Rotinas de Diagnóstico e Tratamento do Diabetes Mellitus
10.2. Plano alimentar
Plano alimentar
Débora Lopes Souto
Márcia Soares da Mota e Silva Lopes
Eliane Lopes Rosado
INTRODUÇÃO
O tratamento do diabetes é baseado na monitoração glicêmica, no uso de medicamentos
(hipoglicemiantes orais ou insulina), na prática regular de exercícios físicos e na manutenção
de alimentação balanceada.1,2
A terapia dietética é um dos pontos fundamentais para o controle da glicemia, dos lipídios
séricos e do peso corporal de indivíduos com diabetes, o que permite a ingestão de alimentos
com qualidade e em quantidade suficiente para garantir um adequado estado nutricional.3
No momento da prescrição, deve-se considerar que o diabetes é uma doença crônica e que
dietas restritivas não serão seguidas por longo período, sendo relatado por alguns pacientes
que a aderência ao plano alimentar é um dos aspectos mais difíceis do tratamento.4
Nenhuma recomendação pode ser feita para prevenir o diabetes mellitus tipo 1 (DM1),
contudo, o pré-diabetes e o diabetes mellitus tipo 2 (DM2) podem ser prevenidos ou retardados com a redução de 5% a 10% do peso corporal (quando há sobrepeso ou
obesidade).1-3
Neste capítulo, abordaremos como deve ser realizada a avaliação e a prescrição
nutricional quando o diabetes é diagnosticado.
AVALIAÇÃO NUTRICIONAL DO DIABETES
A cada consulta, o peso corporal e a estatura devem ser medidos para cálculo do índice de
massa corporal (IMC) e classificação quanto ao diagnóstico nutricional (Tabela 10.2.1).5
O perímetro da cintura também deve ser considerado para avaliação de riscos associados à
adiposidade visceral, por exemplo, hipertensão arterial sistêmica, doenças cardiovasculares,
apneia do sono (Tabela 10.2.1).6
Nos casos de obesidade, o peso teórico ou ideal não deve ser utilizado como meta, mas
sim deve-se calcular margem de 10% acima ou abaixo desse valor. A fórmula para este
cálculo é: peso teórico = (altura)2 × IMC médio (22,0 e 20,8 para homens e mulheres,
respectivamente).5
PRESCRIÇÃO NUTRICIONAL NO DIABETES
Energia
A energia deve estar adaptada às condições do paciente, observando-se a necessidade de
perda de peso corporal ou a existência de doenças associadas.
O cálculo energético é idêntico ao de indivíduos saudáveis, assim, para manutenção do
peso corporal, a energia deve ser calculada pela fórmula da Organização Mundial da Saúde,
utilizando-se o peso atual (Tabela 10.2.1).5,7
Na presença de sobrepeso ou obesidade, é preconizado o método do valor energético
médio do tecido adiposo (Tabela 10.2.1).8
Exemplos de prescrição para indivíduos com DM1 e do DM2 podem ser observados nos
Tabelas 10.2.2 e 10.2.3.
Macronutrientes
Não existe diferença entre planos alimentares para pacientes com diabetes tipo 1 ou tipo 2
em relação à distribuição de macronutrientes, sendo preconizado pela American Diabetes Association: 50% a 60% de carboidratos totais (com ≤ 10% de carboidratos simples e 20 g a 25 g de fibras totais); 25% a 30% de lipídios (≤ 7% de ácidos graxos saturados, 10% de ácidos graxos poli-insaturados, 10% a 15% de ácidos graxos monoinsaturados e ≤ 200 mg/dia de
colesterol) e 10% a 20% de proteínas.3 A recomendação da Sociedade Brasileira de Diabetes é idêntica, exceto com relação aos carboidratos e lipídios, que devem compor 45% a 55% e <
30% da energia total da dieta, respectivamente.1
Os carboidratos são os macronutrientes que mais afetam a glicemia no período pós-
prandial, porque são totalmente hidrolisados em glicose após sua ingestão, enquanto apenas 30% a 60% da proteína e 10% do lipídio consumidos serão convertidos em moléculas de
glicose.1-3 O consumo excessivo de ácidos graxos saturados e gordura trans deve ser evitado pois é associado a aumento de lipoproteínas de alta densidade (LDL) e favorecimento do processo aterogênico.
Devido a este fato, foram propostos os termos “índice glicêmico” e “carga glicêmica” para
classificar os alimentos com base na capacidade do carboidrato em elevar a glicemia.9
O índice glicêmico é definido como a área abaixo da curva de resposta glicêmica 2 horas
após a ingestão de uma porção de 50 g de um alimento em relação à mesma porção do alimento considerado padrão (50 g de pão branco ou glicose). A carga glicêmica baseia-se no resultado do índice glicêmico do alimento, e no carboidrato disponível na refeição. Apesar de a ingestão de alimentos com baixo (< 50) ou moderado (50 a 69) índice glicêmico promover
menores oscilações na glicemia,10 a American Diabetes Association,2,3 com base nos resultados do Canadian Trial of Carbohydrates in Diabetes, o uso do índice glicêmico fornece benefício apenas modesto ao tratamento do diabetes.
Pacientes com diabetes devem utilizar o índice glicêmico no momento das substituições,
optando por alimentos que não promovam oscilações glicêmicas pós-prandiais extremas.1-3 No entanto, alimentos com elevado índice glicêmico (≥ 70) não devem ser excluídos da dieta visto que vários fatores podem influenciar a carga glicêmica da refeição (p. ex., lipídios e proteínas retardam o esvaziamento gástrico; fibras solúveis reduzem a absorção dos carboidratos; processamento, método e tempo de cocção interferem na disponibilidade do carboidrato).
