Suíte Tóquio
Capítulo 5
Finalmente, a estrada. Não aquele monte de favelas que rodeiam a cidade como urubu em volta de carniça. A estrada mesmo, esse descampadão que eu adoro, só uma vaca magra aqui e outra ali, as plantações e os casebres, a tranquilidade dos casebres, a terra que já começa a mudar de cor, de marrom pra roxa, logo de roxa pra vermelha. Mostro a paisagem pra Corinha, mas ela está distraída olhando o lanche que o ônibus oferece. Amendoim japonês e biscoito, claro que não vamos comer, aprendi com a nutricionista da dona Fernanda que água e sal prende os intestinos. Explico pra ela que aquilo não presta, vamos comer coisa muito melhor. Pego a nossa marmita, a salada de macarrão com tomate e abobrinha que a Cora adora. A chata na nossa frente sente o cheiro e fala com o homem ao seu lado. Amor, se continuar essa farofa, nós vamos subir. Eu acho a ideia ótima, não quero saber de ninguém fazendo cara feia pra nós, nem se embestando com a nossa comida, e muito menos ouvindo a nossa conversa, então anuncio bem alto: agora a Maju vai pegar o frango!, mesmo sem ter galeto algum. A mulher bufa e diz: vamos, tem lugar lá em cima. Os dois sobem com suas bagagens. Ainda bem, assim posso papear à vontade com a minha Picochuca.
Enquanto rasgo a embalagem do garfinho descartável, conto pra Cora que vamos até uma cidade chamada Presidente Prudente, longe pra burro, pra lá do interior. Depois fico quieta, mastigando, pensando que vamos chegar às seis e meia da tarde e que mais ou menos por essa hora vão começar a dar falta da gente, mas tudo bem porque já vamos estar num táxi, indo pra Ponta Porã, de onde vamos cruzar a fronteira a pé até Pedro Juan Caballero, no Paraguai, onde acho que dá pra fazer um documento novo pra Cora. Quando eu era adolescente lá no norte do Paraná, tinha o neto de uma amiga da minha vó que contrabandeava carros na fronteira, e quando a coisa apertava, ia pra Pedro Juan fazer identidade. Lembro que sempre voltava de tênis importado, com um cabelo e um nome diferentes. Quando eu ia imaginar que Deus me colocaria no mesmo caminho do Antônio que virou Serginho que virou Pablo que virou Diego? E como foi Deus que me colocou nesse caminho, não vou me sentir mal, vou atender os seus desígnios. Digo pra Cora que vamos fazer uma maluquice, uma brincadeira muito legal, mudar o nome dela. Pergunto como ela quer se chamar daqui pra frente. Moana, diz. Falo que esse não vale, é muito de princesa, muito de cinema, que tal algum mais normal, tipo Manuela, Carolina ou Brígida, como a vó da Maju? Ela não diz nada, está concentrada tentando espetar o macarrão, mas penso que depois preciso retomar a pergunta, escolher logo um nome e ir tirando Cora da nossa cabeça. Acho que vai funcionar porque foi quando eu tinha a idade dela que minha mãe morreu, e dessa fase não lembro de nada, só de um pingente que ela tinha no pescoço, uma cruz dourada que eu girava quando estava no seu colo.
Limpo a boca da Cora com um guardanapo da Casa do Pão de Queijo, depois descasco uma mexerica. Vou tirando os caroços, dando os gomos pra ela e contando que de Presidente Prudente vamos pingar mais um pouco até chegar no nosso destino final, Mandaguaçu, onde a Maju cresceu, e daí ela vai ver que beleza de vida nós vamos levar. Acordar no meio da natureza e passear de trator, colher folhas de amoreira, quilos e mais quilos, porque as lagartas são enjoadas e não aceitam outra coisa. Durante o dia, vamos alimentando as bichinhas. Precisa ver como elas comem. Ficam dentro de um barracão só mastigando dia e noite. No começo não dão tanto trabalho porque são pequenas, mas quando acordam pra quinta idade, comem seis dias sem parar, as bocas já grandes, as tetas da língua triturando a folha com força e fazendo o barulho da chuva. Comem tanto que a gente tem que acordar de madrugada pra repor as folhas, mas vale a pena, porque daí começa a parte mais bonita, a parte de Deus, quando as lagartas começam a soltar o fio branco pela boca. Você tem que ver isso, Picochuca, os fiozinhos de seda saindo pela boca. E daí a gente sobe as lagartas para o bosque, pra uns quadradinhos onde cada uma começa a tecer o seu casulo, a sua casinha. É a coisa mais linda. Essas lagartas são de verdade, Maju? Digo que sim, claro, mas ela não precisa ter medo, são boazinhas. A Maju quando era criança gostava de pegar um punhado assim com a mão, e mostro as lagartas imaginárias no meio dos meus dedos. E depois sabe o que elas viram? Mariposas. Borboletas!, digo, pra ver se ela se encanta, mas ela diz que ainda está com medo. Eu passo a mão nos seus cabelos, que também são fios que a natureza teceu, e vou mudando de assunto pra acalmar. Conto que nós também vamos cuidar das outras coisas da fazenda, dar comida pras galinhas, coelhos, porquinhos. Coelhos de verdade? Digo que sim e ela bate palmas. Me sinto bem, me sinto tão bem, falo da natação que ela vai fazer no lago, do jardim que vamos plantar dentro de um carrinho de mão, do balanço de pneu que vamos pendurar em alguma ameixeira, do cachorro que ela finalmente vai ter. Depois lembro que precisamos resolver aquele assunto. O nome, Picochuca, como você quer se chamar? Ela pensa um pouco e diz: Nina, vai ver porque tem uma amiguinha chamada Nina. Digo: Nina não, pensando na mania que os ricos têm de dar nomes tão curtos para os filhos: Teo, Lia, Noa, Lara, Olga, Max, Oto, até de Oto essa gente batiza, e eu não entendo por que tanta miséria. Se letra é de graça, por que não aproveitar, dar um nome de encher a boca? Sugiro um que tiro do livro que estou lendo, Rosalind. Não é bonito esse, Picochuca? Ela diz que não, que é feio, prefere chamar Elsa como a princesa do Frozen. Eu digo que Elsa não dá, é nome de adulto, a pessoa vai imaginar uma mulher aparecendo e daí chega uma criança com uma naninha debaixo do braço, fica um negócio estranho. A Maju tá dizendo isso porque quer o teu bem. A Cora pensa um pouco e diz: Ana, que nem a outra princesa do Frozen. Ana é curto, mas não é de todo mau, e eu preciso respeitar o gosto da menina. Tá bom, Picochuca, teu nome agora é Ana.