Suíte Tóquio

Giovana Madalosso · Capítulo 8 de 38

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Suíte Tóquio

Capítulo 8

 

Eu e outras quatro concorrentes estávamos no palco de um programa, um tablado alaranjado e azul, circundado por uma plateia. O apresentador nos desafiava a encontrar o crânio de nossos respectivos maridos na pilha diante de nós. Ganharia quem encontrasse mais rápido o crânio. A pilha era enorme, uma montanha de quase dois metros de altura, uma ossada sobre a outra, como restos higiênicos de um ritual macabro. O apresentador soou a largada. Parti para cima da pilha junto com as outras concorrentes. Peguei um crânio e segurei no ar como Hamlet, mas logo larguei, era grande demais para ser o do Cacá. Peguei outro e outro, achando todos muito parecidos. A arcada dentária humana, quando fechada, dá a impressão de estar sorrindo, um curioso acordo entre o humor e a morte, mas nenhum daqueles esgares parecia ser o que eu procurava. Segui revirando o cemitério, os ossos fazendo barulho, a plateia vibrando, uma candidata encontrando o seu. É do Roberto, ouvi-a gritar, correndo de salto alto com um crânio minúsculo na mão, para então colocá-lo num pedestal onde uma luz se acendeu indicando sua vitória. Palmas pra ela, gritou o apresentador. E logo depois: a prova continua. Eu e as outras seguimos procurando, até que uma mulher bradou: Ernesto. E outra: Flávio. E outra: Reinaldo. Eu fiquei sozinha com a pilha, agora toda espalhada, os crânios rolando pelo palco, eu engatinhando em busca do topo do meu marido. Ele tem os quatro sisos?, uma voz gritou da plateia, e me dei conta de que não sabia, e antes que eu respondesse, ouvi uma gargalhada coletiva que de tão intensa e ao mesmo tempo contida parecia uma claque. Talvez fosse uma claque. Peguei uma ossada qualquer e menti: é ele. Depois corri para o pedestal que restava, encaixei o negócio e senti uma chuva de papel picado cair sobre mim, mas já não havia ninguém no palco, nem na plateia.

Na época, não entendi esse sonho. Talvez porque o inconsciente esteja sempre à frente e, como todo visionário, soe delirante ou incompreensível para quem ainda está na névoa do presente. Depois é que fui entender alguma coisa, a distância que me separava do Cacá. Não que nosso casamento fosse ruim. Mas era um casamento, com a força sepultatória sutil da maioria dos casamentos. E com uma ausência de conflito tão grande que não importava o que acontecesse sob a superfície, tudo sempre parecia bem.

Acho que foi isso que me atraiu no começo, como tudo sempre parecia bem. A gente adorava sair para beber e dançar, fechávamos a pista, voltávamos para casa conversando, a hora que fosse. Até o que seria um defeito do Cacá para os outros, para mim não era. Ele não dava muito certo em nenhum emprego. Se formou em arquitetura, mas não quis trabalhar com isso. Virou maquetista, mas também não vingou. Depois seguiu arrumando uns outros negócios, como os terrários, uns minijardins que estavam na moda e ele achou promissores. Passava o dia debruçado sobre os globos de vidro com uma pinça na mão colando casas, cogumelos e homenzinhos junto a cactos e suculentas que, naqueles universos, pareciam sequoias. Lembro do tempo que dedicou a pôr, na mão de uma mulher de três centímetros, um balão. Era complexo, porque o objeto precisava ficar flutuando — que poesia há num balão largado ao rés do chão? —, e endurecer o fio foi um inferno que Cacá atravessou de joelhos, secando com cola o cordão ao sol. Claro que o valor de cada terrário não justificava o tempo empenhado, mas mantinha o meu marido em casa, tomando conta de tudo aquilo de que eu não conseguia tomar conta. O que, no fundo, também era o plano dele, pois Cacá tinha jeito para a vida doméstica, havia nascido para cuidar. Cuidar do que fosse, dos cactos, das nossas floreiras, da Cora, da minha mãe, dos nossos amigos, da reforma do apartamento, das nossas festas, da receita do jantar. Nem que eu quisesse conseguiria fazer tudo que ele fazia, ao menos não com a mesma leveza, e eu admirava isso nele. E entendia que da mesma forma como eu precisava ir longe para vicejar, ele precisava se debruçar sobre as pequenas coisas.