Embora carboidratos complexos necessitem de maior hidrólise enzimática, comparados
aos simples, ambos são absorvidos como monossacarídeos pelas dissacaridases intestinais. Dessa forma, açúcares passaram a ser permitidos para indivíduos com diabetes em substituição a outras fontes de carboidratos.
O método de contagem de carboidratos é recomendado pela American Diabetes
Association para flexibilizar a alimentação e permitir que o carboidrato seja ingerido de forma
adequada, para não afetar o controle da glicemia.1
Existem 2 formas de se contarem os carboidratos, sendo que muitas vezes ambos os
métodos podem ser utilizados ao mesmo tempo. A escolha do método deve estar adequada à
rotina e à condição clínica do indivíduo.13
O método básico pode ser utilizado por qualquer indivíduo com diabetes, contudo, é mais
indicado para pacientes que não fazem uso de insulina ou para que o paciente aprenda a identificar o tamanho das porções e compreenda o efeito do alimento na glicemia. Nessa terapia, é permitida a substituição dos alimentos utilizando listas em que estes são agrupados de forma que cada equivalente de carboidratos tenha aproximadamente 15 g deste macronutriente (variação de 9 g a 19 g de carboidratos). O paciente não deve exceder as quantidades já calculadas em seu plano alimentar, deve observar a prescrição e consultar as
listas de substituições.1,18
Indivíduos que utilizam o esquema basal/bolus por múltiplas injeções ou sistema de
infusão contínua de insulina devem ser orientados a seguir o método avançado, porque este oferece informações mais precisas quanto à dose de insulina a ser administrada para a
adequada metabolização dos carboidratos (a Tabela 10.2.4 mostra como devem ser os cálculos
de insulina para este método).14 No entanto, esses pacientes precisam pesar ou medir os alimentos consultando as informações nutricionais dos rótulos ou tabelas de referência e
somando a quantidade de carboidrato de cada alimento.1,13
Apesar de o método da contagem de carboidratos melhorar significativamente a glicemia,
a maior flexibilidade alimentar pode promover ganho de peso corporal ou elevação dos
triglicerídeos quando o método não é convenientemente utilizado.13
Dietas conhecidas como “low carbs” e “very low carbs” recomendam ingesta de 20 g ou
10 g de carboidratos por dia para redução de peso corporal e glicemia, mas geralmente são
hiperlipídicas.15
Mesmo nos casos de sobrepeso ou obesidade, não são recomendadas restrições específicas
de macronutrientes, porque a redução energética resulta em perda de peso, independentemente
de qual macronutriente é reduzido.16 Ademais, dietas hipoglicídicas e hiperproteicas podem ter efeito benéfico na redução do peso corporal apenas por período inferior a 6 meses, enquanto as dietas hipolipídicas são mais adequadas para esta finalidade quando prescritas por
mais de 1 ano.17
Dietas hiperproteicas vêm sendo utilizadas para a perda de peso corporal por seu efeito na
termogênese.15 Porém, apesar de a ingestão proteica não elevar a glicemia como o carboidrato, as proteínas não podem ser ingeridas em quantidade excessiva (mais de 3 porções por refeição), porque seu metabolismo requer maior filtração glomerular e poderá ocasionar
complicações renais.1,3
Não podemos deixar de lembrar que o metabolismo proteico varia de 3 h a 4 h, sendo
capaz de manter a glicemia estável durante um período maior do que os carboidratos. Assim, em pacientes com maior propensão à hipoglicemia, especialmente em uso de insulina NPH, a
ingestão de leite na ceia pode ser recomendada para prevenção de hipoglicemias noturnas.3
Tabela 10.2.1 Valores de referência para o diagnóstico nutricional e fórmulas para calcular o valor energético da
dieta5-7
Diagnóstico nutricional segundo o IMC Fórmulas para calcular o valor energético da dieta
IMC = peso ÷ (altura)2 VET = TMB x FA
Idade (anos) 2 Classi cação Taxa metabólica basal IMC (kg/m )
20 a 60 < 16 Magreza grau III Idade (anos) Homens Mulheres
16 a Magreza < 18 310,2 + (63,3 × peso) – 263,4 + (65,3 ×
16,9 grau II 2 peso) – 0,263 (peso ) 2 0,454 (peso)
17 a Magreza 18 a 30 (15,4 × peso) + (27 × (13,3 × peso) + 18,4 grau I altura) + 717 (334 ×
altura) + 35
18,5 a Eutro a 30 a 60 (11,3 × peso) + (16 × (8,7 × peso) –
24,9 altura) + 901 (255 ×
altura) + 865
25 a Sobrepeso > 60 (8,8 × peso) + (1,128 × (9,2 × peso) + 29,9 altura) – 1.071 (637 ×
altura) – 302
30 a Obesidade
34,9 grau I
35 a Obesidade Fator atividade 39,9 grau II
≤ 40 Obesidade Leve Moderada Intensa
grau III
< 22 Magreza < 18 anos 1,53 1,76 2,25
> 60 22 a 27 Eutro a Homens 1,55 1,78 2,10
> 27 Sobrepeso Mulheres 1,56 1,64 1,82
Valores de circunferência da Método VEMTA para perda de peso
cintura considerados como risco
para doenças associadas
Redução de peso corporal/mês: Redução do VET/dia:
elevado Risco Risco muito 1 kg 256,5 kcal elevado
Homens ≥ 94 cm ≥ 102 cm 2 kg 513,0 kcal
Mulheres ≥ 80 cm ≥ 88 cm 3 kg 769,5 kcal
FA = fator atividade; IMC = índice de massa corporal; VEMTA = valor energético médio do tecido adiposo; TMB = taxa metabólica basal; VET = valor energético total.
