Suíte Tóquio
Capítulo 9
Até no sonho criança deve ser mais livre do que adulto. Eu já cuidei de tantas, e todas se mexem do mesmo jeito quando estão dormindo, uma giração pra lá e pra cá, até que vão crescendo e ficando cada vez mais quietas, como se os sonhos aprendessem a caber no tamanho da cama. Ainda não é o caso da Cora, que deve estar sonhando que é bailarina, já rodou pra cima de mim, me deixando no cantinho da poltrona, e agora deve estar agradecendo ao público, porque se curvou para o outro lado, encostando o rosto na janela. Puxo seus ombrinhos de volta para o encosto, não suporto ver a minha Picochuca com a boca aberta para os germes do transporte coletivo. Pego o lenço umedecido pra limpar seu rosto. Agora não me incomodo tanto com isso, mas teve uma época que eu ficava quase louca, achava até que enxergava os micróbios, não o micróbio em si mas o grupo deles, e daí me limpava, limpava a Corinha, desinfetava tudo que via pela frente. Depois que o Lauro foi embora, parei com essa história e comecei a enxergar outras coisas, o grande e o pequeno. Até aquela época nunca tinha reparado, mas se olhar bem qualquer um vê, o mundo é cheio de pares de um graúdo e um pequeno. A flor e o broto. A casa da frente e a dos fundos. O prato e o pires. Os bichos e os filhotes. E as pessoas, o pior eram as pessoas. Em todas eu via o mundo de coisão com coisinho, e acho que via assim porque não enxergava isso em mim. E pra me lembrar que todo mês eu ia sangrar e seguir sendo sempre um graúdo sozinho, aquela pintura na parede, um banheiro todo sujo de sangue. Quando eu olhava, sentia até dor de barriga, porque pra mim o quadro era uma anunciação. Tuas regras vão vir de novo, Maju. Tu vai morrer sozinha.
E daí eu me lembrava da outra chance que eu tive, do menininho da Neide. Ela me ofereceu o bebê tantas vezes. Desde que ficou sabendo que estava grávida, a safada. Porque essa era safada mesmo. Eu já conheci ela na safadagem, na praça Buenos Aires, no meio do exército branco, a única diferente, cuidando de uma criança e lendo um livro. Eu reparei porque também gosto de ler, passei bem devagarzinho na frente dela pra ver a capa, Coleção Paixões Picantes. Acabamos ficando amigas e descobri que gostávamos da mesma coisa, de ler histórias de amor, só que eu preferia os livros normais e ela os que tinham a pimenta dedo-de-moça embaixo do título. A Neide era assim na leitura e em todo o resto. Vai ver por isso eu gostei tanto dela. Enquanto as outras babás ficavam competindo, contando que tal criança já estava na bilíngue, tal criança tinha ido esquiar nas férias de julho, como se o filho fosse das coitadas e não da patroa, a Neide só queria saber de fazer amor. Era olhar pra Neide e batata, ou estava lendo ou rebolando com o filho da patroa na frente dos porteiros. Um dia até falei pra ela: ô Neide, essa criança não reclama de gastar tanta sola na frente da portaria do Maison Blanche? O menino devia achar que tinha algum tesouro enterrado ali, de tanto que palmilhavam a calçada na frente do prédio. Nessa época, ela já tinha a Raquelly, a menina estava com sete anos. Foi a primeira gravidez da Neide, de um pedreiro que se mandou para o Nordeste quando a barriga dela ainda estava pequena. Coitada da minha amiga, disse que tremia quando foi contar da gravidez pra dona Andreia. E daí a surpresa, ela disse que a Neide podia seguir no serviço. Que ia botar a outra empregada, que dividia o quarto com ela, pra trabalhar só de dia, dando espaço para o bebê. Desde que a Neide compensasse a falta da outra, claro, porque a dona Andreia não tinha as duas dentro de casa dia e noite à toa. Se bem que eu acho que era meio à toa, quem é que precisa de duas empregadas de madrugada? A dona Andreia, a mesma que precisava de uma empregada na borda da piscina segurando sua caipirinha pra não correr o risco de alguma criança derrubar — e não pela criança, pela bebida. Cansei de ver isso no clube, um sol de arrancar o couro e a Neide de pé do lado da borda com a caipirinha na mão, só esperando a sardenta esticar a cabeça pra fora e chupar o canudo. Eu achava um absurdo, mas não podia falar nada pra Neide, Deus o livre alguém falar mal da patroa dela. Mas daí veio a outra gravidez, do Renan do Maison Blanche. A Neide veio me procurar com o teste de farmácia, o sinalzinho de + no marcador. Lembro que falei: ô mulher burra, e dei um tapa nas costas dela, e logo depois um abraço, porque a bicha estava chorando de chacoalhar os ombros. A Neide tinha certeza de que era do Renan, mas ele dizia que não, e que era melhor que não fosse mesmo, porque ele era casado, pai de três filhos, ai dela se aparecesse com um bastardo pra estragar a família dele. A Neide entrou em pânico, porque claro que a dona Andreia não ia aceitar mais um filho dela dentro de casa. Ela teria que arrumar outro emprego, ir morar no Capão, deixar alguma vizinha olhando os filhos. Mas daí começou a pensar na Raquelly, em como aquela mudança ia afetar a vida da menina. Ela ia sair da escola particular que a dona Andreia pagava, ficar sozinha em casa cuidando de um bebê, com oito anos cuidando de um bebê, e longe dos olhos da Neide. Dava pra apostar que com doze já estaria biscateando por aí, macieira não dá pera. Então a Neide decidiu que era melhor ter um filho direito do que dois tortos. Daria o bebê pra alguém. Como ela não tem família, só uns primos distantes lá no Espírito Santo, ofereceu pra mim, mas eu não quis, na época estava tentando ter o meu Laurinho. Daí começa uma história desgraçada, porque a Neide achou melhor esconder a gravidez. No começo foi tranquilo, porque ela usava um guarda-pó branco, a barriga ia bem assentadinha debaixo do bolso, mas depois a Neide começou a engordar, não só por causa da gravidez, mas porque cada dia que passava era um dia mais perto de entregar o menino, e ela parecia um pino solto, segunda-feira escolhendo nome, Rodrigo, Brian, Marcelo, terça pesquisando um lugar onde pudesse deixar o bebê assim que parisse. E nesse tempo todo comendo paçoca, de nervoso. Teve que inventar pra dona Andreia que estava com um problema hormonal, aquele que deixa a glândula preguiçosa. Pra Raquelly, que via ela pelada, disse que o barrigão era por causa da doença, e que seu choro toda noite na cama era de dor. Mas criança sabe tudo, diz que à noite a Raquelly passava a mão na melancia dela e chorava também, sem abrir o bico.
