Suíte Tóquio
Capítulo 25
Como o ônibus não aparece, acabo pegando de novo o celular. A tela tem mais uma mensagem: kd vc? kd vc? kd vc? Não sei por que fui olhar essa tranqueira, guardo de novo na bolsa. Não são só as mensagens que me deixam nervosa, essa demora também. Estou acostumada com São Paulo, com aquele ir e vir de ônibus o tempo todo, seja a hora que for. Aqui pelo jeito é como Mandaguaçu, passa um ônibus na vida e outro na morte. E pelo jeito até esses dois já passaram. Será que é isso mesmo, não vem mais nada hoje? É quase meia-noite, não posso mais esperar.
Nunca pensei em pegar carona, sempre achei coisa de gente sem juízo, mas agora penso a respeito. Que mais posso fazer? Claro que não vou pegar carona com qualquer um, a quantidade de gente assassinada que já vi na tevê, minha Nossa Senhora. Será que é melhor fazer sinal pra carro ou caminhão? Talvez carro, uma mulher seria o ideal. Mas, nessa escuridão, como é que eu vou saber se tem uma mulher dentro do carro? Nem se tivesse uma girafa na direção eu ia saber. O que dá pra enxergar é o tipo do carro. Melhor acenar para os mais caros, mais novos. De gente que trabalha, ganha salário, usa sachê no retrovisor. Eu ouvi alguém falar um dia que o primeiro sinal de loucura é a falta de asseio, a pessoa fica tão abilolada que esquece de se cuidar, de cuidar das suas coisas. Então essa Variant caindo aos pedaços que passou agora, nem pensar. O carro que vem atrás também me deixa com a pulga atrás da orelha, comprido demais, parece transporte de funerária, o que esse maluco leva aí dentro? Em seguida, a estrada fica vazia. Eu olho o relógio, meia-noite e seis. Meia-noite e oito. Meia-noite e treze. Uns faróis aparecem lá longe e eu reconheço o modelo, um Chevrolet Prisma igual ao do Lauro, carro de quem paga as contas em dia. Levanto a mão, estico o polegar como fazem nos filmes. O Prisma para. Um rapaz de vinte e poucos anos abre o vidro. Parece boa pessoa, o cabelo todo penteado pra trás. A senhora vai pra onde? Dou uma bisolhada dentro do veículo, tudo normal, nenhum revólver, nenhuma faca, nenhuma serra elétrica, mesmo assim sinto um medo tão grande. Na hora que entrar não vou ter mais controle de nada. A senhora vai pra onde?, repete. Não vou pra lugar nenhum. Tava só acenando. O moço bufa e arranca.
Sinto um desânimo. Uma vontade de desistir de tudo. Da carona, da vida. Não seria bom se a gente pudesse fazer isso, desligar como uma máquina desliga? Viveríamos um pouco e voltaríamos a viver quando doesse menos. Se não fosse pela Cora, eu ficava aqui até acabar a bateria, até cair de fome ou frio e alguém me recolher. Ou não me recolher, feito o lixo dos lugares abandonados por Deus, onde gente e embalagem são tudo a mesma coisa. E falando em embalagem, lá vem outro caminhão, a carinha da Elma Chips sorrindo na carroceria. Penso: por que não? Talvez seja até melhor. Motorista é empregado, com carga pra entregar, horário pra cumprir, não vai ficar estuprando durante o expediente. Pra mostrar que sou mulher direita, vou até o banco, pego a Picochuca. Volto com ela dormindo no meu colo, levanto a mão. Outro vem e passa direto por mim. Não demora muito e aparece uma cegonha. Esse vai parar, leva tanto carro, o que custa levar uma mulher e uma menina? Deve custar alguma coisa, porque o motorista não para. Talvez não tenha enxergado a gente. Resolvo avançar um pouco mais, meu pé direito em cima da faixa amarela. Lá vem mais um e penso que foi enviado pra mim, no para-choque escrito bem grande Rastreado por Deus. Mas esse também não para, assim como a carreta e o caminhão-tanque que vem atrás dela e passa como se eu não existisse. Fico pensando o que é que está acontecendo, a vida arrancou o coração de todas essas pessoas? Depois de alguns minutos, vem outro. Pra minha surpresa, o caminhão freia. A porta abre. Um homem me olha lá de cima. Tenho medo dele, mas parece que ele também tem medo de mim. Me observa, desconfiado, do assento coberto por bolinhas de madeira, que nem as que o Lauro usava pra relaxar no trânsito. Tô indo pra São Paulo, falo pra ele. Eu também, sobe aí, diz, e estende a mão pra me ajudar. Não sei se é a gentileza ou o banco igual ao do Lauro, mas não sinto tanto medo dele, só um pouco. Sento, me ajeito sem acordar a Picochuca, ponho o cinto de segurança. É tua filha?, pergunta. Digo que sim. Ele arranca, o motor fazendo barulho.
