Suíte Tóquio

Giovana Madalosso · Capítulo 17 de 38

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Suíte Tóquio

Capítulo 17

 

Giro a chave da Orquídea. Nem entrei e pelo cheiro já sei o que me espera. Uma mistura de mofo e ranço com produto de limpeza, e produto barato, eu conheço de longe essa lavanda de periferia. Tiro os sapatos da Picochuca, os calcanhares da pobrezinha estão mesmo bem machucados. Depois coloco meu celular pra carregar. Será que já tem recado do seu Cacá e da dona Fernanda? Claro que tem, são oito da noite, vejo no visor que logo acende. Duas mensagens do meu patrão. Vou tocar nelas, mas paro, talvez seja melhor fazer de conta que não vi. Sinto um pouco de culpa, pena do seu Cacá, me tratava tão bem. Mas agora já foi, melhor olhar pra frente. Até porque tenho coisas pra fazer.

Digito a senha da internet que vejo na mesa de cabeceira, espigao69. Procuro o número da Viação Garcia, ligo pra lá. Um homem diz que hoje não tem mais ônibus, mas amanhã cedo tem um que para em Santa Cruz do Rio Pardo e vai pra Presidente Prudente, cento e vinte reais a passagem. Pego a bolsa, o meu cartão. Ana pergunta se pode ver tevê e eu digo que sim, enquanto vou ditando para o homem os números, a data de validade, cuidando pra linha não cair no meio da operação. Dá certo. Ele diz que vou receber o bilhete eletrônico por e-mail e já vai desligar, mas falo pra ele esperar um pouco, quero ver se chegou mesmo, morro de medo de gastar e ficar na mão. Enquanto entro no meu e-mail, escuto um barulho estranho, depois uma gemeção. Viro para trás e vejo a Ana sentada na cama, com a Bibi no colo, assistindo à tevê. Na tela tem um ânus tão arreganhado, visto tão de perto, que mais parece a ponta de um vulcão. Que que é isso?, Ana diz, apontando pra tela, pra um espigão que agora aparece e começa a roçar a cabeça nas pregas. Cadê o controle?, saio gritando, a gemeção começando de novo. Minha Nossa Senhora, é preferível cegar a menina a deixar que veja uma coisa dessas. Tenho que levantar a Cora pra achar o controle. Os botões estão cobertos com uma capa plástica, tenho que apertar o off duas vezes para desligar a pouca-vergonha. Assim que a tela apaga, a Ana começa a chorar. Quero ver desenho, repete com a boca arreganhada. Eu penso no outro buraco, será que ela se tocou que era um ânus? Melhor não falar no assunto, quem sabe assim ela esquece. Lembro que deixei o celular ligado, o homem na linha, ai, que vergonha dessa criatura, será que escutou a tevê? Não tenho nem coragem de falar com ele. Vejo se o e-mail com a passagem chegou e desligo na cara do infeliz. A Ana segue chorando e repetindo a mesma frase, criança quando dá pra pedir alguma coisa não tem quem aguente. Resolvo atender o pedido, a pobrezinha não tem um brinquedo fora a Bibi, merece ver um pouco de desenho. Mas claro que não vou correr o risco de mostrar mais pornografia pra ela, mando ir para o banheiro e fechar a porta, só pode sair quando a Maju chamar. Ligo a tevê, mudo rápido de canal, caio num de notícias, no Shoptime vendendo joia folheada a ouro, e depois disso só chuvisco, mais nada. Passo a toalha úmida no bocal do telefone que está sobre a mesinha. Ligo pra recepção. É um moço que atende. Pergunto se não tem canal de desenho. Ele fica em silêncio, parece estranhar a pergunta, depois diz: que desenho? Alguma coisa tipo Branca de Neve e os Sete Anais? Eu fico tão envergonhada que tenho vontade de desligar na cara de novo, mas estou pagando pra estar aqui, e pagando bem. Sigo em frente, digo: desenho pra criança. O moço diz: aqui é um motel, não tem coisa pra criança.

Falo para a Ana sair do banheiro, explico que não tem desenho. Ela faz bico. Antes que o alarido comece, tenho uma ideia. Pego o bloco de nota fiscal do lava-rápido e uma caneta e rabisco na primeira folha. Olha isso, Ana. A flor que a Maju tá fazendo vai aparecer igualzinha na outra página, digo, e levanto o carbono. A Ana se encanta, queria que a Neide estivesse aqui pra ver se não valeu a pena pegar esse bloco. Seguro a mão dela e juntas fazemos casas, nuvem, um cachorro e uma casinha pra ele. Ela me pergunta se sou canhota. Digo que sim. Ela diz que é pedestra. Dou risada. Deixo Cora desenhando sozinha e vou dar conta das outras coisas que preciso fazer. Pego o cardápio, dou uma olhada. Filé com fritas, macarrão de quatro queijos, linguiça do Tarzan, fricacete de frango. Ô gente sem-vergonha, penso, e dou risada, lembrando da dona Tarsila, que adorava um fricassê, e acho que também um fricacete, a gordinha era safada que só. Pergunto pra Ana o que ela prefere, a carne ou o macarrão. Ligo pra recepção e peço o filé, com dois pratos pra dividir. Depois abro o frigobar, todo enferrujado, deviam fazer uma promoção, compre uma água e ganhe uma infecção por tétano.