Tabela 10.2.2 Exemplo de prescrição dietética para indivíduo com diabetes tipo 2
Paciente do sexo feminino, 40 anos, diagnóstico de diabetes tipo 2, utiliza cloridrato de metformina (500 mg/dia – 3×/dia), sedentária, apresenta peso corporal
atual de 77 kg, altura de 1,62 m, hemoglobina glicada de 8,5%, LDL de 172 mg/dL, HDL de 34 mg/dL e triglicerídeos de 205 mg/dL.
1o passo – Calcular o IMC e o VET (utilizando o peso atual).
*IMC = peso ÷ (altura) 2 2 = 29,38 kg/m (diagnóstico de sobrepeso)
*TMB = [(8,7 × peso) – (255 × altura) + 865] → [(8,7 × 77) – (255 × 1,62) + 865] = 1.121,80 kcal/dia
*VET = TMB x FA = 1.121,80 × 1,56 = 1.750 kcal/dia
2o passo – No caso de sobrepeso ou obesidade, utilizar o método VEMTA.
**Energia = VET – VEMTA
**Energia = 1.750 – (256,5 × 2 [para perda de 2 kg/mês]) → 1.750 – 513 = 1.237,00 kcal/dia
3o passo – Distribuir os macronutrientes
***Recomendação %-VET kcal a g/dia b Equivalentes/dia kcal/g Equivalência
CHO 45 a 55% 55-1.237 680,3 ÷ 4 170 ÷ 15 11,33 ≈ 11
PTN 10 a 20% 20-1.237 247,4 ÷ 4 61,8 ÷ 7 3,83 ≈ 4
LIP ≤ 30% 25-1.237 309,2 ÷ 9 34,3 ÷ 5 6,87 ≈ 7
4o passo – Distribuir por refeição
Total Desjejum Almoço Lanche Jantar Ceia
CHO 12 3 3 1 3 2
PTN 4 1 1 0 1 1
LIP 6 2 1 1 1 1
5o passo – Montar o plano alimentar e oferecer um exemplo de cardápio
Refeição CHO PTN LIP Exemplo de cardápio
Desjejum 2 - - 1 pão francês
- - 1 1 colher de chá rasa de margarina (≈ 4 g)
1 1 1 1 copo de leite integral (200 mL)
Almoço - 1 - 1 lé de peixe grelhado pequeno (≈ 70 g)
2 - - 4 colheres de sopa cheias de arroz
1 - - 1 concha média de feijão (≈ 140 g)
- - - Alface, tomate e cenoura crua ralada (vegetal A → à
vontade).
- - 1 1 colher de sobremesa de óleo de oliva para temperar a
salada
Lanche 1 - - 2 biscoitos cream-cracker
- - 1 2 colheres de chá rasas de margarina (≈ 4 g cada colher)
Jantar - 1 - 1 bife de frango grelhado pequeno (≈ 90g)
2 - - 4 colheres de sopa cheias de arroz
1 - - 1 concha média de feijão (≈ 140g)
- - - Brócolis cozido no vapor (vegetal A → à vontade)
- - 1 1 colher de sobremesa de óleo de oliva para temperar o
brócolis
Ceia 1 1 1 1 copo de leite integral (200 mL)
1 - - 1 banana prata grande (≈ 55g)
* Fórmulas da World Health Organization.5
** Método do valor energético médio do tecido adiposo.7
*** Recomendação da American Diabetes Association.3
a 11 1 g de proteína ou carboidrato tem 4 kcal, cada, enquanto 1 g de lipídios tem 9 kcal.
b 12 1 equivalente de carboidrato, proteína e lipídio tem 15 g, 7 g e 5 g, respectivamente. CHO = carboidrato; FA = fator atividade; IMC = índice de massa corporal; LIP = lipídios; PTN = proteínas; TMB = taxa metabólica basal; VEMTA = valor energético médio do tecido adiposo; VET = valor energético total; HDL = lipoproteína de alta densidade; LDL = lipoproteína de baixa densidade.
Tabela 10.2.3 Exemplo de prescrição dietética para indivíduo com diabetes tipo 1
Paciente do sexo masculino, 22 anos, diagnóstico de diabetes tipo 1, peso corporal de 80 kg, altura de 1,86 m (IMC = 23,18 kg/m2), hemoglobina glicada de
7,2%, LDL de 98 mg/dL, HDL de 52 mg/dL e triglicerídeos de 124 mg/dL. Aplica 52 unidades de insulina glargina pela manhã e aspart conforme o esquema
abaixo.
Glicemia pré- Desjejum Almoço Lanche Jantar Ceia prandial
Esquema tradicional 80 a 140 4 6 0 6 0 mg/dL
141 a 200 5 7 0 7 1 mg/dL
1o passo – Calcular o IMC e o VET (utilizando o peso atual).
*TMB = [(15,4 × peso) + (27 × altura) + 717] → [(15,4 × 80) – (27 × 1,86) + 717] = 1.898,78 kcal/dia.