Depois pergunta o que uma mulher como eu faz na estrada, a uma hora dessas. Conto que fui roubada na lanchonete. Deixei a mala de lado um segundo, enquanto dava janta pra menina, levaram embora. Minto que lá dentro estava todo o meu dinheiro, os nossos documentos. Por isso resolvi voltar pra São Paulo. Me diz que a estrada está cheia de sem-vergonha, ele bem sabe. E de gente desalmada, completo, contando que estava pedindo carona há quase meia hora e nenhum caminhoneiro parava. É porque a senhora tá com a menina, ele fala. Se a senhora fosse rapariga, tinham parado. Não entendo nada, pergunto o que é rapariga. Ele diz que é mulher da vida. Eles sabem pelo jeito de se vestir, de subir na cabine. Todo mundo sobe de frente, rapariga sobe de ladinho. Eu balanço a cabeça. Ele continua, me explica que nenhum caminhoneiro parou porque mulher com criança pedindo carona é treta. Pergunto que tipo de treta. Roubo de menor, ele fala. Sinto um frio no rego, será que ele sabe? Disse menor, jeito de falar de polícia. Imaginei esquartejamento, estupro, assalto, mas nunca ser presa por um agente disfarçado de caminhoneiro. Tento dar uma de desentendida, roubo de menor? Pois é, roubam muito mais criança do que a gente imagina, fala, e olha pra mim. Fico tão nervosa que já estou quase me entregando, pode me algemar aqui mesmo, meu filho. Ele continua: mas pelo jeito de se vestir da senhora, logo vi que é outro tipo de pessoa. Respiro aliviada. Ele pega uma cartela de comprimido. Bota um na boca, engole com água. Depois me oferece a garrafinha. Estou morrendo de sede, mas tenho vergonha de aceitar, não quero parecer folgada, bicando bebida, bicando carona. Sem falar dos germes, vai saber a última vez que esse homem escovou os dentes, tomou um banho. Agradeço e digo que não estou com sede. Depois sigo bisolhando em volta. Esse deve viver na estrada, porque a cabine é arrumada como se fosse a casa dele. Uma bandeira do Flamengo no teto. A foto de uma mulher no painel. Uma coberta bem dobrada atrás do banco. Também dou uma observada nele, com o canto do olho. Deve ter uns trinta anos e pra feio não serve. Moreno de rosto largo, a Neide no meu lugar ia ficar louca. E parece boa pessoa. Me pergunta se quero ligar o ar, se a temperatura está boa pra menina. Mas tem alguma coisa de estranho nele. Uma inquietação, os dedos batendo no volante, ele olhando sem parar nos retrovisores. Será que está fugindo de alguém? Dou uma checada no espelho da minha lateral, como são grandes os retrovisores de caminhão, mas não vejo nenhum farol atrás da gente.
Ele pergunta com que eu trabalho. Conto que sou doméstica, de certa forma é verdade. Sou acanhada, mas levo o papo adiante, o homem vive sozinho na estrada, deve estar louco pra conversar. E você, tá há muito tempo nessa vida? Desde que aprendi a dirigir, responde. Em seguida me conta que nem sempre guiou esse tipo de caminhão. Começou com carreto de mudanças, depois ficou anos como graneleiro, levava soja, milho, essas coisas, um trabalho chato porque carga seca é pesada, o motorista tem que ir devagar e ele não tem paciência. Bem se vê, tenho vontade de dizer, olhando o fura-bolo que voltou a batucar, uma coisa que ele deve fazer sempre, porque o volante está gasto no lugar onde os dedos tocam.