Sento um pouco, me esparramo em cima da cama. Quando será que o seu Cacá e a dona Fernanda vão procurar a polícia? A essa hora já era pra gente ter cruzado a fronteira e ainda estamos aqui, no meio do caminho. Só devemos chegar em Presidente amanhã lá pela hora do almoço. Apalpo as notas no sutiã, sinto medo do que estou fazendo. Queria ter meu livro pra afastar o medo, por isso sempre gostei de ler, porque lá não é aqui. Novela também funciona pra isso, mas vá seguir uma novela trabalhando de empregada doméstica. Na primeira casa em que fui contratada, até dava, mas tinha que sentar no chão. A patroa tinha três filhas, tudo noveleira, não sobrava lugar no sofá. No meu segundo emprego, tinha tevê no quarto de empregada, mas não adiantava, a arrumadeira que dividia o casulo comigo dormia cedo e roncava alto, ver novela com aquele barulho me enervava. No terceiro emprego, achei que ia conseguir. A Cibele, ela não gostava que chamasse ela de senhora nem de dona, me chamou pra assistir a novela na primeira noite, senta aqui com a gente, disse, apontando pra uma poltrona do lado dela e do namorado. No dia seguinte, apareci pra ver mais um capítulo, mas ela não me chamou pra sentar. Fiquei andando por ali, fingindo que estava arrumando as cortinas, mas ela fez que não viu. Fui reparando que ela só me tratava bem quando o namorado estava junto. Acabou levando um pé na bunda do moço, bem feito. Mas a essa altura eu já tinha desistido de assistir qualquer coisa, já tinha ido atrás de leitura. Não era uma novidade pra mim, porque eu sempre fui de ler, desde que o seu Miguel passava vendendo livros lá na fazenda, mas ter descoberto a Nora Roberts num sebo perto do terminal foi uma bênção. Ô mulher pra escrever o que eu gosto. A Neide não se encantou com ela porque diz que tem amor de mais e sexo de menos, mas pra que ler sobre sexo? Sexo é pra fazer, não pra ler. E nem é verdade que não tem sexo. Os personagens fazem amor, isso que ela não entende. O homem não lambe os seios, reclama o peito. Não chupa, saboreia. Não entra, mergulha. Não goza, se esvazia plenamente. Aliás, os personagens nem fazem amor, se unem em carnes trêmulas. É outro nível. E tudo isso em frente ao lume de uma lareira ou sobre o crepitar de folhas secas. Sei que não é meu mundo, e quero mais é que não seja. Lá sou trouxa de pagar pra imaginar duas pessoas fazendo que nem cabra, que nem os dois lá na tevê? No livro que ficou no ônibus, a Rosalind se apaixona por um homem maduro. Demora para os dois marcarem um encontro. Quando acontece, a Rosalind está na frente do espelho, se arrumando para sair, e o espírito de uma antepassada aparece e rasga em pedaços a blusa dela. Dali em diante, toda vez que ela vai sair com o grisalho, a penada aparece e estraga a roupa. Contei isso pra Neide e ela tirou sarro do meu livro, coisa mais besta uma história dessas. Besta nada. Quantas vezes não me senti igual à Rosalind, pronta pra sair, toda arrumada na frente do espelho, e daí aquela arrumadeira com quem eu dividi o casulo aparecia na minha cabeça, dizendo: mulher, como tu é jeca, e nessa hora parecia que a minha roupa também se despedaçava. O Lauro era outro que aparecia pra me assombrar de vez em quando. Só de lembrar que ele me abandonou sem deixar um bilhete, meu rosto ficava mais velho, meu decote parecia um buraco triste.

E já que não tenho nada pra ler e não estou acompanhando a novela, resolvo pôr no canal de notícias, deixar a tevê ligada a noite toda, vai que aparece alguma coisa sobre o desaparecimento da Cora, que nem apareceu sobre o bebê da Neide. Bato na madeira e depois ponho o controle sobre a tevê, não tem chance da Picochuca alcançar aqui em cima. Em seguida ando um pouco pelo quarto, vou no banheiro ver se tem toalha pras duas, secador de cabelos. A Ana me cutuca. Maju, olha o desenho que eu fiz pra você. Me agacho, gosto de olhar para o rostinho dela, pra esses dentes que logo vão cair. Sabe o que é isso?, ela me pergunta. Claro que não sei, o que vejo é uma nota fiscal com um círculo malfeito e uns rabiscos estranhos dentro. Mas não vou desapontar a Ana, pelo menos vou tentar acertar. Uma bola. Um balão. Uma pizza. Um palhaço. Um foguete. Um planeta. Um brigadeiro. A abóbora da Cinderela. Ela ri quando eu falo da abóbora. Nada disso, sua bobinha. É um coração com eu e você dentro.