*VET = TMB × FA = 1.898,78 × 1,55 = 2.943,1 kcal/dia
2o passo – Distribuir os macronutrientes
Recomendação** %-VET kcal kcal/g*** g/dia a Equivalentes/dia Equivalência
CHO 45% a 55% 55%-2.943 1.618,6 ÷ 4 404,65 ÷ 15 26,97 ≈ 27
PTN 10% a 20% 20%-2.943 588,6 ÷ 4 147,15 ÷ 7 21,02 ≈ 21
LIP ≤ 30% 25%-2.943 735,75 ÷ 9 81,75 ÷ 5 16,35 ≈ 16
3o passo – Distribuir por refeição
Total Desjejum Colação Almoço Lanche Jantar Ceia
CHO 27 4 2 8 4 8 4
PTN 21 2 2 4 2 4 2
LIP 16 2 2 4 2 4 2
4o passo – Montar o plano alimentar e oferecer um exemplo de cardápio
Refeição CHO PTN LIP Exemplo de cardápio Média de CHO
(g)
2 - - 1 pão francês
0 1 1 2 fatias nas de queijo prato (≈ 10 g cada)
lanche e ceia 60 Desjejum,
1 1 1 1 copo de leite integral (200 mL)
0 1 - 1 colher de sopa de requeijão light
2 - - 4 biscoitos cream-cracker
Colação 30
- 2 2 2 unidades de queijo tipo Polenghi® tradicional
3 - - 6 colheres de sopa de arroz
2 - - 2 conchas médias de feijão (≈ 140 g cada)
2 - - 6 colheres de sopa de abóbora cozida
Almoço e - 5 - 5 sardinhas grandes grelhadas (≈ 40 g cada) 120 jantar
- - 2 2 colheres de sobremesa de azeite para a abóbora
- - 2 2 colheres de sobremesa de óleo para a sardinha
1 - - Sobremesa: 1 tangerina média (≈ 135 g)
5o b passo – Conferir se a sensibilidade à insulina está correta
Sensibilidade à insulina = 1.800 ÷ ([24] + [4 + 6 + 0 + 6 + 0]) = 1.800 ÷ 40 = 45 ≈ 50 mg/dL
6o b passo – Calcular a razão insulina × carboidrato
Desjejum: 45 g de CHO ÷ 4 UI de insulina bolus xa = 11,25 → razão insulina × carboidrato = 1:12
Almoço e jantar: 120 g de CHO ÷ 6 UI de insulina bolus xa = 20 → razão insulina × carboidrato = 1:20
Na colação, lanche e ceia a aplicação de insulina deve ser individualizada de acordo com o tipo de insulina, os horários do paciente e
o per l das glicemias capilares.
* Fórmulas da World Health Organization.5
** Recomendação da Sociedade Brasileira de Diabetes.3
*** 1 g de proteína ou carboidrato tem 4 kcal cada, enquanto 1 g de lipídios tem 9 kcal.11
a 12 1 equivalente de carboidrato, proteína e lipídio tem 15 g, 7 g e 5 g, respectivamente.
b 13,14 Fórmulas disponíveis na Tabela 10.2.4 .
CHO = carboidrato; FA = fator atividade; IMC = índice de massa corporal; LIP = lipídios; PTN = proteínas; TMB = taxa metabólica basal; VET = valor energético total; LDL = lipoproteína de baixa densidade; HDL = lipoproteína de alta densidade.
Tabela 10.2.4 13,14 Cálculos das doses de insulina para aplicação da contagem de carboidratos
SENSIBILIDADE À INSULINA OU FATOR DE CORREÇÃO
Signi cado: resposta glicêmica do paciente a 1 unidade de insulina
Fórmula: sensibilidade à insulina = 1.800 ÷ soma da insulina total diária
Exemplo:
Insulina basal: 12 UI de manhã e 23 UI na ceia.
Insulina bolus: 4 UI no desjejum, 5 UI no almoço, 4 UI no lanche e 5 UI no jantar
Sensibilidade à insulina = 1.800 ÷ (12 + 23) + (4 + 5 + 4 + 5) → 1.800 ÷ 53 = 33,96 ≈ 40 mg/dL
META GLICÊMICA
Signi cado: valor de glicemia pré-prandial a ser alcançado
BOLUS CORRETIVO
Signi cado: dose de insulina para corrigir possíveis hiperglicemias
Fórmula: bolus corretivo = glicemia atual – meta glicêmica ÷ sensibilidade à insulina
Exemplo:
Glicemia de 240 mg/dL, sensibilidade à insulina = 30 mg/dL e meta glicêmica = 120 mg/dL
Bolus corretivo = 240 – 120 = 120 ÷ 30 = 4 UI
RAZÃO INSULINA × CARBOIDRATO
Signi cado: insulina para que 1 equivalente de carboidrato seja aproveitado
Fórmula: razão insulina × carboidrato = 500 ÷ soma da insulina total diária
Observação: A fórmula não deve ser utilizada porque tem como resultado apenas 1 razão insulina × carboidrato, sendo que o
diabético apresenta diferentes necessidades de insulina durante o dia
A melhor forma de calcular a razão é:
1o passo: veri car o consumo dietético habitual do indivíduo
2o passo: contabilizar os gramas de carboidratos em cada refeição
3o passo: dividir o total de carboidratos pela dose xa de insulina bolus (prescrita pelo médico)
Exemplo:
Esquema de Glicemia pré- Desjejum Almoço Lanche Jantar Ceia
insulina tradicional prandial
< 60 mg/dL 0 0 0 0 0
60 a 120 mg/dL 4 4 1 5 0
121 a 180 mg/dL 4 5 2 6 0
181 a 240 mg/dL 5 6 3 7 1
241 a 300 mg/dL 6 7 4 8 2
Refeição Média de Cálculo da razão insulina × carboidrato Razão insulina × carboidrato
carboidratos (g) da
refeição Insulina xa Resultado
Desjejum 45 ÷ 4 = 11,25 1:12
Colação 15 ÷ Não aplica = 0 0
Almoço 70 ÷ 4 = 17,5 1:18
Lanche 30 ÷ 1 = 30 1:30
Jantar 70 ÷ 5 = 14 1:15
Ceia 30 ÷ Não aplica = 0 0
BOLUS ALIMENTAÇÃO ou BOLUS REFEIÇÃO
Signi cado: insulina necessária para cobrir os gramas de carboidratos da refeição
Fórmula: bolus de alimentação = carboidratos (g) da refeição ÷ razão insulina × carboidrato
Exemplo:
O indivíduo apresenta razão insulina × carboidrato de 1:10 no desjejum e irá ingerir 40 g de carboidratos
Bolus alimentação = 40 ÷ 10 = 4 UI
UI = unidades de insulina.
