Suíte Tóquio

Giovana Madalosso · Capítulo 16 de 38

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Suíte Tóquio

Capítulo 16

 

Estava tomando café da manhã com a Cora quando o telefone tocou. Era Anthony, produtor executivo do nosso canal em Londres. Me disse que estavam fazendo um programa sobre epidemias e souberam que a febre amarela voltara a atacar no Brasil, será que eu não poderia captar algumas imagens para eles? Dei a única resposta que podia e desliguei. O pedido londrino me despertou para uma questão doméstica. Chamei a Maju, perguntei a ela se Cora tinha tomado a vacina. Disse que não, tinha tentado dar no posto de saúde e na clínica particular, mas as vacinas estavam esgotadas em todos os lugares, ela já tinha me avisado disso. Eu não lembrava, devia estar com a cabeça no trabalho ou nas dobras da Yara. Por que não avisou o Cacá? Porque ele já tava no Rio, falou, e fiquei irritada com o meu marido e sua preguiça totêmica. Morava em São Paulo fazia quase vinte anos e ainda não havia se dignado a arranjar médicos aqui, voltava a sua cidade natal até para resolver unha encravada. E além disso naquele momento tínhamos um problema, porque a minha ilha de edição já começava a funcionar, organizando as cenas de um trailer catastrófico.

CENA 1 — CASA — NOITE

Mãe chega e encontra filha deitada no sofá. A menina está

amarelada, suando. A mãe tira a temperatura. Olha assustada

o termômetro.

CENA 2 — HOSPITAL — NOITE

A menina está numa maca, ainda mais amarela, ainda mais

abatida. O médico olha para os pais e sacode a cabeça com

expressão de pesar.

CENA 3 — CEMITÉRIO — DIA

A menina está dentro de um caixão branco. As pessoas vão

passando em fila para vê-la. A avó materna chora, depois

aproxima-se da mãe e em vez de abraçá-la, desfere-lhe um

tapa na cara. A avó paterna faz a mesma coisa.

Aprendi num dos nossos documentários que o cérebro não distingue uma situação imaginada de uma vivida. Portanto, toda mãe já viveu a morte do filho e a dor consequente, em pesadelos ou devaneios diurnos, por segundos, minutos, quiçá horas. O que torna a vida suportável é a mescla de projeções boas e ruins que fazemos, um relativo equilíbrio.

Ainda sentada à mesa, lembrei de uma parlenda que havia sido transformada em cantiga. Ouvimos num teatro quando Cora tinha seis meses, o palco repleto de violões, xilofones e vozes, a banda tocando para uma plateia de mães de primeira ou segunda viagem, todas levantando seus bebês para bater palminhas ao som da letra que começava:

Eram dez, os sacizinhos.

Um ficou imóvel e nunca mais se moveu,

e sobraram nove.

Eram nove, os sacizinhos.

Um comeu biscoito, o biscoito estava velho,

e sobraram oito.

Eram oito, os sacizinhos.

Um foi de charrete, a charrete emborcou,

e sobraram sete.

Eram sete, os sacizinhos.

Um foi contra as leis e teve que fugir,

e sobraram seis.

Eram seis, os sacizinhos.

Um colocou um brinco, estava enferrujado,

e sobraram cinco.

Eram cinco, os sacizinhos.

Um foi ao teatro, o teatro pegou fogo,

e sobraram quatro.

Eram quatro, os sacizinhos.

Um foi pro xadrez e não conseguiu se safar,

e sobraram três.

Eram três, os sacizinhos.

Um comeu arroz, o arroz estava mofado,

e sobraram dois.

Eram dois, os sacizinhos.

Um ficou de jejum, o jejum foi demasiado,

e sobrou um.

Sobrou um só sacizinho.

Comeu urucum, urucum não é comida,

e não sobrou nenhum.

Que letra otimista, pensei na ocasião, olhando para o lado e percebendo o mesmo desconforto que eu sentia nas outras mães, todas investigando as tarraxas dos brincos, conferindo se havia saída de emergência no teatro em caso de incêndio, e batendo palmas. Viva, oba, muitas palmas, porque nessa fase a mãe acredita que até seu desânimo pode vitimar uma criança.

Desde esse dia, toda vez que eu sentia medo, criava algum verso cretino para espairecer. Naquela sexta-feira, cantarolei:

Eram nove, os sacizinhos.

Um não tomou vacina porque sua mãe só pensava em molhar

o biscoito,

e sobraram oito.

