélio pode ser
ativado para expressar moléculas de adesão, como a molécula de adesão
intracelular-1 (ICAM-1 - intercellular adhesion molecules-1) e a VCAM-1,
necessárias na adesão leucocitária à superfície endotelial. O endotélio
ativado também expressa fatores quimiotáticos e citocinas próinflamatórias,
como o TNF-β. A expressão endotelial desses fatores contribui para o
desenvolvimento de inflamação na parede arterial e promove a aterogênese.
A migração de linfócitos T e monócitos para a camada íntima vascular
participa desse processo. Os linfócitos T secretam citocinas que modulam a
formação da lesão. Os monócitos, ao atingirem o espaço subendotelial,
captam lipoproteína de baixa densidade (LDL) oxidada via receptor
“varredor” e tornam-se células espumosas. O acúmulo localizado de células
espumosas leva à formação de estrias de gordura, a marca inicial das lesões
ateroscleróticas.19
Figura 14.1.6 Produção de óxido nítrico (NO) a partir da força de cisalhamento sobre o endotélio vascular, por meio da óxido nítrico sintetase endotelial (eNOS), e suas propriedades na manutenção da função endotelial. VCAM-1 = molécula de adesão celular vascular-1; MPC-1 = proteína quimiotática de monócito-1.
A glicação não enzimática de LDL (gLDL) e seu papel na patogênese
da aterosclerose é um novo assunto que vem sendo explorado em estudos
recentes. Devido à hiperglicemia, a glicação do LDL está aumentada em
pacientes com diabetes. A modificação da LDL por glicação leva à
diminuição do reconhecimento da LDL pelo seu receptor (LDL-R) e, por
sua vez, aumenta o tempo de circulação relativa das lipoproteínas, o que
pode levar ao aumento da oxidação das partículas, à formação de AGE e à
ativação de mecanismos de captação alternativa por vias não mediadas por
LDL-R. Além disso, gLDL impede a recaptação de L-arginina, mediada por
estresse de cisalhamento, portanto, reduzindo a formação de NO. A gLDL
também provoca aumento na produção de PAI-1 e de prostaglandinas,
enquanto inibe a expressão do ativador do plasminogênio tecidual (t-PA)
em células endoteliais, levando, em última análise, à redução da
fibrinólise.11 Assim, o endotélio disfuncional contribui para a patogênese da
doen ça aterosclerótica vascular.
A ativação local do sistema renina-angiotensina também desempenha
um importante papel na indução da disfunção endotelial e na aterosclerose no DM. A ANG-II exerce efeito sobre a função do endotélio por meio da
ligação ao receptor de ANG-II nas células endoteliais, aumentando a
expressão de ICAM-1 e a liberação de ET-1 pelo endotélio e estimulando a
produção de ROS via NADPH oxidase. A ANG-II também ativa as vias
JNK e MAPK nas células endoteliais, o que leva ao aumento da
fosforilação da serina do substrato do receptor de insulina-1 (IRS-1), ao
comprometimento da atividade da fosfatidilinositol-3 (PI-3) quinase e
finalmente à disfunção endotelial e provavelmente à apoptose. Esta é uma
das explicações para o fato de o inibidor da enzima conversora de
angiotensina, bem como dos bloqueadores do receptor de ANG-II, proteger
o paciente diabético contra comorbidades cardiovasculares.
Além de responder às mudanças agudas no fluxo sanguíneo,
estimulando a vasodilatação, o endotélio também é responsável por
mudanças crônicas na estrutura e dimensão do lúmen arterial, que são
produzidas por alterações crônicas do fluxo sanguíneo. Com a dilatação
fluxo-mediada, o remodelamento fluxo-induzido é estimulado por
mudanças na tensão de cisalhamento. A resposta de remodelamento ao
fluxo envolve uma interação complexa entre fatores vasodilatadores,
inflamação local e fatores que alteram a matriz intercelular.17 Assim, a
dilatação endotélio-dependente está prejudicada em pacientes com doença
arterial coronariana documentada e em pacientes com fatores de risco
clássicos. Na verdade, tais alterações são detectáveis logo no início do curso
da doença, antes que lesões mensuráveis ou sintomas clínicos apareçam.
