Suíte Tóquio

Giovana Madalosso · Capítulo 32 de 38

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Suíte Tóquio

Capítulo 32

 

Cacá me estende a mão. Vem, vamos comer alguma coisa. Vou com ele até a cozinha. Cacá prepara dois sanduíches que nem parecem feitos por ele, queijo e presunto jogados no meio do pão, sem a maionese de sempre. Olho para o relógio do micro-ondas, quase três da manhã. Penso que seria bom ingerir alguma coisa, mas não consigo, digo que vou guardar o meu para mais tarde. Cacá come o dele com o avesso da minha falta de apetite, uma ansiedade que o leva a liquidar tudo em quatro mordidas. Quando está engolindo o último pedaço, seu celular toca. Ele atende. Pelo grau de atenção, pelo modo como se ajeita na banqueta, já sei que é da polícia. Também sei que as notícias não são boas, porque não há alívio em seu rosto. Pelo contrário, o vinco da testa vai ficando mais fundo, os olhos descem para o piso. Pergunto se Cora morreu, é o que o cérebro primitivo de reprodutora quer saber, para todo o resto paira a ilusão de que se pode dar um jeito. Ele sacode negativamente a cabeça, faz sinal para eu esperar um pouco. Pergunta para a pessoa do outro lado quais são as possibilidades daqui para a frente. Depois desliga e me explica que, ao que tudo indica, não foi acidente nem sequestro. Que na ausência de qualquer tipo de sinal ou contato cresce a chance de desaparecimento. Paro para pensar nessa palavra. No quanto é vaga, um trem de sílabas sem nada dentro, um simulacro de si mesma. O que isso quer dizer?, pergunto, não mais pensando em portas e janelas de um labirinto infinito mas nos contornos da situação concreta. Ele diz que não sabe, que a polícia não sabe. Que desaparecimento deve ser isso, ninguém saber de coisa nenhuma. E quando vão resolver?, indago, já intuindo a resposta, que vem até mim na forma de um encolhimento de ombros.

Levanto. Vou até a sala, começo a remexer na bolsa. Nada como uma tragédia para transformar um esforço de anos em fumaça. Em menos de duas horas voltei a ser tabagista. E das mais inveteradas. Abro a janela, acendo um cigarro. A nicotina acelera meu raciocínio. Viro para o Cacá.

Sabe o que acho estranho?

O quê?

As duas desaparecerem juntas.

Estranho por quê?

Os desaparecidos geralmente são crianças. E somem sozinhos.

Nem sempre são crianças. Às vezes são adultos. Tem de tudo. Esta semana vi um cartaz procurando por uma calopsita.

Que se dane a calopsita.

A Cora é uma calopsita, não sabe o nosso endereço, não saberia pra onde voltar.

Por esse ângulo é melhor que esteja com a Maju. Por outro, por que alguém pegaria uma mulher com uma criança?

A pergunta também é para mim mesma. Tento imaginar cenas amenas, talvez funcionais, mas nada me ocorre. Só as desgraças de sempre. Cacá também deve estar pensando em imagens indizíveis, porque só me olha. Retoma a conversa alguns minutos depois.

Ainda não conseguiram localizar o marido da Maju.

Você acha que ele sabe de alguma coisa?

Não. Vai ficar mal quando souber.

Não digo nada para o Cacá, sei que é meio escroto da minha parte, mas não estou preocupada com o marido da Maju. Tem homem que pagaria para a mulher desaparecer. Quem sabe ele não é um desses? Para ser bem sincera, não estou preocupada nem com a Maju, ela só me interessa enquanto elemento envolvido no desaparecimento da Cora.

Cacá tira os sapatos, começa a andar descalço de um lado para outro. De repente, tomo um susto. Escuto-o dizendo o nome da nossa filha. Vejo que ele está de olhos fechados. Fala pro papai, onde você tá? É estranho vê-lo assim. Sinto que está saindo dos trilhos, mas não o condeno, também não estou das mais sãs. Vou até o aparador, onde estão as bebidas. Não deveria misturar Rivotril com álcool, mas esse calmante não está servindo para nada, sorte a minha se a mistura tiver a potência de me derrubar. Abro a garrafa de gim. Preparo um drinque. Um jeito bonito de dizer que não preparei nada, só joguei o gim puro no copo. A coquetelaria é um luxo para quem vive acima da linha de estilhaços da vida, por isso ninguém nunca viu um operário ou um soldado segurando e girando o pescoço de uma taça, prendendo casquinha de laranja em borda de vidro. Eu vivia acima da linha de estilhaços. Até agora, penso. E dou um gole generoso na bebida.

Quando viro, Cacá está sentado, segurando um baralho de tarô. Não percebe que olho para ele, está concentrado misturando, cortando as cartas. Dispondo-as lado a lado sobre a mesa de centro. O que você tá fazendo?, pergunto, irritada. Ele põe a mão sobre a boca, pedindo que eu fique quieta. Aquilo me irrita mais ainda.

Para com isso, Cacá. Você não vai encontrar nada nessa porcaria.