Micronutrientes
Não há evidências que comprovem que vitaminas ou minerais possam reduzir a resistência
à insulina. No entanto, estes devem ser suplementados nos casos de deficiência.1,3
Ervas medicinais e chás também não devem ser utilizados sem orientação, porque podem
reduzir o efeito dos hipoglicemiantes orais.1,3
Características físicas da dieta
Quando não há outras doenças que exijam necessidades específicas, a alimentação deve
ter consistência normal, temperatura adequada à preparação, volume reduzido e
fracionamento aumentado.3,18
O plano alimentar deve estar distribuído em 2 grandes refeições (almoço e jantar) e 4
pequenos lanches (desjejum, colação, lanche da tarde e ceia), respeitando as preferências, o estilo de vida e considerando o tratamento medicamentoso.
Indivíduos em uso de hipoglicemiantes orais são beneficiados com pequenos volumes
oferecidos diversas vezes ao dia a fim de evitar hiperglicemias pós-prandiais.1-3
No caso do uso da insulina neutral protamine Hagedorn (NPH), a realização de pequenos
lanches entre as refeições principais também é necessária para evitar hipoglicemias no momento de maior ação dessa insulina. Os análogos de longa duração possibilitam a não
realização de alguns lanches.1,2
Produtos dietéticos
Adoçantes e edulcorantes
Existem muitas definições para adoçantes e edulcorantes. No entanto, considerando a
composição química, podemos conceituar adoçantes como substâncias doces, contendo açúcares ou derivados, enquanto os edulcorantes são os aditivos alimentares usados como
matéria-prima dos adoçantes.20
Os edulcorantes podem ser naturais ou artificiais/sintéticos e energéticos ou não. A Tabela
10.2.5 apresenta as principais características dos edulcorantes aprovados para uso comercial.21
Particularmente, é relevante abordar que o ciclamato é aprovado para comercialização em
mais de 50 países, mas não nos Estados Unidos.18,19 Dúvidas quanto à sua segurança iniciaram-se em 1970, após a observação de que a ingestão crônica por animais aumentava a incidência de tumores de bexiga. No entanto, permanecem inconclusivos os efeitos tóxicos
para a saúde humana, considerando as altas doses necessárias para a sua manifestação.20
Rotulagem diet, light ou “zero”
Existe uma diferença sutil entre os termos diet, light e “zero”, sendo essencial a leitura dos
rótulos e a compreensão de suas definições.
O Ministério da Saúde não recomenda a utilização de “adoçantes de mesa” para
indivíduos com diabetes, porque estes são frequentemente energéticos. Os “adoçantes dietéticos” devem atender também aos dispositivos do Regulamento Técnico para Alimentos
para Fins Especiais, não tendo como matéria-prima frutose, sacarose e glicose.20
A inscrição light define a redução mínima de 25% em algum nutriente, comparado ao
alimento tradicional, sendo prioritariamente utilizado nas dietas para perda de peso corporal.20 No entanto, estes podem apresentar a mesma energia do produto convencional, porque, para que haja diminuição energética, é necessária a redução de algum macronutriente (carboidrato, gordura e proteína) e o mercado tem vários produtos reduzidos em sódio (p. ex., sal light, azeitona light).