Em segundo lugar, mudanças de estilo de vida e drogas que
comprovadamente reduzam o risco cardiovascular têm mostrado reverter a
disfunção endotelial, inclusive exercício físico, cessação do tabagismo,
perda de peso, drogas que baixam o colesterol e inibidores da enzima
conversora da angiotensina. Finalmente, a disfunção endotelial na
circulação coronária ou periférica prevê aumento do risco de eventos
cardiovasculares em pacientes com fatores de risco e em pacientes com
aterosclerose estabelecida.
Apoptose
A apoptose é o processo pelo qual uma célula desempenha papel ativo
na sua própria morte. Existem vários mecanismos pelos quais a apoptose pode ser induzida nas células. A sensibilidade das células a esses estímulos
pode variar, dependendo de uma série de fatores, tais como a expressão de
proteínas pró e antiapoptóticas, a gravidade do estímulo e a fase do ciclo
celular.
Existem vários ligantes indutores de morte celular que são importantes,
como ligante Fas, TNF-α e Trail (ligante TNF relacionado com indução de
apoptose). Quando eles ligam seus receptores específicos de morte, os
sinais de apoptose são transmitidos à célula e uma cascata de caspases é
ativada dentro de segundos, induzindo a apoptose de forma muito rápida.
O NO tem demonstrado inibir a apoptose em vários tipos celulares,
inclusive células endoteliais. Os efeitos antiapoptóticos podem ser
mediados por meio de mecanismos como nitrosilação e inativação de
caspases. Outros mecanismos incluem ativação do p53, aumento de
proteínas de choque térmico e aumento de proteínas antiapoptóticas Bcl-2 e
Bcl-XL. Por meio da ativação da sinalização de cGMP, a atividade da
caspase é suprimida, proteínas quinases dependentes de cGMP são ativadas
e, possivelmente, ocorre aumento da expressão de proteínas
antiapoptóticas.11 A apoptose, especialmente de células endoteliais, pode ser
altamente significativa para o desenvolvimento da aterosclerose.
Disfunção da musculatura lisa vascular no diabetes
A hiperglicemia ativa PKC, RAGE e NF-κB nas células musculares
lisas vasculares, assim como o faz nas células endoteliais, o que leva à
formação de superóxido, que contribui para maior nível de estresse
oxidativo.19 Dessa forma, o DM estimula a atividade aterogênica dessas
células. Conforme as lesões ateroscleróticas progridem, células musculares
lisas migram a partir da camada média para a íntima dos vasos, onde
proliferam, gerando fatores de crescimento e participando da formação da
capa fibrosa da placa de ateroma. As células musculares lisas vasculares,
nesse novo ambiente, começam a gerar várias moléculas de matriz
extracelular implicadas na aterogênese. Os proteoglicanos vasculares se
ligam a lipoproteínas aterogênicas que levam a sua retenção no espaço
subendotelial.
Avaliações post-mortem mostram que a expressão de sulfato de
condroitina e de sulfato de dermatana está aumentada, enquanto o sulfato de heparana e o número de células musculares lisas vasculares estão reduzidos
nas lesões ateroscleróticas de pacientes com diabetes, quando comparados
com lesões de pacientes sem DM.19,20 O aumento dos proteoglicanos sulfato
de condroitina e de dermatana pode contribuir para a aterosclerose nos
pacientes com DM, por meio do aumento da retenção de LDL na parede
arterial. O reduzido teor de elastina da íntima, seja por meio de produção
reduzida ou de quebra acentuada, pode ser outro mecanismo pelo qual a
hiperglicemia aumenta a aterosclerose em pacientes com DM.
O colágeno, sintetizado por células do músculo liso vascular, acumula
na aterosclerose. Na presença de hiperglicemia, o aumento do colágeno é
submetido a glicação não enzimática, o que aumenta a sua capacidade de
ligação à LDL, resultando no aumento da retenção de LDL na parede do
vaso. Além disso, gLDL pode, em parte, regular o aumento da migração e,
em seguida, a apoptose das células musculares lisas vasculares em lesões
ateroscleróticas. Lipoproteínas de baixa densidade, que tenham sido
submetidas à glicação não enzimática, induzem a migração de células
musculares lisas vasculares in vitro e também podem induzir a sua
apoptose.19 Assim, o DM altera a função da musculatura lisa vascular de
forma a promover formação da lesão aterosclerótica, instabilidade da placa
e eventos clínicos.
