Suíte Tóquio

Giovana Madalosso · Capítulo 2 de 38

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Suíte Tóquio

Capítulo 2

 

Escuto o celular tocando, mas resolvo não atender. Eu e Yara acabamos de virar de barriga para cima, depois de um longo hoka-hoka. Não fui eu que inventei esse termo, foi ela que me contou e depois mostrou o vídeo das macacas bonobos esfregando seus órgãos genitais umas nas outras, atividade que alguém no norte da África resolveu batizar com esse nome algo cômico, algo sonoro. O apresentador do vídeo dizia que as bonobos gostavam mais de fazer sexo entre si do que com os machos, os biólogos sabiam porque durante o hoka-hoka as bonobos olhavam mais nos olhos das parceiras, se mexiam com mais empolgação. A Yara disse que o apresentador estava certo, ela já tinha visto duas bonobos transando com paixão quando estava na bacia do Congo. E era transando mesmo, não cruzando como os outros animais, porque o que elas faziam era uma transação, uma troca de afetos. Lembro de pensar que o que define o verbo não é o sujeito mas o objeto. Já cruzei com algumas pessoas, tenho transado com ela.

Nem sempre a transação é justa. Ando recebendo menos do que estou entregando. Dividendos da paixão. Nada que atenue o meu jeito de olhar para ela, encantada com coisas banais, por exemplo a forma como segura o baseado. Até seu papo ralentado pela erva, que irritaria qualquer pessoa em estado de sanidade normal, me dá um certo barato. Gosto de vê-la nadando na contramão da produtividade, fazendo o oposto do que faço no meu trabalho. Se comprimo histórias em blocos de dez minutos, em séries de oito episódios, ela transforma as dela em odisseias, como se de fato vivesse no mundo que tanto ama, regido pelos ciclos da natureza e não pelas demandas urgentes do deus smartphone. Isso e seus seios levemente caídos, como suas pálpebras agora levemente caídas, me fazem arrancar o baseado da sua mão e beijá-la.

O celular toca. Dou uma olhada, é meu marido. Silencio o aparelho. Começo a esfregar os meus órgãos genitais nos dela, enquanto centenas de outros primatas dirigem lá fora, com seus rabos peludos no assento e o polegar opositor na buzina, fazendo farfalhar aquela selva em volta de nós. Quando voltamos a deitar de barriga para cima, tem sete ligações não atendidas no meu celular.