Em seguida comecei a ligar para todas as clínicas e postos de saúde, pondo a minha secretária para fazer a mesma coisa. Nada, não tinha sobrado sequer uma dose fracionada, nem no Tatuapé. Lembrei do grupo da escola. Pedi para o Cacá consultá-lo. Ele foi prestativo como sempre, em cinco minutos já mandou a resposta. A vacina estava de fato esgotada, mas uma das mães descobriu que uma loja da Renault em Santo André estava dando a vacina para famílias que fizessem um test drive.

Desmarquei todas as reuniões que teria naquela manhã e botei Cora e Maju no banco de trás do carro, rumo à cidade vizinha. Cora estava tensa, tinha medo de vacina. Maju tentou consolá-la, dizendo em algum momento para ela não ter medo, para confiar em Deus. Senti inveja dos crentes, da bengala que usavam para atravessar a vida. Talvez por isso eu nunca tenha achado ruim o papo carola que a Maju jogava para cima da Cora, se fazia bem para a nossa babá, talvez fizesse bem para a minha filha, e de qualquer forma eu e minha pobreza ateísta não tínhamos nada melhor a oferecer. Mas, de repente, uma curiosidade me picou. Perguntei: filha, o que é Deus? O farol estava fechado, pude olhar para trás e vê-la pensando, o dedinho na boca, os olhos girando como se de fato procurassem a resposta dentro dos gavetões infinitos da consciência. Deus é o amor com barba comprida, por fim disse.

Depois deixei as duas conversando e voltei para o meu mundo de barba curta, ligando o viva-voz para correr atrás de uma equipe que filmasse as imagens para o Anthony. Quando chegamos à concessionária, eu já tinha resolvido esse e outros problemas, estava pronta para a encenação. Disse para Maju e Cora não darem bandeira, para não irem direto até o estande onde uma moça de jaleco aplicava vacinas sob a faixa: “acelerando contra a febre amarela”. Manteríamos a elegância e garantiríamos a nossa dose fingindo um interesse genuíno pelo carro. Mas foi só avançarmos um pouco pela concessionária que Cora começou a chorar e a gritar: vacina não. Já que não dava mais para negar, resolvi falar para o vendedor que havia tempos queria testar um carro, e como minha filha precisava da vacina, achei que aquele era o momento. Percebi seus olhos na minha bolsa, na chave do carro que eu trazia na mão, na Maju atrás de mim com sua roupa branca. Como bom vendedor, deve ter visto alguma possibilidade tilintando. Abriu um sorriso e perguntou: qual modelo? Apontei para o que estava à minha esquerda.

Embarcamos todos no carro. Um quarteto improvável que só avançava por uma rua sorumbática de Santo André naquele exato instante porque um dia surgiu um arbovírus que encontrou um mosquito de nome Aedes aegypti que se proliferava numa região tropical que picou milhares de pessoas e gerou uma corrida por vacinas num país de saúde sucateada onde os recursos escasseiam e algumas mães são negligentes a ponto de serem as últimas a saber. Mas lá estava eu pagando o meu pecado, ouvindo sobre o motor, os sensores, sobre algo que até achei bacana, um farol que percebe outro carro na direção oposta e desvia automaticamente seu feixe de luz. Acho que o vendedor sacou que eu ouvia tudo como um viciado em heroína, só esperando a hora da picada, porque nem se preocupou em ir longe, logo deu as coordenadas para voltarmos à concessionária, para o desgosto de Cora, que àquela altura já assistia a um desenho no monitor traseiro. Ainda assim, ao chegarmos, ele me trouxe a tabela com as condições de pagamento, e eu o despistei, dizendo que discutiria as condições com meu marido e daria uma resposta depois, enquanto já ia encaminhando Cora para o estande de vacinação.