Alteração da função plaquetária
A ativação plaquetária pode ocorrer desde a fase inicial do DM, como
sugerido por estudos em animais que mostram que a maior agregação
plaquetária em resposta a vários agonistas ocorre bem antes de as alterações
da parede do vaso se desenvolverem. As plaquetas de pacientes com DM
são caracterizadas por alterações em várias vias de sinalização, levando a
um fenótipo hiper-reativo com maior aderência, agregação e ativação,
causado por menor fluidez de membrana, aumento do metabolismo do
ácido araquidônico, aumento da síntese de tromboxano (TX) A2 e alteração
da homeostase do Ca2+. Assim, as plaquetas respondem mais
frequentemente a estímulos sublimiares, tornando-se mais rapidamente
consumidas, o que resulta em trombopoese acelerada de plaquetas mais
reativas.
A concentração intraplaquetária de glicose reflete a concentração
extracelular, uma vez que a entrada de glicose nas plaquetas não depende de
insulina. Assim, a hiperglicemia pode desempenhar papel causal na hiper-
reatividade plaquetária em pacientes com DM. Na verdade, a hiperglicemia
é responsável pela deficiência da homeostase do Ca2+ nas plaquetas, o que
resulta em aumento da mobilização de Ca2+ a partir de estoques
armazenados no interior da célula, resultando no aumento intracelular dos
níveis de Ca2+. Portanto, seus efeitos sobre as concentrações
intraplaquetárias de Ca2+ são consistentes com a maior sensibilidade a
agentes agregantes. A maior agregação plaquetária no DM foi reconhecida
já em 1965. Desde então, muitos estudos demonstraram aumento da
ativação plaquetária e da síntese de metabólitos de TX mediando a ativação
plaquetária no DM, enquanto a vasodilatação mediada por plaquetas está
prejudicada. Além disso, as plaquetas de pacientes com DM têm
sensibilidade diminuída a antiagregantes naturais, como NO e PGI2.21
Assim, a biossíntese de TX está reforçada no DM2, fornecendo evidências
de sua origem plaquetária. O distúrbio metabólico parece ser responsável
pela ativação plaquetária dependente de TX, tal como demonstrado pela sua
diminuição consistente com qualquer intervenção capaz de reduzir a
glicose.
A dislipidemia contribui direta e indiretamente para a agregação
plaquetária. Além disso, o fator de crescimento derivado de plaquetas
(PDGF – platelet-derived growth factor) estimula a migração e a
proliferação de células musculares lisas vasculares, bem como a produção
de matriz extracelular. Estes contribuem para a formação da lesão
fibrointimal subendotelial e, possivelmente, para a formação da cápsula
externa de lesões predominantemente lipídicas, que induzem o
desenvolvimento de aterosclerose. O aumento da produção de PDGF pelo
endotélio vascular, em resposta à concentração elevada de glicose e de
ANG-II, tem sido relatado in vitro. Isto sugere um possível envolvimento
do PDGF no desenvolvimento da vasculopatia diabética.22 Além disso,
pacientes com DM têm aumento da expressão de glicoproteína Ib (GpIb) na
superfície plaquetária, a qual medeia a ligação com o fator de von
Willebrand, e de GpIIb-IIIa, que medeia a interação entre plaquetas e
fibrina. Essas alterações podem resultar da diminuição da produção endotelial dos antiagregantes NO e PGI2, diminuindo os níveis de
antioxidantes e aumentando a produção de fibrinogênio e de ativadores de
plaquetas, tais como trombina e fator de von Willebrand.19
Ativação da coagulação
O DM também está associado a alterações na coagulação sanguínea,
levando a um estado pró-coagulante caracterizado por mudanças na
atividade e nos níveis de fatores trombóticos e fibrinolíticos. Tanto a
hiperglicemia quanto a hiperinsulinemia parecem desempenhar um papel na
patogênese desse estado pró-trombótico.
