Suíte Tóquio

Giovana Madalosso · Capítulo 10 de 38

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Suíte Tóquio

Capítulo 10

 

Eu estava acostumada a acompanhar gravações nas cidades em que os artistas escolhiam viver: São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Paris, Tânger ou mesmo a Capivari de Tarsila ou a Brodowski de Portinari. Mas agora eu precisava ir aonde os jacarés estavam. Era tudo tão novo para mim que eu nem sabia como me vestir. Saía a echarpe que eu usava para aguentar o ar-condicionado dos estúdios e museus e entrava o quê? Provei algumas variações que eu havia trazido, às cinco da manhã tive ânimo para provar algumas variações, dispensando a camisa por parecer formal, o colete cheio de bolsos por parecer caricato, vestindo por fim uma calça de moletom, uma camiseta e um par de óculos escuros que escondiam o meu cansaço mas também me tornavam uma figura pitoresca, assistindo ao alvorecer através de dois blecautes de marca, em frente a um hotel em Corumbá.

O motorista não demorou para aparecer. São duas horas daqui até Nhecolândia, me disse, e o nome do município soou mais absurdo do que nunca, fazendo parecer que eu ainda sonhava, embalada pelo laranja do horizonte. Pensei em aproveitar, em dormir até chegar ao meu destino, ou ao menos deslizar pela paisagem atônica da manhã, mas o meu celular já estava cheio de e-mails enviados pelos gringos de Los Angeles, pelos dedos que trabalhavam em outro fuso e me faziam acordar todos os dias com a caixa postal abarrotada. Só tirei os olhos da tela quando senti que já nos aproximávamos, ao passarmos pela porteira.

O alojamento era composto de um quarto com quatro colchões, um banheiro, uma cozinha e uma varanda com uma mesa rústica de madeira. Larguei minha mala no chão do quarto, junto a outras bagagens que já estavam ali. Reparei que o cômodo não tinha ar-condicionado, nem sequer um ventilador, o que me deixou com um certo mau humor, irritada com a muquirana que estabeleceu um custo de produção tão baixo para aquela série. No caso, eu. De qualquer forma, ainda que eu tivesse aumentado a verba, onde ficaríamos? Não havia nada de melhor por ali, nenhum bar de hotel onde eu pudesse tomar um drinque, então tratei de focar no que estava para lá da janela.

A caminho da filmagem, passamos por lagoas naturais que, segundo o motorista, no termo pantaneiro chamavam-se baías. Eram depressões em que a água se acumulava, criando formas como gota e coração. Foi perto da ponta do coração profundamente verde que estacionamos e eu logo enxerguei a diretora, que não tinha mais visto desde a reunião, com o olho mergulhado na lente, a lente quase mergulhada na água. Estava com os cabelos presos num coque malfeito, a boca entreaberta, admirada com algo que via. Perto dela, tinha outra câmera, comandada por uma mulher de cabeça raspada com uma argolona na orelha, que deduzi ser a diretora de fotografia. E junto delas, um rapaz novo a ponto de me botar medo, de me fazer pensar se tinha idade e carteira de trabalho para estar segurando aquele equipamento de som. Preocupação que esqueci quando Yara levantou os olhos da câmera, sorriu para mim e acenou de um jeito simpático, para logo depois colocar o dedo sobre a boca em sinal de silêncio e voltar os olhos para onde estavam antes. Fiquei ali, esperando a hora de me apresentar para o resto da equipe.

Passaram-se quinze minutos, e nada. Yara, a diretora de fotografia e o técnico de som permaneceram imóveis. Tão imóveis que por um instante tive a impressão de que eram três bonecos de cera retirados do Madame Tussauds e inseridos numa paisagem insólita. Resolvi sentar-me à sombra de uma árvore, onde respondi a todos os e-mails e mensagens que ainda faltava responder, percebendo num certo momento que tinha passado uma hora desde que eu chegara. Então, erguendo os olhos, vi que finalmente algo havia mudado. A diretora de fotografia e o técnico de som permaneciam no mesmo lugar, mas Yara não estava mais ali. Olhei em volta. Até que ouvi o barulho da água ondulando, e em seguida saiu lá de dentro a diretora, com a câmera na mão. Correu para a margem, fez sinal para eu me aproximar. Me apresentou rapidamente Herta e Felipe. Depois, mostrando o visor da câmera, disse: a cena de romance que você queria. Vi dois jacarés se aproximarem debaixo da água, o maior deitando e torcendo-se sobre o menor, que deduzi ser a fêmea, e ali ficando por uns minutos até seus corpos se separarem de novo. Não ficou demais?, perguntou, os olhos ainda voltados para o visor. De fato, tinha ficado. A rudeza dos jacarés desaparecia na suavidade dos gestos suplantados pela água, como se de fato existisse amor, e o amor fosse capaz de transmutar carcaças torpes em acrobatas. Mas Yara estava pingando, gotejando ao meu lado, e isso também me chamava a atenção, o fato de ela não se importar com a água turva que descia dos seus cabelos para o seu rosto, enquanto assistia pela segunda vez à cena. Depois disso, deixou a câmera com Herta, pediu licença e foi para não sei onde.