Nisso, uma mulher entrou na concessionária. Me chamou a atenção pela humildade, não só as roupas eram muito simples, como havia nela algo que excedia o físico, uma vergonha de estar no mundo que eu já tinha visto em outras pessoas, inclusive na Maju. Usava chinelos, os cabelos grisalhos presos num coque, trazia uma sacola a tiracolo. E em cada mão segurava um menino, gêmeos idênticos de uns quatro ou cinco anos. Na falta de outro funcionário, o vendedor recebeu a mulher. Olhou-a da mesma forma como me olhara, e já sabia tudo, assim como eu já sabia. Tanto que nem foi simpático, só perguntou o que ela queria. Testar um carro, respondeu. E ele: a senhora tem carteira de motorista? A mulher ficou em silêncio. A senhora não pode testar o carro sem habilitação. Eu não posso conhecer o carro aqui dentro?, ela perguntou. Até pode, ele disse, mas pra que conhecer um carro que a senhora nunca vai dirigir? A mulher olhou para baixo, para seus pés nos chinelos. Depois levantou a cabeça: o que eu posso fazer pra eles ganharem a vacina? A vacina é só pra quem faz o test drive, são regras da concessionária, ele respondeu, impaciente. Por favor, ela disse. E tive a impressão de que se eu não estivesse ali, ele varreria o trio para fora naquele instante. Mas eu estava, e o vendedor me olhou, preocupado com a imagem que eu estava fazendo dele. E claro que não era boa, tanto que o fitei de um jeito duro, como olho para os meus subalternos quando fazem alguma merda. Ele se voltou para a mulher e disse: vou disponibilizar uma vacina pra vocês, mas só uma, porque senão pode faltar para os nossos clientes. A senhora escolhe qual dos meninos quer vacinar. Fiquei boba com a saída que aquele babaca tinha encontrado, uma solução que conseguia ser ainda pior do que o problema inicial. E assim como eu, que não saberia o que fazer, a mulher também não sabia, olhou para um menino, para o outro, a angústia crescendo, as mãos mastigando as alças da sacola. Foi então que me ouvi dizendo: vou levar o carro. Fiquei perplexa comigo mesma, a decisão não saíra da minha cabeça, tinha vindo de algum outro lugar, e com tanta força que segui em frente. Vamos ver os valores enquanto eles tomam a vacina?, eu disse, apontando para os meninos e para Cora. Claro, o vendedor respondeu, e foi todo lépido avisar a moça de jaleco branco que podia vacinar todos nós, incluindo a avó dos meninos.

Depois me conduziu até a mesa, puxou uma cadeira para mim. Enquanto ele me mostrava as opções de pagamento, pensei no que estava fazendo, o que tinha dado em mim para comprar um carro por impulso. Talvez isso coubesse na trajetória de uma milionária ou de uma executiva impulsiva, só que eu não era nem uma coisa nem outra. Ainda dava tempo de voltar atrás, mas eu não queria, e era justamente essa convicção que me intrigava. Não sou uma santa, não estava comprando o carro para salvar a pele dos gêmeos ou apaziguar a angústia de sua suposta avó. Tinha me comovido com a situação, claro, mas daí a arreganhar a carteira por eles era outra história. Enquanto tomava o café morno da concessionária, pensei que estava comprando porque precisava, porque o nosso carro, que era mais usado pelo Cacá, já tinha quase dez anos e estava surrado, além disso seria melhor pegar a estrada para o sítio com o Renault, Cora não encheria o saco perguntando: falta muito?, a cada quilômetro, se distrairia com a tela. Essa era a versão que o meu ego, sempre tão desenvolto, havia criado, e eu a comprei, assim como comprei o carro, parcelando em dez vezes, já que ainda estava dura por causa da tela da Varejão. Só uns dias depois, quando entreguei a chave do carro para o Cacá, entendi quem havia feito a compra: a minha culpa. Essa tirana que volta e meia se erguia e se sentava no trono da minha mente, ardilosa e dissimulada a ponto de agir sem que eu me desse conta. Perceber a culpa era um bom caminho para constrangê-la e tirá-la do posto de rainha louca, mas naquele momento era tarde demais, o carro fora comprado e Cacá já vibrava com o sei lá o que do motor, com os bancos de couro marrom que lhe lembravam o sofá da casa da mãe. Confesso que dar de comer à culpa me proporcionou um certo prazer, a rainha cria a fome, mas também se refestela no seu saciamento, me senti bem em dar aquela alegria ao Cacá, e esse prazer também vinha da sensação de que eu era uma boa esposa. Uma esposinha maravilhosa. E como prêmio teria direito a mais uma escapadela com a minha amante.