Produtos dietéticos ou “zero” são isentos em algum nutriente, não necessariamente o
açúcar, sendo desenvolvidos para atender a grupos populacionais específicos (tais como dislipidêmicos, diabéticos ou celíacos). Devido ao exposto, a inscrição diet significa apenas
que o alimento não contém, em sua composição, açúcar, glúten ou gordura, entre outros.20
Em 1o de janeiro de 2014 passaram a ser comercializados produtos com a inscrição “sem
adição de açúcares”. Essa denominação indica que o produto não tem açúcares (naturais ou adicionados) e que, durante o processamento, não foram utilizados meios que aumentassem o
conteúdo de açúcares no produto final.22
Suplementação de carboidratos na atividade física
Embora ajustes nas dosagens de insulina sejam indicados no caso de exercícios
planejados, a suplementação de carboidratos pode ser necessária para evitar episódios de
hipoglicemia.1,3
Na prática de exercícios de curta duração e baixa intensidade (com volume máximo de
oxigênio [VO2máx] ≤ 25%), o consumo de 10 g a 15 g de carboidratos é necessário antes do
exercício em glicemia capilar entre 70 e 100 mg/dL.1
Para atividades de duração e intensidade moderada (VO ≈ 50%) e glicemias entre 100 2máx
e 180 mg/dL, é indicado o consumo de 15 g de carboidratos anteriormente ao início do exercício com adicional de 15 g a cada hora. Em glicemias entre 70 e 100 mg/dL, apenas a
ingestão de 25 g a 50 g de carboidratos é suficiente.1
Tabela 10.2.5 18,19 Edulcorantes
Aprovado para uso por:
Tipo *Poder Energia Estabilidade Sabor Origem IDR** adoçante (kcal) térmica residual
Gestantes Hipertensos
Acessulfame- Arti cial Ácido 200 0 Sim Não Aprovado Aprovado 15
K acético
Aspartame*** Arti cial Fenilalanina 200 4 Sim Não Aprovado Aprovado 40
e ácido
aspártico
Ciclamato Arti cial Petróleo 50 0 Sim Sim a b 11 Não Não
Estévia Natural Frutas e mel 300 0 Sim Sim Aprovado Aprovado 5,5
Frutose Natural Frutas e mel 170 4 Não Não c Aprovado d Não----
Natural Frutas, < 0,45 1,6 a 4 Sim Não Aprovado Aprovado 15
Neotamee algas ou
xilose
Sacarina Arti cial Petróleo 400 0 Sim Sim a b 5 Não Não
Sucralose Arti cial Cloração da 600 0 Sim Não Aprovado Aprovado 15
sacarose
* Comparado à sacarose.
** Ingestão dietética recomendada (mg/kg de peso).
*** Contraindicado para indivíduos com fenilcetonúria.
a Atravessam a placenta.
b Tem sódio na composição.
c Hipertrigliceridemia pós-prandial.
d Não estabelecido.
e Inclui o manitol, sorbitol e xilitol.
No exercício intenso (VO2máx ≥ 75%), 50 g de carboidratos devem ser ingeridos antes e a
cada 3 h quando a glicemia apresentar-se entre 70 e 100 mg/dL. Na glicemia entre 100 e 180
mg/dL, 25 g a 50 g de carboidratos devem ser consumidos antes do exercício.1
Lembramos que a atividade deve ser evitada em glicemias inferiores a 70 ou superiores a
300 mg/dL.1,2
Indivíduos tratados apenas com dieta, metformina, inibidores da α-glicosidase ou
tiazolidinediona não necessitam de suplementação de carboidratos.1,2
Bebidas alcoólicas
A ingestão de bebidas alcoólicas em jejum pode provocar oscilação glicêmica.1,3,14
Primeiramente ocorrerá hipoglicemia (porque o etanol inibe a gliconeogênese, reduzindo as concentrações de piruvato, oxaloacetato e glicerol-fosfato, ocasionando menor conversão do
lactato em glicose); posteriormente a glicemia se elevará (1 g de álcool tem 9 kcal).1,3,18
Caso o paciente com DM queira ingerir bebidas alcoólicas, deve tomar alguns cuidados
adicionais: não ingerir a bebida se a glicemia estiver < 70 mg/dL; consumir junto às principais refeições, e checar a glicemia 30 minutos após a ingestão do drink. Ademais, o consumo não deve ultrapassar 1 dose para mulheres e 2 para homens (1 dose é definida como 360 mL de
cerveja, 150 mL de vinho ou 45 mL de bebida destilada).1,3,18
Correção de hipoglicemias
A hipoglicemia leve (glicemia < 70 mg/dL) deve ser corrigida com a ingestão de 15 g a 20
g de carboidratos.1-3
Como o carboidrato inicia sua digestão e absorção após 15 minutos, torna-se relevante
orientar os indivíduos com diabetes sobre a necessidade de aguardar esse período para verificar a glicemia novamente, sendo frequente o relato da ingestão de alimentos compulsivamente até “desaparecerem os sintomas”, ocorrendo posteriormente o “efeito
rebote” (hiperglicemia).1-3,13 No caso de a glicemia permanecer < 60 mg/dL, recomenda-se a
ingestão de mais 15 g a 20 g de carboidratos.1,3
Também se deve orientar que o açúcar puro é o tratamento mais eficaz na correção de
hipoglicemias, porque alimentos contendo gordura e/ou proteínas podem retardar a elevação
glicêmica.1,3,13
PRESCRIÇÃO NUTRICIONAL NAS DOENÇAS ASSOCIADAS
O diabetes pode ser causa básica ou secundária de várias outras doenças, sendo o
diagnóstico precoce relevante para a escolha da conduta nutricional adequada. A seguir, as doenças mais frequentemente observadas em indivíduos com diabetes.
Dislipidemias
Indivíduos com DM2 frequentemente apresentam dislipidemia mista (elevadas
concentrações séricas de triglicerídeos e partículas pequenas e densas de LDL). No DM1, essas alterações lipídicas podem estar presentes quando o controle glicêmico não está adequado, sendo que a insulinização e a adequação da glicemia corrigem as concentrações
lipídicas.1,3
O tratamento dietético da dislipidemia mista deve considerar mudanças no estilo de vida,
inclusão de hábitos alimentares saudáveis, abstenção do álcool e do tabagismo, além do
estímulo à prática de atividade física.1,3,23
A conduta dietoterápica na dislipidemia mista (elevação do LDL e triglicerídeos) baseia-
se no controle do peso corporal, na restrição de ácidos graxos saturados (< 7% da dieta), no incentivo ao uso de ácidos graxos poli-insaturados (10% a 15% do VET), monoinsaturados (>
10% do VET) e 20 g a 30 g de fibras/dia (5 g a 10 g destas devendo ser solúveis).1,3,23
Os fitoesteróis (3 a 4 g/dia) podem ser utilizados como coadjuvantes. Suas principais
fontes alimentares são óleos vegetais (milho, soja, girassol e canola), leguminosas, frutas e verduras e margarinas enriquecidas (2 colheres de sopa ao dia). No entanto, somente atuam no
LDL, não influenciam as concentrações de HDL e triglicerídeos.23
Nos casos de hipertrigliceridemia isolada, o controle glicêmico é primordial e a conduta
nutricional deve eleger os mesmos cuidados da dislipidemia mista, associados à proibição
total do uso de álcool, sacarose e adoçantes à base de frutose.1-3 A redução dos carboidratos de dieta é recomendada para diminuir níveis séricos de triglicerídeos.