O TF é uma proteína pró-trombótica transmembrana, expressa em
células vasculares e não vasculares, inclusive monócitos e plaquetas. A sua
expressão pelas células endoteliais está aumentada na presença de baixo
grau de inflamação, frequentemente encontrado em associação ao DM. Em
contraste, células musculares lisas vasculares, que ficam expostas após a
ruptura da placa, expressam o TF de forma constitutiva, e esta expressão é
reforçada após o estímulo por citocinas. Pacientes com DM têm níveis
circulantes de TF mais elevados. De fato, o aumento conjunto dos níveis de
glicose e de insulina resulta em aumento muito maior da atividade pró-
coagulante desse fator, enquanto a melhora do controle glicêmico resulta
em redução de seus níveis. Os níveis de TF também podem ser
influenciados pela formação de AGE, que ativam o NF-κB e levam à sua
produção. Essas observações indicam que a insulina e os níveis glicêmicos
têm papel direto na patogênese do estado pró-trombótico, particularmente
no DM2.
A hipofibrinólise está bem estabelecida no DM2 e é caracterizada por
níveis elevados de PAI-1, bem como por prolongamento do tempo de lise
do coágulo. Em pacientes com DM1, foi demonstrada correlação
significativa entre HbA1c média ao longo de 18 anos e o comprometimento
da fibrinólise, como mostrado por níveis elevados de PAI-1 e reduzidos de
tPA implicando glicemia na modulação do potencial fibrinolítico.23 Além de
hiperglicemia, a hiperinsulinemia aumenta os níveis de PAI-1, o que explica
os níveis elevados dessa proteína em estados de resistência à insulina. Os
níveis de fibrinogênio estão elevados em ambos os tipos de DM em
comparação com indivíduos saudáveis pareados por idade. Níveis altos de fibrinogênio predizem a progressão da calcificação coronariana em
indivíduos com DM1 e os níveis dessa proteína podem predizer isquemia
miocárdica silenciosa em DM2. Além disso, os níveis de fibrinogênio estão
elevados em parentes saudáveis de pacientes com DM, o que sugere que a
alteração dos níveis de fibrinogênio antecede o desenvolvimento do DM.
Os níveis aumentados de fibrinogênio podem estar relacionados com o
baixo grau de inflamação associado ao DM. Os níveis de interleucina-6
estão elevados no DM e essa citocina é capaz de estimular os hepatócitos a
produzirem fibrinogênio, o que representa um importante elo de ligação
entre inflamação e hipercoagulabilidade.
MEMÓRIA METABÓLICA
Em 1993, os resultados do DCCT mostraram que em pessoas com DM1
de curta duração, o controle glicêmico intensivo reduziu dramaticamente a
ocorrência e gravidade de complicações diabéticas microvasculares.1 Após
o anúncio dos resultados do DCCT, muitos pacientes que participaram do
grupo de tratamento padrão adotaram o esquema terapêutico intensivo,
atingindo melhor controle glicêmico, comprovado por redução dos valores
da HbA1c. Ao mesmo tempo, o nível médio de HbA1c piorou para os
pacientes que estavam no grupo de terapia intensiva. Os valores de HbA1c
pós-DCCT tornaram-se estatisticamente iguais para ambos os grupos
durante aproximadamente 14 anos de seguimento no curso do DCCT/EDIC.
Surpreendentemente, no entanto, os efeitos da diferença da HbA1c por 6,5
anos durante o DCCT persistiram sobre a incidência de retinopatia e
nefropatia, e se tornaram maiores nos 14 anos de acompanhamento
subsequentes. Os pacientes do grupo de terapia padrão continuaram a ter
maior incidência de complicações, mesmo com melhora do controle
glicêmico durante os 14 anos de DCCT/EDIC, enquanto o grupo de terapia
intensiva continuou a ter menor incidência tanto de complicações
microvasculares quanto de doenças cardiovasculares, mesmo com a
deterioração do controle glicêmico. O tratamento intensivo reduziu o risco
de qualquer evento cardiovascular em 42% e o risco de infarto do
miocárdio não fatal, acidente vascular encefálico ou morte por doença
cardiovascular em 57%.5 Esse fenômeno foi chamado de “memória
metabólica”.