Mas isso tudo foi depois, naquele momento eu ainda estava cega preenchendo o formulário, ouvindo o vendedor perguntar se eu também não queria tomar a vacina. Ia dizer que não, não sei por que sempre me senti blindada contra tudo, devia ter um corpo frio ou um sangue com gosto de Angostura, porque os mosquitos nunca me picavam, chegava a ser humilhante aquela recusa em me beber ainda que eu fosse a única pessoa numa varanda numa noite de verão, mas então me ocorreu que talvez eu viajasse para o Acre, que talvez lá os mosquitos não fossem tão seletivos quanto os insetos mimados pela variedade de sangues da metrópole. E estando no papel de traidora do marido, não pegaria bem chegar em casa transferida de um hospital amazônico com febre e hemorragia amorosa. Portanto, lá fui eu, tomar a vacina. Maju e a avó dos meninos conversavam. Na sociedade os iguais se atraem. As duas já trocavam suas humildades mútuas. Talvez pela primeira vez vi Maju me olhar com afeto. A senhora também me olhava da mesma forma, levantou-se e beijou a minha mão. Depois disso, ela e os dois meninos foram embora, a moça de jaleco branco arregaçou a manga da minha camisa e tomei a vacina, ouvindo minha filha se esganiçar por causa da sua.

Levei Cora e Maju para casa e segui em direção ao canal, preocupada em ver o material que a equipe havia captado para o Anthony. Esse é outro nó bem dado pelo capitalismo: ao realizar um desejo de compra, você reforça a sensação de dependência do seu trabalho. Em pouco tempo eu entrava na ilha de edição e conversava com o cinegrafista. Me contou que captaram as imagens na serra da Cantareira. Era lá que se concentrava a maioria dos casos de febre amarela confirmados no estado, cerca de cento e sessenta. Mais que pessoas, o Aedes tinha vitimado animais. Setecentos e poucos macacos já tinham morrido da doença naquela área. A população começou a achar que a culpa da epidemia era dos bugios, porque de fato o mosquito pode pegar o vírus de um macaco infectado e transmitir para outro macaco ou para uma pessoa. Mas eliminar os primatas era uma bobagem, o cinegrafista me explicou, quem tem que ser eliminado é o transmissor, os macacos também eram vítimas e, de certa forma, nossos aliados, porque quando começavam a morrer, a despencar duros das árvores, funcionavam como um aviso de que havia muitos mosquitos na região. Mas ninguém entende isso, completou, alertando-me sobre as cenas grotescas que veria a seguir.

Soltou as imagens. No início, tudo parece tranquilo. Macacos pulam calmamente entre as árvores, um deles em close come uma fruta. De repente, começa o barulho. Vozes gritando coisas que não dá para entender. A câmera mostra um grupo de pessoas se aproximando dos macacos, a maioria mulheres. Uma delas se abaixa e pega uma pedra. Dá para ver que espera alguns segundos, olha em volta, como se buscasse aprovação. É um segundo tenso, uma suspensão narrativa, eu esperando que a grávida ao lado dela freie a sua mão prestes a atacar. Mas não é o que acontece. A grávida estica o braço para a frente como um general que ordena fogo. Encorajada, a mulher arremessa a pedra na direção dos macacos. Por sorte, sua mira é péssima. A pedra bate num tronco e cai, rolando pelo chão. Mas a guerra está declarada. Outras pessoas se agacham, pegam pedriscos, jogam nos bugios. A câmera capta uma mão com unhas pintadas escolhendo a maior pedra, sopesando-a. E atirando em câmera lenta. É como se o cinegrafista tivesse farejado a melhor cena, um corpo flácido de mãe de meia-idade externando seu medo e quem sabe frustrações num único movimento, a dor esculpindo subitamente uma atleta, o joelho flexionado, o dorso para trás, o braço em arco. A pedra voando e acertando em cheio a cabeça de um macaco que corria já assustado entre as árvores. O coitado cai, o sangue escorre por sua cabeça, por suas narinas. É muita barbárie, ouvi o cinegrafista falar. E pensei a mesma coisa, até me dar conta de que eu não era diferente daquelas mulheres. Também tinha começado aquele dia amedrontada, disposta a qualquer coisa para preservar a minha cria. A diferença é que eu havia sido educada e informada. Tinha dinheiro para entrar numa concessionária, fazer um test drive que dava direito a uma vacina. Lá estavam as mães abandonadas havia muito pelo sistema. Mais primitivas do que os próprios bugios, já que é receber e dar amparo que nos torna humanos — embora o termo “humano” não fizesse sentido algum naquele momento.

O bugio acaba sendo morto a pedradas, ao som de gritos que reconheci como de justiça. Não está incrível esse material?, o cinegrafista me perguntou. Balancei afirmativamente a cabeça, sentindo algo que já sentira tantas vezes, uma mistura de satisfação e tristeza por ter imagens tão chocantes.