Tanto a American Diabetes Association2,3 como a American Heart Association
recomendam a ingestão de peixes ricos em ácido alfalinolênico (ômega-3) por mais de 2 vezes
na semana.24 A suplementação com 4 g/dia de ácidos eicosapentaenoico (EPA) e docosaexaenoico (DHA) pode reduzir os triglicerídeos pós-prandiais; contudo, não deve ser utilizada para gestantes ou nutrizes.31 Além disso, doses superiores às mencionadas podem
causar sangramento excessivo.23 A Sociedade Brasileira de Diabetes preconiza a prescrição de 500 mg ou 1 g por dia de EPA/DH para prevenção primária e secundária, respectivamente, de doenças cardiovasculares.
A niacina (ácido nicotínico ou vitamina B3) também pode ser utilizada (dose inicial de
500 mg/dia com aumento gradual para 750 mg e 1.000 mg, em intervalos de 4 semanas, até atingir 1 g a 2 g diários). No entanto, é relevante salientar os efeitos adversos, tais como o
rubor facial ou prurido.23,24
Hipertensão
Hábitos alimentares saudáveis favorecem a redução do peso corporal e ajudam no controle
da pressão arterial. O IMC está diretamente associado ao aumento do volume plasmático e do
débito cardíaco.24
A manutenção do IMC < 25 kg/m2, a redução da pressão arterial e a elevação da
sensibilidade à insulina foram observados com dietas restritas em ácidos graxos saturados e
colesterol, sendo estas conhecidas como Dietary Approaches to Stop Hypertension (DASH).25
A conduta nutricional desta dieta é semelhante à recomendação convencional em relação
aos carboidratos, proteínas e fibras, porém, há restrição à ingestão de lipídios totais, ácidos graxos saturados e colesterol (< 27%, ≤ 6% da dieta e ≤ 150 mg/dia, respectivamente), além de redução na ingestão de sódio (1.500 a 2.300 mg/dia), potássio (4.700 mg/dia), cálcio (1.200
mg/dia) e magnésio (500 mg/dia).25
Substituir o sal comum pela versão light é uma opção para hipertensos, porque o primeiro
tem 99% de cloreto de sódio em sua composição, enquanto o segundo contém 50% de cloreto de potássio e 50% de cloreto de sódio. Outro substituto é o “sal de ervas”, composto de proporções iguais de alecrim, manjericão, orégano e sal comum.
Nefropatia diabética
A avaliação antropométrica deve ser realizada com cautela, porque a presença de edemas
pode afetar tanto o peso corporal como as circunferências dos pacientes submetidos à diálise,
sendo preferível usar o peso habitual ou o peso teórico.18
Frequentemente esses indivíduos apresentam depleção das reservas de tecido adiposo e
catabolismo proteico, havendo necessidade de oferecer dieta hipercalórica (35 kcal/kg de peso
teórico) e normolipídica (30% a 35% da dieta).18
Durante o tratamento conservador (fase não dialítica), os carboidratos constituem o
principal substrato energético e a proteína deve ser restringida a 0,6 a 1,0 g/kg de peso teórico. As recomendações para fósforo (0,8 a 1,2 g/dia) e cálcio (1,2 g/dia) não se alteram de acordo
com o tratamento, porém, deve-se considerar perdas com diuréticos para o potássio.3,18
Na hemodiálise, ocorre perda proteica no processo de filtração. Assim, a dieta deve
contemplar 1,2 g de proteína/kg de peso teórico, 2 a 3 g/dia de potássio e a ingestão hídrica
calculada pelo volume urinário residual adicionado de 1.000 mL.18
No caso da diálise peritoneal, as recomendações devem considerar a glicose absorvida
durante a filtração e a elevada perda proteica, sendo preconizados 1,2 a 3 g de proteínas/kg de peso teórico, 3 a 4 g de potássio/dia, 2 a 4 g de sódio/dia e a recomendação hídrica superior a
2.000 mL (+ volume urinário residual).18
Doença celíaca
A doença celíaca é uma disfunção intestinal autoimune ocasionada por hipersensibilidade
e intolerância permanente ao glúten,26 com elevada frequência em indivíduos com DM1 (1% a 16% no DM1, comparada a 0,3% a 1% na população em geral), sendo essa associação explicada por fatores imunológicos (anticorpos), ambientais (exposição ao glúten) e genéticos
(antígenos leucocitários humanos).2
O glúten é um aminoácido desencadeador ambiental da doença celíaca. Suas principais
fontes naturais são gliadina, no trigo; secalina, no centeio; hordeína, na cevada, e avenina, na aveia. Porém, também é utilizado na indústria pela sua capacidade de dar viscosidade e
consistência às preparações.26
O único tratamento da doença é a dieta isenta de glúten, mesmo para pacientes que
apresentem forma assintomática, porque está positivamente relacionada com o melhor
controle glicêmico.2,3,26
O plano alimentar não pode incluir trigo, centeio ou cevada. A aveia pura (não
contaminada com outros grãos) não é tóxica em mais de 95% dos celíacos, porque tem menos