Chegou o dia e as contrações começaram, em torno das dez da manhã. A Neide queria ir pra Santa Casa, mas a outra empregada tinha saído de férias e ela estava sozinha com as crianças, precisava dar o almoço e botar elas na perua. Quando a perua arrancou, dez para a uma, a Neide já estava suando de dor e percebeu que não ia dar tempo de chegar em lugar nenhum. Deitou no chão da área de serviço e pariu ali mesmo, cortando o cordão com uma tesoura de costura. Como pretendia abandonar o bebê na maternidade, não sabia o que fazer, e não tinha tanto tempo para pensar, porque a dona Andreia chegaria com as crianças às sete da noite. Nesse meio-tempo ela me ligou perguntando se eu não queria mesmo ficar com o menino. Depois ficou esperando a dor do parto aliviar. Quando se sentiu um pouco melhor, começou a arrumar as coisas. Deu um banho no menino, vestiu um macacão nele, prendeu uma chupeta na gola. Tirou o pouco de leite que conseguiu e colocou numa mamadeira. Em seguida foi atrás de uma sacola. Queria a mais fina que encontrasse, não no sentido de finura, as de plástico não serviam, eram moles demais, mas no sentido de fineza, de dar para o filho o melhor na única chance que teria de dar alguma coisa pra ele. Dispensou as de supermercado, as de padaria, as pequenas demais, as compridas demais, as que tinham cheiro, as que tinham sujeira, as com estampa de menina, as de alças de papel, uma que era boa mas nela estava escrito Ricardo Almeida e podia fazer pensar que esse era o nome do bebê, até chegar na ideal: larga, de papel duro, base com forro duplo, alça de corda, um desenho bonito e uma coisa escrita em inglês.
Ficou com o bebê até o último minuto que pôde. Depois desceu pelo elevador com a sacola cheia, fraldas e mamadeira junto. Com a cabeça baixa, passou pelo porteiro, pela portaria, andou dois quarteirões até chegar na rua Rio de Janeiro e ali deixou a sacola, debaixo de uma árvore. Depois caminhou um pouco e ficou entre um arbusto e um banco, não ia embora enquanto não visse alguém pegar o menino. Uns dez minutos mais tarde passou um homem que reparou na sacola, talvez o bebê tivesse feito barulho, a Neide não sabe, de longe não dava pra ouvir. O homem se agachou, olhou lá dentro, pegou a sacola segurando na parte de baixo, o que a Neide achou bom, coisa de gente cuidadosa.
Às nove horas, estava tirando a mesa do jantar quando viu na televisão. Não podia acreditar, era ela no Jornal Nacional. A imagem de uma câmera da Rio de Janeiro mostrava a Neide caminhando de cabeça baixa com a sacola. Depois um policial mostrava o menino enrolado numa manta e uma repórter falava coisas que ela não entendeu, porque estava nervosa e também prestando atenção no filho, tentando ver se ele não estava assustado com tudo aquilo. Nessa noite foi Neide quem pediu pra dormir na cama da Raquelly.
Nos dias seguintes, minha amiga andou de cabeça baixa pelo bairro, pra se esconder das câmeras e pra esconder o choro. Achou que o pior já tinha passado, e talvez já tivesse mesmo, mas problema também vem em dupla de pequeno e graúdo, e quatro dias depois, quando estava passando de novo pela rua Rio de Janeiro, a Neidinha viu dois guardas na calçada, olhando pra ela. Logo um deles se aproximou e meteu as algemas, dizendo que estava sendo presa por crime de abandono de menor. Falaram que descobriram olhando as câmeras, reparando que nos dias anteriores ela tinha passado de cabeça baixa pela Rio de Janeiro, um comportamento estranho e igual ao da mãe que abandonou o bebê. Na delegacia, ela descobriu que o menino tinha sido encaminhado para o Conselho Tutelar, enquanto ela foi encaminhada pra jaula, onde ficou por dois dias. Quando saiu, a calçada estava coalhada de enxeridos e repórteres, um povo gritando: sua desnaturada, por que você fez isso? A Neide disse que pensou no Renan, no Renan jogando sudoku na tranquilidade da portaria. E sem saber direito o que responder, só gritou: desespero, desespero.
Depois que o Lauro foi embora, pensei várias vezes nessa história. Me arrependi de não ter pegado o menino, pensava que teria sido melhor para mim, pra ele, pra Neide. Mas agora, olhando a Cora do meu lado, acho que foi melhor assim. Se tivesse pegado o menino, eu não estaria aqui passando a mão nos cabelos da minha Picochuca, voltando pra Mandaguaçu e me sentindo feliz como uma criança que ainda não cabe na cama.