Puxei conversa com a careca, perguntando o que ela estava achando da filmagem. Ela levantou o polegar e disse: booooom, a palavra prolongada dessa maneira, e em seguida deu um sorriso. Indaguei se tinham conseguido captar muitas imagens na véspera. Lá veio o polegar de novo, sem nenhuma palavra. Depois guardou a mão no bolso e seguiu sorrindo, me dando a impressão de que sofria de algum distúrbio mental ou era um daqueles talentos estranhos, com percepção muito aguçada para estética e o cérebro lento para todo o resto. Resolvi falar com Felipe, que me disse que o dia tinha rendido bastante, mas não quis contar detalhes, voltando a mexer nos seus microfones, claramente intimidado com o meu cargo, comportamento com o qual eu já estava acostumada. Para alívio do meu ímpeto verbal, Yara reapareceu, com uma roupa seca, torcendo os cabelos. Está bom o monólogo?, me perguntou rindo, e logo contou que Herta era uma diretora de fotografia fabulosa mas não falava português nem inglês. Haviam se conhecido na Romênia, filmando bisões nos Cárpatos. Yara ficou impressionada com a luz que Herta conseguia captar, uma luz densa e melancólica, que se aproximava do cinema, de filmes de sérvios como Kusturica. Gostei do que ela disse, eu adorava aquele diretor.

Depois ela me mostrou algumas cenas captadas na véspera. Uma fêmea de jacaré nadava numa lagoa junto com dois filhotes. Num certo momento, a fêmea e o filhote maior distanciavam-se do menor. Outro jacaré entrava em cena e devorava o pequeno, os pedaços de carne estraçalhados em poucos segundos. Que é isso?, perguntei, surpresa. Fome, Yara respondeu com displicência, como se aquele ato de canibalismo fosse a coisa mais normal do mundo. E era, para aquela espécie. Como Yara me explicou, não era raro que os machos comessem seus semelhantes, incluindo os filhotes. Lamentável para os bichinhos mas conveniente para mim, para a jornada que pretendíamos dramatizar, pois mostrava que o jacaré também podia ser o vilão de si mesmo. Dividi esse pensamento com ela, achando-o brilhante, e comentando que já tínhamos cenas de vilania, conquista, romance, compaixão, mas eu ainda sentia falta de outras motivações, como raiva. E como vou mostrar isso?, Yara perguntou. Através da expressão do jacaré, arrisquei. Jacarés não têm músculos no rosto, não têm expressão facial. São como o… Bruce Willis. Dessa vez eu que dei risada. Ela continuou: não fui tão direta com você na reunião porque não dava, mas acho a sua ideia de humanizar os animais uma bobagem. Fiquei surpresa, era raro algum contratado se dirigir a mim com tanta honestidade. Fica tranquila que sou profissional, vou fazer o que você pediu, mas saiba que a beleza dos selvagens está justamente em não se adequar a nada. Em seguida, tirou um baseado do bolso, em pleno horário de trabalho, acendendo-o e ainda oferecendo-o para mim. Claro que não aceitei. Meu astral, naquele momento, estava mais para um Rivotril, já que meus neurônios estavam agitados, metade pensando na abordagem da série, metade acendendo a pira dos meus hormônios. Disfarcei e disse que ela podia entender de bichos e direção, mas quem entendia de produção de entretenimento era eu, a série já tinha sido vendida daquele jeito, e se o canal investira dois milhões nela, era porque a abordagem tinha apelo, mas claro que poderíamos flexibilizar um pouco a forma, poderíamos conversar a respeito. Ainda vamos conversar bastante, ela disse com um sorriso malicioso.