Não fala assim do meu oráculo.

Isso não resolve nem questão amorosa, quanto mais desaparecimento.

Silêncio que eu tô tirando uma carta.

Faz o movimento devagar, como se a carta fosse magnetizada pela mesa e ele a estivesse puxando com força. O gesto me lembra da época em que Cacá resolveu estudar tarô. Mais uma de suas ondas passageiras que não deram em nada, ele achando que poderia ficar rico como terapeuta holístico num bairro doente, de uma cidade doente, de um mundo doente. Na ocasião não me incomodei, achei até que fazia sentido, mas agora, só de olhar para esse baralho, sinto vontade de bater no meu marido. Finalmente ele vira a carta.

O carro, diz exultante, me mostrando a imagem. Não falei que o tarô ia ajudar?

O que isso quer dizer?

O carro indica iniciativa, conquista. Mas nem precisamos dessa interpretação, a resposta tá na imagem. Como não pensamos nisso antes?

Sigo olhando para ele, sem entender.

O carro. O táxi! Elas não fazem nenhum percurso a pé. É do ponto pra porta do clube, do clube pra porta da escola, da escola pra cá. E todos esses lugares são seguros, os entornos são seguros. Ou seja…

Você acha mesmo que um baralho é capaz de adivinhar o que aconteceu?

Adivinhar não, mas é capaz de sugerir caminhos para que o nosso inconsciente encontre a resposta. É nisso que se apoiam as artes divinatórias, numa projeção probabilística baseada no que já sabemos, ainda que de forma inconsciente. Lembra o que o delegado disse, que muitas vezes a solução está dentro das pessoas?

Ele pega o celular, liga para a delegacia. Pergunta se já checaram os outros pontos de táxi, na frente do clube e da escola. Depois se despede e me conta que eles ainda não fizeram isso mas vão fazer, com certeza alguma coisa será esclarecida. Tomo o último gole. Me aproximo do Cacá.

Concordo com você. É provável que essa história envolva um taxista, mas você acha que ele ia desenrolar um mapa e contar os planos para seus colegas?

Partindo dessa linha de raciocínio, não vale a pena nem ter investigação.

Ele tem razão, mas não consigo deixar de ser pessimista. Ou sensata. Divido com ele a minha suposição. Elas devem ter ido até algum ponto e, não encontrando motorista, pegaram um táxi na rua. Daí pra frente aconteceu alguma merda que não sabemos.

Também acho que foi isso, diz, virando outras cartas, dessa vez sem nenhuma paciência. Depois olha para mim. Eu falei pra você contratar um motorista.

Você sabe quanto custa um motorista particular?

Ele não diz nada.

Claro que você não sabe, nunca botou um centavo nesta casa.

Mas criei a nossa filha. Você acha pouco?

Está cheio de gente que cria filho, lava roupa, trabalha fora e ainda vende Avon.

Você faz isso?

Até poderia improvisar alguma resposta, mas acho melhor ficar quieta, não quero criar mais problema. Resolvo fazer outro drinque que não é drinque. Pego a garrafa e só então percebo que está no fim. Como pude me deixar sozinha numa hora dessas? Jogo o restinho no copo. Bebo. Não basta. Penso em tomar algum dos licores, mas tenho medo de ficar empastelada como a minha mãe. Talvez um vinho seja a melhor opção, seguirei anestesiando a dor, ou tentando anestesiá-la, com menor concentração alcoólica e abençoada por Baco, aquele surubeiro que com certeza teve uma vida melhor que a minha. Abro a porta do aparador, fico olhando para as garrafas mas pensando em outra coisa, na ilusão de que a vida segue uma trajetória, de que tudo vai dar certo em algum momento. De que percebendo isso, podemos inclusive tomar as rédeas pra chegar mais rápido ao grand finale. Até que um dia percebo que não tenho controle de nada. Pior, que nem existe trajetória. Acho que falo alguma dessas coisas em voz alta, porque o Cacá me olha. Desperto para o que estou fazendo. Pego um cabernet reserva que estávamos guardando para uma ocasião especial. Mostro a garrafa para ele: hoje não é um dia especial? Ele balança a cabeça de um jeito triste. Percebe que já estou bêbada, mas não me censura, sempre gostei disso nele, ser uma pessoa que não julga nem poda ninguém. Apoio o cabernet sobre a mesa de centro, vou enfiar o saca-rolhas, mas ele puxa a minha mão, faz com que me vire para ele. Sabe o que a Cora me perguntou ontem? Presto atenção. Papai, quais são as cores primatas? Damos risada. Seus olhos ficam marejados, os meus também. Respiro, solto o ar pela boca. Cacá volta a andar pela sala. Abre os braços e fala:

Se a gente nunca mais vir a Cora, pelo menos sabemos que demos muito amor. Que curtimos ela.

Curtimos o caralho, digo.

Ele olha para mim.

Sabe quantas vezes fiquei rodando em volta de casa pra chegar quando a Cora já estivesse dormindo? Sabe aonde eu levei a nossa filha passear na única vez em que matei o trabalho pra ficar com ela?