Resultados semelhantes foram encontrados em pacientes com DM2
acompanhados por 10 anos após o término do UKPDS. Pacientes
originalmente do grupo de tratamento intensivo tiveram menos
complicações vasculares e menos eventos clínicos adversos ao longo do
tempo, quando comparados com pacientes do grupo de tratamento padrão,
apesar de níveis similares de HbA1c no período de acompanhamento que se
seguiu ao término do UKPDS.6
A hiperglicemia intracelular leva ao excesso de produção de superóxido,
que é o elemento-chave na ativação de todas as outras vias envolvidas na
patogênese de complicações do diabetes. Proteínas mitocondriais são
glicadas durante a hiperglicemia e esse efeito induz as mitocôndrias a
produzirem mais superóxido, uma condição que não depende da glicemia
real. A ligação de AGE aos RAGE resulta na geração de ROS intracelular, o
que promove a expressão de mais RAGE. O estresse oxidativo pode alterar
a expressão gênica, por meio de uma ação epigenética, favorecendo a
permanência da ação dos radicais livres, o que leva à progressão contínua
de danos teciduais. Além disso, o DNA mitocondrial pode influenciar a
expressão gênica e contribuir para a superprodução de radicais livres em
nível mitocondrial. Essa condição de automanutenção, que leva a um
estresse oxidativo persistente independente dos níveis reais de glicemia,
pode contribuir para o aparecimento da “memória metabólica”.24
CONCLUSÃO
As complicações vasculares são as principais causas de morbidade e
mortalidade em pacientes com DM. A relação entre micro e
macroangiopatia diabética e disfunção endotelial é complexa e continua
sendo um assunto de extensa pesquisa. O estresse oxidativo parece ser a via
final comum para os 4 principais mecanismos de toxicidade da glicose na
patogênese da doença vascular no DM, nomeadamente a via dos polióis, a
formação de AGE, PKC-DAG e a via das hexosaminas, que leva a
complicações microvasculares (das quais eles são em grande parte os
mecanismos patogênicos vigentes) e macrovasculares. A desregulação do
metabolismo no DM afeta adversamente cada elemento celular no interior
da parede vascular por disfunção endotelial, vasoconstrição e inflamação,
promovendo diferentes distúrbios macrovasculares. Apesar do importante papel desempenhado pelo estresse oxidativo no DM e na aterosclerose, a
terapia antioxidante não teve qualquer benefício em grandes ensaios
clínicos randomizados. Terapia dirigida contra as fontes enzimáticas de
superóxido parece ter maior utilidade na prevenção da doença vascular.
As alterações bioquímicas nas células endoteliais e nas células
musculares lisas vasculares dos microvasos de pacientes com diabetes
incluem: relaxamento endotelial dependente comprometido;
hipercoagulabilidade; fibrinólise reduzida; acúmulo de AGE e dano
oxidativo, alteração na matriz vascular e estreitamento dos vasos; ativação
de citocinas, liberação de fatores de crescimento, proliferação celular
vascular e aumento da captação de macrófagos para a camada subendotelial
criando células de espuma ou placas de ateroma.
Novas evidências consistentes sugerem que a hiperglicemia pode deixar
uma marca inicial nas células da vasculatura e em órgãos-alvo, o que
favorece o desenvolvimento futuro de complicações. Além disso,
evidências sugerem que essa “memória metabólica” pode aparecer mesmo
quando um bom controle glicêmico é atingido. Essa evidência levanta
muitas questões sobre o manejo terapêutico do DM. Em particular, sugere
que o tratamento agressivo precoce da hiperglicemia parece ser obrigatório.
Os iniciadores da vasculopatia, que finalmente evoluem para complicações
a longo prazo, podem ser controlados e evitados por meio do controle
glicêmico rigoroso, da manutenção do perfil lipídico normal, do exercício
físico regular, da adoção de um estilo de vida saudável e de intervenções
farmacológicas.
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