O produtor local da série apareceu, trazendo sanduíches e bebidas. Misturei minhas fibras solúveis ao suco, enquanto Yara e Matuto se puseram a falar sobre um fazendeiro da região, ela perguntando como estava um tal de Norberto, eu pensando como ela poderia conhecer tão bem os moradores dali. Nessa hora, meu celular começou a tocar, eram os gringos acordando ao norte do equador. Respondi e-mails, assisti a cenas de outra produção em andamento, e quando vi, a equipe estava de novo na margem do coração, de onde saía um jacaré, as patas dianteiras puxando sua sanfona de gomos para a terra. Esse foi o primeiro, logo depois vieram os outros. Jacarés de todos os tamanhos saindo da água, como se uma corneta, audível apenas por eles, tivesse sido tocada. Eram tantos que pensei que não cessariam de emergir, que sairiam sem parar da garganta do planeta pela boca da lagoa até povoar o mundo, mas claro que não, logo o número se estabilizou e deduzi que era apenas a população atendendo ao chamado da corneta solar. Lagarteando. Ou assoalhando, como me disse Matuto. No final, era uma cena bonita de se ver, a cordilheira de cascos marrons e quase imóveis circundando a lagoa. Tanto que a equipe estava captando e até eu me levantei para tirar uma foto, para mandar uma imagem para o meu CEO.

Não muito tempo depois, ouvi Yara gritando: é ela. E em seguida: rápido, o cambão. Matuto correu até onde estavam os equipamentos, pegou um cabo comprido com um elástico largo na ponta e deu para Yara. Com o apetrecho na mão, ela foi se aproximando de um jacaré isolado na margem da lagoa. Herta e Matuto posicionaram-se atrás da Yara, como se já soubessem — e provavelmente sabiam — o que estava acontecendo. Agachada, foi se movendo devagar, até chegar perto do bicho e laçar com o elástico sua boca, fechando-a e cerrando qualquer ameaça. Feito isso, ela tocou o jacaré. Passou a mão entre seus olhos. Devagar. E chorou. Eu sei porque eu a vi limpando as lágrimas com as costas da mão. Em seguida soltou o elástico, deixando o animal. Era uma ótima cena para uma série de suspense ou aventura, mas o que estava rolando era a vida, em episódios de vinte e quatro horas, sem edição. Assim, antes de chegar ao clímax e eu poder perguntar para Yara qual a sua relação com o réptil, tive que atravessar o resto da tarde sem maiores acontecimentos: a volta com o motorista, o banho rarefeito do alojamento, a dificuldade de fazer o intestino funcionar com gente esperando do outro lado da porta.

Quando finalmente sentamos para comer, já era noite. Os ruídos dos animais criavam um cenário mais rico do que qualquer imagem. Me acomodei no meio daqueles sons, ouvindo também o fogo crepitar, pois Matuto preparava um leitão no rolete para nós. Sentamos perto dele. Eu, Yara, Herta e Felipe. Matuto e o assistente de som começaram a conversar sobre o fogo. Herta, como sempre, manteve-se alheia, não pela barreira linguística, essa sempre pode ser superada, mas porque parecia gostar de ficar no seu mundo, ou melhor, no nosso mundo, por inteiro e sem interlocutores, ligada a algo que eu não sabia o que era mas que parecia bom, e que parecia ficar melhor ainda à medida que a romena bebia pequenos goles no gargalo de uma 51. Essa adora uma cachaça, Yara comentou. Às vezes acho que ela topa trabalhar no Brasil só por causa disso. Perguntei se elas sempre trabalhavam juntas. Yara disse que sempre que possível. Além de Herta ser uma boa profissional, era de origem cigana. Aguentava como ninguém a vida nômade de documentarista. E você, de onde é?, indaguei, ainda intrigada com aquele sotaque. De uma cidade que ninguém conhece, Las Cruces. Novo México?, perguntei. Ela me olhou, surpresa. Como não conheceria? É a cidade da maior enchilada do mundo, falei. Yara rebentou numa risada sonora. Como você foi parar em Las Cruces? Contei para ela que amava viajar. Que só não viajava mais porque meu marido era caseiro, eu tinha uma filha pequena e um cargo executivo que me prendia ao escritório, mas que no passado eu havia sido produtora de programas de viagem. E numa dessas produções passei por Las Cruces, onde filmei a enchilada de três metros de diâmetro que, aberta, mais parecia uma cama elástica coberta de molho. E filmei também a mascote da festa, a pimenta de botas, bigodão e sombrero, como se chama mesmo? Acho que era Twefie, Yara respondeu, vibrando com as memórias que eu devia estar suscitando. Depois me contou que saiu muito cedo da cidade, com seis anos. O pai era biólogo e a mãe antropóloga, só foram parar em Las Cruces por causa do doutorado dela. Depois seguiram morando em várias cidades e países, atrás dos bichos do pai e das pessoas da mãe. Também morei em algumas cidades, contei para ela. Só que por um motivo um pouco menos glamoroso: meu pai bebia, jogava, começava a dever para muita gente. Chegava uma hora que a situação apertava e meus pais resolviam recomeçar em outro lugar. Às vezes acho que é por isso que gosto tanto de cinema, porque enquanto eu não me enturmava na cidade nova, matava minha solidão nas matinês. Yara se inclinou na minha direção. Que coincidência. Também matava a minha solidão no cinema. Isso quando a cidade tinha um. Mas eu não acho ruim a vida nômade, me acostumei a viver assim, acho que nem sei viver de outro jeito. Ela ia falar mais alguma coisa, mas Matuto nos interrompeu servindo o leitão com pão e passando para Yara uma cuia em formato de chifre. Ela bebeu e me passou. Já tomou tereré? Disse que não. Ela me explicou que era uma espécie de chimarrão gelado. Depois colocou água para mim, ajeitou o mate lá dentro — me levando a pensar de novo como tinha tanta intimidade com aquele lugar, com aquela cultura.