Claro que o sexo não era de acordar os vizinhos. Ainda mais depois que Cora nasceu. Acontece com todas as mães, como sentir tesão quando você deixou de ser um indivíduo? Porque por um tempo que pode durar dias, meses ou anos a mãe vira uma carne dupla, ligada por um segundo e invisível cordão ao filho parido. Nesse período, transamos pouquíssimas vezes. Depois estabilizamos numa média suficiente para a sobrevivência em sociedade. Não era o mundo perfeito mas, como aprendi com Cacá, mundos perfeitos não existem nem dentro de terrários, onde os corações são de Durepoxi. Então estava tudo bem para mim. Eu trabalharia, ele cuidaria da casa, sairíamos uma vez por semana para dançar, viajaríamos duas vezes por ano, compraríamos o título de um clube. Ou seja, eu já estava pronta para morrer. Mas daí a vida veio me buscar de novo.

Era a primeira reunião de produção de O Bom Selvagem. Uma série em que eu apostava muito, porque cutucava o senso comum de que existem animais bons e maus, dando uma perspectiva mais completa dos grandes predadores. Para isso, resolvi deixar de lado o velho formato de documentário de observação e dar ao jacaré, à ariranha, à cobra, à onça e aos outros uma dramaturgia digna de qualquer grande personagem, com momentos de heroísmo, vilania, compaixão e até romance. Outra coisa que levava a série a ser promissora era que nove de dez episódios seriam filmados no Brasil, com baixíssimo custo de produção, para depois serem vendidos em dólar. Por tudo isso, naquela terça-feira fiz questão de ir junto com minha equipe para a reunião na produtora que filmaria a série, num galpão descolado na Zona Oeste da cidade.

Entre funcionários do nosso canal e da produtora, éramos cerca de quinze pessoas, distribuídas em uma mesa longa e ovalada. Eu não sabia quem era ela, nem ela sabia quem era eu, e nem chegamos a ser apresentadas, porque quando a reunião ia começar, o beija-flor apareceu. Entrou na sala pela porta que dava para o jardim. E uma vez que entrou, não conseguiu mais sair. Foi para o topo da parede de vidro, e ali bateu asas, tentando voltar para o jardim através da transparência. Todos olharam para ele. Alguns segundos de silêncio se seguiram, ninguém sabia o que fazer. Confesso que se dependesse de mim, o beija-flor morreria. Eu não entendia nada de aves e de suas necessidades. Na verdade nem entendia tanto assim de fauna em geral. Até ser promovida, eu cuidava só de documentários de arte e viagem, depois é que passei a me responsabilizar por tudo que o canal produzia no Brasil, incluindo o conteúdo animal. Por isso achei que nada precisasse ser feito. Até que vi uma garota de jeans e camiseta colocar uma mesa junto à parede de vidro. Ele gasta muita energia, ela falou, já subindo na cadeira e depois na mesa. Se ficar muito tempo sem comer, vai morrer. Acho que alguém falou: desce, você vai cair, mas a garota já estava com a mão em concha, pegando o beija-flor e logo descendo da cadeira, pisando no chão. Para minha surpresa, ela veio até mim. Talvez porque eu estivesse perto da porta do jardim. Talvez por aqueles motivos que nem os nossos documentários conseguem explicar. Dirigindo-se apenas a mim, exibiu o beija-flor, deitado de barriga para cima na sua mão. Disse para eu reparar nos olhos dele. Reparei, eram duas bolinhas minúsculas, inteiramente pretas e reluzentes, e iam de um lado para outro. Ele tá tentando entender onde está, ela me disse. Quando entender, vai voar. Então foi até o jardim, esperou o pássaro se situar e se mandar da sua mão. Em seguida, voltou para a sala, sentou-se à mesa. Levou um tempinho para que me dissessem quem era ela e, nesses minutos, mesmo não sabendo a sua importância ou o quanto ela era interessante, já fiquei atraída. Não fisicamente, eu nunca tinha sentido tesão por mulheres, nem sequer conseguiria identificar esse sentimento na sua primeira ebulição, mas atraída a olhar para o seu rosto, a decifrar alguma coisa que eu não sabia o que era. Me surpreendi quando falaram que ela iria dirigir a série. Pelo seu currículo, que eu havia lido, imaginei que fosse mais velha, e pelo que estava vendo não devia chegar aos trinta anos. Mas também não podia ser chamada de garota, tinha uma voz grave e segura, e expôs sua visão sobre a série com um jogo de cintura que poucos diretores têm, falando apenas o necessário, de forma a não engessar seu trabalho depois, e o tempo todo olhando para mim mas também para toda a equipe, com uma consideração rara de se ver. Também reparei que tinha um sotaque estranho, parecido com o dos americanos mas mais suave, e um certo senso de humor, pois quando frisei a importância de ela cumprir o cronograma, disse para eu ficar tranquila que cumpriria, só restava saber se a ariranha toparia trabalhar nas diárias impostas pelo meu Excel. Saí da reunião sem uma data de entrega garantida para a série, coisa que nunca tinha acontecido comigo.