prolaminas em suas sementes, comparada a trigo, centeio e cevada.26
Também é relevante a realização de rastreamento para deficiências de ferro, folato, cálcio
e vitaminas B6, B12 e D.26
Doença hepática gordurosa não alcoólica
A resistência à insulina estimula a síntese e a retenção de triglicerídeos no hepatócito,
levando à doença hepática gordurosa não alcoólica.1,2,18
O tratamento nutricional é semelhante à dieta para controle da obesidade, no entanto, a
perda de peso corporal deve ser de aproximadamente 0,5 kg/semana, porque o emagrecimento rápido pode estimular o processo necroinflamatório da fibrose hepática, devido ao estímulo à
lipólise (maior oferta de ácidos graxos livres para o fígado).3,18
Apesar de seu efeito antioxidante contra a peroxidação lipídica, não há consenso quanto à
dose recomendada para suplementação de vitamina E.1
PRESCRIÇÃO NUTRICIONAL NO DIABETES DURANTE A GESTAÇÃO
Avaliação nutricional da gestante
A avaliação nutricional contempla os mesmos critérios de gestantes saudáveis: cálculo da
idade gestacional, classificação quanto ao IMC pré-gestacional e estimativa do ganho de peso
total e semanal (Tabela 10.2.6).27
Conduta nutricional
Energia
O tratamento nutricional deve permitir ganho de peso a partir do segundo trimestre da
gravidez (Tabela 10.2.6). Deve-se tomar cuidado com dietas hipocalóricas que podem resultar
em cetose.1,3,27
Apenas para gestantes com sobrepeso ou obesidade, a redução de 30% da energia da dieta
pode ser considerada a fim de melhorar o controle glicêmico.1,3,27
Macronutrientes
A distribuição em macronutrientes recomendada é de 40% a 45% de carboidratos, 30% a
40% de lipídios totais e 15% a 20% de proteínas (com adicional de 10 g/dia).1
Menores percentuais de carboidratos devem ser oferecidos no desjejum (devido à maior
síntese de cortisol). A presença de hiperglicemia no almoço indica que a quantidade de
carboidrato ingerida no desjejum está excessiva.1,3
A ceia deve conter no mínimo 25 g de carboidratos, como forma de evitar a hipoglicemia
noturna.1,3
Na lactação, as mulheres devem ser orientadas a consumir 15 g de carboidratos antes do
aleitamento, para evitar hipoglicemias.1-3
Micronutrientes
Não há diferença específica para a recomendação de suplementação para gestantes
diabéticas, assim, similarmente às gestantes saudáveis, a suplementação de ácido fólico (400
μg/dia) deve ser realizada desde o período pré-concepção até a sexta semana gestacional.1,3,27
Tabela 10.2.6 25 Avaliação do estado nutricional e recomendação energética para gestantes
Classi cação quanto ao IMC pré-gestacional:* Peso pré-gestacional**
IMC (kg/m2 Estado nutricional Utilizar para cálculo energético: )
> 30 Obesidade
25 kcal/kg de peso atual
25 a 29,99 Sobrepeso
18,5 a 24,99 Eutro a Peso pré-gestacional
< 18,5 Baixo peso 2 Peso ideal pré-gestacional (altura × 22)
Ganho de peso recomendado
Total no 1o o o Total na gestação trimestre 2 e 3 trimestres
0 0,3 kg/semana 7,0 kg
0,9 kg 0,3 kg/semana 7,0 a 11,5 kg
1,6 kg 0,4 kg/semana 11,5 a 16,0 kg
2,3 kg 0,5 kg/semana 12,5 a 18,0 kg
Recomendação energética:
Valor energético total = taxa metabólica basal × fator atividade + adicional energético
Idade (anos) Taxa metabólica basal
18 a 30 14,81 × peso pré-gestacional** + 486,6
30 a 60 8,126 × peso pré-gestacional** + 845,6
Fator atividade Adicional energético
Leve 1,53 o 85 1 trimestre
Moderado 1,76 o 285 2 trimestre
Intenso 2,25 o 475 3 trimestre
*IMC = índice de massa corporal.
**O peso pré-gestacional deve ser calculado até a 13a semana gestacional.
Edulcorantes na gestação
Os edulcorantes aprovados para uso durante a gestação são: acessulfame-K, aspartame,
sucralose e neotame.1,21
A sacarina e o ciclamato não são aprovados para uso na gestação, porque podem
atravessar a placenta e permanecer nos tecidos fetais. Nessa mesma condição, mais estudos são necessários para avaliar os efeitos da estévia e sobre a exposição fetal aos metabólicos do
aspartame (ácido aspártico, fenilalanina e metanol) e do neotame (contém fenilalanina).1,21
CONCLUSÃO
Na prescrição nutricional, deve-se considerar que o diabetes é uma doença crônica e que
seu tratamento requer constante atenção e vigília. Por isso, dietas rígidas não serão seguidas por longo período.
O plano alimentar deve ser baseado nas preferências do paciente. O estímulo à
alimentação saudável contribuirá para alcance e manutenção do peso corporal e controle glicêmico adequados, o que irá permitir melhor qualidade de vida para indivíduos com diabetes.
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