Começamos todos a falar da comida, de como o leitão estava bom. Enquanto comia, aproveitei para responder alguns e-mails. Até que senti o cheiro ao meu lado. Era Yara fumando um baseado cônico, a brasa brilhando graúda na noite. Passou para mim, novamente recusei. Eu ainda estava em horário de trabalho, eram três da tarde em Los Angeles. Herta também não quis, estava plena com sua cachacinha. Matuto pegou o baseado e seguiu contando sobre um barco que havia afundado na região, na baía de Chacororé, no século XVIII. A embarcação ficou famosa porque os moradores do local juram que, em noites de lua cheia, a popa sobe para a superfície e dá para ouvir as vozes e risadas dos tripulantes. É lenda, Felipe disse. Matuto retrucou: pode ser, mas o barco existe. Ele acompanhou um grupo de mergulhadores lá embaixo, viu com os próprios olhos. A estrutura toda corroída, fazendo o barco parecer um castelo de outro mundo, e os peixes dando vida a tudo, brotando de cada janela, de cada buraquinho. Fitei Yara com o rabo do olho. Estava de cócoras, com a boca entreaberta, como uma criança que espera a próxima página de um livro. Herta também estava atenta, tive a sensação estranha de que entendia tudo. Matuto passou o baseado para Felipe, que lhe perguntou sobre os ruídos lá embaixo. Nessa hora um cachorro apareceu e se acomodou ao lado da Yara. Ela começou a acariciá-lo. Você já veio pra cá antes?, falei. Ela deu aquele sorriso malicioso. Por que a pergunta? Você conhece até o cachorro. Ela gargalhou. Nunca vi essa criatura. Mas, sim, eu já vim pra cá várias vezes, disse. Depois sentou-se, virada na minha direção. Me contou que falava bem português e conhecia bem o Brasil porque sua mãe era brasileira. E também porque seu pai era um especialista em jacarés, vinha muito para cá estudar o Caiman, que é o nome científico do Bruce Willis, o jacaré do Pantanal. Contou que a vida do pai era esse bicho, enquanto a humanidade vive fugindo deles, ela e o pai passaram a vida andando atrás de jacarés. Por isso moraram na Flórida, na Austrália, no Egito, na Tanzânia e em Corumbá, onde o pai fazia pesquisa. Agora tô entendendo a sua amizade com aquele jacaré, eu disse. Jacaroa, me corrigiu. E então me contou que aquela não era uma jacaroa qualquer. Era a CAI-3, assim chamada por ser a terceira Caiman registrada no estudo do pai, trinta e um anos antes, perto da época em que Yara nasceu. Na ocasião, a CAI-3 também era um bebê, subia no pé do pai, ficava mordiscando os dedos dele. Seu pai acompanhou-a quase diariamente até ela ficar com um metro e vinte, e desse período Yara tem uma certa lembrança, o pai fazia cosquinha embaixo da boca da CAI-3 e ela fechava os olhos. Eles voltaram para Las Cruces, e quando vieram outra vez para o Pantanal, a CAI-3 já era uma moça de um metro e oitenta e o pai nem pensou em fazer cosquinha nela, pois perderia os dedos, mas seguiu cuidando dela como se fosse uma filha. Ou um amuleto. Porque os outros jacarés do projeto iam morrendo, predados por outros animais ou por doenças, e a CAI-3 seguia firme e forte, e tomando agulhada. Grande parte da gratidão do pai à CAI-3 vinha da quantidade de teses que ele conseguiu elaborar com amostragens dela. Claro que nem sempre era fácil. Teve uma vez que a CAI-3 devia estar de TPM, Yara disse, porque o pai a tirou da água, fez um ultrassom, e antes que arrancassem o elástico da sua boca, a jacaré saiu andando. Isso era um problema, porque se a CAI-3 voltasse para a água com a boca amarrada, não conseguiria comer e morreria. Então ela saiu correndo e sentou em cima da Caiman — eles sempre fazem isso quando querem imobilizar o animal —, mas a CAI-3 reagiu. Virou-se e prensou Yara contra a caminhonete. Nessa hora ela ouviu um clec, era seu osso quebrando. Depois de contar isso, pegou a minha mão, colocou por baixo da gola da sua camiseta e deslizou meus dedos até seu ombro, onde havia um calombo ósseo, que ela me fez tocar devagar, enquanto olhava para mim. Senti o meu corpo amolecer. Até que puxei os dedos.