Aonde?

Na concessionária da Renault. Você curtiu a nossa filha. Eu passei por ela como um cúmulo-nimbo.

Para com isso, você é a mãe dela.

Eu só pari a Cora. Pra ser mãe, a pessoa tem que adotar o filho depois que ele nasce. A mãe dela é você. A Maju. Eram vocês que ficavam com ela.

Você não ficava porque tava trabalhando.

Trabalhando nada. Eu tava fodendo. Quer dizer, fodendo e trabalhando.

Cacá se surpreende com o que eu disse. Eu também. Vou até a bolsa, pego mais um cigarro. Acendo do lado errado. Pego outro. Não sei por que falei isso para o Cacá, mas agora já foi, talvez precise botar tudo para fora para não ficar louca. Dou uma tragada daquelas. Olho para o alto. Nem eu mesma sabia que eu acreditava em Deus. Aponto o cigarro para cima, dando de brasa no criador: se o sumiço da Cora foi uma liçãozinha moralista, saiba que não funcionou. Não me arrependo de nada que fiz, tá ouvindo? Não me arrependo, falo mais alto ainda, agora olhando para o Cacá e batendo no peito com tanta força que sinto a pele arder.

Calma, não precisa se sentir culpada.

Calma porque não é com você.

Todo mundo que é casado tem suas histórias.

Paro o cigarro antes de chegar à boca. Como assim, tem suas histórias? Por acaso você tem uma amante?

Não, nunca me envolvi com ninguém, diz. E vendo que não vou recuar: só dei uma saidinha uma vez com uma mãe do bairro.

Não sei o que me deixa mais indignada: bancar sua vida de madame enquanto ele trepa em horário escolar ou ele me contar isso. Por que até nos deslizes cornísticos esse desgraçado tem que ser meu companheiro? Imagino que vá me cobrar, fazer alguma pergunta, mas não diz uma palavra. Você não quer saber nada? Saber detalhes pra quê, Fer, pra me magoar? Chego bem perto dele. Sabe o quanto é insuportável conviver com alguém tão compreensivo que não dá nem pra odiar de vez em quando? Ele tosse com a fumaça. Apago o cigarro. Não pelos seus alvéolos, mas porque já estou fumando a bituca. Enquanto amasso o filtro num pires, penso que talvez o Cacá não seja tão legal. Que de repente confessou sua história só para se vingar da minha. Que não quis saber detalhes para mostrar seu desprezo pelo que faço ou deixo de fazer. Ou quem sabe esteja só cagando mesmo. Não sei nem quero saber. Para o inferno todas essas vozes na minha cabeça, grito a ponto de acordar os vizinhos. Que se fodam os meus casos. Os seus casos. Os casos de todo mundo. Quero saber da minha filha. Era só um o sacizinho!

Do que você tá falando?

O sacizinho. Era só um. Por que ninguém me avisou? Agora sou eu que ando de um lado para outro, buscando uma resposta nas coisas, nas paredes, em qualquer canto. Quer dizer, avisar até que me avisaram. A ayahuasca me avisou.

Você tomou ayahuasca?

Tá achando que é só você que é esotérico nesta casa? Tomei, Cacá. E sabe o que a planta me disse?

Fala logo.

Pra eu abrir a porta. A planta entrou no meu corpo lá no meio da porra da floresta Amazônica pra me dar esse recado. Alô, Fernanda, mensagem pra você, memorando pra você, favor abrir a porta. Respiro e continuo: eu vi a nossa filha parada na frente de uma porta fechada.

Você consegue descrever essa porta?, Cacá diz, já pegando o celular.

É uma metáfora. Vi a Cora enorme na frente de uma porta minúscula, que devia ter metade do tamanho dela. Ela cutucava, mas a porta estava trancada. Girava o trinco, se abaixava, olhava pelo buraco da fechadura, e nada. Nada de conseguir entrar.

Cacá faz um gesto para que eu continue, mas paro um pouco, impressionada com a nitidez da lembrança. É como se se tratasse de uma situação realmente vivida. A porta talhada em madeira, o trinco dourado, o corpo desproporcional da minha filha. E como há desamparo nessa situação. Abro a garrafa de vinho. Saio andando com o cabernet numa das mãos e o saca-rolhas na outra, bebendo no gargalo, em busca de um alívio que já sei que não terei.

E ninguém abria a porta?

Não, falo, ainda andando, ainda procurando respostas. Por que nunca abri a porta pra ela? Por que nem sequer levei em conta o aviso que a ayahuasca me deu? Onde eu tava com a cabeça?, grito para ele ou para mim ou para não sei quem, enquanto olho a tela na minha frente. Aquele banheiro estéril, com aqueles azulejos estéreis, com aquele sangue estéril. Sinto uma raiva que não cabe no meu corpo. Levanto o saca-rolhas. Não faz isso, escuto Cacá gritar, mas já estou rasgando a tela de um lado a outro.