Yara prosseguiu contando que no ano anterior seu pai fora diagnosticado com câncer. Mesmo debilitado, quis voltar ao Pantanal para fazer sua last dance. Foi assim que ele disse: it’s gonna be our last dance. Porque da mesma forma como ele estava velho, a CAI-3 também estava. Muito provavelmente seria o último dos quarenta, cinquenta encontros dos dois. Yara também veio, o pai já não estava nem andando direito, e foi bonito de ver. Para não terem que imobilizar a CAI-3, chegaram à noite, já que as lanternas na testa deixam o bicho sem reação. O pai tocou rapidamente a parceira, tinha esse barato de todo pesquisador, de sentir a textura, a temperatura do animal, e como Caiman não é poodle, logo deixou sua senhora em paz, e partiram. Yara olhou para longe, para um horizonte indivisável naquele momento, e continuou, contando que depois entendeu que o pai quis vir ao Pantanal também para se despedir da vida, para não passar seus últimos dias numa cama branca de um quarto branco de um prédio branco onde a maior representação da natureza era uma rosa arrancada da terra e metida numa garrafinha com água. E devia ser isso mesmo, o pai queria partir no calor das coisas vivas, porque assim que chegaram a Corumbá, ele morreu. Eu não soube o que dizer, mas acho que olhei para ela com carinho. Foi por isso que quis começar as gravações por aqui, falou. Achei que ia dar sorte. Bem nessa hora, meu celular tocou. Silenciei o aparelho e perguntei da mãe dela, onde a mãe estava esse tempo todo. Ela disse que a mãe desapareceu quando ela estava com dez anos. Foi fazer uma pesquisa numa tribo afastada no Peru e nunca mais voltou. O pai achava que ela havia sido morta por posseiros, mas Yara acha que está viva. Que quis desaparecer. E você?, me falou em seguida. Me conta mais um pouco de você. Meu celular tocou de novo e eu não pude ignorar, era o Matthew querendo fazer a nossa última call do dia. Pedi licença para Yara e o resto do grupo e me afastei para atendê-lo.

Quando cheguei ao alojamento, tudo estava em silêncio, a porta do quarto encostada. Empurrei-a com cuidado para não fazer barulho, calculei que talvez a equipe já estivesse dormindo. E parte estava. Felipe capotado no colchão mais próximo à porta e Herta a seu lado. Yara trocava de roupa, virada para a parede. Com certeza percebeu que eu entrei, a porta rangeu levemente, meus passos estalaram um pouco, mas ela não se virou na minha direção, nem interrompeu o que estava fazendo. A única coisa que senti foi que ela ralentou seus movimentos, tirando com languidez a camiseta e deixando que eu visse o perfil dos seus peitos enquanto se agachava para pegar outra camiseta, que vestiu com a mesma lentidão, até que o tecido solto e comprido cobriu os gomos da sua bunda. Então virou-se para mim e sussurrou: boa noite. Dei boa-noite e peguei minhas coisas para ir ao banheiro, eu não teria desenvoltura para me trocar na presença dela. Lá dentro, fiz os sei lá quantos rituais que preciso fazer para dormir, entre cremes e vitaminas, necessidades reais e manias. Quando voltei para o quarto, Yara também estava dormindo. Desliguei a luz, deitei no colchão que me cabia, entre ela e Herta, mas não consegui pregar o olho. Tateei meu nécessaire e apanhei um Rivotril.

Quando acordei, ainda zonza por causa do remédio, todos os colchões estavam vazios. Eram seis e quinze, o motorista já devia estar me esperando lá fora, tínhamos combinado de sair às seis, eu não podia perder o meu voo de maneira nenhuma. Enfiei a roupa de qualquer jeito, meti o que faltava na mala e saí toda descabelada, sem me despedir de ninguém.